Cinema

Cena Misteriosa #04

postado em by Pablo Villaça em Cena misteriosa, Cinema, Clássicos | 18 comentários

Mais uma vez, vocês foram rapidíssimos: meia hora bastou para que o leitor Jaime Grebmops se tornasse o primeiro a identificar Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia como a cena misteriosa #04 (aliás, eu não falei que o título era genial?). Este filme, aliás, é o meu favorito na obra de Sam Peckinpah – e reparem que estou falando do diretor de filmes como Meu Ódio Será Sua Herança e Sob o Domínio do Medo. O que me atrai em Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (adoro esse título!) é, em primeiro lugar, a caracterização crua de Warren Oates, que, colaborador recorrente de Peckinpah, ganhou, aqui, uma rara chance de protagonizar uma produção: alcoólatra e ganancioso, o músico/bartender Benny jamais compreende totalmente a dimensão da crueldade de seus oponentes na perseguição pelo objeto do título – e a crueza e o universo miserável concebidos pelo cineasta compõem com perfeição a realidade do personagem, desde os carros despedaçados dirigidos por todos (bom, quase todos) até os imundos quartos de hotel alugados pelo protagonista e por sua companheira, a prostituta cantora Elita (Isela Vega, dona de uma beleza comum e que aqui exala sensualidade barata). Aliás, escolhi esta cena para representar o filme porque creio que resume bem a mentalidade de Benny: ao descobrir que a companheira lhe passou "chato", ele reage sem qualquer espanto, apenas com um pequeno gesto que mistura impaciência e divertida resignação, já que certamente aquilo já acontecera algumas vezes. Anti-herói trágico, Benny percorre uma trajetória atípica rumo a uma rendenção que não vem de ações nobres, mas sim de intenções tortuosas que, ironicamente, estabelecem uma dinâmica complexa entre o sujeito e a cabeça que carrega num saco em seu carro semi-destruído. 
 
Único filme no qual Peckinpah teve direito irrestrito ao corte final, Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (que título!) foi um fracasso absoluto de crítica e público na época de seu lançamento, em 1974, embora eventualmente seu valor tenha sido resgatado e reconhecido.
 
Parabéns a todos que acertaram a cena e… vamos à de hoje, que é infinitamente mais fácil:
 

 

The Dark Knight

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Novos filmes | 63 comentários

Acabo de voltar da cabine de The Dark Knight. Uau. Na realidade, como disse o colega Carlos Quintão na saída do filme, são dois capítulos em um.

E Ledger… que desperdício terrível, morrer tão jovem. Sua performance neste longa deixa a de Jack Nicholson em Batman terrivelmente pálida e inofensiva. Sempre que está em cena, tememos o que este sujeito sádico e instável irá fazer – e quando não está, tememos o que está planejando. Aliás, esta é a diferença básica entre os Coringas de Ledger e Nicholson (e que serve, até certo ponto, para diferenciar os Batmans de Nolan e Burton): se este último divertia o espectador com sua irreverência, levando-nos a desejar mais tempo ao seu lado em tela, o primeiro simplesmente assusta, apavora, intimida. Sua presença não é um fator de entretenimento, mas sim algo incômodo, amedrontador. É como um desastre de carro que atrai uma atenção mórbida, levando-nos a olhar para os destroços ao mesmo tempo em que desejamos nos afastar dali.

Filme excepcional. E olha que já sou fã do primeiro.

Update: Nos comentários deste post, respondi duas dúvidas de leitores que possivelmente são compartilhadas por outros – e, assim, copio aqui as indagações e minhas respostas:

A propósito! As comparações com "O Poderoso Chefão", "Fogo Contra Fogo" e mais alguns clássicos procedem ou são exageradas?

Honestamente,
não consigo enxergar relação com "O Poderoso Chefão". E sobre "Fogo
Contra Fogo", há a polarização de Batman-Pacino x Coringa-De Niro, mas
as similaridades param por aí. Se eu tivesse que citar dois filmes com
referência a "The Dark Knight", pensaria em "Se7en" e "Clube da Luta",
já que o Coringa é uma mistura de John Doe e Tyler Durden, em minha
opinião.

Pablo, você acha que Dark Knight
pode se tornar o primeiro filme de super-herói a ser indicado para
melhor filme? E Ledger vai receber uma indicação póstuma? que outras
categorias o filme tem chance?

Muito cedo para dizer, mas
acho muito difícil que o longa vença o estigma de "filme de
super-herói", embora seja mais um drama policial do que qualquer outra
coisa (e a meia hora final, então, tem toques colossais de tragédia).
Já Ledger certamente tem chances por ter morrido.

Vejam bem:
acho, sim, que sua composição é digna de prêmios, mas normalmente a
Academia não indicaria um ator por interpretar um super-vilão. Neste
caso, porém, como será a última oportunidade de honrar o trabalho de
Ledger, pode acontecer. Mas a esta altura é impossível bater o martelo.

