Cotidiano

Meu pai

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Luca & Nina | 67 comentários

Depois de gravar o áudio sobre O Segredo dos Seus Olhos, no qual comentei sobre o fato do filme me levar a uma série de reminiscências, passei a pensar em meu pai. De certa forma, ele está sempre em minha mente, já que uma de minhas grandes epifanias durante a terapia foi perceber o óbvio: que sua morte precoce foi responsável por dar origem a uma série de neuroses, medos e inseguranças que carreguei (e carrego) ao longo dos últimos 30 anos. Dito isso, embora ser órfão de pai não seja algo que jamais consigamos esquecer, não é comum que eu passe horas a fio pensando no velho Geraldo.

"Velho Geraldo". Quem dera isso fosse verdade. Morto em 1980 em um acidente de carro, meu pai tinha 40 anos quando deixou minha mãe viúva, aos 27, e com dois filhos pequenos para criar. Ele nunca teve a chance de envelhecer – ora, estou quase atingindo a idade que ele tinha quando morreu. Ainda assim, pensar no meu pai é algo que automaticamente me leva a assumir uma postura infantil, como se ele fosse essa figura paterna intocável, de autoridade eterna, e eu fosse instantaneamente devolvido aos 5 anos que tinha quando o perdi. Isto se contrapõe à minha relação com minha mãe, que aprendi a conhecer profundamente ao longo das décadas e que se tornou mais do que uma guia, mas uma grande e amada amiga.  

Não sei quem era meu pai. Ou melhor: sei aquilo que descobri através de terceiros. Era um homem divertido, mas explosivo (não com a família, mas com estranhos); era um trabalhador incansável, workaholic (o que herdei), mas notório pão-duro (o que não herdei, infelizmente). Era um pai carinhoso, mas que viajava mais do que o ideal. Tinha um imenso coração e se esforçava ao máximo para ajudar desconhecidos em necessidade (advogado, era extremamente comum ter clientes que o pagavam em milhares de prestações ou que acabavam representando serviço pro bono), mas era politicamente conservador – um homem de direita.

E morreu moço.

Tenho algumas poucas lembranças de meu pai: um passeio de bicicleta, um pequeno acidente de carro enquanto me levava para a escola, uma festa de aniversário. Mas a lembrança mais marcante que tenho é da notícia de sua morte: sem saber exatamente o que acontecia, lembro de ver minha mãe chorando e de experimentar uma terrível inquietação com seu sofrimento. Lembro de um tio nos visitar e comentar com meus primos baixinho, sem saber que eu ouvia: "Tadinho dele; o papai dele morreu". Mas não me lembro de realmente compreender o que significava tudo aquilo, que nunca mais veria meu pai.  

É estranho: se ele não tivesse morrido, eu certamente seria uma pessoa completamente diferente. Para começar, as inclinações esquerdistas de minha mãe talvez não tivessem exercido tamanha influência sobre mim. (E eu hoje talvez fosse eleitor do Serra, quem sabe?) Possivelmente não teria largado a faculdade de Medicina para me dedicar à escrita e ao Cinema. E, claro, meu amado irmão caçula, fruto do segundo casamento de minha mãe, não existiria. Ao mesmo tempo, é claro que eu gostaria que ele ainda vivesse. Não sei como tudo se encaixaria, mas não gostaria de ter perdido meu pai tão cedo, já que isso gerou um vazio que ainda hoje luto para preencher.

Por outro lado, de certa forma ele nunca nos abandonou. Quando tinha pouco mais de um ano, Luca me pegou de surpresa ao ver uma foto de meu pai e identificá-lo como "vovô" (algo que narrei nesse post) e, sinceramente, acredito ser um pai melhor justamente por não ter tido a chance de conviver com o meu. Mas tê-lo perdido aos 5 anos não é – e provavelmente nunca será – algo com o qual eu consiga lidar confortavelmente.

Como diria Kurt Vonnegut: "Coisas da vida". 

Final perfeito

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 89 comentários

O caso da estudante que, por ir para a aula com uma minissaia, foi moralmente linchada por seus colegas universitários ganhou um final perfeito: a UNIBAN, instituição que serviu de palco para o absurdo, decidiu punir com a expulsão a pessoa responsável pelo embaraçoso incidente: a aluna.
 
