Cinema

Festival do Rio 2012 – Dias 12 e 13

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos | 3 comentários

Abraço grande aos leitores Lucas e Igor, que vieram me cumprimentar no Espaço Sesc (mas, Igor, você não precisava me humilhar ao dizer que me lê desde os 10 anos de idade).

Quanto aos filmes:

44)    Roman Polanski: Memórias (Roman Polanski: A Film Memoir, Inglaterra, 2011). Dirigido por Laurent Bouzereau.

Assim como o documentário West of Memphis se revela uma releitura desnecessária da trilogia Paradise Lost, este Roman Polanski: Memórias tinha tudo para se tornar descartável, já que, há apenas quatro anos, a diretora Marina Zenovich cobriu toda a vida do cineasta no excelente Wanted and Desired. Assim, durante a maior parte deste novo longa, apenas revisitamos as mesmas passagens já narradas com eficiência naquele projeto – e nada de novo é acrescentado ao que já sabíamos. A diferença, porém, é que desta vez ouvimos as histórias da boca do próprio Polanski, o que, por si só, já justifica a existência deste Memórias.

Dirigido por Laurent Bouzereau, mais conhecidos por realizar extras para DVDs, o documentário se resume a uma longa entrevista com o diretor, que reconta sua vida atribulada – desde a infância na Polônia, quando sua família foi enviada para os campos de concentração, até sua recente prisão na Suíça, passando pelo assassinato de sua esposa grávida, a atriz Sharon Tate, e de sua prisão por ir pra cama com uma garota menor de idade. Emocionando-se visivelmente ao relembrar determinadas passagens que, inclusive, viriam a ser utilizadas como fonte de inspiração em vários de seus filmes, Polanski é um narrador articulador e envolvente – e o fato de sua jornada conter tantos capítulos trágicos certamente torna o que ele tem a contar digno de nota.

É uma pena, portanto, que Bouzereau tenha escalado o produtor Andrew Braunsberg, velho amigo de Polanski, para entrevistá-lo, já que o sujeito, além de só fazer perguntas óbvias, tem o péssimo hábito de interromper o entrevistado para fazer comentários dispensáveis, além de constantemente sobrepor as falas do outro com tiques orais como “Sim”, “Certo”, “Hum-hum” e por aí afora. Além disso, “Andy” (como é tratado pelo entrevistado) chega a cometer o erro crucial de descrever certas passagens por Polanski, além de impedi-lo de descrever detalhes que ele próprio já conhecia (em certo momento, por exemplo, o biografado começa a explicar como construiu um rádio improvisado apenas para ser interrompido pelo colega, que diz apenas: “É, eu construí um também!”). Como se não bastasse, o entrevistador chega ao cúmulo do egocentrismo ao tomar tempo de tela do personagem-título ao insistir em descrever onde ele, Andrew Braunsberg, se encontrava ao descobrir que Sharon Tate fora morta.

Comprimindo certas passagens da vida de Polanski através de letreiros que preenchem as lacunas deixadas na narração, Memórias acaba impressionando, apesar da estrutura formulaica, das câmeras lentas ridículas e do entrevistador medíocre, por permitir que o cineasta relembre com franqueza os momentos mais difíceis de sua vida – e é notável como o sujeito faz isso sem se render ao drama ou à auto-piedade, chegando a fazer questão de notar que também viveu ótimos momentos e que, apesar de tudo, é “um otimista”.

E se ele consegue se dizer otimista mesmo depois de perder a mãe num campo de concentração e a esposa grávida sob a faca de Charles Manson e também depois de passar décadas sendo perseguido pela mídia e pela polícia norte-americana mesmo tendo cumprido tudo que lhe foi exigido na época de sua prisão, no mínimo é preciso admirar sua resistência como indivíduo. Além, claro, de seu belo Cinema. (4 estrelas em 5)

 

45)    Marina Abramovic: Artista Presente (Marina Abramovic: The Artist Is Present, EUA, 2012). Dirigido por Matthew Akers e Jeff Dupre.

A arte performática é frequentemente enxergada com escárnio por boa parte das pessoas. Basicamente consistindo em empregar o próprio corpo como meio de expressão artística, estas performances costumam ser vistas como atividades de excêntricos ou tolos em busca de atenção, quando, na realidade, exibem imenso potencial para revelar minúcias da natureza humana justamente pelo choque ou pela simples observação da ação do artista. Neste aspecto, é impossível ignorar, neste campo específico, a influência da iugoslava Marina Abramović, que ao longo de quatro décadas criou performances celebradas tanto ao atuar sozinha quanto em parceria com o alemão Ulay, seu companheiro por 12 anos.

A primeira metade deste ótimo documentário, aliás, se dedica justamente a revisitar a carreira da biografada e algumas de suas criações inesquecíveis – como aquela intitulada “Rhythm 0”, de 1974, durante a qual permaneceu passiva por seis horas enquanto o público tinha permissão para empregar 72 objetos que se encontravam sobre uma mesa para acariciá-la ou torturá-la (e o fato de gradualmente os atos de violência terem se tornado mais intensos revela muito sobre o comportamento de massa). Da mesma maneira, o filme reconta o romance entre Marina e Ulay, quando chegaram a viver numa van por não terem qualquer dinheiro e por desejarem se dedicar exclusivamente à Arte – e o reencontro do casal, depois de 23 anos de separação, representa um dos instantes mais emocionantes do longa.

Ainda assim, Artista Presente realmente ganha vida quando passa a enfocar os três meses que o Museu de Arte Moderna de Nova York dedicou a uma retrospectiva de Marina Abramović, incluindo a recriação de cinco de suas performances mais famosas (e agora protagonizadas por jovens artistas) e culminando numa nova criação que, dando título ao filme, consistia em duas cadeiras separadas por uma mesa: ocupando um dos assentos por todo o tempo em que o museu permaneceu aberto, ao longo daqueles três meses, Marina permanecia em silêncio enquanto integrantes do público sentavam-se diante dela.

Pode parecer um conceito simples e tolo, mas o efeito magnético da presença de Abramović, bela e intensa aos 63 anos de idade, é estupendo: ao dirigir seus olhos para a pessoa à sua frente, a artista despertava as mais diversas reações – e aos poucos, filas enormes passaram a se formar já durante as madrugadas diante do Museu à medida que mais e mais pessoas disputavam alguns minutos diante da iugoslava (e um sujeito chega a revelar, orgulhoso, que ao longo daquele período conseguiu ocupar a cadeira nada menos do que 21 vezes).

Demonstrando inquestionavelmente que a boa e desafiadora Arte pode se apresentar de diversas formas, Marina Abramović se consolida, ao longo do filme, como uma profissional absurdamente dedicada às suas criações, às suas ideias e ao seu trabalho – e mesmo o mais cético dos espectadores provavelmente perceberá ser difícil sair da sala de projeção ainda acreditando que a arte performática é algo menor, risível ou apenas uma brincadeira de desocupados. (4 estrelas em 5)

 

46)    Atrás da Porta (The Door, Hungria, 2012). Dirigido por István Szabó. Com: Helen Mirren, Martina Gedeck, Károly Eperjes, Gábor Koncz, Ági Szirtes, Erika Marozsán.

É decepcionante testemunhar um cineasta tão experiente quanto o húngaro István Szabó realizando uma obra com tons tão amadores quanto este Atrás da Porta. Inspirado em livro de Magda Szabó (não, não são parentes) e roteirizado pelo diretor ao lado de Andrea Vészits, o filme se resume a um apanhado de momentos desconexos que buscam criar algum tipo de dinâmica entre duas mulheres enquanto se estabelece como um estudo de personagem voltado para a mais velha delas, mas acaba falhando em todos os aspectos.

Vivida pela bela alemã Martina Gedeck, a escritora Magda se muda com o marido Tibor (Eperjes) para a Hungria na década de 60 e, decidindo dedicar todo o tempo possível ao seu livro, decide contratar a rabugenta Emerenc (Mirren) para arrumar sua casa e preparar suas refeições – trabalho que esta só aceita depois de pedir as referências da futura patroa. Agressiva, mal-humorada, instável e desrespeitosa, Emerenc, claro, se revela a empregada dos sonhos, embora o longa jamais se preocupe em explicar por que Magda não a demite depois de levar inúmeras patadas gratuitas.

Mantendo a câmera sempre estática e desenvolvendo a narrativa através de cenas auto-contidas que soam mais como vinhetas independentes, tamanha a falta de coesão do roteiro, Szabó cria composições constantemente deselegantes que nada acrescentam ao projeto, saltando desajeitadamente de um momento a outro através de fades constantes que tornam a história irritantemente episódica – e a montagem é tão amadora que, em certo momento, saltamos de uma cena na neve para outra sob intenso sol enquanto um letreiro informa que – juro! – “alguns meses” se passaram (duh!). Para piorar, o filme não cria qualquer organicidade no desenvolvimento da trama e, assim, subitamente Emerenc passa a narrar passagens de seu passado sem que esta confissão pareça ter qualquer motivação, ao passo que, em outro momento, várias pessoas decidem oferecer informações sobre a mulher sem que isto pareça ter sido solicitado por Magda.

Com uma mise en scène teatral e prejudicado pela inexplicável dublagem em inglês de boa parte dos atores, Atrás da Porta constantemente se entrega a filosofadas baratas que, atiradas sobre o espectador sem qualquer contexto, parecem apenas querer conferir algum peso existencial a uma obra vazia de conteúdo (“Tudo que temos são as palavras”, diz o marido de Magda, vivido pelo péssimo Károlyn Eperjes, em certo instante). Como se não bastasse, as atitudes da escritora diante da empregada jamais demonstram qualquer lógica ou coerência: em um instante, mostra-se fascinada pela outra, substituindo esta atitude aleatoriamente por desprezo, raiva, desconfiança, carinho, dedicação e preocupação dependendo da exigência imediata do roteiro.

Prejudicado ainda por diálogos realmente atrozes (“O único jeito de salvá-la é traí-la”), o filme também se revela óbvio no mistério central que lhe dá título – e quando alguém diz, sem qualquer razão, que “ninguém jamais foi convidado para entrar no quarto de Emerenc”, já sabemos exatamente o que acontecerá dentro da próxima hora. Ainda assim, a revelação é tão estúpida e vazia que melhor seria termos ficado de fora daquele aposento. Ou da sala de projeção, quem sabe. (1 estrela em 5)

 

47)    Uma Família Respeitável (Yek Khanévadéh-e Mohtaram, Irã, 2012). Dirigido por Massoud Bakhshi. Com: Babak Hamidian, Mehrdad Sedighian, Mehran Ahmadi, Behnaz Jafari.

É difícil compreender exatamente qual o propósito do diretor e roteirista Massoud Bakhshi com este seu Uma Família Respeitável: ao contrapor dois momentos da história recente do Irã, o momento atual sob o louco Ahmadinejad e a revolução islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini (bem como a guerra Irã-Iraque), o filme parece tentar traçar paralelos e contrapontos políticos relevantes; porém, ao concentrar-se na trajetória de uma família disfuncional em particular, a trama troca a ambição pelo suspense e pelo drama, perdendo o foco da narrativa e criando uma experiência frágil e difusa.

Girando em torno do professor universitário Arash (Hamidian), que retorna ao Irã depois de 22 anos na França para ministrar um curso de um semestre, o longa tem início com uma sequência inexplicavelmente rodada através de câmera subjetiva apenas para saltar abruptamente para alguns dias no passado, quando vemos as dificuldades enfrentadas pelo protagonista para conseguir resgatar o passaporte que lhe permitirá voltar para Paris. Irmão de um jovem morto na guerra contra o Iraque e cujo “martírio” permitiu que seu ganancioso pai construísse um império através de uma fundação dedicada ao rapaz, Arash recebe a visita do filho de seu meio-irmão, que solicitando ajuda ao tio para viajar para a Europa, conta ter brigado com o pai inescrupuloso e se oferece para ajudá-lo a recuperar o passaporte. A partir daí, intrigas familiares se desenvolvem enquanto descobrimos um jogo repleto de traições em busca dos bilhões amealhados pelo clã ao longo dos anos.

Assim, ao mesmo tempo em que tenta desenvolver suspense através das artimanhas da família, o filme mergulha em constantes flashbacks que parecem se preocupar mais em oferecer contexto histórico ao Irã contemporâneo – e o que isso tem a ver com a censura aos artigos de Arash, que são tomados dos alunos pelos funcionários da universidade, é algo que a narrativa jamais explica. Da mesma maneira, o longa investe um longo tempo para estabelecer o transtorno obsessivo-compulsivo da cunhada do protagonista, usando sua obsessão por limpeza como comentário sobre sua religiosidade excessiva e também como metáfora da corrupção dos ideais islâmicos por um governo totalitário e fundamentalista – mas, mais uma vez, estes símbolos são atirados quase que ao acaso ao longo da projeção, o que é lamentável.

Frustrante em seu desfecho covarde e preguiçoso, Uma Família Respeitável é uma decepção do início ao fim. (2 estrelas em 5)

 

48)    O Arrependido (El taaib, Argélia, 2012). Dirigido por Merzak Allouache. Com: Nabil Asli, Adila Bendimerad, Khaled Benaissa.

Qual é a verdadeira natureza do arrependimento, na maior parte das vezes? Normalmente, quando nos dizemos “arrependidos” de algo, isto se deve ao fracasso das expectativas geradas por alguma ação – e, assim, o sentimento surge não como fruto do remorso ou de alguma visão altruísta, mas de um impulso egoísta por nos vermos prejudicados por nossas próprias atitudes. Em contrapartida, é perfeitamente possível (embora não seja o mais frequente) que nos arrependamos puramente graças ao amadurecimento e ao fortalecimento de nosso caráter, quando, então, constatamos entristecidos que agimos mal com o próximo – mesmo que isto tenha nos beneficiado.

Pois um dos elementos mais intrigantes desta produção argelina reside no fato de jamais podermos ter certeza da natureza exata do “arrependimento” manifestado pelo protagonista: integrante de um grupo terrorista islâmico, Rachid (Asli) decide aproveitar a lei da “concórdia civil”, que promete perdão a qualquer um que manifeste arrependimento e entregue suas armas à polícia, para poder voltar a ter uma vida normal. Porém, por que o rapaz toma esta decisão: por julgar erradas as suas ações terroristas ou por ter se cansado de viver em fuga?

Atacado pelos moradores de sua pequena vila, que se lembram bem de sua participação em episódios que resultaram na morte até mesmo de crianças, Rachid viaja para Argel a fim de fazer sua confissão de culpa para um delegado, que, então, o ajuda a encontrar emprego em um bar local. Certo dia, no entanto, o rapaz aborda um deprimido farmacêutico da vizinhança, que, alcóolatra e solitário, reage de forma intensa ao que lhe é dito pelo desconhecido, decidindo solicitar que sua ex-esposa retorne à cidade para ouvir aquela revelação.

Embora a princípio não esclareça exatamente o que Rachid tem a dizer ao casal, O Arrependido é hábil ao deixar claro o efeito de tudo aquilo sobre os demais personagens – e, aos poucos, à medida que deduzimos a natureza do segredo, somos levados a indagar se o protagonista merece o perdão que a lei lhe promete.

E é então que, quando estamos realmente mergulhando nos questionamentos propostos pelo filme, o roteiro decide encerrar a narrativa de maneira abrupta, artificial e aparentemente aleatória, sugerindo ter simplesmente se cansado da ambição demonstrada até então e optando pelo choque em vez de investir numa discussão adulta e relevante, o que, claro, é profundamente decepcionante. (3 estrelas em 5)

 

49)    Pushwagner: A Ira do Artista (Pushwagner, Noruega, 2011). Dirigido por Even Benestad, August B. Hanssen.

Respeitado em sua Noruega natal, o artista plástico Hariton Pushwagner é um sujeito talentoso e excêntrico que recentemente se viu obrigado a ir à justiça de seu país para recuperar os direitos de exploração comercial sobre sua própria obra, que, por um descuido contratual, haviam caído nas mãos de um antigo colaborador. Enfocando parte do julgamento enquanto traz entrevistas com o biografado em vários locais escolhidos aparentemente ao acaso, os diretores Even Benestad e August B. Hanssen criam um filme desconjuntado e aborrecido que, mesmo provocando um ou outro riso em função das bobagens ditas pelo personagem-título, nada revela sobre o artista, seu processo criativo ou sua obra.

Aparentemente obcecado em criar imagens compostas por multidões dispostas em fileiras que, por sua vez, acabam criando figuras abstratas que simbolizam a desumanização provocada pela sociedade industrial contemporânea, Pushwagner surge como um senhor de rosto marcado por rugas profundas, de bochechas encovadas e sem dentes que, obviamente alcóolatra, resmunga extensamente sobre todo tipo de assunto enquanto tenta dar ordens aos diretores que registram sua vida.

Rodado em preto-e-branco apenas porque os cineastas parecem achar que isto confere alguma personalidade ao projeto, o documentário traz uma trilha sonora irritante e letreiros inexplicavelmente saídos de um monitor monocromático verde da década de 90, contando ainda com uma montagem caótica que torna tudo aborrecido e incompreensível.

Não que houvesse alguma chance de que realmente pudéssemos compreender o que está sendo dito ao longo da projeção, já que, sempre embriagado, Pushwagner é articulado como um paciente de Alzheimer vitimado por AVC. E se você acha interessante escutar um sujeito alcoolizado discursando por 80 minutos, este filme é a escolha certa para seu Natal. Embora, convenhamos, Papo de Bêbado fosse um título bem mais apropriado para o projeto. (1 estrela em 5)

Festival do Rio 2012 – Dias 06-11

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos | 3 comentários

Muitos filmes para comentar. Vamos direto a eles:

31)    Nós e Eu (The We and the I, EUA, 2012). Dirigido por Michel Gondry. Com: Michael Brodie, Teresa Lynn, Laidychen Carrasco, Chenkon Carrasco, Jonathan Ortiz, Jonathan Scott Worrell, Alex Barrios, Meghan Murphy, Kenneth Quinones.

Michel Gondry é um diretor extremamente inventivo – e um dos prazeres em acompanhar seus projetos reside justamente na expectativa de testemunhar suas firulas visuais. Assim, ao limitar-se a uma história desenvolvida quase completamente no interior de um ônibus em movimento, o cineasta praticamente elimina da equação sua maior força como realizador, sendo obrigado a depender ainda mais do roteiro. Que, neste caso, não passa de mediano.

