religião

A Arte Em Luta

postado em by Pablo Villaça em Política, religião, Variados | 6 comentários

Quando Diderot e d’Alembert editaram a Encyclopédie, na segunda metade do século 18, incluíram em seus mais de 30 volumes o que consideravam todo o conhecimento acumulado da Humanidade, transformando a obra na culminância do movimento iluminista que, um século antes, começara a defender a razão e o conhecimento como elementos motores da espécie, enfrentando a dominância opressiva e obscurante da religião. A França confirmava, assim, o posto de centro do Iluminismo, plantando, em seu território, um farol cujos fachos lançavam curiosidade, iniciativa intelectual e o interesse pelo debate como formas de melhorar o planeta.

Em 2015, a mesma França viu doze de seus habitantes – incluindo cinco cartunistas – abatidos pelo fogo da mesma ignorância religiosa que começou a enfrentar há mais de 350 anos.

Não sou um grande fã de religiões de modo geral. Como disse o físico Steve Weinberg, “com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém, para que uma pessoa boa faça uma coisa má, é preciso religião”. Ainda assim, usar o que ocorreu hoje em Paris como desculpa para atacar o islamismo é injusto e tolo. Seria o mesmo que julgar toda a Comédia por Danilo Gentili ou todos os roqueiros por Lobão e Roger. Não: a atrocidade cometida hoje tem a religião como desculpa, mas a sociopatia como razão. A mesma sociopatia que, por exemplo, levou o norueguês Anders Breivik a tirar a vida de 77 pessoas em nome de uma ideologia islamofóbica, pró-sionista e antifeminista.

Não é coincidência, portanto, que grupos fundamentalistas costumem atrair tipos mentalmente desequilibrados; o trágico é que há milhares destes à disposição ao redor do mundo esperando apenas uma ideologia, um credo ou um bordão qualquer que justifique sua propensão à violência.

Já do outro lado das metralhadoras encontravam-se artistas. Indivíduos que ganhavam a vida apontando o ridículo do radicalismo, da cegueira religiosa, da estupidez que leva irmãos de espécie à mútua e desnecessária destruição. Indivíduos que rebatiam às ameaças com piadas, com o humor, com o intelecto.

Com desenhos.

Viam as barbaridades cometidas ao redor do planeta em nome desta ou daquela religião e as criticavam com traços que cortavam na carne da hipocrisia e iam direto ao coração apodrecido dos interesses vis, particulares, egomaníacos e sociopatas de seus líderes. Golpes certeiros, claro, mas simbólicos, racionais e que permitiam que seus alvos permanecessem íntegros e pudessem responder.

Este é um dos papeis fundamentais da Arte, que pode funcionar como uma arma poderosa, mas essencialmente pacífica – e rebatê-la com violência é tática de covardes que reconhecem a fragilidade dos próprios argumentos. Por isto me desagrada tanto a máxima de que “a pena é mais forte do que a espada”: a comparação é tola e desigual. A primeira busca desafiar, argumentar, debater; a segunda quer apenas calar.

Mas calar uma ideia é impossível – e, não por acaso, a morte dos cartunistas do “Charlie Hebdo” imediatamente deu origem a dezenas de cartuns enlutados, além de comprovar a acurácia dos trabalhos dos artistas mortos, que obviamente atingiram os pontos fracos dos terroristas que, em retorno, decidiram simplesmente abater aqueles que os haviam desmascarado.

E assim, no berço do Iluminismo mais uma sombra se abateu sobre a Humanidade em um ano que, brincamos todos na virada, simbolizava o futuro colorido da trilogia estrelada por Michael J. Fox. Mas que, na prática, se aproxima bem mais da distopia pessimista e totalitária de O Planeta dos Macacos.

The Normal Heart e o mundo em 2014

postado em by Pablo Villaça em Filmes, filmes, filmes, religião | 6 comentários

Ontem, assisti a The Normal Heart, produção da HBO dirigida por Ryan Murphy e baseada na peça homônima de Larry Kramer. Infelizmente, é sintomático que um filme poderoso como este tenha sido produzido para a TV; Hollywood ainda se acovarda diante de temas como os tratados ali. Originalmente encenada em 1985, nos primeiros anos do pânico da AIDS, a peça foi oferecida a estúdios por mais de uma década sem que nenhum deles tivesse coragem de produzir uma versão para as telonas – e isto mesmo com Barbra Streisand, que detinha os direitos de adaptação e encontrava-se no auge da carreira, tentando viabilizar o projeto.

