Cotidiano

Triste mundo…

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Política | 9 comentários

… no qual o presidente de um país importante como os Estados Unidos precisa divulgar uma foto sua disparando uma espingarda para provar para os eleitores que gosta de armas, como se isto fosse uma virtude.

(Às vezes, o twitter faz falta. Só às vezes.)

Microconto verídico

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 1 comente

Toca o interfone. Atendo.

“Poderia falar com o homem da casa, por favor?”

Fico intimidado. E, envergonhado, respondo:

“Ele não está.”

Um Romance em 31 Tweets – Uma História Real

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 24 comentários

Noite de 9 de janeiro de 2013. Voo da United Airlines São Paulo-NY. Ainda na pista do aeroporto em Guarulhos.

9:37pm: “No avião, bela moça senta ao meu lado e IMEDIATAMENTE puxa papo. “Yes!”, penso. Dois minutos depois, ela descobre estar no lugar errado.”

9:38pm: “Agora puxou papo com o cara do assento atrás do meu, seu novo vizinho. Como pode me trair assim, bela do 19L?”

9:39pm: “Este foi o relacionamento platônico mais breve que já mantive. Bitch.”

9:40pm: “Aposto que ele vai te magoar, Bela do 19L. Ele tem voz de canalha.”

9:41pm: “É possível ser feliz conformando-se com um relacionamento? Sim, claro que é. Mas também é muito triste.”

9:42pm: “Quando se der conta de seu erro, Bela do 19L, será tarde demais. Já estou de olho na Loira do 17G.”

9:47pm: “‘Já viajei muito pros EUA e pro Canadá. Meu próximo destino é a Suécia.’, diz o Canalha do 19K. Pedante e insuportável.”

9:47pm: “Mas a Bela do 19L parece impressionada. Hum.”

9:49pm: “Ah, Bela do 19L, como pode ser tão volúvel? Depois de nossos dois lindos minutos juntos.”

9:53pm: “Vou stalkear o Facebook da Bela do 19L. Mas e se ela mudar o status para ‘Em um Relacionamento Sério com o Canalha do 19K’? Ficarei arrasado.”

9:55pm: “O Canalha do 19K não para de falar. É obviamente apaixonado pela própria voz.”

9:56pm: “‘A cidade fica a uma hora e meia de Toronto’, entreouço o Canalha do 19K dizer. ‘É muito linda. É onde nasceu o Justin Bieber’.”

9:57pm: “‘Onde nasceu o Justin Bieber’?!? Você deveria se dar ao respeito, Bela do 19L.”

9:59pm: “Vou inclinar minha poltrona para trás e deixá-lo desconfortável. De quebra, poderei ver a Bela do 19L pela fresta do assento.”

10:00pm: “‘Você vai ficar onde em Manhatman?’, perguntou o Canalha do 19K. E, sim, ele disse ‘Manhatman’.”

10:02pm: “‘O que você me recomenda visitar em Manhatman’?, perguntou a Bela do 19L. O Canalha do 19K é o anti-professor.”

10:03pm: “Oh. My. Fucking. God.”

10:04pm: “Ela perguntou o que a namorada dele faz. Subtexto clássico para perguntar se ele tem namorada. Ah, Bela do 19L, como pôde?”

10:05pm: “Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. REVIRAVOLTA!!!!”

10:07pm: “‘Meu namorado é advogado’, respondeu o Canalha do 19K. E, juro, engasguei com a água ao ouvir isso.”

10:10pm: “ESTOU TÃO FELIZ!”

10:12pm: “O Gente Boa do 19K é meu novo melhor amigo, embora não saiba disso.”

10:13pm: “Silêncio absoluto na fila de trás. A conversa morreu.”

10:15pm: “Vamos decolar em breve. Vai ser um longo voo pra Bela do 19L. Já eu me concentrarei na Loira do 17G. Quem sabe não saímos em Manhatman?”

Manhã seguinte, 10 de janeiro de 2013, sala de desembarque do aeroporto de Newark:

9:44am: “Enquanto espero a mala ao lado da esteira de bagagem, a Bela do 19L se aproxima: ‘Fez um bom voo?’, pergunta. ‘Fiz. Você?'”

9:46am: “Ela: ‘Ai, o cara do meu lado não parava de falar!’ (Pausa) ‘Você vai ficar em Manhatman?'”

9:47am: “Penso por alguns segundos e relembro nostálgico nossa história. Fomos felizes naqueles dois minutos, não fomos, Bela do 19L?”

9:48am: “Mas não adianta. Nosso amor já não pode mais ser. Ficará como uma lembrança triste de algo que não existiu, que morreu no berço.”

9:49am: “Tomo uma decisão. Olho para a Bela do 19L e, depois de um segundo de hesitação, digo: ‘Vou ficar na casa do meu namorado’.”

