Cotidiano

Aos Companheiros de Depressão

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 19 comentários

Praticamente todos os dias recebo mensagens de leitores que, lutando contra a depressão, manifestam uma profunda insegurança com relação à própria capacidade de seguir adiante, expressando também uma frustração óbvia diante da força da doença. Como já escrevi várias vezes sobre minhas próprias experiências como depressivo crônico, creio ser natural que acabe sendo o destinatário de mensagens do tipo – e procuro respondê-las na medida do possível.

Aliás, parte da motivação destas pessoas – desconfio – reside na oportunidade de se abrir sobre o que sentem sem o receio de serem julgadas, já que sabem estar “conversando” com alguém que divide sua ansiedade. Há, infelizmente, um estigma persistente relacionado à depressão. “Por que você não faz um esforço?”, “Será que não percebe como tem tudo pra ser feliz?”, “Você se entrega demais” – frases assim trazem um julgamento implícito, por mais bem intencionadas que sejam, já que dão a entender que, de certa forma, o depressivo “permite” sê-lo.

Além disso, a depressão, como qualquer doença, reage de maneiras diferentes aos mesmos tratamentos dependendo de cada paciente. Não é incomum que um antidepressivo que funcionou por anos de repente se mostre incapaz de conter uma crise mais forte.

E, no entanto, quando isso acontece, a perversidade da doença envolve levar sua vítima a acreditar que a falha é sua como indivíduo, não de seu metabolismo ou do remédio. E como falar de depressão permanece sendo tabu, cada um de nós sofre calado, frustrado e envergonhado.

É por esta razão que, depois de conversar com uma leitora via inbox esta semana, me senti compelido a compartilhar algo para que, no mínimo, meus companheiros de doença possam ter a certeza de que não estão sozinhos, de que não são “aberrações” ou criaturas fracas.

Não vou citar, claro, o nome da leitora, mas seu desabafo entristecido sobre o fato de lutar há 5 anos contra a depressão me comoveu. Ela parecia acreditar que suas recaídas eram uma falha de caráter que apenas a tornavam um estorvo para seus familiares e amigos.

Pois bem: eu me percebi depressivo pela primeira vez aos 15 anos de idade. Convivo com a doença, portanto, há quase 26 anos – e me medico diariamente há 12.

E em setembro do ano passado, em Porto Alegre, amarrei um cinto em torno do pescoço, prendi a outra extremidade no box do chuveiro de meu quarto do hotel e me preparei para morrer.

Não tive consciência, naquele momento, de que estava prestes a cometer suicídio. Não estava chorando desesperadamente enquanto agia, não havia escrito carta de despedida e nem planejara me matar. Estava na capital gaúcha ministrando um curso e vivia uma crise depressiva que se tornara mais grave em função de várias circunstâncias – entre elas, o fato de ter acabado de anunciar que o Cinema em Cena, que eu criara há quase 17 anos, iria chegar ao fim. O estresse havia provocado um derrame em meu olho direito, o fim do site me entristecia imensamente e a depressão me golpeava há algumas semanas insistentemente.

Sozinho em meu quarto de hotel, após voltar da aula, me entreguei aos velhos pensamentos suicidas e de repente me ocorreu “experimentar” a sensação de morrer.

Apertei o cinto, dobrei as pernas e deixei a gravidade agir. Senti a cabeça inchar de sangue, percebi a pulsação das artérias do pescoço contra o couro do cinto e me dei conta de que se permanecesse assim por mais alguns segundos, desmaiaria. E que isso seria o fim.

E imaginei meus filhos recebendo a notícia de que o papai havia morrido.

Firmei os pés, me ergui e só então, já sentado na cama, chorei de verdade.

A primeira coisa que fiz ao retornar a BH foi procurar a psiquiatra, contar o que havia acontecido e trocar meu medicamento. Aos poucos, melhorei novamente. Sim, os pensamentos suicidas continuam, mas apenas como… pensamentos. Não voltei a cogitar seriamente a hipótese de colocá-los em prática.

Há dias piores e dias melhores. Mas, desde então, não houve muitos dias desesperadores.

Pois a verdade é que a menos que você esteja lidando com uma doença incurável e fatal, o suicídio será – e busco sempre me lembrar disso – uma decisão permanente para um problema temporário. Se eu tivesse hesitado um pouco mais e morrido naquele banheiro de hotel, teria perdido momentos lindos com meus filhos. Teria perdido a reação comovente dos leitores diante do anúncio do fim do Cinema em Cena. Não teria ido à Suécia e a Cannes. Não teria rido tantas vezes com os amigos. Não teria conhecido tantos novos alunos. Não teria escrito sobre a Mulher no Livro de Granito e tantos outros textos. Não teria tanta coisa que apenas imaginar estas quase perdas me deixam agradecido por ter voltado a ficar de pé antes de perder a consciência.

E percebam que esta foi a primeira vez em que cheguei realmente perto de um ato tão extremo – depois de 25 ANOS de depressão.

Esta é a questão, não é mesmo? Um único momento de fraqueza pode ser o bastante para jogar anos e anos de luta no lixo. E é por isto que não só devemos nos manter atentos para os sinais que nossa mente nos envia (a fim de buscarmos ajuda assim que constatamos uma recaída) como também precisamos expressar o que sentimos. Esconder a depressão é como oferecer abrigo a um serial killer na esperança de que este não nos mate – ele pode até se comportar por algum tempo, mas em certo momento aproveitará a vulnerabilidade e a solidão de seu anfitrião para fazer aquilo no qual se especializou.

Portanto… fale sobre como está se sentindo. Compartilhe com as pessoas em quem confia. Ou em fóruns/sites especializados. Discuta com seu psicólogo/psiquiatra/terapeuta. Ou mesmo com um companheiro de depressão via inbox.

E o mais importante: lembre-se sempre de firmar os pés no chão. É o que eu pretendo fazer.

O Amor nos Tempos do Chat

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 3 comentários

Viu a luz verde surgir na janela de chat do Facebook e congelou.

Na verdade, sabia que não era uma luz verde; apenas um círculo colorido indicando que a outra pessoa encontrava-se online e não havia bloqueado a possibilidade de ser chamada para uma conversa – e embora o verde tivesse um significado universal de “siga em frente”, ele experimentava um sentimento de quase pânico diante da possibilidade de dar o passo seguinte.

Era mais velho. Anacrônico, de certo modo. Mesmo na juventude, flertar era uma dificuldade constante. Não que fosse inseguro ou tivesse algum complexo, pois não se tratava disso. Tinha apenas um imenso receio de constranger o alvo de sua atenção.

