Cinema

A cultura do hype

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 58 comentários

Marshall Fine é um homem jurado de morte. Odiado por centenas de fanáticos fundamentalistas, ele tomou a corajosa decisão de arriscar a própria vida ao cometer um ato de insanidade: criticar publicamente um item aparentemente sagrado para milhares de pessoas. Em instantes, sua cabeça era pedida pelos adoradores ultrajados, que não hesitaram nem mesmo em ameaçá-lo diante de todos com surras que o levariam ao coma e mesmo ao óbito. Pouco depois, o site no qual Fine publicara sua missiva venenosa encontrava-se fora do ar e a revolta provocada por seu texto alcançava proporções absurdas. Teria ele publicado ilustrações de Maomé? Teria chamado Jesus de “bastardo”? Teria comparado o Talmud aos livros de Stephenie Meyer?

Nada disso. Marshall Fine cometeu crime maior: deu uma cotação negativa para O Cavaleiro das Trevas Ressurge no Rotten Tomatoes. Em algumas horas, cerca de 500 comentários haviam sido publicados em resposta – grande parte destes dedicando-se a ofensas pesadas e às já citadas ameaças de morte.

O que há de estranho nisso, além da reação desproporcional à análise de um crítico sobre um filme de super-herói? Simples: o fato de que nenhuma daquelas pessoas  havia assistido ao filme defendido tão energicamente.

Esta é a cultura do hype: não basta ter o desejo de ver um filme; é necessário crucificar qualquer um que não compartilhe de sua opinião pré-formada sobre o longa. Isto não é fanboyzismo, é ser escravo do marketing, um funcionário não remunerado dos estúdios.

E reparem que não estou dizendo ser necessário detestar uma produção para ser atacado pelos fanáticos – e recentemente, ao escrever um texto positivo, mas nada entusiasmado, sobre Os Vingadores, recebi uma enxurrada de tweets, emails e comentários no Facebook sobre minha estupidez, minha ignorância com relação ao universo Marvel e, claro, minha óbvia necessidade de fazer sexo imediatamente. Além disso, muitos daqueles que riam das crepusculetes ao ouvi-las dizer que era necessário ler os livros para compreender os filmes acabaram cometendo o mesmo erro ao me acusarem de não amar o filme por não ter lido os quadrinhos. Houve até quem me acusasse de estar apenas querendo chamar a atenção, como se depois de 18 anos de carreira eu precisasse fabricar uma opinião artificial para ser lido.

Longe de ser um incidente isolado, isto se repetiu semanas depois com O Espetacular Homem-Aranha – com a diferença que, desta vez, os ataques começaram antes mesmo que os fãs tivessem tido a oportunidade de assistir ao filme. Sim, eles discordavam radicalmente de minha posição e dos meus argumentos apenas porque já haviam decidido amar o projeto. Além disso, para provarem minha ignorância e falta de capacidade como crítico, não hesitaram em apontar para o fato de que aprovei a trilogia X-Men original e os dois primeiros Homem-Aranha, claramente obras inferiores.

E que teriam me rendido massacres similares caso tivessem recebido críticas negativas à época de seu lançamento.

Esta é a natureza do hype: a obra em si não interessa, mas sim o contexto de seu lançamento. A lógica perversa e cada vez mais comum chega a impressionar pela previsibilidade: qualquer grande produção – especialmente se for parte de uma franquia ou de um universo já estabelecidos – é naturalmente antecipada com paixão cega por grande parte dos fãs, que já decidiram se tratar da melhor coisa que o Cinema já produziu mesmo antes de assistirem a um único frame da versão finalizada. Assim, quando as críticas começam a surgir, são recebidas com orgasmos múltiplos e júbilo caso sejam positivas e com ódio irracional se apontarem falhas na obra-prima.