9:50am: “Por um milissegundo, registro a reação no rosto da Bela do 19L. É isso aí, moça – todos os homens do mundo são gays. Ao menos os seus.”

9:50am: “THE END”

Walter Navarro tenta parar o Tempo

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Série Jornalistas, Variados | 57 comentários

Tenho amigos queridos que trabalham no jornal O Tempo. Mais do que queridos: jornalistas talentosos que fazem o melhor trabalho possível em suas respectivas áreas. Não irei citá-los por não achar justo relacioná-los, mesmo que perifericamente, ao que discutirei abaixo, mas saliento que o caderno Magazine, em especial, é fruto de um trabalho de incrível competência e amor por parte de seus responsáveis.

E é por esta razão que Walter Navarro merece ir para a rua. Não apenas por vomitar preconceitos e, no processo, se apresentar ao mundo como um ser humano absolutamente repugnante, mas por sujar, praticamente sozinho, as páginas do caderno que seus colegas tão brilhantemente criam. E é por esta razão, também, que não escrevi uma linha sequer sobre o texto incrivelmente estúpido de José Robert Guzzo publicado na Veja sobre o movimento LGBT: está na Veja, que, historicamente, encontra-se sempre do lado errado de qualquer questão sobre a qual se manifeste – e é impossível poluir algo que já atingiu níveis tóxicos. (Além disso, Jean Wyllys já publicou a resposta definitiva a Guzzo.)

Neste sentido, Navarro é o cadáver em putrefação que flutua num lago límpido (eu iria compará-lo a outra coisa flutuante, mas isto apenas descreveria o que ele carrega na mente) e que precisa ser removido antes de contaminar a água de forma irremediável.

Em primeiro lugar, o contexto: em sua coluna semanal no jornal O Tempo – e cuja existência já me impressiona há tempos, já que o sujeito obviamente não sabe escrever, sendo péssimo não apenas em estilo, mas em gramática, ortografia e retórica -, Walter Navarro decidiu falar sobre um tema espinhoso que normalmente deveria ser deixado a cargo de pessoas que possuem algum conhecimento mínimo sobre História, Sociologia ou Caráter: a tragédia envolvendo os Guarani-Kaiowá, que, expulsos das próprias terras e mantidos distantes de suas raízes culturais em um pedaço minúsculo de chão que mal lhes permite a sobrevivência, publicaram uma carta chocante e comovente sobre a situação na qual se encontram.

Entra Walter Navarro, com a sensibilidade típica de um homem incapaz de compreender qualquer coisa que se mostre distante de sua realidade imediata.

Tem coisa mais chata, hipócrita, brega e programa de índio que este pessoal do Facebook adotando o nome Guarani Kaiowá?“, começa o colunista em seu espaço em O Tempo – e até aqui posso compreender suas motivações. De fato, o cyberativismo rende patetices risíveis e perigosas – e não são poucos aqueles que alteram seus sobrenomes por alguns dias no Facebook para manifestar uma “causa” que descobriram na web enquanto acreditam que isto os tornará admiráveis e engajados, quando, na verdade, apenas torna-os ainda mais passivos. Não digo, com isso, que todos que o fazem são “tolos” ou “ingênuos” (como alguns inicialmente interpretaram), mas apenas que este tipo de manifestação não deve substituir um envolvimento mais ativo nas causas defendidas.

Infelizmente, esta primeira frase é a única no texto de Navarro que faz algum sentido – o restante é uma enxurrada de imbecilidades, preconceitos e da mais profunda ignorância. Com um tom que ele acredita ser irreverente, mas que soa apenas como a mais profunda intolerância, o sujeito inclui afirmações como “Como diriam o Marechal Rondon e os irmãos Villas Boas, “Índio bom é índio morto”! “Matar, se preciso for, morrer, nunca!”“; grafa “Barack (Obama)” como “Barak” (isto num jornal!); chama Rita Lee de “maconheira” para tentar desqualificar uma de suas letras pró-Índios; e arremata um longo e tolo parágrafo com a inacreditável sentença de que “Os guaranis kaiowá não passam de recolhedores de mel no meio do mato. É o povo mais primitivo do mundo, nem chegou à Idade da Pedra”.

De acordo com Walter Navarro, este grande antropólogo, historiador e filósofo, “(…)o Brasil é assim, uma mistura de índios flatulentos com criminosos portugueses“. E encerra, orgulhoso de seu “humor” que levaria até mesmo Rafinha Bastos a considerá-lo ofensivo: “A vadiagem dos guaranis kaiowá pelo menos é lucrativa. Ontem, troquei um canivete suíço (falso) por várias toras de mogno de sua reserva

Se J.R. Guzzo não fosse apaixonado por cabras, eu sugeriria que procurasse Walter Navarro, o asno. O filhotinho resultante desta união despertaria interesse de cientistas em todo o planeta e daria início a uma nova espécie: Intolerantis imbecilicus.

