Cinema em seu máximo

Jovens Clássicos #07

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O Silêncio dos Inocentes.

As roupas de Kay Corleone – parte II

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Depois de rever a Parte III da trilogia O Poderoso Chefão, complemento agora a análise dos figurinos usados por Kay Corleone (Diane Keaton) ao longo dos filmes de Francis Ford Coppola. (Sugiro que leiam antes a parte I clicando aqui.)

Se as roupas de Kay nos dois primeiros filmes da série empregavam os tons laranja/vermelho com o intuito de ressaltarem a vitalidade e a alegria perdidas pela personagem graças ao envolvimento com a família Corleone, a lógica adotada por Coppola e pela figurinista Milena Canonero no último capítulo da saga de Don Michael se revela um pouco mais sutil, mas igualmente brilhante (e sempre me espanto quando percebo como esta fabulosa Parte III é subestimada por tantas pessoas). Depois de ter seu acesso aos filhos negado durante anos, Kay agora é uma mulher bem mais forte, embora também mais triste – e, assim, quando a vemos pela primeira vez, suas roupas refletem isso: não são tão escuras quanto aquelas usadas pelo resto da família Corleone, mas são certamente sem vida em seus tons pastéis.

Isto pode ser constatado na celebração que abre o filme:

 

Quando ela visita Michael no hospital:

 

E quando chega à Sicília:

 

É então que Michael a leva para visitar a cidade natal do pai e, mais uma vez, Kay é seduzida pelo ex-marido – e o efeito deste é imediatamente representado nas roupas da personagem:

 

E o resultado, claro, é o habitual no que diz respeito à família Corleone: tragédia e morte.

As roupas de Kay Corleone

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Passei a tarde de sábado dentro do cinema. Mais especificamente, na sala Humberto Mauro, em BH, assistindo a uma sessão dupla das duas primeiras partes de O Poderoso Chefão. (Queria muito poder ir na terça, quando os três serão exibidos, mas estarei em Curitiba.)

Como muitos de vocês já sabem, todo ano assisto à trilogia pelo menos uma vez (normalmente, mais de uma) – e sempre numa sessão contínua, um atrás do outro. Nos últimos tempos, notei que começo a chorar cada vez mais cedo no primeiro longa – e na sessão deste sábado, o choro veio assim que Michael e Kay chegaram à festa de casamento de Connie, já que a tragédia na qual a vida de ambos se transformaria me veio à mente ao vê-los tão jovens, felizes, apaixonados e esperançosos no futuro.

Mas se há algo que sempre me espanta na trilogia é a capacidade que tem de me surpreender mesmo depois de… o quê?… vinte visitas? Trinta? Às vezes, é uma constatação menor sobre sua estrutura – como quando notei, por exemplo, que nos dois primeiros filmes Tom Hagen é obrigado a comunicar a morte de um filho ao seu Don (no primeiro, a de Santino para Don Vito; no segundo, a do bebê de Kay a Don Michael). Em outras ocasiões, é um insight sobre a relevância particular de um determinado momento (como discuti no post sobre a fala mais importante da trilogia). Neste sábado, porém, percebi algo que, confesso, me fez ter o impulso de dar um tapa no testa e berrar “Como nunca havia visto isso antes?”.

É algo que, quando notado, torna-se tão óbvio que, estou certo, devo ser um dos últimos fãs da trilogia a tê-lo constatado. Estou falando do laranja/vermelho nos figurinos de Kay (dependendo da versão – VHS/DVD/BD -, o tom muda consideravelmente; em VHS/DVD, tende para o laranja; no BD, para o vermelho).

Sim, é claro que seria impossível não reparar seu vestido na cena em que se dirige à “fortaleza” Corleone à procura de Michael, quando o laranja/vermelho intenso de seu vestido se contrapõe de maneira inconfundível ao cinza e ao preto das roupas normalmente usadas pela família do namorado – e a ideia por trás desta escolha é claramente a de salientar como Kay é uma criatura distante do universo sombrio dos Corleone.

Não, o que eu não havia percebido é a evolução das roupas da moça ao longo da narrativa – algo absolutamente brilhante. Exibindo uma predileção pelos tons laranja/vermelho desde sua entrada em cena, no casamento da futura cunhada, Kay veste peças dominadas por estas cores em todas as suas aparições enquanto solteira:

No casamento de Connie:

Quando, ao lado de Michael, vê a manchete sobre o atentado contra Don Vito (reparem o vestido sob o casaco):

Em seu último jantar com Michael antes que este se envolva nos negócios da Família (eles só se reencontrarão anos depois):

Em sua visita à casa dos Corleone, em busca de informações sobre Michael:

Só voltaremos a rever a personagem quando Michael, de volta da Itália, a procura na escola em que trabalha (a única cena na qual seu figurino não exibe nada de laranja/vermelho). Novamente seduzida pelo ex-namorado e por sua promessa de dar legitimidade à Família, Kay se casa com Michael e, quando a vemos novamente – e é aí que entra a genialidade de Coppola e da figurinista Anna Hill Johnstone -, suas roupas começam gradualmente a perder a cor, simbolizando o efeito nocivo dos Corleone sobre sua personalidade e sua vida.

