Cenas em detalhe

Breves Análises Pontuais Sobre Corpo Fechado e Meu Ódio Será Sua Herança

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Cinema, Cinema em seu máximo, cinemaemcena | 4 comentários

Esta semana, revi os dois filmes citados no título deste post e publiquei algumas observações no Twitter à medida que ia avançando na projeção. Para que não se percam, reproduzo-as aqui. Claro que as frases estão entrecortadas, pois foram escritas para o espaço diminuto daquela rede. Ainda assim, creio que podem despertar alguma reflexão sobre linguagem.

As duas cenas iniciais de Corpo Fechado demonstram por que Shyamalan era tão, mas tão bom: constroem tensão gradualmente, sem pressa. Na primeira, o uso do reflexo já introduz uma questão temática, além de ser eficiente do ponto de vista prático ao incluir muitos personagens. E introduz também o roxo como cor-chave de Elijah. Já a segunda, um longo take no trem, apresenta o protagonista como sujeito falho; tira a aliança pra flertar e tal. Aliás, os movimentos da câmera oscilando de um pra outro entre o encosto das poltronas são fantásticos. Criam uma atmosfera claustrofóbica, opressiva. E o design de som, que por duas vezes inclui ruído alto pra antecipar o desastre, é perfeito.

Na capa da HQ que desperta o interesse do Sr. Vidro por quadrinhos, o herói usa verde e amarelo. Mesmas cores-chave de Willis no filme. Uau. E aí, nesta cena, o carpete inclui as cores simbolicamente importantes dos dois personagens principais do filme.

corpo12

No curso, falo sobre a importância visual dos lados direito e esquerdo do quadro: o primeiro tende a ser mais forte que o segundo. Nesta cena, à medida que Willis confessa já ter ficado doente, expondo fragilidade, é deslocado da direita pra esquerda.

corpo01 corpo02 corpo03 corpo04

Verde/amarelo; verde/amarelo. Roupas, pintura ao fundo, bebidas:

corpo13

Os toques amarelos do galpão. Adoro esses detalhes. Ah, Shyamalan, por que caiu tanto? :(((

corpo15

Todos os “vilões” na estação usam cores quentes (vermelho, amarelo, laranja).

corpo101 corpo102 corpo103 corpo104

 Os letreiros finais, explicando o que houve com os personagens, são um erro grosseiro para um filme tão bom como Corpo Fechado. Mas taí um filme que eu gostaria de ver: Corpo Fechado 2.

——————————————–

———————————

Revendo Meu Ódio Será Sua Herança. A cena da explosão da ponte é um exemplo preciso de por que os efeitos práticos são insuperáveis. Se rodado hoje em dia, o filme certamente “explodiria” a ponte em CGI (especialmente considerando a participação de humanos e cavalos). Mas há uma diferença, uma realidade no efeito prático, da explosão em locação, que o olho humano consegue identificar e dá peso à cena. Mas julguem vocês mesmos.

ódio01 odio02 odio03

 

Em cenas como esta, sempre me pergunto: será que sentiram que estavam filmando um momento que se tornaria clássico?

odio04 odio05

 

Boa sorte ao tentar calcular quantas pessoas morrem ao longo de Meu Ódio Será Sua Herança. Meu chute? 732.

Algo que me fascina em Meu Ódio Será Sua Herança: como Sam Peckinpah frequentemente retrata crianças admirando ou praticando crueldades. É uma rima temática que Peckinpah inicia nos primeiros segundos do filme, quando vemos um grupo de crianças torturando um escorpião, segue quando vemos um garotinho (filho de Peckinpah) deslumbrado com a imagem de um homem sendo arrastado por um cavalo, continua com o garotinho que admira o tiroteio entre os homens de Pancho Villa e os de Mapache, passa à criança que “galopa” Angel e, claro, encerra  com o tiro desferido por um pequeno soldado.

A ideia por trás disso é clara e aborda a continuidade da violência de uma geração a outra, refletindo a eterna transmissão da brutalidade pela humanidade.

E que Peckinpah desenvolva um tema tão existencialmente complexo enquanto coreografa uma chacina é algo notável. Que diretor. Que filme.

odio06 odio07 odio08 odio10 odio09

 

É isso. Ontem discuti Corpo Fechado na madrugada. Hoje, Meu Ódio Será Sua Herança. Amanhã será a vez de Alvin e os Esquilos, provavelmente.

———————

(Que tal me seguirem no twitter?)

