Cinema

Cultura pop nos filmes de Tarantino

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Vídeos | Comente  

O vídeo abaixo traz, em ordem cronológica (das referências, não dos filmes), todas as referências à cultura pop feitas por Tarantino em seus roteiros. Não é surpresa alguma perceber que a maior parte diz respeito a filmes, músicas e personalidades das décadas de 60 e 70.

Interessante.

Melhores Momentos de 2012 (ou série Você em Cena #42)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cinema em seu máximo, Série Você em Cena | 54 comentários

Desde 2009 venho tentando manter uma lista de momentos específicos que, para mim, poderiam resumir os filmes dos quais os retirei. Tratam-se de pequenos gestos, falas, movimentos de câmera, sequências particularmente memoráveis ou mesmo um único corte ou transição. (Confira as listas de 2009, 2010 e 2011.)

É claro que acabei me esquecendo de incluir vários títulos – e há outros que, embora lançados comercialmente em 2012, foram vistos no ano passado e possivelmente figuram naquela lista. Além disso, estou certo de que vocês certamente escolheriam outros momentos dos longas citados abaixo – e, por favor, não hesitem em incluir suas escolhas nos comentários deste post, aproveitando para citar também instantes de filmes que deixei de mencionar aqui.

Ah, sim: nem preciso dizer SPOILER ALERT, né?

Alguns dos Melhores Momentos que o Cinema Ofereceu em 2012

Em O Homem que Mudou o Jogo, Billy Neame se dedica a várias e rápidas negociações simultâneas enquanto tenta garantir a contratação de um jogador.

Na primeira noite que passam juntos, Chico toca piano para Rita, que dança sedutoramente em seu vestido amarelo, em Chico & Rita.

A corrida noturna do cavalo Joey ao lado, sobre e dentro das trincheiras em Cavalo de Guerra.

De maneira estudada, George Smiley promete que “fará seu melhor” para resgatar a russa Irina em O Espião que Sabia Demais embora já tenha ciência de que a moça foi morta pela KGB.

Holmes e Moriarty antecipam toda uma luta em suas mentes sem que, de fato, desfiram um golpe sequer em Sherlock Holmes 2.

A perseguição em plano-sequência pela cidade de Bagghar, em As Aventuras de TinTim.

O plano final de A Separação, que traz o casal em cantos opostos do quadro e separados por uma porta de vidro enquanto aguardam a decisão da filha.

Alessandra Negrini correndo na praia, molhada e em câmera lenta, em 2 Coelhos.

As logomarcas das empresas que patrocinaram Agamenon que surgem antes do início do filme e que nos despertam o desejo de boicotá-las pela atrocidade que viabilizaram.

Atormentado por enxergar-se incapaz de fazer a transição para o cinema sonoro, George Valentin chora cobrindo a própria boca em O Artista.

Lisbeth Salander vinga-se do assistente social que a estuprara, em Os Homens que Não Amavam as Mulheres.

O personagem-título de J. Edgar veste as roupas da mãe e se olha no espelho, entregando-se ao desespero por não conseguir se livrar de sua própria natureza.

Matt King se despede da esposa, em O Descendentes.

Apesar de ter sua vida destruída pelo filho, Eva permanece presa a ele, abraçando-o ao final de Precisamos Falar Sobre o Kevin.

Arthur Kipps, com uma corda amarrada à cintura, mergulha em um pântano para tentar descobrir o cadáver de uma criança, em A Mulher de Preto.

Em Poder Sem Limites, Andrew prende uma aranha através de telecinese e, depois de alguns segundos, arranca todas as suas pernas com a mente.

O plano de abertura de Shame, que já evoca o vazio no qual vive o protagonista e também sua incompletude como indivíduo.

O personagem-título enfrenta os macacos albinos na arena, em John Carter.

Heleno de Freitas cospe o remédio no rosto de seu enfermeiro, em Heleno, e este reage com uma impaciência repleta de um carinho comovente.

Rodrigo Santoro olha diretamente para a câmera, como o adoentado Heleno, e vemos os olhos vazios de vida do personagem.

Depois de enfeitar o corpo da jovem Rue, Katniss faz um gesto de reconhecimento e respeito para a câmera em tributo à menina e ao Distrito 11, em Jogos Vorazes.

Através de uma sequência de raccords, Wenders envelhece e rejuvenesce os dançarinos de Pina.

Desesperados diante de uma epidemia de gripe fatal que acomete uma tribo de índios, os irmãos Villas-Bôas se dão conta de que são os responsáveis pela tragédia, em Xingu.

As criaturas da floresta de Trúfulas cercam com pedras o tronco cortado de uma árvore em O Lorax.

Semi-nua diante de Matt, Mavis o convida para a cama dizendo apenas “Esconda-me”, em Jovens Adultos.

Um dos “Engenheiros” se posiciona na gigantesca cadeira de sua nave em Prometheus, remetendo à cena icônica de Alien, o Oitavo Passageiro.

A seca luta entre Gina Carano e Michael Fassbender em A Toda Prova.

A sequência inicial de Na Estrada, que mostra o prazer de Sal ao encontrar pessoas novas e prosseguir em sua jornada.

A protagonista de Valente percorre o reino sozinha e feliz, culminando na escalada de um paredão rochoso sob uma cachoeira.

Alfred chora diante dos túmulos da família Wayne em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

A perseguição pelos barracos suspensos na favela futurista de O Vingador do Futuro.

Robert Pattinson se submete a um exame de próstata enquanto discute questões de negócios (e filosóficas) com uma assistente em Cosmópolis.

Milla Jovovich acordando com apenas dois paninhos brancos cobrindo seu corpo em Resident Evil 5.

Driss apara a barba de Philippe divertindo-se no processo, em Intocáveis.

Lori chega em casa e encontra o ursinho Ted ao lado de quatro prostitutas e um presente no chão de seu apartamento.

Ma-ma despenca para a morte sob o efeito da droga slo-mo, observando todo o trajeto lentamente em Dredd.

Os jovens apaixonados de Moonrise Kingdom se casam num acampamento escoteiro e numa cerimônia comandada por um capelão improvisado.

Surpreso com a chegada da esposa e percebendo que seu cão segurava na boca uma camisinha usada, um dos maridos de Os Infiéis decide resolver a questão de maneira pouco prática.

Will Ferrell acerta um soco em um bebê, em Os Candidatos.

Assustado e confuso, o cãozinho Sparky (de Frankenweenie) retorna para o lugar no qual se sente confortável em seu pós-morte: o túmulo no qual foi enterrado.

Saltando em um vagão que se despedaça ao seu redor, James Bond encontra tempo para arrumar as abotoaduras em 007 – Operação Skyfall.

Entre lágrimas, mas com certo prazer sádico, Calvin datilografa ordens para sua namorada fictícia Ruby Sparks, que as cumpre em pânico.

Qualquer cena com Benicio Del Toro em Selvagens (menos a última, na qual ele aparece pateticamente regando o jardim).

