Cotidiano

Pessoas, não números

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 51 comentários

(Tirei alguns dias para lidar com algumas questões pessoais, mas, ao ler sobre o tiroteio no Colorado, senti a necessidade de dizer algo. Post publicado, volto a me ausentar.)

Sei que será a segunda vez consecutiva que cito minha mãe neste blog, mas não posso evitar, já que assim que li a primeira notícia sobre “12 mortos em cinema no Colorado” imediatamente fiz o que mamãe me ensinou a fazer ainda na adolescência: substituí o número por pessoas.

Lembro-me perfeitamente bem da primeira vez que minha mãe me ensinou a importância de jamais esquecer que tragédias não representam estatísticas, mas vidas: um terremoto havia atingido alguma cidade no Japão e o noticiário trazia números assustadores sobre milhares de pessoas mortas. Neste instante, ela virou-se para mim e disse: “O problema destes números é que tendemos a nos concentrar neles e esquecemos do que representam. Cada unidade desta estatística representa uma família destruída: um pai que não retornará à noite para beijar os filhos, uma mãe que terá que enterrar o próprio filho, uma criança que nunca vai descobrir o que é se apaixonar”.

Nunca me esqueci disso. O jornalismo tende a desumanizar as tragédias; concentra-se na escala do que ocorreu e se esquece de que a dimensão pessoal é muito mais aterrorizante. Não se trata de ignorar o microcosmos de um desastre, mas de perceber que este microcosmos representa uma dor infinita.

Um maluco em busca de sabe-se-lá-o-quê invade um cinema exibindo O Cavaleiro das Trevas Ressurge, fere 50 pessoas, mata 12 seres humanos e o que o jornalismo nos traz? Comparações com outros tiroteios similares (como se vidas humanas fossem comparáveis), estatísticas da violência, análises estúpidas sobre a influência nefasta do Cinema sobre insanos manipuláveis e (o mais repugnante) até mesmo discussões sobre como o incidente afetará a bilheteria do filme. E neste meio tempo acabamos nos esquecendo de que uma dúzia de irmãos de genoma deixaram de existir; seus sonhos, seus medos, suas esperanças, seus amores e suas ideias apagados do planeta em um súbito segundo de choque.

Irmãos como a jovem Jessica Redfield, que às 2:37 da manhã do dia 20 de julho de 2012 (horário de Brasília) sacou seu iPhone da bolsa enquanto se encontrava em uma sala de cinema em Aurora, no Colorado, e digitou o seguinte tweet: “Faltam 20 minutos para o filme começar”.

Foram as últimas palavras que a garota, que identificava seu prazer pela escrita em seu perfil, escreveu em sua vida. Um pouco antes, estava brincando com um amigo que não iria assistir à estreia naquela noite (“Psh. Loser!”); meia hora depois, estaria morta.

Ah, Jessica.

Há alguns anos, quando escrevi sobre Luciana Helena, uma amiga/quase paixão que morreu aos 16 anos, lembrei-me dos versos dos Rolling Stones: “All the dreams we held so close seemed to all go up in smoke”. Eles retornam quando penso em você, que nunca conheci, e nas 11 outras vidas desperdiçadas por um verme desesperado por reconhecimento (e cujo nome não citarei para não dar a ele o que desejava. Prefiro, como sabem, me concentrar no que temos de bom.).

Ultimamente, tenho sentido que basicamente passamos nossas existências lutando para permanecermos vivos. Saltamos de uma batalha a outra, de uma doença a outra, de um medo a outro, construindo nossos legados de acidente a acidente. Jessica Redfield teve sua luta interrompida estupidamente.

Que isso ao menos nos ajude a lembrar de como cada minuto que passamos nesse planeta é precioso.

Reflexos e reflexões

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 16 comentários

Esta madrugada surpreendi meu próprio reflexo no espelho e vi rapidamente um pouco do adolescente que fui. Pode parecer curioso, mas poucas vezes encaro o espelho num ato de vaidade, embora esta seja a própria natureza do objeto; na maior parte das vezes, quando olho para meu próprio rosto, mergulho num processo de auto-avaliação. Sim, claro, algumas destas dizem respeito às mudanças físicas que observo com o passar dos anos: cabelos mais grisalhos, vincos maiores na testa, linhas de expressão e outros tantos efeitos dos anos; na maior parte do tempo, porém, o que estou tentando enxergar é quem está ali de fato.

Soa estranho, eu sei, mas sinto ser mais fácil avaliar onde estou e como estou quando vejo quem sou. Frequentemente, ao tentar apenas me analisar, percebo forjar explicações para atitudes e ideias, racionalizando decisões que, bem sei, não se sustentariam normalmente caso eu estivesse avaliando outra pessoa. Mas faz parte da natureza humana tentar justificar a si mesmo, creio.

No entanto, o escrutínio torna-se mais intenso e mais impiedoso diante do espelho. Você sabe o que vai em sua mente, mas o olhar no espelho envergonha-se por ser surpreendido durante o subterfúgio. Conversar com o espelho torna-se, assim, menos uma ação esquizofrênica ou narcisista e mais um mecanismo de reflexão (sim, literal, metafórico e filosófico) e auto-análise.

Há até mesmo bases científicas que de certa forma explicam isso – e, como admirador irrefreável do pensamento científico, encontrei este estudo justamente quando tentava buscar uma explicação para o que descrevi acima: em outubro de 1979, quatro pesquisadores relataram no “Journal of Personality and Social Psychology” um experimento simples, mas engenhoso, que consistia em montar duas mesas sobre as quais vasilhas com doces se encontravam. Diante de uma das mesas havia um grande espelho, mas não da outra. Numa noite de Halloween, 363 crianças foram instruídas a pegar apenas um doce quando passassem pela mesa – e o que os pesquisadores constataram é que os pequenos tendiam a pegar mais doces quando não havia o espelho, demonstrando que o simples ato de enxergar o próprio rosto inibia o comportamento transgressor. O estudo foi repetido posteriormente, com outras 349 crianças, e o resultado se manteve.

