Cinema

As roupas de Kay Corleone – parte II

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cinema em seu máximo | 11 comentários

Depois de rever a Parte III da trilogia O Poderoso Chefão, complemento agora a análise dos figurinos usados por Kay Corleone (Diane Keaton) ao longo dos filmes de Francis Ford Coppola. (Sugiro que leiam antes a parte I clicando aqui.)

Se as roupas de Kay nos dois primeiros filmes da série empregavam os tons laranja/vermelho com o intuito de ressaltarem a vitalidade e a alegria perdidas pela personagem graças ao envolvimento com a família Corleone, a lógica adotada por Coppola e pela figurinista Milena Canonero no último capítulo da saga de Don Michael se revela um pouco mais sutil, mas igualmente brilhante (e sempre me espanto quando percebo como esta fabulosa Parte III é subestimada por tantas pessoas). Depois de ter seu acesso aos filhos negado durante anos, Kay agora é uma mulher bem mais forte, embora também mais triste – e, assim, quando a vemos pela primeira vez, suas roupas refletem isso: não são tão escuras quanto aquelas usadas pelo resto da família Corleone, mas são certamente sem vida em seus tons pastéis.

Isto pode ser constatado na celebração que abre o filme:

 

Quando ela visita Michael no hospital:

 

E quando chega à Sicília:

 

É então que Michael a leva para visitar a cidade natal do pai e, mais uma vez, Kay é seduzida pelo ex-marido – e o efeito deste é imediatamente representado nas roupas da personagem:

 

E o resultado, claro, é o habitual no que diz respeito à família Corleone: tragédia e morte.

Light News

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Minha participação no programa Transamerica Light, em Curitiba, apresentado por Maria Rafart e Marden Machado:

As roupas de Kay Corleone

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Passei a tarde de sábado dentro do cinema. Mais especificamente, na sala Humberto Mauro, em BH, assistindo a uma sessão dupla das duas primeiras partes de O Poderoso Chefão. (Queria muito poder ir na terça, quando os três serão exibidos, mas estarei em Curitiba.)

Como muitos de vocês já sabem, todo ano assisto à trilogia pelo menos uma vez (normalmente, mais de uma) – e sempre numa sessão contínua, um atrás do outro. Nos últimos tempos, notei que começo a chorar cada vez mais cedo no primeiro longa – e na sessão deste sábado, o choro veio assim que Michael e Kay chegaram à festa de casamento de Connie, já que a tragédia na qual a vida de ambos se transformaria me veio à mente ao vê-los tão jovens, felizes, apaixonados e esperançosos no futuro.

Mas se há algo que sempre me espanta na trilogia é a capacidade que tem de me surpreender mesmo depois de… o quê?… vinte visitas? Trinta? Às vezes, é uma constatação menor sobre sua estrutura – como quando notei, por exemplo, que nos dois primeiros filmes Tom Hagen é obrigado a comunicar a morte de um filho ao seu Don (no primeiro, a de Santino para Don Vito; no segundo, a do bebê de Kay a Don Michael). Em outras ocasiões, é um insight sobre a relevância particular de um determinado momento (como discuti no post sobre a fala mais importante da trilogia). Neste sábado, porém, percebi algo que, confesso, me fez ter o impulso de dar um tapa no testa e berrar “Como nunca havia visto isso antes?”.

É algo que, quando notado, torna-se tão óbvio que, estou certo, devo ser um dos últimos fãs da trilogia a tê-lo constatado. Estou falando do laranja/vermelho nos figurinos de Kay (dependendo da versão – VHS/DVD/BD -, o tom muda consideravelmente; em VHS/DVD, tende para o laranja; no BD, para o vermelho).

Sim, é claro que seria impossível não reparar seu vestido na cena em que se dirige à “fortaleza” Corleone à procura de Michael, quando o laranja/vermelho intenso de seu vestido se contrapõe de maneira inconfundível ao cinza e ao preto das roupas normalmente usadas pela família do namorado – e a ideia por trás desta escolha é claramente a de salientar como Kay é uma criatura distante do universo sombrio dos Corleone.

