Cinema

Encarnação do Demônio

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Novos filmes | 37 comentários

Acabo de voltar da cabine de Encarnação do Demônio, que transporta a figura emblemática de Zé do Caixão, criação de José Mojica Marins, para o século XXI. Aliás, o contraste entre a imagem do personagem e a ambientação moderna é uma das (poucas) coisas boas do filme, que, de modo geral, é uma imensa decepção regada a pura misoginia e que se enquadra perfeitamente na mesma categoria "pornografia da tortura" que embala os trabalhos do doente Eli Roth.

Quando digo que a idade e a experiência de vida são fatores
fundamentais na formação de um bom crítico, aliás, é justamente a
isto que me refiro: somente a extrema imaturidade pode permitir que um filme como Encarnação do Demônio seja celebrado sem levar em consideração as implicações morais e temáticas de sua narrativa. Não que o Cinema não possa retratar a violência contra a mulher (ou crianças, ou quem quer que seja); muitas vezes, isto é necessário para que a história seja contada da maneira apropriada. Há uma diferença fundamental, porém, entre a violência justificada pela narrativa e aquela que surge apenas como sensacionalismo barato, como truque gráfico para chocar e, assim, atrair um público interessado apenas no gore

É inacreditável, aliás, que este filme tenha vencido o prêmio principal do Festival de Paulínia. Uma coisa é reconhecer a importância de Marins para o Cinema brasileiro e sua tocante história pessoal (fiz uma longa entrevista com ele, em 2001, para o programa "Retratos" da TV Horizonte, e fiquei encantado com sua perseverança e amor pela 7a. Arte); outra é deixar que este respeito por sua figura influencie de maneira imprópria a percepção de seu trabalho atual.

Sim, o trash pode ser divertido (e ainda que tente negar sua natureza trash, Encarnação do Demônio não consegue totalmente), mas isto não o torna menos ridículo. E o status cult, que o filme também busca atingir, não é algo que um cineasta pode conferir ao seu longa já na concepção; é algo que só o tempo traz – e em alguns casos. E, infelizmente, Encarnação do Demônio não é nem mesmo ruim o bastante para se tornar um Plano 9 do Espaço Sideral.

Devo escrever sobre o longa com mais detalhes. Mas, por enquanto, queria apenas dividir com vocês minha decepção.

Entrevista com Breno Silveira e Thiago Martins

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Novos filmes | 8 comentários

Confiram, abaixo, a entrevista que Renato Silveira, co-editor do Cinema em Cena, fez com Breno Silveira e Thiago Martins, diretor e ator de Era uma Vez…, respectivamente.

 

 

Cena Misteriosa #09

postado em by Pablo Villaça em Cena misteriosa, Cinema, Clássicos | 21 comentários

(Uma pergunta: qual deveria ser a freqüência desta série?)

O leitor Rogério Vieira foi o primeiro a identificar Os Brutos Também Amam como a cena misteriosa #08. Dirigido por George Stevens em 1951 e lançado dois anos depois, Shane (seu título original) é um western que, apesar de contar com os tipos clássicos (o fazendeiro sob ataque; a esposa sofrida; o pistoleiro cruel; o latifundiário inescrupuloso; o herói rápido no gatilho; etc), é enriquecido pela complexidade psicológica com que desenvolve não apenas o protagonista, mas também sua relação com a família Starrett. Retratado por Alan Ladd como um sujeito de passado obscuro, mas com um óbvio desejo de encontrar um lugar calmo no qual possa fixar-se, Shane é, também, um homem que, de certa forma, parece buscar o conflito, envolvendo-se em situações que não lhe dizem respeito e que permitem apenas que ele possa voltar a usar suas armas.

Ambientado num período em que o Velho Oeste já estava sendo domesticado pelas leis mais rigorosas contra tiroteios, o filme é normalmente lembrado em função da encantadora performance do garotinho Brandon De Wilde (indicado ao Oscar e cuja morte precoce, aos 30 anos, roubou-lhe uma promissora carreira), mas o fato é que as atuações são sólidas de cima a baixo: Van Heflin, sempre intenso, encarna a firmeza de caráter – e a teimosia – de um homem que não quer acovardar-se diante da família; Jack Palance (também indicado ao Oscar) surge irônico e ameaçador num papel que lhe oferece apenas meia dúzia de falas; o eterno coadjuvante Elisha Cook Jr. comove com sua morte enlameada; Ben Johnson interpreta um capanga bem mais complexo do que imaginávamos inicialmente (é ele quem aparece na cena misteriosa, brigando com o herói); e minha musa Jean Arthur, aos 51 anos e em seu último papel no cinema antes da precoce aposentadoria, retrata com sensibilidade uma mulher que, mesmo claramente tomada pelo amor e pelo respeito ao marido, não consegue evitar uma óbvia atração pelo estranho que surge em seu rancho. Mas talvez a performance mais injustamente ignorada de Shane seja aquela oferecida por Emile Meyer, que, aos 41 anos, encarnou com perfeição o velho Rufus Ryker, oferecendo, no processo, um "vilão" que tenta agir razoavelmente, chegando a explicar, com bastante eloqüência, as razões que o levam a se considerar dono de todas aquelas terras.