Sabia que as mulheres eram constantemente empurradas contra a parede – e se esta fosse apenas metafórica, já seria um alívio. Na rua, eram importunadas sem qualquer consideração por sua privacidade; online, eram “fair game”. A última coisa que queria era ser mais um da matilha e perturbar a garota enquanto esta navegava pelo Facebook em busca de atualizações dos amigos, de links interessantes ou de conversas casuais sobre esportes, séries ou livros.

Mas a luz verde o atraía como se fosse uma mariposa prestes a se eletrocutar numa lâmpada.

A lâmpada, claro, era adorável. Ele conversara com ela algumas vezes pessoalmente, mas só amenidades. Nos dias seguintes, porém, havia agido como um adolescente impulsivo e stalkeado suas redes sociais: lido atualizações, clicado nas músicas que compartilhava, visto algumas fotos. E a julgava cada vez mais encantadora.

Deveria ter exercido alguma autodisciplina. Ela certamente o consideraria velho demais, invasivo demais, sem noção demais.

Fechou a aba do navegador e foi ao Netflix. Vá assistir a algum filme. Ou talvez a um episódio de Demolid…

Estava novamente no Facebook.

Porra. “Controle-se!”.

A luz verde continuava acesa.

“Não é um sinal de avance. É um aviso de que ela pode ser chamada para conversar. Só isso. Mas talvez não seja uma boa id…”

13 de abril. 00:22.

Ei. Obrigado por aceitar.

Hein? Por que mandara a mensagem? Não, não, não.

13 de abril. 00:39

De nada! 🙂

Dezessete minutos para responder. E ela estava online o tempo todo. É claro que ela não tem interesse algum. Óbvio. Pare por aqui.

13 de abril 00:40

Você está na faculdade ainda?

“Você percebeu o que acabou de perguntar? Se ela está na faculdade? Só por ter que perguntar isso, você já deveria se envergonhar. Quinze anos de profissão, o senhor tem. Quinze. É um homem de quase meia-idade. Ela está começando a vida. Não seja um clichê.”

“Mas ela é tão adorável. Será que isso deveria ser mesmo um empecilh…”

Agora estava agindo como Gollum.

13 de abril 00:47

Não, me formei há dois anos. Trabalho com jornalismo e faço pós.

Respirou aliviado. Ela não é uma criança.

O que deveria escrever a seguir? Pressionou algumas teclas, iniciando a frase seguinte, mas parou ao ler

…digitando

Ela estava mandando uma mensagem. Interrompeu a digitação e aguardou.

O “digitando” desapareceu. Ela havia parado de escrever? Será que vira que ele também estava escrevendo e decidira esperar para ver que mensagem ele mandaria? Ou havia mudado de ideia e decidido não prosseguir com a conversa?

Não sabia mais como se comportar nessas situações.

Sem ter ideia do que fazer, comentou sobre a cor do cabelo da garota.

“O quê? Idiota.”

A luz verde se apagou.

————————————–

Dois dias se passaram. Ele sentia-se perdido. Nem tanto pela aparente rejeição, mas por não ter ideia de como reagir a esta. Quando jovem, o “não” era dito inequivocamente: um virar de rosto negando um beijo, um “você confundiu as coisas”, um “pare”. No Facebook, o “não” era o silêncio. Que ele temia interpretar erroneamente. E se ela estivesse apenas tentando encontrar a melhor maneira de continuar o flerte?

Alguém ainda usava a palavra “flerte” ou ele estava sendo machadiano?

Ela estava offline. Ou o havia bloqueado? Por que as coisas agora eram tão complicadas?

“Na realidade, são mais simples. Antes, você precisaria encontrar com ela em algum lugar. Uma festa, uma boate, um bar. Ou conseguir o telefone, ligar e pedir para falar com ela. Agora, o contato estava ali. Voce sabia, pela luz verde (não é uma luz!), que ela estava do outro lado da tela.”

Mas não podia ver seu rosto, ler sua expressão e avaliar sua reação.

17 de abril 01:05

Estou com a impressão de que te ofendi.

Queria pedir desculpas, mas não estava convicto de que ela havia se ofendido.

17 de abril 01:06

Imagina! Não ofendeu de maneira alguma. Considerei um elogio.

Um minuto pra responder. Significaria algo?

Riu sozinho. Em sua adolescência, jamais lhe ocorreria cronometrar o tempo de resposta para tentar mensurar o grau de envolvimento da outra parte. Será que esta era a regra nos dias de hoje ou ele estaria superinterpretando tudo?

17 de abril 01:07

Ah, que bom. Porque foi. Atrapalhado, mas foi. 🙂

Merda. Deveria ter esperado mais de um minuto para responder. Mas não gostava de jogar. Embora o jogo fosse excitante.

Percebeu que gostava quando sabia que havia um jogo em andamento, mas não quando estava incerto sobre a existência de um. Flertar era bom, mesmo quando havia uma negativa aparente por baixo de uma aceitação, mas era doloroso quando a rejeição era clara. Estaria envolvido no primeiro tipo ou no segundo?

No segundo. Óbvio. Você é velho. Ela tem a vida toda pela frente.

17 de abril 19:30

Trabalha onde?

De novo o trabalho. Por que perguntara aquilo?

Porque era seguro. Numa situação de emergência, poderia dizer que estava apenas curioso com relação às atividades profissionais dela. Como se ela fosse acreditar.

17 de abril 19:34

Faço freela. Estou escrevendo para duas revistas.

Queria abraçá-la. Beijá-la. Levá-la para viajar e mostrar o mundo para ela.

Iria chamá-la para jantar. Isso. Ela poderia rejeitar, claro, mas ao men…

digitando.

Prendeu a respiração. É, voltara à adolescência.

17 de abril 19:37

Bom, estou indo jantar. A gente se fala.

Não, não, não.

17 de abril 19:38

Você ficou ofendida, né? Relendo a conversa, acho que passei a impressão errada.

Patético. Ele havia passado exatamente a impressão que queria passar: a de que havia se encantado por ela. Covarde.

17 de abril 19:41

Claro que não. Achei normal.
Digo: não achei nada de mais.

Ele fracassara. Sem nem saber exatamente se ela havia realmente entendido o que ele queria ter dito. Talvez…

17 de abril 19:42

Bom… beijo. Até.

“Até”??? Não havia algo mais eloquente a dizer??

17 de abril 19:42

Até.

O círculo verde desapareceu.

E, com este, uma luz dentro dele se apagou.

Eduardo

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | Comente  

Eduardo tinha dez anos de idade.

Eduardo tinha pais, irmãos e amigos.

Eduardo gostava de correr, de brincar, de ver televisão, de rir de desenho animado e de comer bobagem antes do almoço.

Eduardo queria ser bombeiro quando crescesse.