Projeto Breaking Bad – Trechos dos Capítulos 2 e 3

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, cinemaemcena, Séries de tevê | 1 comente

Abaixo, você confere breves trechos dos capítulos 2 e 3 do projeto Breaking Bad (para ter acesso aos textos completos, é só se tornar colaborador(a) do Cinema em Cena. Como? Clicando aqui!):

Capítulo 2:

(…)Num episódio marcado pelo humor – uma abordagem inteligente, já que suaviza a natureza sombria dos acontecimentos retratados -, a dinâmica entre Walt e Jesse começa se tornar cada vez mais clara, envolvendo as tentativas do primeiro de controlar a situação e a impaciência crescente do segundo ao ser tratado como subalterno (e é divertido notar a expressão de orgulho de Pinkman ao encontrar uma forma de prender Krazy-8 no porão). Da mesma maneira, o próprio vocabulário dos personagens ressalta as diferenças entre eles, sendo particularmente curioso como Walter procura diminuir a gravidade do que propõe ao sugerir “desincorporação química” para lidar com o corpo de Emilio, enquanto Jesse, numa postura quase infantil, tenta se livrar da tarefa ao dizer um comovente (mesmo que engraçado) “Sr. White, eu não sou bom com gente morta”. (E em uma discreta piada envolvendo odesign de produção e a cenografia, no início do episódio é possível perceber um cartaz na parede lateral da sala de aula que basicamente adianta o destino do ex-parceiro de Jesse ao trazer um esqueleto em um fundo roxo que exibe a palavra “decompose”.)

s01e02-08

 Não é coincidência, aliás, que Jesse apareça assistindo a um episódio de Os Três Patetas em certo momento, já que o roteiro de Gilligan inclui, nesteCat’s in the Bag…, piadas envolvendo humor físico (Jesse carregando o corpo de Emilio), humor de situação (o mal entendido inicial na conversa entre Skyler e Pinkman) e, claro, humor negro (o resultado da teimosia de Jesse ao lidar com o ácido). E mais: os realizadores também extraem graça do amadorismo de sua dupla central (como o pânico de Walt ao ver Krazy-8 na rua e o de Pinkman ao dizer “Por que diabos não o amarramos?”) e até mesmo da escolha das canções incidentais: quando Krazy-8 (Arciniega) vê seu captor e corre, sendo nocauteado ao trombar em uma árvore, ouvimos os seguintes versos de “You’re Movin’ Me”, de Clyde McPhatter, enquanto o rapaz é colocado, inconsciente, no carro do protagonista:

Baby, you knock me out

You know you’re movin me” 

Para completar, Gilligan claramente se diverte ao estabelecer como Walter não compreende o universo no qual está se metendo, já que acredita ser possível argumentar com um narcotraficante e assassino – um padrão de comportamento que se tornará recorrente, já que, ao longo das cinco temporadas, ele (sempre se julgando intelectualmente superior a todos) frequentemente agirá como se os que o cercam fossem estúpidos e susceptíveis aos seus poderes de persuasão (e muitas vezes estará certo).

s01e02-06

s01e02-07

 

-=================================================================================

Capítulo 3:

Ainda assim, questões morais à parte, Walter já demonstra o pragmatismo marcante de sua personalidade ao finalmente concluir não ter mais opções – e, portanto, quando surge na porta que leva ao porão, já é retratado por Villalobos como um vilão mergulhado em sombras (e é interessante notar como, ao chegar no andar de baixo, ele se afasta da escada ainda oculto pela escuridão, como um monstro, embora mais cedo no episódio ali houvesse luz suficiente para iluminá-lo, como é possível perceber nas imagens abaixo).

E se o episódio não facilita o julgamento do espectador ao humanizar Krazy-8, a situação se torna ainda mais difícil graças à forma chocante com que sua morte é encenada: mesmo com cortes rápidos enquanto o rapaz e Walt giram em torno da coluna que mantinha o sujeito preso, a direção de Bernstein nos mantém próximos ao rosto do jovem enquanto a vida desaparece de seus olhos, tornando seu assassinato pessoal, quase intimista – e, com isso, a natureza cruel do ato do protagonista se torna inegável mesmo que este chore diante do que fez.

s01e03-26

s01e03-27

s01e03-28

s01e03-29

s01e03-30

O que nos traz ao desfecho do episódio e que poderia – para a sorte da família White (mas não para a nossa) – ter servido como encerramento da própria série ao mostrar Jesse chegando em casa e descobrindo que Walter havia limpado todos os vestígios de sua experiência com o mundo do crime. Assim, quando vemos o professor parado sobre uma ponte (representando, claro, a ligação entre seus dois mundos), percebemos que está refletindo justamente sobre que caminho seguir – uma ideia reforçada pelo belo plano que o traz contemplando duas pistas nas quais carros viajam em direções opostas.

Projeto Breaking Bad – S01E01 – Piloto

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Críticas, Séries de tevê | 25 comentários

(Fuck you, Bogdan! Fuck you and your spoilers!)