Semanas depois, vem a segunda fase: o backlash, uma onda negativa que se opõe aos amantes fanáticos que a antecederam. Os integrantes deste movimento atacam o longa, acusando-o de ser “superestimado” e fazendo pouco de seus admiradores. Assim como estes, porém, os haters se limitam a argumentações vagas sobre a obra em si, optando, em vez disso, pelo ataque aos fãs. Mais algumas semanas e o ciclo se repete até que, na maior parte das vezes, o filme que despertou tantas brigas acaba sendo esquecido por todos. (Mesmo. Desde que O Espetacular Homem-Aranha foi lançado, quantos posts ou tweets ou textos você leu sobre Os Vingadores – que, semanas antes, era onipresente na Internet? E onde estão aqueles que massacraram os críticos quando Transformers 3 foi recebido com desprezo por estes profissionais? Quem mais assiste a Transformers 3 hoje em dia, aliás?)

O lamentável em todo este ciclo é que basta uma análise rápida para perceber que algo fundamental foi deixado de fora: o filme em si. Toda a discussão, afinal, gira em torno não do longa, mas das expectativas em torno deste e da antipatia que um tipo de fã sente pelo outro.

E enquanto todos se agridem, os estúdios correm alegremente rumo ao banco.

Cabe, aqui, lembrar o que Pauline Kael escreveu há tantas décadas: “Nas Artes, a única fonte de informações confiável é o crítico; o resto é Publicidade”. Ela não queria dizer com isso, claro, que você deve encarar a palavra do crítico como Evangelho; apenas que a discussão promovida por este é movida por um interesse genuíno pelo filme em si, não pelo dinheiro que você vai deixar nas bilheterias. E pensar sobre a Arte só é possível se você ignorar o contexto do marketing e concentrar-se na obra.

Se fizermos isso, todos cresceremos como cinéfilos e seres humanos. Já a troca de insultos motivada pelo simples hype nos conduzirá apenas à mais profunda ignorância.

Dito isso, espero gostar do novo Batman. Afinal, quero conhecer meus netos.

Videocast: 30 Anos de Blade Runner – Quem Era Deckard, Afinal?

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos, Videocast | 5 comentários

Amor por uma mulher inalcançável

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos, Variados | 19 comentários

Annie Hall foi o sexto filme dirigido por Woody Allen – e, entre suas comédias, a melhor (considerando os dramas, fico entre Manhattan e Memórias, embora tenha grande afeto por vários outros). Revendo o filme nesta madrugada após perder o sono, fiquei fascinado por como Allen não economiza absolutamente nada como cineasta: usa telas divididas, legendas, rompe a quarta parede, emprega cenas de animação, investe em cenas fantasiosas, cria uma cronologia completamente quebrada (mas jamais confusa), abusa da metalinguagem e não hesita em combinar tudo isso ao seu humor físico impecável.

É um dos grandes longas da história do Cinema.

Mas se quisesse escrever uma crítica sobre Annie Hall, estaria publicando este texto no Cinema em Cena, não no blog. Porque o que quero expressar aqui é meu amor por uma mulher.

Aliás, se o filme de Woody funciona tão bem, isto se deve não apenas à sua narrativa ambiciosa, como já descrito acima, mas também à sua sensibilidade. Assistir a Annie Hall é recordar-se de grandes amores, de corações partidos e de desejos impossíveis. É relembrar a mágica contida em uma nova pessoa, quando estamos aprendendo a reconhecê-la como alguém que caminha para se tornar importante em nossa vida. É reviver os momentos que antecedem um primeiro beijo nervoso e hesitante – e suspirar ao perceber como aquele ato tão simples abre uma porta colossal que pode nos levar à felicidade absoluta ou à mais intensa das dores (frequentemente ambas). Há pura magia no processo de conhecer uma nova paixão, de ouvir histórias de seu passado e aprender a identificar as cicatrizes por este deixadas. Há ternura no desejo de cuidar destas cicatrizes, de fechar as feridas, de proteger a nova amada contra outros machucados. É milagroso aprender como o seu humor funciona; o que a faz rir ou a deixa melancólica. É prazeroso constatar como nos tornamos capazes de ler seus olhos e enxergar o que há por trás destes. E é doloroso ter que atirar todo este aprendizado fora quando tudo chega ao fim.