Não, o que eu não havia percebido é a evolução das roupas da moça ao longo da narrativa – algo absolutamente brilhante. Exibindo uma predileção pelos tons laranja/vermelho desde sua entrada em cena, no casamento da futura cunhada, Kay veste peças dominadas por estas cores em todas as suas aparições enquanto solteira:

No casamento de Connie:

Quando, ao lado de Michael, vê a manchete sobre o atentado contra Don Vito (reparem o vestido sob o casaco):

Em seu último jantar com Michael antes que este se envolva nos negócios da Família (eles só se reencontrarão anos depois):

Em sua visita à casa dos Corleone, em busca de informações sobre Michael:

Só voltaremos a rever a personagem quando Michael, de volta da Itália, a procura na escola em que trabalha (a única cena na qual seu figurino não exibe nada de laranja/vermelho). Novamente seduzida pelo ex-namorado e por sua promessa de dar legitimidade à Família, Kay se casa com Michael e, quando a vemos novamente – e é aí que entra a genialidade de Coppola e da figurinista Anna Hill Johnstone -, suas roupas começam gradualmente a perder a cor, simbolizando o efeito nocivo dos Corleone sobre sua personalidade e sua vida.

Observem, por exemplo, os detalhes laranja/vermellho em seu cinto (e que também estão presentes em seu chapéu) na cena em que conta a Michael que este foi convidado por Connie para ser o padrinho do filho desta com Carlo:

Já no batizado, todo o laranja/vermelho abandonou seu figurino, embora ela ainda exiba uma tentativa final de se prender à sua vitalidade antiga através do discreto batom neste tom:

Seus esforços, porém, não resistem à força destrutiva de Michael – e assim, quando chegamos à cena final, toda a cor foi completamente drenada de sua vida e de suas roupas:

No entanto, ao dirigir a Parte II, Coppola não esqueceu da lógica criada para o filme original – e confesso que perdi o fôlego ao constatar isto (literalmente; no momento em que a cena abaixo surgiu na tela, fiquei sem respiração ao perceber o que o cineasta fizera): depois de anos vivendo sob o peso dos negócios da Família Corleone e das promessas não cumpridas feitas pelo marido, Kay perde completamente a esperança de ver Michael se redimir e voltar a ser o jovem idealista que conhecera – e quando este retorna de sua longa viagem (que o mantém afastado da família durante a maior parte do segundo capítulo da trilogia), encontra a esposa solitária em casa, costurando. Naquele momento, embora ele ainda não saiba, Kay já havia decidido encerrar o casamento e até mesmo abortara o filho que esperava. Com muito esforço, ela resolvera abandonar os Corleone e voltar a viver.

E qual é a cor da roupa que ela costurava naquele instante?

Exatamente.

Como não amar estes filmes?

Julianne Moore e Natalie Portman adoram chorar

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Sugestões do leitor Márcio Leal:

Situação perigosa

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 37 comentários

Imagine um grupo de artistas que envolva indivíduos espalhados por vários estados.

Agora imagine que um (ou mais) deles faça parte de uma comissão governamental que determinará o destino de verbas para a produção artística. E que sempre alguém do grupo (geralmente mais de uma pessoa) acaba sendo agraciado com recursos financeiros.

Com o trabalho pronto, é hora de inscrevê-lo em festivais e mostras. Imagine agora que um ou mais integrantes deste mesmo grupo façam parte das curadorias de determinados eventos do calendário nacional. E que estes projetos de seus companheiros sejam invariavelmente selecionados para a programação.

E se eu disser que este grupo também conta com críticos que geralmente escrevem artigos incrivelmente hiperbólicos sobre a importância destas mesmas obras, celebrando-as como algo “vital”, “inovador” e por aí afora, criando a impressão de um apoio entusiasmado por parte dos especialistas?

Para completar, imagine que integrantes deste mesmo grupo (ou agregados) participem dos comitês que distribuirão prêmios em festivais e mostras – e que, não surpreendentemente, os trabalhos de seus colegas sempre saiam com um ou mais troféus da cerimônia.

E agora o mais assustador: suponha que estes artistas enxerguem o que fazem como a “verdadeira” Arte, esforçando-se até mesmo para batizá-la com um nome que sugira se tratar do novo “caminho” que esta vem estabelecendo no cenário nacional. E que todos os esforços que não se encaixem nestes padrões supostamente “vanguardistas” sejam considerados por eles como algo “menor”, “sem valor”, puramente “comercial” ou simplesmente medíocre por natureza.

Imaginou? 

Pois isto está acontecendo com o Cinema brasileiro.

