Cenas em detalhe

Videocast Cinema em Cena: Cenas em Detalhes #04 – O Poderoso Chefão

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Cenas em Detalhes #03: O Segredo de Brokeback Mountain

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Cenas em Detalhe #02

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Update: Gravei um videocast a fim de me deter com mais calma em outros elementos da cena e transformei o vídeo sobre Os Bons Companheiros em Cenas em Detalhes #01:

Post original:

Uma nova série para animar o blog em 2011: de vez em quando, tentarei analisar alguns detalhes que julgo fundamentais para a eficácia de cenas importantes do Cinema (algo como fiz com o vídeo sobre Os Bons Companheiros, mas em formato de texto). Como revi Alien, o Oitavo Passageiro ontem com Luca, pensei em começar com o longa de Ridley Scott.

E é claro que estou falando da morte de Kane (John Hurt) durante o jantar.

(Infelizmente, só consegui encontrar esta versão no YouTube. O ideal seria que ela começasse 30 segundos antes e terminasse apenas no fim da cena, mas…)

Imediatamente antes do jantar, Kane acorda miraculosamente depois de permanecer um bom tempo com o facehugger enrolado em seu pescoço. Ainda na enfermaria, ele surge bebendo vários copos de água enquanto os colegas, visivelmente aliviados, questionam seu estado e parecem se animar com sua fome – aparentemente, um bom sinal de recuperação. E é aí que saltamos para o refeitório e acompanhamos a conversa alegre do grupo enquanto Kane, em particular, conta um caso ao mesmo tempo em que devora a comida numa curiosa manifestação de apetite. O objetivo, aqui, é estabelecer um choque pelo contraste, construindo um tom alegre apenas para substituí-lo bruscamente pelo trágico.

É aí que Ridley Scott inclui o primeiro elemento que estabelece uma atmosfera de desconforto e inquietude (e que, infelizmente, não está na versão acima): enquanto Kane come, Scott detém sua câmera em Ash (Ian Holm), que, ao contrário dos companheiros, surge sério e – mais importante – observando o paciente atentamente. Porém, seu olhar não traz preocupação ou interesse, mas algo estranho ao momento: uma certa antecipação, como se aguardasse que algo ocorresse.

Trata-se, claro, não só de um plano fundamental para o tom da cena, mas também de uma pista: mais tarde, descobriremos que Ash é um andróide enviado pela empresa com o objetivo de coletar a espécie alienígena mesmo que isto implique na morte da tripulação – e a esta altura, ele obviamente já sabe que o facehugger deixou algo em Kane antes de morrer e que as conseqüências serão visíveis a qualquer instante (mesmo que não saiba exatamente o que ocorrerá).

É então que Kane parece engasgar e o realismo da cena é intensificado pela reação despreocupada de seus colegas: Parker faz uma piada sobre a comida enquanto Ash permanece atento. Neste instante, Scott corta para as costas de Hurt enquanto Parker (Yaphet Kotto) finalmente se dá conta de que algo está ocorrendo. Ao mesmo tempo, a leve batida de coração que havia surgido discretamente na trilha quando Hurt começara a engasgar se torna consideravelmente mais audível, ressaltando a tensão e, claro, os momentos finais de vida do personagem. Ainda assim, vemos a mão de Dallas (Tom Skerritt) bater nas costas de Kane, ainda julgando tratar-se de um engasgo, enquanto todos se levantam, mais tensos.

Menos Ash, que permanece impassível. Justamente o oficial de Ciências da Nostromo, responsável pela saúde da tripulação. E por que ele deveria se mover? Ele, afinal, é o único que sabe o que está ocorrendo. É somente depois que Kane começa a cair sobre a mesa e que todos já se levantaram para ajudá-lo que Ash finalmente se move com um olhar resoluto: agora ele tem certeza de que o acontecimento que esperava teve início.

A dinâmica dos demais personagens também se revela importante como indicativo de suas personalidades: Parker, sempre impulsivo, e Dallas, o líder da nave, rapidamente tentam controlar a situação, ao passo que Lambert (Veronica Cartwright) se mantém paralisada até ser empurrada por Ash para que este possa se aproximar de Kane. Enquanto isso, Brett (Harry Dean Stanton), que sempre acompanha o amigo Parker, pode ser visto ao fundo observando a ação deste. Ripley, até aqui, permanece fora de campo – o que condiz com a lógica da narrativa de trazê-la para o centro apenas gradualmente até revelá-la como a verdadeira protagonista do projeto.