Até que, claro, o ciclo se reinicia com outro amor.

Annie Hall é sobre isso; sobre amores que marcam para o bem e para o mal (frequentemente ambos). Neste sentido, é universal. Alvy Singer é um humorista judeu neurótico de meia-idade, mas poderia ser um crítico de cinema brasileiro pedante de… quase meia-idade. Ou um jovem de 21 anos. Ou…

No entanto, eu disse que este post era sobre meu amor por uma mulher. Um amor recorrente, relativamente antigo e incurável. Sim, eu posso esquecê-la por algum tempo, mas basta revê-la que tudo retorna com intensidade e experimento a velha melancolia por saber que jamais poderei tê-la.

Annie Hall.

Não, não Diane Keaton (embora Hall seja seu sobrenome de fato e o filme se inspire muito em sua relação com Allen), mas sua personagem naquele que ganhou no Brasil o título de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

Seu riso nervoso, sua timidez, seus olhos imensos, suas roupas cheias de personalidade, sua insegurança, seu senso de humor, sua juventude tocante, sua inteligência, sua alegria e também sua tristeza. Annie Hall é, de certa forma, o grande amor da minha vida. Infelizmente, nasci vinte anos tarde demais, no país errado e na realidade – e, para tê-la, de bom grado eu aceitaria me tornar um baby boomer norte-americano da ficção.

E gosto de acreditar que Annie leria a frase acima e sorriria embaraçada, reconhecendo em seu absurdo uma irresistível declaração de amor.

O crítico, profissional em extinção

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Discussões | 135 comentários

Sou um dinossauro. Ou talvez seja mais correto dizer que pertenço a uma profissão jurássica e que, como tipógrafos, ascensoristas e telegrafistas, estou fadado à extinção.

Não, não creio estar exagerando. Nos últimos dias, dois incidentes particulares me levaram a refletir sobre a natureza do que faço e seu prazo de validade enquanto atividade profissional: o primeiro foi o breve e desconfortável debate entre o colunista David Carr e seu colega de New York Times, o crítico de cinema A.O. Scott; o segundo, o anúncio da demissão (e extinção do cargo) da crítica Stephanie Zacharek, que escrevia para o site Movieline. Curiosamente, conheço os três pessoalmente, tendo conversado brevemente com Carr e mais extensamente com Scott e Zacharek quando participei do seminário de crítica promovido pelo NYT em 2007, mas não creio que o impacto destes acontecimentos tenha a ver com qualquer grau de pessoalidade originado desta coincidência, mas sim com o triste estado da curiosidade intelectual que venho observando nos últimos anos.

Esta não é uma discussão nova, claro. Já em 2001, quando tinha apenas sete anos de profissão, escrevi dois artigos que buscavam esclarecer a função e a formação do crítico cinematográfico de acordo com a visão que tinha (e tenho) sobre meu papel profissional: “Pra que serve o crítico, afinal?” e “Formando um crítico de cinema“. Anos depois, voltei ao tema em posts como “Pra que serve a crítica?” e “Crepúsculo, Pevere, Rosembaum, Kael, Rossmeier, Atkinson” – e, sinceramente, hoje percebo a futilidade do esforço. Quem compreende o papel da crítica não precisa de maiores esclarecimentos; aqueles que a encaram como “questão de opinião” já interromperam a leitura no segundo parágrafo.

Considerem este post, portanto, como uma reflexão interna publicada como forma de terapia, como uma forma de negociar internamente meu valor e meu destino, representando, assim, o terceiro passo rumo à aceitação de meu fim profissional, tendo já passado pela negação e pela raiva (e mal posso esperar para chegar à “depressão”).

