Dublado

Dois casos ilustrativos sobre a dublagem

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Dublado | 46 comentários

Recebi um email sobre os bastidores da dublagem de Frozen que me irritou bastante. Não é a primeira vez que a Disney compromete totalmente o trabalho de adaptação de um de seus filmes para o português, claro – e o caso mais emblemático, para mim, permanece sendo o de Enrolados, um ótimo longa que foi simplesmente destruído pelo trabalho porquíssimo de Luciano Huck. Na época, aliás, uma das pessoas diretamente responsáveis pela versão em português me contou, durante um jantar (ou seja: não foi “ouvi dizer”; recebi a informação diretamente do sujeito), que a Disney impôs Huck para o papel de Flynn, ignorando os testes feitos pelo então diretor de dublagem, Garcia Junior – o responsável por alguns dos melhores resultados obtidos pelas animações da empresa no Brasil e que, não por acaso, abandonou a função logo em seguida.

Para piorar, Huck só ofereceu algumas horas de seu preciosíssimo tempo para a tarefa – e se um ator profissional já teria dificuldades em fazer tudo em tão pouco tempo, para um “artista” medíocre como Luciano Huck o trabalho criou um dilema impossível para Garcia Júnior. Deu no que deu: uma merda (não há outra palavra) de dimensões continentais.

Infelizmente, em vez de aprender com o desastre, a Disney só reforçou o padrão.

O que nos traz a Frozen e ao email que recebi. A pedido da pessoa que me enviou, manterei seu nome em sigilo, mas decidi passar a informação adiante por ter obtido confirmação de uma segunda fonte.

Quem assistiu ao filme sabe que o boneco de neve Olaf se revela um coadjuvante cômico importante para a narrativa. Pois inicialmente o personagem foi dublado por Gustavo Pereira, que, há alguns anos, foi o responsável por emprestar a voz ao personagem-título de Procurando Nemo. Depois que o trabalho foi realizado e Pereira foi remunerado por ele, a Disney Brasil o notificou de que sua voz seria descartada e não estaria presente nas cópias que chegariam aos cinemas. O motivo: a Disney insistia precisar de alguém que chamasse o público para os cinemas.

Porque, aparentemente, Fábio Porchat é um grande chamariz para o público infantil, já tendo protagonizado diversas produções voltadas para crianç…

Hum.

Mas não devemos culpar Porchat (assim como, em meu texto sobre Enrolados, esclareci que entendia por que Luciano Huck aceitaria um trabalho para o qual estava obviamente despreparado). Além de ser um ator e um comediante talentoso, Porchat, para seu imenso crédito, teve uma atitude incrivelmente humilde: de acordo com minha fonte, o estúdio disse a ele que deveria fazer “exatamente como estava” a dublagem de Pereira. A resposta de Fábio Porchat? “Não tenho como, porque está muito boa”.

Não que o resultado final seja desastroso como o de Luciano Huck (nem teria como), mas está bem aquém não só do que o personagem merecia, mas também do talento que o próprio Porchat demonstra em seus outros trabalhos – o que só prova que, como escrevi aqui, a dublagem deve ser deixada para dubladores.

E este foi só um dos problemas do trabalho de adaptação de Frozen, cujas canções trazem letras em português com métrica completamente equivocada e com uma mixagem tão ruim que, em vários pontos, torna-se impossível entender o que está sendo cantado. E assisti ao filme em dois cinemas diferentes – ambos excelentes.

Para completar o absurdo, das centenas de sessões do longa no Brasil, apenas uma é legendada, o que ainda elimina completamente a liberdade de escolha dos fãs da Disney.

(Para ler tudo o que já escrevi sobre os problemas da dublagem, com vários exemplos, clique aqui. E espalhe, por favor.)