Detalhe: quanto mais velha a criança, maior o efeito de auto-crítica proporcionado pelo próprio reflexo.

E isto sugere parcialmente por que sempre achei mais fácil me questionar diante do espelho: você pode mentir para si mesmo, mas não para si mesmo.

Pois esta madrugada não menti: olhei para o rosto familiar, percebi com certo grau de conformismo mais alguns cabelos brancos que antes não existiam, vi meus próprios olhos mais cansados do que de costume e tentei sorrir de volta para a figura à qual estou preso há quase 38 anos. O sorriso surgiu melancólico, mas ao mesmo tempo trouxe conforto: reconheci nele a mesma melancolia que já vi tantas vezes ao longo dos anos. Não uma melancolia depressiva, destrutiva, mas aquela que abraço por me manter cético o bastante para questionar o mundo, mas não a ponto de deixar de apreciá-lo. Pois aprecio. Vejo uma gravura, ouço uma melodia, leio um conto (ou mesmo um tweet inspirado), assisto a um episódio de uma boa série ou revejo um terror de 1963 (Desafio ao Além, no caso) e me lembro de como somos criaturas engenhosas, criativas, mágicas. Somos a única espécie que gasta energia para criar algo que entretenha o outro, emocionando-o, divertindo-o ou assustando-o.

E isso me comove – a natureza da Arte e seu propósito de trazer beleza ou reflexão ao mundo.

Foi este o eu adolescente que reencontrei hoje no reflexo: aquele que, aos 13, 14 anos, sentia-se feliz com um livro nas mãos, um walkman (sim, eu sei) nos ouvidos ou ao colocar uma fita no videocassete. E percebi que envelheci, aprendi, fiquei mais cínico, um tico mais amargurado, mas que enquanto puder cercar-me de Arte, terei algum grau, mesmo que pequeno, de indiscutível felicidade.

Ao menos, foi isso que o espelho me disse esta madrugada.

Meu Pai – II

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Luca & Nina, Variados | 34 comentários

Meu pai morreu aos 40 anos de idade, em um acidente de carro. O ano era 1980 e ele voltava de uma viagem de trabalho quando um caminhão acertou o veículo no qual ele dormia no banco do passageiro. Conhecido por correr quando estava atrás do volante, ele havia passado a direção para um amigo por sentir-se cansado.

O amigo sobreviveu ao acidente. Meu pai morreu na hora.

Lembro-me dele com frequência, como já escrevi aqui. Na realidade, “lembro-me” é o verbo errado, já que tenho poucas recordações de meu pai. O mais correto seria dizer “penso”. Sim, penso nele com frequência.

Papai veio de uma família humilde de Porto Firme, no interior de Minas Gerais. Ainda jovem, mudou-se para Belo Horizonte para tentar melhorar suas condições de vida. Trabalhava como se não houvesse amanhã e, entre os empregos que mantinha para pagar a faculdade de Direito, estava o de carregador de caixas no Mercado Central. Foi lá que conheceu meu tio-avô José Ribeiro que, por sua vez, apresentou-o à família, levando-o a conhecer minha mãe. Quando começaram a namorar, muitos anos depois, o relacionamento enfrentou a resistência de vários parentes de mamãe: além de pobre, ele era onze anos mais velho. A proibição teve efeito contrário ao pretendido e, há alguns anos, minha mãe confessou não ter certeza se teria se casado caso ele não houvesse sido tão humilhado por alguns integrantes da família.

Conhecendo o coração de mamãe e sua natureza compassiva, não duvido que esta tenha sido uma motivação forte para levá-la a se casar ainda aos 19 anos.

Quando papai tinha 34 anos, nasci. Aos 39, tornou-se novamente pai. Estava construindo uma carreira bem-sucedida no Direito, tinha uma esposa jovem e bonita, um casal de filhos saudáveis e, por tudo que contam, sentia-se realmente feliz pela primeira vez na vida – o que o levava a tentar controlar o temperamento notoriamente explosivo e a brigar menos.

O caminhão interrompeu sua trajetória neste momento. Tinha acabado de iniciar sua quinta década de vida.

Não posso dizer, porém, que percebi imediatamente o que acontecera à minha própria existência. Antes de me dar conta de que não tinha mais um pai, fui marcado pela imagem de minha mãe chorando desesperadamente ao receber a notícia. Mesmo ao ouvir meu tio explicando para meus primos que eu “havia perdido meu papai” falhei em processar a informação. Tinha cinco anos, afinal.

Não fui ao velório ou ao enterro. Ainda hoje acho ter sido a decisão correta por parte de minha mãe. Não creio que a imagem de meu pai – o adulto que brincava comigo e me jogava para cima – deitado num caixão seria algo que gostaria de carregar na mente.

Cresci sem pensar muito no que significava ser órfão de pai. Sim, era estranho ver meus colegas preparando trabalhinhos de escola especiais para os pais, em agosto, mas eu acabava por integrar-me às tarefas ao fazer versões especiais para minha mãe. Adolescente, pensei menos nele.

E aí tornei-me pai e sua morte começou a doer de verdade.

É curioso: esta dor vinha não do fato de finalmente perceber sua ausência ou de lamentar ter crescido sem a figura paterna (algo que, por exemplo, me custou muitas feridas permanentes no rosto por ter aprendido a barbear-me sozinho), mas por finalmente me dar conta de tudo que ele havia perdido. Apaixonado pela paternidade (o que encontra respaldo nas lembranças que tenho dele brincando comigo e me fazendo carinho), ele não teve chance de exercê-la; dedicado a construir algum patrimônio financeiro, morreu sem poder aproveitá-lo de fato; persistente ao conseguir casar-se com minha mãe, não conseguiu envelhecer ao seu lado.

