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Teoria, Linguagem e Crítica – 56a. Edição – Curitiba

postado em by Pablo Villaça em cinemaemcena, Curso, Sem categoria | 2 comentários

Logo no primeiro dia de aula, ganhei vinho e bombons. E a coisa só melhorou a partir daí.

Então, como podem imaginar, a semana com a turma em Curitiba foi excepcional: não apenas eram pessoas calorosas (e, sim, sei que esta não é a fama do curitibano, mas é o que aconteceu comigo) e divertidas, mas também extremamente participativas. Insights instigantes foram oferecidos pelos alunos, correções foram feitas sem o menor pudor (quando comentei “O Superman me incomoda por ser indestrutível. Quem pode vencê-lo?”, recebi imediatamente várias respostas apontando meu erro) e, de quebra, vivenciei algumas surpresas agradáveis nesta cidade que acho tão maravilhosa.

(Aliás, foi uma viagem tão produtiva que acabei publicando críticas todos os dias – e atribuirei parte da febre produtiva à turma.)

Como de hábito, entreguei um formulário ao final do curso para que os alunos comentassem e atribuíssem “pontos” à experiência, que incluía os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível). As notas das edições anteriores: 4,38 (quinquagésima-quinta); 4,40 (quinquagésima-quarta);  4,45 (quinquagésima-terceira);  4,43 (quinquagésima-segunda); 4,29 (quinquagésima-primeira); 4,44 (quinquagésima); 4,66 (quadragésima nona); 4,33 (quadragésima oitava); 4,48 (quadragésima sétima); 4,50 (quadragésima sexta); 4,56 (quadragésima quinta), 4,62 (quadragésima quarta), 4,51 (quadragésima terceira), 4,37 (quadragésima segunda), 4,39 (quadragésima primeira), 4,75 (quadragésima), 4,67 (Trigésima nona), 4,61 (Trigésima oitava), 4,62 (Trigésima sétima), 4,7 (Trigésima sexta), 4,53 (Trigésima quinta), 4,44 (Trigésima quarta), 4,58 (Trigésima terceira), 4,62 (Trigésima segunda), 4,54 (Trigésima primeira), 4,44 (Trigésima), 4,65 e 4,63 (Vigésima nona – Tarde e Noite), 4,49 e 4,47 (Vigésima oitava – Tarde e Noite), 4,48 (Vigésima sétima), 4,73 (Vigésima sexta), 4,51 (Vigésima quinta), 4,62 (Vigésima quarta), 4,57 (Vigésima terceira), 4,71 (Vigésima segunda), 4,64 (Vigésima primeira), 4,62 (Vigésima), 4,68 (Décima nona), 4,58 (Décima oitava), 4,20 (Décima sétima), 4,40 (Décima sexta), 4,62 (Décima quinta), 4,57 (Décima quarta), 4,47 (Décima terceira), 4,57 (Décima segunda), 4,76 (Décima primeira), 4,22 (Décima), 4,33 (Nona), 4,45 (Oitava), 4,07 (Sétima), 4,44 (Sexta) e 4,27 (Quinta). Estas avaliações incluem os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível).

As médias das notas foram:
Infra-estrutura: 3,67 
Conteúdo: 4,80
Didática: 4,85
Estrutura do curso: 4,61

Média geral: 4,48

Sem considerar o auditório, levando em conta apenas o curso em si, a média seria 4,75.

Para concluir, a foto tradicional de formatura:

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37a. Mostra de São Paulo

postado em by Pablo Villaça em Sem categoria | 1 comente

Durante o Festival do Rio, escrevi sobre todos os 57 filmes aos quais assisti. Como resultado, cheguei exaurido física e psicologicamente ao final do evento. Como a Mostra de São Paulo começou logo em seguida (graças ao Rock’n Rio, que adiou o início do festival na capital carioca), mal tive tempo de me recuperar. Assim, decidi que iria “curtir” a Mostra sem me preocupar em escrever – e acabei assistindo a seis filmes a mais mesmo perdendo o último dia do evento, já que retornei a BH mais cedo por não aguentar mais as saudades dos filhotes.

Fiz anotações sobre os filmes que deverão entrar em cartaz, porém, e deverei escrever sobre eles eventualmente.