A batalha final de Amanhecer Parte 2. Que não acontece de verdade. Ai, ai.

Depois de voltar a dançar, Dallas (Matthew McConaughey) entra no camarim com ar possuído, em Magic Mike, e grita “Dallas be riding again!”.

Em Marcados para Morrer, Brian, entre lágrimas, consegue dizer apenas “He was my brother” no funeral de seu parceiro Mike.

A conversa final entre Cogan e o advogado no bar, em O Homem da Máfia.

As imagens de arquivo de Gonzaga: De Pai pra Filho.

Pi é surpreendido por uma baleia durante a noite em As Aventuras de Pi.

O encontro entre Bilbo e Gollum, em O Hobbit, e o resultante duelo de charadas.

A cena de sexo para motion capture de Holy Motors.

Have Yourself a Movie Little Christmas

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Vídeos | 2 comentários

Os filmes de 2012

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Novos filmes, Vídeos | 4 comentários

A relação dos filmes incluídos pode ser lida aqui.

Ainda sobre o casamento Disney-Star Wars

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Variados | 4 comentários

Uma melhor do que a outra.

 

Os 105 closes mais belos do Cinema

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cinema em seu máximo, Vídeos | 33 comentários

Mostra de São Paulo 2012 – Balanço

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Premiações e eventos | 7 comentários

Poucas vezes senti tanto cansaço durante um evento quanto o que experimentei durante esta Mostra. Este, claro, foi um ano de muitas viagens (numa estimativa conservadora, passei mais de 4 meses na estrada) e o fato de a Mostra vir logo depois do Festival do Rio somou muito à exaustão. Ainda assim, consegui assistir a 51 filmes – provavelmente o meu menor número em uma década de evento – e comentei cerca de metade deles aqui no blog e no YouTube (clique aqui para visitar o canal). De modo geral, não senti grandes mudanças na Mostra em função da morte de Leon Cakoff, seu principal idealizador, o que me leva a concluir que sua viúva, Renata de Almeida, manteve tudo funcionando da melhor maneira possível – e os vários problemas de projeção ocorridos ao longo dos 14 dias devem ser atribuídos mais ao caos da falta de padronização da projeção digital do que à organização. (Neste sentido, vale apontar que nunca vi tantos filmes com projeções tão ruins que destruíam a fotografia através de tons e contrastes mal ajustados e de artefatos de compressão assustadores.)  Leia mais

Mostra de São Paulo 2012 – Dia 02

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos | 6 comentários

Abraços à aluna (e colega de profissão) Cecília Barroso, ao querido Anderson Galdino (também aluno) e ao Alexandre, que me entrevistou há muitos anos sobre o mestre Eduardo Coutinho – e obrigado por virem me cumprimentar durante a Mostra, pois é sempre bom bater papo nos intervalos do evento.

Mas ao trabalho.

5)    Parviz (Idem, Irã, 2012). Dirigido por Majid Barzegar. Com: Levon Haftvan.

Confira um breve comentário em vídeo sobre o filme clicando aqui. (4 estrelas em 5)

6)    Dente por Dente (Diente por diente, México, 2011). Dirigido por Miguel Bonilla. Com: Poncho Borbolla, Fernando Becerril, Vanessa Ciangherottti, Dario Ripoll, Ximena Ayala.

Confira um breve comentário em vídeo sobre o filme clicando aqui. (1 estrela em 5)

 

7)    Quando Vi Você (When I Saw You, Palestina, 2012). Dirigido por Annemarie Jacir. Com: Mahmoud Asfa, Ruba Blal, Saleh Bakri, Ali Elayan.

Confira um breve comentário em vídeo sobre o filme clicando aqui. (3 estrelas em 5)

 

8)    Kátia (Idem, Brasil, 2012). Dirigido por Karla Holanda.

Confira um breve comentário em vídeo sobre o filme clicando aqui. (2 estrelas em 5)

 

9)    Super Nada (Idem, Brasil, 2012). Dirigido por Rubens Rewald. Com: Marat Descartes, Clarissa Kiste e Jair Rodrigues.

Confira um breve comentário em vídeo sobre o filme clicando aqui. (1 estrela em 5)

 

10)    Reality (Idem, Itália, 2012). Dirigido por Matteo Garrone. Com: Aniello Arena, Loredana Simioli, Nando Paone, Nello Iorio, Raffaele Ferrante, Nunzia Schiano, Rosaria D’Urso, Giuseppina Cervizzi.

Quatro anos depois de ganhar renome graças ao seu ótimo Gomorra, o cineasta italiano Matteo Garrone retorna ao Cinema com este igualmente envolvente Reality – que, completamente diferente de seu trabalho anterior em tema, abordagem e tom, discute com eficiência a natureza superficial dos conceitos de “celebridade” e “fama” a partir de uma história divertida que, aos poucos, revela uma surpreendente melancolia subjacente.

Escrito a oito mãos pelo diretor ao lado de Ugo Chiti, Maurizio Braucci e Massimo Gaudioso (todos co-autores de Gomorra), o roteiro acompanha o vendedor de peixes  Luciano (Arena), que, pai de família e marido dedicado, dá pequenos golpes para complementar a renda de casa. Considerado pelos parentes como uma espécie de palhaço da família, ele acaba conhecendo em uma festa o ex-BBI (Big Brother Itália?) Enzo (Ferrante), que, famoso graças à sua participação na versão italiana do programa, participa de eventos nos quais insiste em repetir seu bordão “Never give up!” (em inglês, mesmo). Cedendo à insistência da filha para fazer um teste para a próxima edição do Big Brother, Luciano acaba se convencendo de que está sendo observado pelos organizadores do programa em seu cotidiano, entregando-se a uma paranoia absurda enquanto encena uma versão de si mesmo para conquistar os tais produtores imaginários.

Primo temático de O Rei da Comédia, já que as ilusões e ambições de Luciano remetem bastante às do Rupert Pumpkin de Robert De Niro naquela obra de Scorsese, Reality faz a primeira de suas várias observações críticas a partir das aparições pontuais de Enzo, que parece viver numa constante tour autopromocional embalada por sua frase genérica e tola e por uma persona festeira absurda, pintando sua vida de celebridade como algo que traz baladas e superficialidade como substitutas de felicidade e substância. Sujeito medíocre e sem talento, Enzo é, assim, a encarnação de toda uma cultura de fama que transforma em ídolos figuras como Paris Hilton, Narcisa Tamborindeguy e Honey Boo Boo (pesquisem no YouTube; é deprimente demais para explicar aqui), que inexplicavelmente dominam capas de revista e ganham horas e horas de exposição na televisão embora nada tenham a oferecer de concreto à sociedade além de um espetáculo particular de egocentrismo e alienação.