Gostaria de ter certeza de que o pai que vive em minha mente se parece com o que realmente existiu, mas sei que isto jamais acontecerá. O Geraldo que construí como imagem do que perdi é um amálgama de lembranças fragmentadas, de histórias que ouvi ao longo dos anos e do desejo de ser filho de um bom homem.

O que sei de fato é que tenho pensado nele com frequência cada vez maior. E enxergo os paralelos: tenho um casal de filhos cujas idades refletem a distância cronológica existente entre minha irmã e eu; viajo a trabalho constantemente e perco, assim, vários momentos marcantes de seu crescimento; tento cada vez mais domar meu temperamento para oferecer um bom exemplo para as crianças. Não tive que enfrentar suas dificuldades financeiras na juventude, mas tive minha parcela de obstáculos com dinheiro ao começar uma família – e apenas nos últimos cinco ou seis anos finalmente consegui um certo conforto, embora as viagens tenham acabado por cobrar seus sacrifícios.

Este ano completo 38 anos. Em mais dois, terei a idade que meu pai tinha ao morrer.

E constato como ele era jovem e tinha o mundo à sua frente.

E, sim, sinto-me estranho e inquieto ao perceber que logo serei mais velho do que meu pai foi em seu fim. Que serei seu sênior quando queria apenas ter a visão de um filho que olha para o pai com a certeza de que este sabe mais, conhece mais e… viveu mais.

A aberração e o assaltante

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões | 130 comentários

Há alguns minutos, depois de ler um tweet revoltado da querida Maria Fro, descobri o vídeo abaixo no blog do colunista Renato Rovai e me vi experimentando um intenso sentimento que combinava uma pena profunda e um ódio colossal: pena de um assaltante, vejam só, e ódio por uma jornalista.

Não é a primeira vez que o infortúnio e a dor de miseráveis se transformam em matérias policialescas que tentam ganhar o riso sádico do espectador através da humilhação alheia: programas sensacionalistas, infelizmente, existem aos montes na tevê brasileira – geralmente em canais abertos e exibidos no período da tarde, quando têm acesso às mentes influenciáveis de crianças que, assim, gradualmente se convertem em robôs prontos para enxergar o próximo de maneira absolutamente desumanizada. Que estes programas persistam e se proliferem em emissoras que se beneficiam de concessões públicas já é espanto suficiente; saber que rendem audiências colossais é motivo apenas para a depressão.

Até hoje, porém, confesso que agia de forma covarde: evitando assistir a qualquer clipe originado por estes programas, eu me protegia do choque e da revolta. O que os olhos não vêem não machuca a alma. No entanto, movido pelos tweets de Maria Fro, cedi ao impulso de clicar no vídeo.

E testemunhei uma fratura exposta na humanidade.

Somos um país de desiguais. Filhos de bilionários atropelam e matam ciclistas e são defendidos por apresentadores de tevê playboys num corporativismo de afortunados. Um jovem negro rouba o colar de uma garota, é acusado de estupro, apanha da polícia e tem o rosto ferido exposto em rede nacional para o consumo macabro de uma audiência ávida por desgraças. Como se não bastasse, uma repórter bela, saudável e exalando sentimento de superioridade diante do animal à sua frente não hesita em acusá-lo do crime que ele nega enquanto, rindo divertida da ignorância daquele que não teve suas oportunidades de estudo, faz escárnio de suas tentativas desesperadas de se defender. Fria e impassível diante das lágrimas do ser humano que ali sofre, ela o obriga a repetir palavras que ele jamais pôde aprender – e quando ele se dirige à família através da câmera, implorando por ajuda e compreensão, o editor do programa, certamente rindo da própria ideia, inclui um efeito sonoro de choro de criança ao fundo enquanto estampa a legenda “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”.

“Acusado de estupro alega inocência”.

Depois de ter sua voz registrada em centenas de horas de gravações que comprovam seus crimes, Carlos Cachoeira é tratado pela mídia nacional como “suposto contraventor”. Sua voz “supostamente o implicaria”, com o verbo no futuro do pretérito. Já o miserável no tabloide audiovisual “alega inocência”. A situação inverte-se; já condenado pela repórter, que o insulta com berros de “Estuprador! Estuprador!”, cabe a ele provar a própria inocência, não ao sistema comprovar sua culpa.

É uma lógica de Kafka exclusiva para pobres e pretos. Sim, “pretos”; chamá-lo de “negro” seria conferir a ele um respeito que o mundo não lhe reserva.

Chorei ao ver as lágrimas desesperadas do assaltante confesso Paulo; envergonhei-me de dividir o genoma da jornalista Mirella Cunha. Certa de fazer um bom trabalho ao pisotear a honra de alguém que ela obviamente julga não merecer o oxigênio que respira, ela parece orgulhosa de exibir sua beleza externa para o público doente que assiste ao seu espetáculo deprimente. O que não sabe é que a feiura de seu caráter a torna infinitamente mais repulsiva que o rapaz machucado e de dentes podres e tortos que ataca com seu microfone e seu status social.

Celebrid… oh, wait.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Viagens | 10 comentários

Na sala de embarque do JFK, em Nova York, um rapaz se aproxima:

– Com licença… você é o Pablo Villaça, não é? Tudo bem? Sou seu leitor há uns cinco anos. Eu sabia que você estava nos Estados Unidos, mas não esperava a coincidência de encontrá-lo aqui!

Explico que deveria ter voltado no dia anterior para o Brasil, mas que havia perdido o voo por causa da chuva em Chicago. Pergunto se ele estava ali a passeio, falamos por mais alguns minutos e ele pergunta se poderia tirar uma foto comigo. Enquanto sua namorada opera a câmera, percebo uma garota nos observando e, quando o jovem se afasta (voltaríamos a nos encontrar no voo. Grande abraço e obrigado pelo carinho, Geovane!), a moça se aproxima.

