Cotidiano

In memoriam

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 52 comentários

Quando descobri sua existência, você já estava morta há uma semana.

Foi ao folhear um jornal que vi seu rosto feliz e sorridente me cumprimentar. Bonita e com um brilho intenso nos olhos, você parecia repleta de vida, sonhos e energia – algo que contrastava tragicamente com a moldura que destacava sua foto e um convite à missa de Sétimo Dia organizada em sua memória.

Por alguma razão, não consegui desviar os olhos de seu retrato: como num transe, estudei cada traço, cada detalhe, cada elemento que pudesse me dar uma pista de quem você foi. Nascida em março de 1985, você tinha 26 anos de idade quando deixou de existir – um destino cruel que a sua versão alegre da foto fazia soar ainda mais injusto. Será que ao posar para aquela imagem com tamanha felicidade passou por sua mente a assustadora possibilidade de que ela ilustraria o pior dos convites? Em algum instante de sua juventude invencível você considerou que jamais chegaria a deixá-la para trás?

Fechei o jornal depois de alguns minutos, mas não conseguia parar de pensar em você. O que a teria tirado do mundo? Teria sofrido em função de alguma doença lenta e sádica? Teria partido depois de padecer por alguns dias graças a um mal inexplicável? Morrera sem nem se dar conta do que acontecera em um acidente de trânsito? 

Quem foi você?

Tomado por um impulso inexplicável e inédito, posto que sempre fujo da morte (mesmo de desconhecidos), corri à Internet para tentar descobrir o que havia perdido – ainda que jamais houvesse tido a chance de tê-la em primeiro lugar. Digitei seu nome no Google e encontrei 412 pegadas de sua breve existência. Uma rápida história de quem você foi e do que começou a construir: seu nome na lista de aprovados para o curso de Direito de uma boa universidade, em 2002 (imaginei seu salto de alegria ao descobrir-se naquela relação); o convite online para sua formatura, anos depois (uma conquista que você certamente celebrou mesmo com um leve receio acerca das responsabilidades que sua vida adulta lhe traria); clippings com autos de processos que traziam seu nome, ao lado do título de “advogada”, já no início de sua atuação profissional.

Mas vi também fotos suas em festas, cercada por amigos e parentes: aqui, erguia dois dedos num sinal de vitória enquanto abraçava uma colega; ali, surgia dançando com um rapaz loiro que a segurava pela cintura. As imagens me conduziram até seu álbum no Orkut, que, intitulado “2011!!!”, indicava sua recepção calorosa àquele que seria seu derradeiro ano e que figuraria ao lado do símbolo fatal que apontaria a data de sua morte – uma realidade que, a julgar por sua euforia nos retratos ali contidos, provavelmente lhe pareceria impossível, uma piada de mau gosto, apenas um pesadelo distante.

Continuei minha busca por quem você foi: no Facebook, sua foto do perfil já fora trocada pela reprodução do chamado à sua missa de sétimo dia – uma tarefa simples que deve ter provocado uma dor indizível naquele que a executou. Ali, entre seus “interesses e atividades”, uma página de apoio a Serra que me fez lembrar de que não deveria idealizá-la, que me forçou a constatação de que, viva fosse, talvez não aprovasse minha defesa da candidatura Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo, como descobrir sua adoração por Alexandre Dumas pai, Asimov e Machado e não flertar com a ideia de que nossos gostos literários similares contornariam nossas divergências políticas?

Mas não: o aviso de que você estava “em um relacionamento sério” apontava que outro homem já sonhara com você e a alcançara de alguma maneira. Senti uma ponta de ciúme ao pensar que ele tivera a oportunidade de conhecê-la, de encantá-la, de fazê-la sorrir, mas também me compadeci da dor que ele agora sentia por não tê-la mais ao seu lado, arrancada de seus braços por uma tragédia que, independentemente de sua razão, não deveria ter lugar em uma vida que durara apenas 26 anos.

Ao final, não descobri o que a levou ou mesmo quem você foi de fato, mas sofri por sua partida.

E por saber que o que resta de você agora são apenas as memórias daqueles que te amaram e os poucos traços que a Internet conservou de sua breve trajetória no planeta.