E não podemos nos esquecer, é claro, da maravilhosa fotografia de Loyal Griggs, que explora magnificamente bem as belíssimas locações.

Dito isso, segue a cena de hoje:

Cena Misteriosa #08

postado em by Pablo Villaça em Cena misteriosa, Cinema | 14 comentários

(Observação importante: os links do blog realmente não estão funcionando no Internet Explorer 6. Sugiro a utilização do Firefox ou que façam o update do navegador para o Internet Explorer 7, que, diga-se de passagem, é bem melhor que o 6.)

Parabéns ao Thiago Casimiro, primeiro a identificar a cena misteriosa 07 como tendo saído de Johnny Vai à Guerra (1971). Bom, ao descrever os objetivos desta brincadeira, expliquei que poderia incluir, aqui, filmes dos quais não gosto, mas que trazem elementos interessantes, dignos de elogios. Este é o caso de Johnny Got His Gun, único longa dirigido pelo brilhante roteirista Dalton Trumbo. Baseado no livro que o próprio Trumbo lançou em 1939, o filme estabelece uma rima narrativa com o recente O Escafandro e a Borboleta no sentido de também girar em torno de um protagonista enterrado no próprio corpo – porém, enquanto a história de Jean-Dominique Bauby celebrava a força do espírito humano, o drama do soldado Joe Bonham (vivido com sensibilidade pelo então estreante Timothy Bottoms) busca condenar a brutalidade da guerra e a estupidez dos velhos que mandam seus jovem para a morte estúpida e desnecessária.

Infelizmente, embora a mensagem seja válida, o longa não é dos mais sutis ao estabelecê-la, investindo em simbolismos óbvios e discursos simplistas. Além disso, muitos dos flashbacks/fantasias simplesmente não funcionam, surgindo enfadonhos e nada orgânicos (para piorar, Kathy Fields, que interpreta a amada do soldado, revela-se péssima atriz neste seu primeiro e último trabalho). E se os encontros de Joe com um Cristo vivido de maneira intrigante por Donald Sutherland surgem como destaques do filme, as seqüências envolvendo Jason Robards como o pai do protagonista são invariavelmente decepcionantes por apostarem em metáforas desinteressantes. Em contrapartida, a notória cena da masturbação e o desfecho da história merecem destaque pela coragem do diretor-roteirista.

(A propósito: uma refilmagem está sendo produzida. Ai, ai.)

A próxima cena será publicada amanhã, no fim da tarde. Já a de hoje…

 

Entrevista com Murilo Salles

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Novos filmes, Personalidades | 1 comente

Confiram, abaixo, a ótima entrevista que o Renato Silveira, co-editor do Cinema em Cena, fez com o cineasta Murilo Salles sobre o filme Nome Próprio:

 


 

 

Entrevista com Helvécio Ratton

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Novos filmes, Personalidades | 3 comentários

Confiram, abaixo, as duas partes da ótima entrevista que o Renato Silveira, co-editor do Cinema em Cena, fez com o cineasta Helvécio Ratton sobre o divertidíssimo Pequenas Histórias, que já está em cartaz nos cinemas brasileiros:
 
 

Cena Misteriosa #07

postado em by Pablo Villaça em Cena misteriosa, Cinema | 15 comentários

Parabéns ao leitor Felipe Bertoni, o primeiro a identificar a sexta cena misteriosa como tendo saído de (Pi), primeiro longa-metragem do cineasta norte-americano Darren Aronofsky. Rodado em 16mm por apenas 60 mil dólares (que o cineasta levantou através de empréstimos feitos com familiares e amigos), o filme é uma inteligente ficção científica que não conta com efeitos visuais ou seqüências de ação, mas apenas com idéias muito bem desenvolvidas pelo roteiro co-escrito por Aronofsky, Eric Watson e Sean Gullette (que também protagoniza o projeto). Adotando um visual extremamente cru e uma montagem dinâmica que acentua o clima de paranóia (e que também marcaria o trabalho seguinte do cineasta, Réquiem para um Sonho), Pi é uma bela estréia que, em muitos aspectos, lembra bastante o brilhante Primer, ainda inédito no Brasil.
 