– Ei… tudo bem? Você… se importa se eu tirar uma foto com você também?

Sentindo-me uma celebridade, digo que sim. Assim que a imagem é registrada, porém, ela se vira timidamente para mim e diz:

– Posso te fazer uma pergunta?

E antes que ela abrisse a boca, eu já sabia o que viria a seguir:

– Quem é você?

Da fama ao anonimato em três segundos.

Meu amigo Omer

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados, Viagens | 17 comentários

As pessoas adoram falar mal do Brasil. Qualquer tropeço em qualquer área e já soltam um “é este o país que quer sediar uma Copa?” ou um “só no Brasil, mesmo!”. (Já escrevi sobre isso aqui.) No entanto, basta vir aos EUA, por exemplo, para constatar que não apenas vários dos erros cometidos no nosso país são repetidos na terra de Obama como ainda temos uma vantagem imensa em relação aos norte-americanos: a educação. Porque é impressionante como os atendentes aqui costumam ser grosseiros. Eu já havia notado isso em visitas anteriores, quando, por exemplo, os funcionários da FAO Schwarz praticamente empurraram os clientes para fora da loja ao fim do expediente, mas hoje vivenciei algo que… bateu o recorde.

Estava com voo marcado para Nova York hoje à noite, saindo do aeroporto O’Hare, em Chicago. A ideia (que já havia sido executada ano passado sem problemas) era passar a noite na casa do meu amigo Josh, pegar algumas coisas que havia deixado lá antes de ir para o Ebertfest e embarcar para o Brasil na manhã seguinte, às 9:25.

Eu não contava com a chuva, os relâmpagos e o granizo.

Marcado para as 19h50, o voo começou a ser adiado em saltos de meia hora. Ninguém nos informava absolutamente nada sobre as condições meteorológicas ou do aeroporto e pareciam sugerir que, apesar do atraso, o voo aconteceria. No entanto, comecei a notar algo: sempre que alguém procurava os atendentes da American Airlines para fazer alguma pergunta, era recebido com uma resposta ríspida. Finalmente, depois de duas horas de atraso, me dirigi ao balcão e perguntei se iríamos mesmo para Nova York ou se o voo seria cancelado. A resposta do atendente?

– Sir, you’re wasting my time and your time with these questions.

Fiquei boquiaberto. Olhei fixamente para o sujeito e pensei seriamente em mandar um “Fuck you” caprichado, mas então me ocorreu que, caso o voo fosse mesmo cancelado, eu perderia a passagem para o Brasil e não poderia encontrar minha família amanhã. Como se não bastasse, onde eu ficaria esta noite? Mais deprimido do que irritado, afastei-me.

Minutos depois, o anúncio do cancelamento era ouvido. Imediatamente, uma fila imensa formou-se para a remarcação das passagens e, mesmo conseguindo ficar entre os primeiros no atendimento, só consegui um voo para a tarde da sexta. Aborrecido, perguntei se a American Airlines ajudaria os passageiros que não moram em Chicago a encontrar um lugar para dormir e a resposta, mais uma vez, beirou a provocação:

– Sir, the passengers have to take care of themselves. Next!

O “sir” é que me irritou mais.

Liguei para o hotel no qual havia me hospedado em Chicago e fui informado de que estava lotado. Mais cinco ou seis tentativas e nada. Eu teria que passar a noite no aeroporto. No desespero, decidi ligar para meu amigo Omer Mozaffar.

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Omer é um gênio.

Eu sei que esta palavra se tornou corriqueira no twitter, sendo usada para descrever absolutamente qualquer coisa, mas eu a estou empregando em seu sentido mais puro: Omer Mozaffar é dono de uma inteligência e de uma cultura impressionantes. Professor universitário de Humanas, Artes e Ciências, Omer é um professor amado pelos alunos e chegou a receber o prêmio de “Excelência no Ensino” em 2011. Oferecendo várias disciplinas relacionadas à cultura islâmica (começando por “Introdução ao Corão”), Omer me deixou ainda mais fascinado pelo brilhante A Separação, por exemplo, ao explicar nuances existentes no filme com relação ao choque entre a cultura persa e a árabe – e não me espantei quando descobri que ele entendia o persa falado pelos personagens apesar de ter nascido em Chicago (sua ascendência é paquistanesa). Por outro lado, eu fiquei surpreso quando, durante a exibição de Patang no Ebertfest, um problema na formatação da tela ocultou as legendas e Omer, sentado ao meu lado, imediatamente começou a traduzir o que aquelas pessoas diziam em hindu.

– Quantas línguas você fala?! – perguntei, fascinado.

– Seis.

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Em seu perfil no twitter, Omer se apresenta apenas com a frase “I solve problems” – e eu descobriria ser esta a pura verdade ao ligar para ele e informá-lo dos contratempos que enfrentara no aeroporto. Sem pensar duas vezes, ele sugeriu que eu pegasse o metrô para a cidade enquanto tentaria encontrar um lugar para eu dormir (ele mora ao sudeste de Chicago; o aeroporto fica a noroeste. Uma distância de 40 km. Quando cheguei à cidade, ele me buscou de carro (às 23h30!), me levou para comprar algumas coisas básicas (escova de dentes, desodorante – minha mala ficou presa no aeroporto) e então me conduziu até a casa de um aluno, Nader Ismail, que gentilmente me ofereceu um quarto em seu apartamento – que fica bem mais perto do O’Hare.

E aqui estou. (A TAM aproveitou para cobrar uma pequena fortuna pela remarcação do meu voo para o Brasil.)

Duas conclusões: os atendentes dos EUA são péssimos. E ter amigos é um troço muito bom. Especialmente quando estes são como meu querido Omer Mozaffar.