Assim, não é à toa que Enzo contraste tanto com o protagonista, que trabalha de sol a sol e construiu uma vida perfeitamente feliz mesmo enfrentando todas as dificuldades do cotidiano de uma família humilde – e Garrone e seu designer de produção Paolo Bonfini ressaltam esta alegria através dos ambientes coloridos e agradáveis que compõem a vizinhança e as residências de Luciano e seus parentes. (Neste sentido, aliás, a escalação do elenco, com seus tipos físicos marcantes, remetem também a um universo quase felliniano, o que se mostra bastante apropriado diante da temática do longa.) Porém, o elemento fundamental da narrativa, justamente por destacar a trajetória destrutiva da busca pela fama, é mesmo a atuação magistral de Aniello Arena, que transforma Luciano em um homem sempre alegre e carinhoso que, aos poucos, perde de vista as prioridades que realmente o faziam feliz – e é digno de nota que o ator seja, na realidade, um ex-matador da Máfia que se encontra cumprindo pena de prisão perpétua há 20 anos, já que isto não poderia contrastar mais com a natureza calorosa do personagem (Garrone conseguiu permissão para que Arena deixasse a prisão durante o dia para rodar o filme).

Tecnicamente ambicioso, Reality ainda impressiona pelos vários planos-sequência memoráveis criados pelo diretor e por seu diretor de fotografia Marco Onorato, começando já com aquele que abre o filme e que, de uma visão aérea de Nápoles, passa a acompanhar de perto uma carruagem que anacronicamente percorre as ruas da cidade – uma lógica visual que amarrará a narrativa com o plano final, criando uma rima temática admirável. Além disso, Garrone é hábil ao sugerir a natureza paranoica de Luciano através de uma profundidade de campo pequena em vários instantes, quando elementos fora de foco parecem observar o sujeito à distância, e pela utilização de quadros que sugerem o próprio posicionamento das câmeras de um reality show.

Construindo ainda uma relação metafórica entre religião e fama através dos eventos retratados no terceiro ato, que parecem sugerir (acertadamente) que a celebridade é uma obsessão quase religiosa nos dias de hoje, quando, além disso, elevamos ao posto de semi-deusas criaturas como Neymar e (oh, Deus) Michel Teló, Reality é uma obra inteligente, engraçada e profundamente relevante. (4 estrelas em 5)

 

11)    A Memória que me Contam (Idem, Brasil, 2012). Dirigido por Lúcia Murat. Com: Ireve Ravache, Simone Spoladore, Clarisse Abujamra, Hamilton Vaz Pereira, Miguel Thiré, Patrick Sampaio, Naruna Kaplan de Macedo, Otávio Augusto, Franco Nero, Zécarlos Machado, Fernando Bezerra, Babu Santana.

Embora a Comissão da Verdade seja uma boa (mas ainda frágil) iniciativa, é inexplicável que o Brasil, quase 30 anos depois do fim da ditadura, ainda não tenha feito um esforço real para apurar os crimes cometidos pelos militares durante aquele período pavoroso de nossa história recente, punindo-os exemplarmente. Ao contrário do que alguns oficiais covardes já na reserva insistem em dizer, não se trata de “revanchismo” (mesmo porque a “revanche” já foi conquistada nas urnas), mas de justiça e de cicatrização de feridas que insistem em sangrar. Não é à toa que tantos jovens no Brasil mostram um viés perigosamente reacionário, apontando a luta revolucionária como “terrorismo” (termo usado, vejam só, pela Ditadura), já que, ao contrário do que ocorreu em países-irmãos como Chile e Argentina, que dividiram aquelas barbaridades conosco, os militares brasileiros que assassinaram centenas de jovens friamente (muitos deles já presos) jamais foram expostos e punidos, o que cria uma atmosfera de inocência (ou apenas de “danos colaterais da guerra”) injusta e perigosa. Isto para não mencionarmos a importância do processo para a cicatrização emocional e psicológica de toda uma geração – algo que a cineasta Lúcia Murat trata com sensibilidade ímpar neste seu belíssimo A Memória que me Contam.

Escrito por Murat ao lado de Tatiana Salem Levy, o longa é uma homenagem aberta à ex-guerrilheira Vera Sílvia Magalhães, que aqui ganha o nome de Ana e move a narrativa ao entrar em coma em função de uma série de problemas de saúde. Levada a rememorar a juventude revolucionária ao lado da amiga, a cineasta vivida por Irene Ravache passa a manter conversas imaginárias com a versão jovem de Ana (Spoladore) enquanto, ao lado de vários ex-companheiros, visita o hospital no qual a adoentada mulher se encontra. Enquanto isso, o filho da protagonista, o artista plástico Duda (Thiré), prepara uma nova instalação e volta a se encontrar com Chloe (Macedo), uma amiga de infância que também teve em Ana a figura de uma tia excêntrica, problemática, mas sempre divertida.

Claramente funcionando também como um exercício terapêutico para Murat, A Memória que me Contam representa uma narrativa quase metalinguística em sua abordagem das lembranças da(s) cineasta(s) (a real e a imaginária): em certo momento, por exemplo, ao trazer Irene Ravache comparando uma foto de Simone Spoladore à de sua personagem na juventude, a diretora parece representar a própria busca por uma atriz que pudesse encarnar a amiga Vera no longa, como se procurasse um avatar da versão jovem da companheira que, por sua vez, lhe permitisse um reencontro e um abraço terapêutico – mesmo que este abraço, por sua vez, fosse dado por sua própria versão cinematográfica vivida por Ravache. Da mesma maneira, é fascinante observar como Spoladore, graças aos figurinos e à fotografia de Guillermo Nieto, surge sempre em um tom sépia, como se fosse uma polaroide ambulante que representasse, com sua própria figura, a nostalgia de um tempo de luta que, mesmo dolorido, trazia sonhos libertários e utópicos que indicavam uma ingenuidade há muito perdida.

Marcada pelas barbaridades sofridas na ditadura (algo que, com dor – mas orgulho -, vejo em minha própria família, que inclui torturados pelo regime), Ana é, ao seu próprio modo, uma figura tão marcada quanto o Frei Tito homenageado pelo excepcional Batismo de Sangue de Helvécio Ratton: alguém que perdeu nos porões da Ditadura a capacidade de enxergar o mundo com inocência ou, no mínimo, sem ansiedade – e, assim, é perfeito que Murat só exiba a versão jovem de Ana, deixando sua carcaça desiludida e envelhecida fora de campo e apropriadamente na UTI, transformando a figura bela e jovial de Spoladore num fantasma que representa, assim, todos os mortos (física ou psicologicamente) da ditadura.