Acompanhando o trajeto do veículo enquanto este transporta cerca de duas dúzias de alunos que, no último dia de aula antes das férias, voltam para suas casas, Gondry e os co-roteiristas Paul Proch e Jeffrey Grimshaw tentam estabelecer algum tipo de análise social a partir daquele microcosmo envolvendo bullies, músicos, flertes hetero e homossexuais, conflitos, agressões e por aí afora, mas falham pela visão simplista que, no máximo, se aventura a apontar que, sob a influência de amigos, um sujeito de bom caráter pode se tornar um imbecil.

Este esforço para soar socialmente relevante é ressaltado pelo velho recurso de trazer atores amadores vivendo versões semi-ficcionais de si mesmos e que são batizadas com seus verdadeiros nomes, mas isto apenas fortalece a impressão de que talvez o longa devesse ser mais sutil e complexo nestes retratos, que, na maior parte das vezes, surgem quase como caricaturas, o que é decepcionante.

Conseguindo algum tipo de energia através de flashbacks que permitem que Gondry ganhe certa liberdade (e culminando numa eficiente sequência em que três histórias são narradas simultaneamente), Nós e Eu demonstra o que já sabíamos: que seu diretor é talentoso e capaz de imprimir ritmo e certa criatividade mesmo confinado em um ônibus. Isto, porém, não é o bastante para que o longa faça jus a obras como Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças ou mesmo Natureza Quase Humana e Rebobine, Por Favor. Aparentemente, tem faltado a Michel Gondry uma ambição proporcional ao seu talento. (3 estrelas em 5)

32)    West of Memphis (Idem, EUA, 2012). Dirigido por Amy Berg.

A trilogia Paradise Lost, realizada por Joe Berlinger e Bruce Sinofsky ao longo de 15 anos, é um documento impactante e abrangente sobre um caso apavorante ocorrido em Memphis no início da década de 90, quando três adolescente foram presos e acusados do assassinato bárbaro de três crianças simplesmente porque eram pobres, “estranhos” e supostamente satanistas (o “líder” do grupo, Damien Echols, gostava de se vestir de preto e ouvir heavy metal, o que o qualificava como adorador do Diabo, aparentemente). A falta de provas não importava e dois deles foram condenados à prisão perpétua, ao passo que Echols foi enviado ao corredor da morte – e tudo teria terminado por aí caso os dois documentaristas não houvessem revirado o caso e realizado o primeiro filme, que, em 1996, chamou a atenção do público e da mídia para os absurdos daquela história.

Ao longo dos anos seguintes, Berlinger e Sinofsky retornaram aos “West Memphis Three” mais duas vezes e não só expandiram as evidências que apontavam para a inocência do trio através de testes e análises permitidos por novas tecnologias, como ainda apontaram a possibilidade palpável de que o culpado real fosse Terry Hobbs, o padrasto de uma das crianças.

Ainda assim, Echols,  Jessie Misskelley Jr e Jason Baldwin permaneceram presos até 2011, quando um acordo estranhíssimo foi feito com a justiça de Memphis para que eles se declarassem culpados (ainda que alegando inocência) e fossem libertados imediatamente – algo retratado em Paradise Lost: Purgatory, que acabou sendo indicado ao Oscar.

No entanto, o propósito deste texto é discutir o documentário West of Memphis, dirigido por Amy Berg (do ótimo Deliver Us From Evil) e que aborda todos estes fatos descritos acima – e é justamente por pouco oferecer de novo que o filme se mostra, em última análise, dispensável. Ora, somados, os três filmes Paradise Lost totalizavam 400 minutos de entrevistas, evidências e argumentos – e, assim, é natural que, com “apenas” 147 minutos, Berg não teria tempo para criar um retrato tão amplo deste complexo caso. E, de fato, não cria: os espectadores dos originais facilmente reconhecerão todos os principais personagens e pontos aqui (re)apresentados, pouco restando de novo à diretora. Para piorar, o que ela traz de novo soa, na maior parte do tempo, como bajulação e tapinhas nas próprias costas dados por alguns dos envolvidos na defesa dos prisioneiros.

Aliás, trazendo os nomes de Fran Walsh (esposa de Peter Jackson), Lorri Davis (esposa de Damien Echols) e do próprio Echols na produção, West of Memphis basicamente transforma o rapaz em protagonista inquestionável do projeto, pouco oferecendo dos pontos de vista de seus colegas de cárcere (que, por sua vez, parecem estar envolvidos num projeto paralelo que revisitará mais uma vez toda a história). Como se não bastasse, aqui somos obrigados a acompanhar depoimentos de Peter Jackson, Davis e Eddie Vedder discutindo, acreditem ou não, o valor de seus próprios empenhos na luta pela libertação dos rapazes, chegando ao cúmulo de incluir trechos de e-mails trocados por Walsh e Davis nos quais estas buscam oferecer apoio uma a outra.

No entanto, se há um motivo para aplaudir este projeto, é o fato de que, partindo dos achados de Paradise Lost, Amy Berg fortalece o caso contra Terry Hobbs, praticamente cimentando sua culpa – mesmo que, além das evidências, recorra a depoimentos que nada mais são do que diz-que-me-diz-que (algo que, sem perceber a ironia, o filme condena quando dirigido a Echols).

Com exceção desta relativamente curta passagem, porém, West Memphis é basicamente uma versão reduzida (e, consequentemente, inferior) de Paradise Lost – e se a trilogia lutava para provar a inocência de três jovens pobres que, até então, eram meros desconhecidos, infelizmente este novo projeto parece apenas celebrar aqueles que se dedicaram a salvá-los quando já eram minicelebridades. (3 estrelas em 5)

 33)    Uma Noite (Una Noche, Cuba/EUA, 2012). Dirigido por Lucy Mulloy. Com: Dariel Arrechaga, Anailín de la Rúa de la Torre, Javier Núñez Florián, María Adelaida Méndez Bonet, Greisy del Valle.

Longa de estreia da diretora e roteirista norte-americana Lucy Mulloy, Uma Noite é um filme repleto de energia sobre três jovens cubanos que decidem se arriscar numa viagem sobre uma jangada improvisada rumo a Miami. Mais do que a história de emigrantes ilegais desiludidos e trágicos, porém, o longa é hábil ao estabelecer uma dinâmica intrigante entre os personagens, usando a sexualidade nascente dos adolescentes como motor de uma trama que explora com sensualidade (e tristeza) a realidade de Cuba.

Rodado em Havana com a permissão do governo (que também liberaria os três atores para uma visita aos Estados Unidos para o lançamento do filme, sendo surpreendido pelo sumiço de dois deles justamente em Miami), Uma Noite percorre as ruas da cidade com liberdade absoluta, indo além dos pontos turísticos e retratando também o lado miserável daquela sociedade – e é tocante ver a casa dos irmãos gêmeos Lila e Elio (de la Torre e Florían), cuja condição é invejada pelo amigo Raul (Arrechaga), já que as paredes descascadas e os colchões compostos por espuma furada estão longe de indicar o conforto que o outro tanto admira. Da mesma maneira, a difícil vida de Raul, que luta para conseguir medicamentos para o tratamento da AIDS que corrói sua mãe prostituta, é de certa forma o centro da narrativa, já que, impetuoso, impulsivo e repleto de mágoas, o rapaz move direta e indiretamente os companheiros: Elio, por amá-lo secretamente; Lila, por querer ficar com o irmão e também por demonstrar certo fascínio pelo amigo deste.

Contando com uma fotografia apropriadamente crua que explora o calor de Cuba sem jamais perder os elementos atraentes da cidade ou mesmo romantizá-los, o filme traz imagens emblemáticas como aquela que mostra Raul sentado no parapeito de um prédio com Havana sob seus pés e, claro, todo o terceiro ato, que se passa em alto mar e substitui o equilíbrio entre humor e drama pela tensão absoluta à medida que os jovens percebem o perigo da situação na qual se envolveram.

Com um desfecho corajoso e marcante, Uma Noite é também franco ao lidar com os sentimentos homossexuais de Elio e com a natureza hormonal dos interesses de Raul, utilizando estes elementos como algo orgânico à narrativa em vez de tentar pregar ou fazer drama barato. E mesmo que a narração em off seja dispensável e busque conferir uma estrutura artificial ao filme, isto não impede que a obra marque pela honestidade e sensibilidade com que lida com seus difíceis temas sociais, culturais e políticos. (4 estrelas em 5)

 

34)    Elefante Branco (Elefante blanco, Argentina, 2012). Dirigido por Pablo Trapero. Com: Ricardo Darín, Jérémie Renier, Martina Gusman, Federico Barga, Pablo Gatti, Raul Ramos.

É fascinante acompanhar o crescimento do cineasta argentino Pablo Trapero a cada novo filme. Sem jamais ter realizado uma obra que pudesse ser classificada como menos do que “ótima” (embora o pavoroso desfecho de Nascido e Criado tenha chegado perto disso), o diretor vem se mostrando gradualmente mais ambicioso, saltando de tramas que lidavam basicamente com questões pessoais para outras que, além disso, abordam também aspectos sociais costurados com elegância às histórias que conta. Foi o caso do excepcional Leonera, do ótimo Abutres e agora, em escala ainda maior, deste brilhante Elefante Branco.

Voltando à ótima parceria com o sempre fabuloso Ricardo Darín estabelecida em seu filme anterior, Abutres, Trapero aqui ambienta sua narrativa em uma imensa favela de Buenos Aires na qual o padre Julián (Darín) tenta desenvolver um trabalho social que ao mesmo tempo afaste os jovens da droga e do tráfico e também permita a construção de novas casas populares para os habitantes da região. Enfrentando dificuldades com a falta crônica de verbas, já que a Arquidiocese se preocupa mais com política do que com a população, Julián vive com seus companheiros de paróquia na imensa construção abandonada daquele que deveria ter se tornado o maior hospital da América Latina e que, iniciada em 1937, é chamada de Elefante Branco pelos moradores da favela justamente por representar, com sua carcaça horrorosa, o descaso do governo e da sociedade para com os miseráveis da cidade. É então que o padre convida um jovem sacerdote, o francês Nicolás (Renier), para juntar-se a ele naquele trabalho – mas, traumatizado pelo fim trágico de sua última missão na Amazônia, o rapaz se vê cada vez mais afastado da Igreja e começa a demonstrar interesse romântico pela assistente social Luciana (Gusman, esposa de Trapero e sua colaboradora habitual).

Inspirado pelo assassinato do padre Carlos Mugica em 1974, o roteiro escrito a oito mãos por Trapero, Martín Mauregui, Alejandro Fadel e Santiago Mitre (todos parceiros antigos do diretor) é hábil ao saltar das lutas de Julián, que se vê constantemente pressionado a ajudar todos ao seu redor, para as incertezas de Nicolás – e a óbvia dedicação deste aos trabalhos comunitários, quando contraposta ao seu sofrimento por amar Luciana, aponta a estupidez do celibato exigido pela Igreja sem que um discurso tenha que ser feito pelo filme neste sentido. Aliás, Elefante Branco é hábil ao estabelecer vários argumentos impactantes sem a necessidade de diálogos expositivos – como na sequência que traz três sacerdotes rezando o terço enquanto Trapero e seus dois outros montadores cortam para planos que expõem a miséria ao redor dos homens, apontando ao mesmo tempo para o desespero dos padres diante da tarefa que têm à frente e, claro, a inutilidade de suas orações.

Mais uma vez demonstrando seu apreço por (e seu talento para) planos-sequência, o diretor cria, ao longo da projeção, alguns momentos cinematograficamente memoráveis sem jamais parecer estar querendo apenas se exibir, já que as decisões se revelam orgânicas à narrativa – começando pelo plano que começa no interior do hospital e acompanha os personagens até a capela, passando por várias ruas e nos apresentados aos moradores e à rotina local sem qualquer corte, permitindo que nos sintamos realmente como parte daquele universo. Já em outro instante, é o desenho de som que merece destaque ao introduzir a trilha de Michael Nyman de forma quase inaudível apenas para gradualmente evidenciá-la à medida que a lógica da cena exige o acompanhamento musical. Para completar, Trapero confere urgência e realismo à dura sequência da invasão da polícia à favela, rodando a ação como algo que poderia ter saído diretamente de um noticiário para a televisão.

Beneficiado por um elenco admirável, Elefante Branco representa, também, um novo momento na carreira de Jérémie Renier, que, cada vez mais distante dos tipos criados nos filmes dos irmãos Dardenne (especialmente A Criança, que o lançou no mercado internacional), vive aqui seu personagem mais humanista e doce, conferindo também peso dramático ao torturado Nicolás. E se Martina Gusman desta vez pouco tem a fazer (embora consiga ilustrar bem o cansaço gradual de Luciana), o destaque, como de hábito, fica por conta de Ricardo Darín, que encarna o padre Julián como um homem completamente dedicado à sua causa e à comunidade, exibindo uma alegria tocante ao receber uma dúzia de fiéis em sua diminuta paróquia e ao batizar novos convertidos – e o espectador chega a se sentir exausto ao acompanhar a rotina do sujeito, cuja presença parece ser exigida por todos ao mesmo tempo. Assim, quando Julián finalmente se mostra cansado e desabafa ter medo de vir a “acabar odiando todo mundo”, sentimos sua dor e sofremos por ele.

Seco e brutal em seu terceiro ato, Elefante Branco não faz concessões ao abordar um material que exige estas características, confirmando a ascensão de Pablo Trapero à elite do Cinema mundial. (5 estrelas em 5)

35)    Lore (Idem, Alemanha, 2012). Dirigido por Cate Shortland. Com: Saskia Rosendahl, Nele Trebs, André Frid, Mika Seidel, Kai-Peter Malina.

Selecionado pela Austrália como representante do país na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Lore conta a história de uma jovem alemã que, após a derrota do Terceiro Reich, perde a companhia do pai, oficial nazista, e da mãe, colaboradora do Partido, sendo obrigada a conduzir os quatro irmãos menores numa jornada de centenas de quilômetros até Hamburgo a fim de encontrarem a avó.

Escrito pela diretora Cate Shortland e por Robin Mukherjee a partir de um livro de Rachel Seiffert, o longa assume, portanto, a estrutura de um road movie que enfocará o choque de realidade experimentado pela jovem protagonista, que, de adolescente segura dos ideais inquestionáveis de Hitler, é obrigada a confrontar a barbárie promovida pelos nazistas durante a guerra. Vivida pela excelente Saskia Rosendahl, que não tenta suavizar as crenças repulsivas da personagem e sua agressividade diante do mundo, Lore demonstra carregar o peso do mundo nas costas – e não é para menos, já que se vê, de um dia para o outro, responsável por quatro crianças, incluindo um recém-nascido, em um país destruído pela guerra e no qual a fome e a falta de serviços de infra-estrutura básicos eram cotidianas.

Ainda assim, a ótima fotografia de Adam Arkapaw é inteligente ao explorar a beleza das locações percorridas pelas crianças sem, com isso, ressaltar o isolamento e a dificuldade enfrentados pelos jovens – e é particularmente eficiente o momento em que, durante uma brincadeira em um bosque de intenso verde, Lore e a irmã percebem a chuva das cinzas oriundas da destruição de documentos e fotos comprometedores por parte dos nazistas. A partir daí, o longa acompanha a degradação física dos irmãos, que, cobertos por picadas de insetos e consumidos pela desnutrição, dependem da caridade de estranhos, formando uma aliança inesperada com um jovem que, portando documentos que o identificam como judeu, se torna fundamental para a sobrevivência da família.

O interessante na abordagem de Shortland, porém, é sua insistência em enxergar o mundo sempre a partir do ponto de vista de Lore – que, claro, vê os soldados norte-americanos como criminosos dispostos a matar seus irmãos e Thomas (Malina), o jovem judeu, como um traidor em potencial que quer apenas usar o bebê para inspirar a simpatia de estranhos. Além disso, em vez de simplesmente seguir o caminho mais óbvio e ilustrar a mudança gradual da protagonista, a cineasta opta por retratar a perda da inocência (política e sexual) experimentada pela garota, que, mesmo jamais renegando claramente o Führer, parece compreender, ao final do filme, que seu mundo não era tão preto-e-branco quanto imaginava.

E, neste aspecto, Lore funciona ao usar a moça como um retrato de toda uma geração de alemães que, no pós-guerra, finalmente percebe que seu líder estava longe de ser o anjo que julgavam e que, afinal, estavam do lado errado do conflito. É só lamentável que, para isso, o filme tenha que se mostrar tão repetitivo e prolixo em sua abordagem. (4 estrelas em 5)

 

36)    Chamada a Cobrar (Idem, Brasil, 2012). Dirigido por Anna Muylaert. Com: Bete Drogam, Pierre Santos, Cida Almeida, Maria Manoella, Tatiana Thomé, Lourenço Mutarelli.

Antes do início da sessão de Chamada a Cobrar no Festival do Rio de 2012, a diretora Anna Muylaert explicou, orgulhosa, que finalmente fizera aqui algo que gostaria de ter tentado há muito tempo: assinou o roteiro ao lado de seu elenco, que teve liberdade completa para improvisar todos os diálogos durante as filmagens. Infelizmente, a cineasta deveria ter se lembrado de que há um motivo muito bom para que filmes sejam realizados a partir de roteiros e para que atores se concentrem naquilo que fazem de melhor (atuar) em vez de na elaboração de suas próprias falas – e este motivo é a alta probabilidade de que o resultado final não seja dos melhores caso estes papéis sejam confundidos. Como acontece, claro, em Chamada a Cobrar.

Partindo de uma história “real” (basicamente, os falsos sequestros anunciados por telefone e que contam com o pânico momentâneo da pessoa do outro da linha para obrigá-la a comprar cartões telefônicos e a fornecer os dados de seus cartões de crédito para os “sequestradores”), o filme tem início acompanhando a manhã de Clara (Drogam), uma mulher de meia-idade que, gentil e carente da atenção das filhas, aparentemente depende da empregada (Almeida) para tudo. É então que ela recebe a ligação do título e, tola já ao fornecer todas as informações necessárias para a pessoa com quem conversa, é informada de que sua filha caçula encontra-se em poder de sequestradores.

O que vem a seguir incomoda pela estupidez: depois de atender a todas as exigências feitas pelo homem que ligou (Santos), Clara aceita se dirigir de São Paulo ao Rio de Janeiro em seu carro para levar dezenas de tênis e ursinhos de pelúcia para os “sequestradores” – e nem mesmo uma mensagem de texto enviada por uma de suas filhas a leva a duvidar de que esteja sendo vítima de um trote.