Mas Eduardo não vai crescer. Ele começou o dia criança e terminou cadáver. Tinha sonhos e agora é carne machucada e sem vida. Seus verbos agora são no passado.

Sonhou. Riu. Brincou. Viveu.

Eduardo foi executado por um policial militar no Morro do Alemão. Sua morte não foi o principal destaque dos portais e jornais. Quando foi noticiada, ele se transformou apenas em um “menino do Morro do Alemão”, em uma estatística da violência.

Eduardo nasceu sem chances e sem chances morreu.

Talvez Eduardo tivesse medo do escuro. De monstros. De trovão. Talvez. Por outro lado, provavelmente tinha da polícia. E estava certo em ter. Se eu fosse pobre e morasse na favela, também teria – porque saberia que, para boa parte da sociedade e dos agentes da lei, eu não seria apenas uma criança; seria um criminoso à espera de meu primeiro crime.

Eduardo teve sua cabeça de criança destruída pela bala de um policial militar. E nos portais que noticiaram sua morte sem destaque, comentaristas agiram com escárnio e disseram que, se pudessem, ajudariam a polícia militar a matar 50 por dia. E gritaram pela redução da maioridade penal em um país que já condena à morte crianças de dez anos.

Você está morto, Eduardo, e eu preciso ir ali abraçar meus filhos bem apertado enquanto penso na dor da sua mãe cujos braços vão para sempre sentir a falta do calor de seu corpinho de criança.

Desculpa esse mundo, Eduardo. Desculpa esse mundo.

Homens Negros Não Podem Correr

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 1 comente

Um deles vestia uma camisa do Atlético; o outro, uma camiseta cinza. Ambos usavam bonés. Tinham em torno de 30 anos. Caminhavam por uma rua do Caiçara, em Belo Horizonte, quando viram o ônibus que iriam pegar se aproximando e, num impulso, dispararam em direção ao ponto.

Mal tinham corrido quatro metros quando foram abordados por um camburão da PM e viram armas saindo da janela do veículo e apontadas para suas cabeças.

Eles haviam se esquecido de uma regra básica de nossa sociedade: homens negros não podem correr.

Ao menos, não em público.

Quatro policiais desceram e, com as armas ainda apontadas para os dois amigos, puxaram seus braços com força – braços que os dois sujeitos já haviam levado automaticamente para trás da cabeça.

O motorista do ônibus parou atrás do camburão enquanto os aspirantes a passageiros eram revistados com brutalidade.

Do meu carro, assisti atônito à cena. Inicialmente assustado – não em função dos “ameaçadores” corredores, mas ao ver armas apontadas em público -, logo vi o susto ser substituído por imensa revolta. Era patente o racismo envolvido: fosse eu o homem correndo pela rua, os PMs dificilmente me abordariam daquela maneira.

No entanto, o que mais me doeu não sequer o ato da polícia, mas a reação dos dois amigos: ao verem armas apontadas para seus rostos, eles simplesmente fizeram um aceno negativo resignado com a cabeça, como se dissessem “Não é possível; será sempre assim?”, e assumiram a postura para a revista sem que ninguém ordenasse.

Revistados, entregaram os documentos e apontaram para o ônibus, explicando por que haviam corrido. Os policiais se entreolharam, fizeram um comentário inaudível e atiraram os documentos de volta, quase com desprezo.

Do ônibus, o motorista acenou para os dois amigos num gesto de “venham!” e abriu a porta. Havia esperado por eles ao perceber o que ocorrera.

Também era negro.

Segui com o carro e passei ao lado da viatura. Havia esquecido de prender o cinto de segurança, mas ninguém me incomodou.

Não há racismo em terra de brancos

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Variados | 12 comentários

As mãos, todas brancas, empurram os microfones diante do rosto do homem negro, alto e coberto de suor. Durante os últimos 90 minutos, enquanto desempenhava seu trabalho de maneira eficiente em campo, salvando seu time em ao menos duas ocasiões de particular perigo oferecido pelo time adversário, ele fora atormentado por vaias contínuas partindo da torcida rival. Estava acostumado a vaias, que faziam parte do esporte – mas aquelas obviamente atravessavam a fronteira da provocação de partida, já que se mostravam contínuas e endereçadas não aos companheiros, mas a ele.

Frustrado, percebeu que era tratado como vilão de uma narrativa na qual deveria ser a vítima em um extremo e herói no outro – lá, por ter enfrentado o mais ultrapassado e odioso preconceito; aqui, por ter erguido a voz a protestado contra este.

Nascido e criado em um país populado por pessoas que se orgulham em dizer que ali não há racismo, ele crescera constatando a mentira desta afirmação. Nas periferias, os tons escuros de pele dominavam; nos bairros enriquecidos, a brancura dos habitantes era o padrão. Nas faculdades, a proporção entre brancos e negros era diametralmente oposta à da população do país, como se os portões da instituição funcionassem como um filtro de raça. Ao mesmo tempo, as tentativas governamentais feitas para corrigir as injustiças históricas eram recebidas com protestos pelo mesmo estrato da sociedade que já se via beneficiado por séculos de dominação – e a irracionalidade dos argumentos ia do inacreditável “Nunca tive escravos; por que devo pagar pelos erros de pessoas que viveram há 200 anos?!” ao desonesto “As cotas raciais são uma forma inversa de preconceito”, que convenientemente ignorava a impossibilidade de massacrar, pela intolerância, qualquer um que tivesse que se preocupar com filtros solares com fator 50.

É fácil afirmar que não há preconceito quando não é você que é parado pela polícia apenas por andar na rua à noite, visto com desconfiança por um desconhecido que atravessa a rua para evitá-lo sem razão aparente ou atacado por gritos que o comparam a um primata irracional.

Finalmente farto e coberto de cicatrizes provocadas por anos e anos de punhaladas verbais, ele havia erguido a própria voz e protestado. Não era sua intenção personificar a acusação, já que o racismo, ele bem sabia, era um fenômeno coletivo, mas a imprensa, com sua necessidade contínua de criar narrativas dramáticas a partir de qualquer situação, havia elevado uma garota flagrada pelas câmeras à posição de antagonista do herói. Isto, ele reconhecia, era prejudicial por sugerir que o preconceito era algo limitado a alguns indivíduos, o que permitia que a sociedade, como um todo, evitasse se olhar no espelho e pudesse negar um problema antigo e tristemente disseminado por todas as camadas econômicas e culturais. Para piorar, a irracionalidade da garota fora confrontada com a irracionalidade daqueles que encaram o justiçamento como corretivo, em vez de como o crime que representa por si só – e as ofensas atiradas na direção da moça (“vadia!”, “puta!”) não só encerravam seus próprios e terríveis preconceitos como ainda se tornavam ainda mais graves em função de ações extremas como apedrejamentos e tentativas de incendiar o lar de seus pais.