Abaixo, os brevíssimos comentários que fiz no Twitter sobre cada um dos longas vistos.

1) Os Sub-Humanos – Só a emocionante imagem dos chimpanzés celebrando sua pequena liberdade já vale o filme. 3/5

2) Escudo de Palha Eu já deveria ter desistido de Takashi Miike há muito tempo. Ou, no mínimo, desde Ninja Kids. 1/5

3) Programa Eduardo Coutinho 2 – Três trabalhos que deixam clara a principal característica do Cinema do mestre: a empatia. 4/5

4) Metamorfose – A fotografia é belíssima – pena que é quase impossível permanecer acordado para apreciá-la. 1/5

5) Manakamana – Um curioso doc construído a partir da simples observação de seus peregrinos. 4/5

6) O Garoto que Comia Alpiste – Angustiante estudo de personagem, traz uma atuação central corajosa. 4/5

7) Melaza – A cidade quase fantasma é um personagem tão importante quanto os humanos. 3/5

8) Confissão de Assassinato – Ótimas sequências de ação em um filme com trama interessante. 4/5

9) Preso na Internet – Apesar de alguns momentos de maior melodrama e de se esquecer do tema principal, é envolvente e inteligente. 4/5

10) Olhos Frios – Um pouco longo, mas divertido ao acompanhar os policiais aparentemente mais bem equipados do mundo. 3/5

11) Run & Jump – Um drama que torna leve uma situação pesada, mas que é simpático e traz boas atuações. 3/5

12) Lições de Harmonia – Uma narrativa minimalista, bressoniana, em um filme triste e angustiante. 4/5

13) O Grande Mestre – Esteticamente magnífico (claro: Wong Kar Wai), mas sem foco narrativo. 3/5

14) Uma Família em Tóquio – Um filme gentil sobre personagens doces, faz jus ao original. 4/5

15) Nascido para Matar – A feiúra da guerra num clássico moderno. 5/5

16) Círculos – Drama eficiente sobre personagens decentes destruídos por uma tragédia. 4/5

17) Dezembro – Bonitinho, mas tecnica e narrativamente precário. 2/5

18) Até Ver a Luz – Simultaneamente engraçado e sufocante, se beneficia dos rostos marcantes de seu elenco de não-atores. 4/

19) Uma Vida Comum – Estudo de personagem simples, comovente e com uma trilha linda. 5/5

20) O Que os Homens Falam – Uma antologia que por vezes soa teatral, mas que é divertida e tem ótimo elenco. 4/5

21) Omar – Candidato palestino ao Oscar, oscila bem entre o drama e o thriller, revelando-se tenso e bem construído. 5/5

22) Paradjanov – Candidato da Ucrânia ao Oscar, é uma cinebiografia inventiva e com uma atuação central espetacular. 5/5

23) Morro dos Prazeres – Um recorte complexo e intimista que demonstra a abordagem sensível da cineasta. 4/5

24) Miss Violence – Putaqueopariu. Vou voltar pro hotel e cortar os pulsos. 5/5

25) Amanhã é Distante – Desorganizado, desinteressante e deschatopracaralho. Pelo menos tem só 70 minutos. 1/5

26) Solo – A narrativa transforma o título do filme em uma metáfora tocante neste belo estudo de personagem uruguaio. 4/5

27) A Bala Desaparecida – Um Sherlock Holmes chinês que, tolo e divertido, poderia facilmente virar franquia. 4/5

28) Babilonia 2000 -Uma colagem humanista de sonhos, frustrações, tristezas, esperanças (e des) e experiências. Coutinho, né? 5/5

29) A Montanha Matterhorn – O que começa como uma comédia de situação eventualmente se revela um belíssimo libelo contra a intolerância. 5/5

30) Ilo Ilo – Eu prefiro a família de Miss Violence. Mas tem seus momentos. 2/5

31) Meu Cachorro Assassino – Um protagonista odioso em um filme idem. 1/5

32) O Jardineiro -Egodoc que traz dois narcisos na direção e um bando de idiotas diante das câmeras. Inofensivos, mas idiotas. 1/5

33) Uma Casa com Torre – O pequeno e carismático protagonista não resgata o filme do tédio absoluto. 1/5

34) Wakolda -Bem construído, tenso e com um personagem fascinante, ainda que monstruoso. Argentina foi inteligente na escolha.4/5