– X –

A repercussão do texto de Navarro, claro, assustou os donos de O Tempo, levando a um editorial claramente apavorado visando controlar os danos. Infelizmente, as palavras do editor Vittorio Medioli são atrasadas, poucas e leves demais. Embora diga que O Tempo errou ao permitir a publicação do texto, que traz “linguagem chula” (aparentemente, o grande problema da coluna, em sua visão), ele afirma que defenderá a permanência de Navarro como colaborador. Ora, considerando que Medioli é também fundador de O Tempo, isto não é defesa, é decisão.

O curioso é que, no mesmo editorial, ele escreve que insistiu “para “mais uma oportunidade” em outras ocasiões”, apontando o que todos já sabem: Navarro faz há muito tempo este tipo de discurso odioso. Quem acompanha o jornal já leu suas colunas misóginas, homofóbicas e racistas.

Para justificar a manutenção do sujeito, Medioli diz que o jornal defende “a liberdade de expressão”. Ora, ninguém está sugerindo que Navarro seja amordaçado ou impedido de se manifestar. Por outro lado, oferecer a ele uma plataforma para que divulgue suas ideias é algo reprovável e perigoso. Abomino Bolsonaro, por exemplo, mas não pretendo impedi-lo de jorrar seu ódio – mas tampouco ofereceria a ele uma coluna no Cinema em Cena.

Demitir um colunista como Walter Navarro não é cercear a liberdade de expressão; é apenas exibir discernimento suficiente para reconhecer que, em 2012, discursos como os dele são anacrônicos e inaceitáveis, denunciando uma natureza que merece o ostracismo, não divulgação. Homens como Walter Navarro devem ser encontrados berrando insanamente seu ódio e preconceito sobre um caixote no centro da cidade, não escrevendo (mal e porcamente) nas páginas de um jornal como O Tempo.

Update importante: um leitor aponta nos comentários abaixo que o editorial de Medioli é de 2010, o que comprova o que escrevi acima: Navarro já há muito espalha ódio nas páginas de O Tempo. Resta saber se o jornal continuará a ser leniente com o sujeito. Considerando que já assumiram publicamente os problemas provocados pelo colunista, a partir de agora só posso considerar os editores de O Tempo cúmplices do odioso “articulista” que sustentam.

Update 2: Em sua página no Facebook, o jornal O Tempo publicou o seguinte post por volta da meia-noite de hoje: “Informamos que o jornal O TEMPO decidiu afastar o colunista Walter Navarro do seu quadro de colunistas e que a Sempre Editora não compactua com nenhum tipo de preconceito e/ou manifestação preconceituosa. Reforçamos, assim, o nosso compromisso com o bom jornalismo.”

Ok, parece uma boa notícia. No entanto, o que exatamente é “afastar”? Demissão? Suspensão temporária? Com pagamento ou sem? Ou é apenas colocá-lo na geladeira até que todos se esqueçam de mais esta abominação que publicou nas páginas do jornal? Até que isto fique claro, hesitarei em celebrar.

No Metrô

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 18 comentários

Não era possível que ele realmente a estivesse olhando daquela forma. Há quase cinco minutos, porém, ele parecia fitá-la com concentração absoluta, como se ela fosse a única mulher naquele vagão de metrô. Ela já desviara os olhos, girara a cabeça para esconder o rosto, tentara enterrar-se sob o livro que carregava, mas, ao voltar a encará-lo, o olhar do homem mantinha-se nela.

A princípio, ao perceber o sujeito e confirmar ser o objeto de sua devotada atenção, sentira-se irritada. Avaliou estar sendo medida, estudada, julgada – o de hábito. Gradualmente, contudo, notou que a expressão do outro não era nenhuma daquelas normalmente associadas aos olhares que recebia: suas sobrancelhas não estavam congeladas num franzir crítico, seus lábios não traziam um sorriso de deboche e seus olhos não traíam reprovação. Ele apenas… a observava. Atentamente. Durante um microssegundo ela tivera mesmo a impressão de captar um leve aceno de cabeça, como se ele estivesse aprovando o que via.

Isto não era possível, claro. Ninguém a “aprovaria” apenas ao vê-la. Conversando, talvez – caso ignorassem seus dentes amarelos e irregulares -, mas não simplesmente pelo olhar.

Não era bonita e sabia disso. Sempre soubera. No passado, isto a incomodara muito. Ora, “incomodara”! Muito mais que isso: a fizera sofrer. Agora, no entanto, era apenas um fato de sua vida. Era feia e pronto. Não pensava mais nisso do que pensava, por exemplo, que sua cor favorita era o amarelo.