Um veterano

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 24 comentários

Eu me lembro de quando comecei a escrever sobre cinema. Estávamos em 1994 e, depois de assistir a Instinto Selvagem, senti o impulso de tentar discutir os temas do filme (sexualidade, força feminina, misoginia, o sexo exposto de Sharon Stone) em um breve texto para consumo próprio. Na realidade, eu já devorava textos sobre linguagem e teoria cinematográficas desde os 14 anos, mas jamais pensara em transformar aquela paixão em profissão – e desde que vira Tempo de Despertar eu tinha a mais plena convicção de que meu futuro residia na Medicina, que eu finalmente começara a cursar no ano em que me aventurei a escrever sobre o filme de Paul Verhoeven.

Infelizmente, não me ocorreu guardar aquele primeiro exercício – e tantos outros que se seguiram. Alguns meses depois, porém, comecei a escrever pequenas resenhas (sim, “resenhas”; eu não me atreveria a chamar aquelas tentativas de “críticas”) para praticamente todos os BBS (Bulletin Board System – a pré-Internet no Brasil) de Belo Horizonte, atribuindo cotações para todos os lançamentos da semana. Sem perceber, eu havia dado meus primeiros passos na carreira que, 18 anos depois, se transformaria em meu meio de vida e que me levaria a fundar o Cinema em Cena três anos depois, em 1997.

Foi um período de incertezas: há um futuro no que faço? Conseguirei viver disso, manter meus filhos (que ainda não existem)? Eu tenho algo a acrescentar neste campo? Devo largar a Medicina a dois anos e meio da formatura e me dedicar ao Cinema? É prudente? É viável? É sensato?

Tropeços, inseguranças e conflitos internos se seguiram, mas de alguma forma as coisas pareceram se ajustar – elas sempre se ajustam. O curioso é que, embora tenha percorrido todo este caminho, não percebi de fato a distância coberta pelo tempo. Mas ontem, subitamente, aconteceu algo que me fez parar, olhar para trás e perceber, chocado, como já não conseguia enxergar o ponto de partida. Eu tinha a impressão de ter iniciado a corrida há alguns dias, mas quase duas décadas se passaram.

O “algo” foi esta matéria que, publicada no jornal O Estado de Minas neste domingo, me pegou completamente de surpresa.

Minha primeira reação foi de alegria, obviamente. Ser chamado de “unanimidade” e saber que inspirei de certa forma uma nova geração de cinéfilos é algo que me deixa feliz e orgulhoso. E esta alegria, claro, se mantém.

Porém, como dono de uma natureza melancólica, logo passei a refletir sobre a passagem do tempo: ontem eu iniciava no caminho da crítica; hoje sou visto como um veterano pelas novas gerações. Quando isso aconteceu? Sim, eu já havia percebido uma certa mudança de “status” na simples reação provocada por meus textos: antigamente, praticamente tudo o que eu publicava alcançava uma reação calorosa – eu era uma “nova voz”, representava algo novo. Com os anos, surgiram detratores e aquilo que chamo de “anti-fãs”: pessoas que parecem me odiar e desprezam tudo o que escrevo, mas que ainda assim parecem ler todas as palavras que publico apenas para poderem manifestar seu desgosto. Foi quando percebi que já não era mais uma “novidade”: quando além de comentários negativos construtivos, que querem acrescentar algo à discussão, surgiram também aqueles que querem apenas ofender, ferir, alfinetar.

Mas este artigo… não sei. De certa forma, virou uma chave em minha mente. Percebi, por exemplo, que minha reação às provocações e ofensas era fruto não do orgulho ferido ou mesmo de raiva, mas do contraste entre o feedback que recebia na juventude da carreira e o que surge em sua maturidade. E subitamente me vi capaz de fazer algo que sempre invejei em outros: ler um tweet ou uma mensagem ofensiva, de provocação, e rir. Não de escárnio ou por desprezar o autor, mas por achar genuinamente divertido ver tanta raiva brotando de alguém que nem me conhece e que decidiu que me detesta porque… porque… não gostei de algum filme que ele(a) curtiu.

E só por isto eu já sou eternamente grato ao artigo publicado neste domingo e também aos jovens blogueiros que me citaram com tamanha generosidade. 

O que eu precisava perceber é que envelheci e que a percepção de quem me lê mudou comigo. Parece óbvio, eu sei, mas enxergar-se nem sempre é fácil como acreditamos.

Um Dia no Madre Tereza

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 34 comentários

Embora quase cinco anos houvessem transcorrido, eu era capaz de antecipar cada movimento da cadeira de rodas na qual me encontrava enquanto era conduzido ao centro de imagens do Hospital Madre Tereza – e um nanossegundo antes de entrar no edifício, já me preparei para a rajada de vento frio que sabia que me receberia em função do forte ar condicionado usado para manter as máquinas operando em segurança. Olhando para minhas pernas apoiadas nos pés da cadeira enquanto o assistente de enfermagem me conduzia para a tomografia, voltei a 2007 e praticamente consegui reviver o medo, as dores e as incertezas do pior período de minha vida, quando, por algumas semanas, lutei para sobreviver com a ajuda do cirurgião Gustavo Abras e da magnífica equipe do hospital.

Foi uma sensação estranha: sendo levado em 2012 para avaliar se um tumor crescia em meu crânio ou se um aneurisma ali se arrebentara, eu lutava para sair de um flashback que insistia em me arrastar para agosto de 2007 – e de certa forma eu sentia que, se olhasse para um espelho naquele momento, me enxergaria barbado, cabeludo, com um acesso central saindo da jugular, um dreno atravessando as paredes do abdômen e os pontos negros e assustadores descendo do diafragma à pélvis enquanto mantinham minha barriga (mal) fechada em função da hérnia que se insinuara depois de duas cirurgias de emergência e que acabaria exigindo uma terceira meses depois.