Trazendo um elenco que não conta com um único elo frágil e no qual se destacam a excelente Ravache, a evocativa Spoladore e os jovens Miguel Thiré e Naruna Kaplan de Macedo, A Memória que me Contam só soa a ficção absurda quando traz jornalistas cobrando do Ministro da Justiça um posicionamento rápido sobre a abertura dos arquivos da ditadura – já que, na realidade, o único momento no qual a velha mídia se interessou de fato pelo assunto foi ao buscar elementos no passado de nossa atual presidenta que pudessem prejudicá-la durante sua campanha (basta lembrarmos da ficha falsa publicada pelo maior jornal do país, a Foxlha de São Paulo). Além disso, do ponto de vista técnico o longa fascina também pelo seu magnífico desenho de som, que muitas vezes traz sussurros do passado (“Somos revolucionários!”) ecoando nos atos presentes, e pela montagem fluida que ilustra a interação da jovem Ana com seus companheiros agora envelhecidos de maneira brilhante.

Homenagem não só à Vera Sílvia, mas a todos que enfrentaram a ditadura e foram por ela destruídos, A Memória que me Contam é uma pequena obra-prima que toca não só por seus méritos artísticos, mas também políticos. “Eu estou sobrevivendo a mim mesma”, diz Ana em certo momento, reconhecendo sua dificuldade em permanecer viva e funcional após as barbaridades sofridas. Pois este filme representa um bem-vindo abraço de conforto a todos que dividem com ela este sentimento. (5 estrelas em 5)

Mostra de São Paulo 2012 – Dia 01

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos | 4 comentários

Abraço aos alunos Fernando, Rafael e Bruno, que vieram me cumprimentar durante a correria inicial.

A Mostra, aliás, começou problemática. Já a primeira sessão da sexta-feira, Parviz, foi interrompida aos 10 minutos por problemas na legenda em português, já que não havia eletricidade na sala que permitisse o funcionamento da legendagem eletrônica. Depois de quase 20 minutos, a sessão foi reiniciada, mas apenas com legendas em espanhol, o que espantou muitos espectadores (o que foi uma pena, já que o filme é ótimo). Mais tarde, a sessão de Dente por Dente teve a imagem congelada por cerca de um minuto enquanto a péssima cópia (do péssimo longa) travava por algum motivo inexplicável. Mas o cúmulo aconteceu mesmo na última sessão da noite: iniciada já com atraso de 15 minutos, a projeção de No trazia apenas legendas em inglês e, assim, depois de 15 minutos foi interrompida para que pudesse ser corrigida.

Vinte minutos depois, recebemos a informação de que a cópia digital não trazia legendas e que o projecionista havia montado rapidamente o rolo da versão em película para projetá-la. Ao ouvir isso, imediatamente pensei em duas coisas: 1) Montou “rapidamente”? Vai dar merda; e 2) Se eles já estavam com os rolos no cinema, por que não os montaram com antecedência, optando, como seria o correto, por projetar a película em vez do digital?

Seja como for, eventualmente a projeção reiniciou – e, uma hora depois, Gael García Bernal surgiu subitamente de cabeça para baixo na tela. “Claro.”, murmurei imediatamente. Mais uma vez a sessão foi interrompida para que o rolo pudesse ser remontado, obrigando o público a esperar por cerca de 40 minutos para retornar à história. Ao final, boa parte do público foi embora – e os que ficaram saíram do Reserva Cultural às 2 da manhã, quando o horário previsto para o término do filme era 00h30.

Mas falarei sobre No, Parviz Dente por Dente amanhã. Por enquanto…

1)    Mosquita e Mari (Mosquita y Mari, EUA, 2012). Dirigido por Aurora Guerrero. Com: Fenessa Pineda, Venecia Troncoso, Joaquín Garrido, Laura Patalano, Dulce Maria Solis, Marisela Uscanga, Melissa Uscanga.

Projeto de cunho claramente pessoalmente para a roteirista e diretora estreante Aurora Guerrero, Mosquita e Mari é um filme que merece pontos pela delicadeza com que retrata a relação entre as duas personagens-título, embora perca vários outros pela falta de foco da narrativa e pela dinâmica muitas vezes artificial estabelecida pelas fracas atrizes.

Ambientado numa vizinhança latina de Los Angeles, o longa traz diálogos que saltam fluidamente entre o inglês e o espanhol, o que colabora para retratar a importância das raízes culturais para aquelas pessoas, que, mesmo migrando em busca de uma vida melhor, mantêm seus países de origem na mente não apenas como lembrança do passado difícil que tiveram, mas também – e, de certa forma, paradoxalmente – como motivo de orgulho, como algo digno de ser preservado. Assim, quando a jovem Yolanda (Pineda), aluna exemplar, começa a tirar notas um pouco menores (“pouco” mesmo: de 100%, ela cai para 92%), um verdadeiro alerta vermelho soa nas mentes de seus pais, que enxergam na formação acadêmica a possibilidade definitiva de um futuro melhor para a filha.

Imaginando que a queda de rendimento se deve a uma paixonite por algum rapaz da escola, os pais de Yolanda sequer vislumbram a possibilidade real: depois de formar uma sólida amizade com a nova vizinha e colega de sala, Mari (Troncoso), Yolanda (apelidada de “Mosquita” pela outra) começa a desenvolver sentimentos ainda mais fortes pela amiga – e a confusão eventual que ambas experimentam diante desta descoberta é ilustrada com sensibilidade por Guerrero. Por outro lado, até que cheguemos a este ponto, Mosquita e Mari mergulha numa estrutura frouxa e repetitiva que consiste em trazer briguinhas entre as moças que são eventualmente resolvidas apenas para cederem lugar a novos desentendimentos. Para piorar, a fragilidade técnica de Fenessa Pineda e Venecia Troncoso não encontra compensação na espontaneidade que a falta de experiência poderia trazer para suas performances – e, assim, o filme sofre especialmente em sua primeira metade, quando as garotas ainda estão se aproximando uma da outra.

Pontuando a projeção com imagens recorrentes do céu da vizinhança (com suas várias torres de iluminação em contraluz) mergulhado em cores intensas que oscilam entre o laranja e o azul, a obra parece querer dizer muito sobre a história daquelas pessoas, mas falha pela maneira difusa com que a aborda. Assim, embora percebamos certa melancolia por parte dos pais de Yolanda (especialmente num belo plano no qual eles aparecem refletidos na tevê desligada), o roteiro não se preocupa em investir na questão, criando a base de uma possibilidade dramática que jamais se realiza de fato.

De todo modo, se há um aspecto no qual Mosquita e Mari se revela eficiente é na forma com que retrata a afeição entre as moças a partir da segunda metade da projeção, quando, então, elas criam um elo que, infelizmente, só se mostra possível em amizades forjadas na juventude, quando tudo parece eterno e inquebrável. E por sabermos que nenhuma destas duas características se revelará verdadeira, o filme evoca uma nostalgia melancólica que se revela seu principal (mesmo que pequeno) triunfo. (2 estrelas em 5)

 

2)    Aqui e Ali (Aquí y allá, México, 2012). Dirigido por Antonio Méndez Esparza. Com: Pedro De los Santos, Teresa Ramírez Aguirre, Lorena Guadalupe Pantaleón Vázquez, Heidi Laura Solano Espinoza.