35) Todos os Dias – É simpático, mas só conseguiu me deixar mais curioso com relação ao projeto similar de Linklater. 3/5

36) De Menor – Roteiro frágil, execução problemática, atores irregulares e desfecho tolo. 2/5

37) O Foguete – O pequeno protagonista é adorável e a história, bonitinha. 3/5

38) Cabra Marcado para Morrer – O filme que não foi acabou se transformando no filme brasileiro definitivo. 5/5

39) A Gangue dos Jota – Satrapi se entrega à mais completa auto-indulgência num filme que soa quase amador. 2/5

40) El Crítico – Não é o primeiro a criticar convenções ao mesmo tempo em que as emprega, mas o faz muito bem. 4/5

41) Wajma – Demonstra as consequências inevitáveis de uma sociedade e cultura dominadas por religião: intolerância, dor e destruição. 4/5

42) Child’s Pose – O Cinema romeno é especialista em construir drama a partir da observação minuciosa do cotidiano. 5/5

43) Pais e Filhos – Drama sensível e complexo que foge do melodrama e das soluções fáceis. 5/5

44) Tatuagem – Um elenco espetacular em um filme corajoso e de espírito libertário. 5/5

45) Las Analfabetas – A origem teatral fica clara, mas as ótimas atuações compensam a estética vazia. 4/5

46) Cauby: Começaria Tudo Outra Vez – Um extra de DVD razoável que nada informa sobre o personagem-título. 2/5

47) O Jovem Infrator – Candidato sulcoreano ao Oscar, é um drama bobinho com personagens moderadamente interessantes. 3/5

48) Segurança Nacional – Pra quem pede retorno da Ditadura ou chama de ditabranda, digo que aqui era pior que o visto neste filme. 5/5

49) Amor, Plástico e Barulho – Muito + difícil que contar uma história é criar um universo – e o filme faz isso brilhantemente.5/5

50)Noite em Claro -Estudo intimista e doce, peça por estender algumas cenas mais que o ideal, mas cria um retrato interessante.3/5

51) The Wind Rises – Uma bela despedida de Mitazaki. 4/5

52) Caderno Grande – Candidato da Hungria ao Oscar, é um estudo apavorante do efeito desumanizante da guerra. 5/5

53)Tom na Fazenda -Depois do mediano Laurence Anyways, Dolan adota um estilo cru e sem firulas num ótimo thriller psicológico. 4/5

54) O Rio nos Pertence – Uma ideia de M. Night Shyamalan dirigida por um aspirante a Bergman. 1/5

55) Ana Arábia – Como esforço narrativo, é interessante; como discussão política/religiosa ou de personagem, difusa e vazia. 3/5

56) Cinco Anos de Vida – Retrato revoltante e visceral dos abusos norte-americanos em sua “guerra contra o terror”. 4/5

57) Prince Avalanche – Hirsch e Rudd são atores carismáticos e o filme é divertido, mas peca por achar ter “mensagem”. 3/5

58) La Jaula de Oro – Devastador ao trazer um sonho americano que não faz jus ao pesadelo da jornada para alcançá-lo. 5/5

59) Sobrevivente – Surpreende ao usar a tensa sequência do naufrágio apenas como introducão de uma história intrigante. 4/5

60) Caracóis na Chuva – A impassividade do protagonista compromete irremediavelmente o filme. 2/5

61) Eu Vou Ser Assassinado – Este doc surge como um thriller mais surpreendente que a maior parte de seus primos ficcionais. 5/5

62) Pelo Malo – Drama sensível e com uma atuação central tocante que retrata a ação destrutiva do preconceito. 4/5

63) Os Filhos do Padre – Enfrenta alguns problemas pontuais ao trazer eventos pesados demais para uma comédia, mas só. 4/5

Breaking Bad S05E12

postado em by Pablo Villaça em Sem categoria | 37 comentários

(Spoilers.)