Belo discurso sobre integridade artística

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 29 comentários

O discurso abaixo, belíssimo e relevante, foi feito por um cineasta diante do congresso norte-americano em 1988 – e decidi traduzi-lo aqui depois de descobri-lo graças ao crítico Matt Zoller Seitz não só porque de certa forma se encaixa na discussão sobre dublagem, mas também porque achei curioso que… enfim. O nome do cineasta será revelado ao fim deste post.

“Meu nome é [removido]. Sou roteirista, diretor e produtor de filmes e presidente da [nome de sua empresa], uma corporação de entretenimento que atua em várias áreas. Não estou aqui hoje como roteirista-diretor ou como produtor ou como presidente de uma corporação. Vim como cidadão daquela que acredito ser uma grande sociedade que está precisando de uma âncora moral que a ajude definir e proteger sua herança cultural e intelectual. Que não está sendo protegida.

A destruição de nossa herança cinematográfica, que é o foco de nossa preocupação hoje, é apenas a ponta do iceberg. A lei norte-americana não protege nossos pintores, escultores, músicos, autores ou cineastas contra a distorção de suas obras, que pode arruinar suas reputações. Se algo não for feito agora para definir claramente os direitos morais dos artistas, as tecnologias atuais e futuras irão alterar, mutilar e destruir para as futuras gerações as sutis verdades humanas e os mais altos sentimentos humanos que indivíduos talentosos de nossa sociedade criaram.

O direito autoral é mantido por seu proprietário até ser revertido para domínio público. Obras de arte americanas pertencem ao povo americano; são parte de nossa história cultural. Aqueles que alteram ou destroem obras de arte e nossa herança cultural visando o lucro ou mesmo como um mero exercício de poder são bárbaros – e se as leis dos Estados Unidos continuarem a permitir este comportamento, a história certamente nos classificará como uma sociedade de bárbaros. A preservação de nossa herança cultural pode não parecer um assunto politicamente relevante como discussões sobre “quando a vida tem início de fato” ou “quando poderia ser encerrada”, mas é importante porque diz respeito ao que diferencia a humanidade. A expressão criativa é a alma de nossa humanidade. A arte é distintamente uma iniciativa humana. Temos que respeitá-la se quisermos respeitar a raça humana.

Estes vandalismos atuais são apenas o começo. Hoje, engenheiros com seus computadores podem adicionar cores a filmes em preto-e-branco, modificar a trilha sonora, aumentar o ritmo e adicionar ou subtrair material que atendam aos gostos filosóficos do detentor dos direitos autorais. Amanhã, tecnologias mais avançadas conseguirão substituir atores por “rostos mais jovens” ou alterar diálogos e mudar o movimento dos lábios dos atores para que se encaixem neles. Logo será possível criar um novo negativo “original” com quaisquer alterações que o detentor dos direitos autorais deseje. Até agora, estes detentores de direitos autorais não foram completamente eficientes em preservar os negativos originais dos filmes que controlam. Para reconstruirem velhos negativos, muitos arquivistas tiveram que visitar países orientais nos quais filmes norte-americanos foram melhor preservados.

No futuro, será ainda mais fácil que negativos velhos se percam e sejam “substituídos” por novos negativos – estes, alterados. Esta seria uma grande perda para nossa sociedade. Nossa história cultural não pode ter permissão para ser reescrita. Não há nada que impeça que filmes, discos, livros e pinturas norte-americanos sejam vendidos para uma entidade estrangeira ou para bandidos egocêntricos, que poderiam alterar nossa herança cultural a fim de que esta se encaixe em seus gostos particulares.

Eu acuso as empresas e grupos que dizem que a lei americana é suficiente de estarem enganando o congresso e o povo em função de seus próprios interesses econômicos. Eu acuso as corporações que se opõem aos direitos morais do artista de serem desonestas e insensíveis diante da herança cultural norte-americana e de terem interesse apenas em seus lucros trimestrais, não nos interesses a longo prazo do país. O interesse do povo, em última análise, deve sobrepujar todos os outros interesses. E a prova disso é que mesmo a lei dos direitos autorais permite que os artistas e seus herdeiros aproveitem os frutos econômicos de seus trabalhos por apenas um tempo limitado.

Há aqueles que dizem que a lei norte-americana é suficiente. Isto é um absurdo! Não é suficiente! Se fosse, por que eu estaria aqui? Por que John Huston teria sido tão solenemente ignorado quando protestou diante da colorização de Relíquia Macabra? Por que os filmes são remontados e mutilados?