O Novo Cinema romeno tem influenciado claramente os realizadores latinos nos últimos anos: construindo suas narrativas através da observação cuidadosa do cotidiano de seus protagonistas ao empregar planos longos e estáticos que praticamente compõem cada nova cena, estes filmes se limitam aos sons diegéticos enquanto contam histórias profundamente humanas que se revelam complexos estudos de personagens. Assim, A Morte do Sr. Lazarescu e 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias podem, de certa maneira, ser considerados tios de obras como os excelentes Depois de Lúcia e este Aqui e Ali.

Trabalho de estreia de Antonio Méndez Esparza na direção e roteirização de longas, o filme tem início com o rosto ansioso de Teresa (Aguirre), que aguarda a chegada do marido Pedro (De los Santos) depois de anos de distância enquanto este residiu em Nova York para juntar algum dinheiro para a família. Enfrentando certa frieza inicial por parte das duas filhas, que o tratam quase como um estranho, Pedro aos poucos vai reconstruindo sua vida na comunidade enquanto tenta emplacar uma banda com o irmão e alguns amigos, já que investiu, para isso, em caros instrumentos. Mas uma nova gravidez e as dificuldades do cotidiano em uma sociedade miserável cobram seu preço.

Como já é fácil constatar apenas pela observação de que os atores vivem personagens que trazem seus nomes reais, Aqui e Ali é uma produção que flerta intimamente com o documental – e até ler os nomes completos dos atores nos créditos finais, confesso ter imaginado que aquela se tratava de uma família real (o que, claro, é mérito da naturalidade com que a dinâmica entre os atores é construída). Além disso, o elenco secundário, povoado por rostos comuns e não-atores, confere verossimilhança inegável à narrativa, sugerindo até mesmo que várias das interações vistas ao longo da projeção resultam de improvisos inspirados por incidentes verídicos – como no momento, por exemplo, em que Pedro visita a mãe de um amigo que morreu quando residia ilegalmente nos Estados Unidos.

Aproximando o espectador daquelas pessoas justamente pela abordagem simplista que não teme em criar planos extensos e que incluem demorados momentos de silêncio que revelam a incapacidade dos personagens de verbalizarem o que sentem, o filme é inteligente também ao adotar uma estratégia intrigante na longa e angustiante sequência envolvendo a passagem de Teresa por um hospital: vistos sempre de costas, os funcionários da instituição surgem como figuras impessoais que expõem, assim, a impotência do protagonista diante da sociedade. Da mesma forma, a montagem final, que traz diversos pontos do lugarejo ao som de uma canção executada por Pedro, apresenta-se tocante por ressaltar a ausência dolorosa do sujeito.

No entanto, o que torna Aqui e Ali realmente especial é sua eficiência ao retratar aquela humilde família, que, mesmo enfrentando inúmeras dificuldades, revela a mais sincera e pura alegria nos instantes em que todos se encontram juntos à mesa do jantar ou sentados na sala enquanto Pedro toca uma canção para as filhas. Além disso, a dura realidade do sujeito e seus esforços contínuos para manter a família comovem pela perseverança que o protagonista demonstra – e seu tom de voz tranquilo e amoroso comunica mais do que as palavras que saem de sua boca. Com isso, o sacrifício extremo de ter que abandonar a família para salvá-la é algo que, ao final da projeção, sentimos claramente, compreendendo a dor, a coragem e o amor de homens e mulheres que arriscam tudo por um pouco que, para eles, pode fazer toda a diferença do mundo. (5 estrelas em 5)

 

3)    Por Enquanto (Meanwhile, EUA, 2011). Dirigido por Hal Hartley. Com: D.J. Mendel, Danielle Meyer, Chelsea Crowe, Miho Nikaido, James Rich, Hoji Fortuna, Scott Shepherd, Christine Holt, Stephen Ellis, Anais Borck, Soraya Soi.

Primeiro filme do cineasta norte-americano Hal Hartley desde seu Fay Grim, de 2006, Por Enquanto é uma breve experiência que, ao longo de apenas 58 minutos, nos apresenta a um personagem fascinante e a 24 horas incrivelmente atarefadas de sua vida. Capturado em digital nas ruas de Nova York, o trabalho traz D.J. Mendel, colaborador habitual do cineasta, como o intrigante Joseph, que já na primeira cena surge consertando um encanamento enquanto abandona o apartamento que dividia com uma belíssima jovem. A partir daí, o sujeito percorre a cidade enquanto faz teste para ser o baterista de uma banda, discute um ambicioso plano de negócios com um banqueiro, tenta descongelar sua conta bancária e ajuda meia dúzia de estranhos pelo caminho.

Sim, pois Joseph, além de cineasta, escritor, baterista e aspirante a empresário, é um faz-tudo capaz de consertar qualquer máquina, possuindo um temperamento que o leva a estar sempre disponível para auxiliar o próximo. Dono de uma ética particular curiosa, ele é incapaz de aceitar pagamento pelos serviços que presta – e mesmo quando se vê tentado a cometer algum erro, como saltar a roleta do metrô ou pegar 40 dólares na bolsa de uma ex-namorada rica, acaba seguindo a própria consciência, evitando ou confessando o delito imediatamente.

Vivido com imenso carisma por Mendel, o protagonista é, em suma, um homem engajado com o mundo ao seu redor e empenhado em realizar algo que o faça se sentir importante – uma concessão ao ego que não o impede de pensar constantemente no próximo. Aliás, é recompensador ver um personagem que não se limita a dizer diálogos funcionais, mas que mantém conversas envolventes com figuras de todos os tipos, ouvindo o que têm a dizer e promovendo discussões que oscilam entre o trivial e o profundo, apresentando-se sempre honestas.

Surpreendentemente denso e ambicioso para um filme tão curto, Por Enquanto é um dos melhores trabalhos de um diretor já conhecido por seu inquestionável talento e por sua maturidade cada vez maior. (4 estrelas em 5)

 

4)    A Bela que Dorme (Bella addormentata, Itália, 2012). Dirigido por Marco Bellocchio. Com: Toni Servillo, Isabelle Huppert, Alba Rohrwacher, Michele Riondino, Maya Sansa, Pier Giorgio Bellocchio, Brenno Placido, Gianmarco Tognazzi, Carlotta Cimador.

Não sou um grande fã do cineasta italiano Marco Bellocchio e, assim, não me espanta que em seu novo filme ele tente abordar uma questão tão complexa quanto a eutanásia sem conseguir de fato dizer algo de relevante sobre o assunto, optando pelo melodrama, pela caricatura e pela pretensão em vez de explorar o tema que ele mesmo escolheu como pano de fundo para a narrativa.