Depois de um dos melhores episódios da série, é realmente decepcionante que Vince Gilligan nos bombardeie com um dos piores. Além de brincar com a cronologia da narrativa (é a primeira vez que Breaking Bad faz isso? Certamente não é algo que costuma fazer.) para criar um suspense artificial ao ocultar o paradeiro de Jesse e o que o levou a sair da casa de Walt sem incendiá-la, este “Rabid Dog” ainda cometeu ao menos três tropeços que considero particularmente irritantes – e que listo do menos para o mais grave a seguir:

3) O sujeito careca e ameaçador que leva Jesse a desistir de conversar com Walt. Convenientemente situado diante do sr. White e com pose intimidadora, ele surgiu como um recurso tolo e clichê para espantar o rapaz – e só o fato de estar posicionado de maneira tão óbvia já deveria ter levado Jesse a perceber que aquilo não poderia ser armação de um Heisenberg sempre tão cuidadoso. Além disso, a revelação de que se tratava de um sujeito qualquer foi absurdamente idiota e infantil: uma garotinha de rosa correndo para os seus braços e gritando “Papai!”. Façam-me o favor.

2) O lado impiedoso de Hank ao dizer que a morte de Jesse seria tão útil quanto sua conversa com Walt. A ideia por trás da atitude é clara: deixar patente que Hank e Walt farão de tudo para vencer o confronto e que ambos encaram Jesse (como repito sempre, a maior vítima da série) como um mero peão – e ao menos o sr. White não o considera descartável. Com isso, Vince Gilligan força nossa simpatia de volta para Walt quando poderíamos estar começando a torcer para que Hank saísse vitorioso. Entendo a motivação, mas o método foi patético e artificial.

1) Já estava difícil engolir a mudança radical de Skyler nos últimos episódios, quando, de criatura extremamente hostil ao marido, subitamente passou a apoiar até mesmo suas mais arriscadas jogadas. Mas vê-la praticamente pedir que este matasse Jesse ultrapassou a estupidez do ursinho roxo caolho da segunda temporada. “Inverossímil” nem começa a descrever sua atitude.

Breaking Bad acerta na maior parte do tempo, não há dúvidas. Mas quando erra, parece fazer questão de compensar seus acertos e atira a 200 quilômetros do alvo.

 Sim, houve momentos interessantes – e a conversa entre Walt e o filho à beira da piscina, que resultou num raríssimo instante de leveza e ternura para Walt e o plano geral na praça na qual o encontro entre Walt e Jesse ocorreria (e que me fez lembrar de A Conversação – talvez por estarem sendo monitorados, não sei) foram alguns destes -, mas para cada um deles, tivemos que aguentar diversos outros como a longa e descartável cena de Marie conversando com o psicólogo e Walt soando patético ao mentir para Skyler e o filho justamente depois de se mostrar um mentiroso fabuloso no episódio passado.

Que o próximo domingo chegue logo para que possamos tirar da boca o gosto horrível deste episódio medíocre.

O Rapaz da Moto

postado em by Pablo Villaça em Sem categoria | 12 comentários

Ouviu o próprio estômago roncando e sentiu-se irritado. Já se encontrava ali há cerca de uma hora e a mulher não aparecera no horário habitual. Sentiu vontade de retirar o capacete, mas conteve-se: não era estúpido e sabia que fazê-lo seria extremamente arriscado.

Olhou para os lados e verificou que continuava sozinho na rua escura. Ajeitou-se no banco da moto e cruzou os braços.

A melodia do refrão de “Ai, Se Eu te Pego” invadiu o silêncio e ele rapidamente enfiou a mão no bolso da calça e pegou o celular.

“Oi?”

“Meu filho, onde cê tá?”

“Mãe, eu avisei a senhora que ia chegar tarde!”

“Mas já é duas da manhã!”

“Eu sei, mãe! Por isso que falei que ia chegar tarde!”

“Cê vai demorar muito ainda?”

O rapaz olhou para o fim da rua. Nada.

“Não sei, mãe. Acho que vou.”

Ouviu o silêncio apreensivo do outro lado da linha. Depois de alguns segundos, a pergunta que ele sabia que viria:

“Cê tá bebendo, menino?”

“Não, mãe! Cê sabe que eu parei!”

Pela respiração pesada, percebeu que ela estava tentando avaliar sua dicção.

“Tá bom. Lembra do que o pastor falou, meu filho: álcool é ferramenta do demônio.”

“Eu sei, mãe.”

“Tá bom, então. Quando vier, passa numa farmácia 24 horas e compra uma caixa de leite integral pro seu irmão.”