Para começo de conversa, era grande demais. Não alta, mas grande, com seus ombros largos e braços fortes. Com um metro e oitenta e oito centímetros de altura, sempre estivera duas ou três cabeças acima de praticamente todos os seus colegas de escola, sentindo-se constantemente aberta ao escrutínio alheio, como se a natureza a tivesse criado alta para expor ao mundo seu rosto nada gracioso.

E que o homem no metrô continuava a estudar.

Crescera ouvindo que “beleza era subjetiva” – algo que apenas crianças feias escutavam. Estava certa, porém, que não havia subjetividade que a tornasse bela. O nariz grosseiro, que herdara do pai, terminava num bulbo rosado e dividido ao meio por um vinco que apenas ressaltava seu tamanho – e que contrastava com os lábios excessivamente finos que por muitos anos ela tentara aumentar com delineadores e batons até finalmente desistir ao perceber que a boca era o menor de seus problemas. O queixo quadrado que, também dividido por uma linha profunda (e igualmente vindo do pai), se projetava adiante num ar desafiador a incomodava muito mais – e não havia maquiagem que pudesse disfarçá-lo. Da mesma maneira, as sobrancelhas grossas, que ela antes domara graças a horas de dor e depilação, agora cresciam sem controle, formando dois severos arcos sobre os olhos verdes que puxara sabe-se lá de quem apenas como uma piada de mau gosto do universo, levando-a a entreouvir, ao longo dos anos, diversas variações do comentário “Que desperdício, aqueles olhos!”.

Não se lembrava de quando chorara pela última vez ao ouvir algo assim. Nem raiva sentia mais; apenas cansaço.

Levantou os olhos do livro e novamente se surpreendeu ao perceber que o escrutínio persistia. Normalmente, àquela altura lançaria um olhar desafiador ao mal educado, mas nesse instante notou algo que a impediu de fazê-lo: seu coração estava disparado.

Experimentou um misto de surpresa e raiva diante da descoberta. Havia sofrido muito até conseguir anestesiar até mesmo seus reflexos involuntários. Não se permitia fantasias românticas ou mesmo reflexões sobre sua solidão.

Nunca tivera um namorado. Mesmo quando mulheres tão ou mais feias que ela encontravam seus pares em homens igualmente pouco atraentes (embora, vez ou outra, um sujeito bonito conseguisse enxergar algo único sob a aparência de uma conhecida desengonçada), ela permanecia sozinha em função de sua altura, que acabava por afastar até mesmo o menos exigente dos rapazes. Em uma única ocasião, tentara tomar a iniciativa e abordar um conhecido do bairro, mas o sorriso de escárnio, seguido pela vergonha de ser ridicularizada junto aos amigos deste, a haviam desestimulado de repetir o esforço. Com o passar dos anos, abandonara a pretensão de ser amada ou desejada. Masturbava-se de quando em quando ao sentir a alfinetada inesperada do desejo, mas não conferia muita atenção àquilo. Sabia de mulheres que tratavam a masturbação como um verdadeiro ritual, acendendo velas, tomando vinho e ligando alguma música, mas para ela, quanto menos tempo gastasse naquilo melhor, já que não conseguia evitar um certo sentimento de humilhação no auto estímulo, como se aquilo fosse o reconhecimento de que os únicos dedos que buscariam seu corpo seriam os seus próprios. Sonhava em atingir um ponto no qual não sentisse mais a necessidade do orgasmo.

Não era uma criatura amarga, contudo. Era capaz de rir e de se divertir com a família e os amigos. Amava os sobrinhos, filhos de seus dois irmãos mais jovens, e adorava ouvi-los dizer a palavra “tia”. Não saía com frequência, mas apenas por estar sempre exausta – e quando o fazia, contava e ouvia casos, gargalhava com piadas e aproveitava o momento como desculpa para crer-se feliz.

Gostava de morar sozinha e agora, aos 42 anos, julgava-se incapaz de dividir o pequeno apartamento com quem quer que fosse – homem ou mulher, amiga ou namorado. Não que corresse qualquer risco de que esta última opção se apresentasse.

Fingiu olhar o relógio e, em seguida, voltou-se sutilmente para onde o homem se sentava.

Sentiu-se profundamente desapontada ao encontrar o banco desocupado. Não o vira descer. Mas também que diferença faria se…

Ele agora sentava-se diretamente à sua frente. Mudara de lugar, atravessando o corredor, para ficar ali, próximo e diante dela.

O sujeito sorriu.

Agora seu corpo reagia enlouquecidamente, como se, após anos de anestesia emocional auto imposta, houvesse se esquecido de como deveria se comportar numa situação como aquela. Se sua mente fosse uma central de comando militar, luzes vermelhas de “Alerta!” estariam piscando rapidamente enquanto todos entravam em modo de pânico.