Sim, a aluna. A mesma que teve que ser escoltada pela polícia para fora do prédio da universidade para não ser agredida pelos colegas. 
 
Já escrevi sobre o caso aqui, mas vale investir mais um post no assunto em função da justificativa fornecida pelos diretores da UNIBAN para a expulsão (grifo meu):
 
"(…) a atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar". Eles foram além e expandiram o argumento, ponderando que a moça, que usava "trajes inadequados", "provocou os colegas ao fazer um percurso maior que o
habitual
, desrespeitando princípios éticos, a dignidade acadêmica e a
moralidade".
 
Sensacional. Em outras palavras, a justificativa oficial da UNIBAN para expulsar uma aluna é a seguinte: "a garota passeou com as coxas à mostra pelo prédio".
 
Que sirva de precedente para todos aqueles que virem uma mulher usando roupas mínimas rebolando por aí: agredi-la verbalmente e ameaçá-la de estupro é uma "defesa da ética, da dignidade e da moralidade".
 
Ah, sim: e apedrejá-la provavelmente lhe renderá créditos adicionais na UNIBAN.
 
(Update: Parabéns aos estrategistas da instituição pela inteligente decisão de anunciarem a expulsão no sábado à noite. Este é notoriamente o melhor dia – assim como a sexta à noite – para divulgar informações que não queremos ver repercutindo. Claro que o que chamo de "inteligente" outros poderão classificar como "canalhice" ou "má-fé". Bobinhos.)

Intervalo para um breve comentário sobre as mulheres

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 129 comentários

Estamos no fim de 2009. Já se foi o tempo em que o mundo aceitava que as mulheres fossem tratadas como escravas dos homens em qualquer esfera imaginável: sexual, profissional, doméstica, etc. Elas conquistaram o direito de voto. Lutaram para que pudessem ser vistas como iguais, não como seres biológica, intelectual e moralmente inferiores aos homens – estes, sim, criaturas notavelmente atrasadas. Dominaram o mercado de trabalho. Batalharam pelo direito de não serem hostilizadas ou consideradas putas apenas porque se liberaram sexualmente. A pílula, antes tabu, hoje é distribuída pelos governos mais esclarecidos. E se antes o lugar da mulher era "na cozinha" e cuidando da casa e dos filhos enquanto esperavam o maridinho chegar em casa para o jantar, hoje elas estão nas faculdades, tornando-se profissionais tão ou mais capacitadas do que aqueles que antes as dominavam e controlavam à base de força e preconceito.

Lindo.

Claro que elas ainda recebem, em média, bem menos do que seus colegas do sexo masculino para desempenharem as mesmas funções. Continuam a ser vítimas de estupro e violência doméstica em todo o mundo. Ainda estão longe de conseguirem representatividade nos governos da maior parte dos países.

Ah, mas estamos evoluindo, certo? As novas gerações concluirão o trabalho, esclarecidas como são, não é mesmo?

Oh, sim, evidente. Desde que uma mulher não se atreva a usar uma minissaia em uma faculdade, pois então será imediatamente seguida por uma turba de universitários aos gritos de "Puta! Puta!" até ser retirada do prédio sob escolta policial, num linchamento moral que remete à Inquisição. Os mesmos estudantes que, numa discussão de bar, certamente diriam que a prática do apedrejamento de mulheres "desonradas" em certos vilarejos muçulmanos é um "absurdo", "coisa de bárbaros", não hesitaram em atirar pedras verbais e morais numa colega que se atreveu a mostrar as coxas. Como ela pôde fazer isso? Conspurcar um ambiente sacrossanto com suas formas femininas, que todos sabem ser pecaminosas por natureza? Destruam-na! Humilhem-na! Impeçam-na de retornar ao convívio dos Bons! Se matá-la é impossível, assassinemos seu espírito! E se alguém questionar esta atitude, afirme que ela também "fez outras coisas", além de usar a minissaia – afinal, isto justificaria tudo, certo?