Assim como o excelente Minha Vida com Liberace (que também foi produzido pela HBO quando nenhum estúdio quis financiar o projeto), The Normal Heart é um filme franco sobre a homossexualidade e sobre como o preconceito permitiu que gays morressem aos milhares. Num mundo perfeito, ele seria exibido para os adolescentes nas escolas, servindo a dois propósitos simultâneos:

1) Mostrar como o amor entre duas pessoas do mesmo sexo é natural, doce e tão importante quanto o amor entre duas pessoas de sexos opostos; e

2) Para ilustrar como a incapacidade da sociedade em aceitar o item anterior leva ao descaso que custou e custa a vida de tantos.

Enquanto a AIDS era considerada um problema gay, praticamente nada se fez (o doc ACT UP – Unidos pela Raiva, embora falho, mostra isso bem). E o trágico é que estamos em 2014 e ainda há seres repugnantes como Bolsonaro, Feliciano e Malafaia que disseminam a intolerância e o ódio. E como provavelmente verão nos comentários abaixo, amar e/ou desejar alguém do mesmo sexo invariavelmente provoca respostas raivosas de religiosos que não sabem o que é empatia.

E são estes religiosos, donos de um moralismo deturpado que vê o sofrimento de gays como punição em vez de como a dor de um semelhante, que impedem que obras como The Normal Heart sejam apresentadas aos jovens que poderiam ser salvos por ela. E que barram qualquer iniciativa de humanizar aqueles que são por eles desumanizados.

Pois eu garanto que, se existisse, Deus abraçaria todo tipo de amor e rejeitaria todo tipo de intolerância, preconceito e ódio.

Mas ainda somos primitivos. Discriminamos quem ama e bombardeamos crianças por um pedaço de chão. Tudo em nome de credos irracionais.

Às vezes, bate uma imensa vergonha de nossa espécie.

Religião

postado em by Pablo Villaça em religião, Vídeos | 14 comentários

Eu não conhecia o comediante australiano Tim Minchin – e agradeço ao leitor Bruno Tenembaum por ter me enviado links para o seu trabalho hoje. Gostei particularmente deste monólogo sobre religião (infelizmente, não há legendas em português):

Ateu, não anti-Deus

postado em by Pablo Villaça em religião | 251 comentários

Eu não acredito em Deus.

Já acreditei. Muito. Nunca tive religião, mas considerava Deus um chapa. Eu não rezava, mas conversava com ele. Sentia conforto em pensar que ele me ouvia (não usarei as maiúsculas reverentes obrigatórias a não ser ao grafar seu nome). Tinha rituais.

Aos poucos, percebi que minha crença não era fruto de minha própria fé, mas de um condicionamento que começara na primeira infância através de vários “Deus te abençoe”, “se Deus quiser”, “Deus me livre”, “vai com Deus” e por aí afora. Meu Deus não era meu, mas uma herança cultural. O dia em que disse em voz alta “Sou ateu” pela primeira vez, senti-me livre como nunca antes. Minha vida passou a ser regida pela vontade de ser alguém melhor, não por elucubrações fantasiosas sobre o que há após a morte ou sobre regras divinas traduzidas por representantes dúbios.

Dito isso, sou filho de uma espírita. Médium, como se não bastasse. Meu primo Carlos Magno e sua esposa, que amo como se fossem meus irmãos, são evangélicos (ela mais do que ele). Meu tio favorito, Jones, tem seu pai de santo como conselheiro. Amo estas pessoas como a mim mesmo e respeito quem são.

Mas abomino a religião.

Nada tenho contra a crença em Deus. Entendo como o conceito de um “pai”, de um “criador”, pode ser reconfortante. Livrei-me da necessidade de crer em algo similar, mas não acho que aqueles que sentem Deus em suas vidas são menores ou tolos. Acho absurdo, acho fabulesco e acho infantil, mas não tolo ou reprovável. Sou um ateu que abraça o amor pelo Deus no qual você acredita. Jamais me ocorreria condenar o que te conforta.