O coração disparado e o frio na barriga, ela compreendia; a vontade súbita de ir ao banheiro, nem tanto. Sua respiração tornara-se tão forte e os batimentos cardíacos, tão acelerados, que ela temia que ele pudesse perceber seu peito saltando sob a blusa.

O que ele queria, afinal? Era uma aposta feita com colegas que agora riam em algum lugar do vagão? Estudou todos os passageiros ao seu redor e não notou nada de atípico. Todos pareciam perdidos em si mesmos; a única exceção era o homem que a olhava.

Sentiu a blusa grudar em seu corpo com o suor nervoso que agora escorria por suas costas. Percebeu a testa úmida e enxugou-a com o dorso da mão, que em seguida secou na calça jeans escura que vestia. Passara a adotar o preto com frequência em seu vestuário desde que engordara, pois isto permitia que fugisse de roupas largas para gordos e usasse outras mais justas sem que as dobras flácidas de seu abdômen chamassem muito a atenção sob o tecido.

Algo que o suor agora expunha com crueldade através de manchas úmidas horizontais que desenhavam cada pequena banha sob a malha.

Puxou a barra da blusa para baixo e ajeitou-se no assento. Estava cada vez mais incomodada com o olhar do sujeito, mas, ao mesmo tempo, não queria que aquilo acabasse. Não tinha qualquer dúvida, agora: ela era o foco dele e a expressão que nele se apresentava era de… aprovação. Como isto podia ser realidade, não sabia, mas tinha certeza de sua interpretação: ele gostava do que via.

Ajeitou os cabelos e lamentou não ter voltado a pintá-los nos últimos meses. Sabia que não era bonita, mas também não precisava descuidar-se tanto. Aliás, se se esforçasse, poderia até mesmo parecer uns cinco anos mais jovem e isto já seria alguma coisa.

Depois de meses (anos?) sem pensar verdadeiramente em sua aparência, voltava agora a fazê-lo graças a alguns minutos sob o olhar de um estranho. Alguns instintos jamais morriam, pelo visto – por mais que soubesse de seu valor como mulher (mais: como ser humano!) e não se permitisse definir pela míope opinião alheia, agora queria desesperadamente ser aprovada por um indivíduo cuja existência lhe era desconhecida até três ou quatro estações atrás. Seria possível que algo inesperado assim acont…

“Tudo bem?”, ele disse repentinamente, sempre sorrindo.

Ela hesitou. Deveria responder o cumprimento ou fingir (apenas fingir) ignorá-lo? Talvez fosse melhor se

“Tudo”, surpreendeu-se dizendo.

“Posso?”,  ele perguntou, apontando para o lugar vazio ao seu lado. Ela acenou com a cabeça, tentando parecer indiferente, mas sabendo que traíra um largo sorriso.

“Meu nome é Ricardo. Você é…?”

Ela respondeu.

“Bonito nome.”

Ela sorriu, ciente de que se tratava de uma mera cortesia. Seu nome não era mais bonito ou feio do que qualquer outro.

 “Não sei se notou”, ele prosseguiu, “mas estou te observando há algum tempo.”

“Ah, é?”. Tentou simular surpresa, mas sua voz soou trêmula aos próprios ouvidos.

“É.”

“Hum”. Avaliou se deveria fingir voltar ao livro ou dizer algo. “Por quê?”

“Porque te achei muito interessante.”

Ela permaneceu muda, mas sentiu o coração atingir uma pulsação alta o suficiente para que pudesse escutá-lo ressoar em seu crânio.

“Muito interessante mesmo”, ressaltou o homem.

“Ah.”

“Alguém já deve ter dito isso para você, claro.”

“É.”, ela disse, sem saber o que responder.

“Imaginei.”

O ar no vagão parecia tornar-se rarefeito. Queria sair correndo e também permanecer ali.

Subitamente, um cartão surgiu na mão do sujeito. Ele o estendeu em sua direção e, sem entender muito bem o que ocorria, ela o segurou.

RICARDO MOURA
agente

Ela o encarou sem compreender.

“Sou de uma agência de modelos”, ele explicou. “Mas não uma agência comum. Se as outras agências se preocupam com modelos magras, loiras, que se parecem dublês de Barbie, nós nos especializamos em modelos de carne e osso. Pessoas com rostos reais.”

Ela sentiu o frio na espinha que, velho conhecido, a alertava para mais uma decepção.

“E você é perfeita para um comercial para o qual estamos escalando modelos nesse momento. É uma campanha grande para um clube de férias popular.”

“Popular.”

“Sim.”

“Você quer dizer… para gente feia.”

Ele riu de uma maneira que parecia tentar soar simpática.

