Clássicos

A Luz

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Meninos, eu vi!

Eu vi a Luz. Finalmente, a Luz!

Não sei exatamente como isto ocorreu. Talvez eu tenha sido chamado de volta à realidade quando alguns leitores gentilmente apontaram que, apesar de me dizer esquerdista, eu comprei um iPhone. Ou talvez tenham sido os comentários de leitores como Joca e Jorel, que, antes considerados por mim como reacionários estúpidos, finalmente passaram a fazer sentido ao explicarem que a ditadura brasileira nos salvou de uma pior, de esquerda.

O fato é que eu vi. Ao acordar no meio da noite, suado e ansioso, percebi os erros em meu caminho. Chamem de epifania, inspiração divina ou isquemia cerebral, o fato é, meninos, que eu vi.

Vi o que o pastor Jorge Linhares queria dizer ao pregar que os homossexuais estavam destruindo a instituição do matrimônio. Como eu disse para minha mulher hoje cedo: "Você é fêmea, eu sou macho. É claro que é assim que as coisas devem funcionar. Agora vá fazer meu café enquanto explico para o Luca que é hora de parar com essas intimidades e de começar a me chamar de "senhor".". Se antes eu não enxergava isso, é porque estava com a visão embaçada pelo charme do liberalismo. Mas agora eu vejo claramente. E oro com devoção para que tenha me redimido a tempo de ser arrebatado ao lado de meus irmãos. E já comprei, feliz, o pacote que entregará meus documentos aos meus parentes infiéis que forem deixados para trás.

Vejo, meninos, que Dilma Roussef é uma assassina criminosa. Que deveria estar na cadeia, não no governo. Vejo que ter lutado contra a ditadura militar e a repressão era apenas mais uma prova de seu total divórcio da realidade; os revolucionários verdadeiros, aqueles que fizeram a diferença, foram aqueles que discursavam na academia, usando o charme de líder estudantil para pegar mulheres, e que rapidamente fugiram para o exterior quando as coisas ficaram feias – ganhando, com isso, o charmoso título de "exilados políticos" sem que de fato tivessem precisado fazer o trabalho duro contra os militares.

Vejo, meninos, que votarei em José Serra em 2010. Desde que ACM Neto não saia candidato, claro.

Mas vi mais: ao ler a Veja desta semana, que assinei ainda de madrugada apenas para poder acessar sua versão online na íntegra, constatei que a única forma de me manter realmente informado sobre o mundo seria assinando os blogs de Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi. Que, a partir de agora, chamarei de pastores. Como Jorge Linhares.

Vi que o layout avermelhado do Cinema em Cena e deste blog eram uma homenagem sutil ao comunismo, essa invenção maligna que gerou capetas como Che e Lula.

Vi que ser um adulto com contradições aparentes é um erro. O mundo é preto ou branco e, portanto, assim também devemos ser como indivíduos. Corrigir minhas idiossincrasias, limando-as em prol de uma identidade sem nuances é, agora, minha prioridade número um.

Ou melhor: dois. Porque minha prioridade imediata é assistir a uma sessão tripla de Vovó…zona, O Paizão e Gigolô por Acidente, dos gênios Lawrence, Sandler e Schneider.

Meninos, acreditem: eu vi.

Música do dia:

Música do Dia #06

postado em by Pablo Villaça em Clássicos, Música do dia | 9 comentários

Há alguns anos, o compositor, colunista e radialista Bob Tostes pediu que eu escolhesse uma música ou tema para um especial que faria em seu programa Cinema Song, da rádio Guarani, no qual cada convidado falaria um pouco sobre sua composição favorita do Cinema. Para minha surpresa, não devo ter demorado dez segundos antes de citar o tema de Exodus composto por Ernest Gold. Segundos depois, me arrependi por não ter escolhido um dos dois temas principais compostos por Nino Rota para O Poderoso Chefão, a "valsa" ou o instrumental "romântico". Antes mesmo de poder voltar atrás, porém, fui tomado pelo remorso por não citar o maravilhoso tema principal de A Missão, um dos momentos mais brilhantes da carreira genial de Ennio Morricone. Ao final, porém, fui fiel ao meu impulso inicial e escolhi Exodus, já que só podia falar sobre um.

