Cotidiano

Em Salvador

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Viagens | 40 comentários

Depois de pousar em Salvador, passei na casa de meu tio (o mesmo que me hospedou em janeiro) para um almoço rápido com a família e, em seguida, fui para a pousada que o pessoal da Caixa Cultural reservou em meu nome. (Para quem não sabe, vim dar uma palestra sobre crítica a convite do Ciclo Salvador de Cinema.) Ao chegar ao Pelourinho, toquei a campainha da pousada e fui recebido por uma baiana simpática que imediatamente se mostrou surpresa com minha presença.
 
– Pois não?
 
Olhei de novo a placa acima da porta e confirmei estar no lugar certo.
 
– Tudo bem? Eu tenho uma reserva em nome de Pablo Villaça.
 
Ela abriu a porta e me deixou entrar, dirigindo-se rapidamente a uma mesa localizada ao lado da janela que tinha um mapinha da ocupação dos quartos.
 
– Qual seu nome?
 
– Pablo. Villaça.
 
Ela olhou o papel intrigada.
 
– Tem certeza que é aqui?
 
– Ah… bom… eu tinha, mas agora que você falou dessa maneira… não sei mais.
 
Ela riu e jogou o papel na mesa.
 
– Na verdade, não sou eu quem faz isso. É a dona da pousada, mas ela foi em casa almoçar. 
 
– Ah.
 
– Você sabe o nome do seu quarto?
 
– Se eu sei o quê?
 
– O nome do quarto. Aqui os quartos não têm números, têm nomes. Senzala, Colonial, etc.
 
– Ah… só sei que o nome dele é Quarto. O sobrenome eu desconheço.
 
– Jaciara!
 
Assustei com o berro repentino. Ela estava chamando uma colega.
 
– Jaciara, você sabe em que quarto o Pablo está?
 
– Sei, não. Ligou para a dona Marlusa?
 
– Vou ligar.
 
Ela discou alguns números.
 
– Ih, caiu na caixa postal!
 
– Liga pra casa dela!
 
– Ah, é.
 
Discou de novo.
 
– Dona Marlusa? O Pablo chegou aqui. Ele tá em que quarto? Ah, tá. 
 
Desligou.
 
– Você tá no Colonial.
 
Ela me entregou uma chave e, olhando para a escada, disse:
 
– Pode subir ali. Fica à direita.
 
– Vocês têm internet no quarto?
 
– Tem, não. Mas aqui em baixo tem. Fica cheio de gente aqui nas poltronas mexendo na internet.
 
– Ah, ok. Obrigado.
 
Subi e, ao abrir a porta, senti o vapor abafado de um quarto que permaneceu algumas horas fechadas no calor de Salvador. Abri o frigobar para pegar um refrigerante. Vazio. Voltei para a escada e comecei a descer.
 
– Ei! – já gritou a moça, ao ver que eu descia. – Tá precisando de alguma coisa?
 
– O frigobar tá vazio…
 
– Ah, eu sabia que tinha esquecido uma coisa! Quando você sair do quarto eu encho pra você, tá? Mas você quer um suco de maracujá com acerola? Eu faço um pra você rapidinho!
 
– Quero, sim, por favor.
 
Voltei para o quarto rindo comigo mesmo. Há coisas que são inexplicáveis: o mesmo tipo de tratamento que me deixaria enfurecido em qualquer outro lugar… em Salvador me deixa apenas alegre graças à informalidade, à alegria e ao carisma de um povo pelo qual me apaixono um pouco mais sempre que passo por aqui.
 
Além disso, como ficar ranzinza se, ao abrir as portas da varanda do quarto, me deparo com esta vista?

Mais tarde, depois de passar algumas horas trabalhando no saguão do hotel, comprovo que a informalidade do baiano não apenas é geral, mas contagiosa: o dono da pousada, um francês radicado no Brasil há anos (e que fala o português – com sotaque baiano – maravilhosamente bem), se aproxima de mim e diz:

– Rapaz, mas você é estudioso, viu? Se alguém perguntar, eu sou testemunha!

Adoro esse povo, nativo ou importado.

Los Angeles – Dia 01

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Viagens | 24 comentários

Embarquei em Miami às 8h25 da manhã (9h25 no Brasil) e, como não havia dormido nada durante as mais de sete horas do vôo anterior, logo apaguei.