Simetria

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Vídeos | 8 comentários

Não me lembro quem recomendou este vídeo (identifique-se! foi meu amigo Bruno Carvalho, do Ligado em Série), mas… muito obrigado. 🙂

Preto Velho, modelo temperamental

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Fotos, Variados, Viagens | 49 comentários

Sempre que venho a Salvador, vou ao Pelourinho – e como tenho parentes por aqui, isto ocorre com certa freqüência. No entanto, jamais me canso daquele espaço histórico, maravilhoso, colorido, que combina a imponência dos séculos e a miséria absoluta. Faz parte da experiência de ir ao Pelourinho olhar para um lado e perder o fôlego diante da beleza castigada da região apenas para olhar na direção oposta e perder o fôlego diante da tristeza de ver um “sacizeiro” (como são chamadas aqui as crianças viciadas em crack) tentando descolar trocados para comprar mais uma pedra que contribuirá para mandá-lo jovem para debaixo da terra. É um espetáculo trágico ambientado num palco de cores belas.

Mas divago.

O fato é que todas as vezes que vou ao Pelourinho, sou atraído pela figura marcante de um senhor que, sempre sentado na mesma posição do lado de dentro de uma janela, parece observar a vida com uma indiferença (ou cansaço) curiosa, sem jamais se esforçar para vender o rapé que a placa diante de si anuncia com tamanha pompa. E considerando a insistência de todos os representantes do comércio local, só isto já seria o bastante para torná-lo ímpar. Mas há mais: sua própria figura parece exalar uma autoridade antiga de quem viu muito e sabe muito, transformando sua indiferença não em apatia, mas em uma espécie de exaustão vinda de alguém que já sabe há décadas que não há solução para a natureza humana.

Ou talvez eu esteja romantizando tudo e a simples verdade seja a de que ele tem um rosto muito bacana.

De todo modo, sempre que o via ali, sentia vontade de fotografá-lo. Em 2009, quando ainda tinha uma câmera fraquinha, arrisquei-me até a registrá-lo de longe, mas a qualidade da imagem, claro, era terrível. Assim, desta vez não pensei muito antes de me dirigir à ruela na qual sempre o encontrei – e à medida que me aproximava, senti o coração disparar com medo de não encontrá-lo mais ali. Talvez ainda não tivesse chegado. Talvez tivesse mudado de lugar. Talvez tivesse morrido.

Ele estava na mesma janela de sempre. E em sua aparentemente estatuesca posição. Respirei aliviado.

Comecei a pensar em como fotografá-lo. De modo geral, não gosto muito de fotografar pessoas, mas quando alguém me interessa, tento fazer um registro sem que o “modelo” perceba, já que detesto fotografias nas quais o retratado olha para a câmera de forma artificial. É o movimento natural do cotidiano que me atrai, fotógrafo amador que sou. Posteriormente, posso até me aproximar da pessoa e perguntar inocentemente se ela se importa que eu a fotografe (algo que raramente é negado, o que acho curioso) – e já com a autorização, simplesmente bato uma foto para atirá-la na lixeira digital, já que a imagem que me interessava já havia sido capturada.

Com isso em mente, entrei na loja em frente à janela do senhor, que se identificava na placa como “Preto Velho”, para tentar fotografá-lo sem que visse. Expliquei minha intenção para a vendedora, que me alertou:

– Então tome cuidado mesmo para que ele não veja, porque ele fica bravo quando tiram foto dele.

Era o que eu não queria ouvir. Porque agora, sabendo que ele não gostava de ser fotografado, eu não me sentia mais à vontade para tirar a foto sem permissão. A saída seria obter uma.

Aproximei-me do Preto Velho:

– Tudo bom com o senhor?

– Tudo.

– Bacana, a loja do senhor.

– …

– O senhor vende só rapé?

– E cigarro.

– Ah. Hum. (…) Vejo sempre o senhor por aqui. Está aqui há muito tempo, né?

– 95 anos.

E aí soltei uma expressão tipicamente mineira que, em retrospecto, foi um erro grotesco:

– Mentira!

– Por que eu iria mentir que tenho 95 anos? – respondeu ele, já irritado.

– Não… não foi isso… eu… não, não. É que… o que eu quis dizer é que o senhor não parece ter 95 anos. Eu… não daria mais de 70 para o senhor! É isso!

– …

– Meu nome é Pablo. – falei, estendendo a mão. Ele a apertou com preguiça.

– Meu nome é Domingos.

– Prazer em conhecê-lo, seu Domingos.

– …

– Então. O senhor… é… quanto é o rapé?

– 25 reais. – informou ele, pegando um vidrinho minúsculo. Por este preço, imaginei que o rapé fosse de ouro.