No entanto, este blog é meu e aqui faço as regras. E, portanto, me permitirei presentear vocês com todas estas composições para que tenham um ótimo fim-de-semana.

De nada. Wink

 Ferrante &Teicher mp3 – EXODUS- THEME


 

 nino rota – Love theme from the godfather – Tema do Poderoso Chefão

 Nino Rota – The Godfather Waltz (Main Theme)

 soundtrack – The Mission

 soundtrack – The Mission – Vita Nostra

 soundtrack – The Mission – On Earth as it is in Heaven

42 segundos de História do Cinema

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos | 17 comentários

Em 1929, Hitchcock estava filmando Chantagem e Confissão quando os produtores do filme, entusiasmados com o sucesso de O Cantor de Jazz, decidiram transformar o projeto em um longa falado – a primeira produção britânica a contar com a mágica do Som (e, claro, também a primeira de Hitchcock). Assim, várias cenas foram refeitas e um ator foi trocado, ao passo que a jovem atriz austro-húngara Anny Ondra, com seu forte sotaque, teve que ser dublada por Joan Barry.

Pois o que você vê abaixo é um teste do registro sonoro feito durante a produção e no qual Hitch, com 30 anos de idade, surge ao lado de Ondra fazendo piadinhas que deixam a moça claramente embaraçada (e os fãs de The Office ficarão surpresos ao ouvir uma antiga versão da tirada “That’s what she said” no instante em que Ondra vira de costas para a câmera e o diretor dispara: “Volte para sua posição, senão não vai sair direito – como a garota disse para o soldado”.).

Como escrevi no título deste post, o clipe abaixo representa 42 segundos de divertida História do Cinema.

Cena Misteriosa #24

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Maurício "evansmay" (sempre peço para que deixem nome e sobrenome; na falta deste último, vai o email) foi o primeiro a identificar Umberto D. como a Cena Misteriosa 23. Dirigido por Vittorio De Sica em 1951 (mas lançado no ano seguinte), o filme marca os suspiros finais do neo-realismo italiano, já que sua rejeição pelo público, na época, foi considerada como sendo um indício claro de que o movimento havia se esgotado. No entanto, Umberto D. é, sem dúvida, também um dos melhores exemplares do neo-realismo – e particularmente o considero melhor até mesmo do que o filme mais conhecido de seu diretor, o excelente Ladrões de Bicicleta, lançado quatro anos antes. 

Protagonizado por amadores, o longa traz Carlo Battisti em uma performance simples, mas tocante, como o personagem-título – sua única atuação no Cinema. Já Maria-Pia Casilio, que faz a criada vista na cena misteriosa, levou a carreira adiante, embora jamais tenha atingido o sucesso de interpretação alcançado aqui (reza a lenda que ela compareceu aos testes apenas para acompanhar uma amiga, resistindo imensamente à idéia de aceitar o convite de De Sica para fazer o filme depois de ser vista por este).

Uma última curiosidade: a cena selecionada para a brincadeira acabou sendo homenageada, quase três décadas depois, em Dinheiro do Céu, que usei como base (embora numa cena diferente) para o episódio 9 deste jogo.

E vamos ao próximo: 

Profiles in History

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos, Variados | 8 comentários

O site Profiles in History traz os itens que constam dos leilões que o grupo homônimo promove na Califórnia regularmente. O catálogo do próximo leilão (com fotos incríveis) pode ser baixado aqui.