Há, claro, a possibilidade de que realmente existam pessoas estúpidas a este ponto na vida real – mas isto não quer dizer que algo assim funcionaria no Cinema, já que, em Chamada a Cobrar, a credulidade implausível de Clara soa apenas como recurso de um roteiro preguiçoso para permitir que a história caminhe. O resultado é que se torna difícil, para o espectador, sentir qualquer grau de simpatia ou identificação com relação à protagonista, o que basicamente nos obriga a dividir um carro por 72 minutos com uma figura insuportável.

Neste sentido, os diálogos improvisados não ajudam em nada. Sobrepondo-se confusamente uns aos outros à medida que os atores em cena tentam gritar suas falas, interrompendo-se mutuamente, faltam a eles qualquer estrutura, elegância, graça, peso ou mesmo a capacidade básica de moverem a trama e/ou desenvolverem os personagens. Em certos momentos, aliás, torna-se perfeitamente possível perceber o elenco tropeçando nas palavras enquanto busca formar as ideias que pretende vociferar – e a única exceção fica por conta da participação breve, mas hilária, de Lourenço Mutarelli como um delegado (e não creio ser coincidência o fato de Mutarelli ser escritor e roteirista).

Prejudicado por uma mixagem de som absolutamente atroz que não consegue sequer diferenciar a tonalidade da voz que sai do telefone, sugerindo a presença do “sequestrador” no mesmo ambiente no qual Clara se encontra, Chamada a Cobrar é uma comédia sem graça, um drama sem peso e um road movie sem ponto de chegada. E se não se torna absolutamente descartável é apenas porque, tola como se revela, a personagem de Bete Drogam ao menos revela a doçura de uma mãe que, enquanto tiver as filhas por perto, estará satisfeita e feliz. (2 estrelas em 5)

 

37)    Lay the Favorite (Idem, EUA/Inglaterra, 2012). Dirigido por Stephen Frears. Com: Rebecca Hall, Bruce Willis, Catherine Zeta-Jones, Joshua Jackson, Vince Vaughn, Laura Prepon, Joel Murray, Frank Grillo, John Carroll Lynch.

Stephen Frears é um diretor competente demais para dirigir uma bobagem como este Lay the Favorite. Como é possível que o responsável por obras complexas como Os Imorais, Ligações Perigosas e Coisas Belas e Sujas e também por comédias e estudos de personagem eficazes como Alta Fidelidade, A Rainha e Sra. Henderson Apresenta subitamente decida realizar um longa que, apaixonado por sua galeria de personagens, jamais pareça perceber que não há uma história ou mesmo um tema que justifique o tempo investido nestes?

Inspirado na autobiografia de Beth Raymer, o primeiro roteiro de D.V. DeVincentis parece indicar que o sujeito representou um peso morto para seus colegas co-roteiristas de Matador em Conflito e Alta Fidelidade, já que não se mostra capaz nem mesmo de conceber uma estrutura básica ou mesmo um conflito que mova a história. (Aliás, é difícil enxergar até mesmo os atos da trama.) Assim, depois de apresentar rapidamente a protagonista (Hall), uma stripper que se encontra cansada de seu cotidiano arriscado, Lay the Favorite a transporta até Las Vegas, onde a moça pretende construir uma carreira como garçonete nos cassinos. Lá, contudo, ela conhece o apostador profissional Dink (Willis), que ganha dinheiro fazendo dezenas de apostas simultâneas em todo tipo de jogo, manipulando as probabilidades das casas de apostas espalhadas por todo o mundo. Por alguma razão, ele decide que Beth será uma adição útil ao seu negócio, o que inspira ciúmes em sua esposa Tulip (Zeta-Jones). Eventualmente envolvendo-se com o jornalista Jeremy (Jackson), a garota decide trabalhar para o irresponsável Rosie (Vaughn), o que talvez a coloque sob a mira do FBI.

Resumida a trama, o fato é que Lay the Favorite não tem ideia do que filme que pretende ser: a ideia é retratar o mundo das apostas profissionais? Ou é a de estabelecer a evolução de Beth como pessoa, saltando de uma profissão que considera degradante a outra na qual tem controle absoluto sobre tudo? E onde a relação entre Dink e Tulip entraria nesta equação? Ou mesmo a relação entre Beth e Jeremy, que parece surgir de mero interesse sexual e pouco convence como algo mais do que isso, mesmo que as palavras certas saiam da boca da moça?

Falhando até mesmo em explicar por que Beth é vista com tanto interesse por Dink (“Eu sou boa com números” parece ser a única justificativa, embora jamais a vejamos realmente operando-os de maneira significativa), o longa demonstra falta de coesão até mesmo no tom das atuações: enquanto Joshua Jackson e Bruce Willis apostam em abordagens contidas, tendendo ao realismo, Catherine Zeta-Jones e Vince Vaughn partem para a caricatura descarada, ao passo que Rebecca Hall se posiciona entre os dois extremos, oferecendo uma bela atuação mesmo que sua personagem jamais se torne complexa ou envolvente como o filme pretende.

Sem oferecer conflitos reais que movam a trama e sem parecer ter ideia do gênero no qual deseja investir, Lay the Favorite se apresenta no máximo como um passatempo tolo e esquecível. Algo que não poderíamos esperar de seu experiente diretor. (2 estrelas em 5)

 

38)    A Beleza (Nosilatiaj. La Belleza, Argentina, 2012). Dirigido por Daniela Seggiaro. Com: Rosmeri Segundo, Ximena Banus, Camila Romagnolo, Victor Hugo Carrizo, Sasa Sharet Isabel Mendoza.

O modus operandi do homem branco é simples e imutável: somos criaturas que merecem privilégios e os exigimos de todas as demais criaturas com quem dividimos o planeta, sejam estas compostas pela população negra, indígena ou asiática ou pelos animais e plantas que compõem nosso ecossistema. Queremos o que é nosso por direito divino e simplesmente tomamos o que erroneamente encontra-se nas mãos das minorias ou de grupos enfraquecidos. Com o tempo, claro, tornamo-nos mais razoáveis e até exibimos algum sinal de culpa, buscando retribuir um pouco tudo que obtivemos e auxiliar aqueles que prejudicamos, mas sempre de maneira discreta – e que ainda encontra resistência por parte de muitos que julgam que ajudar as minorias seria – acreditem! – racismo reverso ou injusto para com os pobres caucasianos.

Tudo isso vem à tona de maneira simbólica no argentino A Beleza, que conta a história simples de uma família que, morando numa pequena vila, emprega uma nativa wichi como doméstica. Ainda adolescente, Yola (Segundo) passa os dias trabalhando para Sara (Banus), que ressente a ausência frequente do marido (Carrizo) enquanto planeja uma ambiciosa festa de 15 anos para a filha Antonella (Romagnolo). Às vésperas do festejo, Sara leva Yola a um salão de beleza e é lá que os longos cabelos negros da menina, que jamais haviam sido cortados em função da tradição de seu povo, é retalhado, o que representa um choque que a leva a ficar doente por alguns dias.

Escrito e dirigido pela estreante Daniela Seggiaro, o filme é inteligente ao jamais demonizar a família de Sara: na maior parte do tempo, aliás, a patroa e sua filha se mostram carinhosas e atenciosas para com Yola, compreendendo, inclusive, a reação da garota diante da perda de suas longas tranças. Porém, o fato é que, como criatura habituada aos privilégios (mesmo humildes), Sara não parece perceber que pequenas atitudes corroem a alegria e a dignidade da jovem empregada – e o próprio aviso que a família exibe na porta de casa, se apresentando como católica e estabelecendo que “não aceita outras doutrinas”, solicitando o “respeito” de todos, expõe sua incapacidade de realmente aceitar as crenças e a cultura wichi de Yola, que também é obrigada a almoçar solitariamente e a aceitar pequenas humilhações por parte de Antonella (e o fato de as garotas terem a mesma idade ressalta os privilégios da segunda em contraste com a opressão da primeira).

Menos bem sucedida, por outro lado, é a estratégia da cineasta para homenagear a cultura wichi através de flashbacks que interrompem o ritmo da narrativa para ilustrar passagens da infância de Yola e – ainda pior – as inserções de pequenos interlúdios que trazem narrações na língua original da protagonista sobre paisagens desfocadas, algo que pouco acrescenta ao filme, servindo apenas para torná-lo mais longo e difuso.

Ainda assim, ao trazer uma pequena revelação no último e rápido plano do filme (tão rápido, aliás, que muitos espectadores poderão não se dar conta do que viram e do que isto significa), A Beleza fecha seu tema com propriedade, demonstrando que, mesmo bem intencionados na superfície, o homem branco ainda tem a tendência inquestionável de tomar o que não lhe pertence. Afinal, que mal isto faria? (3 estrelas em 5)

 

39)    El Último Elvis (Idem, Argentina, 2012). Dirigido por Armando Bo. Com: John McInerny, Griselda Siciliani, Margarita Lopez.

Carlos Gutiérrez (McInerny) é um homem de meia-idade acima do peso, divorciado, que trabalha como operário em uma linha de produção e pouco vê a filha pré-adolescente. Um fracassado, em outras palavras. Ou não, já que durante a noite ele tem a oportunidade de fazer aquilo que realmente gosta: vestir figurinos clássicos que o transformam em Elvis Presley e se apresentar como cover do rei em festas por toda Buenos Aires. Aliás, para Gutiérrez isto é menos um hobby e mais seu propósito na vida, já que ser Elvis é algo que o define, chegando ao ponto de, para receber um pagamento, explicar que seu nome “figura como Carlos Gutiérrez” na lista, como se este fosse seu pseudônimo de fato.

Uma das várias virtudes do belo roteiro escrito pelo diretor Armando Bo ao lado de Nicolás Giacobone, vale apontar, é a maneira com que permite que percebamos gradualmente a dimensão da obsessão do protagonista através de pequenos indícios: o nome de sua filha (Lisa) e sua insistência em tratar a esposa como “Priscila” – e torna-se fácil deduzir até mesmo as razões que a levaram a se divorciar, já que, ainda exibindo os cabelos ruivos da esposa de Presley e uma tatuagem que traz a frase “Love me Tender” no braço (algo que ela tenta ocultar ao usar roupas com mangas longas), Alejandra claramente se apaixonou pelo talento de Carlos na juventude, encantando-se por ele até perceber que o talento havia se transformado em algo patológico.

E se uso a palavra “talento”, é com justificativa de sobra, pois o sujeito é realmente um cantor talentoso que evoca com eficiência o timbre e voz do ídolo – e eu não ficaria espantado caso descobrisse que o ator estreante John McInerny realmente ganha a vida como cover de Elvis. Porém, se este era seu ganha-pão anteriormente, ele agora pode tranquilamente investir numa carreira no Cinema, já que, além dos aspectos musicais, McInerny confere imenso peso dramático a Carlos, evocando todas as suas dúvidas, suas angústias e seus sonhos de grandeza.

Divertido ao explorar a insanidade relativa de seu herói, El último Elvis provoca risos também ao retratar o universo particular dos sósias/covers argentinos, trazendo figurantes que remetem a John Lennon e Barbra Streisand (uma travesti, claro) enquanto se encarrega de ressaltar a diferença de Carlos com relação aos colegas, já que, ao contrário destes, ele realmente considera o que faz como uma espécie de “dom divino”, já que “Deus lhe deu a voz de Elvis Presley”.

O que nos traz ao ato final do longa e no qual o diretor Armando Bo altera completamente a dinâmica e a lógica da narrativa ao acompanhar o protagonista em sua viagem a Memphis e a Graceland, levando a um desfecho que, corajoso, apresenta-se também inquestionável em sua lógica.

Num mundo ideal, John McInerny ganharia alguns prêmios importantes por seu desempenho nesta obra engraçada e surpreendentemente tocante. (4 estrelas em 5)

 

40) In the Land of Blood and Honey (Idem, EUA, 2012). Dirigido por Angelina Jolie. Com: Goran Kostic, Zana Marjanovic, Rade Serbedzija, Nikola Djuricko, Boris Ler, Alma Terzic, Vanesa Glodjo.

Eu admiro as convicções políticas de Angelina Jolie. Como estrela de Hollywood, seria muito fácil, para a atriz, doar fortunas para organizações e instituições beneficentes e encerrar por aí seu ativismo. Em vez disso, porém, Jolie frequentemente viaja para regiões miseráveis que enfrentam dificuldades climáticas ou provocadas por humanos (leia-se: guerras) a fim de sujar as mãos na poeira local com o objetivo de atrair a atenção do mundo para os problemas ali enfrentados. Assim, é compreensível que, ao estrear como roteirista e diretora, a moça tenha escolhido ambientar seu filme em um período e uma região que testemunhou atrocidades diversas; por outro lado, é difícil negar que sua abordagem artística alcança resultados apenas medianos.

Iniciando a projeção com letreiros que explicam o contexto histórico que levou às ações do exército sérvio durante a guerra na Bósnia, entre 1992 e 1995, In the Land of Blood and Honey logo nos apresenta à pintora muçulmana Ajla (Marjanovic) e ao policial sérvio e cristão Danijel (Kostic), que se conhecem num bar, certa noite, e claramente se interessam um pelo outro – até que uma explosão destrói tudo ao redor do casal, indicando o início do conflito. Meses depois, quando Danijel já assumiu a posição de oficial do exército, Ajla é trazida a um centro de detenção/campo de concentração ao lado de dezenas de outras mulheres que passam a ser estupradas – e a garota acaba sendo salva pelo ex-interesse românico, que passa a protegê-la enquanto um namoro atípico tem início.

Já de imediato, Jolie merece créditos por evitar a muleta que a maioria de seus conterrâneos empregaria, introduzindo um personagem norte-americano na história para estabelecer alguma identificação maior com o público. Em vez disso, ela busca transformar a dinâmica entre o casal principal no foco da narrativa, buscando revelar a natureza generosa de Danijel e a culpa que Ajla passa a sentir por literalmente dormir com o inimigo. Da mesma maneira, Jolie, ciente de que a maior parte do público desconhecerá os pormenores do conflito, emprega o general vivido por Rade Serbedzija para oferecer algum contexto através de um monólogo que explica a atuação dos sérvios ao longo dos séculos e a maneira com que estes foram tratados pelos mesmos muçulmanos que agora massacram – uma justificativa absurda, claro, mas que ao menos funciona para evitar que vejamos aqueles indivíduos como meros demônios sedentos de sangue.

Não que consigamos evitar esta impressão, já que Jolie não hesita em retratar o genocídio promovido pelos sérvios de maneira chocante, gráfica e impiedosa, já que, além de promover o estupro sistemático das muçulmanas, os sérvios parecem encarar qualquer civil como alvo, disparando contra qualquer um que saia nas ruas e utilizando mulheres como escudos humanos (e o destino de um bebê se mostra particularmente pavoroso). A diretora, diga-se de passagem, conduz estas sequências de violência e guerra com segurança admirável, sendo auxiliada pela fotografia cinzenta e melancólica de Dean Semler.

É uma pena, portanto, que In the Land of Blood and Honey se perca justamente ao tentar trazer alguma dimensão humana para a trama, já que, para isso, se concentra excessivamente na tola historinha de amor que tenta contar – e um dos problemas reside no fato de que jamais acreditamos verdadeiramente nos sentimentos do casal: Danijel parece frio demais e, além disso, claramente usa sua posição de poder para eventualmente levar a parceira para a cama (mesmo que ele não chegue a obrigá-la, que alternativa ela teria? Ser entregue aos oficiais estupradores?), ao passo que Ajla não parece se importar de fato com o destino do amante. Infelizmente, são estes dois que dominam a projeção em seus encontros e desencontros que tendem à repetição.

Ao final, Jolie parece acreditar que a angústia de Danijel diante de seus crimes será o bastante para transmitir algum tipo de mensagem política sobre a desumanização provocada pela guerra, mas isto, claro, é algo que faz parte da própria natureza de conflitos bélicos. E, assim, ficamos com a impressão de que a diretora estreante, em seu desejo de criar um filme-denúncia, se esqueceu de seria recomendável investir em uma história eficaz que o fizesse funcionar como narrativa. (3 estrelas em 5)

 

41) Qual é o Nome do Bebê? (Le prénom, França, 2012). Dirigido por Alexandre de La Patellière e Matthieu Delaporte. Com: Patrick Bruel, Valérie Benguigui, Charles Berling, Guillaume de Tonquedec, Judith El Zein e Françoise Fabian.

O franco-belga Qual é o Nome do Bebê? é o filme que Deus da Carnificina queria ter sido. Ambos inspirados em espetáculos teatrais e limitados a uma discussão em tempo real ocorrido em um único espaço, os longas partem de conflitos familiares pontuais para desenvolver análises sobre a natureza humana enquanto saltam das risadas às lágrimas. Porém, onde o filme de Roman Polanski afundava, raramente convencendo na dinâmica entre aqueles personagens (numa situação real, os personagens vividos por Christoph Waltz e Kate Winslet teriam deixado o apartamento dos Longstreet já nos primeiros muntos) ou no humor empregado, aqui os cineastas Alexandre de La Patellière e Matthieu Delaporte (autor da peça original) alcançam um sucesso inquestionável, já que o longa provoca o riso do início ao fim e estabelece figuras críveis, complexas e humanas.

Apresentando rapidamente os personagens através de uma inspirada narração em off, a comédia logo estabelece a situação principal que moverá a história: o casal Pierre (Berling) e Élisabeth (Benguigui) está oferecendo um jantar em seu confortável apartamento para Claude (de Tonquedec, versão europeia e jovem de Jack Lemmon), Vincent e Anna (El Zein). Claude, melhor amigo de Élisabeth, é trombonista e aparentemente um solteirão convicto, ao passo que Vincent, bem sucedido agente imobiliário, está prestes a se tornar pai do filho de Anna, com quem mora há dois anos. É então que, indagado sobre o nome que dará à criança, o sujeito responde “Adolf” e os conflitos tomam conta da noite.

Repleto de diálogos divertidíssimos que extraem graça das mais simples argumentações, Qual é o Nome do Bebê? é dono de um senso de humor sofisticado, mas jamais inacessível. Sim, Pierre pode ser um acadêmico esnobe que apresenta todo tipo de argumento histórico (e mesmo literário) para protestar contra a escolha do cunhado, mas sua revolta é tão patente que se torna difícil não rir justamente de sua intelectualidade orgulhosa. Da mesma maneira, a irreverência de Vincent, que se recusa a levar qualquer coisa a sério, abre o caminho para que nos surpreendamos quando ele finalmente parece ser afetado por algo – o que se contrapõe à natureza generosa de sua irmã, que oscila entre as tentativas de contemporização e à frustração por jamais ser levada a sério pelos demais.