– 25 reais?

– É, mas isso aqui cura tudo.

Ele despejou o pó na palma da mão direita e, com dois dedos da mão esquerda, pegou um punhado do farelo e enfiou nas narinas. Em seguida, apanhou mais um bocado e estendeu a mão para enfiar o rapé no meu nariz. Pego de surpresa, recuei num susto.

Ele me olhou com indiferença.

– Eu… agradeço muito, seu Domingos, mas não cheiro rapé. Eu não cheiro nada, na verdade. Quer dizer… bom… nada, nada, não. Claro que cheiro outras coisas. Quero dizer… perfume, essas coisas. Eu tenho olfato, é o que eu quero dizer. Mas… hum.. rapé eu não… (suspiro exausto)

Desastre. Eu havia me transformado num idiota incoerente. Ele devia estar perdendo a fé nas gerações mais jovens num ritmo exponencial, agora.

Decidi me arriscar.

– Posso tirar uma foto do senhor?

– Não.

– (…) Por que, seu Domingos?

– Só se você comprar rapé. Aí eu te deixo tirar uma foto.

– Mas, seu Domingos, eu não cheiro rapé.

– Então sem foto.

– O senhor não tem nada mais barato aí, não?

– Não. Só rapé.

Pensei em desistir. Mas… 95 anos de idade. Eu não podia.

– E se eu pagar… não sei… dez reais para o senhor só para tirar uma foto?

Sem olhar na minha direção, ele respondeu imediatamente:

Uma foto.

Vitória.

– Errr… o senhor tem troco para vinte?

Ele me encarou com olhar assassino, mas me entregou uma nota de dez.

Afastei-me da janela tenso. Tentei encontrar a melhor posição, o melhor quadro, o melhor tudo rapidamente, antes que ele mudasse de idéia. Turistas e locais atravessavam na minha frente dificultando o trabalho. Ajustei a luz, a exposição, o quadro e disparei. Sem pensar, fiz o que qualquer um na minha posição faria automaticamente e me preparei para uma segunda foto.

– Não!

– Hein?

– Você já tirou a foto. Era uma só.

– Mas seu Domingos…

Mas ele já havia coberto o rosto com a mão e virado na outra direção. Sem se virar para mim, acenou um “vá embora”.

Derrotado e finalmente descobrindo como os fotógrafos que tentam trabalhar com Naomi Campbell se sentem, enfiei a câmera na bolsa e me afastei.

E descobri que, curiosamente, agora amava um pouco aquele velhinho.

Rio, 7 de Abril de 2011

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 1 comente

Um homem entra numa escola e dispara contra crianças. Mata ao menos 12 delas, fere outras 22 pessoas e, acuado pela polícia, tira a própria vida.

E ficamos todos em choque, buscando explicações. Mas não há explicações. Não há lógica. Não há razão que possa conferir sentido a algo assim. Como humanos que somos, ficamos desnorteados, confusos, desesperados por uma justificativa que nos acalme, que nos certifique de que somente algo absolutamente aleatório e absurdo poderia acontecer assim.

Algo que nos faça dormir à noite pensando que não, isto não voltará a acontecer. Foi um caso isolado, uma aberração. O sujeito era louco, “estranho”, estava influenciado por pensamentos religiosos fundamentalistas, era HIV positivo, ex-aluno da escola que atacou e possivelmente cultivava rancores com relação à instituição. Certamente uma conjunção de fatores como estes só ocorre uma vez. Respiremos aliviados.

Mas não podemos fazer isso, podemos? Porque não se trata de um caso isolado de fato. Atos aparentemente aleatórios de violência ocorrem todos os dias, em escalas maiores ou menores de brutalidade, movidos ou não por religião, política, futebol, sexo, dinheiro ou pela previsão do tempo. Somos uma matilha de sete bilhões de indivíduos – número mais do que suficiente para abrigar todo tipo de personalidade, das mais admiráveis às puramente sociopatas.

Não há razão para o que ocorreu. Há apenas doze crianças mortas, doze famílias destruídas e outras tantas que jamais se recuperarão completamente do que viveram hoje.

E há também as dezenas, centenas, milhares de pessoas que, vivendo no Rio ou a fronteiras de distância, buscam ajudar através de mensagens de apoio, de retuítes de informações sobre doações de sangue ou mesmo carregando as crianças ensanguentadas em direção ao hospital.