Se eu fosse multimilionário, teria grande interesse nos seguintes itens:

#09 – Foto de Greta Garbo do filme "Como me Queres" (1932) – U$ 3.000-5.000
#28 – Foto composta de King Kong (1933)  – U$ 4.000-6.000
#44 – Foto publicitária de Orson Welles para Cidadão Kane – U$ 400-600
#56 – Foto de Metropolis com Brigitte Helm, Alfred Abel e Rudolf Klein-Rogge – U$ 5.000-7.000
#58 – Foto de Peter Lorre em "M, o Vampiro de Dusseldorf" – U$ 2.000-3.000
#62 – Foto de Leni Riefenstahl de "The Blue Light" (peço desculpas de antemão) – U$ 1.000-1.500
#68 – Foto de "O Gabinete do Dr. Caligari" – U$ 3.000-4.000
#78 – Foto de Marilyn Monroe na adolescência, ainda morena – U$ 1.200-1.500
#84 – Álbum com 50 imagens originais dos sets de "Os Pássaros" – U$ 3.000-5.000
#103 – Primeira edição de "Com 007 Só Se Vive Duas Vezes autografada por Ian Fleming com dedicatória para o James Bond "original" – U$ 60.000-80.000
#122 – Primeira edição de "A Máquina do Tempo" com bilhete de H.G. Wells – U$ 6.000-8.000
#141 – Primeira edição de "Fahrenheit 451" autografada por Ray Bradbury – U$  12.000-15.000
#156-191 – Cartazes. Eu compraria todos.
#227 – Roteiro original, usado nas filmagens, de "O Mágico de Oz" – U$ 10.000-15.000
#250 – Alça da guitarra de Jimi Hendrix em Woodstock – U$ 25.000-35.000
#252 – Caderno com anotações de Bruce Lee para projeto de livro – U$ 40.000-60.000
#290 – Figurino de Paul Muni em "Scarface" – U$ 12.000-15.000
#301 – Carruagem egípcia em tamanho original de "Os 10 Mandamentos" – U$ 8.000-10.000
#304 – Colete usado por James Dean em "Assim Caminha a Humanidade" – U$ 30.000-40.000
#309 – Barra Wonka de "A Fantástica Fábrica de Chocolate" (o original) – U$ 3.000-5.000
#311 – Figurino de Robert Redford em "Golpe de Mestre" – U$ 10.000-12.000
#321 – Foto de Marlon Brando nos bastidores de Apocalypse Now – U$ 400-600
#322 – Figurino de Brando em "Apocalypse Now" – U$ 15.000-20.000
#333 – Figurino de Brando em "Superman – O Filme" – U$ 30.000-50.000
#346 – Parte da miniatura da Estrela da Morte usada em "Star Wars" – U$ 20.000-30.000
#347 – Sabre de luz de Luke Skywalker em "Star Wars" e "O Império Contra-Ataca" – U$ 150.000-180.000
#348 – Capacete de C-3PO usado por Anthony Daniels no "Episódio VI" – U$ 60.000-80.000
#366 – Carro de "época" (construído para o filme) que participou da perseguição vista no Indiana Jones original – U$ 60.000-80.000
#367 – Marionete de espírito usada no clímax do Indy original – U$ 12.000-15.000
#369 – Chapéu usado por Harrison Ford em "O Templo da Perdição" – U$40.000-60.000
#370 – Chicote usado por Harrison Ford no mesmo filme – U$ 40.000-60.000
#379 – Máscara de demônio nazista de "Um Lobisomem Americano em Londres" – U$ 8.000-10.000
#380 – Boneco animatrônico do Gizmo de "Gremlins" – U$ 6.000-8.000
#405 – Maquete do homenzinho dentro da cabeça de "Homens de Preto" – U$ 25.000-35.000
#408 – Robin "congelado" usado em "Batman & Robin" (eu compraria para quebrar publicamente) – U$ 20.000-25.000
#415 – Boneco do "cachorro-monstro" usado em "Os Caça-Fantasmas" – U$ 12.000-15.000
#423 – Hoverboard (skate flutuante) usado pelo vilão Biff em "De Volta para o Futuro 2" – U$ 15.000-20.000
#427 – Almanaque de esportes usado em "De Volta para o Futuro 2" – U$ 2.000-3.000
#428 – Vários objetos de cena da trilogia "De Volta para o Futuro" – U$800-1.200
#429 – Mão com luva do T-800 de "O Exterminador do Futuro" – U$ 1.500-2.000
#431 – Figurino de Schwarzenegger em "O Exterminador do Futuro 2" – U$ 20.000-30.000
#434 – Vários objetos de cena de "O Exterminador do Futuro 2" – U$ 2.500-3.000
#436 – Cabeça "derretendo" do T-1000 do mesmo filme – U$ 2.000-3.000
#463 – Máscara de Batman usada por Christian Bale em "Batman Begins" – U$ 15.000-20.000
#470 – Figurino de Wolverine em "X-Men" – U$ 60.000-80.000
#478 – Máscara do Homem-Aranha "mau" de "Homem-Aranha 3" (compraria pro Luca) – U$ 4.000-6.000
#486 – Rosto de "Sally" usado em "O Estranho Mundo de Jack" – U$ 2.000-3.000
#488 – Marionete usada em stop motion de "Marte Ataca!" – U$ 6.000-8.000
#496 – Marionete de Victor usada em "A Noiva Cadáver" – U$15.000-20.000
#497 – Marionete de Victoria usada em "A Noiva Cadáver" – U$ 12.000-15.000
#519 – Trenó de "O Estranho Mundo de Jack" – U$30.000-50.000