Não sei o que dizer, sinceramente. A cada vez que sinto-me ingenuamente tentado a acreditar que o mundo está melhorando, mesmo que a passos de tartaruga manca, sou trazido de volta à realidade. Um dublador que se recusa a emprestar sua voz a um ator num filme sobre homossexuais. Um pastor evangélico que prega, para um grupo de crianças, que a homossexualidade é uma doença. Uma jovem verbalmente queimada em praça pública por usar uma saia 10 centímetros menor do que o esperado.

Chega a doer, esta descrença na Humanidade. Mas se os nossos jovens agem assim, que direito tenho de sonhar num mundo mais iluminado para meus filhos?

Para encerrar, sei que este blog tem um número de acessos imenso. Tenho orgulho disso. E sei que conquistei esse "leitorado" não apenas em função do que escrevo, mas por respeitar quem me lê.

Mas há momentos para exceções e há aqueles que não merecem respeito algum.

Estatisticamente falando, é impossível que não haja um único leitor que estude na faculdade de São Bernardo do Campo  (Uniban) na qual o incidente (eufemismo) ocorreu. E provavelmente há muitos que conhecem alguém que lá estude. Pois para aqueles que participaram daquela "mobilização", digo sem reservas: vocês são uns imbecis. Uns Neandertais. Um desperdício de oxigênio. Aliás, mais do que isso: são desperdício de pele. Todos que tomaram parte daquele ato vergonhoso deveriam ser esterilizados para que seus genes defeituosos não fossem transmitidos para as novas gerações como uma doença capaz de arruinar a Humanidade. Vocês desafiam o conceito de Evolução. 

E se você é mulher e se juntou à turba… Deus. Ainda bem que Rosa Luxemburgo, Simone de Beauvoir e Betty Friedan estão mortas e não tiveram que testemunhar seu legado sendo usado para que companheiras de sexo agissem com a mesma mentalidade símia dos machos que por tanto tempo aprisionaram seus corpos e espíritos.

(P.S.: Se no intuito de mostrar que você é esclarecido e evoluído resolveu defender a jovem chamando aqueles que a xingaram de "viados"… má notícia: você também é um imbecil.)

O que Hitler e o Pica-Pau têm em comum?

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 22 comentários

Aparentemente, são ótimos garotos-propaganda para a venda de DVDs.

(Foto tirada em loja localizada no primeiro piso do Pátio Savassi, em Belo Horizonte.)

O problema do Brasil

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 68 comentários

O problema do Brasil reside nos brasileiros. Êta, povinho que adora falar mal da própria terra. Este complexo de colônia (que, vale dizer, BH também tem em relação a São Paulo e Rio) é algo não só irritante, mas tremendamente injusto.

Caso em questão: pela segunda vez consecutiva, meu vôo da American Airlines de Miami para o Brasil atrasou bastante. E também pela segunda vez consecutiva a empresa solicitou que os passageiros mudassem de portão de embarque na última hora. Desta vez, do E8 para o D22.

Besteira? Pois uma coisa que você precisa entender sobre o aeroporto de Miami é que ele é gigantesco. Se a mudança fosse do E8 para o E22, a caminhada já seria considerável; como também tivemos que mudar de ala, tornou-se uma maratona. Para que tenham uma idéia, andando em ritmo acelerado gastei 15 minutos para ir de um portão a outro – e imaginem o sofrimento e a lentidão dos passageiros mais velhos ou que enfrentavam algum tipo de problema de locomoção. No trajeto, nada de esteira rolante ou de qualquer auxílio por parte da companhia aérea – a não ser, claro, que você fosse um cliente platinum.

Mas não parou por aí. Quando já nos encontrávamos no avião, recebemos ordens de desembarcar, já que problemas não esclarecidos exigiam a troca de aeronave. Um acaso, um incidente isolado? Pois a mesma coisa aconteceu comigo da última vez. E novamente tivemos que esperar mais de uma hora até que o outro avião chegasse ao portão de embarque.

Mais: uma de minhas malas chegou com o fecho arrebentado e semi-aberta. Pergunto novamente: incidente isolado? Pois minha colega Luisa, que voltou três dias antes de mim, teve suas duas bagagens extraviadas – e quando finalmente as recebeu, uma encontrava-se terrivelmente danificada. Adiantou reclamar com a American Airlines? Claro que não; eles não se responsabilizam por danos à bagagem (em Los Angeles, pedi que colocassem um aviso de "Frágil" nas malas e fui informado de que não faziam mais isso, já que não assumiam qualquer responsabilidade por estragos ocorridos. Sim, os responsáveis pelo transporte de seus pertences não garantem que irão mantê-los íntegros.).