Somos uma raça estranha, mas de natureza essencialmente bondosa. Acredito nisso. Se não acreditasse, não teria tido filhos. Tragédias como a de hoje nos fazem desesperançosos e estimulam a hipérbole pessimista, mas o impiedoso assassino que nos devastou hoje não pode – e não merece – ter o poder de se estabelecer como retrato da espécie humana. Em vez disso, concentremo-nos na ação dos que buscam confortar e auxiliar aqueles que ele atingiu em corpo ou espírito (e falo aqui simbolicamente) e lamentemos e honremos as doze jovens vidas que ele tirou e que representam uma perda irreparável.

Estas crianças merecem ser lembradas pelo que foram e pelo que prometiam ser, não pelo indivíduo que as impediu que fossem.

Rio, 07 de Abril de 2011

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 62 comentários

Um homem entra numa escola e dispara contra crianças. Mata ao menos 12 delas, fere outras 22 pessoas e, acuado pela polícia, tira a própria vida.

E ficamos todos em choque, buscando explicações. Mas não há explicações. Não há lógica. Não há razão que possa conferir sentido a algo assim. Como humanos que somos, ficamos desnorteados, confusos, desesperados por uma justificativa que nos acalme, que nos certifique de que somente algo absolutamente aleatório e absurdo poderia acontecer assim.

Algo que nos faça dormir à noite pensando que não, isto não voltará a acontecer. Foi um caso isolado, uma aberração. O sujeito era louco, “estranho”, estava influenciado por pensamentos religiosos fundamentalistas, era HIV positivo, ex-aluno da escola que atacou e possivelmente cultivava rancores com relação à instituição. Certamente uma conjunção de fatores como estes só ocorre uma vez. Respiremos aliviados.

Mas não podemos fazer isso, podemos? Porque não se trata de um caso isolado de fato. Atos aparentemente aleatórios de violência ocorrem todos os dias, em escalas maiores ou menores de brutalidade, movidos ou não por religião, política, futebol, sexo, dinheiro ou pela previsão do tempo. Somos uma matilha de sete bilhões de indivíduos – número mais do que suficiente para abrigar todo tipo de personalidade, das mais admiráveis às puramente sociopatas.

Não há razão para o que ocorreu. Há apenas doze crianças mortas, doze famílias destruídas e outras tantas que jamais se recuperarão completamente do que viveram hoje.

E há também as dezenas, centenas, milhares de pessoas que, vivendo no Rio ou a fronteiras de distância, buscam ajudar através de mensagens de apoio, de retuítes de informações sobre doações de sangue ou mesmo carregando as crianças ensanguentadas em direção ao hospital.

Somos uma raça estranha, mas de natureza essencialmente bondosa. Acredito nisso. Se não acreditasse, não teria tido filhos. Tragédias como a de hoje nos fazem desesperançosos e estimulam a hipérbole pessimista, mas o impiedoso assassino que nos devastou hoje não pode – e não merece – ter o poder de se estabelecer como retrato da espécie humana. Em vez disso, concentremo-nos na ação dos que buscam confortar e auxiliar aqueles que ele atingiu em corpo ou espírito (e falo aqui simbolicamente) e lamentemos e honremos as doze jovens vidas que ele tirou e que representam uma perda irreparável.

Estas crianças merecem ser lembradas pelo que foram e pelo que prometiam ser, não pelo indivíduo que as impediu que fossem.

A diferença que 10 segundos fazem

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Luca & Nina | 22 comentários

Hoje eu estava subindo uma longa rua do Caiçara, um bairro de Belo Horizonte, para buscar Luca na casa de um amiguinho. Devia estar a uns 50-60 km/h – não muito devagar, mas tampouco correndo -, quando um carro que se encontrava estacionado a uns 30 metros adiante arrancou subitamente e entrou na minha frente. Como não estava tão próximo assim, reduzi rapidamente a velocidade e nem sequer passei um susto.

Porém, comecei a pensar: “Porra, precisava entrar assim na frente? É óbvio que ele me viu pelo retrovisor e percebeu que eu estava me aproximando com relativa rapidez. Pra que entrar na frente assim só para não me deixar passar? Que cara fominha. Bom, mas talvez ele esteja com pressa pra chegar em algum lugar. E não me custou nada, diminuir um pouco. E nem estou com pressa ou atrasado, então… e daí que tive que diminuir? Faria alguma diferença chegar 10 ou 20 segundos antes lá? Não faria. Então ficar nervoso pra quê? Besteira minha”.