Mas se há algo dispensável nesta equação é a religião. Pense: você é católico ou evangélico basicamente por um acaso geográfico e cronológico: se tivesse nascido na Índia ou no século 15, em vez de no Brasil no século 20, creio ser razoável supor que provavelmente não seguiria padres ou pastores. Como pode, então, atribuir tamanha importância, solenidade e reverência a algo tão frágil? Se Deus existisse, você realmente acredita que ele condenaria centenas de milhões de pessoas ao inferno apenas porque passaram a seguir regras e dogmas colocados no papel por humanos falhos?

E como são falhos. Todos os dias – sem exceção -, você encontra na mídia notícias sobre incidentes revoltantes envolvendo homens e mulheres que se dizem representantes terrenos do divino. Aqui, um padre é preso por pedofilia (algo que – como fartamente documentado pelo New York Times e pelos documentários Deliver Us From Evil Mea Maxima Culpa – o atual papa encobriu quando era cardeal); ali, um pastor é preso por dizer que seu pênis era algo “sagrado”. Em Israel, uma linda menina dona de uma voz sagrada (e, para mim, a Arte merece este adjetivo) é suspensa de sua escola por ter tido a temeridade de “cantar diante de homens”, ao passo que o islã cobre suas mulheres e as subjuga ainda mais do que a Igreja Católica (e isto é um feito difícil de alcançar).

Ora, basta estudar a História do mundo para constatar a atuação nefasta da religião e de seus representantes.

Olhamos hoje para as atitudes e ditos de papas, bispos, cardeais e fiéis dos séculos 17, 18, 19 e 20 e pensamos: “Como podiam ser tão atrasados?”. Pois não se iludam: nos séculos 21, 22 e 23, os pastores, padres, rabinos e aiatolás serão vistos com o mesmo espanto, como relíquias anacrônicas.

Creia em Deus se te faz bem. Mas não permita que um humano use isto para ganhar poder, dinheiro ou fama.

Apenas em 2012, nada menos do que 20,6 bilhões de reais foram arrecadados por grupos religiosos no Brasil. Uma quantia superior a – acreditem ou não – o orçamento anual de 15 dos 24 ministérios da União. Quanto pagaram de impostos? Zero. Por quê? Não faço ideia, mas isto se reflete curiosamente na lista publicada recentemente pela Forbes, que listou seis pastores brasileiros entre os homens mais ricos do mundo.

Aparentemente, são chapas de Deus.

Não, não morro de amores pela religião. Sim, há religiosos bem intencionados, mas o sistema ao qual servem é corrompido. O poder e o dinheiro ditam as regras, bem como um conservadorismo alarmante que, em 2013, insiste em tratar mulheres como seres inferiores e que diz que homossexuais são criaturas repugnantes.

Ora, a religião é, sim, uma questão de escolha; sua orientação sexual, não. Além disso, como condenar o amor? Não importa se você ama alguém com o mesmo sistema reprodutivo que o seu; num mundo já tão violento e tomado pelo individualismo, qualquer forma de amor deveria ser celebrada, abraçada, protegida. Se um homem quer beijar outro ou se uma mulher quer acariciar os seios de outra, qual a diferença? São seres humanos, mortais, cientes de sua finitude, buscando amparo, carinho, afeto e amor nos braços de um companheiro de espécie. Que lindo. Enxergar algo reprovável nisto apenas porque o par de cromossomos 23 dos amantes é idêntico é algo… que faria uma criança inclinar a cabeça  e perguntar o que há de errado com você.

Sou ateu.

Recentemente, uma pesquisa revelou que as duas minorias mais odiadas (reparem o verbo; não se trata de “reprovar”, mas “odiar”) pelos brasileiros eram homossexuais e ateus.

Branco, heterossexual e homem, finalmente pertenço a uma minoria hostilizada. Eba.