Já no avião, a aeromoça norte-americana revelou-se sempre ríspida e impaciente; a brasileira tratava todos com imensa cortesia.

Você certamente deve imaginar que, a esta altura, todos os passageiros encontravam-se revoltados, enraivecidos, certo? Errado. Nem um sopro de protesto. Bastou chegarmos ao aeroporto de Confins, porém, para que o acúmulo de passageiros do vôo em volta da esteira de bagagens causasse um caos:

– Puta merda, só no Brasil mesmo! – reclamou um.

– É, voltamos ao Brasil! – ironizou outro.

– Nada funciona direito nesse país! – xingou um terceiro.

E por aí afora. Acreditem ou não, até o presidente Lula foi responsabilizado pela lotação da sala de bagagens. (Talvez a mulher que insistia em xingar Lula em voz alta quisesse apenas se fazer ouvir por Hélio Costa, que viera conosco no vôo, mas ainda assim foi patético.)

Minha reação? Eu mal podia conter a felicidade por estar de volta ao Brasil. 

E não, não apenas porque iria rever meus filhos, mas porque estava farto dos Estados Unidos depois de passar três semanas em Los Angeles (somando os 10 dias que lá permaneci no final de julho/início de agosto, vivi mais de um mês naquele país, em 2009).

Não me interpretem incorretamente: tenho imensa admiração por grande parte da cultura norte-americana. No entanto, não há como negar que os estadunidenses são, em grande parte: a) grosseiros; b) impacientes; c) arrogantes; d) conservadores; e e) sim, incultos. A motorista da van (uma bela grega) que me levou para o aeroporto, por exemplo, disse que voltará para seu país na próxima semana depois de permanecer 15 anos nos Estados Unidos: "Não aguento mais esse povo. A impressão é a de que você está sendo controlado o tempo inteiro; não há espaço para a espontaneidade ou para a individualidade. Se você não pensa como a maioria, é um pária. Não quero ter filhos aqui".

Mas é o Brasil que não presta. Aqui é que as coisas não funcionam.

Pois querem ouvir um absurdo? Fui ao Citibank, em Los Angeles, para pagar duas contas do InFilm. Não consegui. Como uma pertencia ao Wells-Fargo e outra ao Bank of New York, eu teria que ir a estes bancos para pagá-las, embora tivesse o invoice em mãos com código de barra e tudo mais. Fora isso, só pagando pela Internet. (Sim, você leu direito: nos Estados Unidos, os bancos só recebem contas que eles mesmos controlem, não de outros bancos.)

Mas é o Brasil que é atrasado.

Andando pelas ruas de Los Angeles – mesmo na riquíssima Rodeo Drive -, é assustador perceber o número de imóveis residenciais e comerciais com anúncio de "aluga-se" e também as várias lojas com avisos de "Going out of Business". Nas ruas, mendigos sem-teto andam conversando sozinhos.

Mas é o Brasil que, mesmo não afetado pela crise mundial, tem uma economia atrasada.

O aeroporto de Miami e a American Airlines pintam e bordam com os passageiros repetidas vezes, mas é a esteira de bagagem do aeroporto de Confins que desperta a revolta dos brasileiros. O Brasil é um país perfeito? Não, longe disso. Mas basta passar um tempo no exterior para perceber como somos bem melhores do que nos consideramos.

Apesar do povinho bunda.

Toy Stories, Píer Santa Mônica e Saudades

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Luca & Nina, Viagens | 19 comentários

Fundado em 1926, o El Capitan é um cinema importante não só na história
de Los Angeles, mas também na da Sétima Arte de modo geral: foi lá, por
exemplo, que Orson Welles promoveu a première mundial de Cidadão Kane quando
nenhum outro exibidor aceitou o risco de provocar a fúria do magnata da
mídia William Randolph Hearst, com quem o cineasta vinha travando uma
batalha pública desde que o outro se dera conta de que Kane nada mais
era do que uma ficcionalização de sua própria vida.
 