“Claro que não. Mesmo porque você não tem nada de feia.”

Ela detectou a brevíssima pausa que denunciava a mentira.

“Popular é só isso: popular. Rostos comuns. Nada de Giseles Bündchens ou atrizes globais.”

Ela fingiu estudar o cartão apenas para não ter que encará-lo e denunciar sua dor.

“Bom… eu desço na próxima estação. Mas fique com meu cartão. Se tiver interesse, me ligue. Acho que tem boas chances de estar no filme. E o cachê é bom: 350 reais por um dia.”

Ele levantou-se e estendeu a mão, que ela apertou sem vontade.

“A gente se fala, espero.”

Dez segundos depois, ela encontrava-se novamente sozinha no vagão em movimento. O queixo tremia e as lágrimas eram contidas apenas pela raiva. Não do tal Ricardo, mas de si mesma, que, tola, mais uma vez permitira-se ser vulnerável à opinião alheia. Ela era melhor do que isso. Independia do mundo.

Ou assim queria pensar.

“Rostos reais” era um eufemismo, sabia. E o seu era o mais real dos rostos.

Ergueu-se e, equilibrando-se em meio aos solavancos do trem, aproximou-se da porta. No vidro, viu refletida a imagem grandalhona e grosseira que jamais aprendera a apreciar.

Olhou novamente para o cartão.

Aparecer na tevê seria tão ruim assim, afinal? Sabia que, no mínimo, isto seria assunto para algumas divertidas conversas com amigos e em reuniões familiares.

Rostos reais.

A porta à sua frente se abriu.

Ela guardou o cartão no bolso traseiro e pisou no chão da estação.

Herzog no metrô do Rio

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cotidiano | 12 comentários

Hoje peguei o metrô no Rio no horário de pico. Despreparado para o que aconteceria, vi surpreso uma multidão correndo desesperada para dentro dos vagões em busca dos poucos bancos disponíveis. Fiquei com uma vontade irresistível de colocar algumas câmeras capazes de gravar imagens em centenas de frames por segundo para capturar a corrida por um lugar para sentar.

Posso imaginar perfeitamente a cena: de dentro do vagão vazio, vemos as portas se abrindo lentamente e as pessoas, em câmera lentíssima, se acotovelando e entrando aos empurrões. Cortamos para uma câmera no alto do vagão que, apontando para os bancos, mostram detalhes da disputa.

Entra a voz de Werner Herzog:

“It’s an spectacle of glory and survival. The inescapable need for a place to sit drives men, women and children to the edge of hostility, while the cold metal of the train is touched by hands looking for support in their fight and the hard surface of the sits waits for the asses of the winners”.

Orgulhosa efemeridade

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Vídeos | 10 comentários

Olhe-se no espelho. Sim, agora. Concentre-se nos seus olhos. Agora sorria para si mesmo. Estou certo de que, tenha você 18 ou 60 anos, reconheceu ali um pouco de quem foi anos atrás. E também de que percebeu o quanto mudou em pouco tempo.

Somos uma raça de vida breve. Se usamos a expressão “anos de cachorro” para transmitir o conceito de uma existência acelerada na proporção de 7 para 1, qualquer árvore, pedra ou grão de areia poderia conceber, se conscientes fossem, a ideia de “anos de humano” para demonstrar um ritmo ligeiro de passagem sobre o planeta. Para o universo, somos tão duradouros quanto moscas.

Pensei nisso ao assistir ao curta holandês abaixo, que cobre 100 anos de vida em um período de 150 segundos. Pedindo apenas que seus modelos dissessem suas idades para a câmera, o realizador expõe, de forma incrivelmente tocante, a brevidade de nossas existências – em um momento, vemos o rosto redondo, bochechudo e de olhos grandes de um bebê incapaz de dizer “um”; instantes depois, um senhor cuja calva parece prestes a se desfazer diante de nossos olhos, tamanha sua fragilidade, expele o número “95” com clara dificuldade. No entanto, o mais tocante é perceber como saltamos da aparência juvenil de pele viçosa às rugas e bolsas sob os olhos com rapidez: aos 20, vida, jovialidade e energia; aos 40, certo cansaço sob o sorriso; aos 60, resignação diante do envelhecimento; aos 80, manchas senis, flacidez e exaustão; aos 100, orgulho incontido por ter chegado tão longe.

Somando todos os modelos, 5.050 anos de experiências coletivas e amadurecimento. E ainda assim, apenas um bipe na história do planeta. Por outro lado, se quantificarmos as dores, alegrias, amores e desapontamentos por eles colecionados, perceberemos, tocados, a riqueza de nossa espécie.

(Via meu amigo Scott Jordan Harris.)