Se Deus existisse, teria sido responsável por minha criação. Por que me odiaria? A resposta óbvia é: não odiaria. Quem dita este ódio são aqueles que se apontam como seus representantes terrenos – e só o fazem porque enxergam religiões diferentes (ou a falta de religião) como concorrentes no mercado da fé. Infelizmente, estes representantes (felizes na lista da Forbes ou não tão ricos, mas confortavelmente amparados por doações isentas de impostos) exercem uma influência inegável sobre milhões de pessoas, que, acreditando agir em defesa de Deus (ele precisa?), acabam se transformando em criaturas capazes de atos absurdamente vis.

Mais de 230 pessoas morrem numa boate no Rio Grande do Sul e evangélicos de todo o país vão ao YouTube, a comentários de sites e a blogs para dizer que as vítimas estariam vivas caso não estivessem pecando.

Isto não é falar por Deus; é vomitar pelo Diabo.

(Não que acreditar no Diabo seja menos tolo; é incrível que qualquer adulto admita crer num ser tão absurdo sem sentir vergonha.)

Sou ateu. Mas não reprovo a crença em Deus. Reprovo, contudo, a tolice da religião. Você não precisa de intermediários terrenos, falhos, gananciosos e cruéis, para comungar com aquele que você julga ser seu criador. Conferir poder a estes indivíduos é temeroso na melhor das hipóteses; na pior, é um desastre absoluto.

Além disso, entenda algo: sua fé não passa de um conjunto de ideias formatado para se conformar a uma ideologia religiosa. Você a chama de “Fé” (com maiúscula), claro, mas ela se resume, em sua essência, a conceitos, ideias. E, como tal, pode ser questionada. Se alguém diz que os conceitos de concepção imaculada, ressurreição e andar sobre as águas é tolice, você não pode dizer que o indivíduo em questão está sendo “intolerante”.

O ateu nada mais é do que alguém que acredita num Deus a menos do que você.

Pense no Lorde Xenu da Cientologia ou no anjo Moroni do Mormonismo. Ora, pense em Maomé. Ou em André Luiz. A menos que você considere todos igualmente plausíveis e dignos de crença, você é tão ateu quanto eu. Bom, talvez não tanto, mas está a um deus de distância da descrença absoluta.

Não somos tão diferentes assim, você e eu. Na realidade, o que nos separa é basicamente o fato de que eu jamais ajudaria um ser humano profundamente falho e repleto de preconceitos a assumir a posição de influenciar outros apenas porque o considero uma espécie de telefonista de Deus.

E se você refletir com cuidado, perceberá que tampouco precisa deste telefonista. Deus ficará feliz em te atender pelo celular.

Não que ele exista.

Onde Deus estava durante o tiroteio em Aurora?

postado em by Pablo Villaça em Discussões, religião | 221 comentários

Depois que um pastor publicou um texto explicando “onde Deus estava” durante o tiroteio no cinema em Aurora (basicamente, ele diz que Deus nos deu o “livre arbítrio” – a não ser quando ele decide intervir por algum motivo que jamais compreenderemos), um leitor publicou uma resposta nos comentários que traduzirei aqui. Como de hábito, sintam-se livres para reproduzir a tradução abaixo (mas um link para o blog seria gentil).

“Caros cristãos,

aqui é Deus. Decidi tirar um tempo para explicar pessoalmente minha ausência no tiroteio em Aurora. E enquanto faço isso, achei que também poderia explicar minha ausência durante cada assassinato, massacre e crime já ocorridos na história do mundo e em toda guerra, todo lugar atacado pela fome, por secas e inundações.

Sabem, é que eu não existo. Nunca existi. Realmente fazia sentido para vocês que eu pudesse criar um universo inteiro com bilhões e bilhões de planetas e então esperasse cerca de 13.700.000.000 anos até poder me concentrar em alguns judeus da Palestina há cerca de 2.000 anos enquanto ignorava o restante das 200.000.000 de pessoas que existiam no planeta naquela época? Fui eu quem fiz aqueles poucos judeus ou foram eles que me fizeram?

Aliás, vocês realmente acham que eu ficaria sentado sem fazer nada enquanto os nazistas matavam 6 milhões do meu “povo escolhido”, mas acharia importante intervir para transformar água em vinho a fim de evitar que alguns anfitriões não ficassem embaraçados em um casamento em Canaã? Por que eu parecia estar tão ativo no Oriente Médio em um breve período há cerca de 2.000 anos, mas completamente ausente em qualquer outro lugar do planeta e pelo restante do registro histórico do mundo? Fui eu quem fiz os judeus ou foram eles que me fizeram?