De imediato, o óbvio: não existo como árbitro do que é “bom” ou “ruim”. Nunca acreditei no papel do crítico como guia de consumo, como alguém que existe para dizer o que o leitor deve consumir culturalmente ou não. Escrevi várias vezes (e insisto no ponto) que, num mundo ideal, todos deveriam ver todos os filmes – incluindo aqueles que desprezo, já que, no mínimo, a bagagem adquirida passaria a funcionar como base de comparações futuras (além de sempre podermos aprender através de contra-exemplos). Assim, quando leio comentários em meu videocast sobre Prometheus que “alertam” os demais leitores para que não deixem de ver o filme “por causa deste imbecil”, sinto vontade de perguntar em que momento, em minha fala, sugeri que o filme fosse boicotado. Nunca sugeri boicote e jamais o faria – e apontar o crítico como alguém que se julga no direito de ditar o gosto alheio é uma das grandes falácias daqueles que detestam nossa profissão.

Mas o contrário também é verdadeiro: vira e mexe, alguém me envia um email ou tweet com o claro propósito de me elogiar e dizendo que sou seu “crítico favorito, já que sempre concordamos”. Sinto dizer (e aprecio a gentileza do gesto), mas isto não é um elogio. O que a afirmação implica é que meu valor está associado à minha capacidade de prever a reação do leitor e de passar a mão sobre sua cabeça, aprovando seus gostos. Aliás, acredito exatamente no oposto: o bom crítico é aquele que desafia seus leitores. Não como alguém “do contra”, mas como um profissional que estudou a Arte, viu mais filmes e, portanto, pode apontar elementos que passaram despercebidos ao espectador.

E a palavra-chave, na frase anterior, é “estudou”.

É extremamente comum ouvir, como resposta a uma crítica, que esta representa “apenas uma opinião”, sugerindo, com isso, que todas as “opiniões têm mesmo valor”. Este, claro, é o reduto do medíocre: em vez de apresentar argumentos que embasem suas posições, julga mais simples e confortável apenas afirmar que sua posição é tão válida quanto a de qualquer um apenas porque… ora, porque ele a sentiu ou intuiu. Há, ainda, quem apele para o lugar-comum do “é uma questão de gosto”, o que, em seu centro, é apenas uma variação menos elaborada (se é que isto é possível) do “toda opinião é igualmente válida”.

O que estas pessoas não percebem é que estão falando de algo diferente: da reação a uma obra de arte. Um filme pode provocar o choro em um e o riso em outro – e o crítico que tentar desmerecer a reação do espectador em vez de buscar analisar como a obra a provocou estará cometendo um erro básico (e é por esta razão que não acredito que o bom crítico se deixa influenciar pela reação da plateia ao seu lado; seu foco deve estar naquilo que se encontra na tela, não no público que a contempla). Assim, quando alguém que despreza a crítica acusa a profissão de “ser do contra”, de “sempre diferir do gosto popular”, está reagindo não contra a argumentação do texto, mas à ideia (que não vem do crítico, mas dele mesmo, espectador inseguro) de que ele seria estúpido por ter tido reação diferente. Quanto a esta questão, meu amigo (e crítico fabuloso) Jim Emerson escreveu:

“A Crítica é mais do que a afirmação de um gosto pessoal. (…) Filmes são experiências emocionais (entre outras coisas) e as pessoas respondem a eles emocionalmente. Espera-se dos críticos, porém, que mergulhem mais fundo, que analisem, expliquem e interpretem.”

Ao contrário do que muitos parecem pensar (“esse cara adora falar mal de tudo!”), não encaro a crítica como um exercício de masoquismo, como a oportunidade de me torturar ao ver e escrever sobre filmes que sei que detestarei. Antes de ser crítico, sou um profundo apaixonado pelo Cinema (todo bom crítico o é) – e quando entro numa sala de projeção, preparo-me para ser encantado pela obra que verei. Se posteriormente publico uma crítica negativa, não o faço por prazer, mas por obrigação profissional de articular racionalmente algo que me desagradou ou desapontou – e o inverso é igualmente verdadeiro: a crítica positiva é a manifestação racional do amor experimentado diante da Arte.