E então a colossal dor de cabeça me puxava de volta ao presente e eu me lembrava de que, embora o cenário fosse o mesmo, a ameaça agora era outra.

Na realidade, a semente do dia 4 de janeiro de 2012 começara a ser plantada no dia 25 de dezembro de 2011, embora eu ainda não soubesse. Naquele dia, enquanto nos preparávamos para uma viagem ao litoral do Espírito Santo, Nina se queixou de dores de cabeça e nos olhinhos – e a febre baixa confirmava alguma infecção. Em mais um dia, porém, a pequena já se encontrava recuperada – instante no qual seu irmão mais velho começou a se queixar dos mesmos sintomas (e quem tem filhos pequenos ou assistiu ao ótimo A Vida Secreta dos Dentistas sabe como estas viroses se alastram por uma família como um incêndio em uma fábrica de foguetes). Assim, quando Luca demonstrou estar curado, foi seu pai quem caiu doente por dois dias.

Ontem, porém, amanheci sem dores ou febre, embarcando de volta a BH com a certeza de ter estar novamente são. Até que, por volta de 10 da noite, comecei a sentir um leve latejar nas têmporas e percebi que teria uma nova dor de cabeça. Tentando antecipar-me a ela, preparei-me rapidamente para dormir, certo de que acordaria já bem – e confiante de que o plano funcionaria, fui para a cama.

Assim que pousei a cabeça no travesseiro, o mundo explodiu.

Não costumo ter enxaquecas – aliás, não me lembro de jamais ter tido alguma -, mas imediatamente constatei que não estava experimentando uma dor normal. “This goes to eleven”, pensei, não conseguindo evitar o hábito cinéfilo de relacionar tudo ao Cinema (uma descrição que, horas depois, eu repetiria ao ouvir o neurologista pedir que eu classificasse a dor de 1 a 10. Infelizmente, em vez de perceber a referência a This is Spinal Tap, ele provavelmente me julgou apenas um babaca que queria mostrar que sabia falar inglês). Ainda assim, insisti em tentar dormir, acreditando tolamente que: a) conseguiria; e b) a dor melhoraria sozinha. Não consegui e não melhorou.

Por volta de 5 da manhã, já enlouquecido pela dor e incapaz de pensar claramente, decidi que era hora de voltar ao meu velho amigo Madre Tereza.

Entrando lentamente na recepção do hospital, como se tivesse dificuldades para andar (e tinha, já que cada passo parecia triturar meu cérebro), fui rapidamente dirigido ao plantonista. Descrevi tudo o que ocorrera nos dias anteriores e, então, ele iniciou os exames – e já de cara pediu que eu acompanhasse o movimento de seus dedos, franzisse a testa, estendesse os braços para a frente e fechasse os olhos e tocasse alternadamente a ponta do nariz com os dedos indicadores.

Para um ex-estudante de Medicina, a razão já ficara evidente no primeiro pedido: ele buscava sinais de comprometimento neurológico. Estava avaliando a possibilidade de um tumor, um AVC hemorrágico ou algo similar. Gelei. Assim, o pedido de uma tomografia não me surpreendeu. Amedrontou-me, mas não surpreendeu.

Enquanto aguardava ser chamado, recebi uma dose venosa de dipirona que foi derrotada sem problemas por minha valente dor. Frustrado, o médico prescreveu uma dose de corticóide, também venosa.

– Você vai sentir um formigamento nas partes íntimas quando o remédio for injetado. – explicou a enfermeira.

– Legal! Posso levar algumas doses para casa quando receber alta? – brinquei, tentando me expressar através da dor. Sem sucesso, já que o que escapou dos meus lábios foi um quase inaudível “Leandj! Posljevar casaqunreshebalt?”.

Alguns minutos depois, porém, a dor fugia do corticóide com o latejar entre as pernas. Eu conseguia pensar novamente.

Em mais alguns momentos, era empurrado em uma cadeira de rodas para o centro de imagens do Madre Tereza.


Quarenta minutos depois, eu encontrava-me diante da neurologista.

– Não há sinal de tumor ou de qualquer outra alteração significativa. Nem de um sangramento significativo.

Suspirei aliviado. E então percebi que ela não acabara de falar.

– Não é possível descartar, porém, um sangramento menor. E precisamos descartá-lo para ficarmos tranquilo.

Antes mesmo que ela dissesse as palavras seguintes, eu já encolhi na cadeira por saber que viriam.

– Para isso, teremos que fazer uma punção lombar.

Vários exames me ensinaram a temê-los quando estudava Medicina na UFMG, mas dois deles em particular: a punção lombar e a da veia subclávia (este acima de qualquer outro). Confrontado com a realidade de finalmente ter que me submeter a um deles – com a condição, espero, de jamais ter que passar pelo outro -, percebi que a especialista tinha toda a razão em se mostrar precavida e, mesmo contrariado, preparei-me para o inevitável.

Sem muito sucesso: assim que o segundo neurologista entrou na sala e pediu que eu me deitasse de lado e buscasse aproximar a cabeça dos joelhos, comecei a visualizar a agulha afastando as fibras da dura-máter em busca do líquor. Depois das consideráveis fincadas da anestesia, senti a agulha penetrando a pele e não consegui evitar um movimento.

– Opa, a agulha bateu no osso. Evite se mexer.

Sei que ela (uma excepcional profissional) estava tentando me alertar, mas a expressão “agulha bateu no osso” praticamente garantiu que eu fizesse outro movimento, levando a outra flechada.

Com a pressão liquórica medida (normal), os dois médicos começaram a recolher dois tubinhos de líquor, esperando pacientemente o gotejamento. Para mim, no entanto, o tempo havia se congelado na imagem de minha coluna perfurada por uma agulha que a drenava.

Dez ou quinze minutos depois, o exame estava encerrado. Restava esperar duas horas pelo resultado, já que o aspecto claro do líquor não eliminava a possibilidade de um microsangramento que só poderia ser observado em laboratório.