Assim, quando entrei no cinema no sábado pela manhã para assistir à sessão dupla de Toy Story e Toy Story 2
em 3D, não estava ali apenas para conferir a nova versão dos belíssimos
filmes de John Lasseter, mas também para respirar um pouco da História
do Cinema. Onde teria sentado Orson Welles naquela noite específica?
Será que ele tinha alguma idéia de que estava lançando um clássico que
se tornaria referência absoluta nas décadas seguintes? O que teriam
dito os espectadores enquanto se encontravam no hall, após a sessão?
 

 
Logo, porém, tive que abandonar estes exercícios de imaginação pois a cortina vermelha havia sido aberta e You've Got a Friend In Me,
de Randy Newman, começara a tocar. A platéia, repleta de adultos e
crianças (muitas caracterizadas como seus personagens favoritos, desde
Woody e Buzz até a cowygirl Jesse e – para minha surpresa – os pequenos
aliens verdes que se submetem ao "Garra"), começou a aplaudir enquanto,
no palco, versões de "carne-e-osso" de Woody, Buzz e Jesse dançavam
desajeitada e alegremente. A coreografia, claro, logo descambou para
aquele clichê musical norte-americano dos braços dados e pernas
atiradas para o alto, culminando numa chuva de papel picado sobre a
platéia, mas a energia das crianças, que vibravam com tudo, tornou
aquele momento particularmente memorável – e senti uma dor quase física
por não ter meus pequenos ao meu lado naquele instante. 
 

Encerrada a dança, a tela se iluminou e vimos o trailer de Toy Story 3
– e em 10 segundos, ao ver Andy indo para a faculdade e os brinquedos
sendo abandonados, percebi que estava chorando. Sim, talvez eu esteja
excessivamente sensível em função da saudade que estou sentindo das
crianças, mas é igualmente possível que a Pixar tenha acertado em cheio
mais uma vez com a premissa do filme, não?
 
Seja como for, a sessão foi um sucesso:
despertando risos e aplausos durante toda a projeção, o El Capitan
exibiu jogos de perguntas e respostas na tela durante os 10 minutos de
intervalo – e fiquei impressionado ao perceber que Tim Allen e Joan
Cusack emprestaram suas vozes para as pequenas vinhetas que serão
exibidas apenas durante estas sessões especiais dos longas. Quanto à
tridimensionalização dos filmes, só posso dizer que foram muito bem
sucedidas, despertando minha curiosidade para as possibilidades deste
tipo de renovação. E se isto se tornar uma nova tendência? E se grandes
clássicos forem submetidos a este tratamento? Sim, parte de mim se
arrepia só de pensar nisso, mas outra parte, confesso, tem certa
curiosidade em conferir os resultados de versões 3D de obras como 2001, Fantasia e, por que não, O Poderoso Chefão.
(E isto partindo de alguém que sente profundo desprezo por modificações
como colorização de filmes em preto-e-branco e a conversão de obras em
widescreen para o formato 4:3.)

Após a sessão, claro, a saída levava diretamente à
loja da Disney, que também administra o El Capitan há vários anos
(quando não está exibindo os novos projetos do estúdio, o cinema
programa clássicos; na semana passada, por exemplo, Branca de Neve estava em cartaz). Ali, as crianças enlouquecidas pressionavam seus pais para que comprassem algum dos diversos produtos Toy Story estrategicamente espalhados pelo salão. 
 
E como eu queria ter enfrentado esse tipo de pressão naquele momento. 

Já no domingo, resolvi fazer um passeio de improviso e fui até o píer
de Santa Monica para assistir a um outro tipo de espetáculo: o
pôr-do-sol. Eu já vira o Sol se por ao lado do letreiro de Hollywood
duas vezes ao visitar o Observatório Griffith: uma levado por Ana Maria
Bahiana, em agosto, e a mais recente na semana passada, ao assumir o
posto de guia turístico diante de minha colega de InFilm Luisa, que se
encontrava em Los Angeles pela primeira vez. Porém, aquela visão,
maravilhosa como era, empalideceu diante do que vi no domingo.
 