Conseguindo a proeza de manter um ritmo eficaz e de jamais soar excessivamente teatral mesmo dependendo exclusivamente dos diálogos para mover a narrativa, o filme é hábil ao saltar de uma discussão a outra de maneira fluida, respeitando a lógica dos personagens, mas também se preocupando em evitar a mesmice. Com isso, a lavação de roupa suja promovida por aquelas figuras se apresenta orgânica e jamais como uma imposição dramática do roteiro (algo que ocorria em Deus da Carnificina), levando a revelações que, por sua vez, inspiram novas confissões, novos conflitos e novas risadas.

Ao final, porém, o segredo da eficácia de Qual é o Nome do Bebê? reside no fato de que jamais duvidamos de que aqueles personagens se amam e se respeitam, o que torna os conflitos ainda mais importantes sem que, com isso, se tornem cruéis a ponto de afastar o público. Apesar do epílogo dispensável, esta é uma comédia que certamente enviará o espectador feliz para fora da sala de projeção. (4 estrelas em 5)

 

42) A Saga Comic-Con: O Sonho de um Fã (Comic-Con Episode IV: A Fan’s Hope, EUA, 2012). Dirigido por Morgan Spurlock.

Criada em 1970 e atraindo apenas algumas centenas de pessoas, a Comic-Con se tornou, ao longo das décadas, um evento de proporções megalomaníacas que perdeu o foco de servir como encontro de fãs de quadrinhos para se transformar num festival de publicidade para todo tipo de produto, de filmes a games, passando por brinquedos e, apenas perifericamente, de HQs.

Trazendo nomes como Harry Knowles, Joss Whedon e Stan Lee na função de produtores executivos do projeto (e, não coincidentemente, também como entrevistados), o documentário acompanha seis indivíduos ao longo dos três dias da convenção: uma garota que, residente de uma cidade “na qual as pessoas só param para ir ao banheiro”, cria fantasias e bonecos animatrônicos ambiciosos; um jovem geek que conheceu a namorada no evento do ano anterior e agora planeja pedi-la em casamento durante uma palestra de Kevin Smith; o veterano dono de uma loja de quadrinhos que, financeiramente comprometido, decidiu vender uma edição raríssima (“Red Raven #01”) por 500 mil dólares; um colecionador de brinquedos que pretende comprar a edição limitada de um boneco do Magneto; e dois desenhistas que sonham em conseguir trabalho em alguma editora. A partir destes personagens, Spurlock retrata os diversos interesses despertados pela feira e os sonhos dos fãs que chegam aos milhares a San Diego para aquela que se tornou uma verdadeira tradição anual.

A grande virtude de A Saga de um Fã, vale apontar, é o respeito com que Morgan Spurlock trata aquelas pessoas: sim, é difícil não rir ao perceber a seriedade com que o colecionador de bonecos lida com suas posses, usando até mesmo um cofre para guardar os itens mais valiosos (muitos dos quais, ele explica, serão valiosos no futuro, embora ainda não o sejam) ou não ficar um pouco embaraçado ao perceber como quarto de um dos aspirantes a ilustrador parece pertencer a uma criança, mas estes julgamentos partem do espectador, não do cineasta. Além disso, o diretor permite que aqueles indivíduos expliquem a natureza de suas obsessões com total liberdade, levando-nos a perceber que, para muitos deles, a atividade de “fã” surge como um necessário escape temporário dos problemas do cotidiano ou mesmo como a possibilidade (mesmo que ínfima) de um futuro profissional associado ao objeto de adoração.

Trazendo depoimentos divertidos de Kevin Smith (que agora parece se vestir como uma caricatura de… Kevin Smith), Seth Rogen e Seth Green, além de falas de fãs comuns, o documentário também perde tempo com algumas falas dispensáveis que parecem ter sido incluídas apenas por virem de figuras conhecidas, como aquelas do repugnante e doente Eli Roth, de Joss Whedon (que tenta fazer piadas, mas sem sucesso) e de Harry Knowles. Em contrapartida, uma das maiores risadas provocadas pelo longa surge de um comentário do comerciante de HQs, que diz: “Se sua mulher te mandar jogar sua coleção de quadrinhos fora, é hora de trocar de mulher. Há três bilhões de mulheres no mundo, mas apenas algumas dezenas de bons quadrinhos” – e sua lógica particular, sobrepondo a obsessão de fã ao envolvimento romântico, resume bem a visão de muitos dos personagens vistos ao longo da projeção.

Interessante também ao falar (mesmo que tangencialmente) do universo cosplay, A Saga de um Fã é o primeiro trabalho de Morgan Spurlock a realmente funcionar – e não duvido de que isto se deva ao fato de que também é seu primeiro filme a não conter um segundo de Morgan Spurlock na tela. Que ele mantenha a tática. (4 estrelas em 5)

 

43) Depois de Lúcia (Después de Lucía, México, 2012). Dirigido por Michel Franco. Com: Tessa Ia, Hermàn Mendoza.

Depois de Lúcia é o melhor filhote do Novo Cinema romeno… a ser produzido fora da Romênia. Adotando a estratégia da maior parte daquelas obras ao manter a câmera sempre estática e ao desenvolver sua narrativa a partir de longos planos que praticamente incluem cenas inteiras antes de cada corte, o filme de Michel Franco acabou sendo selecionado para representar o México na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e, como tal, se apresenta um fortíssimo concorrente desde já.

Concentrando-se na história da adolescente Alejandra (Ia) e de seu pai Roberto (Mendoza), a narrativa acompanha a dupla enquanto esta decide se mudar de Puerto Vallarta para a cidade do México após a morte da mãe da garota em um acidente de carro. Adaptando-se bem à nova escola enquanto o pai assume o posto de chef num restaurante renomado, Alejandra acaba cometendo um erro estúpido ao transar com um colega de sala em uma festa, permitindo que ele filme tudo – e quando o vídeo é visto por todo o colégio, ela passa a sofrer bullying sistemático por parte de todos.

Bullying, aliás, que aqui assume contornos de psicopatia coletiva, já que as humilhações sofridas pela menina ultrapassam em muito as já suficientemente abusivas agressões verbais, passando para torturas físicas que gradualmente se aproximam do insuportável e que são retratadas pela câmera impiedosa de Michel Franco como atos sempre realistas e sem qualquer dose de sensacionalismo – e os já citados planos extensos empregados pelo cineasta tornam a experiência torturante para o espectador, que é obrigado a testemunhar aquelas atrocidades na total passividade forçada pela existência da quarta parede, impedindo que façamos aquilo que nossos impulsos ditam, que é confortar Alejandra, alertar seu pai para os abusos e castigar os bullies.

E é aí que se encontra a inteligência narrativa de Depois de Lúcia: como o próprio título indica, tudo que ocorre durante a projeção acaba sendo fruto direto ou indireto da morte da mãe da protagonista, que, por não querer atormentar ainda mais o já deprimido Roberto, mantém em segredo tudo que vem sofrendo na escola, exibindo uma aparência de normalidade absolutamente convincente em suas interações com o sujeito. Este, por sua vez, se revela um pai compreensivo e amoroso – e confrontado com a revelação de que a filha fumara maconha, por exemplo, ele opta por uma conversa franca e madura em vez de por uma punição precoce. Por outro lado, à medida que a narrativa se desenvolve, torna-se claro que Roberto encontra-se num processo profundo de depressão: guardar os utensílios de cozinha dispara choros convulsivos e, aqui e ali, ele se entrega a pequenas explosões que se tornam cada vez mais intensas, iniciando com um pedido de demissão impensado, passando por uma briga no trânsito e culminando numa ação, durante o terceiro ato, que indica a dimensão da raiva que reprimiu desde que perdeu a esposa.

O que nos traz, claro, ao impiedoso plano que encerra a narrativa e que, deixando o espectador em suspenso (embora as consequências do que vimos sejam óbvias e nada auspiciosas), conclui um estudo de personagem complexo e corajoso, retratando uma questão cada vez mais relevante, comum e preocupante (o bullying escolar) através de nosso envolvimento com os multifacetados personagens – uma costura que, por exemplo, Angelina Jolie fracassou ao tentar realizar no recente In the Land of Blood and Honey, também exibido no Festival do Rio de 2012.

Depois de Lúcia se torna, assim, não apenas um drama delicado e eficaz, mas também um filme contemporâneo e essencial. (5 estrelas em 5)

Festival do Rio 2012 – Dia 05

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos | 3 comentários

Abraços para a leitora Sabrina, que me cumprimentou depois da sessão de El Último Elvis, e também para a querida Graziela Inês (e seu namorado Felipe, que conheci ontem).

Ah, os filmes?

 25)    Hotel Mekong (Mekong Hotel, Tailândia, 2012). Dirigido por Apichatpong Weerasethakul. Com: Jenjira Pongpas, Maiyatan Techapam, Sakda Kaewbuadee, Apichatpong Weerasethakul.

Graças ao diretor Apichatpong Weerasethakul, me ocorreu a existência de um gênero que batizo aqui de “filme-aquário”: são obras que compõem o ambiente, mas não são essenciais a este; você pode olhar para a tela ou não; ler as legendas ou não; sair da sala e retornar a qualquer momento e ele continuará lá sem que você tenha perdido algo importante; é perfeitamente natural contemplá-lo por um longo tempo enquanto pensamos em qualquer outra coisa; e, finalmente, você pode discuti-lo após observá-lo ou não, já que isto não fará qualquer diferença e nada de realmente relevante surgiria da conversa.

Hotel Mekong é um belo filme-aquário.

Composto a partir de planos sempre estáticos e longos que acompanham os personagens enquanto estes basicamente contemplam o rio Mekong durante discussões triviais sobre suas vidas, sobre o país ou sobre entidades sobrenaturais, o filme de “Joe” (como é conhecido por quem quer mostrar ser íntimo de sua obra) tenta sugerir profundidade a partir da inespecificidade – e se o cineasta coloca algo na tela (como uma mulher-fantasma devorando o intestino da filha), isto certamente deve representar algo importante: uma nação que explora seus cidadãos, dúvidas existenciais que nos correm ou, sei lá, a natureza canibalesca da Arte.

Ora, é fácil projetar uma aura de sofisticação narrativa quando todos parecem dispostos a conferir importância até mesmo às limitações do filme – e Weerasethakul exibe, em Hotel Mekong, uma autoindulgência ainda mais alarmante do que aquela vista em seu Tio Boonmee, já que aqui não há nem mesmo como justificar o longa a partir de decisões estéticas. Em certo momento deste projeto, por exemplo, surge um plano no qual um personagem observa a ação da mulher-fantasma-canibal-vampira escondendo-se atrás do batente de uma porta – e a composição e a mise en scène são tão amadoras que chegam a irritar.

Incluindo uma ponta do próprio diretor logo no início, quando vemos o músico que acompanhará toda a ação (e realmente quero dizer “toda”) ensaiando o tema no violão, Hotel Mekong é o tipo de besteira que confere má fama à expressão “filme de Arte” (um “gênero” que, aliás, julgo nem existir), mas que faz sucesso em festivais e com certo tipo de crítico.

Já eu, confesso, continuo a encarar “Joe” apenas como um trapaceiro convincente. (2 estrelas em 5)

 

26)    Verão em Red Hook (Red Hook Summer, EUA, 2012). Dirigido por Spike Lee. Com: Jules Brown, Clarke Peters, Toni Lysaith, Alicia Simms, Heather Simms, De’Adre Aziza, Thomas Jefferson Byrd, Spike Lee, Colman Domingo, Nate Parker.

2012 está sendo um ótimo ano para Spike Lee: além de comandar o eficiente documentário sobre o álbum Bad (sobre o qual falarei em breve), o cineasta retorna, neste Verão em Red Hook, ao tipo de Cinema que o lançou, concentrando-se numa vizinhança de Nova York enquanto explora a interação entre os habitantes para criar um complexo painel sobre suas vidas, filosofias, políticas e crenças, demonstrando certo grau de respeito até mesmo para com os mais desprezíveis ou cruéis de seus personagens.

Escrito por Lee e James McBride, o filme se passa nas férias de verão do jovem Flik (Brown), que, morando em Atlanta (terra natal do diretor), é levado pela mãe para passar um tempo com o avô no bairro Red Hook, em Nova York (terra adotada pelo cineasta). Bispo de uma humilde paróquia local, o avô do menino é um sujeito que parece pensar apenas em sua religião, que logo tenta forçar sobre o neto. Enfrentando dificuldades financeiras para manter a igreja funcionando, o bispo Enoch (Peters) é assessorado pelo amalucado diácono Zee (Byrd), um sujeito beberrão e obcecado pela bolsa de valores, e mantém uma relação respeitosa de interesse com uma das gestoras do local, a “irmã” Sharon (Simms). À medida que o verão passa, Flik se torna próximo da filha de Sharon, a irreverente Chazz (Lysaith), e conhece as figuras da região – incluindo o entregador de pizza Mookie, que Lee viveu em Faça a Coisa Certa e que aqui surge rapidamente em duas ocasiões.

Dividindo com aquela obra do diretor também o calor que massacra os personagens, Verão em Red Hook é hábil ao apresentá-los de maneira rápida e econômica já no primeiro ato através de um longo plano no qual Lee, percorrendo as ruas do bloco habitacional no qual o bispo reside, encena os encontros deste com vários fiéis cujas personalidades já ficam claras a partir de suas breves conversas. Porém, por mais interessantes que estas figuras secundárias sejam, não há dúvidas de que o centro narrativo do filme é mesmo o religioso retratado por Clarke Peters de maneira espetacular (digna de prêmios, eu acrescentaria): seguro de sua fé a ponto de se tornar desrespeitoso ao tentar forçá-la sobre todos aqueles que o cercam, o bispo Enoch é dono de um senso de espetáculo importante em sua profissão, surgindo como um orador divertido, hipnotizante e cuja retórica certamente poderia convencer qualquer um que se atentasse apenas à superfície do que está sendo dito (“Especialistas construíram o Titanic; amadores construíram a Arca”, ele aponta em certo momento, esquecendo-se, porém, de dizer que uma destas embarcações era fictícia, o que facilita bastante a vida de qualquer engenheiro).

Aliás, o carisma do bispo é tamanho que, durante boa parte do longa, fiquei sinceramente na dúvida se a pregação era do personagem ou do filme – até que, numa cena intimista que traz uma conversa entre Sharon e Enoch, a primeira confessa que, depois de perder a filha mais velha, decidiu que, em vez de deixar as coisas “nas mãos de Deus”, está orientando a garota. “Não vou pregar, mas ensinar”, ela explica, acrescentando que o neto do bispo “não precisa de Deus, mas do avô”. Neste momento, as preocupações temáticas de Verão em Red Hook se tornam patentes e compreendemos que a fotografia superexposta adotada no interior da Igreja aconchegante, que por vezes parece trazer um brilho emanado do pastor, reflete não a posição do filme, mas a visão subjetiva do bispo sobre si mesmo.

E é então que Spike Lee puxa de vez o tapete sob os pés do espectador através de uma revelação no terceiro ato, alterando drasticamente a dinâmica entre os personagens e do próprio filme, expondo cicatrizes há muito ocultas, levantando questões complexas sobre a natureza da fé e obrigando o público a indagar se seria justo tornar inválidas as boas ações de alguém em função de erros graves cometidos no passado e dos quais o indivíduo claramente se arrepende.

Trazendo um dos melhores planos do ano (aquele que começa num close do bispo, revelando cruzes luminosas refletidas em seus olhos), Verão em Red Hook é um olhar franco sobre a religião, analisando-a (e seus “pastores”) sem jamais ser desrespeitoso ou cruel. E assim, quando um pequeno distribuidor de drogas local pergunta ao bispo “quem é o verdadeiro traficante”, é impossível não se deter diante da relevância e da inteligência da indagação. (4 estrelas em 5)

 

27)    Bad 25 (Idem, EUA, 2012). Dirigido por Spike Lee.

Quando comentei brevemente o documentário This is It durante a cobertura da Mostra de São Paulo de 2009, observei que o filme teria feito muito bem à abalada reputação de Michael Jackson, já que o apresentava como um sujeito com imensa ética profissional, gentil na relação com os colegas e como uma alma torturada (acusações de pedofilia à parte, claro). Pois Bad 25 exerce função similar ao analisar o álbum que o cantor lançou em 1987, dissecando a história por trás de cada música e entrevistando os responsáveis pela produção do disco e dos vídeos criados para divulgar as canções.

Iniciando com o sucesso descomunal alcançado por Thriller e estabelecendo o desejo de Jackson de superar os recordes obtidos por aquele trabalho, o documentário dirigido por Spike Lee traz imagens de bastidores das produções dos clipes, de vídeos caseiros rodados pelo próprio músico e momentos da longa turnê Bad. Assim, podemos acompanhar depoimentos de figuras como Martin Scorsese, que, responsável pela direção do icônico videoclipe que dá título ao álbum, relembra detalhes do projeto e ri, por exemplo, ao relatar seu espanto com o hábito do cantor de agarrar a própria virilha durante a coreografia.

A dança, por sinal, é um assunto central do longa, como não poderia deixar de ser – e quando vemos Jackson em ação, é sempre difícil conter a admiração por seu talento. No entanto, as coreografias que o sujeito parecia tornar tão simples exigiam, obviamente, imensa preparação, o que Lee expõe aqui ao detalhar os ensaios, a lógica por trás de movimentos específicos e ao trazer, inclusive, anotações particulares do astro relativas ao seu processo criativo. Da mesma maneira, detalhes técnicos das gravações são oferecidos pela equipe montada pelo lendário Quincy Jones, sendo fascinante, por exemplo, descobrir como um engenheiro de som decidiu um usar um microfone usado para narrações por julgar (acertadamente) que a qualidade daquele áudio específico beneficiaria o timbre particular de Jackson. E se as anotações do artista são elementos curiosos de seu processo, ouvir gravações de seus exercícios vocais é algo que comprova seu cuidado com seu principal instrumento e – mais uma vez – todo o imenso trabalho que permitia seu alcance de voz.

Com isso, à medida que Bad 25 avança, percebemos como nada foi deixado ao acaso na produção do álbum: cada faixa tinha um propósito específico e uma história particular e digna de discussão, culminando, claro, naquela que se tornaria o hino informal de sua morte, Man in the Mirror – e ver praticamente todos os entrevistados derramando lágrimas ao discutirem a morte súbita de Michael Jackson, três anos após sua partida, é algo que apenas reafirma a impressão deixada por This is It: a de que, mesmo com seus demônios pessoais inquestionáveis, o sujeito definitivamente conquistava aqueles ao seu redor. (4 estrelas em 5)

 

28)    Tabu (Idem, Portugal, 2012). Dirigido por Miguel Gomes. Com: Laura Soveral, Teresa Madruga, Isabel Muñoz Cardoso, Ana Moreira, Henrique Espírito Santo, Carloto Cotta, Ivo Müller, Manuel Mesquita.