E foi exatamente neste momento que um carro desrespeitou todas as regras de trânsito, placas de “Pare”, leis de preferência e o bom senso ao simplesmente atravessar  sem aviso a rua que subíamos bem à nossa frente, obrigando o motorista que havia arrancado na minha frente a frear bruscamente para não bater.

Em outras palavras: caso ele tivesse me deixado passar – e considerando a velocidade na qual eu me encontrava -, eu provavelmente estaria passando justamente naquele cruzamento no momento em que o outro motorista irresponsável/inconseqüente/criminoso atravessasse por ali sem aviso, atingindo com violência o meu lado do carro.

Sem saber, o “fominha” evitara que eu sofresse um acidente e me machucasse provavelmente com seriedade.

10 segundos e a história seria outra.

Obrigado, fominha.

No táxi

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 27 comentários

Estava em um táxi indo ao shopping Gávea, no Rio, quando um executivo de cerca de 45-50 anos, bem vestido e carregando uma bela pasta, fez sinal para o motorista. Coincidentemente, o trânsito parou neste momento e o veículo acabou encostando perto do sujeito, que, depois de iniciar o movimento para abrir a porta do carro, me viu a bordo. Com irritação, exclamou:

– Não é possível! Esses caras ocupam os táxis todos!

Como ele havia praticamente berrado aquilo na minha cara, me inclinei na direção da janela e perguntei:

– O senhor quer que eu desça pra que possa subir?

Ele me olhou espantado, sem saber o que dizer. Por um segundo, pareceu mesmo considerar a possibilidade, mas, então, talvez percebendo que eu havia sido irônico (e aqui ressalto o “talvez”), deu um passo para trás, de volta para a calçada, e respondeu:

– Não… hum. Não precisa. Eu pego outro táxi.

Fiquei comovido com sua generosidade. Mas ainda assim, passei o resto do dia me perguntando quem seriam “esses caras” entre os quais me incluo.

Tristeza por um ex-aluno

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Curso | 33 comentários

De janeiro de 2009 até agora, 450 alunos (sim, número redondo) passaram pelo meu curso de Teoria, Linguagem e Crítica. Não posso afirmar que me lembro de todos, logicamente, mas posso garantir que gravei a maior parte deles na memória. 
 
Acabo de receber a notícia que um deles cometeu suicídio ontem. Um dos integrantes da inesquecível turma de Porto Alegre. Não vou expor seu nome neste espaço por não saber como sua família reagiria a isso (creio que desaprovariam), mas lembro-me dele como um menino (20 anos) quieto, tímido (ao menos na sala de aula) e que veio conversar comigo praticamente ao fim de todas as aulas para tirar algumas dúvidas ou fazer comentários referentes ao que havíamos acabado de discutir. Lembro-me de brincar com ele por achá-lo muito diferente da foto que exibia no twitter e também por julgar que seu nick não condizia com sua idade. E também lembro-me de que, no último dia de aula, ele chegou com os cabelos completamente alterados em relação aos dias anteriores, o que me levou a brincar com a mudança.
 
20 anos não é idade para morrer. Especialmente desta forma. 
 
É claro que, com tantos alunos, eventualmente eu "perderia" algum. Mas ainda assim permaneço chocado. E entristecido. Muito. Mantenho um carinho imenso por muitas das pessoas que conheci nestes últimos dois anos – e ver uma delas partindo assim é algo que me faz sacudir a cabeça em incredulidade e certa desilusão.
 
Há muito para se viver. Há muito a se descobrir. Nada é tão terrível que não possa ser contornado. Não quando se tem saúde, juventude e amigos.
 
Meu amor vai pra ele e sua família. 

Nostalgia ou perda real?

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões | 38 comentários

Quando adolescente, troquei muitas cartas. Correspondia-me com meu tio, que morava (e mora) em Salvador, com uma amiga do Rio de Janeiro e, quando viajava nas férias, enviava cartas saudosas para a namorada. Todo o exercício era pensado: não era uma simples questão de botar palavras no papel, envelopar, selar e postar. Não. O simples fato de botar a tinta no papel, escrever de próprio punho, sabendo que aquelas palavras seriam lidas por alguém querido do outro lado… isso mudava a dinâmica. Cada palavra era pesada, escolhida a dedo e medida contra suas colegas de cada lado da frase. Era fundamental ser preciso, dizer o queríamos dizer, mas também da melhor maneira – fosse esta a mais elegante, a mais econômica, a mais sentimental ou a mais contundente.