Devemos prestar atenção a esta questão de nossa alma, não apenas a procedimentos contábeis. Devemos prestar atenção aos interesses daqueles que ainda não nasceram, que deveriam poder ver esta geração como esta geração se viu e as gerações passadas como estas se viram.

Espero que os senhores tenham coragem de liderar os Estados Unidos no reconhecimento da importância da arte do nosso país para a raça humana, criando proteções para os criadores desta arte assim como estas foram criadas na maior parte do mundo.”

 

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O nome deste bravo artista que defendeu com tanta paixão a integridade artística e histórica dos filmes? Que condenou a alteração/deformação/mutilação destas obras por empresários em busca de dinheiro ou que colocavam seus egos acima do legado artístico dos autores?

George Lucas.

Exausto – mas Ebert me entusiasma

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Curso, Livros, Variados | 13 comentários

Os últimos quinze dias foram absurdamente exaustivos. Às vezes, tendo a esquecer que o dia tem apenas 24 horas e acumulo uma série de atividades e compromissos apenas para, no meio do processo, perceber que estou esgotado. Há algum tempo, o cineasta (e querido amigo) Helvécio Ratton me procurou perguntando se eu toparia escrever o pressbook de seu novo filme, o documentário O Mineiro e o Queijo – o mesmo trabalho que eu havia feito para seu belo Batismo de Sangue. Não é um trabalho que eu goste muito de fazer e por alguns motivos: é muito desgastante, exige bastante tempo, apenas a imprensa lê este material e ele logo é esquecido quando o filme é lançado, já que o que importa de fato é o longa. Porém, eu também tinha alguns motivos para aceitar: 1) sou fã incondicional de Helvécio; 2) Simone, sua esposa e produtora, é uma pessoa igualmente encantadora; e 3) Depois de receber uma cópia intermediária do filme, fiquei apaixonado pelo documentário. E topei, imaginando que seria mais simples do que o de Batismo – e mais curto (aquele tinha em torno de 50 páginas).

Subestimei a complexidade do assunto abordado por O Mineiro e o Queijo, já que seu pressbook ficou praticamente com a mesma extensão daquele que escrevi para Batismo. Mas Helvécio e Simone aprovaram e gostaram do resultado – e isso para mim é o que basta.

No entanto, ao mesmo tempo em que pesquisava e escrevia o pressbook, estávamos em intensa fase de pré-produção de Morte Cega, meu segundo curta. Reuniões com a direção de arte, de fotografia, figurinos, produção e, claro, ensaio com os atores: Maurício Canguçu, Carlos Magno Ribeiro e Geraldo Magela (o Ceguinho). Com produção entregue ao Guilherme Fiúza (5 Frações de uma Quase História), que conheci justamente através de Helvécio, o filme teve uma dimensão infinitamente maior do que a de A_ética, que se resumiu a oito pessoas trancadas num depósito durante três noites, trabalhando de graça e comendo pizzas compradas com os cupons fornecidos por nosso único patrocinador. Desta vez, a produção envolveu mais de 50 pessoas (chegamos a ter 32 pessoas no set), teve um custo consideravelmente maior (70 mil captados através da Lei Municipal) e envolvia diversas locações, figurantes, efeitos de maquiagem, dezenas de objetos de cena, figurinos e por aí afora.

Se somarmos ao pressbook e ao filme as obrigações no Cinema em Cena e, claro, a polêmica que tanto me desgastou na semana passada, posso dizer que dormi cerca de 5 horas diárias nos últimos 15 dias – e, claro, minha saúde pagou o preço: fiquei gripado, tive conjuntivite no último dia de filmagens e fui obrigado tomar corticóides duas vezes em um único mês.

Mas estou feliz: o pressbook agradou Helvécio e Simone, as filmagens me deixaram feliz e otimista e não deixei de escrever críticas em nenhuma das semanas anteriores. Além disso, arranjei um tempinho para produzir o curso em Curitiba no fim de setembro, que já está com mais de metade das vagas esgotadas.

Por outro lado, no domingo, meu amigo e mentor Roger Ebert assistiu a A_ética e me enviou o seguinte comentário, que compartilhei com os leitores no Facebook:

“Você é um verdadeiro diretor. Antecipo escrever sobre seu primeiro longa”. 

Fui ao paraíso e voltei.