Hum… creio que depois deste leilão eu não seria mais multimilionário.

Cena Misteriosa #22

postado em by Pablo Villaça em Cena misteriosa, Clássicos | 12 comentários

(Update importante: a querida Magaly avisa pelos comentários: "Edifício Master vai ser exibido hoje (06/12) no Canal Brasil, às 21 horas, no "É Tudo Verdade". O programa tem reprise amanhã, às 14h".)

Parabéns ao Oz, que emplacou seu nome no Hall da Fama ao identificar Edifício Master, do mestre Eduardo Coutinho, como fonte da Cena Misteriosa 21. Aliás, a cena em questão representa, para mim, um dos momentos mais espetaculares da brilhante carreira do documentarista – e confesso que gostaria de saber mais sobre como ela foi capturada, já que resume perfeitamente a essência deste maravilhoso filme. Acompanhar a hesitação do garoto diante do gato que se encontra preso do lado de fora do apartamento do vizinho e perceber como ele finalmente não consegue evitar o impulso de ajudar o animal é algo que demonstra como Coutinho sempre é capaz de revelar em seus filmes nuances complexas da natureza humana.

Se não assistiu a este documentário soberbo, corra já para a locadora. Ou melhor: compre o DVD. Não vai se arrepender.

Cena de hoje:

Jovens Clássicos #04

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos, Críticas | 56 comentários

No ar.

Update: Este texto também deverá ser publicado num livro, em inglês, que a OFCS lançará em 2009. Aliás, normalmente gosto de fazer minhas próprias traduções, mas, neste caso, não terei tempo hábil de prepará-la antes do deadline, que é na próxima semana. Há alguém por aí que faça traduções profissionalmente? Em caso positivo, favor entrar em contato comigo por email para que possamos discutir preços, etc.

SP – Dia 04

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos, Novos filmes | 11 comentários



11)    
 Cidade Maravilhosa (Wonderful Town, Tailândia, 2007). Dirigido por Aditya Assarat. Com: Anchalee Saisoontorn, Supphasit
Kansen, Dul Yaambunying, Sorawit Poolsawat, Prateep Hanudomlap.
 

Depois que uma
pequena cidade tailandesa é devastada pelo tsunami, um arquiteto de Bangkok é
enviado para o lugar a fim de supervisionar a construção de um novo resort. Hospedado em um pequeno hotel
familiar, ele logo se interessa por sua jovem e tímida proprietária – mas
quando eles se envolvem, uma gangue local liderada pelo irmão da moça passa a
hostilizar o rapaz. 