Ambientado em fevereiro de 2009, quando a Itália parou para acompanhar o desfecho do caso de Eluana Englaro (uma mulher que, depois de permanecer 17 anos em coma, morreu quando seu pai solicitou autorização à justiça para desligar os aparelhos que a mantinham viva), A Bela que Dorme é, em sua superfície, uma discussão sobre a eutanásia – e, para isso, o roteiro escrito por Bellocchio, Veronica Raimo e Stefano Rulli conta três histórias paralelas relacionadas direta ou indiretamente com a situação de Eluana. No primeiro, um senador que se encontra em seu primeiro mandato (Servillo, sempre excelente) se vê forçado por seu partido a votar pela manutenção da vida da paciente, o que vai de encontro às suas crenças particulares e algo que já o fez entrar em conflito com a filha Maria (Rohrwacher), católica devota e que, durante a vigília pela vida de Englaro, se envolve com um rapaz (Riondino) que defende a eutanásia. Já a segunda trama acompanha uma célebre atriz (Huppert) que abandonou a carreira para cuidar da filha em coma, negligenciado o marido e o filho no processo. Para encerrar, conhecemos o médico Pallido (Bellocchio, filho do diretor), que salva uma estranha (Sansa) do suicídio, decidindo manter-se ao pé de sua cama enquanto ela permanece sedada.

Inicialmente adotando uma estrutura entrecortada que alterna entre as várias histórias enquanto ainda mergulha em flashbacks ocasionais, a montagem de Francesca Calvelli é hábil ao costurar a narrativa gradualmente, eventualmente colocando sentido em todas as subtramas e saltando de forma fluida entre estas. Infelizmente, mesmo que compreendamos as motivações e os conflitos de todos os personagens, estes se revelam tolos ou artificiais em sua maioria – e as passagens envolvendo o médico são particularmente ineficazes pela falta de verossimilhança da situação e da motivação vazia do sujeito (e a natureza agressiva e fria da paciente não ajudam). Da mesma maneira, o fanatismo religioso da atriz encarnada por Huppert mantem-se em uma só nota, não indo a lugar algum, o que nos deixa apenas com as sequências que giram em torno do senador de Toni Servillo, que, angustiado em função da decisão que deverá tomar e também ansioso por não conseguir falar com a filha, experimenta horas de absoluta tensão e desconforto. Além disso, as passagens relacionadas ao político contam também com o melhor personagem do longa: um psiquiatra que, atendendo os senadores, tece comentários precisos sobre a natureza da política e do fascínio pela notoriedade.

Mas, afinal, o que Marco Bellocchio quer dizer através de seus personagens? Há, como não poderia deixar de ser, uma presença constante de símbolos e interesses religiosos em todas as narrativas – e a intensidade com que Huppert obriga suas enfermeiras/freiras a rezar indica uma tentativa desesperada de se fazer ouvir por Deus mesmo que através do grito -, mas nem mesmo a influência da Igreja sobre a política vai além de um ou outro comentário sobre o que o papa tem a dizer sobre o assunto. Neste aspecto, diga-se de passagem, o comentário mais interessante é feito (mais uma vez) por Servillo, que aponta como ele, um descrente, tentou de todas as formas manter viva a esposa doente, ao passo que esta, católica fervorosa, pedia para morrer, num paradoxo aparente que aponta para a complexidade moral da questão. E não é à toa que Maria, supostamente tão dedicada à sua causa e ao seu Deus, não hesita em abandonar a vigília para encontrar o homem pelo qual se apaixonou, indicando um impulso de dar prosseguimento à vida que, ela se recusa a perceber, é negado à moça em estado vegetativo que ela egoistamente tenta manter presa aos aparelhos.

Beirando o patético em algumas escolhas narrativas inexplicáveis (como a insistência em incluir uma trilha incômoda sempre que o dr. Pallido encontra-se mergulhado em reflexões e que é interrompida subitamente quando cortamos para outro personagem), A Bela que Dorme no máximo se diverte com a contradição entre pacientes comatosas que interrompem a existência dos vivos ao seu redor e a viciada cuja sedação é condição para mantê-la viva. Mas até isso é atirado no lixo eventualmente para que Bellocchio possa retornar aos diálogos vazios que, como seu próprio filme, não dizem absolutamente nada de relevante. (2 estrelas em 5)

Festival do Rio 2012 – Dia 14

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos | 7 comentários

Ao longo dos 14 dias do Festival do Rio, assisti a 54 filmes (um a mais do que em 2011) e escrevi um total de 25.583 palavras, somando 48 páginas de texto. Concluo, aqui, esta cobertura.

50)    A Quinta Estação (La cinquième saison, Bélgica/Holanda/França, 2012). Dirigido por Peter Brosens e Jessica Woodworth. Com: Aurélia Poirier, Django Schrevens, Sam Louwyck, Gill Vacompernolle, Peter Van Den Begin, Bruno Georis, Nathalia Laroche, Veronique Tappert, Robert Colinet.

Em uma pequena vila belga, os cidadãos se reúnem ao fim do inverno para uma cerimônia tradicional na qual queimarão um boneco de palha para marcar o fim da estação. No entanto, quando inexplicavelmente a fogueira se recusa a acender, o lugarejo se vê preso no frio – e à medida que as sementes deixam de germinar, as vacas cessam a produção de leite, as abelhas morrem e as árvores despencam com suas raízes abandonando o solo, aquelas pessoas se transformam radicalmente, abandonando qualquer sinal da cordialidade que antes marcava suas relações.

Escrito e dirigido por Peter Brosens e Jessica Woodworth, A Quinta Estação busca, assim, funcionar como uma alegoria que analisa a natureza humana em condições extremas, mas o fato é que, desde o princípio, os personagens criados pela dupla já não soavam particularmente críveis ou razoáveis, sabotando o propósito principal da narrativa. Além disso, os diálogos muitas vezes impenetráveis em sua pretensão (“É preciso muito caos interior para dar à luz uma estrela que dança”) tornam a experiência frustrante e mesmo entediante.

Por outro lado, a bela fotografia de Hans Bruch Jr. consegue evocar a frieza pós-apocalíptica daquele universo sem, com isso, tornar-se óbvia, ao passo que os planos constantemente centralizados criados pelos diretores se revelam elegantes na maior parte do tempo. Enquanto isso, a decisão de utilizar planos que em sua duração média certamente ultrapassam os 60 segundos apresenta-se certeira por auxiliar na tarefa de sugerir uma lenta e impiedosa passagem do tempo.

Infelizmente, os bons elementos técnicos e as locações marcantes são desperdiçados pelo roteiro tolo, que, no máximo, investe em extremos para tentar criar um contraste que transmita a mensagem pretendida pelos cineastas: se no início vemos um homem tentando levar seu galo a cantar, mais tarde o mesmo quadro é repetido, mas com o galo morto; se a princípio os jovens vividos por Poirier e Schrevens dividem um primeiro beijo casto, posteriormente ela se vende por comida enquanto ele parte ressentido – e tudo isso soa maniqueísta e artificial demais para provocar algum impacto sobre o público.