Meu breve retorno ao teatro

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 12 comentários

Muitos de vocês provavelmente não saibam disso (mesmo os que me acompanham há algum tempo), mas sou ator profissional. Aposentado, digamos, mas com registro no SATED e na carteira de trabalho. Comecei nos palcos aos 14 anos e me mantive ativo no teatro até os 25 anos, quando uma série de fatores pessoais me levaram a um desencantamento progressivo com a atividade e a abandonei. Até então, vinha me envolvendo cada vez mais com a profissão, chegando a ganhar um prêmio SESC/SATED por uma peça infantil que escrevi e cuja assistência de direção assinei; em 1999, saí sem olhar para trás depois de participar por dois anos da montagem original daquela que se tornou a peça de maior sucesso da história do teatro mineiro: “Acredite, um Espírito Baixou em Mim”.

Ontem, vivi um flashback. Ilvio Amaral e Maurício Canguçu, produtores e astros do Espírito, me convidaram para a leitura de mesa de um novo texto que estão cogitando montar. Não posso revelar o título, obviamente, mas é uma comédia divertidíssima que provocou risos e mais risos durante a leitura. Fiquei responsável por um personagem relativamente grande e muito bom: inocente, divertido, tapado e trágico ao mesmo tempo. Senti o velho prazer de buscar inflexões que servissem a cada fala (mesmo que já numa primeira leitura, sem qualquer preparação), em imaginar a postura do personagem em cada momento e também suas motivações de cena para cena.

Nunca me considerei um excelente ator, é verdade; era eficiente, mas não espetacular. No entanto, surpreendi-me ontem ao perceber como havia sentido falta de flexionar os músculos da interpretação.

Não sei se levarei isso adiante; foi apenas uma primeira leitura, o personagem é uns dez anos mais velho do que eu, é possível que o espetáculo não seja montado ou que meus compromissos profissionais me impeçam de participar da empreitada. Além disso, foi apenas uma leitura de mesa; não havia compromisso algum de estar no elenco. Foi uma brincadeira, um momento de leveza.

De todo modo, bateu uma nostalgia forte dos tempos em que eu ouvia, da coxia, os três sinais antes de cada espetáculo e entrava em cena para dar vida a uma ficção.

Quem eu era, quem eu sou

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 34 comentários

Uma das coisas lindas que a Arte proporciona é a auto reflexão. Às vezes, estamos assistindo a um filme, lendo um livro, analisando uma pintura e bum!, voltamos no tempo e reavaliamos nossas ações, lembramos de velhos amigos ou simplesmente constatamos que o tempo passou. Isso aconteceu comigo esta madrugada enquanto assistia ao novo episódio da melhor série da atualidade, Louie, criada, escrita, montada e dirigida pelo comediante Louis C.K. (sim, a considero melhor que Breaking Bad). Em certo momento, ao ligar a televisão, Louie se depara com imagens de uma performance gravada em sua juventude e compara o rapaz que foi ao homem de meia idade que agora vê através da webcam de seu laptop.

Bum!, mergulhei em mim mesmo.

Lembrei-me de Silvia, Alessandra, Renata e Grace, paixões de minha adolescência que jamais se concretizaram em romance. Lembrei-me de Charles, Thiago e Ricardinho Neves, meus grandes amigos do ensino médio. Lembrei-me de que fui expulso do Santo Agostinho 3 na oitava série por indisciplina. Lembrei-me de quando pegava o ônibus para… ir a qualquer lugar.

Revisitei o jovem Pablo, que não sabia o que queria ser quando crescesse. E que um dia, em 1990, assistiu a Tempo de Despertar e percebeu que a Medicina era a mais linda das profissões (ainda acredito nisso). Voltei ainda mais e me revi aos 8 anos, agarrado a um caderninho de pauta e escrevendo um “livro” intitulado O Mistério do Haraquiri, sobre um homem encontrado morto sem que houvesse indícios da causa (depois de ler o verbete “harakiri” na enciclopédia, deduzi – erroneamente, claro -, que o suicídio era provocado por um golpe que não deixava marcas no abdômen). Recordei a resposta que oferecia sempre que alguém perguntava o que eu seria quando fosse grande: “Escritor”.

Hoje vivo da escrita. Hoje sei o que é haraquiri. Cursei e abandonei a Medicina no oitavo período. Amei muitas mulheres e por elas fui amado. Amei tantas outras que não me amaram de volta ou deixaram de fazê-lo. Cresci, aprendi, vivi. Adoeci. Estive perto da morte e me recuperei. Envelheci.

Sou um homem diferente da criança que fui. E também sou aquela criança. Sou cínico, o que não era; acredito na Humanidade, o que não mudou. Sou mais amargo, o que não era; rio da desgraça e sempre ri.

Amo e sempre amei. A vida de nada vale sem paixões.