“Tá bom, mãe.”

“Deus te abençoe, meu filho. Juízo.”

“Eu tenho, mãe.”

Guardou o telefone e suspirou irritado. Mal podia esperar para sair de casa. Porém, havia decidido que só o faria quando Fabrícia aceitasse ir morar com ele – e a garota parecia hesitante.

Namoravam há seis meses. Ele tinha 19 anos; a moça, 16. Haviam se conhecido num baile funk, quando ela ainda namorava um sujeito conhecido no morro como “Chapa” – um apelido resultante de sua natureza simpática e do fato de jamais negar uma carona em sua moto bacana. Em pouco tempo, no entanto, Fabrícia rompera com o rapaz e passara a ser sua namorada – e ele jamais se sentira tão feliz.

Havia, claro, alguns tropeços. Há alguns dias, descobrira que ela mantinha várias fotos íntimas tiradas com o Chapa em seu celular, o que resultara numa das piores brigas que haviam tido. Finalmente, ela dissera que iria apagá-las, mas sem muita firmeza. Será que ainda gostava do cara?

Retirou as luvas de couro e voltou a consultar o relógio: 2h15. Porra.

“Cadê a porra da mulher?”

Fabrícia era uma jovem de temperamento forte, mas parecia gostar dele. Dizia que ele era “o grande amor da sua vida”, mas o que uma menina de 16 anos podia saber sobre o assunto? Pensou em terminar o relacionamento para testá-la: se voltasse com o tal Chapa, isto significaria que ele realmente não passara de um passatempo, de um romance esquecível.

Isto o destruiria, claro, mas ao menos saberia que jamais fora realmente importante para a garota. Por outro lado, se ela permanecesse sozinha por tempo suficiente, talvez isto significasse que…

A luz de faróis no final da quadra o trouxe de volta à realidade.

“Fica esperto, caralho.”, disse para si mesmo.

Quinhentos reais não eram uma fortuna, mas eram dinheiro. Se agisse com competência e profissionalismo, várias portas se abririam e isto certamente facilitaria seus planos de transformar Fabrícia em sua companheira.

O estômago voltou a roncar.

“Putaqueopariu.”

Três e quinze da madrugada.

Desceu da moto e posicionou-se sob uma árvore que o mantinha protegido da luz projetada pelo poste mais próximo. Bateu os pés no chão ao perceber que se encontravam dormentes.

“Porra.”

Quando Matias o abordara no bar do Bigode, dois dias atrás, fizera parecer que seria algo simples.

“Tá a fim de ganhar quinhentos facinho?”

“Sempre.”

Afastaram-se dos bêbados locais e Matias explicou do que se tratava.

“Dá conta?”

“Ô. Moleza.”

Moleza o caralho. Estava ali há três horas, já. Faminto, com frio e agora sob o escrutínio da mãe.

Tirou o celular do bolso e ligou para Fabrícia.

“Ei, princesa.”

“Ei.”

“Tá fazendo o quê?”

“Tô deitada. Minhas costas estão doendo.”

“Ah. Tava pensando em dar uma passada aí.”

“São três da manhã. Meu pai vai ficar puto se você vier agora.”

O pai. Sei. Será que ela estava com o Chapa?

“Tá fazendo o quê?”

“Já te falei. Tô deitada.”

“Ah.”

Ficaram em silêncio por alguns segundos. Finalmente, ela perguntou onde o namorado estava.

“Ah… tô num bar aqui. Só tô esperando um chegado e aí vou praí.”

“Pra cá, não. Eu te falei que meu pai não ia gostar.”

Ele tentou apurar a audição o máximo possível a fim de perceber se ouvia alguma voz inesperada do outro lado da linha.

“Cê tá sozinha?”

“Já te falei. Tô na cama.”

“Mas tá sozinha?”

Ela desligou o telefone.

Piranha.

Chegou a iniciar o gesto de atirar o celular no chão, mas conteve-se.

Fabrícia não era uma “piranha”. Era seu amor. E o tal Chapa não era seu competidor, mas apenas mais um apaixonado por aquela criatura admirável.