Como se não bastasse, as ações destes criminosos travestidos de justiceiros respingaram sobre a vítima inicial, que passou a ser culpada por – vejam só – denunciar os ataques que sofrera.

Negando-se a espetacularizar ainda mais um incidente que nada tinha de espetáculo – mas tudo de trágico e doloroso -, ele se recusou a protagonizar cenas novelescas de redenção ao lado da garota que o ofendera em meio a uma multidão de racistas que permaneciam impunes e, com isso, passou a ser acusado de estrelismo e intolerância (uma tática repulsiva de equiparar o que não se equipara).

E agora, ao retornar ao palco dos ataques que haviam originado toda a polêmica, era atacado pela mesma torcida da qual as ofensas racistas partiram inicialmente – desta vez, com vaias contínuas, como se ele, por se recusar a aceitar mais uma ofensa em meio a todas que o acompanharam ao longo da vida, houvesse criado um inconveniente terrível ao estragar a festa dos que negam viver num país racista.

Olhou para os repórteres brancos à sua frente, que representavam uma mídia branca em uma sociedade cuja economia era dominada por brancos e ouviu mais uma vez uma pergunta em tom acusatório: “As vaias não são normais?”.

Por alguns segundos, ainda acreditando ser possível trazer bom senso a um debate que se fazia cada vez mais urgente, tentou apontar que aquelas vaias, em sua intensidade e direcionamento, não eram as mesmas que costumeiramente acompanham uma partida de futebol. Sem sucesso. Cansado, indagou à repórter branca que insistia na pergunta se esta concordava com o que havia ocorrido na partida anterior.

“Eu não tenho que concordar”, foi a resposta evasiva e absurda que substituiu a que seria a única aceitável: “Não, claro que não concordo. Que ser humano decente concordaria?”.

Consciente de estar discutindo com alguém cujo único propósito era arrancar uma resposta polêmica que rendesse manchetes e pageviews aos seus patrões brancos, o sujeito se afastou, enojado.

E, no dia seguinte, se descobriu como o vilão da história na qual nascera vítima.

Nada de novo em sua vida.

A falácia do politicamente incorreto

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões | 178 comentários

Quando se trata de humor, considero-me um sujeito relativamente experiente. Como já escrevi anteriormente, tenho um bom conhecimento sobre o stand-up, sua história e seus principais expoentes e já li bastante sobre o tema. Além disso, quem acompanha meus textos ou já teve aula comigo sabe que sou até mesmo capaz de provocar um riso ou outro quando a ocasião se apresenta – e nem sempre através de um humor limpinho ou “politicamente correto”. Não ganho a vida fazendo comédia, claro, e tampouco julgo que a profissão de humorista seja fácil. É preciso muita experiência, estudo (sim) e talento para refinar o timing que fará a diferença entre uma piada eficiente e outra inesquecível. Muitas vezes, o menor dos detalhes marca esta diferença.

Vejam, por exemplo, este “bit” (termo em inglês para uma história ou uma passagem específicas de um repertório cômico) da performance de Louis C.K. no Beacon Theater:

O texto de C.K. é construído com cuidado, aos poucos, apresentando-nos a premissa (“Há crianças das quais não gosto”) e desenvolvendo-a gradualmente até passar de um caso relativamente plausível a uma fantasia de vingança absurda. Percebam que a base da piada já é algo que poderia ser considerado “politicamente incorreto” – um adulto aterrorizando um garotinho que machucou sua filha -, mas Louis C.K. é inteligente o bastante para evitar um erro básico: em vez de transformar o menino no alvo da piada e do ridículo, ele deixa claro para o público que o ridículo é ele, Louis, por agir como um idiota. E este é o segredo para que a piada funcione tão bem. No entanto, depois de levá-la a extremos ainda maiores, o comediante comprova sua inteligência através de um gesto que pode parecer improvisado e natural, mas que, acreditem, foi precisamente calculado: depois de dizer o que faria para destruir a vida dos pais do garoto que detesta, Louis pega a garrafa d’água e a ergue para levá-la à boca (aos 8:01 no vídeo)  – mas um milissegundo antes de beber, diz, quase como se aquilo houvesse acabado de lhe ocorrer: “Você tem que proteger seus filhos”.

E é esta a verdadeira punchline do longo caso e que finalmente leva o público a aplaudi-lo empolgadamente. E não se deixem iludir pela naturalidade do gesto: sou capaz de apostar que em praticamente todos os shows, Louis C.K. repete o gesto de levar a garrafa à boca exatamente naquele momento.

Como falei antes: fazer comédia não é para amadores.

O que nos traz a Danilo Gentili, que, mais uma vez, confunde os conceitos de “piada” e “ofensa”. No vídeo abaixo, Gentili (imitando cada vez mais descaradamente os trejeitos de Jô Soares) diz: “O apagão afetou boa parte do Nordeste. (pausa) Digo ‘boa parte’ porque nem todas as cidades lá têm energia elétrica. (pausa) Sabe como eles perceberam lá no Nordeste que tinha acabado a energia? Quando parou o trio elétrico. (fazendo dancinha) Lá, lá, lá, lá, lá… Ei… cadê a música? Sem água e agora sem luz, os médicos cubanos no Nordeste estão se sentindo em casa. (ri de si mesmo)”. Neste instante, seu lacaio Roger completa: “Mas tem papel higiênico ainda.”

Ok. Em primeiro lugar, o óbvio: independentemente do fato de ser ou não ofensiva, a questão inicial é avaliar se a piada tem graça. Claro que aqui há subjetividade na reação do ouvinte – e mesmo que a plateia de Gentili pareça rir moderadamente (apesar do timing pavoroso do sujeito, que faz pausas erradas, frisa sílabas aparentemente ao acaso e deixa claro estar lendo um texto), há aqueles que riem apenas ao ouvirem palavras como “papel higiênico” ou ao verem alguém fazendo dancinha engraçadinha. Para estes, “pavê ou pacomê” é humor legítimo e moderno e, assim, deixo-os de lado. São casos perdidos.

Porém, há uma maneira fácil de avaliar a qualidade da piada: sua construção. Há alguns princípios em comum no humor eficiente – e um dos mais empregados é a subversão de uma expectativa: levar o ouvinte a esperar algo e ir na direção oposta. Não é, claro, o que Gentili faz, já que seu texto simplesmente reforça estereótipos: o Nordeste é miserável, seu povo só gosta de farra e Cuba é um país sem qualquer infra-estrutura básica.

O fato de todas estas afirmações serem absurdamente falsas não vem ao caso.