Scott volta ao plano mais elevado, que se contrapõe diametralmente àquele, levemente inferior, no qual víamos Kane comer, enquanto John Hurt se debate sobre a mesa enquanto é agarrado pelos companheiros. (É curioso observar como sua morte, antecipada por convulsões, não deixa de ser similar à morte de Daryl Hannah em Blade Runner, que Scott dirigiria três anos depois.)

Voltamos, então, a ver os esforços da tripulação: Parker tenta enfiar um objeto na boca de Kane, talvez pensando se tratar de uma convulsão, enquanto Dallas, Ash e (finalmente) Brett seguram o corpo do sujeito. Nesse momento, Ripley enfim surge em cena observando, com a expressão preocupada, por cima e por trás de Parker – e é importante perceber como sua postura firme se contrapõe à da única outra mulher na nave, Lambert, que pode ser vista logo a seguir em um ângulo alto (que a torna menor e mais frágil em comparação com o ângulo no qual víramos Ripley).

Descartando uma trilha instrumental, enquanto isso, Scott e seus montadores investem apenas nos gritos de John Hurt, no som de objetos sendo empurrados e, claro, na batida cada vez mais óbvia do coração.

Até então, no entanto, os planos vinham se sucedendo com um ritmo relativamente mais “lento”: oito segundos para o plano no qual Kane cai sobre a mesa e começa a ser socorrido, três segundos para o contraplano mais elevado e mais sete segundos para aquele que retorna ao ponto de vista original. A partir daí, porém, tudo se acelera, antecipando a revelação do que está ocorrendo e, claro, contribuindo para inspirar no espectador a clara sensação de tragédia iminente – e, além disso, pela primeira vez Scott inclui outros enquadramentos além dos dois básicos iniciais: dois segundos para Lambert, dois segundos para Kane se debatendo, um segundo para o plano “original” (aquele levemente inferior que abre a cena), dois segundos novamente para Kane, um segundo para Ash e outros dois segundos para Kane. Com isso, não só a ação de todos é enfocada, mas também a posição de cada um.

Nesse momento, uma mancha vermelha explode na camisa de Kane, levando Lambert (claro) a gritar.

E é aqui que Ridley Scott faz uma coisa de gênio: a ação é interrompida por dois segundos. Kane pára de se movimentar, Parker e Dallas olham para o colega com expressões confusas e o tempo parece congelar. É esta pausa de incomprensão que torna tudo tão apavorante, levando o público a perceber que algo horrível acabou de ocorrer – mesmo que ainda não saibamos  (nós e os personagens) exatamente o quê.

Kane, então, volta a se debater e a gritar de dor e todos parecem recuperar a presença de espírito, voltando a agarrá-lo. Os planos continuam a se suceder com rapidez: um ou dois segundos no máximo antes de cada corte. Até que o alien dá o primeiro golpe visível de dentro do tórax de Kane e todos finalmente soltam o companheiro, assustados. Voltamos, então, a Kane num curtíssimo plano no qual vemos o alien se arremessar para fora do corpo de sua vítima, gritando como um recém-nascido. O sangue espirra pelo refeitório e, depois de um rapidíssimo plano que traz Parker, Ripley, Brett e Dallas se afastando, Ridley Scott conclui sua piada de humor negro ao trazer a histérica Lambert sendo banhada, aos gritos, pela hemorragia do amigo. Voltamos ao plano anterior e, agora, todos se moveram para longe do companheiro – e vemos Ripley, embora chocada, tentando olhar por sobre os ombros de Parker (a esta altura, Lambert já está tremendo e evitando encarar o corpo do colega).

Só aqui Scott e os montadores voltam a diminuir o ritmo da cena num plano mais demorado, de dez segundos, que finalmente revela o vilão do filme e as conseqüências de sua aparição – e enquanto Lambert permanece chorando ao fundo, o tom macabro do incidente é salientado pelas mãos trêmulas de Kane em seus espasmos de morte.

E é apenas aí que percebemos que as batidas de coração da trilha não pertenciam ao oficial de John Hurt, mas à criatura que se encontrava prestes a nascer.

Videocast Cinema em Cena – O Trabalho do Crítico ou Cenas em Detalhe #01: Uma Cena de Os Bons Companheiros

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Críticas, Curso, Videocast | 74 comentários

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