E se fosse bem honesto, admitiria que o outro seria um companheiro melhor para a moça do que ele. Tinha um emprego estável em um banco, era devotado (mesmo depois de rejeitado) e levaria uma vida previsível ao seu lado. Jamais despertaria na garota um sentimento de paixão enlouquecedor – algo comum a todos os grandes amores -, mas traria segurança. E ela merecia isso.

Ou esta segurança seria uma sentença em vez de um presente?

Foda-se. Ela jamais teria a oportunidade de descobrir, pois seria sua mulher.

Voltou a sentar-se na moto.

Pensou na mãe e em Fabrícia. Queria despertar orgulho nas duas mulheres e julgava ser capaz de fazê-lo. Não era um sujeito mau; carecia apenas de oportunidades. Matias podia representar um contato fundamental para que se envolvesse mais na dinâmica da comunidade, já que era braço direito de Cartolina – que ganhara esse apelido por deixar epitáfios escritos em papelão em volta do pescoço de suas vítimas.

Sua mãe pedira leite desnatado ou integral? Nunca conseguia se lembrar. O irmão mais novo tinha apenas 9 meses de idade e ele se lembrava de que, nessa idade, um dos dois tipos era o mais recomendado, mas sempre se confundia. Teria que perguntar na farmácia. Isto, claro, se encontrasse alguma aberta.

O refrão de “Ai, Se Eu Te Pego” voltou a tocar.

“Eu.”, atendeu.

“E aí, moleque?”

“Fala, Matias. A porra da mulher não apareceu ainda, véi.”

“Que porra, hein?”

“Pois é.”

“Fica ligado, então, caralho.”

“Eu tô”.

“Beleza, então. Me dá um toque depois, valeu?”

E desligou.

Sem qualquer motivo aparente, o rapaz lembrou-se do pai, morto aos 37 anos em um tiroteio com a polícia. Sabia que o maior temor da mãe era que ele terminasse da mesma maneira, mas sabia que isto não aconteceria. Primeiro, porque não pretendia fazer do tráfico um emprego (no máximo, um bico); segundo, porque não era violento como o pai, que se orgulhava de ter matado um desafeto apenas porque este o acusara de roubar num jogo de cartas.

4h10.

Voltou a descer da moto para urinar atrás da mesma árvore que o abrigara antes. Será que deveria se arriscar a correr até o trailer da avenida principal para comprar um misto?

Sabia que não.

Puta. Que. Pariu.

Quem era a tal mulher, afinal de contas? Tudo que Matias dissera era que Cartolina se encontrava numa disputa legal com ela em função de um bar. Claro que não fazia diferença, mas ainda assim era frustrante estar completamente às escuras.

Deveria ter cobrado mais.

Pensou na mãe e imaginou como ficaria feliz ao receber o dinheiro extra. Talvez se mostrasse inquieta inicialmente, questionando sua origem, mas já sabia o que dizer para tranquilizá-la: recebera a quantia do Parara, um amigo de infância que há muito não aparecia na comunidade e que lhe devia muito mais do que aquilo por ter roubado seu Playstation há três anos. Diria que esbarrara com ele no centro e que ele, arrependido, lhe dera os quinhentos reais. Ela acabaria acreditando. Porque iria querer acreditar.

Será que deveria ligar novamente para Fabríc…

Faróis.

Baixou o visor do capacete e observou o carro que se aproximava. A placa conferia.

Voltou a subir na moto enquanto a mulher passava à sua frente e virava na esquina seguinte. Sabia que em dez segundos ela iria parar em frente à garagem de casa, o que lhe daria tempo suficiente para agir enquanto o portão estivesse sendo aberto.

Ligou a moto e lentamente se aproximou da esquina.

“Puta que o pariu.”

Havia esperado ver a mulher descendo do carro para abrir o portão, mas, em vez disso, um menino de cerca de dez ou onze anos abrira a porta do passageiro e atravessara a rua para desempenhar a tarefa enquanto a motorista aguardava para entrar na garagem.

“Que se foda essa merda.”

Arrancou a moto. Segurando o guidão com a mão esquerda, enfiou a direta no casaco de couro e puxou a arma, que pareceu mais pesada do que esperava. Normalmente, usava uma .38, mas Matias lhe entregara uma Taurus .40 ao acertar o serviço com instruções precisas para que se livrasse da semiautomática assim que tudo estivesse terminado.

Havia destravado a arma?

Porra.