Observem, por exemplo, os detalhes laranja/vermellho em seu cinto (e que também estão presentes em seu chapéu) na cena em que conta a Michael que este foi convidado por Connie para ser o padrinho do filho desta com Carlo:

Já no batizado, todo o laranja/vermelho abandonou seu figurino, embora ela ainda exiba uma tentativa final de se prender à sua vitalidade antiga através do discreto batom neste tom:

Seus esforços, porém, não resistem à força destrutiva de Michael – e assim, quando chegamos à cena final, toda a cor foi completamente drenada de sua vida e de suas roupas:

No entanto, ao dirigir a Parte II, Coppola não esqueceu da lógica criada para o filme original – e confesso que perdi o fôlego ao constatar isto (literalmente; no momento em que a cena abaixo surgiu na tela, fiquei sem respiração ao perceber o que o cineasta fizera): depois de anos vivendo sob o peso dos negócios da Família Corleone e das promessas não cumpridas feitas pelo marido, Kay perde completamente a esperança de ver Michael se redimir e voltar a ser o jovem idealista que conhecera – e quando este retorna de sua longa viagem (que o mantém afastado da família durante a maior parte do segundo capítulo da trilogia), encontra a esposa solitária em casa, costurando. Naquele momento, embora ele ainda não saiba, Kay já havia decidido encerrar o casamento e até mesmo abortara o filho que esperava. Com muito esforço, ela resolvera abandonar os Corleone e voltar a viver.

E qual é a cor da roupa que ela costurava naquele instante?

Exatamente.

Como não amar estes filmes?

Cinema em seu máximo #03: Onde Começa o Inferno

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Dean Martin sempre foi um ator subestimado – e sua performance em Onde Começa o Inferno, de Howard Hawks, é uma prova perfeita de seu imenso talento. Porém, ao escalar Martin e Ricky Nelson para seu western concebido como resposta a Matar ou Morrer, Hawks certamente percebeu que uma cena musical se tornaria obrigatória, já que a ausência de um número protagonizado pelos dois astros-cantores desapontaria o público. Mas inteligente como de hábito, o cineasta encaixou o interlúdio de maneira incrivelmente orgânica na narrativa: em meio à tensão de um conflito mortal iminente, o diretor usa a cena não só como uma rápida maneira de quebrar a atmosfera pesada momentaneamente, mas também para salientar a importante relação de amizade entre aqueles quatro homens. Mais do que isso: nesta cena, a juventude de Nelson, a fragilidade do velho Walter Brennan e o espírito melancólico do alcoólatra vivido por Dean Martin se contrapõem perfeitamente ao olhar de pai e líder de John Wayne, que observa seus colegas/subordinados em silêncio e com um sorriso de óbvio carinho no rosto. Sim, aqueles homens formam uma equipe atípica e possivelmente despreparada para enfrentar a imensa ameaça que se aproxima – mas também são camaradas dedicados, se amam e morreriam uns pelos outros.
 
Assim, Howard Hawks transforma uma cena que poderia surgir como mera obrigação comercial em algo fundamental para a história que está contando.
 

Cinema em seu máximo #02: Amadeus

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Um dos momentos mais brilhantes de toda a fantástica carreira de Milos Forman, o clímax de Amadeus representa não só a culminância do conflito provocado por toda a doentia inveja de Antonio Salieri diante do talento avassalador de Mozart (F. Murray Abraham e Tom Hulce, soberbos), mas também uma síntese perfeita do complexo sentimento nutrido pelo primeiro em relação ao segundo: sem conseguir lidar com a frustração por reconhecer no outro um talento que lhe falta, Salieri ao mesmo tempo não consegue deixar de amar a manifestação quase divina na música de Mozart, somente percebendo completamente a extensão deste dom ao tentar colocar no papel as notas e orquestrações ditadas pelo inimigo febril.

Em crítica que publiquei em janeiro de 1997 (há mais de 13 anos – caramba!), escrevi:

"Enquanto o jovem músico literalmente dita as
notas, o compasso, a letra para um incrédulo Salieri, este percebe o
quão incapaz é de acompanhar o ritmo do gênio. Ele não consegue sequer
compreender o que lhe está sendo dito. Mas em vez de ficar ainda mais
rancoroso, fica maravilhado com o talento de Amadeus. Só então se dá conta da verdadeira extensão do `dom` que Deus concedeu ao outro. É
uma cena maravilhosamente orquestrada pelo diretor Forman, associada a
duas estupendas atuações. A cena resume, em si, o filme inteiro."
 

Cinema em seu máximo #01: Três Homens em Conflito

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cinema em seu máximo, Clássicos, Vídeos | 27 comentários

Sou fascinado por Sergio Leone (um fato que os alunos de meu curso certamente perceberam), mas, de tudo que o cineasta realizou, a cena abaixo (começando em 1:51 e terminando em 7:57) é certamente a minha favorita absoluta. Aliás, vou além: o "truelo" que ocorre no clímax de Três Homens em Conflito (ou O Bom, O Mau e o Feio) representa um dos melhores momentos que o Cinema já produziu e ponto.

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