Como se não bastasse, hoje li um trecho da autobiografia de Ebert e fiquei encantado por esta passagem, que transcrevo abaixo (tradução minha):

“Assisti a um número indescrítivel de filmes e esqueci a maior parte deles – espero. Lembro-me daqueles que valem ser lembrados e que dividem a mesma prateleira em minha mente; não existem “filmes antigos”. Em certo sentido, certos filmes “antigos” se libertam do conceito de “tempo”. Vejos filmes mudos, às vezes, e não sinto estar assistindo a obras velhas; sinto estar olhando para um “agora” que foi capturado, tempo preso numa garrafa. Quando vi os filmes mudos pela primeira vez, os atores me pareceram estranhos e datados; hoje soam mais… contemporâneos. O principal problema de um filme que tem 10 anos é o fato de não ter 30 anos. Depois que os penteados e os figurinos param de ser “datados” e começam a ser “históricos”, podemos dizer se o filme em si resistiu ao tempo”.

Quando eu aprender a escrever como Ebert, estarei realizado. Até lá, sigo tentando. 

Claquete final de “Morte Cega”. 1-7-1. Hum.

Keep on Walking

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Eu poderia assistir a esta compilação o dia inteiro. Pena que só tem três minutos.

E, sim, eu a estou publicando também pela metáfora que representa, considerando acontecimentos recentes no twitter. 😉

Update: Há este também, criado por Matt Zoller Seitz:

 

Efeitos Visuais: 100 Anos de Inspiração

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Vídeos | 7 comentários

Um Filme Sérvio e os ditadores do bom gosto

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões, Política | 62 comentários

(Update: Hoje, a partir de 20h30, estarei no Galpão Cine Horto, em BH, para exibição e debate de Um Filme Sérvio ao lado de vários colegas da crítica mineira como Marcelo Miranda, Marcelo Castilho Avellar, Renato Silveira, Rafael Ciccarini, Ursula Roesele, entre outros. Recomendo que os interessados cheguem cedo para pegar senha, já que a sessão é gratuita.)

Eu não gosto de Um Filme Sérvio

Não, permitam que eu reescreva esta frase: eu detesto Um Filme Sérvio. Trata-se de uma abominação cinematográfica. Seu roteiro é patético como suas “ideias”; sua direção é de uma incompetência que rivaliza apenas com a estupidez de sua trilha sonora; sua montagem é tão pedestre quanto sua fotografia. Como longa-metragem, esta imbecilidade escrita e dirigida por Srdjan Spasojevic mereceria ir parar no lixo da História do Cinema, sendo esquecido e ignorado por todos que amam esta Arte.

Assim, é com imensa frustração (e até mesmo um pouco de raiva) que me vejo na obrigação de defendê-lo. Gastar tempo, palavras e espaço com uma porcaria como Um Filme Sérvio é algo que me irrita profundamente – principalmente quando há tantas obras merecedoras destes mesmos tempo, palavras e espaço sendo ignoradas pelo público. Infelizmente, porém, o longa de Spasojevic tornou-se símbolo de uma discussão fundamental graças à estupidez de alguns legisladores e políticos, que, na tentativa de ditar o gosto alheio, acabaram oferecendo uma maravilhosa campanha publicitária – e gratuita – para a produção.

A esta altura, todos já conhecem a polêmica: prestes a ser exibido no RioFan, Um Filme Sérvio foi barrado pela Caixa Econômica, patrocinadora do evento e do espaço de exibição, que justificou sua atitude através de um release que concluía: “… a arte deve ter o limite da imaginação do artista, porém nem todo produto criativo cabe de forma irrestrita em qualquer suporte ou lugar”.

Foi uma atitude tola? Desnecessária? Impensada? Sem dúvida alguma – e manifestei esta posição no twitter assim que recebi o email enviado pela assessoria da Caixa. Dito isso, a instituição estava apenas exercendo seu direito ao cancelar a exibição. Como patrocinadora do evento, é natural que se preocupe com o tipo de conteúdo que irá apoiar direta ou indiretamente – e, no seu lugar, eu também teria receios de associar a marca a uma obra tão estúpida. Ainda assim, a análise do conteúdo do RioFan e a discussão com os organizadores/curadores deveria ter ocorrido antes do agendamento da sessão, não depois que todo o programa já havia sido divulgado, indicando uma tremenda falta de organização por parte do departamento de marketing cultural da Caixa.