Responsável por aquele que considerei como sendo o melhor filme exibido na Mostra de São Paulo de 2008, Aquele Querido Mês de Agosto, o diretor português Miguel Gomes não decepciona neste seu novo trabalho, Tabu, que traz alguns dos elementos já presentes naquele projeto, como o humor e a estrutura atípica, além de explorar facetas novas de sua produção, como o diálogo elegante, muitíssimo bem acabado, e a capacidade de flertar com o melodrama sem tornar-se apelativo ou excessivamente açucarado.

Dividido em duas partes, o longa, escrito por Gomes ao lado de Mariana Ricardo, tem início ao nos apresentar à triste Pilar (Madruga), que, solitária, se preocupa imensamente com o bem estar de sua idosa vizinha Aurora (Soveral). Porém, depois que esta adoece e pede que a amiga busque um velho conhecido, Pilar descobre sua história da juventude, quando, casada e grávida, se apaixonou por outro homem.

Basicamente desenvolvido através da contínua narração em off, Tabu tem nos diálogos uma de suas grandes virtudes – e é esteticamente prazeroso ouvir o narrador explicando que certo personagem brincava de roleta russa apenas para concluir que este “morreria mais tarde em função deste seu hábito”. Aliás, neste aspecto a obra de Gomes é curiosa, já que poderia ser simultaneamente descrita como um filme mudo e também intensamente sonoro: por um lado, há, claro, a trilha e a já mencionada narração; por outro, jamais ouvimos os personagens vistos na segunda parte falando, já que suas ações em cena conduzem a história, sendo apenas comentadas pelo off.

Com uma fotografia em preto-e-branco belíssima que ressalta a tristeza da narrativa, Tabu é uma história de amor trágica e tocante, mas, ao seu próprio modo, também um exercício narrativo corajoso e ambicioso que volta a apresentar seu diretor como um dos nomes mais interessantes do Cinema contemporâneo. (4 estrelas em 5)

 

29)    César Deve Morrer (Cesare deve morire, Itália, 2012). Dirigido por Paolo e Vittorio Taviani. Com: Salvatore Striano, Cosimo Rega, Giovanni Arcuri, Antonio Frasca, Juan Dario Bonetti, Vincenzo Gallo, Rosario Majorana, Fabio Cavalli.

Assim como Histórias que Contamos e Uma Super-Simplificação de Sua Beleza, dois outros documentários exibidos no Festival do Rio de 2012, este brilhante César Deve Morrer, retorno dos veteranos irmãos Taviani ao Cinema depois de cinco anos de ausência, funciona não só como um registro parcialmente falsificado da realidade como ainda acaba atuando como um reflexo metalinguístico sobre sua própria realização. No processo, o longa estabelece um olhar sensível sobre a natureza libertadora da Arte e se apresenta como uma releitura perfeitamente respeitável do clássico Júlio César.

Rodado ao longo de seis meses em uma prisão italiana de segurança máxima, o filme acompanha a produção do espetáculo teatral montado anualmente com o objetivo de oferecer uma atividade criativa e terapêutica para os prisioneiros, desde os testes feitos com os interessados até a apresentação para familiares numa pequena noite de gala, passando pelos ensaios, conflitos do elenco e autoquestionamentos artísticos. Para isso, os cineastas iniciam César Deve Morrer com o desfecho da performance “pública”, registrada em cores e testemunhada pelos convidados no auditório da prisão – e é então que, findos os aplausos, vemos o elenco extasiado ser escoltado para fora do palco pelos carcereiros e retornando para os bastidores que se resumem a celas no lugar de camarins. A partir daí, retornamos um semestre no tempo e acompanhamos os preparativos para aquela apresentação única e claramente tão especial para os envolvidos.

Em um primeiro instante, claro, o documentário encanta ao revelar o talento insuspeito daquelas figuras ameaçadoras e que, em cena, se mostram capazes de evocar dores e conflitos que os levam às lágrimas no momento dramático mais apropriado; aos poucos, contudo, percebemos que por trás deste talento há um esforço descomunal, já que, contando com todo o tempo do mundo, os atores reanalisam continuamente seus diálogos e movimentos em cena, encontrando espaço até mesmo para confissões pessoais despertadas pelo texto de Shakespeare.

E é aqui que a estratégia dos Taviani se revela especialmente intrigante, já que percebemos que a maior parte do que testemunhamos envolve uma encenação cuidadosa, desde as brigas entre integrantes do elenco até comentários feitos pelos carcereiros que os observam – e mesmo que estas passagens sejam inspiradas por fatos reais (e acredito que sejam), não há dúvidas de que ao longo da projeção são orquestradas em detalhes pelos diretores, que, assim, podem ilustrar até mesmo os comentários jocosos feitos pelos prisioneiros que não participam da produção e enxergam o grupo com hostilidade e desprezo.

Por outro lado, não há como questionar a natureza violenta daqueles homens, que, mesmo se abrindo em cena, são criminosos condenados por envolvimento em homicídios, com a máfia e com o narcotráfico – o que apenas ressalta a transformação em cena, quando, para citar apenas um deles, o obviamente perigoso Juan Dario Bonetti encarna Decio com olhos tremendamente bondosos. Neste aspecto, vale apontar, o filme não só registra uma produção de Júlio César como se transforma numa eficiente releitura da peça de Shakespeare, comprovando sua universalidade ao transformar o povo romano, por exemplo, em presidiários que escutam o inesquecível discurso de Marco Antônio através das barras das janelas de suas celas (e a utilização dos espaços do presídio é inspirada, como na cena que transforma o senado de Roma em um pequeno galpão vazio e empoeirado).

Empolgados com o projeto e demonstrando uma dedicação que expõe o potencial redentor da Arte, os criminosos vistos em César Deve Morrer certamente enxergam a atividade como uma forma de escaparem temporariamente de suas vidas limitadas pelos muros e barras da penitenciária – e, assim, quando finalmente agradecem os aplausos do público e são devolvidos, com postura triste e derrotada, às suas celas, percebemos que o que se encerrou ali foi mais do que um exercício artístico; foi uma breve e legal fuga de sua deprimente realidade. (5 estrelas em 5)

 

30)    Dossiê Jango (Idem, Brasil, 2012). Dirigido por Paulo Henrique Fontenelle.

Para assistir ao videocast que gravei sobre o filme, clique aqui. (5 estrelas em 5)

Festival do Rio 2012 – Dia 04

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos | 4 comentários

Abraços aos leitores Railer, Vítor e Bruno, que vieram se apresentar nos intervalos entre as sessões. (Aliás, abraço também para Otávio Ugá, André Navarro e, claro, Renata Melo, alunos tão queridos.)

E os filmes? Ah, sim, os filmes.

19)    Killer Joe – Matador de Aluguel (Killer Joe, EUA, 2012). Dirigido por William Friedkin. Com: Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Juno Temple, Thomas Haden Church, Gina Gershon.

É sempre um prazer ver cineastas veteranos que haviam se perdido no meio do caminho resgatando o brilho e o frescor de suas trajetórias – e William Friedkin, cuja década de 90 foi jogada no lixo, finalmente parece ter recuperado a inspiração ao estabelecer uma parceria com o dramaturgo Tracy Letts, adaptando a peça Possuídos em 2006 e agora este excelente Killer Joe – Matador de Aluguel, que atira o espectador num mundo deprimente de miséria, amoralidade e estupidez até atingir um clímax absolutamente insano que conduz o filme do fascinante ao sublime.

Adaptado pelo próprio Letts, o roteiro acompanha a pavorosa família Smith: perseguido por traficantes locais depois que sua própria mãe roubou a cocaína que ele deveria vender, o jovem Chris (Hirsch) tenta recorrer ao pai para levantar o dinheiro necessário para se manter vivo, mas o ignorante Ansel (Church), ao ouvir o desespero do filho, sugere apenas que ele saia “correndo da cidade”. É então que Chris revela que a mãe fez um seguro de vida no valor de 50 mil dólares e cuja beneficiária é sua jovem irmã Dottie (Temple), convencendo Ansel a contratar um assassino para que possam receber o dinheiro. É aí que entra em cena o policial Joe Cooper (McConaughey), que, irritado ao descobrir que os Smith não têm o dinheiro necessário para o adiantamento da tarefa, propõe que Dottie lhe seja entregue como “caução”.

Estabelecendo a atmosfera opressiva da narrativa desde o primeiro plano, que surge mergulhado na escuridão e na chuva, sendo pontuado também pelo latido insistente de um cão, Friedkin parece se divertir imensamente com a família que dá centro ao filme e que rivaliza com os parentes de Leatherface em O Massacre da Serra Elétrica (cuja “parte 4” trazia Matthew McConaughey no elenco, vale apontar). Já nos primeiros minutos do longa descobrimos que Ansel costuma comprar maconha do próprio filho (protestando com relação à qualidade da erva), que Chris já fora expulso da casa da mãe algumas vezes por agredi-la e que Dottie, que a madrasta do rapaz (vivida por Gershon) vai para a cama com qualquer um e que Dottie, a única criatura ainda inocente naquele inferno, parece ter encontrado alguma fuga no sonambulismo e num quase autismo que a impede de se relacionar apropriadamente com o que a cerca. Neste sentido, o elenco jamais desaponta: Hirsch surge como um pequeno marginal, Gershon exibe um ar sempre calculista e vulgar, Church cria o mais passivo e estúpido dos personagens e Temple transforma Dottie numa jovem adorável, pura, mas claramente instável.

Porém, o destaque inquestionável fica mesmo por conta de McConaughey, um ator que admiro há anos e que elogiei fartamente até em produções esquemáticas (mesmo que eficientes) como a comédia Como Perder um Homem em Dez Dias: desperdiçando a maior parte da última década com besteiras como Armações do Amor, Um Amor de Tesouro e Minhas Adoráveis Ex-Namoradas, o sujeito parece ter voltado a se interessar pela interpretação no último ano, quando estrelou o ótimo O Poder e a Lei e criou um personagem excelente em Bernie. Nada, porém, poderia preparar o espectador para o que o ator oferece aqui: encarnando Joe como um sujeito cuja aparente polidez na fala oculta uma natureza volátil e perigosa, McConaughey vai revelando aos poucos a loucura do sujeito – e, assim, quando finalmente vemos o personagem-título sem qualquer máscara social no impactante terceiro ato, percebemos como é ameaçador e também a dimensão de sua psicopatia.

Construindo uma atmosfera noir eficaz, Killer Joe ainda conta com um senso de humor mórbido que complementa perfeitamente os aspectos mais cruéis da narrativa, desde pequenos instantes como aquele envolvendo um fio solto no terno de Ansel até absurdos que despertam um riso chocado graças ao incômodo que provocam no público (três palavras: “coxa de galinha”). Aliás, todo o ato final do longa é uma longa escalada rumo à insanidade, iniciando com uma conversa de crescente tensão até culminar numa celebração inesperada e estranhíssima.

E é bastante possível que, depois do fade final, o espectador saia do cinema rindo sozinho, mas também sentindo uma vontade irrefreável de tomar um banho e deixar toda aquela sujeira para trás. (5 estrelas em 5)

 

20)    Jerry Lewis – Loucura e Método (Method to the Madness of Jerry Lewis, EUA, 2011). Dirigido por Gregg Barson.

Meu amor pelo Cinema (e, consequentemente, a semente da carreira que comecei há 18 anos) vem de duas paixões da infância: os filmes dos Trapalhões e de Jerry Lewis. Gênio absoluto da comédia, Lewis protagonizou uma das trajetórias comerciais mais espetaculares de Hollywood entre 1946 e 1956, nos longas estrelados ao lado do parceiro Dean Martin, e entre 1960 e 1965, quando produziu, roteirizou, estrelou e dirigiu sucessos consecutivos com absoluta liberdade para a Paramount. Raramente levado a sério por boa parte da crítica norte-americana, o comediante encontrou este respeito na França – embora hoje sua influência sobre humoristas e cineastas em seu próprio país seja inquestionável.

Isto, aliás, fica bastante evidente através dos nomes que surgem neste documentário para elogiar a carreira de Lewis: de Seinfeld a Eddie Murphy, passando por Billy Crystal, Carl Reiner, Chevy Chase, Woody Harrelson e Carol Burnett (além de cineastas como Spielberg, Tarantino e John Landis), são muitos aqueles que atribuem ao ator/roteirista/diretor uma série de inovações não só no gênero comédia, mas na própria maneira de filmar estas produções, já que, entre outras coisas, ele foi o responsável por inventar uma das ferramentas mais importantes para os cineastas contemporâneos: o video-assist.

Porém, nada disso é novidade – e o que o título do longa parece prometer, uma análise sobre o método criativo de Jerry Lewis, representaria este novo olhar sobre sua trajetória. Infelizmente, a promessa não sai do título, já que o filme parece satisfeito ao se ater aos reiterados elogios feitos por todos ao biografado (que, por sua vez, tampouco jamais demonstrou timidez ao reconhecer os próprios méritos). Ora, é claro que um sujeito com 80 anos de carreira (66 dos quais vividos no estrelato absoluto) sabe o que está fazendo, mas como este sucesso foi alcançado? E por que Martin e Lewis decidiram se separar no auge? Estas perguntas, respondidas na ótima autobiografia de Lewis, aqui permanecem sem resposta, o que é no mínimo frustrante – especialmente para quem não conhece sua jornada em detalhes.

Por outro lado, o próprio Jerry Lewis resgata o filme através das inúmeras cenas extraídas de seus filmes e que, por si só, revelam sua genialidade como ator, roteirista e diretor, sendo surpreendente observar, por exemplo, sua sofisticação na utilização do som como recurso cômico e também sua coragem ao transformar seu primeiro projeto na direção em um veículo no qual, como ator, ele só abre a boca no último minuto de projeção (ecos de Chaplin em O Grande Ditador). Além disso, o documentário traz preciosas imagens de arquivo, desde momentos dos programas de tevê estrelados por Martin e Lewis (incluindo a participação do pai deste último) até cenas de bastidores de suas produções, que revelam sua preocupação em manter o set sempre descontraído.

Amarrando a estrutura da narrativa através da tour realizada recentemente pelo comediante (e que não parece ser particularmente inspirada, infelizmente), Método e Loucura afirma, em certo momento, ser difícil “entender quem é Jerry Lewis”. Talvez isto seja verdade, mas o fato é que o filme nem sequer tenta fazê-lo. (3 estrelas em 5)

 

21)    Pietá (Idem, Coréia do Sul, 2012). Dirigido por Kim Ki-duk. Com: Lee Jung-jin, Jo Min-soo.

Em certo momento de Pietá, novo filme do sul-coreano Kim Ki-duk, um coelho que havia sido confiscado pelo protagonista como pagamento de uma dívida é libertado por uma personagem antes que acabe sendo abatido para consumo. Saltando alegre rumo à liberdade, o animal atravessa a rua diante do apartamento no qual era mantido preso e é triturado pelas rodas de um carro antes de alcançar o outro lado. Este é um instante que resume todo o longa, que não encontra espaço para fuga ou redenção em sua narrativa enquanto esta discorre sobre a natureza da vingança e a implacabilidade do capitalismo nas sociedades modernas.

Com roteiro do próprio diretor, Pietá gira em torno de Gang-Do (Jung-jin), que trabalha como coletor de dívidas para um agiota local. Atuando em sua vizinhança miserável povoada por pequenos comerciantes e operários soterrados em dívidas, o sujeito frequentemente contorna a falta de dinheiro dos devedores através de um método cruel, aleijando-os para coletar o seguro que ele mesmo providenciara para suas vítimas. Certo dia, porém, a rotina solitária do protagonista muda quando a sofrida Mi-Son (Min-soo) se apresenta como a mãe que o abandonou ainda bebê, levando-o a aceitá-la através de sua patológica insistência. No entanto, não demora até que o passado violento de Gang-Do decida cobrar também suas dívidas.

Sem fazer qualquer esforço para suavizar a natureza de seu personagem, Lee Jung-jin encarna o violento rapaz com uma frieza assustadora: em certo instante, por exemplo, um de seus devedores tenta evitar que sua idosa mãe o veja sendo agredido pelo bandido, que, então, faz a mais absoluta questão de esbofeteá-lo repetidas vezes diante dos olhos da velhinha. Da mesma maneira, é sintomático que Gong-Do faça questão de comprar animais vivos para só então abatê-los no banheiro de seu pequeno apartamento antes de cozinhá-los, como se precisasse sempre manter algum grau de destruição em seu cotidiano. Em contrapartida, Jo Min-soo acertadamente vai no caminho oposto ao retratar a mulher que entra na vida do protagonista, conferindo um estoicismo que beira o mais puro masoquismo, como se ela quisesse ser punida por seus erros – e, de certa forma, a dinâmica estabelecida pela dupla parece permitir que um se alimente da doença do outro.

Isto, claro, até que Ki-duk altere a lógica daquela relação, infantilizando o protagonista, que subitamente parece depositar toda a sua carência na mãe recém-descoberta, como se esta fosse finalmente capaz de conduzi-lo à redenção que ele nem sabia desejar (e o segundo ato certamente perturba ao aparentemente ilustrar os extremos que a mulher parece disposta a atingir para confortar o rapaz). Assim, quando o cineasta novamente move a narrativa, apresentando finalmente seus propósitos temáticos com clareza, Pietá encontra o foco que parecia lhe faltar até então, embora também acabe soando absurdo demais para funcionar completamente.

Da mesma maneira, fica patente que, além de contar uma história de vingança, Ki-duk tenta utilizar o projeto para transmitir alguma mensagem crítica sobre ganância e capitalismo – e não é à toa que as vítimas de Gang-Do são destruídas pelas próprias máquinas nas quais labutavam sem jamais deixar a miséria. Porém, ainda que um monólogo mais óbvio sobre a transformação inevitável da cidade pelos arranha-céus seja apresentado sem muita sutileza pelo filme, este subtexto temático permanece difuso demais para realmente provocar impacto ou inspirar reflexões mais profundas.

Com isso, o que resta no desfecho de Pietá é a angústia absoluta originada pela constatação de que a felicidade é impossível naquele universo – algo que a natureza da mancha deixada pelo caminhão no plano final expõe de forma impiedosa ao mesmo tempo que tenta criar a metáfora derradeira de um discurso frágil como manifestação política, mas suficientemente eficiente como drama para impressionar o espectador. (4 estrelas em 5)

 

22)    Post Tenebras Lux (Idem, México, 2012). Dirigido por Carlos Reygadas. Com: Adolfo Jiménez Castro, Nathalia Acevedo, Willebaldo Torres, Rut Reygadas, Eleazar Reygadas.