Abri os olhos ao sentir uma sacudida mais forte do avião. Ao olhar pela janela, surpreendi-me com o céu terrivelmente acizentado e com os constantes relâmpagos que pareciam surgir a poucos metros do aparelho. Nesse instante, a voz do capitão soou na cabine:

– Aqui é o comandante Bradley. Fomos informados pela torre de Los Angeles que as condições meteorlógicas são das piores possíveis neste trecho. Tentaremos evitar qualquer desconforto, mas é bastante provável que a forte turbulência seja difícil de ser contornada. Peço que mantenham os cintos afivelados.

Gelei. Nunca ouvira um piloto falar desta maneira com os passageiros. Infelizmente, logo vi que ele tinha razão: o avião começou a sacudir de maneira pavorosa enquanto o som alto dos trovões  parecia prestes a romper a janela. Segurei o braço da poltrona com força e, neste instante, um passageiro que se encontrava na fila ao lado foi arremessado para fora de seu assento justamente por não seguir as ordens de afivelar o cinto. A agitação ao meu lado era visível; todos pareciam amedrontados. Olhei para fora mais uma vez e, surgindo de repente no meio das nuvens, uma montanha pareceu passar a apenas alguns centímetros da asa do avião. 

Estávamos bem mais baixo do que eu imaginava.

Como o tremor não parecia ceder, comecei a me preparar para o pior – e este não demorou a ocorrer: subitamente, o aparelho virou de lado e pareceu despencar em direção a outra montanha. Senti um frio terrível na barriga e percebi que iria morrer. Fechei os olhos para não testemunhar o impacto.

E acordei assustado e confuso em minha poltrona.

Depois de alguns breves e tensos segundos, percebi que havia tido um pesadelo – mas, a partir daí, o restante da viagem foi tomado por sobressaltos e pensamentos negativos, embora o céu absolutamente azul e a absoluta ausência de turbulência fossem óbvios. Finalmente, o comandante (cujo nome desconheço) anunciou que estávamos prestes a pousar em Los Angeles. Olhei para fora e tive a impressão de que pousaríamos em Brasília, já que a cidade se estendia em uma longa planície à minha esquerda. Imediatamente senti uma certa decepção ao comparar a experiência ao pouso em Nova York, há cerca de dois anos: naquela ocasião, a visão de Manhattan me fizera perder o fôlego, ao passo que Los Angeles parecia decepcionante em contraste. Ao longe, vi o globo da Universal erguendo-se sobre os prédios que se encontravam ao seu lado, mas nada que me levasse a constatar estar na capital mundial do Cinema.

Depois de pegar a mala, saí do aeroporto e me ofereceram um táxi: ciente de que a corrida daria mais de 50 dólares, recusei a oferta e me dirigi ao local em que um sujeito anunciava uma van (ou "shuttle") por 15 dólares: expliquei que queria ir para West Hollywood e logo estava a caminho, dividindo o banco traseiro com apenas mais um passageiro, um jovem asiático. Na "freeway" que liga as várias regiões de Los Angeles (também neste sentido a cidade lembra Brasília; mas em vez de superquadras, há verdadeiros distritos), notei a mesma ausência de qualquer carro pequeno sobre a qual escrevera durante minha viagem a Nova York: para os norte-americanos, apenas os carros grandes, pouco práticos e imensos consumidores de gasolina parecem servir.

Ainda decepcionado pela paisagem comum, tive uma pequena amostra da história de Los Angeles ao ler uma placa que dizia "Howard Hughes Parkway", já que somente uma cidade como esta poderia homenagear uma figura como Hughes. Ao mesmo tempo, comecei a perceber a abundância (já esperada) de gigantescos anúncios de diversos filmes enfeitando fachadas inteiras de prédios enormes: de Funny People a Força G, passando por G.I. Joe e Harry Potter, as propagandas dos grandes lançamentos pareciam dominar a cidade.  

 

Minha sorte começou a mudar graças ao rapaz ao meu lado: ele estava indo para a UCLA e, com isso, ganhei uma visita ao campus da Universidade. Imediatamente, as imagens de belas e alegres jovens usando shorts mínimos (Los Angeles está mergulhada em calor) passaram a surgir na janela. Estranhei toda aquela agitação, já que o período do verão norte-americano é o de férias, mas logo entendi o que estava ocorrendo quando deixamos o garoto ao lado de uma tenda que dizia: "Arts Camp". Aparentemente, tratava-se de alguma atividade extra-curricular que envolvia coisas como "Acting for the Camera", "Advanced Digital Film", entre outras coisas.

Ao nos dirigirmos para fora do campus, passamos por um imenso campo de futebol no qual dezenas de garotas ensaiavam danças de líderes de torcida.