  
 
Em primeiro lugar, é preciso descrever o choque
térmico que senti ao chegar ao píer. Los Angeles tem se revelado uma
cidade absurdamente quente nestas minhas duas estadas – e, assim, desta
vez nem mesmo incluí um agasalho em minha bagagem. Ao chegar ao píer de
Santa Monica, porém, o vento cortante e gelado me fez tremer, me
obrigando a comprar uma blusa de frio numa lojinha estrategicamente
localizada ao lado do parque ali instalado (e a julgar pelo número de
pessoas que usavam agasalhos idênticos ao meu, suponho que muitos
outros foram surpreendidos pelo vento). 
 
Caminhando sobre as tábuas do píer, imediatamente
notei a estranha proximidade das gaivotas: assim como os esquilos do
Central Park, em Nova York, que se aproximavam dos humanos sem o menor
receio justamente por estarem habituados a serem alimentados por estes,
as aves do píer chegavam ao ponto de bicarem alimentos estendidos pelos
turistas – e o mais incrível: enquanto aparentemente flutuavam no ar.
Sim, flutuavam: como o vento ali é fortíssimo, os pássaros conseguem
ficar praticamente parados em um mesmo ponto apenas com um levíssimo
bater de asas disparado contra a direção do fluxo do ar, como um
beija-flor. Assim, descem lentamente até os visitantes enquanto bicam
as guloseimas, o que resulta numa imagem estranha e bela.
 
 
 
Mas por que perder tempo com descrições se as
imagens podem falar por si mesmas? Peço perdão apenas pela baixa
resolução das fotos, já que o iPhone é conhecido por ter uma
camerazinha bem chulé (todas as imagens deste post podem ser ampliadas
com um clique).

 

Mas, mais uma vez, embora tenha achado a experiência
incrivelmente agradável, não consegui curtir como gostaria aquele
passeio: sim, queria Luca e Nina ao meu lado ali, vendo o Sol e pedindo
para que eu comprasse ingressos para a montanha-russa e a roda-gigante.
E, com isso, cheguei a uma conclusão importante: depois que me tornei
pai, deixei de ser um indivíduo. Agora sou composto por três partes – e
quando uma ou mais destas partes estão distantes, tudo se torna
inevitavelmente incompleto; o que normalmente despertaria alegria e
prazer fica abafado pela saudade e pelo sentimento de que pedaços
importantes de mim não estão ali para curtir tudo aquilo.

Quando estou longe dos meus filhos, sinto como se parte da minha alma tivesse sido amputada.

E se você já ouviu falar de "dor fantasma", sabe que, mesmo ausentes, aqueles membros amputados continuam a doer terrivelmente.

Rapidinhas

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cotidiano, Personalidades | 25 comentários

Ontem à noite fui ao Arclight, um dos melhores cinemas de Los Angeles, para assistir a Bastardos Inglórios e ao novo filme de Michael Moore (o primeiro é razoável; o segundo, muito bom). No intervalo entre os filmes, reparo num oriental baixinho, já meio velhinho, passando ao meu lado em direção à saída. 

Sulu.

Fiquei parado por vários segundos tentando decidir se o abordava ou não. Por um lado, ali estava um dos oficiais da Enterprise original; por outro, ele estava ali se divertindo como todo mundo, não a trabalho – era George Takei, o "civil", não o ator. Por fim, resolvi que seria inapropriado incomodá-lo. Já com mais de 70 anos, Takei não só é um ícone da ficção científica, mas também um louvável ativista do movimento gay (é casado há mais de 20 anos com seu parceiro Brad Altman) e, assim, merece meu duplo respeito.

O que inclui deixá-lo ir ao cinema em paz sem ser incomodado por um crítico de cinema fãzóide.

Cansado em Los Angeles, Desabafando de Madrugada, Esperando Retaliações

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Luca & Nina, Variados | 95 comentários

Estou ausente deste blog? Sem dúvida. Fiquei sem escrever críticas nas duas últimas semanas? Sim.

Mas em 15 anos como crítico de cinema e em quase 12 anos de Cinema em Cena, vocês podem contar nos dedos da mão esquerda do Lula quantas vezes eu tirei férias ou me ausentei do site. Workaholic por natureza, sempre trabalhei como um cavalo – e se nas últimas semanas escrevi menos posts e críticas, não é porque me entreguei à vagabundagem. Ao contrário; o sentimento de exaustão física, mental e emocional que estou experimentando neste momento chega a ser difícil de descrever. 