Assim, de onde Gentili acredita estar extraindo graça? A resposta é reveladora e aponta para o erro que não só ele, mas seu colega Rafinha Bastos, cometem com tanta frequência: através da ridicularização de indivíduos fragilizados. É um humor do tipo “vejam como estas criaturas inferiores são inferiores. Não são inferiores? HA! Tomara que se fodam!”. É, em suma, algo que chamo de piada-bullying.

Releiam as “piadas” do sujeito e percebam que todas são construídas a partir desta lógica: o Nordeste não tem luz, não tem água, seu povo só nota o problema quando a festa é interrompida e estas são as condições ideais para um cubano viver, já que está acostumado à falta de tudo. Não há construção de uma expectativa e muito menos subversão da mesma. Não há punchline ou crescente. Há apenas preconceito e o convite para que nos tornemos cúmplices deste. Chamar isto de “humor politicamente incorreto” é tentar proteger a falta de talento de Gentili ao sugerir que ali há humor – e não há, como já vimos.

Não é surpresa, aliás, que outro “baluarte” da inteligência e do humor contemporâneos, Felipe Neto, tenha vindo em defesa de Gentili ao afirmar, no Twitter, que “Se vc é do tipo q dá chilique com as piadas do Danilo Gentili sobre o Nordeste, saiba q vc é um ATRASO pro entretenimento brasileiro” – e, logo depois, chama as críticas de “coitadismo”.

(Aqui conterei o impulso de apontar a ironia de ler Felipe Neto chamando quem quer que seja de “atraso para o entretenimento brasileiro”.)

O que Neto, Gentili e Bastos não compreendem é o básico da teoria da narrativa – e que Louis C.K. entende como poucos: de modo geral, o público tende a se identificar com o elemento vulnerável de uma história, não com o dominante. Isto é fruto do próprio processo de formação de nossa individualidade e do conceito do “Eu” até chegar ao processo de identificação secundária na psicanálise e na narrativa (recomendo a leitura de Christian Metz para entender mais sobre o tema). Em poucas palavras: é comum que nos identifiquemos com a situação de alguém em estado de vulnerabilidade. Assim, podemos até rir da vítima em uma piada, pegadinha ou caso – desde que estas narrativas sejam construídas com certa distância, como se estivéssemos apenas observando o desenrolar dos fatos. Porém, no instante em que o narrador se posiciona como parte da história e se coloca em posição de dominância, o espectador/ouvinte tende a simpatizar com a vítima – e, neste caso, a tentativa de piada fracassa inevitavelmente.

É justamente este o erro que estes representantes do humor contemporâneo não percebem cometer, já que sempre se colocam como representantes machos e brancos de um Sul-Sudeste desenvolvido e rico que ri de mulheres, negros, nordestinos e pobres. Como já dito, isto não é piada, mas bullying – e travesti-lo de “humor politicamente incorreto” não só é uma falácia como mais um sintoma do egocentrismo de indivíduos que julgam ter o direito inalienável de humilhar seus “inferiores”.

E defender isto não é lutar pelo humor; é denotar falha de caráter.

E daqui, para onde vamos?

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Política | 435 comentários

Hoje participei da manifestação que ocorreu em Belo Horizonte e sinto-me à vontade para dizer algo: Geraldo Alckmin conseguiu o que queria e entrou para a História do Brasil. Não como sonhava entrar, mas seu nome já está garantido ao menos como nota de rodapé nos livros didáticos.

Explico: até a noite de quinta-feira, 13 de junho, o movimento que ocorria pontualmente ao redor do Brasil em protesto ao aumento das passagens de ônibus era algo relativamente difuso, sem muito potencial para crescimento. Havia duas opções de desfecho: as passagens seriam reduzidas (como ocorreu em Porto Alegre) e tudo voltaria ao normal ou eventualmente a negativa das empresas e do governo deixaria claro que nada poderia ser feito quanto à questão. No entanto, a partir do instante em que Alckmin agiu como Alckmin (e Serra) e ordenou que a PM reprimisse a manifestação popular com força desproporcional, catalisou um processo que talvez levasse um tempo infinitamente maior para se cristalizar. Ninguém gosta de um bully – e o governo tucano, como já havia se mostrado em tantas outras ocasiões (com professores da rede pública, estudantes da USP, habitantes do Pinheirinhos e até mesmo com a Polícia Civil), não hesita em se entregar ao bullying sempre que questionado.

Desta vez, porém, Alckmin errou feio seu cálculo e criou um monstro que se espalhou por todo o país. A partir de quinta-feira, a questão definitivamente já não girava mais em torno de 20 centavos ou mesmo do transporte público livre; era uma questão de cidadania. E, como tal, deixou também de ser algo contra o governo tucano ou a prefeitura petista, passando a ser um grito de revolta generalizado, um berro de “chega!”.

Mas “chega” o quê?

E foi esta pergunta que vi tantos jovens se fazendo durante o manifesto em BH – mesmo que não percebessem o questionamento. Assim, voltei para casa feliz por testemunhar o despertar de uma juventude repleta de potencial, mas também inquieto por perceber claramente que ela não tem ainda uma ideia muito clara do que está fazendo ou de como prosseguir.

O que resulta numa combinação muito, muito perigosa.

(Aqui peço licença para um breve flashback pessoal para estabelecer por que me julgo detentor de certa experiência para discutir a questão: em 1992, depois de fundar e presidir por dois anos o grêmio do colégio no qual estudava – Promove Savassi -, fui eleito em assembleia estudantil como líder do movimento secundarista no Fora Collor. Como tal, participei da organização das manifestações em Belo Horizonte, discursei em carro de som na Praça da Liberdade e na Praça Sete e fui o rosto de meus colegas sempre que uma entrevista à imprensa era necessária – e certamente há fitas embaraçosas nas emissoras mineiras que trazem meu rosto moleque tentando parecer sério enquanto discute os motivos que tornavam necessária a saída do Presidente. Na época, fui um dos estrategistas do movimento em Minas, ajudando a decidir datas, locais e focos de protesto – e mais tarde presidiria o DA da faculdade até abandonar o movimento estudantil ao perceber que precisava me focar nos estudos. Não sou, portanto, um mero palpiteiro, creio eu. Fim do flashback.)

Ao caminhar entre a multidão de milhares de pessoas neste sábado, percebi duas coisas muito óbvias: uma imensa empolgação e uma preocupante falta de foco.

A primeira é fácil compreender: há anos a juventude não ia às ruas – e, como toda geração, eventualmente era inevitável que ela se questionasse acerca de sua própria revolução. A geração anterior teve o “Fora Collor!”; antes dessa, houve a luta contra a Ditadura. O que a geração pós-anos 90 tinha para protestar, porém? Quando e como poderia extravasar o impulso rebelde que faz parte do DNA jovem e que é algo tão belo e fundamental para o avanço da Humanidade?