Parou ao lado da janela da motorista e apontou a pistola para a cabeça da mulher, que levou uma fração de segundo para perceber que havia alguém ali. Antes que ela sequer pudesse registrar surpresa ou pânico, ele apertou e segurou o gatilho.

A primeira bala partiu o vidro, que se dividiu em centenas de fragmentos que, por alguns milissegundos, pareceram congelados no tempo até cederem à gravidade e revelarem o interior do automóvel. Como em câmera lenta, o rapaz viu o projétil entrar na bochecha esquerda da mulher, abrindo um rombo e lançando gengiva, carne e dentes em sua direção. Sem deixar de pressionar o gatilho, viu a segunda bala penetrar na testa da desgraçada, partindo seu crânio como manteiga e pintando o teto do carro com massa encefálica.

Poderia jurar que vira os olhos da pobre se apagando.

Em questão de quatro ou cinco segundos, disparara outros nove tiros e vira, com certo choque, o rosto da vítima se desfazer completamente. Quase lamentara ter que se livrar da Taurus.

O interior do carro da mulher era, agora, uma mistura de sangue, ossos e tecido morto. Inclinou a cabeça para dentro do veículo menos com o objetivo de conferir se o serviço estava feito (sabia que estava) e mais por curiosidade. Caos em forma de carne desfeita.

E então ouviu os gritos do menino.

Girou a cabeça e viu o garoto atravessar a rua correndo em direção ao carro da mãe, que começara a se movimentar lentamente.

Acelerou a moto e partiu em disparada. Pelo retrovisor, viu o menino abrir a porta do carro, olhar para o corpo despedaçado da mãe e se ajoelhar no meio da rua.

Entrou na avenida, se juntou ao pouco tráfego local e tentou se lembrar da farmácia mais próxima dali.

Boa Sorte, Boa Noite, Má Dublagem (ou Filme Dublado, Não #06)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Não ao dublado, Sem categoria, Vídeos | 34 comentários

Eu não vou nem comentar a perda significativa do trabalho vocal de David Strathairn, que, captando as inflexões características e o tom imponente e repleto de autoridade de Edward R. Murrow, foi indicado ao Oscar, ao BAFTA, ao Independent Film Awards, ao SAG e venceu o prêmio de atuação em Veneza. Claro que pegar todo o seu trabalho de composição vocal criado ao longo de meses e substituí-lo pela voz de um dublador que teve algumas horas para a tarefa é algo que beira o absurdo, mas… nem é o que há de pior nesta cena específica.

O que quero que reparem é como a versão brasileira ignora completamente a decisão do diretor George Clooney e de seu designer de som ao incluir um eco durante o discurso de Murrow, substituindo o tom intimista de uma cerimônia voltada para a indústria jornalística por uma tentativa de grandiosidade, de salão amplo e espaçoso, que simplesmente não reflete a intenção dos realizadores.

E ainda há quem insista que dublar não é mutilar a obra original.

Os filmes de Scorsese e de Kubrick

postado em by Pablo Villaça em Sem categoria | 25 comentários

Há alguns meses, publiquei um belíssimo vídeo editado por Leandro “Copperfield” Braga que homenageava de maneira belíssima as diferenças e similaridades nas cinematografias de Quentin Tarantino e dos irmãos Coen. Pois esta madrugada foi surpreendido ao descobrir que o autor não só havia produzido uma nova peça – desta vez homenageando Martin Scorsese e Stanley Kubrick – como ainda havia incluído uma dedicatória à montadora Thelma Schoonmaker, ao crítico Roger Ebert… e a mim.

Agradeço humildemente a honraria e, como havia feito com o vídeo anterior de Braga, disponibilizo o novo logo abaixo:


Curso

postado em by Pablo Villaça em Sem categoria | 6 comentários

O primeiro dia do curso em São Paulo foi bastante promissor: a turma perguntou muito (mais do que a média, considerando se tratar da primeira aula) e se mostrou interessadíssima. Além disso, fiquei impressionado com o número de alunos que viajaram grandes distâncias para esta edição: Salvador, João Pessoa, Mato Grosso (esqueci a cidade!) e por aí afora – além, claro, daqueles que vieram de Santos, Santo André, São Caetano, etc. Esse tipo de esforço feito pelos alunos é algo que sempre me comove tremendamente, já que fico extremamente grato pela dedicação dessas pessoas e pelo amor que obviamente sentem pelo Cinema.
 