No entanto, a coisa ganhou outra proporção quando uma liminar impetrada pelo DEM (este bastião da honra na política brasileira que chegou a mudar de nome para se distanciar da história que construiu como PFL e, antes disso, como Arena e UDN) barrou a exibição de Um Filme Sérvio no Odeon e em circuito nacional, associando-se à ação do procurador mineiro Fernando Martins que, ao impedir que o longa fosse submetido à classificação indicativa, conseguiu garantir na prática que a produção não chegasse aos cinemas.

E é aí que a discussão fica realmente interessante.

As justificativas do DEM e do procurador? De modo geral, a “imoralidade” e a “falta de gosto” de Um Filme Sérvio, bem como o excesso de violência presente na narrativa e os atos sexuais “degradantes” envolvendo necrofilia, incesto e até mesmo o estupro de um recém-nascido.

Eles estão certos quanto a isso. Um Filme Sérvio realmente é – ao meu ver (e ressalto isto para voltar à questão mais adiante) – uma produção de mau gosto. E, sim, a violência do longa soa gratuita, tendo claramente o propósito único de chocar em vez de construir uma narrativa que use estes abusos físicos/sexuais como forma de dizer algo (aqui e ali o diretor tenta estabelecer um paralelo entre os acontecimentos na tela e a história política e de guerras da Sérvia, mas estas tentativas são claramente cínicas, buscando fingir uma preocupação temática-social que simplesmente inexiste no roteiro). Assim, não posso discordar daqueles que encaram Um Filme Sérvio como um esforço baixo, repugnante e desnecessário.

O que eu não posso fazer, contudo, é usar estas minhas impressões para impedir que você assista ao filme e tire suas próprias conclusões. Pois, vejam só, quando eu digo que o longa é de extremo “mau gosto” ao meu ver, estou deixando subentendido que outras pessoas poderão enxergar nele uma relevância que para mim inexiste. Além disso, meu gosto não é universal (longe disso) – e certamente haverá alguém que se encantará com a abordagem de Spasojevic. 

E esta seria uma discussão puramente subjetiva, não legal. A Constituição e o Código Civil não estabelecem critérios para o que seria “bom gosto” – e nem poderiam. Assim, é extremamente preocupante quando a desembargadora Gilda Maria Dias Carrapatoso mantém a proibição do filme ao alegar que “não se pode admitir que, em nome da liberdade de expressão, cenas de extrema violência física e moral, inclusive utilizando recém-natos, sejam levadas ao grande público, vez que podem provocar reações adversas, às vezes, em cadeia, em pessoas sem equilíbrio emocional e psíquico adequado para suportar tais evidências de desumanidade”. (Aliás, desembargadora, “espectadores” é com “s”, não “x”.)

Ora, de imediato levanto algumas questões:

1) “Não se pode admitir que, em nome da liberdade de expressão, cenas de extrema violência sejam levadas ao grande público”? Como assim? Como ela pode tentar conciliar ideias como “liberdade de expressão” e “não se pode admitir”? Ou temos liberdade de expressão ou não – e os limites desta devem ser ditados pela Lei, não por impressões pessoais e subjetivas sobre os efeitos da representação da violência na tela. E não se iludam: são impressões pessoais e subjetivas. Além disso, como isto não se aplicou a, digamos, O Albergue, Turistas, Encarnação do Demônio e tantos outros projetos similares? A Lei não pode ter pesos e medidas diferentes.

2) Se formos barrar tudo que pode provocar “reações adversas” em “pessoas sem equilíbrio emocional e psíquico adequado”, peço que incluam na fila obras como Impacto Profundo, Clube da Luta e Os Smurfs, porque sempre haverá pessoas que se deixarão afetar por algo que, para o resto da  humanidade, é absolutamente inócuo. Da mesma forma, dizer que Um Filme Sérvio “estimula a pedofilia” é um argumento de assombrosa estupidez – ou devemos acreditar que há quem assista ao filme e pense: “Taí, gostei! Vou estuprar um recém-nascido!”? Além disso, se as autoridades quiserem bancar as babás de toda a população, protegendo-as daquilo que julgam “perturbador”, já podemos prever que todo o poder judiciário entrará em colapso com a sobrecarga infinita de trabalho – e eu mesmo entrarei com  uma liminar que barre no Brasil  toda a filmografia de Rob Schneider.

Mas em toda esta briga há um único argumento levantado por defensores da censura prévia que merece alguma – mas não muita – discussão: trata-se do Estatuto da Criança e do Adolescente, que, em seu artigo 241, estabelece ser proibido:

Simular a participação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica por meio de adulteração, montagem ou modificação de fotografia, vídeo ou qualquer outra forma de representação visual.” Neste caso, quem comercializar este produto também estará sujeito às penas previstas.