Os últimos dias trouxeram esta oportunidade – e não é à toa que um jovem amigo pelo qual tenho imenso carinho me enviou uma mensagem por telefone na qual dizia, em parte, “estar em êxtase” após a passeata. Como não estaria? Lembro-me de meus dias de líder estudantil e ainda sinto o calor nostálgico da sensação de dever cumprido: como tantos antes de mim, eu estava deixando minha marca na História.

É um sentimento lindo, único, precioso. E sinto-me privilegiado por ter testemunhado o brilho que este trouxe aos olhos de tantos jovens hoje em Belo Horizonte. Eu olhava ao meu redor e via este êxtase em todos os rostos lisos que me cercavam – e sentia a vontade de abraçá-los com força e dizer: “Eu sei. É lindo, não é?”.

Sim, é lindo.

Mas eu também me sentia inquieto ao observar que, ao lado da euforia, havia uma clara dispersão de objetivos. Assim, puxei papo com vários jovens e observei atentamente os cartazes que carregavam.

“Pela humanização das prostitutas!”

“O corpo é meu! Legalizem o aborto!”

“Fora, Lacerda!”

“Viva o casamento gay!”

“Passe Livre já!”

“Passagem a 2,80 é assalto!”

“Pelo fim da PM no Brasil!”

“Cadê a Dilma da guerrilha?”

“Fuck you, PSTU!”

“Aécio NEVER!”

“Não à Copa no Brasil!”

E por aí afora. Era um festival desconjuntado de causas, ideologias e revoltas. Os cartazes tratavam dos sintomas, não da doença – e ao berrarem os sintomas pelas ruas de BH em vez de identificarem a patologia que os provocavam, aqueles jovens pareciam felizes, sim, mas também um pouco perdidos.

Passei a caminhar silencioso pela multidão. Sentia a energia gostosa, positiva, da ação juvenil, mas mergulhava cada vez mais em uma reflexão preocupada sobre o que via. Seria apenas um sinal dos tempos? Uma revolução do tempo das redes sociais, nas quais você pode “curtir” uma mensagem, uma causa, a cada segundo? Havia, sim, um componente de hiperlink até nos bordões cantados pela massa: um refrão sobre os ônibus levava a outro sobre a PM que levava a outro sobre a Copa que levava a outro sobre Lacerda que levava a outro sobre…

… sobre o quê?

Ao chegar em casa, manifestei esta dúvida no Twitter e alguns jovens imediatamente responderam: “Ninguém nos representa!” e “Sim, estamos contra tudo!”.

Mas “estar contra tudo” não é ideologia.

E sem ideologia não há movimento que se sustente. Ou, no mínimo, que se sustente de maneira consistente – o que abre espaço para a manipulação.

Foi isto, enfim, que me angustiou profundamente.

Vivemos em tempos perigosos: a direita religiosa se torna cada vez mais influente e as grandes empresas da mídia já perceberam que o PSDB não é uma oposição viável – e, assim, decidiram ser elas mesmas a Oposição. Não é à toa que, contradizendo todos os índices econômicos divulgados por órgãos independentes, a Globo, a Foxlha, a Veja e o Estadão vêm pintando um quadro de instabilidade crescente: inflação alta, dólar alto, PIB decrescente e por aí afora, pintando um país em crise que, sejamos honestos, não corresponde ao que vemos todos os dias nas ruas.

Enquanto isso, o aliado histórico dos movimentos populares, o PT, parece ter se esquecido de suas origens: tímido em sua resposta à brutalidade da PM, Haddad apenas embaraçou-se ao relativizar os excessos da polícia – e sua proposta de se reunir com as lideranças do movimento Passe Livre vem tardio, já que estas já não representam mais as massas na rua. Enquanto isso, Dilma é vaiada num estádio lotado por representar o poder – mesmo que, há pouco tempo, tenha oferecido subsídios justamente para diminuir as passagens de ônibus que, ironicamente, serviram como estopim da revolta.

Ora, se o PT não é visto mais como representante popular pelos manifestantes (e nem tem projeto que o aproxime da juventude) e o PSDB é claramente a mão pesada da repressão, para onde os jovens podem se voltar? Além disso, como não têm uma causa específica a defender, estes empolgados rapazes e moças criam um problema impossível, já que não há solução viável que os acalme. Como resultado, surge apenas um clima imponderável de insatisfação política generalizada – um clima complexo, intenso, raivoso e insolúvel.

É deste tipo de contexto que nascem os golpes.

E esta não seria uma solução que desagradaria os barões da mídia – lembrem-se das manchetes dO Globo pós-golpe em 64.

Claro que esta não é a única resolução possível para o quadro que se desenha. Uma revolução sem foco é uma revolução em busca de um líder, de um emblema, de uma figura messiânica. E não há, hoje, uma estrutura política mais equipada para preencher este vácuo que a direita religiosa.

A guinada reacionário-fascista, portanto, é uma possibilidade nada absurda para este movimento que nasce tão bem intencionado.

Isto, aliás, é que me deixa tão preocupado: os jovens que vi hoje na rua eram… lindos. Lindos. Felizes em seu papel democrático, acreditavam estar desempenhando uma função histórica fundamental. E estão. Mas se não surgir um foco para esta embrionária revolução, o perigo para que ela se desvirtue e seja cooptada pelo que temos de mais reacionário, conservador, atrasado e estúpido é real e imediato.

E veríamos, então, a destruição dos resultados trazidos por dez anos de um projeto político voltado de forma inédita para o crescimento social dos miseráveis. Ninguém duvida que, do ponto de vista social, o Brasil de 2013 seja infinitamente melhor que o de 2003. Mas se esta massa juvenil maravilhosa não encontrar o foco necessário, corremos um grande risco de regressarmos a 1993.

Foi isto, afinal, que me deixou tão triste após uma tarde de alegria ao lado daqueles admiráveis jovens.

São Paulo, 13 de junho de 2013

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Política | 82 comentários

“Aquela noite escura teve estrelas:
as estrelas humanas,
as lâmpadas do povo.”

– “Dito no Pacaembu”, Pablo Neruda

De acordo com a Veja, “ação rigorosa da PM impediu depredação da Paulista”. Seu principal articulista, Reinaldo Azevedo, chamou manifestantes de “vagabundos“. Mais cedo, um editorial do Estado de São Paulo pedia que os PMs dessem “um basta” na ação dos “baderneiros”. Já a Superinteressante, outra publicação da Abril, atribuía a culpa da violência… à presidenta Dilma. Todos diminuíam a responsabilidade do governador Alckmin, do PSDB, e ressaltavam o silêncio do prefeito Haddad, do PT.