Isso acabou. Agora, basta entrar no MSN, no Orkut, no Twitter ou no Facebook e disparar uma mensagem rápida para seu alvo. Este a lerá, responderá de maneira igualmente rápida e abrirá outra janela para ver um vídeo no YouTube. Demore 10 minutos para responder e acabará recebendo outra mensagem impaciente criticando sua lentidão. As palavras perderam a importância enquanto meio; já são um fim em si mesmas. Não importa a construção da frase, basta que esta cumpra sua função rapidamente.

Não é que eu sinta falta da demora. Como qualquer um, não consigo me imaginar esperando dias ou semanas por uma resposta. Não. Eu simplesmente sinto falta do romantismo de escrever com cuidado não para o público de um blog, mas para aquela pessoa em específico. De polir cada sentença imaginando a reação que ela terá ao ler o que construí no papel. De embolar o papel, frustrado, ao constatar que aquele parágrafo não saiu como deveria. De abrir a carta-resposta antecipando os tesouros que esta traria.

E era certo que esta não me surpreenderia com um "LOL. Rachei aqui com sua carta. xoxoxoxo".

A carta era uma forma de arte. Não é à toa que temos livros que reúnem trocas de correspondências entre escritores, políticos, cientistas, poetas e seus pares. Esta arte deixou de existir. E também a possibilidade de registro deste vai-e-vem de palavras. Vocês conseguem imaginar algo como "Tuitadas entre Rimbaud e Verlaine"? Ou "Conversas de Lispector no MSN"? 

Amo e abraço a tecnologia. Acredito firmemente que novas mídias são capazes de trazer frutos inesperados. Este post, por exemplo, começou com uma série de twittadas.

Mas é no mínimo revelador que eventualmente eu tenha sentido a necessidade de transformá-lo num post de blog. E é triste saber que jamais poderei envelopá-lo e despachá-lo pelo correio. Meus correspondentes agora são vocês e isso traz muitas alegrias. Mas antecipar o recebimento pelo correio de uma resposta cuidadosamente concebida não é uma delas.

Como escrever uma reclamação

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 19 comentários

O texto abaixo foi enviado por minha querida amiga Ludj ao SAC da Livraria Leitura e postado em seu blog.

"Sua
Opinião é muito importante para nós"

"Espero que minha opinião seja mesmo importante, pois por mais de uma
vez fui mal atendida ou nem isso na Leitura do Pátio Savassi. No início
do mês, comprei um cd para presente: pedi para embalar e o vendedor
simplesmente se "esqueceu". Reforcei minha solicitação e ele a fez com
tanta má vontade, que faltou deixar o preço no produto. Ontem, tentei em
vão procurar um livro e dois atendentes extremamente grosseiros
simplesmente se negaram a fazer a consulta no terminal. A primeira disse
que "não tinha tempo" e o segundo falou que somente após levantar
alguns preços para um cliente. Aguardei, mas ele continuou sua pesquisa e
saiu como se eu nem estivesse diante dele. Fui então buscar o título
pacientemente na prateleira e, como o mesmo podia constar tanto em
literatura brasileira quanto numa sessão de comunicação social, esperei
por mais algum tempo por um atendente que pudesse checar se o título
estava disponível no local. Só para constar: a loja não estava cheia,
com filas quilométricas no caixa. Tive o cuidado de evitar o tráfego
intenso de pais em busca do material escolar. Ao sair, depois de quase
20 minutos sendo solenemente ignorada, perguntei a uma funcionária do
setor de embalagens pelo gerente. Ela me disse que havia "um papelzinho"
para reclamar, se fosse o meu caso. Agradeci e nem procurei o tal
formulário evidentemente. Se este canal com o consumidor tiver alguma
valia, gostaria de um retorno e uma justificativa plausível para tamanho
desrespeito. O fato de ser uma megastore não justifica péssimo serviço,
pois tenho o cartão fidelidade da Livraria Cultura em São Paulo – que é
bem maior que a Leitura – onde sou tão bem atendida, que saio da loja
com mais livros do que imaginava adquirir. Se a megastore em Belo
Horizonte não tem condições de prestar a mínima atenção ao consumidor,
como tenho notado e sentido, não irei mais me submeter ao masoquista ato
de comprar na Leitura. Atenciosamente, Ludmila Azevedo"

E-mail enviado agora para o SAC da Leitura. Indignação mode on. Power
to the People!