Piloto

Dirigido e roteirizado por Vince Gilligan. Fotografia: John Toll. Montagem: Lynne Willingham. Música: Dave Porter. Design de produção: Robb Wilson King. Direção de arte: James Oberlander. Figurinos: Kathleen Detoro.

Com: Bryan Cranston, Anna Gunn, Aaron Paul, Dean Norris, Betsy Brandt, R.J. Mitte, Steven Michael Quezada, Max Arciniega, John Koyama, Marius Stan.

“A Química é o estudo da mudança”, diz Walter White no episódio piloto de Breaking Bad, completando pouco depois: “É como a vida. (…) Crescimento, decomposição, transformação”.

Numa visão superficial, o personagem interpretado por Bryan Cranston poderia estar simplesmente cumprindo seu papel como professor da disciplina diante de um bando de alunos desinteressados; um olhar mais atento, porém, imediatamente perceberia que naquela fala estava contida a temática da própria obra criada por Vince Gilligan e que fascinaria espectadores durante os cinco anos seguintes ao enfocar a transição de Walter de um pacato e fracassado educador colegial até se tornar o cabeça cruel e implacável de um império das drogas.

s01e01-01

Leia mais

“Hiroshima, Meu Amor”, meu amor

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Cinema em seu máximo, Clássicos | 4 comentários

Revi hoje, depois de muitos anos, o lindo Hiroshima, Meu Amor, longa de estreia de Alan Resnais. Trata-se de um filme absurdamente influente e no qual o cineasta emprega vários dos recursos de montagem vanguardistas que usara em seus trabalhos em curta e média-metragem – especialmente Noite e Neblina (aliás, uso cenas de ambos em meu curso de Forma e Estilo Cinematográficos – não à toa, na aula sobre Montagem). A arte da montagem, diga-se de passagem, é ilustrada de maneira brilhante em Hiroshima – e não só nos cortes em si, mas nos momentos em que o cineasta decide empregar, no lugar do corte seco, fusões lentas. O que me encanta nestas últimas é a capacidade não só de tornar o tempo em algo fluido, saltando da memória para o presente (os resultados das lembranças em quem a personagem é hoje), mas também nas associações emocionais e psicológicas que a fusão, com a sobreposição momentânea de imagens, cria.

Tomemos, como exemplo, duas passagens do longa. Na primeira, a atriz vivida por Emmanuelle Riva encontra-se na cama com seu amante japonês (Eiji Okada) quando rememora seu primeiro amor, um soldado alemão que encontrava-se na cidade em que ela morava.

Assim, saltamos da memória da moça…

hiroshima01

…até o presente, quando encontra-se deitada ao lado do novo amado:

hiroshima03

O brilhantismo do uso da fusão nesta transição, contudo, reside justamente na criação de uma imagem transitória que nos transporta do passado ao presente e que é representada desta maneira:

hiroshima02

Ao planejar cuidadosamente a composição dos quadros e a decupagem da sequência, Resnais cria um símbolo perfeito para a situação da garota, que não consegue se envolver emocionalmente com o amante japonês por ainda estar coberta pelos traumas deixados por seu relacionamento com o alemão – que, portanto, surge como um fantasma entre Riva e Okada.

Da mesma maneira, em outro instante, ao trazer a protagonista discutindo a morte de seu primeiro amor, o diretor salta do passado, que exibe o jardim de onde um atirador disparou contra o rapaz…

hiroshima04

… ao presente, no qual a atriz hesita em se entregar ao novo romance justamente por temer esquecer o anterior e provavelmente por encontrar-se amedrontada diante da possibilidade de voltar a se ferir:

hiroshima06

E aqui, mais uma vez, a transição através da fusão cria uma imagem intermediária de tirar o fôlego, mesmo que dure apenas um segundo, ao usar as colunas do jardim para sugerir grades que mantêm a moça aprisionada em função do trauma:

hiroshima05

E pensar que esta foi a estreia de Alan Resnais como longa-metragista. Não é uma felicidade que, aos 91 anos, este gênio continue em atividade?

Videocast Cenas em Detalhes #12: E.T. – O Extraterrestre

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Cinema em seu máximo, Clássicos | 6 comentários

Cenas em Detalhes #10: Um Corpo que Cai

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Cinema em seu máximo, Clássicos, Videocast | 4 comentários

Videocast Cinema em Cena – Cenas em Detalhes #08 – Frankenstein de Mary Shelley

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Videocast | 5 comentários

Videocast Cinema em Cena: Cenas em Detalhes #07 – The Last Waltz

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Videocast | 4 comentários

Cenas em Detalhes #06 – Onde os Fracos Não Tem Vez

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Videocast | 27 comentários

Videocast Cenas em Detalhes #05 – 2001 – Uma Odisseia no Espaço

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Cinema em seu máximo, Clássicos, Videocast | 27 comentários