Mas foi a PM controlada pelo governo do estado que massacrou os manifestantes. Que, ao contrário do que inicialmente tentaram afirmar GloboNews, Foxlha, Veja, Estadão e demais cúmplices, agiam de maneira calma e pacífica mesmo diante da presença da tropa de choque. É profundamente comovente ver os cidadãos gritando “Sem violência! Sem violência” apenas para ver seus pedidos respondidos com o avanço impiedoso de uma polícia obviamente instruída a agredir, machucar e reprimir sem hesitação. Basta observar que, já nos primeiros segundos da ação policial, um criminoso de farda dispara uma bala de borracha nas costas da multidão em fuga.

Enquanto isso, a GloboNews informava que ninguém havia sido ferido e o UOL dava destaque a um pobre PM que supostamente fora obrigado a ouvir gritos de “Lincha, mata!”. Pobres tímpanos sensíveis.

A Internet, contudo, não permite mais tão facilmente a mentira da Velha Mídia. Em questão de minutos, surgia um tumblr dedicado exclusivamente a desmentir a informação de que não havia feridos. Logo, outros vídeos reveladores entregavam até mesmo a ação bandida de policiais para criar a impressão de que os manifestantes haviam promovido quebradeira:

Não é difícil imaginar o objetivo do policial que parte o vidro da própria viatura, é?

Por outro lado, não é fácil compreender o que se passa nas mentes de quatro homens fardados que não hesitam em espancar um fotógrafo desarmado:

Ou como alguém pode disparar um tiro de borracha contra um cidadão que se encontra deitado e indefeso no meio da rua:

Ou contra outros cidadãos que já se encontram com os braços erguidos:

A situação se tornou tão insustentável ao longo das horas seguintes que o apresentador Datena, em seu programa na Band, deu início a uma enquete cuja formulação visava escancaradamente influenciar a resposta dos espectadores: “Você é a favor de protesto com baderna?”.

Ora, se o qualificativo “com baderna” faz parte da pergunta, a tendência de qualquer cidadão é responder “não”. Observem que mesmo quem normalmente se mostraria favorável a manifestações teria a tendência de, levado pela estrutura maniqueísta da pergunta, a se mostrar contra a ideia.

E ainda assim, isto aconteceu:

A revolta dos espectadores diante das ações criminosas da PM foi tamanha que, “baderna” ou não, a maioria decidiu apoiar os manifestantes – e Datena, pensando na audiência, imediatamente mudou de opinião e passou a chamar a “baderna” de “show de democracia”.

E até mesmo a Veja, inundada no Twitter por protestos de internautas revoltados com a manchete citada no início deste post, alterou a chamada de “PM impede depredação da Paulista” para “PM impede tomada da Paulista”.

Pena que se esqueceram de mudar a URL da notícia.

Assim, este 13 de junho foi um dia vergonhoso para a imprensa brasileira (mais um), mas admirável pela ação dos manifestantes. Mais cedo, escrevi que as grandes mudanças na história da humanidade foram movidas pela Ciência, pela Arte e pela inquietude da juventude – e lamentei que as duas primeiras estivessem sendo cada vez mais podadas pela religião, ao passo que a terceira encontrava-se morta. Fico feliz por perceber que há exceções, mas triste ao vê-las apanhando nas ruas de São Paulo. E ainda mais arrasado ao ler tantas manifestações de apoio às ações da PM feitas por jovens – e creio nunca ter bloqueado tantas pessoas no Twitter e no Facebook como fui obrigado a fazer hoje em função das mensagens repletas de veneno reacionário e fascista que recebi. Temo por esta geração: se a juventude é a fase da rebelião e há tantos proto-fascistas em seu meio, imagino, assombrado, a quantidade de Bolsonaros que surgirão em 30 anos.

Além disso, as ações escancaradas da PM me fizeram sentir uma dor profunda ao constatar que, se estes policiais agem assim sob o escrutínio de centenas de câmeras, mal podemos conceber o que fazem rotineiramente quando se encontram anônimos e diante dos miseráveis de nosso país. Penso na humilhação, nas surras, nas feridas e nos mortos jamais registrados por câmeras de iPhone e flashes de jornalistas e percebo como nos encontramos cegos. Com nossa ignorância, somos cúmplices das mortes de um sem-número de índios, de sem-teto, sem-terra e sem-direitos ao redor do Brasil.

O que houve hoje em São Paulo é apenas uma espiadela apavorante por trás da cortina. E vai muito além de um protesto em função de 20 centavos. Acreditar nisso é mais do que alienação; é cegueira absoluta.

Os seios de Angelina Jolie

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Variados | 87 comentários

Angelina Jolie é uma boa atriz. No entanto, quando lemos seu nome, o que nos vem à mente em primeiro lugar não são suas performances ou mesmo seu ativismo político, mas sua beleza física. Não é à toa que tantas atrizes ao longo dos anos buscaram papéis nos quais pudessem se esconder sob maquiagem pesada: ocultavam sua perfeição para que pudessem, paradoxa e finalmente, ser vistas sob esta. Somos rápidos em julgar pela aparência – e as mulheres, em particular, encontram-se frequentemente no banco dos réus: belas ou não, são avaliadas pela conformação dos ossos da face, pela pele sobre estes, pelo índice de gordura e pelas curvas. Só então – e talvez – nos preocupamos com sua essência como indivíduos.

Se isto ocorre com a secretária de nosso dentista, com a caixa do supermercado, com a advogada no fórum, com a médica no consultório e com a universitária em sala de aula, imaginem o escrutínio ao qual uma estrela internacional como Jolie é submetida – especialmente se considerarmos que seu corpo é também seu instrumento de trabalho. Para boa parte dos homens ao redor do planeta, ela não é sequer um ser humano, mas um conjunto agradável de seios, pernas e lábios. Sua personalidade é um inconveniente, não um atributo. Muitos destes machos vieram parar neste post porque o Google, enganado pelo título, respondeu suas consultas movidas a hormônio com um link equivocado.

Não que apreciar a beleza seja, por si só, algo que poderíamos classificar como “errado” – somos quem somos, afinal, e buscamos o belo por natureza. O problema surge quando esta beleza inspira o que temos de mais feio: a desumanidade.

Há pouco, Angelina Jolie anunciou, num artigo publicado no New York Times, ter se submetido a uma mastectomia dupla depois de descobrir, graças a uma avaliação genética, ter 87% de chances de desenvolver o mesmo tipo de câncer que matou sua mãe, Marcheline Bertrand, aos 56 anos de idade. Beirando os 40, Jolie decidiu que o risco era alto o bastante para justificar uma medida profilática extrema e retirou os seios. Pensou em sua saúde e em sua família, não na carreira ou na vaidade. Ser um cadáver bonito não é grande consolo.