A cena inicial de Post Tenebras Lux é hipnotizante e surge como a promessa de um filme intrigante: com filtros que tiram o foco das laterais do campo reduzido à razão de aspecto de 1.33:1, o diretor Carlos Reygadas mantém a câmera na altura dos olhos de uma garotinha de 2 ou 3 anos de idade enquanto esta caminha por um descampado no qual cavalos e vacas passeiam lentamente. Somada à fotografia que salienta o roxo do céu no anoitecer, esta abordagem cria uma forte atmosfera de sonho (ou pesadelo), estabelecendo o tom onírico que dominará boa parte da projeção. Assim, é decepcionante quando percebemos que, com exceção dos experimentos estéticos e narrativos, o cineasta não parece ter muito de relevante a dizer.

Investindo num tom fantástico ainda no primeiro ato ao trazer uma figura demoníaca percorrendo uma casa e entrando no quarto dos pais de um garotinho que o observa atentamente, Post Tenebras Lux tem, claro, um centro temático na ideia de tentações e impulsos destrutivos que corrompem o espírito humano – algo manifestado, por exemplo, na natureza agressiva do pai vivido por Adolfo Jiménez Castro, que espanca um cão por um motivo trivial e mais tarde testemunha a esposa sendo possuída por estranhos numa casa de swing (o que, convenhamos, soa um bocado moralista por parte de Reygadas).

Sem se preocupar com qualquer indício de trama (o que, por si só, não é problema algum), o longa salta de uma cena a outra sem estabelecer qualquer ligação formal entre estas, que se mostram desconexas cronológica e espacialmente, procurando funcionar de forma independente ao retratarem conflitos, inseguranças, desentendimentos ou mesmo pequenas alegrias dos personagens. Neste sentido, Post Tenebras Lux é um filme sobre o “agora”, sobre sentimentos imediatos, o que permite que o espectador ria feliz diante das gracinhas feitas pelos filhos pequenos do casal principal (vividos pelos filhos do próprio diretor) apenas para se angustiar mais tarde quando a bela Natália (Acevedo) vai às lágrimas graças à melancolia provocada pela canção que ela mesma executa desafinadamente ao piano.

No entanto, estes momentos, por mais que sejam eficientes ao estabelecerem uma atmosfera imediata, jamais se somam, resultando numa experiência difusa, vazia e frustrante. Se em A Árvore da Vida Terrence Malick adotava uma estratégia relativamente similar para discutir a experiência humana e nossa pequenez diante do cosmos, aqui Reygadas faz sua própria versão daquela maravilha, mas colocando-se como centro do Universo. Como artista, isto é algo natural e compreensível – o que não quer dizer que gere uma obra particularmente interessante ou relevante. (3 estrelas em 5)

 

23)    Pablo (Idem, EUA, 2012). Dirigido por Richard Goldgewicht.

Não foram muitos os idealizadores de créditos iniciais que conquistavam o direito de incluir os próprios nomes nas introduções que criavam. Porém, se Saul Bass é o primeiro que nos vem à mente quando pensamos nestes artistas, o cubano Pablo Ferro vem em segundo lugar por apenas alguns milésimos de segundo (empatado com Maurice Binder, talvez?), sendo o responsável por criar não só os créditos, mas a tipografia marcante de obras como Dr. Fantástico, Laranja Mecânica, Los Angeles – Cidade Proibida, Homens de Preto, Os Fantasmas Se Divertem, Bullitt, Perdidos na Noite, entre vários outros. Por esta razão, é admirável que o brasileiro (radicado em Los Angeles) Richard Goldgewicht tenha decidido homenagear um artista tão importante – e desconhecido do grande público – com este documentário.

Utilizando a animação para retratar boa parte da trajetória do personagem-título (um recurso narrativo recorrente nesta edição do Festival do Rio, estando presente também em Cor da Pele: Mel e Monty Python: A Autobiografia de um Mentiroso), o longa resgata as contribuições marcantes de Ferro na idealização de comerciais para a televisão e de trailers, trazendo depoimentos de personalidades como Stan Lee (que o contratou como desenhista no início da carreira), Andy Garcia, Beau Bridges, Anjelica Huston, Jon Voight, Jonathan Demme e Norman Jewison, que pintam o retrato de um homem divertido, extremamente criativo, incapaz de lidar com dinheiro e também de fazer inimigos. Além disso, sua marcante amizade (e também sua parceria profissional) com o cineasta Hal Ashby ocupa parte importante da narrativa, como não poderia deixar de ser.

Assim, é triste perceber como, depois de décadas de uma carreira invejável, Pablo Ferro é obrigado a viver nos fundos da casa do filho enquanto luta para encontrar novos trabalhos que paguem suas dívidas – e igualmente decepcionante é perceber como este documentário sobre sua vida, embora informativo, revela-se bem mais longo do que o ideal e também excessivamente repetitivo, além de jamais conseguir exibir qualquer grau da inventividade que tanto marcou a vida artística do homem que busca homenagear. (2 estrelas em 5)

 

24)    Maníaco (Maniac, EUA/França, 2012). Dirigido por Franck Khalfoun. Com: Elijah Wood, Nora Arnezeder, America Olivo, Liane Balaban, Sammi  Rotibi, Genevieve Alexandra, Morgane Slemp.

Para ver o videocast que gravei sobre o filme, clique aqui. (3 estrelas em 5)

Festival do Rio 2012 – Dia 03

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos | 4 comentários

Abraços aos leitores Antônio, João Pedro e Natália e aos alunos Marcelo, Vítor, Rodrigo e Victor, que foram tão carinhosos nos últimos dois dias de festival ao me abordarem entre as sessões. (Esqueci os nomes dos dois leitores que me cumprimentaram no Vivo Gávea e da leitora que me ofereceu um bombom no Sesc Botafogo e peço perdão por isso).

Sobre os filmes…

12)    Noor (Idem, Paquistão/França, 2012). Dirigido por Guillaume Giovanetti e Cagla Zencirci. Com: Noor, Uzma Ali, Baba Hussain, Gunga Sain, Mithu Sain.

Narrativas documentais que envolvem recriações da realidade com personagens reais não são algo novo: de Nanook do Norte ao brasileiro O Céu Sobre os Ombros, passando por obras como Camelos Também Choram e Tulpan, este tipo de produção fascina pelo realismo, mas também por oferecer uma dramatização claramente arquitetada, permitindo que a câmera capture a ação de maneira estudada sem, com isso, perder a aura de autenticidade. E é exatamente isto que torna o paquistanês Noor tão instigante. Isto e, claro, a natureza repleta de ambiguidade do protagonista.

Encarnando a si mesmo (ou, ao menos, uma versão de si mesmo), Noor é um jovem que, no passado, travestia-se para ganhar a vida com danças exóticas, mas que agora trabalha numa garagem de ônibus e sonha em se casar com a namorada, insistindo em ser tratado como “ele” (por isso usei “mesmo”, não “mesma”, logo acima). No entanto, sua aparência andrógina – e que o filme só explicará nos últimos minutos – dificulta seu cotidiano e sua aceitação pela família da namorada, levando a momentos dolorosos no qual o rapaz, sozinho em seu quarto miserável, sofre ao perceber a frieza e a rejeição do outro lado do telefone (e o fato de apenas ouvirmos a voz da garota a tornam ainda mais distante e inatingível). Finalmente, depois de ser quase violentado, Noor rouba um caminhão e inicia uma jornada rumo a um lago que, ele acredita, será capaz de realizar seus desejos.

Adotando então a estrutura de road movie, o longa nos apresenta a uma galeria de personagens interessantes que, de maneira direta ou indireta, influenciam a busca do protagonista por sua própria identidade, desde um percussionista surdo a uma jovem abandonada pelo marido e pelo filho. Além disso, as belas locações são magistralmente exploradas pela fotografia fabulosa de Jacques Ballard, ao passo que o expressivo Noor oferece uma performance comovente e multifacetada.

“Fiz o que se espera que um homem faça, mas não encontrei o que buscava”, diz, em certo momento, um sujeito à beira do rio para o personagem-título – que, em seu jeito simples, mas honesto, sofre justamente por ir no caminho oposto: desafiar o esperado em busca de sua própria identidade. (4 estrelas em 5)

 

13)    Out in the Dark (Idem, Israel/EUA, 2012). Dirigido por Michael Mayer. Com: Nicholas Jacob, Michael Aloni, Jamil Khoury, Maysa Daw, Khawlah Hag-Debsy.

De certa forma, Out in the Dark é uma história de amor proibido na qual Montéquios e Capuletos são substituídos por israelenses e palestinos. No entanto, além de enfrentarem a hostilidade das duas sociedades em conflito que os cercam, os amantes aqui vistos ainda devem lidar com o preconceito, já que vivem um romance homossexual.

Dirigido por Michael Mayer ao lado de Yael Shafrir, o filme nos apresenta ao jovem estudante de psicologia Nimr (Jacob), que consegue uma licença para cruzar a fronteira com Israel a fim de frequentar uma aula de pós-graduação em Tel Aviv. É lá que ele conhece o advogado Roy (Aloni) e logo os dois rapazes se apaixonam. Porém, quando a inteligência israelense descobre que o irmão mais velho de Nimr está envolvido com uma célula do Hamas, o protagonista tem a licença revogada e sua homossexualidade revelada para a família, gerando uma situação que põe em xeque seu namoro.

Sensível ao retratar o envolvimento entre os dois rapazes, Out in the Dark cria uma atmosfera de respeito, amor e completa aceitação ao enfocá-los juntos, usando a fotografia para acentuar um tom harmonioso que é quebrado pela frieza das cenas que trazem os “guerrilheiros” de ambos os lados. Além disso, Nicholas Jacob e Michael Aloni, além de talentosos ao evocar os sentimentos de seus personagens e o dilema que passam a viver, criam também uma química evidente em cena, o que é fundamental para que nos importemos ainda mais com o destino dos dois.

Assim, é triste quando o roteiro tropeça ao plantar pistas evidentes (“Qualquer coisa, me procure.”, diz um mafioso no primeiro ato) e especialmente ao não conseguir deixar de lado uma postura que se revela bem mais pró-Israel do que pró-Palestina, abandonando qualquer possibilidade de equilíbrio e imparcialidade – e não é à toa que os judeus vistos ao longo da projeção se mostram bem mais generosos, sofisticados e intelectualizados do que os estúpidos, frios e preconceituosos palestinos retratados pela história.

De todo modo, o longa funciona naquilo que importa de fato: o romance do casal principal e sua luta contra o preconceito e a perseguição política – e o plano que traz Nimr correndo amedrontado e sozinho, à noite, é, por si só, uma metáfora perfeita da condição do homossexual em boa parte das sociedades modernas em plenos século 21. (4 estrelas em 5)

 

14)    Histórias que Contamos – Minha Família (Stories We Tell, Canadá, 2012). Dirigido por Sarah Polley.

A canadense Sarah Polley tem apenas 33 anos de idade, mas filma como uma pessoa bem mais velha. E quando digo isso, não quero sugerir que seu estilo é ultrapassado ou rançoso, mas que a moça enxerga o mundo como alguém que já viu muito, refletiu, digeriu, reanalisou as próprias conclusões e tem maturidade o bastante para apresentá-las com objetividade, segurança e sensibilidade. Estas características, aliás, estavam presentes já em seu filme de estreia, o belo Longe Dela, embora eu considere seu trabalho seguinte, Take This Waltz, tristemente artificial e tolo. Ainda assim, qualquer dúvida que eu pudesse ter sobre Polley como cineasta é dissipada com este Histórias que Contamos, que se revela não apenas seu melhor filme, como também um documentário instigante, desafiador e, acima de tudo, doce.

Desta vez, a diretora volta seu olhar para a própria família, entrevistando seus vários irmãos, o pai idoso, amigos e conhecidos da família para tentar traçar um retrato de sua mãe, falecida precocemente em 1990, quando Polley tinha apenas 11 anos. Interessada nas contradições presentes nos relatos de todas aquelas pessoas, a cineasta usa o filme não só como uma investigação profundamente pessoal, mas também como forma de analisar a subjetividade da memória e, claro, a relatividade daquilo que consideramos como “verdade” – e, neste sentido, certos jogos narrativos feitos aqui me lembraram bastante do Verdades e Mentiras realizado por Orson Welles em 1973, especialmente na abundância de imagens de arquivo empregadas ao longo da projeção.

Igualmente relevante, aliás, é perceber como o próprio fazer do documentário se torna parte da discussão, mas jamais de uma maneira egocêntrica como nos trabalhos de Morgan Spurlock ou mesmo de Michael Moore. Em vez disso, Polley tenta analisar suas próprias razões inconscientes para expor a família daquela maneira, especialmente considerando um detalhe particularmente complicado da biografia de sua mãe e que diz respeito à história da própria diretora – e que, nos minutos finais, culmina num momento de sublime generosidade protagonizado pelo pai da moça, que, na narração por ele escrita e que dá esqueleto ao filme, faz uma das mais belas e altruístas declarações de amor que já testemunhei.

Histórias que Contamos é, sem dúvida, um dos melhores longas exibidos no Festival do Rio de 2012. (5 estrelas em 5)

 

15)    Cor da Pele: Mel (Couleur de peau: Miel, Bélgica, 2012). Dirigido por Laurent Boileau e Jung.

Uma das mais de duzentas mil órfãos sul-coreanos adotados por casais espalhados por todo o mundo, o cartunista Jung passou a maior parte de sua vida na Bélgica depois de ser acolhido por uma família que já contava com quatro crianças (um número que chegaria a seis quando, anos depois, mais uma pequena órfã se uniu aos demais). Autor de uma graphic novel na qual discutiu sua história, Jung retorna à Coréia do Sul pela primeira vez desde que deixou o país aos 5 anos de idade – e, neste documentário co-dirigido ao lado de Laurent Boileau, vemos parte de sua busca por suas origens e também recriações em animação de seus primeiros anos na Bélgica.

Ciente de ser um felizardo por ter se tornado parte de uma família que o ama e respeita, Jung teve, apesar disso, uma infância relativamente sofrida – mas como poderia ser diferente naquelas circunstâncias? Capaz de estabelecer uma relação bastante íntima com os irmãos (mesmo nutrindo sentimentos ambíguos em relação à irmã Coralie), o garoto logo se torna um problema na escola, o que o leva a ser frequentemente punido pelos pais. Neste sentido, a decisão de usar a animação para contar a história do protagonista se revela um recurso acertado não só por refletir o talento para o desenho que tornaria sua existência mais fácil, conferindo-lhe norte, mas também por permitir representações expressivas de seu estado de espírito diante de situações difíceis, como ao ouvir de sua mãe adotiva que era uma “maçã podre”.

Sua relação com a mãe, aliás, acaba se apresentando como o núcleo narrativo de Cor da Pele: Mel: mulher fria por natureza, ela é também uma pessoa essencialmente boa que encontra claras dificuldades ao lidar com as inquietações do filho adotivo, levando a uma epifania por parte do protagonista-narrador no clímax do filme que traz este belo documentário a um desfecho que emociona sem jamais cair no melodrama. (5 estrelas em 5)

16)    Unidos pela Raiva: A História da Act-Up (United in Anger: A History of ACT UP, EUA, 2012). Dirigido por Jim Hubbard.

Quando a AIDS passou a aterrorizar o mundo, no meio da década de 80, a expectativa de vida pós-diagnóstico era de apenas dois anos para cerca de 80% dos pacientes. Inspirando pânico a ponto de mais da metade da população norte-americana defender que os doentes deveriam ser colocados em quarentena, identificados ou tatuados, a AIDS sequer era mencionada por nome pelo então presidente Reagan – e quando uma importante revista realizou uma matéria sobre a epidemia, afirmou sem hesitações que as mulheres não contraíam a doença por vias sexuais. Para complicar ainda mais o quadro, o FDA, órgão responsável por testar e liberar as drogas usadas para tratar a síndrome, demorava um longo tempo para realizar seu trabalho, o que apenas dificultava ainda mais o tratamento de pacientes que eram obrigados a gastar mais de dez mil dólares por ano apenas com o AZT.

Foi neste contexto conturbado que surgiu o ACT UP, grupo ativista que, ao longo dos anos seguintes, orquestraria uma série de ações fundamentais para facilitar a vida das vítimas da síndrome e para esclarecer o restante da população a respeito da AIDS – e é a trajetória desta organização que o diretor Jim Hubbard conta neste documentário beneficiado pelo fato de que a ACT UP, ciente do poder da mídia ao manipular informações, se encarregava de registrar todas as suas ações em vídeo, distribuindo cópias em VHS para grupos de todo o país.

Combatendo a igreja em sua visão sempre machista, obtusa e perigosa sobre a sexualidade alheia, o ACT UP ainda se mostrou um parceiro importante para grupos defensores dos direitos das mulheres, já que várias de suas causas eram similares, o que culminou em uma ação memorável contra um cardeal de Nova York que combatia o uso da camisinha e sugeria que a AIDS era um castigo divino. Além disso, através de suas estratégias publicitárias, o ACT UP viria a influenciar diversas outras ONGs ao longo das décadas, o que o tornou seminal também neste aspecto.

Não há, portanto, qualquer dúvida sobre a relevância do grupo, que conseguiu acelerar o processo de liberação de drogas pelo FDA, forçou uma mudança na definição da AIDS para que esta não incluísse apenas homossexuais como “grupos de risco” (expressão depois alterada para “atividade de risco”) e, consequentemente, ampliou consideravelmente a sobrevida dos pacientes. Infelizmente, o documentário, embora exponha todos estes fatos, revela-se aborrecido em sua abordagem excessivamente convencional, exagerando na quantidade de entrevistas, que, inclusive, se tornam repetitivas ao trazerem basicamente dezenas de pessoas dizendo as mesmas coisas. Da mesma forma, ainda que as imagens de arquivo sejam importantes para honrar a memória dos vários ativistas já mortos pela síndrome, o excesso de discursos exibidos ao longo da projeção acaba tornando a experiência maçante.

Que o ACT UP foi essencial ao desmistificar a AIDS e melhorar as condições de suas vítimas é algo inquestionável. Mas Unidos pela Raiva não precisava repetir isso por 90 minutos para provar o argumento. (2 estrelas para 5)

17)    Uma Super-Simplificação de Sua Beleza (An Oversimplification of Her Beauty, EUA, 2011). Dirigido por Terence Nance.