– Não há presença de sangue no líquor. – a doutora me informaria duas horas depois.

Respirei aliviado apenas para, mais uma vez, perceber que havia antecipado o alívio, sentindo-o antes da conclusão das notícias.

– Mas achamos evidências fortes que apontam para a causa da cefaleia.

Ela remexeu nos papéis que se encontravam sobre a mesa enquanto eu tentava decifrá-los de ponta-cabeça.

– Tudo indica que se trata de uma meningite viral.

Me…ningite?

– Parece bem claro o que ocorreu: sua filha pegou a virose e a transmitiu para o irmão. Neles, o ciclo da doença cumpriu o trajeto normal: tiveram febres, sintomas, o corpo reagiu, a febre foi controlada com remédios e eles se curaram. Mas em você, depois do ciclo inicial idêntico ao deles, a história mudou um pouco e o vírus conseguiu atravessar a barreira hematoencefálica e atingir o cérebro… ou, no caso, a meninge.

A maldita retocolite!

Então era isso: a semente do 04 de janeiro de 2012 fôra plantada bem antes, em 2007, quando desenvolvi a retocolite que perfurara meu intestino e falhara por pouco em me matar. Doença autoimune disparada pelo estresse, é controlada por um medicamento chamado mesalazina e provavelmente estes dois elementos foram responsáveis por enfraquecer minha defesa, permitindo que o vírus fosse bem sucedido em meu organismo quando falhara nos corpos de meus filhos (e ainda bem que assim foi). 

– Como você não pode tomar antiinflamatórios por causa da retocolite, tomará corticóide por três dias. Mas hoje é melhor que permaneça internado para que observemos como evoluirá sem medicamentos.

Voltei ao ambulatório enquanto aguardava por um quarto. Ao meu lado direito, um senhor de 89 anos, com a perna esquerda amputada, retornava ao hospital pela segunda vez em poucas horas, enquanto do lado esquerdo um senhor um pouco mais jovem com sinais claros de Alzheimer avançado representava um desafio clínico que obviamente fascinava os quatro neurologistas que o atendiam, já que todos aqueles sinais da doença haviam surgido apenas nos últimos 30 dias – uma rapidez impossível para o Alzheimer. “Sugere uma doença inflamatória do sistema nervoso central”, apontou um. “Ou uma doença priônica”, complementou outro. Por alguns segundos, esperei que o chefe da equipe tirasse um pincel atômico do bolso e começasse a rabiscar as paredes enquanto solicitava que os colegas sugerissem mais diagnósticos diferenciais. 

Mas quando eu me preparava para berrar “Lúpus!”, recebi a notícia de que teria alta, já que a dor melhorara, e que poderia continuar o tratamento em casa.

Ao todo, permaneci 13 horas no Madre Tereza – um tempo que empalidece diante dos 30 dias ali passados em 2007.

E ao menos agora tenho uma tomografia para comprovar aquilo que todos já sabiam: não tenho nada na cabeça.

Tristeza por mais um aluno

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Curso | 15 comentários

Há cerca de 18 meses, lamentei aqui a morte de um aluno de Porto Alegre, que se matou depois de romper com a namorada. Foi um baque, já que me lembrava claramente do jovem e de sua curiosidade durante o curso. É sempre um choque testemunhar o desperdício de uma vida cheia de potencial – e toda vida, especialmente em seu início, encerra em si um potencial magnífico -, mas quando este desperdício é autoinflingido, a sensação se torna particularmente angustiante.

Digo isso porque acabo de receber a notícia de que um outro aluno cometeu suicídio há alguns dias. A pedido da pessoa que me informou, não direi seu nome ou mesmo a edição do curso feita por ele a fim de evitar que alguém o identifique – mas vê-lo na foto de “formatura” do Teoria Linguagem e Crítica, com  sua juventude estampada no rosto, e pensar que já não existe é algo que… bom, dói.

Pode parecer absurdo dizer que depois de 1.060 alunos nos últimos dois anos me importo com o destino de um deles em específico, mas, sim, me importo. Na realidade, eu lamentaria a notícia mesmo que jamais tivesse cruzado seu caminho, mas saber que compartilhava um amor profundo pelo Cinema, que dividimos o mesmo espaço por uma semana e que de certa forma fiz parte de sua vida é algo que, confesso, me faz sentir… afetado pessoalmente. E, ao mesmo tempo, me faz desejar voltar no tempo, dar um cascudo em sua cabeça e dizer “Nem pense nisso. Há solução para tudo. E digo isso com a experiência de alguém que toma anti-depressivos há anos e que também já pensou em suicídio”.

“O suicídio é uma solução permanente para um problema temporário”, disse alguém – e concordo com isso em gênero, número e grau.

O lugar de um jovem não é sob a terra, mas correndo sobre esta a perseguir seus sonhos.

Queria poder ter dito isso ao meu aluno, mas faço isso agora para os outros 1.058. Vocês são únicos, lembrem-se disso – e, consequentemente, valiosíssimos.

Somos humanos, não um canal de notícias

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Mundo | 29 comentários

Há alguns dias, um blogueiro famoso morreu precocemente em função de problemas crônicos de saúde. Eu não o conhecia e tampouco o lia, mas a reação à sua partida me chamou a atenção. Em um primeiro momento, dezenas (talvez centenas) de tweets se espalharam com palavras do tipo:

“Morreu FulanodeTal. Muito triste. #FulanodeTal #RIP”
“Arrasado com a morte de FulanodeTal. Descanse em paz! #FulanodeTal #RIP”

E assim por diante. O que mais me intrigou, no entanto, foi perceber que, minutos depois, aquelas mesmas pessoas seguiam suas mensagens de “arrasado” e “muito triste” com outras que diziam algo como

“Vazou o novo episódio de Glee!!!!!!”
“Ai, bati o dedão no sofá. PQP essa merda! rsrssrsrs”

Confesso que senti dificuldades em conciliar imagens tão contrastantes: a de alguém chateado com a morte de um jovem e a de uma pessoa excitada pelo lançamento do episódio semanal de uma série. Especialmente considerando a justaposição imediata destes sentimentos.