Sua decisão, porém, imediatamente inspirou machos a saírem das cavernas em postura revoltada. No portal G1, por exemplo, os comentários – invariavelmente publicados por homens – iam do adolescente “Tomb Raider ficou sem peitos!” ao profundamente ignorante “Alguns parentes meus morreram de infarto. Agora tenho que tirar meu coração?”. Entre acusações de “falta de fé” por parte de evangélicos, Jolie também foi condenada pela “automutilação”.

Porém, foi mesmo em minha página no Facebook que li o comentário mais ilustrativo:

“Coitado do Brad Pitt.”

Por que o considerei tão simbólico? Porque, ao contrário dos demais, representa a reação imediata até mesmo de muitos homens que condenariam sem hesitar os demais comentários.

Há algum tempo, escrevi sobre minhas próprias falhas ao encarar as lutas femininas – e uma destas batalhas diz respeito justamente à tendência do universo masculino de encarar as mulheres como adorno, como peças de decoração ambulantes. Angelina Jolie é mãe de seis crianças, ativista, artista, feminista e, acima de tudo, um ser humano que naturalmente quer prolongar o máximo possível a já tão curta estadia no planeta – mas para boa parte dos homens, ela é simplesmente um brinquedo sexual com o qual fantasiar e o prêmio que Brad Pitt ganhou por ser Brad Pitt. E que agora está defeituoso, perdeu o valor, partiu-se. É um troféu amassado depois de cair da estante.

Aparentemente, 13% de chances de jamais desenvolver o câncer que já lhe custara a mãe representam uma estatística boa o bastante para justificar a manutenção de seus tão cobiçados seios. E como ela se atreve a arruinar a fantasia masculina daqueles que jamais se encontrarão sequer no mesmo edifício que a atriz – e muito menos em sua cama? Cerca de 400 mil mulheres morrem em função do câncer de mama por ano (há 50 mil casos novos por ano só no Brasil), mas, para muitos machos, estes números se traduzem não em vidas perdidas, mas apenas em 800 mil seios a menos no mundo.

Ler as reações à decisão absolutamente pessoal de Angelina Jolie é ter acesso a um mundo de chauvinismo e falta de empatia. É retornar não à década de 50, mas à Idade Média. É perceber a infinidade de homens que enxergam o corpo feminino como um objeto que possuem – mesmo que apenas para admiração à distância.

É esquecer que Angelina Jolie – ou qualquer outra mulher – é muito mais do que um par de seios.

Graças à Ciência, a atriz agora poderá respirar com mais tranquilidade por ter melhorado suas chances de acompanhar o crescimento dos filhos. Pena que não haja medida profilática (ou mesmo tratamento) para o câncer de caráter. Muitos homens se beneficiaram de algo assim.

Update: Poucos dias depois de Jolie anunciar a dupla mastectomia, sua tia morreu em função do mesmo tipo de câncer de mama que matou sua mãe.

O Vazio que Fere

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 10 comentários

A morte é um espaço subitamente vazio em nosso cotidiano. De um momento para outro, os itens mais prosaicos ganham contornos míticos: uma poltrona que costumava oferecer descanso às pernas de quem partiu assume a característica de um trono vacante; a pasta que carregava se torna um símbolo de sua vida; o celular agora abandonado, um catálogo de memórias, relacionamentos e compromissos para sempre adiados.

Solitário, o quarto se converte num museu, num santuário: ali a pessoa amada deitava-se todas as noites para sonhar; naquela cadeira no canto sentava-se para ler (e ainda me lembro de sua expressão concentrada diante dos versos de Drummond); no armário, as roupas colecionadas ao longo da vida carregam seu cheiro e mesmo os vincos formados pelas dimensões particulares de seu corpo.

Sobre a mesa do escritório, os fósseis de suas preocupações rotineiras: um bloco de anotações com telefones desconhecidos que devem ter lhe parecido terrivelmente importantes mesmo que por alguns segundos, contas de gastos agora misteriosos, um nome (“Fabrícia”) que pode significar qualquer coisa ou nada. Provavelmente algo.

O último livro adotado da imensa estante encontra-se no centro da escrivaninha, com um pequeno vão entre as páginas 192 e 193 indicando as últimas palavras lidas de uma narrativa que permanecerá em suspenso.

Cada aposento da casa é um pequeno memorial. A mesa de jantar revela seu assento costumeiro, que adotava por apreciar a maneira com que a luz vinda da janela se derramava à sua frente; a tevê ainda sintoniza seu canal de filmes favorito. Uma breve consulta à programação do receptor do cabo revela uma pequena lista de atrações que havia programado para gravar: sua tola série policial (“É meu guilty pleasure.”), dois filmes de John Ford e, como um estranho invasor, um reality show sobre culinária. Se nos esforçarmos, podemos visualizar seu rosto concentrado ao apertar os botões do controle remoto, que sempre lhe pareciam um pequeno desafio tecnológico, e sua satisfação ao perceber que conseguira registrar os programas.

Que agora continuariam inéditos.

O copo sujo na pia da cozinha traz a marca de seus lábios agora para sempre cerrados. As frutas compradas dias antes e escolhidas com tanto cuidado agora apodrecerão como seu corpo.

A escova de dente, ainda úmida, revela a preocupação com aquelas que serão as partes remanescentes de seu cadáver.

Sua ausência súbita grita por toda a casa.

Neste sentido, a morte não é muito diferente do fim de um amor. Lembranças de um cotidiano de sorrisos, beijos, orgasmos, experiências compartilhadas e afeto são despertadas não apenas pelas óbvias cartas e mensagens de texto, mas também pelos mais improváveis elementos: um vídeo no YouTube que traz o comediante Norm MacDonald destruindo de improviso a ex-estrela de uma série adolescente; uma canção do Wilco ou do David Bowie; o som insistente de um app de mensagens do iPhone; a foto de um tênis sujo.

Esta é a maior angústia do luto: mergulhar quem o experimenta em um estado de espírito sempre susceptível a um golpe inesperado do passado. Sentimo-nos bem, curados, até mesmo felizes – e, do nada, uma besteira qualquer dispara aquele espaço da mente especializado em nos torturar com a perda sofrida, transformando o estômago em uma bola de ferro, enviando calafrios ao longo da coluna e arrancando lágrimas de lamento pela ausência de quem a morte ou um novo amor levou.

E percebemos, então, que todo aquele espaço não se encontra de fato vazio, mas repleto de saudades.