Cena Misteriosa #03

postado em by Pablo Villaça em Cena misteriosa, Cinema | 11 comentários

Poxa, a edição #02 da Cena Misteriosa não durou nem meia hora – antes disso, o leitor Marlonn DB já havia matado a charada: trata-se de Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos, que revelou Marcelo Masagão como um nome a ser lembrado. Aliás, tenho uma história curiosa com este filme: quando foi lançado, eu estava em São Paulo (não me lembro o motivo) e, certa noite, saí para ver um filme qualquer (qualquer mesmo; eu queria ir ao cinema, mas não tinha idéia sobre o que veria). Entrei no primeiro cinema pelo qual passei e, ao ler o título, decidi que tinha que vê-lo. Entrei na sala vazia e acomodei-me na poltrona, ainda sem saber direito o que aguardar. Pois bem: eis que começa uma estranha sucessão de imagens e letreiros e, distraído, julguei tratar-se de um inspirado vídeo publicitário. E aguardei pelo gancho final que o amarraria, revelando o nome da empresa que o patrocinara. Mais três ou quatro minutos se passaram e comecei a ficar inquieto: que raios de filme institucional seria aquele? Comecei a torcer para que não acabasse, pois estava fascinado pelo que via – e, então, com mais quatro ou cinco minutos, finalmente (e com um atraso que denuncia a lerdeza – ocasional, ok? – que me acomete, me dei conta de que aquele era o filme que eu pagara para ver). E simplesmente não consegui desgrudar os olhos da tela até que o delírio narrativo-filosófico de Masagão chegasse ao fim. Desde então, já aplaudi os documentários Nem Gravata Nem Honra e 1,99 – O Supermercado que Vende Palavras, que o cineasta lançaria posteriormente. E só não assisti a Otávio e as Letras porque… aliás, nem sei o motivo. Mas pretendo corrigir isto em breve.
 
Parabéns a todos os leitores que acertaram o filme.
 
E vamos à terceira cena – e se Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos tem um título maravilhoso, o nome da obra a seguir é igualmente inspirado. Aliás, mais: é um de meus títulos favoritos.
 

Cena Misteriosa #02

postado em by Pablo Villaça em Cena misteriosa, Cinema, Clássicos | 18 comentários

O primeiro leitor a acertar a brincadeira da Cena Misteriosa aqui no blog foi Alexandre R. Garcia, que identificou a cena #01 como tendo sido retirada do clássico francês Bob, o Jogador (Bob le flambeur), de 1956. Dirigido por Jean-Pierre Melville, que era fascinado pelo cinema norte-americano, Bob, o Jogador assume as convenções do noir embora as enriqueça com uma sensibilidade tipicamente francesa (para evitar confusão: ainda que tenha sido concebida pelos teóricos franceses, a expressão film noir se referia primordialmente a produções norte-americanas). Protagonizado por Roger Duchesne numa performance repleta de charme, o filme traz ainda a jovem Isabelle Corey como uma femme fatale (olha o francês aí de novo) absolutamente sedutora.

Admirado pelo pessoal da nouvelle vague, Melville (e este Bob, o Jogador em particular) acabou se tornando uma influência assumida para aqueles cineastas – e Godard, em especial, exibe seu fascínio pelo filme em seu próprio e seminal Acossado. Refilmado por Neil Jordan em 2002, como Lance de Sorte (The Good Thief, que trazia Nick Nolte como "Bob"), o longa de Melville permanece repleto de vitalidade e charme até hoje – e seu desfecho tremendamente irônico representa, por si só, um momento clássico da cinematografia francesa.

Dito isso, vamos à Cena Misteriosa #02:

 

O Poderoso Chefão 3

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos | 48 comentários

Depois de ler, pela milésima vez, alguém dizer em um fórum de discussão que O Poderoso Chefão 3 é "ruim", acabei me sentindo compelido a desabafar e a fazer um veemente protesto contra esta afirmação que se transformou em lugar-comum e que é terrivelmente equivocada.

Assim, copio aqui o que publiquei no tópico em questão, na comunidade da SET no Orkut:

"É um saco, isso: toda vez que falam da trilogia O Poderoso Chefao,
alguém tem que dizer que o terceiro é ruim. E desculpem se agora vou
escrever sem o cuidado habitual, mas estou deixando a "revolta"
extravasar sem estrutura ou cuidados maiores com a qualidade do texto.

Pois
OPC3 não é um filme medíocre. Ao contrário, é fantástico, com uma trama
absurdamente corajosa que envolve um dos maiores podres da Igreja
Católica: a morte mais do que suspeita de João XXIII João Paulo I (João XXIII foi outro papa fantástico). E é fascinante
perceber como cabe aos Corleone defender o papa mais humano que a
Igreja produziu – e que por isso mesmo passou a ser odiado por seus
colegas.

Mas não é só isso: sem a terceira parte, o arco
dramático de Michael Corleone ficaria incompleto – e perceber como os
sacrifícios que fez pelo pai viriam a transformá-lo de sujeito
humanista a monstro é algo tocante, trágico. Da mesma forma, ao
percebermos como Vincenzo se revela um amálgama de Michael, Sonny e
Fredo, com um toque de estrategista digno de Vito, constatamos a
riqueza do personagem.