No meio de tudo, porém, resta a participação menor de Sam Louwyck, que, mesmo preso aos diálogos atrozes, consegue criar um personagem simpático e espontâneo em meio à unidimensionalidade que o cerca, sugerindo um carinho pelo filho deficiente que termina por desempenhar a única âncora emocional de todo o projeto. (2 estrelas em 5)

 

51)    Aí Vem o Diabo (Ahí va el diablo, México, 2012). Dirigido por Adrián García Bogliano. Com: Laura Caro, Francisco Barreiro, Michele Garcia, Alan Martinez, David Arturo Cabezud, Enrique Saint-Martin, Giancarlo Ruiz.

(Zoom rápido em minhas mãos enquanto começo a digitar este texto.)

O diretor e roteirista espanhol Adrián García Bogliano precisa resolver suas questões sexuais em intensas sessões de terapia antes de realizar outro filme. Sim, faz parte da temática recorrente do gênero terror adotar uma visão muitas vezes moralista sobre sexo (não é à toa que a mocinha virgem/recatada costuma sobreviver), mas o que Bogliano faz neste Aí Vem o Diabo ultrapassa qualquer limite ao constantemente associar o sexo ou o desejo sexual à perversão, à tortura, à violência e à morte (isto para não mencionar que também ao diabo).

(Zoom rápido no diabo.)

Contando a história de um casal que, durante uma viagem, permite que os filhos se aventurem sozinhos numa pequena colina apenas para se desesperarem quando as crianças desaparecem, o filme passa a plagi… homenagear Vampiros de Almas quando os jovens Adolfo e Sara retornam diferentes da noite passada na montanha. Aos poucos, seus pais passam a desconfiar de um trauma sexual, resultando num ato violento de vingança que… bom, nada tem a ver com a trama principal do filme e que é incluída apenas para adicionar mais algum gore à produção. Finalmente, a mãe dos jovens decide investigar o que realmente aconteceu naquela noite e faz uma descoberta chocante.

(Zoom rápido no choque da mãe.)

Obcecado em se estabelecer como um Nicolas Roeg latino ao incluir uma cena de sexo entre o casal vivido por Barreiro e Caro (mas que, ao contrário do que ocorria em Inverno de Sangue em Veneza, é absurda, mal encenada e dispensável, ocorrendo num carro parado em um estacionamento aberto em plena luz do dia), o diretor Adrián García Bogliano logo usa a primeira menstruação da adolescente Sara como desculpa não só para o voyeurismo pedófilo de um excêntrico local, mas também como subtexto para sua possessão demoníaca – que, não à toa, ocorre depois que as crianças entram numa caverna de contornos… vaginescos, digamos.

(Zoom rápido na vagina de pedra.)

Plagian… homenageando A Aldeia dos Amaldiçoados em certas composições que trazem as crianças em primeiríssimo plano enquanto parte da ação é vista ao fundo através de grandes profundidades de campo, Aí Vem o Diabo flerta narrativamente com o trash e esteticamente com as produções do gênero terror produzidas durante a década de 70, mas esta “homenagem” é tão extrema que recai no patético – e poucas vezes vi um diretor gostar tanto de empregar o zoom rápido em qualquer situação, seja esta de impacto ou não.

(Zoom rápido no zoom rápido. E na calcinha ensanguentada de Sara. E na mão da garota ao abraçar a mãe. E na montanha. E no carro. E na cama. E no…)

Uma besteira que, de tão medíocre, impede até que possamos rir de suas tolices.

(Zoom rápido nas tolices.) (2 estrelas em 5)

 

52)    Brincadeiras de Criança (Juego de niños, México, 2012). Dirigido por Makinov. Com: Ebon Moss-Bachrach, Vinessa Shaw, Daniel Giménez Cacho.

Refilmagem bastante fiel do espanhol Quem Consegue Matar uma Criança?, de 1976, Brincadeiras de Criança é uma produção mexicana que, como o original, surge como uma cópia disfarçada de A Noite dos Mortos Vivos que, apesar da premissa furtada, consegue criar um clima de tensão crescente muito eficiente.

Produzido, fotografado, montado, sonorizado, roteirizado e dirigido por Makinov (é, eu sei), Brincadeiras de Criança gira em torno do harmonioso casal Francis (Moss-Bachrach) e Beth (Shaw), que, em viagem de férias ao México, decidem visitar uma pequena ilha. Lá chegando, porém, encontram o lugar abandonado até que, estranhamente, começam a perceber que apenas as crianças da vila permanecem ali. O motivo: possuídas por alguma força estranha, elas passaram a matar todos os adultos que pisam na região.

Trazendo boas interpretações da dupla central (em especial de Ebon Moss-Bachrach, que se mostra carismático e jamais apela para reações exageradas), o longa revela suas influências especialmente através dos créditos em estilo retrô e de algumas opções estéticas mais óbvias feitas pelo diretor – que, embora competente na maior parte do tempo, às vezes tropeça tanto na decupagem quanto na montagem ao criar sequências confusas nas quais personagens simplesmente parecem desaparecer subitamente (como no instante em que Beth e Francis veem um velhinho ser abatido a golpes de bengala e o protagonista corre para salvá-lo, ao passo que sua esposa simplesmente some da cena).

Incômodo justamente por trazer crianças como vilãs (e o título do filme original aqui é citado por um homem local quando este tenta explicar por que ninguém reagiu aos ataques), esta refilmagem é no mínimo uma boa oportunidade para que uma nova geração redescubra uma pequena obra cult que acabou sendo esquecida ao longo das décadas. (4 estrelas em 5)

 

53)    Somos uma Multidão: A História dos Hacktivistas (We Are Legion: The Story of the Hacktivists, EUA, 2012). Dirigido por Brian Knappenberger.

Quando a maioria das pessoas ouve a palavra “hacker”, a primeira ideia que vem à mente é a de uma força destrutiva, de criminosos extremamente versados em complexos códigos de programação que, com suas máquinas avançadíssimas e conhecimentos de criptografia, são capazes de invadir qualquer computador de qualquer empresa, roubando desde senhas de sites de relacionamento a milhões e milhões de dólares. A realidade, porém, não é tão simples: não só a atividade dos hackers pode desempenhar um papel importante em causas nobres como boa parte dos indivíduos que se envolvem em ataques do tipo se resume a leigos em informática que, usando programas ou instruções de fácil entendimento, colaboram em ações importantes na Internet.

Um dos grupos mais conhecidos do cyberativismo, o “Anonymous” tornou-se famoso, nos últimos anos, por comandar ataques célebres a instituições como Visa, Mastercard, Amazon, PayPal e a Igreja da Cientologia – sempre em defesa de indivíduos ou causas que certamente despertariam a simpatia de muita gente. Assim, ao longo dos 93 minutos deste documentário, o diretor Brian Knappenberger relembra a história desta estranha coletividade, entrevistando vários de seus membros iniciais e mais importantes.