Como devem imaginar, assumir um cargo novo numa empresa ambiciosa como o InFilm não é brinquedo – e além de atuar na operacionalização de vários aspectos do negócio, ainda passei as duas últimas semanas fechando os detalhes mais cabeludos do programa Como Filmes e Programas de TV São Realmente Feitos. Em seguida, vim para Los Angeles pela segunda vez em um mês e meio, numa viagem absurdamente exaustiva, e já mergulhei no evento não apenas como um de seus "guias" (na falta de termo melhor), mas também como responsável por registrar da maneira mais fiel possível o que ocorre a cada dia

E tudo isso longe de minha família – e se há algo que vocês já devem saber a esta altura é que ficar longe de meus filhos é um sofrimento que, para mim, chega a representar uma dor física. Falar e vê-los pelo Skype até poderia ser um paliativo caso eu não percebesse que ver o "Papai" através da tela do computador é algo que não só não diminui a falta que os pequenos sentem de mim como ainda a intensifica por escancarar a distância – e ver Nina, por exemplo, esticando os bracinhos para vir para meu colo do outro lado da tela é de partir o coração.

É claro que vocês não têm nada a ver com meus "problemas"; o que interessa é que eu entregue críticas e textos de boa qualidade. Por outro lado, é justamente isso que me faz ficar profundamente chateado ao ler comentários do tipo "Arranje outro crítico para o Cinema em Cena!", "Se não pode escrever, deixe para outro", e por aí afora.

Ora, que a modéstia vá para o Inferno; se cheguei onde cheguei é porque tenho textos de ótima qualidade e com análises mais profundas e abrangentes do que normalmente se vê por aí (embora, claro, haja outros grandes críticos que provavelmente me deixam no chinelo. Pelo menos, reza a lenda.) Então não consigo entender este clamor por um substituto: se o que você quer é apenas outro texto sobre cinema, há algo novo chamado Internet que contém talvez algumas dezenas de textos sobre o assunto, possivelmente até uma ou duas centenas. Procure-os. Porém, se o que você deseja é ler mais textos meus, bom… então não entendo como um "substituto" poderia suprir esta demanda.

Ainda assim, fiquei simultaneamente triste e lisonjeado ao ler as reclamações de vocês – triste porque não gostaria que estivessem insatisfeitos; lisonjeado porque estão reclamando justamente por sentirem falta dos meus textos. E não há elogio maior para alguém que vive da escrita do que receber pedidos de "queremos mais".

E eles serão atendidos.

Três-Cinco

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 54 comentários

E a sensação habitual ao acordar nos aniversários pós-30: "Fuck!".

O Clube do Filme

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Livros | 40 comentários

Abandonado este blog não está e nunca será. O que pode acontecer, de quando em quando, é uma ausência temporária que jamais durará mais do que três ou quatro dias – mas esse tipo de "férias", como vocês sabem, é raro e continuará sendo. Nos últimos dias, aliás, não atualizei o blog por pura falta de tempo, já que, além das obrigações administrativas relacionadas ao Cinema em Cena e ao InFilm, ainda tive que me submeter a um exame de controle da retocolite – algo que envolve até mesmo sedação (que adoro, diga-se de passagem; caso tivesse me formado em medicina, jamais poderia ser anestesista, pois creio que engrossaria as estatísticas dos médicos viciados). A boa notícia é que, pela primeira vez desde que descobri a doença, ela está totalmente sob controle – não há uma única úlcera em atividade.
 
Dito isso, aproveitei as poucas horas vagas que tive nesses dias para ler "O Clube do Filme", que muitas pessoas me recomendaram nos últimos tempos – tanto por email quanto pelo twitter.
 
Infelizmente, não gostei nada do trabalho de David Gilmour.
 
Ex-apresentador de um programa sobre cinema, Gilmour relata, no livro, uma fase em que se encontrava em dificuldades financeiras após o fim do programa e que coincidiu com os graves problemas que seu filho Jesse passou a enfrentar na escola. Sem saber como estimular o rapaz a estudar, David toma a decisão de permitir que ele abandone os estudos desde que concorde em assistir a três filmes por semana ao seu lado. A idéia é que o Cinema oferecerá a Jesse a educação e a visão de mundo que a escola não conseguiu levá-lo a absorver.
 