Um Filme Sérvio, a rigor, faz isso? Sim, faz. Mas aí a questão é de interpretação da lei. Em primeiro lugar, ela foi concebida para proteger jovens da exploração sexual – e claramente tinha como intenção coibir a pedofilia e o mercado sexual envolvendo crianças. Ora, Um Filme Sérvio é claramente um filme de ficção (o bebê “estuprado” no longa é um boneco óbvio, sendo impossível confundi-lo com um recém-nascido de carne e osso): assim, quando assistimos à produção, não há dúvida alguma de que o que estamos vendo não é real – justamente o efeito oposto do que buscam os canalhas que produzem vídeos pornográficos de pedofilia para comercialização entre criminosos sexuais. Usar uma lei criada para proteger crianças de crimes reais com o objetivo de barrar uma obra de ficção é uma atitude não só desonesta e irresponsável, mas também imoral, já que leva ao risco de que a lei seja revisada e enfraquecida, tornando-a inócua para coibir perigos reais, não imaginários.

Além disso, novamente há a questão dos pesos e medidas diferentes: por que Baixio das Bestas não foi igualmente barrado? Ou Lolita? Beleza Americana? Festa de Família? Sobre Meninos e Lobos? Dúvida? A Promessa? South Park? A única diferença entre estes e Um Filme Sérvio é, mais uma vez, o “bom” e o “mau” gosto, não a interpretação da Lei em si, que poderia se aplicar a todos eles em maior ou menor grau. E repito o mais importante: em nenhum deles, incluindo o trabalho de Spasojevic, acreditamos por um segundo sequer que uma criança foi realmente submetida à exploração sexual – e impedir isto é a alma do artigo 241.

A conclusão é que, se alguns casos são ignorados pela justiça e outros combatidos, isto passa a não ter nada a ver com a Lei, mas sim com Política – e a Lei jamais pode ser seletiva, por qualquer motivo que seja. Ou alguém duvida (como bem apontou meu amigo Pedro Olivotto, responsável pelo Belas Artes de BH) que a história seria completamente diferente caso Um Filme Sérvio estivesse sendo distribuído pela Fox Films do Rio em vez da Petrini Filmes do Maranhão?

Toda esta polêmica, por fim, me lembra de alguns dos belos discursos feitos pelo personagem de Edward Norton em O Povo Contra Larry Flynt – vários dos quais são reproduções na íntegra das defesas apresentadas pelo advogado de Flynt, Alan L. Isaacman, em julgamentos ao longo dos anos:

“Estamos discutindo uma questão de gosto, não de Lei. E é inútil discutir gosto – muito menos nos tribunais. (…) Na verdade, tudo o que esta discussão faz é permitir a punição de discursos impopulares (…) – e estes são vitais para a saúde da nação. Não estou tentando convencê-los de que deveriam gostar do que Larry Flynt faz (ou, no caso, de Um Filme Sérvio). Eu não gosto do que ele faz. Mas o que eu gosto é de viver num país onde você e eu podemos tomar esta decisão por nós mesmos. Eu gosto de viver num  país no qual eu possa pegar a revista Hustler, lê-la se quiser ou atirá-la no lixo se acho que é ali é seu lugar. Ou não comprá-la. Gosto de ter esse direito, me importo com ele. 

E vocês deveriam se importar com ele também, porque vivemos num país livre. Dizemos muito isso, mas às vezes nos esquecemos do que significa. Vivemos num país livre. Esta é uma ideia poderosa, é um jeito maravilhoso de se viver. Mas há um preço para esta liberdade, que é, às vezes, termos que tolerar coisas das quais não gostamos necessariamente. Então vocês devem pensar se querem tomar esta decisão por todos nós. Se começarmos a cercar com paredes aquilo que alguns de nós julgam como sendo obsceno, acordaremos um dia e perceberemos que surgiram paredes em lugares que jamais esperaríamos que surgissem. E aí não poderemos ver ou fazer nada. E isto não é liberdade”.

É exatamente assim que me sinto. Eu abomino Um Filme Sérvio. Mas defenderei até o fim o seu direito de vê-lo, de ignorá-lo, de atacá-lo ou de considerá-lo “imoral”.

Mas jamais de proibi-lo.