E desta vez a palavra-chave é “racional”. Sim, claro que “sinto” ao ver um filme. Choro feito um bebê com frequência no cinema (para imenso constrangimento de meu filho), rio alto de boas tiradas e me contorço na poltrona diante de uma cena tensa. No entanto, se ao escrever sobre o que vi acabar me limitando a descrever o que senti (“Chorei muito!”, “É emocionante!”, “Que filme divertido!”, “Dá muito medo!”), terei escrito um texto que valerá para uma única pessoa: eu mesmo. Descrever sentimentos é a opção populista do crítico sem embasamento teórico; o bom profissional irá além: explicitará como os realizadores dispararam aquelas emoções em seu público ou por que falharam ao tentar fazê-lo.

Daí a importância do estudo e da bagagem. Ninguém daria ouvidos a um especialista em economia que jamais houvesse estudado o assunto ou a um correspondente de guerra que jamais houvesse saído do estúdio. Da mesma forma, o que diferencia o crítico do espectador “médio” (um termo que uso não de forma pejorativa, como muitos parecem querer acreditar, mas como descrição objetiva de alguém que encara o cinema como passatempo descartável e não tem interesse em enriquecer sua experiência como cinéfilo) é o conhecimento sobre teoria, linguagem e história cinematográficas.

E só isto já desqualifica a posição de que “toda opinião é igual”, já que o que realmente importa são os argumentos que embasam cada opinião. Dizer que a fotografia de um filme “é boa” ou que este é “bem montado” nada significa; é uma afirmação vazia que não diz nada – e é por isso que o bom crítico empregará exemplos retirados do próprio longa para justificar suas posições, frequentemente usando as observações disparadas pelo lançamento da semana para discutir elementos que dizem respeito ao Cinema de modo geral.

(Aliás, se comentei antes que dizer que sou um bom crítico “porque sempre concordo com sua opinião” é um elogio vazio, devo reconhecer que sempre fico lisonjeado quando vejo alguém tuitar ou “facebookar” que irá ler algumas de minhas críticas antigas apenas pelo prazer de visitá-las. “Confesso que não tenho curiosidade de ver todo filme que entra em cartaz, mas adoro ler todas as críticas que você publica, mesmo sem ter visto o longa em questão”, escreveu um leitor outro dia, naquele que provavelmente é o maior elogio que já recebi justamente por apontar que o texto tem valor como análise cinematográfica em si, não como guia prático de consumo.)

Porém, em vez de aproveitarem o conhecimento do crítico para talvez aprenderem um pouco mais sobre a Arte, há muitos que preferem apenas vê-lo como alguém “arrogante”, como um “pseudo-intelectual” (a “ofensa” que é marca registrada daquele inseguro quanto ao próprio intelecto ou à própria cultura); é mais fácil acreditar, por exemplo, que fingi ter apreciado A Árvore da Vida do que reconhecer o próprio comodismo ao sequer tentar entender o filme de Malick. Quanto à “arrogância”, retorno a palavra a Jim Emerson:

“(É necessária) uma certa forma de arrogância para se fazer um filme, para se apresentar em público ou diante da câmera e para escrever uma crítica. (…) Dizer que alguém do showbiz (e isto inclui as pessoas que escrevem sobre ele) está exibindo ‘arrogância’ é como dizer que um bombeiro está exibindo ‘coragem’ ao entrar em um prédio em chamas. Você não poderia desempenhar seu trabalho sem ela. Mas não basta a arrogância. Preparo e experiência também são necessários.”

E é exatamente por isso que jamais me defendi da acusação de “arrogância”: desacompanhada de estudo, é reprovável; embasada por argumentos, é o que me permite ter a “audácia” de publicar o que escrevo para consumo alheio.

Nada disso interessará por muito mais tempo, porém. A ideia de que “na internet, todo mundo é crítico” é o que parece dominar – mesmo que, como discuti acima, o estudo, a bagagem e a experiência sejam fundamentais ao definir o autêntico “crítico”. Infelizmente, como escrevi no twitter, hoje o que importa é o hype, não o pensamento crítico.

A crítica cinematográfica desaparecerá ao lado dos filmes legendados. Morreremos afogados nos braços um do outro, como expressões ultrapassadas do amor e do respeito incondicionais pela Sétima Arte.