Retratando a
aproximação gradual do casal com doçura e sensibilidade, o diretor Aditya
Assarat demonstra grande segurança ao desenvolver sua narrativa com a calma
necessária para que possamos conhecer aqueles personagens e compreender suas
fragilidades e inseguranças. O arquiteto Ton (Kansen), por exemplo, é um
ex-músico cuja carreira artística, recriminada pela família, foi eventualmente
substituída por um emprego no qual demonstra ter pouca ambição e nenhuma
satisfação (“Eu faço apenas os banheiros”, ele explica em certo momento).
Sempre cantando, Ton é vivido com imenso talento por Kansen, que, de maneira
apropriadamente contida, transforma o sujeito num indivíduo complexo e sempre
interessante, destacando-se particularmente durante uma conversa ao celular que
mantém em seu carro, durante o ato final da projeção. 

Explorando bem
as idílicas locações, o cineasta contrapõe a beleza natural do lugar à
decadência da cidade repleta de ruínas e paredes descascadas. Além disso, ao
enfocar com certa freqüência o oceano, Assarat evoca um passado recente de
tragédias ao mesmo tempo em que lembra os personagens (e o espectador) de que a
dor e o sofrimento podem vir a qualquer momento e de forma tão abrupta e
irreparável quanto as ondas gigantescas que varreram a cidade. 

E se em seu
equivocado “manifesto” feito recentemente o ator Pedro Cardoso (que admiro)
comparou de maneira míope a nudez no Cinema à pura pornografia, basta assistir
a este Cidade Maravilhosa para
constatar que, ao contrário do que afirmou o ator, há muito de lirismo no
desnudamento do cropo humano – uma nudez que, aqui, ganha também contornos
simbólicos ao expressar a entrega absoluta de duas pessoas que decidem se doar
uma à outra num gesto de confiança e amor. 

Surpreendente
em seu desfecho brutal, Cidade
Maravilhosa
comove sem ser piegas e encanta sem se tornar açucarado.  (4
estrelas em 5)

 

12)    
 O Menino do Pijama Listrado (The Boy in the Striped Pyjamas, Inglaterra,
2008). Dirigido por Mark Herman. Com: Asa Butterfield, Jack Scanlon, David Thewlis, Vera Farmiga, Rupert
Friend, Sheila Hancock, David Hayman, Richard Johnson.
 

Inspirado no
livro homônimo de John Boyne, O Menino do
Pijama Listrado
exibe a força da bela direção de Mark Herman desde o plano
inicial: acompanhando alguns garotinhos alemães enquanto estes brincam
despreocupadamente pela cidade, a câmera do cineasta eventualmente encontra
dezenas de judeus que, sob a brutal supervisão de soldados nazistas, são
obrigados a esvaziar suas casas a fim de serem conduzidos aos campos de
concentração – algo que as alegres crianças, concentradas em suas brincadeiras,
obviamente não notam (e, se notassem, não seriam capazes de compreender as
conseqüências do que viram). 

Filho de um
oficial do Terceiro Reich, o pequeno Bruno (Butterfield), de oito anos de
idade, tem as preocupações típicas de uma criança comum: aborrecido com a
mudança da família para o interior, onde o pai administrará um “campo de
trabalho”, ele logo se vê entediado pela falta de companhia – e, assim, é com
alegria que conhece um garotinho que, vivendo do outro lado da cerca
eletrificada da “fazenda” próxima à sua casa, parece usar “pijamas” o dia
inteiro. 

Esta premissa,
que poderia se transformar num melodrama maniqueísta e artificial, ganha força
justamente em função da abordagem contida do cineasta, que evita até mesmo
escalar duas crianças excessivamente “engraçadinhas” para viver a dupla
principal, privilegiando a espontaneidade dos pequenos intérpretes que, assim,
surgem verossímeis e, por isso mesmo, mais tocantes. Aliás, nem mesmo o
compositor James Horner, tão inclinado ao excesso e à auto-repetição, incomoda
aqui, já que sua trilha encontra um ótimo equilíbrio ao comentar a trama sem
tentar conduzi-la através da dramatização excessiva. 