Agora… sim, é fato que Sofia Coppola é
péssima atriz. Inegável. Mas também é verdade que sua atuação não é
determinante para o sucesso do filme; ela importa apenas como
provocadora das reações de Vincenzo e Michael.

Além disso, sua
personagem é fundamental para completar a riqueza temática da trilogia,
que estabelece uma grande metáfora sobre os próprios Estados Unidos – e
a trajetória da Família Corleone reflete, em muitos aspectos, a
política norte-americana e sua posição diante do resto do mundo ao
longo dos anos, desde sua promessa de futuro para imigrantes
desesperados até a tragédia do Vietnã, passando pela Grande Depressão,
a Segunda Guerra e a relação conturbada com Cuba e o Comunismo.

O que nos traz a Mary Corleone. Pela primeira vez, depois de décadas
atacando seus inimigos, estabelecendo a regra do jogo e apresentando-se
como líderes das 5 Famílias (não é à toa que Michael mata todos os
rivais para estabelecer-se), o que acontece no terceiro filme?

Alguém
da família Corleone é morto. Um civil. E isso abala muito mais o grande
e indestrutível Michael do que qualquer outra coisa poderia fazer. Ao
assassinar, mesmo que equivocadamente, alguém da "população civil", os
rivais dos Corleone finalmente levam a guerra para dentro da Família,
provocando a queda definitiva de Michael, que jamais se recupera.

Ora… que evento similar da história norte-americana poderia ser evocado a partir deste incidente?

O 11 de Setembro.

Não
estou dizendo, obviamente, que Puzo e Coppola eram "profetas". Digo
apenas que a inteligência da dupla é tamanha que previram, neste filme,
algo que seria inevitável: com a crescente interferência
norte-americana em questões internas de outros países, é claro que mais
cedo ou mais tarde os próprios EUA experimentariam ataques em seu solo
e que sangue civil seria derramado.

E a morte de Mary é a
referência a isso. Uma referência que se provaria acurada 12 anos
depois, fechando com perfeição a forma com que a trilogia retrata um
século da política e da sociedade norte-americana.

Chamar "O
Poderoso Chefão 3" de "fraco" é demonstrar incapacidade de compreender
sua complexidade temática, sua discussão política, sua coragem temática
ao explorar a corrupção da Igreja Católica e, principalmente, seu
brilhantismo narrativo ao amarrar, com todo o cuidado, os arcos
dramáticos de todos aqueles personagens."

Charles Joffe

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Personalidades | 5 comentários

Aumentando a lista de falecidos célebres do ano, Charles Joffe tinha 78 anos e foi produtor executivo de todos os filmes que Woody Allen dirigiu a partir de 1971, começando com Bananas e encerrando com o ainda inédito Vicky Cristina Barcelona.

Os filmes de nossas vidas

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos | 6 comentários

Roger Ebert pode até não ser o mesmo que era antes de suas múltiplas cirurgias (hoje ele tem uma tendência frustrante de gostar de quase tudo que vê), mas sua sensibilidade particular e seu olhar aguçado para a Humanidade se mantêm intocados. Há poucos minutos, ele publicou em seu blog (claro que assino o RSS) um post intitulado "Os filmes de nossas vidas" no qual discute, entre outras coisas, a maneira com que enxergou A Doce Vida, de Fellini, ao longo das décadas.

Traduzo:

"Vi A Doce Vida pela primeira vez em Londres, no verão de 1962, em um pequeno cinema no Piccadilly Square. Eu dei uma aula sobre ele, analisando-o quadro a quadro, na Universidade do Colorado, em Boulder, em 1972 e depois em 1982, 1992 e 2002, com um ano para mais ou para menos. Já o vi inúmeras outras vezes, mas aquelas exibições a cada década me ajudaram a medir a inexorável passagem do tempo.


Em 1962, Marcello Mastroianni representava tudo o que eu sonhava conseguir. Ele era um colunista de jornal; flertava com mulheres bonitas; ficava acordado a noite toda bebendo e festejando; percorria a cidade testemunhando incidentes interessantes; era um exausto (mas romântico) herói existencial.


Dez anos depois, ele representava o que eu tinha me tornado; ao menos até o limite em que Chicago oferecia as oportunidades de Roma. Dez anos depois disso, em 1982, ele era o que eu havia escapado de ser depois de ter parado de beber excessivamente e de destruir minha saúde. Em 1992, ele era um jovem impulsivo com uma fraqueza pelo romance. Já em 2002, era o herói de um filme clássico, com mais de 40 anos de existência, e que me obrigava a ensinar para o público as virtudes do preto-e-branco. A esta altura, Mastroianni estava morto.


E, ainda assim, o filme não mudou um quadro sequer em todos estes anos."

Belíssimo. E perfeito.

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