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P.S.: Se você leu este post na íntegra, não precisava ser convencido(a) do valor da crítica; está habituado(a) a ler e aprecia a discussão racional – e mesmo que tenha discordado de tudo que escrevi, certamente terá capacidade de articular esta discordância. O problema reside naqueles que pararam no título ou no segundo parágrafo, deram um “page down” para ver o tamanho do texto, ficaram com preguiça e abandonaram a página. E como estes representam a maioria, a crítica permanecerá condenada por mais que a defendamos. 

P.P.S.: Se você leu este “P.S.” ao finalizar o rápido “page down”, vestiu a carapuça e decidiu comentar negativamente apenas para fingir que leu tudo, a fragilidade dos seus argumentos te denunciará. Nem tente.

Marilyn

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Variados | 22 comentários

Hoje publicamos a foto que ilustra esse post em nosso tumblr, como homenagem ao aniversário de Marilyn Monroe (ela completaria 86 anos de idade; morreu há 50), e subitamente me vi com um nó na garganta. Tirada em 1938, quando Marilyn ainda era apenas Norma Jeane Mortenson e tinha 12 anos de idade, a foto exibe uma menina que, com olhar direcionado para algum ponto à sua esquerda e ao alto, ainda não aprendera a encarar a câmera com a segurança de mulher absoluta que exibiria nas (poucas) décadas seguintes. Esforçando-se para parecer mais velha e bonita, com seu cabelo rebelde empurrado para trás e um lenço amarrado em volta do pescoço, a menina surge quase desafiadora, como se sentisse estar sendo julgada pelo fotógrafo e não se importasse com isso – algo natural em uma quase criança que aprendera a trabalhar e a se defender cedo depois de escapar de ser morta pela mãe insana aos 2 anos e de um estupro aos 6.

Ao mesmo tempo, a aparência desgastada e puída da fotografia comove por si mesma: é como se víssemos, no desbotamento sépia do registro, a própria representação da juventude perdida e sofrida da modelo – e a Marilyn que ela construiria no futuro se esforçaria até o fim para apagar as marcas da infância feia e trágica. Sem sucesso, como sabemos.

Vejo o retrato e encontro quase a alma capturada de Norma Jeane. Eternamente presa numa pequena caixa marrom, suja e velha enquanto o avatar que ela concebera para escapar desfilava e deslumbrava mundo afora com seus cabelos louros e lisos, o rosto perfeito, a pinta sedutora na bochecha esquerda, os seios fartos e o corpo cheio de curvas, carne e erotismo.

Mas o olhar vulnerável e a voz delicada sempre trairiam a fragilidade interna, a dúvida sobre o próprio valor e o medo de ser devolvida à velha caixa. E isso, tristemente, era o que acabava por transformar Marilyn em Marilyn: ainda que maravilhosa, era uma mulher que permanecia acessível aos reles mortais justamente por sentir-se indigna de figurar entre as lendas. Esta era a base da persona de Monroe: a diva que poderia se partir com um toque mais forte.

Ao pensar em “Marilyn Monroe” (ou como Roger Ebert escreveu: “Quando criança, pronunciávamos como se fosse uma única palavra (…): marilynmonroe“), divido-me entre duas imagens paradoxalmente conflitantes e complementares: a do objeto de desejo cujo vestido se levanta sugestivamente sobre a grade de ventilação do metrô, mas também aquela que, em uma de suas últimas sessões de fotos, não se preocupava mais em esconder a imensa e humana cicatriz no abdômen.

E por trás de todas estas, a menina presa na foto envelhecida.

 

Não preciso de religião; tenho Ennio Morricone

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cinema em seu máximo, Clássicos, Vídeos | 26 comentários

Toda a performance é linda, de tirar o fôlego, mas quando “Ecstasy of Gold” começa aos 38:55… meu coração acelera. Toda vez.