Com uma
conclusão impactante em sua impiedosa ironia, O Menino do Pijama Listrado
deverá ganhar uma análise mais detalhada no futuro, já que estreará nos cinemas
brasileiros. (4 estrelas em 5)

 

13)    
 Oso Blanco (Idem, EUA, 2008). Dirigido por Christian Suau e Ramiro Millan. 

Espécie de O Prisioneiro da Grade de Ferro
porto-riquenho (mas sem o mesmo acesso alcançado pelo diretor Paulo Sacramento
em Carandiru, já que, naquele filme, os próprios presos filmaram seu
cotidiano), este documentário busca registrar os conflitos e as dificuldades ao
longo da história da penitenciária de Oso Blanco, hoje desativada, que foi
berço de algumas das mais perigosas gangues daquele país. 

Trazendo
entrevistas com alguns representantes destes grupos, o filme infelizmente se
revela indisciplinado e sem foco, oscilando entre o interesse em buscar
histórias de pavorosa violência protagonizadas pelos entrevistados (e
retratadas, acreditem, através de seqüências de animação) e discursos políticos
e sociais sobre o fracasso do sistema penitenciário de Porto Rico, que, em vez
de reabilitar, cria criminosos ainda piores (soa familiar?). 

Eventualmente,
porém, o filme escolhe um centro narrativo – o assassino El Jíbaro, que passou
os últimos 47 anos preso e que, prestes a tentar a condicional, revela sua
preocupação por ter se “institucionalizado” (em outras palavras: ter se tornado
dependente das grades que o separam do mundo). Visto como um exemplo de perseverança
apenas por ter sobrevivido a um sistema no qual rebeliões, massacres e
assassinato brutais são uma constante, El Jíbaro se torna o “herói” improvável
do filme, que, assim, demonstra não ter compreendido seus próprios protestos,
já que o sujeito não representa bem um caso de “reabilitação”, mas simplesmente
de envelhecimento. 

Como se não
bastasse, os diretores Christian Suau e Ramiro Millan apelam até mesmo para o
artificial (e cafona) recurso do “reencontro de velhos amigos” ao arranjar a
visita do velho (e aparentemente generoso) carcereiro Flores à prisão que
passou a abrigar El Jíbaro depois da desativação de Oso Blanco – e o resultado
do encontro é previsivelmente desconfortável e falso. Para piorar, o filme não
hesita em dar tapinhas nas próprias costas por julgar ter desempenhado um
importante papel na libertação do velho criminoso. 

Sim, o sistema
penitenciário porto-riquenho (como o brasileiro) é falho e cruel e precisa ser
reformado urgentemente, mas isto não transforma os violentos criminosos que
caem em sua rede em vítimas dignas de dó e compreensão. E não compreender isso
é o grande equívoco de Oso Blanco.  (2
estrelas em 5)

 

14)    
 Varsóvia Sombria (Izolator ou Warsaw Dark, Polônia,
2008). Dirigido por Christopher Doyle. Com: Anna Przybylska, Jan Frycz, Leslaw
Zurek, Adam Ferency, Lukasz Simlat, Jerzy Bonczak, Violetta Arlak.
 

Christopher
Doyle é um diretor de fotografia soberbo – e seus trabalhos em Herói e 2046, para citar dois exemplos recentes, representam verdadeiras
obras de arte que trazem inúmeros planos que poderiam perfeitamente ser
emoldurados e pendurados nos museus mundo afora. 

Infelizmente,
seu apuro estético não se traduz em domínio narrativo, já que este Varsóvia Sombria se revela uma quase
paródia dos trabalhos de David Lynch em sua estrutura fragmentada, seu roteiro
oco e seus signos pretensiosos e vazios. Além disso, enquanto Lynch demonstra
ter algo a dizer através de seus símbolos obscuros e seu universo de pesadelo,
controlando sua narrativa com segurança a fim de torná-la difícil, mas não
hermética, Doyle cria, neste longa, um jogo de frustração através da repetição
de diálogos e cenas que jamais ganham contorno ou relevância. 