A cena de amanhã, sábado, será publicada no início da tarde (entre 13 e 15 horas, digamos). Já a de hoje sofrerá um atraso em sua publicação, já que, para minha surpresa, depois de capturar 50 segundos de Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead) e enviá-lo ao YouTube, recebi um email informando que ele fora bloqueado pela NBC Universal, que o identificara automaticamente como sendo de sua propriedade. Ao que parece, a Universal nunca ouviu falar do fair use, já que, legalmente, a utilização deste breve clipe não viola seus direitos autorais. Seja como for, serei obrigado a escolher e capturar outra cena. Fiquem de olho, pois ela entrará a qualquer momento aqui, neste post. Aqui está ela:
 

Heath Ledger

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Personalidades | 11 comentários

Com The Dark Knight prestes a bater todos os recordes possíveis de estréia (sessões da meia-noite; primeiro dia; três primeiros dias; primeira semana; etc) e considerando que boa parte da força do filme reside na performance magnética de Heath Ledger, a tragédia representada por sua morte precoce torna-se ainda mais presente e dolorosa. Por melhor ator que River Phoenix fosse (e era um grande ator), o fato é que não deixou nenhuma grande performance de herança para ser lançada após sua morte, em 1993 – e, ao pensar em Ledger, a única comparação apropriada que me vem à mente é mesmo com James Dean. Aliás, ao assistir a The Dark Knight, creio que pude experimentar um pouco da sensação de perda e lamento que certamente tomou conta daqueles que foram ver Juventude Transviada e Assim Caminha a Humanidade, em outubro de 1955 e novembro de 1956, respectivamente, quando novamente puderam constatar, nas telas, a dimensão da perda representada pela partida abrupta do ator. 
 
E, trazendo a situação para os dias de hoje, é impossível não pensar que Ledger certamente acordaria na segunda-feira como um astro de 20 milhões de dólares e com liberdade total para fazer o que bem entendesse em Hollywood.
 
Muito, muito triste.

Cena Misteriosa #06

postado em by Pablo Villaça em Cena misteriosa, Cinema | 29 comentários

O primeiro leitor a identificar (mesmo que no "chute") a Cena Misteriosa #05 foi Elvis "Wolvie", que respondeu O Orfanato, dirigido pelo espanhol Juan Antonio Bayona e produzido pelo mexicano Guillermo del Toro. Em minha crítica sobre o filme, escrevi:

"Enriquecido pelo brilhante design de som de Oriel Tarragó (devidamente premiado com o Goya), O Orfanato
aterroriza também graças aos rangidos, sussurros e outros ruídos que
parecem envolver o espectador e que se revelam fundamentais também numa
das seqüências mais angustiantes do filme: aquela que, protagonizada
por Geraldine Chaplin (numa ponta magnífica), nos leva a uma viagem
mediúnica pelo casarão através da montagem precisa que intercala planos
em infra-vermelho, imagens da planta baixa do imóvel e closes
sufocantes dos atores (aliás, esta seqüência rivaliza apenas com aquela
em que Bayona executa seguidas panorâmicas enquanto a protagonista faz um jogo infantil que parece atrair os fantasmas pouco a pouco)."
 
A próxima cena misteriosa será publicada nesta sexta-feira, dia 18, entre 18 e 19 horas. Já a cena de hoje…
 

Cena Misteriosa #05

postado em by Pablo Villaça em Cena misteriosa, Cinema | 25 comentários

Agora é oficial: o jogo da Cena Misteriosa tornou-se parte importante deste blog – e por isso decidi incluir, no quadro à direita, uma página incluindo objetivos, regras e os nomes dos acertadores de cada cena (com links para as mesmas). Também aproveitei para explicar por que fiquei tão animado com esta brincadeira. Em resumo:

1) É um passatempo divertido;

2) Representa mais uma forma de interação entre os leitores;

3) Permite que eu escreva com maior freqüência, mesmo que brevemente,
sobre filmes diferentes daqueles que chegam aos cinemas toda semana;

4) Funciona como uma espécie de "dica diária", já
que as cenas foram escolhidas por representarem trabalhos que me atraem
de alguma maneira (e mesmo filmes que considero "ruins" podem ter algum
atrativo).

Além disso, a partir de agora incluirei, em cada post da Cena Misteriosa, o horário aproximado em que a cena seguinte será divulgada, permitindo, assim, que os participantes visitem o blog mais ou menos ao mesmo tempo e aumentando a competitividade. Tongue out

Aliás, a Cena #06 será divulgada amanhã, quinta-feira, dia 17 de julho, entre 15 e 16 horas.

Já o primeiro acertador da cena passada foi o leitor Filipe Ferreira, que a identificou corretamente como tendo sido retirada de A Última Noite, comandado por Spike Lee em 2002. Embora goste do filme, este não se encontra entre meus favoritos do cineasta por motivos que explico em minha crítica. Por outro lado, a cena que divulguei do longa é minha favorita e, na época, escrevi sobre ela:

"A Última Noite possui,
no entanto, seus bons momentos – como aquele em que Norton protagoniza
um monólogo raivoso contra todos os grupos sociais, étnicos e
religiosos de Nova York (uma seqüência que, creio eu, estará presente
em todos os clipes produzidos sobre a carreira do ator)."
 
Já a cena de hoje…