Não é fácil lidar com a rejeição. Em um momento ou outro, todos já passaram por isso, pelo desejo profundo por uma pessoa que não julgava a reciprocidade daquele sentimento algo particularmente tentador. Foi por estar romanticamente ferido, aliás, que o jovem nova-iorquino Terence Nance realizou, em 2006, o curta Como Você se Sentiria?, que acabou incorporando ao início deste longa e que de maneira inventiva leva o espectador a experimentar a frustração que ele mesmo sentiu ao se preparar para uma visita da garota que amava apenas para ser avisado na última hora que ela não iria mais à sua casa.

Infelizmente, este também é o melhor momento de Uma Super-Simplificação de Sua Beleza, que o diretor realizou ao longo dos anos seguintes com o objetivo de ilustrar as razões por trás de sua fascinação por Namik Minter, empregando várias técnicas de animação e um roteiro que usa a narração em off ininterruptamente, o que se torna cansativo de maneira rápida mesmo que, aqui e ali, ele diga algo interessante, divertido ou revelador.

Por outro lado, é curioso notar como parte da duração excessiva do filme diz respeito ao próprio desejo de Terence Nance de prolongar o projeto, como se isto mantivesse sua amada ainda nas proximidades e acessível de certa maneira. E não deixa de ser triste (e, sim, divertido) perceber como o rapaz, depois de ter falhado ao produzir um curta para convencê-la a amá-lo, encarou a rejeição apenas como motivação para expandir a estratégia para um longa, como se o problema fosse a duração, não o desinteresse românico de Namik.

Neste sentido, este filme/carta de amor revela-se doce e tocante em sua sinceridade ingênua… e obsessiva – e se eu fosse a garota, começaria a temer por minha própria segurança. (3 estrelas em 5)

 

18)    Fucking Different XXX (Idem, Alemanha, 2011). Dirigido por Maria Beatty, Jürgen Brüning, Émilie Jouvet, Manuela Kay, Bruce La Bruce, Kristian Petersen, Courtney Trouble, Todd Verow.

Gravei um videocast sobre o filme que pode ser visto aqui. (1 estrela em 5)

Festival do Rio 2012 – Dia 02

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos | 2 comentários

Abraço à leitora que me cumprimentou ao fim da sessão de Cor da Pele: Mel, mas que fugiu antes que eu tivesse a chance de perguntar seu nome.

Quanto aos filmes:

7)    Argo (Idem, EUA, 2012). Dirigido por Ben Affleck. Com: Ben Affleck, Alan Arkin, John Goodman, Bryan Cranston, Clea DuVall, Kyle Chandler, Zeljko Ivanek, Tate Donovan, Victor Garber, Bob Gunton, Chris Messina, Philip Baker Hall, Michael Parks, Richard Kind.

Hollywood corroeu tanto a própria credibilidade ao produzir obras “inspiradas em fatos reais” que nada têm a ver com a realidade que, ao final deste Argo, o diretor Ben Affleck sente uma clara necessidade de exibir na tela parte do material de pesquisa utilizado para recriar os incidentes narrados em seu filme a fim de convencer o espectador de que tomou o menor número possível de liberdades criativas – e até mesmo um áudio do ex-presidente Jimmy Carter discutindo os acontecimentos é incluído pelo cineasta.

É compreensível. Além da já citada tendência do Cinema ao exagero (um eufemismo para “mentira”), a história recontada pelo roteiro de Chris Terrio a partir de um artigo de Joshuah Bearman traz elementos absurdos demais para que não duvidemos de sua veracidade: ambientado em 1979, quando manifestantes iranianos invadiram a embaixada norte-americana em Teerã (o que torna o longa atualíssimo, considerando os eventos recentes na Líbia), Argo acompanha os esforços do agente da CIA Tony Mendez (Affleck) para resgatar seis funcionários que escaparam durante os ataques, escondendo-se na casa do embaixador canadense Ken Taylor (Garber). Ciente de que será apenas uma questão de tempo até que a inteligência iraniana descubra onde os foragidos se encontram, Mendez tem aquela que seria descrita como a “melhor má ideia” para resolver a situação, empregando a ajuda do maquiador John Chambers (Goodman) e do produtor Lester Siegel (Arkin) para simular a existência de uma produção de ficção científica interessada em usar o Irã como locação, o que justificaria sua entrada no país e a posterior fuga com os seis norte-americanos, que assumiriam os papéis de integrantes do projeto cinematográficos. O nome da tal produção? Argo.

Esforçando-se para evitar uma postura ufanista tão comum em produções do tipo (lembrem-se do repulsivo Falcão Negro em Perigo), o filme contextualiza a invasão à embaixada ao explicar o papel fundamental desempenhado pelos Estados Unidos na queda do presidente Mohammad Mosaddeq e sua substituição pelo sádico xá Reza Pahlevi, que prendia e torturava dissidentes e levou o país à miséria enquanto esnobava sua opulência – e o roteiro chega a exagerar ao trazer funcionários da CIA fazendo uma improvável autocrítica com relação às ações no Irã. A partir daí, o filme salta de Teerã a Los Angeles com fluidez enquanto acompanha os preparativos do protagonista, que ainda é obrigado a enfrentar não apenas disputas internas em sua própria agência, mas também a natureza implacável de Hollywood.

Neste sentido, Argo parece se dividir em dois filmes com atmosferas radicalmente diferentes: de um lado, há a urgência e a tensão das sequências no Irã, que lidam com as dúvidas e receios dos foragidos; de outro, a leveza e as piadas envolvendo as passagens em Los Angeles (uma diferença ressaltada pela boa fotografia de Rodrigo Prieto, que oscila entre a paleta dessaturada e fria de Teerã e as cores quentes e intensas da Califórnia). Aliás, é admirável observar a segurança com que Ben Affleck conduz a narrativa, continuando a se solidificar como um diretor excepcionalmente talentoso ao mesmo tempo em que expande seu universo, que até então se limitava a histórias ambientadas em sua Boston natal. Por outro lado, é inevitável que o longa perca um pouco de seu peso dramático em função do humor presente nas cenas em Hollywood, o que é uma pena.

Contando com um elenco coeso (e carregado de figuras vindas da televisão, como Bryan Cranston, Tate Donovan e Kyle Chandler, entre outros) que Affleck explora com eficiência, Argo cria uma narrativa ambiciosa e complexa ao lidar com um grande número de personagens sem criar muita confusão na mente do espectador – e é lamentável, portanto, que algumas ideias acabem sendo mal exploradas, como o óbvio alcoolismo do protagonista ou a relação entre os personagens de Goodman e Arkin, que parecem apenas oferecer alívio cômico ao filme (algo que fazem admiravelmente bem).

Eventualmente se entregando aos exageros dramáticos que parece tão ansioso para negar, Argo tropeça também na artificialidade do clímax, que atira uma série de obstáculos improváveis no caminho do herói apenas para acentuar a tensão, mas quando isto ocorre, o filme já ofereceu tantos bons momentos que se torna fácil perdoar o equívoco de seu cada vez mais promissor realizador. (4 estrelas em 5)

 

8)    Poluindo o Paraíso (Der Müll im Garten Eden, Alemanha, 2012). Dirigido por Fatih Akin.

Rodado ao longo de cinco anos, entre 2007 e 2012, Poluindo o Paraíso acompanha a luta de um pequeno vilarejo da Turquia para evitar que o local seja destruído pela implantação de um lixão que concentrará os refugos gerados por diversas outras comunidades, enfocando as baixas estratégias empregadas pelo governo para forçar a decisão sobre os pobres cidadãos da até então paradisíaca Çamburnu.

E “paradisíaca” realmente é o adjetivo mais apropriado, como o cineasta Fatih Akin ilustra nos minutos inicias da projeção ao nos apresentar a um ambiente até então intocado e cujos velhos habitantes parecem se confundir com a paisagem. Assim, quando os caminhões começam a despejar toneladas de lixo na região, é com tristeza que percebemos a violação daquele modo de vida, que agora traz uma cratera cinza no meio do verde e transforma o gesto de cobrir o nariz e a boca em um tique comum a todos.

Incluindo entrevista com ativistas, políticos, engenheiros e ambientalistas, Poluindo o Paraíso acaba soando um pouco repetitivo em seu esforço para denunciar aquela tragédia, funcionando muito melhor quando emprega apenas imagens para ilustrar o que ali ocorre – como no instante chocante no qual vemos crianças nadando no mar que banha a cidade e percebemos, flutuando ao redor, seringas usadas. E embora o cineasta peque ainda pela autoindulgência (há um interlúdio musical inexplicável no qual acompanhamos um show de rock), ao menos sua paciência ao acompanhar a história por cinco anos acaba traçando um retrato amplo da situação, que, como numa terrível comédia de erros, parece se tornar cada vez pior à medida que os governantes tentam consertá-la atrapalhadamente.

Mas o momento mais revelador do longa talvez seja aquele no qual o engenheiro responsável pelo lixão, ao ser pressionado por uma criança do lugarejo com relação às emissões poluentes da instalação, acaba respondendo um inacreditável “A Terra resolve isso” – quando o que ele queria dizer de fato era “estarei morto quando a coisa estourar. Resolvam vocês o problema”.

Triste herança, a que estamos deixando para nossos filhos. E ao apontar isso, Poluindo o Paraíso pode não estar transmitindo a mais original ou surpreendente das notícias, mas isto não o torna menos relevante. (3 estrelas em 5)

 

9)    Senhoras & Senhores: Corte Final (Final Cut – Hölgyeim És Uraim, Hungria, 2012). Dirigido por György Pálfi.

A historinha narrada ao longo dos 84 minutos de Final Cut é extremamente simples: um homem conhece uma garota e, depois de alguns tropeços, eles se apaixonam e se casam. O tempo passa, o cotidiano interfere na felicidade do casal e, quando ela descobre estar grávida, um mal entendido parece destruir o relacionamento, levando o sujeito à bebida e a moça à depressão. Trata-se de uma trama boba, antiquada e moralista.

E que pouco importa, já que resulta num exercício narrativo absolutamente magnífico, já que, para contar esta história, o diretor György Pálfi usa apenas imagens, diálogos, sons e temas musicais de centenas de filmes produzidos em dezenas de países ao longo dos mais de cem anos de existência do Cinema. É uma ideia inacreditavelmente ambiciosa e bem realizada – e basta dizer que, logo nos primeiros minutos, quando acompanhamos o Homem despertando, lavando o rosto, barbeando-se e saindo para trabalhar, mais de dúzias de longas já pipocaram na tela enquanto o sujeito exibe os rostos de Kirk Douglas, Choi Min-sik, John Travolta e Woody Allen, entre outros (e em outro momento, a inesquecível cruzada de pernas de Sharon Stone em Instinto Selvagem desperta um sorriso excitado de Anthony Perkins em Psicose, que, por sua vez, recebe uma piscada marota da Mulher – que agora tem o rosto de Brigitte Helm em Metrópolis).

Supercut dos supercuts, Senhoras & Senhores se revela, assim, uma história de amor contada através do amor pelo próprio Cinema – e ao longo da projeção, conseguimos não apenas acompanhar a trama como ainda fazemos o divertido e inevitável exercício de identificar os filmes empregados por Pálfi. Não que toda transição seja facilmente observável, já que o trabalho de montagem realizado a oito mãos é incrivelmente eficiente – e em vários momentos os ótimos raccords descobertos/criados pela equipe tornam quase impossível a constatação de que de repente o estranho Klaus Kinski se transformou magicamente no charmoso Marcello Mastroianni, além de constantemente recontextualizarem figuras emblemáticas (e Yoda, por exemplo, é visto aqui tanto como um colega de trabalho do protagonista quanto como a avó da mocinha). Da mesma maneira, o fabuloso design de som auxilia enormemente na manutenção da consistência do universo diegético criado pelo filme, permitindo que cada obra assuma novos contornos apenas através dos efeitos sonoros e da mixagem.

Porém, longe de ser apenas um exercício narrativo, Final Cut ainda encanta por sua universalidade – e o fato do casal ser vivido por figuras de tantas raças, etnias, culturas e épocas acentua a força daquele romance, levando o espectador a se entristecer com o sofrimento de um amálgama de homens e mulheres. Afinal, não importa se o Marido tem o rosto de Gene Kelly, Orson Welles ou Sylvester Stallone ou se a Esposa é uma versão de Morticia Adams, Satine ou Amélie Poulain: todos queremos amar e ser amados e, assim, a colagem de identidades aqui é uma maneira que o filme encontra de representar dores e alegrias de qualquer público.

Mas, acima de tudo, o fantástico trabalho de pesquisa visto em Final Cut é a constatação inequívoca daquilo que qualquer cinéfilo já sabe: que, apesar de encarada como uma Arte menor ainda hoje, o Cinema é um depósito infindável de imagens absolutamente maravilhosas e inesquecíveis.  (5 estrelas em 5)

 

10)    Woody Allen: Um Documentário (Woody Allen: A Documentary, EUA, 2012). Dirigido por Robert B. Weide.

Woody Allen está em atividade há tanto tempo e é um diretor tão prolífico que tornou-se tendência ignorar o brilhantismo de sua carreira – e não me refiro aqui apenas aos seus incríveis dez primeiros anos de atividade no Cinema, que vão de Um Assaltante Bem Trapalhão a Manhattan (sim, estou ignorando O Que Há, Tigresa?), mas também todo o resto. Afinal, como ignorar obras como A Rosa Púrpura do Cairo, Hannah e Suas Irmãs, Crimes e Pecados, Descontruindo Harry, Match Point e tantas outras que realizou nos últimos 43 anos e que qualquer cineasta são daria um dos braços para ter assinado?

Assim, é agradável poder acompanhar a trajetória de Allen através deste documentário tão bem organizado por Robert Weide, que, partindo da produção do fraco Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, permite que o espectador tenha acesso ao modo de trabalho do realizador, que aqui exibe suas já célebres folhas contendo ideias anotadas ao longo dos anos e a máquina de escrever na qual datilografa todos os seus textos desde que a comprou aos 16 anos de idade (e é divertidíssimo notar como o sujeito emprega sua própria versão do CTRL+C+CTRL+V utilizando o velho método da tesoura-e-cola).

Empregando cenas da filmografia de Allen como ilustrações de passagens de sua vida, o documentário adota uma estrutura tradicional ao apresentar a biografia do cineasta em ordem cronológica, começando em sua infância e passando por sua entrada no show business, incluindo detalhes sobre a criação de seu pseudônimo e a escolha de seus tradicionais óculos. Além disso, o filme traz imagens reveladoras do arquivo pessoal do diretor, destacando-se entre estas uma entrevista com sua mãe feita pelo próprio Allen e durante a qual ela diz, ao discutir a infância do filho: “Você era criança demais para mim”.

Trazendo também imagens raras do início da carreira de Woody Allen, como apresentações de stand up feitas em 1963, o projeto não deixa de investir em entrevistas mais tradicionais que buscam traçar a influência do biografado sobre figuras como Larry David – e ninguém menos do que Scorsese se encarrega de analisar brevemente a evolução do colega por trás das câmeras, desde as narrativas difusas que se concentravam em gags isoladas até as farsas repletas de simbolismos e os densos dramas existenciais que viria a comandar sob a inspiração de seus ídolos Fellini e Bergman.

No entanto, o grande chamariz do documentário é mesmo Allen, que surge estranhamente à vontade para um sujeito notoriamente tímido, chegando a rir ao narrar certas passagens de sua vida e soltando pérolas que qualquer fã facilmente identifica como típicas de seu senso de humor (ao revisitar a casa na qual nasceu, ele diz: “Não parece grande coisa, mas não era mesmo”). E ainda que – compreensivelmente – não traga depoimentos de Mia Farrow ou dos filhos que esta teve com Allen, o filme não se furta de abordar, mesmo que brevemente, o escândalo envolvendo o casamento da dupla e o romance do diretor com a enteada Soon-yi (com a qual, vale apontar, é casado desde então).

Eventualmente adotando a batida estratégia de discutir a obra do cineasta quase que filme por filme, em ordem cronológica (até que o tempo começa a ficar escasso e o diretor Robert B. Weide decide saltar vários deles), o documentário pode ser até decepcionantemente burocrático em sua abordagem, mas ao menos isso permite que sua estrela principal brilhe sem precisar concorrer com eventuais firulas narrativas. E, convenhamos, Woody Allen é interessante e divertido o bastante para dispensar a ajuda de seu próprio documentário. (3 estrelas em 5)

 

11)    A Casa Elétrica (Idem, Brasil/Argentina, 2011). Dirigido por Gustavo Fogaça. Com: Nicola Siri, Morgana Kretzmann, Helga Kern, Leonardo Machado, André Felipe, Gilberto Perín.

Teoricamente, A Casa Elétrica deveria contar a história de como o primeiro tango argentino foi gravado não em Buenos Aires ou em estúdios europeus, mas numa pequena empresa em Buenos Aires (que também seria a responsável por registrar em disco o primeiro samba), mas o espectador só consegue vislumbrar levemente esta intenção em função da primeira cena do longa, que traz uma discussão sobre o tema, e dos abundantes letreiros finais, que trazem os atores sorrindo pateticamente para a câmera, num registro teatral anacrônico, enquanto os destinos de seus personagens são revelados. Entre estas pontas, no entanto, o público é trucidado por uma produção tecnicamente incompetente que só não se transforma em tortura absoluta graças aos risos involuntários que provoca.

Novelesco em sua traminha boba que traz revelações absurdas (como um sujeito que só descobre o verdadeiro nome da mulher com a qual vai pra cama depois de meses ou anos), coincidências ridículas (como o sujeito que vai pra cama com a musa perdida de um amigo) e diálogos que oscilam entre o atroz e o acidentalmente hilário (“Ana Beatriz é uma mulher de temperamento difícil, intempestivo, indomável!” e “Mas o que eu vou fazer na Itália?”), A Casa Elétrica ainda conta com uma direção que, com muito boa vontade, poderia ser descrita apenas como “amadora”. Mantendo a câmera em travellings lentos e constantes aparentemente sem razão alguma, o diretor Gustavo Fogaça aborda cada cena de maneira similar, introduzindo-as com um desajeitado plano aberto, cortando para horrorosos quadros sobre os ombros (que recortam o rosto do observador em ângulos pavoroso) e retornando para os planos conjuntos ao finalizá-las teatralmente enquanto todos saem de campo.

Mas não é só: artificial ao extremo, a mise en scène obriga os atores a conversarem em semicírculos enquanto a câmera adota uma posição fixa diante deles como uma espectadora presa na plateia (o que ao menos é melhor do que os momentos em que Fogaça e seu diretor de fotografia saltam o eixo ao enfocarem seus atores). E é preciso ver a cena na qual o protagonista beija a amante em primeiro plano enquanto o marido desta se encontra distraído ao fundo para acreditar no absurdo da encenação criada pelos realizadores.