O primeiro Sherlock Holmes do cinema

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos, Vídeos | 4 comentários

Dirigido por Arthur Marvin e protagonizado pelo senhor Anônimo (taí um mistério para o detetive de Conan Doyle solucionar), confira abaixo o primeiro filme estrelado pelo personagem Sherlock Holmes: Sherlock Holmes Baffled, de 1900. Duração: 30 segundos.

Gene Kelly no século 21

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Vídeos | 4 comentários

Meu dançarino favorito do Cinema. (Sem querer desrespeitar Astaire, que também era genial.)

Todos os zooms de O Iluminado. Em sincronia.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cinema em seu máximo, Vídeos | 1 comente

Conversão para 3D: a nova colorização

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Curso, Discussões | 21 comentários

Não, não assisti a Star Wars: A Ameaça Fantasma em 3D e não pretendo fazê-lo. Em primeiro lugar, já não gosto tanto assim do filme para justificar uma revisita; em segundo, não vejo sentido em voltar ao cinema para assistir a uma versão inferior à original em técnica e linguagem.

Sim, “inferior”. Assim como as versões colorizadas de obras em preto-e-branco representavam um atentado artístico ao alterarem a fotografia cuidadosamente planejada dos originais, a conversão de longas tradicionais para o 3D é uma estupidez do ponto de vista artístico, fazendo sentido em apenas um aspecto: o financeiro. E este, claro, interessa exclusivamente aos estúdios. O fato é que o Cinema, ao longo de mais de cem anos, encontrou maneiras próprias de levar o espectador a perceber a profundidade de seus universos mesmo estando preso à bidimensionalidade: não apenas empregou o conceito de “perspectiva” desenvolvido pelos artistas plásticos da Renascença como ainda desenvolveu formas de empregar a profundidade de campo para evocar a distância entre os elementos em cena – e discuto isso amplamente em meu curso. Assim, quando um filme concebido em 2D é convertido para 3D, todas estas decisões artísticas e técnicas tomadas durante sua realização se convertem instantaneamente de algo orgânico e funcional para um obstáculo a ser contornado. É como se os cineastas estivessem lutando contra si mesmos e contra o próprio filme enquanto tentam enfiar na obra pronta um recurso que simplesmente não tem espaço ali.

Assim, é espantosa, a hipocrisia de James Cameron: depois de atacar vários cineastas por converterem seus filmes para 3D, dizendo que estavam matando a tecnologia em seu berço, o cineasta não hesitou em converter seu próprio Titanic, como se subitamente suas críticas (relevantes, vale apontar) não se aplicassem às suas próprias ações.

Mas aqui prefiro abrir espaço para meu amigo e mentor Roger Ebert, que, num post recente sobre o relançamento de Titanic, concluiu o texto com as seguintes observações:

“E agora à falha final: o processo 3D, claro. Cameron foi elogiado justamente por ser um dos poucos diretores a empregar o 3D de maneira eficiente em Avatar, mas Titanic não foi rodado para o 3D – e assim como você não consegue maquiar um porco, não pode transformar 2D em 3D. O que você pode fazer – e ele tenta fazer isso bem – é encontrar certas cenas que possa apresentar como tendo pontos de foco em primeiro, segundo e terceiro planos. Mas e daí? Você sentiu falta de alguma dimensão quando assistiu a Titanic pela primeira vez? Não importa quanto tempo ou dinheiro Cameron gastou na conversão, o fato é que esta é um 2D readaptado. Caso encerrado.

Ou não exatamente. Há mais do que isso. O 3D causa uma perda considerável no brilho da tela – alguns dizem que esta perda chega a 20%. Se você visse um filme comum obscurecido desta maneira, reclamaria com o gerente do cinema. E aqui você supostamente deve se sentir agradecido por ter a oportunidade de pagar mais por algo danificado. Se estiver atento, aliás, perceberá que muitos planos e sequências nesta versão não estão sequer em 3D, permanecendo em 2D. Se tirar os óculos, as imagens saltarão da tela com uma melhora dramática de luz. 

Eu sei por que este filme está em 3D: é para justificar o ingresso mais caro. Péssima maneira de se tratar uma obra-prima”.