Interessante? Sim. Possível? Em parte – eu realmente acredito que o Cinema pode ser uma fonte importante de aprendizado. Responsável? De forma alguma; há muitas coisas que só podemos aprender na escola – e não me refiro às disciplinas, mas à importância das regras e ao convívio social.
 
E este é um problema grave em O Clube do Filme. Como pai, não pude deixar de sentir que David, mais preocupado em ser um pai "moderno" e "amigo" (algo que, ironicamente, ele reconhece), se esquece de um conceito importante no que diz respeito à paternidade: o tough love – os momentos em que precisamos ser rígidos justamente por amarmos nossos filhos. Assim, no intuito de se mostrar "aberto", ele divide cigarros com seu filho de 16 anos enquanto ensina o garoto a saborear vinho – e não é à toa que logo Jesse se torna um fumante inveterado e mergulha em repetidas bebedeiras. Porém, em vez de se preocupar com o fato de estar incentivando o filho a poluir o corpo com cancerígenos e a encontrar a fuga para os problemas no álcool, David se limita a repetir os velhos clichês do pai preocupado: "Nada de drogas! Se usar drogas, nosso acordo está rompido!".
 
Mas é claro que um adolescente sem limites como Jesse logo passa a usar cocaína – e o que David faz, então? Honra sua palavra de tornar-se mais duro com o filho por este ter quebrado o acordo? Não. Passa a mão na cabeça do moleque e tenta argumentar com o rapaz. Resultado: eventualmente Jesse vai parar no hospital após sofrer uma taquicardia resultante do consumo excessivo de drogas – e nem assim seu pai decide revisar o contrato feito com o filho. Ora, se os adultos não sentem necessidade de honrar o que dizem, por que um adolescente deveria fazê-lo? 
 
Além disso, por mais que David insista em pintar o filho como um gênio incompreendido, um rebelde que, por ser excessivamente sensível e inteligente, acaba sendo desestimulado por um sistema de ensino convencional, o fato é que a própria narrativa de Gilmour revela Jesse como um garoto medíocre e emocionalmente imaturo (até mesmo para um garoto de 16 anos). Em certo momento, por exemplo, ele pergunta para o pai se "a América do Sul é um país ou um continente" – uma informação que, convenhamos, não é preciso freqüentar uma aula de geografia para aprender, o que indica uma imensa preguiça intelectual por parte do rapaz. 
 
Como se não bastasse, a âncora narrativa do livro – o tal clube do filme – não desempenha papel importante algum na história. Sim, aqui e ali David apresenta (de maneira sempre desorganizada e aleatória) algum longa para o filho, introduzindo a projeção com algumas trivialidades sobre a produção, mas jamais sentimos que estas experiências realmente trazem algum propósito educativo maior. A impressão é apenas a de que David quer uma oportunidade de impressionar o filho (e o leitor) com seus conhecimentos cinematográficos – e se no processo ele conseguir transformar Jesse em um cinéfilo, ótimo. Ainda assim, quando ele faz um "teste" com o rapaz no final do livro e o garoto demonstra conhecer Fassbinder, por exemplo, não conseguimos encontrar, no próprio livro, a origem de tal familiaridade com o cineasta alemão (e muito menos entendemos como isso substitui uma educação "formal").
 
Finalmente, o mais decepcionante em O Clube do Filme é perceber como a visão do próprio David Gilmour é limitada no que diz respeito ao Cinema. Sim, ele parece conhecer o bê-a-bá da Arte e seus nomes e correntes principais, mas de maneira puramente burocrática, acadêmica (no sentido pejorativo da palavra), sem jamais oferecer qualquer interpretação mais complexa ou mesmo menos clichê sobre aquilo que está comentando. Aliás, isto explica por que David se impressiona tão facilmente com os "talentos" do filho, já que também se mostra claramente impressionado com a própria mediocridade.
 
Embora tenha sido escrito com a idéia de relatar uma experiência bem sucedida e edificante, O Clube do Filme me levou a finalizar a leitura com um único pensamento: "Que família triste".
 
O Clube do Filme (The Film Club)
Editora Intrínseca, 2009
239 páginas