O velho temperamento explosivo amaciou – mas não o suficiente para que eu me sinta plenamente confiante com relação às minhas reações em situações extremas.

Escrevo melhor e isso é um prazer.

Não temo mais a morte como sempre temi. Se vier, veio. Não a recebo com boas vindas, mas a reconheço inevitável.

Sou um ser humano melhor do que era. Há muitos melhores do que eu; há também piores. Sou grato por ser capaz de admirar os primeiros e ignorar os últimos.

Fiz amigos e também os perdi. Construí uma boa carreira. Destruí relações promissoras. Falhei e venci. Ri e chorei. Tenho admiradores e detratores. Estouro, brigo e faço rir. Ensino e aprendo. Não sou feliz e não acredito na felicidade, mas sinto-me completo ao ouvir a risada de meus filhos. A alegria deles me basta. Sou um bom pai e isso também me basta.

Eu poderia ter me saído pior. E procuro evitar pensar que também poderia ter me saído melhor.

E aguardo o amanhã com curiosidade.

Que a humanidade se defina pelo que tem de melhor

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões | 55 comentários

Hoje pousamos um caminhão em Marte.

Vou repetir isso, pois parece uma sentença saída de uma obra de ficção científica: hoje, 6 de agosto de 2012, enviamos um equipamento exploratório do tamanho de um caminhão a outro planeta, pousando com precisão absoluta para que conseguisse já enviar imagens da superfície marciana imediatamente. “Curiosidade” é o nome da nave, que custou 2,6 bilhões de dólares e conseguirá não só registrar tudo através de fotos e vídeos, mas também é capaz de extrair rochas, analisar sua composição e enviar o resultado para casa – uma viagem que a informação leva 14 minutos para completar.

“Curiosidade”. Isto é o que impulsiona a humanidade. O desejo de saber mais, de se reconhecer ignorante, mas jamais limitado por esta ignorância, usando-a como alavanca para o saber. Esta é a diferença entre o cientista, o pensador, que faz perguntas para as quais não tem indícios de resposta, e outros que oferecem a mesma resposta para todas as perguntas. Um cientista não tem “fé”, mas incertezas. E se formula hipóteses que acabam sendo contraditas por fatos, repensa suas premissas em vez de tentar ajustar a realidade à sua visão preconcebida do mundo.

Ao contrário do que afirmam alguns, não há arrogância na Ciência. Se houvesse, esta não evoluiria.

Em 2012, enxergamos a menor das partículas, cuja existência havia sido teorizada há 50 anos, e enviamos um caminhão a Marte. Vimos o anúncio dos cientistas do CERN e o pouso ao vivo (embora este último com o atraso provocado pela distância) através de nossos computadores em vídeo transmitido por satélites e cabos para todo o mundo simultaneamente. Enquanto testemunhávamos a vitória da inteligência humana, podíamos acessar também imagens das Olimpíadas, que nos ofereciam um olhar sobre a vitória do empenho físico e do melhor que podemos fazer apenas com nossos corpos: um homem corre 100 metros em 9,63 segundos; uma jovem chinesa nada 400 metros medley em 4.28:43; uma mulher de 53 quilos ergue 131.

Mas não somos perfeitos, claro. Enquanto centenas de mentes se unem para demonstrar como o universo surgiu, um moleque invade um cinema e tira a vida de doze pessoas e um outro protozoário entra em um templo e elimina outras seis. Milhares de pessoas decidem prestigiar uma cadeia de restaurante cujo presidente classificara os homossexuais como aberração, usando suas carteiras e estômagos como suporte para a intolerância. No Brasil, figuras como Silas Malafaia, Bolsonaro e Reinaldo Azevedo diminuem o Q.I. coletivo apenas por respirarem, desperdício de carbono que são. Misoginia, homofobia e diversos outros tipos de intolerância são vendidos a milhões de pessoas sob a desculpa de que “Deus desaprova” esse ou aquele tipo de comportamento – como se Deus, caso existisse, não só rejeitasse suas próprias criações como ainda fosse estúpido a ponto de comunicar suas vontades através dos vermes que se apresentam como seus porta-vozes.

Isto pode nos desanimar. Angustiar. É difícil celebrar nosso avanço intelectual se este é combatido por grupos cada vez mais poderosos que trazem a ignorância não só como objeto de orgulho, mas como principal arma.

Mas aí me lembro de que um equipamento construído pela humanidade encontra-se agora a 250 milhões de quilômetros da Terra. E me lembro de que “enxergamos” uma partícula cuja meia-vida é de 1 zeptosegundo. E me lembro de que um sul-africano nadou 100 metros na modalidade peito em 58.46 segundos.

E concluo que, apesar de tudo, é uma época linda, esta na qual vivemos.