Isto me remeteu ao que ocorreu há cerca de um mês e meio, quando o crítico mineiro Marcelo Castilho Avellar faleceu. Chateado e surpreso com sua morte súbita, postei vários tweets, publiquei um post e comentei o ocorrido no Facebook (além, claro, de conversar com diversos amigos em comum pelo telefone). Mesmo em meio à mostra de SP, decidi não publicar qualquer outro tweet sobre os filmes daquele dia, já que não me senti à vontade para tanto – e, para meu espanto, não tardou até que começasse a receber mensagens de leitores através das redes sociais dizendo que “ok-já-haviam-entendido-que-eu-estava-chateado-com-a-morte-do-“sujeito”-e-será-que-por-favor-eu-poderia-mudar-de-assunto-antes-que-me-dessem-unfollow?”. Talvez eu não devesse me surpreender com este tipo de reação, mas a verdade é que não só me surpreendi como fiquei chocado. Quem eram aquelas pessoas? Que caráter monstruoso era esse?

A resposta, claro, é que eram pessoas comuns que provavelmente nada tinham de monstruosas. Eram apenas pessoas agindo com a frieza habitual da Internet.

Em um mundo no qual a comunicação se dá primordialmente através de toques num teclado dirigidos a nicks numa tela de computador, muitos acabam se esquecendo de que por trás daqueles apelidos há pessoas e que as palavras digitadas provocam efeitos reais sobre elas. De “sociais”, redes como Facebook e Twitter trazem apenas a característica de associação entre pessoas, mas é um erro crasso acreditar que esta ligação se dá em qualquer nível além do mais superficial. Há algum tempo, por exemplo, profundamente chateado com a informação que havia recebido de que Leon Cakoff estava à beira da morte, cometi o erro de ventilar o lamento no Facebook – mas como não seria certo divulgar o estado de saúde do criador da Mostra sem autorização de sua família, escrevi algo como “Muito chateado por saber que logo receberemos uma notícia trágica”. Em questão de segundos, uma leitora respondeu: “E aí? Vai fazer cu doce e não vai contar pra gente o que é?”.

Meu equívoco, claro, foi confundir contatos do Facebook com “amigos”; achar que se importariam com meu estado de espírito e não com o valor de fofoca da informação que eu tão “egoisticamente” negara a eles. Sim, há contatos que ainda se comportam como seres humanos, manifestam empatia, sensibilidade e calor humano, mas não são a regra. Além disso, há a impessoalidade implícita na própria natureza da comunicação virtual – algo que vem se disseminando, infelizmente, para o mundo real. 

Lembro-me, por exemplo, de quando a mãe de um amigo que reside em outro estado faleceu, há alguns meses, e liguei para manifestar meu pesar por sua perda. Depois de me ouvir, meu amigo disse: 

– Como é bom ouvir a voz de alguém dizendo isso.

Espantado, já que sabia como ele é uma figura querida e cheia de amigos, perguntei o que queria dizer:

– Recebi mensagens de texto pelo telefone a manhã inteira, mas só duas ou três pessoas me ligaram de verdade.

“De verdade” sendo a expressão-chave. Como alguém pode acreditar que enviar um SMS é o mesmo que buscar fazer uma conexão real com alguém? Sim, é mais cômodo – especialmente em situações potencialmente desconfortáveis como conversar com alguém que acabou de perder a mãe, mas gaguejar de forma desajeitada pelo telefone enquanto buscamos o que dizer é certamente melhor do que enviar uma mensagem eloquente sobre luto e perseverança frente à morte; um simples gaguejar diz mais sobre seu lamento diante do sofrimento do próximo do que a melhor das frases de efeito.

Às vezes, penso que estamos nos esquecendo de que somos humanos, não avatares. E certamente este “esquecimento” já se aplica à maneira com que enxergamos muitos dos que nos cercam. Somos invulneráveis no mundo virtual – e também frequentemente frios. Insultamos alguém e ameaçamos “cuspir em sua cara” se o “encontrarmos”, mas basta que a pessoa do outro lado se ofereça para um encontro real que o valente virtual alega não querer “perder tempo” – dedicando-se, em vez disso, a vandalizar a página do “inimigo” na wikipedia. (Sim, história verídica.)

É fácil ser cruel, altruísta, apaixonado, generoso ou ativista na Internet. Mas não vivemos na Internet, vivemos?

Antes nos permitíamos tempo para sentir. A morte de alguém querido ou admirado era abraçada como um sentimento digno de ser experimentado, processado, sentido. Hoje recebemos a notícia, a expurgamos num tweet e imediatamente nos entregamos a outro assunto. Se antes apenas o jornalismo vivia num ciclo contínuo de 24 horas, cuspindo trivialidades para preencher todos os espaços de sua programação, agora estamos nos transformando em indivíduos que seguem este mesmo ciclo, como se precisássemos de estímulos contínuos para nos sentirmos vivos e relevantes – e nem mesmo a morte, a mais definitiva das notícias, pode interromper este fluxo. Nossos corações podem estar partidos, mas nossas mentes parecem exibir aquelas legendas que percorrem a base das telas dos canais jornalísticos: “Morreu FulanoDeTal **** Nova foto de Anne Hathaway como Mulher-Gato sai na Internet **** Luana Piovani alfineta atriz global **** Mulher maltrata cachorro em vídeo no YouTube **** Ouça o novo hit de…”.

Uma hashtag não substitui uma pessoa. Somos mais que nossos nicks.