Com isso, o
diretor concebe uma caricatura de “filme de arte” (expressão que reprovo, mas
cuja conotação preconceituosa aqui se aplica), produzindo um longa bem
fotografado (pelo chinês Rain Li – o que é apropriado, já que boa parte da
filmografia de Doyle como fotógrafo é de origem chinesa), mas estúpido e
narrativamente nulo.  (1 estrela em 5)

 

15)    
 O Poderoso Chefão (The Godfather, EUA, 1972). Dirigido por Francis Ford Coppola. Com: Marlon Brando, Al Pacino,
Robert Duvall, James Caan, Richard Castellano, Talia Shire, Morgana King, Abe
Vigoda, Al Lettieri, Sterling Hayden, Diane Keaton, Richard Conte, Gianni
Russo, John Cazale, Al Martino, Lenny Montana, John Martino, Salvatore
Corsitto, Richard Bright, Alex Rocco.
 

Esse menino
Coppola tem futuro. (5 estrelas em 5)

SP – Dia 03 – Parte II

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos | 4 comentários

Acabei criando coragem de ir com a camisa, mas, lá chegando, fiquei envergonhado e segurei a jaqueta por cima da estampa quase o tempo inteiro. Preciso discutir isso na terapia. Aliás, várias pessoas estavam usando camisas relacionadas a O Poderoso Chefão, embora ninguém estivesse encarnando um personagem.

Ver esta obra-prima máxima do Cinema (em minha opinião) na telona foi uma experiência magnífica: a fotografia preciosa de Gordon Willis, o "Príncipe da Escuridão", é algo de enloquecer – e Brando… bom, é ainda mais "Brando" em tela grande. Seu Vito Corleone é uma criação soberba, rica, complexa, brilhante nos detalhes. E mesmo já tendo visto o filme tantas e tantas vezes, ainda me emociono a ponto de chorar quando ouço o velho Vito dizendo: "Veja como massacraram meu garoto.". E o arco dramático percorrido pelo Michael Corleone de Al Pacino

Deus.

Eu queria muito, muito, muito ver o filme novamente na tela enorme do CineSesc, mas, para isso, perderia dois filmes que não serão mais repetidos na Mostra. Pena.

Mas jamais esquecerei esta experiência.


 O dia também foi bacana porque finalmente tive a oportunidade conhecer pessoalmente meu velho amigo Hélio Flores, o Will, com quem converso virtualmente desde… 1994 ou 1995, quando participávamos de uma lista de discussões (lembro-me de que defendi o Oscar para Sean Penn, por Os Últimos Passos de um Homem, enquanto ele puxava sardinha para Nicolas Cage em Despedida em Las Vegas). Posteriormente, fomos chapas de Mirc (no velho canal Cinéfilos), ICQ e, agora, MSN. Hélio mora em Vitória da Conquista e veio a SP para a Mostra, o que permitiu que nos encontrássemos cara-a-cara pela primeira vez depois destes quase 13 ou 14 anos. Bacana.

Quero aproveitar também para mandar um abraço para todos os leitores que vieram me cumprimentar hoje, como Bruno, Éverton (quando fizer o curso em SP, te aviso!), Márcio e o "" (ele pediu que o chamasse assim!). É sempre um prazer encontrar leitores.

SP – Dia 03

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos, Variados | 4 comentários

Sempre invejei, de certa forma, a paixão dos fãs que vão às estréias de suas séries favoritas usando fantasias – sejam estes os Neos de capa preta e óculos escuros, os Jedis com capuz e "sabres-de-luz" ou os "Coringas" devidamente maquiados. Assim, trouxe minha camisa de O Poderoso Chefão (presente das adoráveis leitoras Vanessa Fermino e Sylvia Angélico) com a intenção de usá-la na sessão de hoje à noite – e queria ter coragem de ir até mesmo caracterizado como Don Vito, usando algodão nas bochechas, bigodinho fino, etc. 

Mas não tenho coragem. Pode ser preconceito, mas acho… bobo. Infantil. Eu não me sentiria bem.

Assim, guardo a camisa para usar outro dia. Já bastam os Corleone na telona.