Originado no fórum “b” do infame site 4Chan, o “Anonymous”, em sua raiz, pouco mais era do que um grupo dedicado a publicar imagens ofensivas e a criar (ou popularizar) memes como os LoLCatz, “All your base are belong to us” e o RickRolling e a divulgar virais como “Chocolate Rain” (e sugiro uma consulta ao Google, caso não saiba do que estou falando – mas prepare-se para perder horas e horas logo em seguida). Empregando tempo e energia também na trollagem (algo que particularmente abomino, especialmente em suas manifestações mais extremas), o Anonymous finalmente pareceu ter encontrado seu caminho quando um de seus membros passou a ser atacado por um podcaster neo-nazista, o que unificou uma comunidade anárquica por natureza em torno de um objetivo comum: atormentar o sujeito. (E como um dos entrevistados revela, o fato de ele ser um supremacista branco foi mera coincidência; o fator chave da equação residia na proximidade da vítima com o 4Chan.)

A partir daí, o grupo passou a se envolver em causas cada vez mais ambiciosas, vindo a atacar a Igreja da Cientologia (quando, então, saiu da Internet e alcançou as ruas, encabeçando manifestações em todo o mundo) e a atuar de forma decisiva durante a Primavera Árabe, quando ajudou até mesmo os ativistas egípcios a recuperarem acesso à web quando o governo a derrubou em todo o país. Porém, foi mesmo com a decisão de apoiar o WikiLeaks que o Anonymous alcançou seu auge, derrubando os sites do PayPal, VISA e Mastercard depois que estas empresas decidiram interromper as utilização de seus serviços para doações feitas à organização de Julian Assange.

Bastante didático ao explicar as diversas estratégias de atuação dos hacktivistas, que vão desde a invasão de computadores particulares e sites institucionais até o famigerado DDoS (basicamente, um piquete virtual que impede acesso aos alvos através do envio de milhares de pacotes de requisição simultâneos), Somos uma Multidão claramente enxerga o Anonymous de maneira bastante positiva, o que não impede o filme de apontar que, por ser uma coletividade e não ter líderes, muitos integrantes do grupo desenvolvem atividades paralelas que assumem uma natureza que beira o repulsivo – como quando hackearam sites sobre epilepsia, instalando imagens que pulsavam com o objetivo de provocar convulsões no público-alvo destas páginas.

Por outro lado, não há como negar que boa parte dos alvos do Anonymous acabam se revelando merecedores dos ataques – e é impossível não rir quando um “expert em segurança” anuncia publicamente ter infiltrado o grupo, revelando os nomes de vários de seus integrantes, apenas para ter sua vida arruinada nos meses seguintes. “Ao ver um vespeiro à sua frente, ele teve a brilhante ideia de enfiar seu pênis naquilo”, explica o comediante Stephen Colbert, num trecho de seu Colbert Report incluído no longa.

Encerrando a narrativa com breves discussões sobre a dissidência LulzSec (voltada basicamente à trollagem) e à traição cometida por um dos mais respeitados membros do Anonymous, o hacker Sabu, Somos uma Multidão é convincente ao estabelecer que, longe de representar uma cultura de submundo repreensiva e irresponsável, o hacktivismo pode perfeitamente se estabelecer como uma força democrática, construtiva e que traz de volta às mãos do cidadão comum armas que podem torná-lo uma ameaça real para os poderosos tão acostumados a ignorar aqueles que deveriam representar. (3 estrelas em 5)

 

54)    A Guerra Invisível (The Invisible War, EUA, 2012). Dirigido por Kirby Dick.

Imagine uma sociedade na qual as mulheres, quando estupradas, se deparam com o fato de que 33% dos indivíduos aos quais deveriam relatar o crime são amigos dos estupradores. Assustador? Agora imagine o que ocorreria se outros 25% dos responsáveis em receber a denúncia fossem os próprios criminosos.

Pois esta “sociedade” existe e se chama “exército dos Estados Unidos”.

Dirigido por Kirby Dick, que aqui assume um projeto bem mais sério do que seu divertido This Film Is Not Yet Rated e ainda mais enervante do que seu último trabalho, Outrage, este A Guerra Invisível se concentra nos casos de violência sexual ocorridos em unidades militares norte-americanas ao redor do mundo – um crime que, segundo as estatísticas oficiais, resultou em mais de 500 mil vítimas apenas desde 1991. Trazendo depoimentos de várias mulheres que se viram violentadas pelos próprios colegas enquanto serviam o país, o documentário pinta um retrato enlouquecedor de um sistema aparentemente voltado para incentivar e proteger estupradores, já que estes não apenas raramente são punidos como ainda veem suas carreiras avançando sem qualquer problema mesmo depois de denunciados, ao passo que suas vítimas, acreditem ou não, na maior parte das vezes acabam sendo obrigadas a deixar o serviço militar. Ou, no caso de algumas delas, processadas pelo exército em função de (juro) “adultério” – já que seus estupradores eram homens casados.

Resultando em casos de estresse pós-traumático que se revelam mais intensos do que aqueles vivenciados por militares que estiveram em combate, o estupro sistemático no exército ocorre não apenas em zonas de guerra nos recantos mais afastados do planeta, mas também em unidades situadas a dois quilômetros da Casa Branca e que, segundo a própria Marinha, reúne apenas os “melhores” cadetes em serviço ativo. Infelizmente, em vez de punirem os criminosos, os altos oficiais preferem ignorar as denúncias, já que isto pintaria um retrato negativo da instituição – e, para isso, frequentemente culpam as próprias vítimas, insistindo em questioná-las sobre “o que vestiam”, “o que disseram” e impedindo que outras mulheres assumam o controle das investigações, já que estas poderiam se mostrar “parciais demais”.

Criando uma situação infernal na qual as mulheres se encontram prisioneiras de seus algozes, estes estupros (que, é bom apontar, também vitimam homens) ainda se tornam mais desesperadores quando consideramos que, ao contrário do que ocorre na vida civil, no meio militar todo o sistema é controlado pelos oficiais, que são responsáveis por investigar, processar e julgar o caso, criando condições ideais para o acobertamento sistemático dos abusos. Como se não bastasse, em muitos casos o exército se recusa a pagar até mesmos os custos médicos das vítimas – e no caso de uma das personagens de A Guerra Invisível, a deformidade no maxilar provocada pelo oficial que a agrediu (e que provoca dores crônicas) não pode ser corrigida porque os militares alegam que ela largou o serviço dois meses antes do previsto. Por ter sido atacada.

Deixando bastante claro que os fatos narrados ao longo da projeção não são novos, não representam incidentes isolados e são de pleno conhecimento dos responsáveis do auto escalão, A Guerra Invisível é uma contrapropaganda eficaz da vida militar – e não há como justificar que aqueles homens representem a defesa de seu país quando, no nível mais básico de convivência, não têm caráter suficiente nem mesmo para respeitar suas companheiras de farda. (4 estrelas em 5)