Estou feliz. 
 
Dito isso, restam DUAS vagas para o curso no Rio (restava uma, mas houve uma desistência de última hora). Corram! Wink

Lost 0607

postado em by Pablo Villaça em Sem categoria | 46 comentários

(The hills are alive… with the sounds of spoilers…)

Michael Emerson acabou de garantir alguns prêmios de atuação com este episódio. E merecidamente. Desde que surgiu na segunda temporada, Benjamin Linus (então Henry Gale) se estabeleceu como um dos personagens mais fascinantes de toda a série – algo que se deve não apenas à belíssima construção de Emerson, mas aos roteiros de Lost, que sempre nos fizeram encarar aquele homem como um eterno mistério. Em meu curso de Teoria, Linguagem e Crítica, chego a dedicar uma parte da aula de Narração ao personagem, explicando que sua complexidade é evidenciada pelo fato dele exercer as seis funções clássicas determinadas pelo modelo actancial de A.J. Greimas: Sujeito, Objeto, Destinador, Destinatário, Oponente e Adjuvante. Aliás, ele é um dos poucos personagens que consigo lembrar que cumpriram todas estas funções na mesma narrativa.

Provando que todos os episódios centrados em Linus se estabelecem como grandes momentos da série (ao contrário do que ocorre com Kate e com o casal Jin & Sun), este sétimo capítulo da última temporada finalmente permitiu que a estrutura da realidade paralela se mostrasse orgânica: em vez de se preocupar em introduzir novos personagens, as seqüências naquele universo reutilizaram vários (vários mesmo) indivíduos já conhecidos em contextos levemente distorcidos – mas não a ponto de se tornarem irreconhecíveis: Arntz continua chato, Alex encara Ben como uma espécie de figura paterna e Locke, como sempre, se dispõe a seguir/ajudar Linus. A única surpresa real é perceber como o personagem de Emerson agora se relaciona com o pai: em vez do ressentimento que o levou ao parricídio, Ben agora cuida do sujeito com dedicação absoluta – que, por sua vez, se revela um homem preocupado com o bem-estar do filho. Com isso, a realidade paralela finalmente funcionou ao permitir pequenas catarses que surgem como conseqüência do que já sabíamos sobre aqueles personagens.

Além disso, assim como naquele universo Ben se vê dividido entre a tentação do poder e o impulso de agir corretamente, na ilha percebemos como o "velho" Linus se arrepende de seus atos passados – o que, mais uma vez, nos leva a celebrar sua decisão na realidade paralela como uma redenção que, na linha original, ele jamais conseguirá totalmente. Mas mais importante do que isso: pela primeira vez em toda a série, não questionei nem por um segundo a veracidade do que saía da boca de Benjamin Linus quando, entre lágrimas, expôs sua dor e arrependimento diante da perda de Alex e da morte de Jacob. E quando Emerson, com a voz trêmula e olhos marejados, disse que iria de encontro a Locke porque este era o "único que o aceitaria", eu, como espectador e testemunha da trajetória ambígua daquele homem maniqueísta, me comovi com seu sofrimento ao constatar o isolamento que recebeu em troca de seus atos.

E se isto já seria o bastante para transformar o episódio num dos grandes momentos da série, a impressão só se reforçou graças à espetacular cena envolvendo Jack e Richard Alpert e que serviu para que o primeiro (em mais um grande instante de Matthew Fox) expressasse sua conversão absoluta à natureza misteriosa de Jacob e da própria ilha. O antes cínico e racional Jack agora não hesita em apostar a própria vida em sua Fé recém-conquistada, o que representa um dos maiores e mais eficazes arcos dramáticos de todo o projeto.

Pela primeira vez – e graças à qualidade deste episódio – senti realmente uma angústia forte por saber que teremos apenas mais 11 episódios desta série magnífica e desde já inesquecível.

O Senhor das Armas

postado em by Pablo Villaça em Sem categoria | 28 comentários

Comentário em áudio sobre o filme de Andrew Niccol.

Chat ao vivo – Dia 02

postado em by Pablo Villaça em Sem categoria | 32 comentários

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