Então vocês realmente acham que meus milagres periódicos provam minha existência, é? Então por que não fazer algo inquestionável, sem ambiguidade, como colocar um crucifixo gigantesco no céu ou a minha face na Lua? Por que os crentes têm sempre que construir meus milagres a partir de eventos perfeitamente explicáveis por causas naturais?

Isso acontece todas as vezes em que ocorre uma tragédia ou uma quase tragédia de qualquer tipo – em qualquer lugar do mundo e em todas as culturas. O capitão “Sully” Sullenberger pilota um avião com problemas até pousar com segurança no rio Hudson, em Nova York, sem que qualquer morte ocorra e é um milagre de Deus; uma jovem é encontrada na Índia, completamente aterrorizada, mas viva depois de ter sido raptada e estuprada por uma semana e é um milagre de meu concorrente Rama (ou Vishnu ou Shiva) que ela tenha sido devolvida à família; ou uma família no nordeste do Paquistão sobrevive a um míssil norte-americano perdido e é um milagre de Alá.

O que estas proclamações interesseiras de intervenção milagrosa sempre ignoram é o lado negativo desses incidentes. O fato de que os passageiros e a tripulação do voo 1549 ficaram aterrorizados e o avião foi destruído; que 11 pessoas inocentes morreram em Aurora; que a garota ficou presa por sete dias enquanto era estuprada e sodomizada e que ficará traumatizada para o resto da vida; ou que outros civis inocentes foram mortos pelo míssil.

Claro, pois nenhum destes incidentes foram realmente “milagres”. Quando a totalidade dos fatos é levada em conta, “milagres” se revelam como nada mais do que crentes desesperados por algum tipo de sinal da minha existência e que, para isso, ignoram os aspectos negativos de um grupo de fatos, focando exclusivamente no lado positivo e batizando esse “bem” isolado como um milagre meu ou dos outros contos de fadas. Um CEO poderia também ignorar as perdas de sua empresa e declarar ser um “milagre” que a companhia tenha subitamente dobrado de valor.

Outro hábito irritante dos meus “milagres” é que sempre parecem andar ao lado, mas um pouquinho atrás, da ciência médica – como um irmão caçula irritante que se recusa a se afastar. Até meados dos anos 90, aqueles com AIDS que rezavam por um milagre nunca foram atendidos. A medicina encontra um meio de controlar a doença e de repente eu começo a realizar milagres com pacientes de AIDS. Nenhum paciente de poliomielite jamais foi agraciado com um milagre até a vacina Salk surgir – e eu rotineiramente ignorava pacientes com câncer até que a quimioterapia e a radioterapia foram desenvolvidas. De repente, preces direcionadas a mim por pacientes com câncer começaram a ser regularmente “atendidas”.

Por que eu pareço surdo às preces de pessoas com amputações que desejam seus dedos, braços ou pernas de volta ou de outros que perderam olhos ou orelhas e daqueles que foram vítimas de queimaduras horríveis? E também de outros que sofrem de doenças patentemente visíveis, mas ainda incuráveis? Por que, ao mesmo tempo, sou receptivo às preces daqueles cujas condições são incertas, internas e, assim, vulneráveis a alegações milagrosas?

Tire cinco minutos para fazer duas listas: uma de doenças que irei curar milagrosamente e outra de doenças que não curarei. Você rapidamente descobrirá que elas coincidem perfeitamente com as doenças que a medicina ou o próprio corpo podem curar e aquelas que não podem. Por que acham que isso acontece? É quase como se meus milagres fossem criados a partir da ambiguidade médica, não é?

Não, meus amigos humanos. Receio não existir. Não posso ler suas mentes (ou “ouvir suas preces”, como gostam de dizer) e vocês não alcançarão a imortalidade (ou “a vida eterna”, como gostam de dizer), não importando quantos mandamentos criados na Paletina na Idade do Ferro vocês decidam “manter”. Sigam adiante e aproveitem os poucos anos que têm. Vocês estiveram mortos pelos últimos 13.700.000.000 e não foi tão desconfortável assim, foi?

Deus”