Prejudicado por cenários que jamais soam convincentes e uma fotografia digital lavada e sem personalidade, A Casa Elétrica ainda traz uma montagem que investe em cortes ridículos (como aquele que enfoca um casal transando apenas para mostrar, em seguida, o retrato de uma senhora) e que emprega um número maior de fades do que o de linhas neste texto.

Empurrando sobre o público um dos protagonistas mais repulsivos que um romance poderia oferecer, o longa parece acreditar que o caso de amor que narra é realmente tocante, ignorando a natureza machista, racista e antissemita do “herói”, que chega ao ponto de transar com a cunhada e – juro! – em seguida acusar o irmão traído de abandoná-lo.

Por outro lado, sempre poderei rir ao me lembrar do bigode falso usado pelo pobre Moyses neste filme – e só por isso já me recordarei de A Casa Elétrica com certo carinho. (1 estrela em 5)

Festival do Rio 2012 – Dia 01

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos | 4 comentários

Abraços aos leitores Thiago, que me cumprimentou já em duas ocasiões (stalker?), e Vanderson, que quase me matou do coração ao saltar sobre mim no meio da rua.

Ao trabalho (com atraso):

1)    Moonrise Kingdom (Idem, EUA, 2012) – Ler crítica no site.

2)    Os Sabores do Palácio (Les Saveurs du Palais, França, 2012). Dirigido por Christian Vincent. Com: Catherine Frot, Jean d’Ormesson, Hippolyte Girardot, Arthur Dupont, Jean-Marc Roulot, Arly Jover, Joe Sheridan.

Quando um filme traz os letreiros “Baseado em fatos reais”, isto normalmente quer dizer apenas que em algum momento da história da humanidade algo relativamente similar aos acontecimentos narrados ali aconteceram realmente – assim, quando no início de Os Sabores do Palácio li as palavras “Livremente inspirado na vida de Danièle Delpeuch”, deduzi que, com exceção do nome da ex-chef do ex-presidente francês François Miterrand, nada do que veria na tela havia acontecido de fato.

Pois talvez eu tenha me enganado, já que os incidentes retratados pelo longa de Christian Vincent são tão banais que provavelmente jamais teriam saído apenas de sua mente e sido jogados no roteiro co-escrito com Etienne Comar – e é razoável imaginar que, no mínimo, a dupla teria adicionado algum conflito ou drama (ambos inexistentes aqui) à história da cozinheira. Em vez disso, o projeto se limita a acompanhar Hortense (Frot) ao longo de 95 minutos enquanto esta lida com briguinhas triviais com seus colegas do palácio presidencial e estabelece uma relação cordial com o presidente (d’Ormesson), usando a passagem da chef por uma base de pesquisas na Antártica para conferir alguma estrutura à narrativa.

Não que o filme não tenha seus atrativos – e a paixão pela culinária demonstrada por Hortense (vivida com simpatia e naturalidade pela veterana Catherine Frot) é certamente sua principal virtude. Encarando seu trabalho como verdadeira arte, a cozinheira ressente ter que lidar com protocolos e com a burocracia ao preparar seus pratos, estabelecendo uma dinâmica divertida e empolgada com seu único assistente. Assim, vê-la preparar os pratos para as refeições presidenciais torna-se fascinante por si só, bem como acompanhar suas discussões acerca do banquete que deverá preparar para a família do chefe, buscando estabelecer uma verdadeira estratégia na evolução do almoço, da entrada à sobremesa. Da mesma maneira, quando Hortense analisa uma torta feita pelos rivais e afirma que esta não tem “assinatura” ou personalidade, compreendemos exatamente o que quer dizer, o que é uma proeza do próprio filme.

Esforçando-se para idealizar a figura sábia de ancião do presidente (algo que Jean d’Ormesson ajuda o longa a fazer sem grande esforço com sua ótima atuação), Os Sabores do Palácio peca também ao forçar uma relação pessoal entre este e Hortense numa tentativa de criar algum drama através de seu afastamento da função – como se isto equivalesse a um golpe de Estado ou algo parecido, quando, na realidade, apenas ilustra a incapacidade da cozinheira de lidar com as exigências de um trabalho tão específico.

Desinteressante do ponto de vista estético, já que o máximo que faz neste sentido é tentar criar algum contraste entre a fotografia fria das sequências na Antártica e o calor aconchegante dos momentos ambientados no palácio presidencial, o filme acaba cometendo o mesmo erro dos cozinheiros tão criticados por Hortense: é superficialmente eficaz, mas sem personalidade ou ponto de vista que o justifiquem plenamente como obra. (3 estrelas em 5)

 

3)    As Sessões (The Sessions, EUA, 2012). Dirigido por Ben Lewin. Com: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, W. Earl Brown, Adam Arkin, Ming Lo, Rhea Perlman.

Graças às religiões, a mais natural, comum e necessária atividade envolvendo adultos que se sentem atraídos um pelo outro se tornou um tabu pavoroso. Basta observar que um filme pode conter pessoas sendo dilaceradas por balas e executadas a sangue frio para receber uma classificação indicativa “16 anos”; inclua um pênis em cena ou uma franca simulação de sexo, porém, e apenas maiores de 18 anos poderão entrar no cinema. A lógica deturpada parece ser a de que é mais aceitável provocar dor do que prazer em outro ser humano.

Isto nos traz a este As Sessões e à história (real) do poeta Mark O’Brien (Hawkes): vitimado pela poliomielite e preso a um pulmão de ferro por décadas, o sujeito levava uma existência miserável e solitária por natureza, observando o mundo sempre de lado a partir de sua maca enquanto datilografava seus textos com o auxílio de assistentes ou de um pedaço de madeira preso pelos dentes. Sem jamais ter experimentado o sexo, O’Brien finalmente decidiu que poderia fazer algo a respeito quando se viu chegando aos 40 anos de idade e percebeu que seu “prazo de expiração” se aproximava – mas mesmo então (ao menos, segundo o belo roteiro do diretor Ben Lewin) precisou primeiro lidar com sua própria culpa católica antes de permitir que seu debilitado corpo sentisse algum prazer.

Envergonhado por perceber o próprio tesão, o sujeito inicia sua trajetória escrevendo um artigo sobre deficientes físicos que encontraram maneiras de explorar as possibilidades sexuais que muitos julgavam fora de seu alcance, sendo admirável a maneira franca e adulta com que o filme lida com estas questões, evitando o sensacionalismo sem, contudo, fugir da realidade de seus personagens (chegando a incluir deficientes reais na narrativa, o que é admirável por fugir da tendência de Hollywood de maquiar as histórias que aborda através da fantasia).

Assim, quando Mark procura o padre local para pedir permissão para suas “aventuras”, é comovente reparar como o pároco coloca sua humanidade à frente do dogma, buscando oferecer conselhos que realmente ajudem o rapaz em vez de confundi-lo ainda mais através da culpa ditada pelo credo. Vivido com imensa sensibilidade por William H. Macy, o padre Brendan é um homem essencialmente bondoso que se vê numa situação difícil: por um lado, não quer proibir Mark de pagar pelo sexo; por outro, sente que a religião que professa não poderia permitir tal “pecado” – e sua resposta é tocante justamente por representar um sacrifício tão patente diante de sua formação e de suas crenças.

Enquanto isso, John Hawkes, tão habituado a viver tipos ameaçadores ou simplesmente bizarros, aqui compõe um personagem absolutamente frágil e vulnerável: sibilando ao respirar, conversando com a voz sempre sufocada e mantendo o corpo imóvel em uma posição arqueada de paralisia, o ator evoca com talento a insegurança, o medo, o desejo e a curiosidade de Mark, estabelecendo uma química eficiente com Helen Hunt, que aqui vive a “terapeuta sexual” Cheryl Cohen. Hunt, aliás, demonstra coragem e entrega em um papel que exige sua nudez bela e madura, sendo notável como sua postura em cena, repleta de segurança e carinho, afasta do espectador qualquer impressão equivocada de que sua personagem seja uma prostituta mesmo sendo paga para fazer sexo com um cliente.

E é motivo de alegria perceber como um homem como Mark O’Brien conseguiu explorar a própria sexualidade mesmo enfrentando a mais brutal e cruel das amarras: não sua doença, mas a crença religiosa. (4 estrelas em 5)

4)    Termas Romanas (Terumae romae, Japão, 2012). Dirigido por Hideki Takeuchi. Com: Hiroshi Abe, Aya Ueto, Kazuki Kitamura, Masachika Ichimura, Kai Shishido, Walter Roberts.

Termas Romanas parece determinado a levar a expressão “humor de banheiro” às últimas consequências, já que a maior parte de suas piadas (perdão: “piadas”) parece se concentrar na obsessão do protagonista por vasos sanitários, chuveiros e banheiras. E se isto não soa engraçado, a razão é simples: é porque não é.

Inspirado num mangá de sucesso escrito por Mari Yamazaki, o roteiro de Shôgo Mutô se passa na Roma Antiga e gira em torno do arquiteto Lucius Modestus (Abe), especialista em construção de termas e que, frustrado por não conseguir ter novas ideias para seus projetos, certo dia se vê transportado para os dias atuais. Impressionado com os avanços tecnológicos das termas modernas, ele cria versões primitivas destas últimas assim que volta para seu tempo, tornando-se um profissional de sucesso e atraindo a atenção do imperador Hadrianus. A partir daí, Lucius se envolve em armações políticas, faz diversas outras viagens para o futuro – sempre esbarrando na aspirante a autora de mangás Mami (Ueto) – e se torna cada vez mais famoso em Roma, embora se sinta culpado por ter plagiado todos os seus grandes trabalhos.

Preso a um protagonista burro, plagiador e nada curioso, Termas Romanas é um longa frustrante: embora pudesse criar diversas situações potencialmente divertidas através do choque experimentado por Lucius, o filme se prende a uma estrutura repetitiva que se limita a mostrá-lo recebendo novas encomendas, manifestando insegurança profissional e viajando no tempo, quando então encontra Mami, vê alguma invenção que o ajudará e retorna dois milênios a fim de implementá-la em sua própria época. Como se não bastasse, a desenhista vivida por Aya Ueto é uma criatura insuportavelmente aborrecida cujo fascínio por Lucius jamais é justificado, nascendo como mera imposição do roteiro.

Carregado de narrações em off que soam claramente como resultado de uma adaptação preguiçosa dos quadrinhos, o filme ainda se mostra tecnicamente limitado, já que seus cenários jamais surgem convincentes e a direção de Hideki Takeuchi irrita pela insistência em gags tolas e ineficazes (o que inclui uma piada recorrente ao estilo Austin Powers na qual a nudez do protagonista é ocultada por diversos objetos estrategicamente espalhados pelo quadro).

Prejudicado ainda por atuações caricaturais, Termas Romanas ainda se apresenta longo em suas quase duas horas de duração, investindo num terceiro ato que se julga urgente quando, de fato, é apenas dispensável como praticamente tudo que o antecedera. (2 estrelas em 5)

 

5)    Homens Livres (Les hommes libres, França, 2011). Dirigido por Ismaël Ferroukhi. Com: Tahar Rahim, Michael Lonsdale, Mahmud Shalaby, Lubna Azabal, Christopher Buchholz, Farid Larbi.

Baseado em fatos reais ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial, Homens Livres aborda a participação de grupos muçulmanos na Resistência Francesa à ocupação nazista, quando mesquitas em Paris serviram de abrigo aos perseguidos pelos alemães numa demonstração de solidariedade entre os mesmos árabes e judeus que, infelizmente, hoje protagonizam um deprimente espetáculo na disputa por um pedaço de terra.

Roteirizado por Alain-Michel Blanc e Ismaël Ferroukhi, o filme se concentra na trajetória do jovem Younes (Rahim), que, argelino vivendo temporariamente na França, vive de pequenos contrabandos enquanto tenta ignorar os convites feitos pelo primo Ali para se juntar à Resistência. Certo dia, porém, o rapaz é preso e, em troca da liberdade, se compromete a espionar uma grande mesquita local para a polícia. Aos poucos, Younes se vê envolvido pelas ações de compatriotas determinados a enfrentar os nazistas e se apaixona pela guerrilheira Warba (Azabal), tornando-se amigo também do cantor judeu Salim Halali (Shalaby).

Encarnado por Tahar Rahim (de O Profeta) como um jovem inocente de olhar infantil e não muito ambicioso ou esclarecido, Younes é um protagonista interessante justamente por relutar tanto em fazer o que é certo mesmo sendo claramente um indivíduo de bom coração – e é interessante perceber, por exemplo, como em certo momento ele se torna um agente duplo sem ter intenção nem inteligência para tanto. Porém, se a evolução do rapaz é a base da estrutura narrativa de Homens Livres, igualmente tocante é acompanhar a performance do veterano Michael Lonsdale que, curiosamente, aqui vive um imame depois de ter interpretado justamente um monge vitimado por muçulmanos fundamentalistas no tocante Homens e Deuses (também inspirado em fatos reais). Exalando bondade e serenidade, Lonsdale surge como a bússola moral do longa, que também traz uma boa participação de Mahmud Shalaby como o torturado cantor Salim.

Fazendo um belo trabalho de recriação de época através de um design de produção relativamente simples, o filme constrói uma narrativa de tensão crescente e que, além disso, não demonstra medo de levantar discussões complexas que funcionam quase como subtexto – e é importante, por exemplo, notar como a maior parte dos heróis aqui tem origem argelina, já que, defendendo a liberdade da França, eles mesmos teriam que lutar contra os franceses pela independência de seu país. Por outro lado, é lamentável que o roteiro atire sem cuidado na projeção uma subtrama envolvendo a homossexualidade de certo personagem, já que a usa mais para gerar choque do que para desenvolvê-la organicamente.

Tropeçando no desfecho abrupto e, de certa forma, anticlimático, Homens Livres ainda assim é um trabalho sólido e importante que, por já reconhecer a bravura dos homens e mulheres que retrata, não se vê obrigado a apelar para recursos que engrandeçam seus personagens de maneira artificial – o que, por si só, já é digno de aplausos. (4 estrelas em 5)

 

6)    Monty Python: A Autobiografia de um Mentiroso (A Liar’s Autobiography – The Untrue Story of Monty Python’s Graham Chapman, Reino Unido, 2012). Dirigido por Bill Jones, Jeff Simpson, Ben Timlett. Com as vozes de Graham Chapman, John Cleese, Terry Jones, Terry Gilliam, Michael Palin, Carol Cleveland e Cameron Diaz.

A ideia por trás de A Autobiografia de um Mentiroso é genial e deveria levar qualquer fã do Monty Python à loucura: usar as gravações feitas pelo falecido Graham “Brian” Chapman a partir de sua autobiografia como narração de um documentário sobre sua vida construído com animações, o que teoricamente permitiria a fluidez e a irreverência típicas do humor do grupo ao mesmo tempo em que tornaria possível a criação de símbolos e metáforas visuais para as mais diversas passagens da trajetória do comediante. Infelizmente, nem sempre boas ideias geram bons resultados – e o que temos aqui é um desastre interminável que, longo, aborrecidíssimo e sem a menor graça, representa apenas uma incrível oportunidade perdida.

Por alguns minutos, no entanto, o filme parece estar no caminho certo: contando com um título inspirado e anunciando uma “participação especial gratuita de Cameron Diaz como Sigmund Freud”, o projeto exibe a promessa de uma inventividade digna dos criadores do esquete do papagaio morto, mas esta logo se revela falsa quando percebemos que os três diretores parecem se focar nos aspectos menos inspirados da narração de Chapman apenas para que possam criar passagens protagonizadas por macacos segurando bananas e investir em gags que se concentram nas mais óbvias tiradas sexuais.

Investindo em diferentes estilos de animação que se fundem através de transições mais ou menos inspiradas dependendo do momento, o projeto ainda traz a maior parte dos ex-Python criando quase todas as vozes ouvidas ao longo da projeção (o único ausente é Eric Idle) – e por mais que seja uma boa sacada escalar Terry Jones como a mãe de Chapman (já que ele também viveu a mãe do colega em A Vida de Brian), na maior parte do tempo a presença dos comediantes vale como curiosidade para os fãs e só, já que os talentosos intérpretes encontram-se presos a diálogos tolos e sem a menor graça.

Aliás, é sintomático que os únicos momentos realmente engraçados sejam aqueles que trazem imagens de arquivo de quadros do Monty Python, entrevistas com Chapman ou a elegia feita por John Cleese no velório do amigo, já que todo o resto configura a mais absoluta tortura. Graham Chapman não merecia esta “homenagem”. (1 estrela em 5)

Herzog no metrô do Rio

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cotidiano | 12 comentários

Hoje peguei o metrô no Rio no horário de pico. Despreparado para o que aconteceria, vi surpreso uma multidão correndo desesperada para dentro dos vagões em busca dos poucos bancos disponíveis. Fiquei com uma vontade irresistível de colocar algumas câmeras capazes de gravar imagens em centenas de frames por segundo para capturar a corrida por um lugar para sentar.

Posso imaginar perfeitamente a cena: de dentro do vagão vazio, vemos as portas se abrindo lentamente e as pessoas, em câmera lentíssima, se acotovelando e entrando aos empurrões. Cortamos para uma câmera no alto do vagão que, apontando para os bancos, mostram detalhes da disputa.

Entra a voz de Werner Herzog:

“It’s an spectacle of glory and survival. The inescapable need for a place to sit drives men, women and children to the edge of hostility, while the cold metal of the train is touched by hands looking for support in their fight and the hard surface of the sits waits for the asses of the winners”.

Sonho americano

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Fotos, Variados | 11 comentários

Uma das coisas que me chocaram no breve tempo em que morei em Los Angeles foi constatar que aquelas pessoas que ficam vestidas como personagens do Cinema na Hollywood Boulevard são basicamente mendigos glorificados. Passando os dias e as noites andando de um lado para o outro na região do Grauman’s Chinese Theater, elas se derretem sob o sol da Califórnia enfiadas em suas fantasias que, melhor ou pior concebidas, são ao mesmo tempo um símbolo do sonho de serem descobertas em Hollywood e um testemunho do fracasso desta ambição.

Pois o fotógrafo Nicolas Silberfaden, igualmente movido por aqueles figurantes da miséria norte-americana, convidou vários deles para sessões de fotos, pedindo apenas que usassem seus uniformes do dia a dia e expressassem o sentimento que normalmente sentiam: tristeza.

Clique aqui para conferir a galeria completa.

Videocast: Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (SEM SPOILERS)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Videocast | 71 comentários