Só então lembrei-me de ligar minha máquina fotográfica, mas já sem tempo para registrar a imagem. Damn.


Até então, minha imagem de Los Angeles era a de uma cidade habitada apenas por milionários; uma imensa Beverly Hills. No entanto, o que eu via pela janela não correspondia exatamente a esta idéia. Lembrei-me das imensas mansões do bairro Mangabeiras, em Belo Horizonte, ou daquelas ficam ao redor da Lagoa da Pampulha e pensei que em nada deviam àquelas casas que eu via no caminho.

E foi então que entramos na Sunset Boulevard e, pouco depois, em Beverly Hills.

A cada duas esquinas, uma pequena placa anunciava a venda de mapas que indicavam a localização das casas das "estrelas" – e não duvidei que cada uma daquelas mega-mansões realmente abrigasse um Tom Cruise ou um Will Smith. De repente, os milionários do Mangabeiras me pareceram pobretões patéticos. (E eu, claro, me tornei um sem-teto.)

À medida que mergulhávamos em Beverly Hills, eu me sentia mais e mais como Eddie Murphy em Um Tira da Pesada, quando a câmera em ângulo baixo revelava sua reação ao cruzar as ruas da cidade pela primeira vez – e a impressão só se tornou mais forte quando passei a reparar nos carros displicentemente parados nas entradas daquelas casas (em uma delas, vi nada menos do que uma Ferrari e duas BMW e a frase "Não estamos mais no Kansas, Totó" me passou pela mente). Mais adiante, três crianças corriam umas atrás das outras em um belo gramado – uma cena que poderia parecer natural caso elas não estivessem correndo em Segways e não a pé

Já os turistas fazendo poses diante de um imponente edifício que exibia uma bela torre em nada me espantou; isto é, até o instante em que li os letreiros que identificavam aquele "ponto turístico" como sendo o Departamento de Polícia da cidade. Tentei imaginar alguém tirando fotos diante de uma delegacia brasileira, mas logo desisti: era absurdo demais.

Finalmente cheguei ao hotel e, por coincidência, meu colega Jeffrey Wells, do site Hollywood-Elsewhere, acabava de entrar. Informado de que os quartos estavam sendo arrumados e só seriam liberados em duas horas, senti um certo desânimo, mas foi então que Jeffrey, que morou em Los Angeles por mais de 20 anos (atualmente está em Nova York), me convidou para conhecer a cidade, já que alugara um carro. Primeiro, fomos à loja de DVDs e Blu-Rays Laser Blazer, que me impressionou pela diversidade do catálogo. Em seguida, Jeffrey fez uma verdadeira tour que passou pelos principais bairros e distritos que compõem Los Angeles – e de pontos turísticos óbvios a detalhes como a casa em que Marilyn Monroe morreu, vi em poucas horas muito mais do que imaginei que veria durante toda a viagem. Além disso, apaixonei-me pelo cinema de rua que exibia, em sua fachada antiga, o anúncio de que exibiria, em 70mm, Tempo de Diversão e Baraka, além de diversas outras atrações em panfletos despretensiosos afixados na bilheteria. 

  
 
Depois de passarmos pela aconchegante livraria "Book Soup" (8818 Sunset Blvd – West Hollywood), onde acabei comprando três livros, voltamos ao hotel – e foi aí que descobri que a tomada do carregador do notebook não encaixaria nas entradas do quarto. Assim, decidi caminhar até o shopping Beverly Center para comprar um adaptador, divertindo-me, no trajeto, com a nada envergonhada loja de lingerie que anuncia, com orgulho, vender peças "trashy". Reparei, também, que a aparência de prosperidade da cidade não parece ter resistido à crise econômica, já que, por todos os lados, lojas anunciavam seus fechamentos e imóveis traziam anúncios de "aluga-se".
 
 

Mais uma vez de volta ao hotel, fiz um videocast ao vivo e, depois de um longo banho, fui comer algo com meu amigo Josh Ralske.
 
E assim encerrei o primeiro dia em Los Angeles.

  

Ódio por um estranho

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 55 comentários

"Todo dia eu torço pela sua morte, Pablo Villaça filha duma puta.
Pedófilo do caralho. Sei muito bem o que senhor faz nas suas viagens
pelo Brasil. Já é famoso na Augusta, faz muito tempo. Filho da puta,
filho da puta, filho da puta. MORRE, FILHO DA PUTA!" – "Julipo", 10/07/2009, no post "Obundagate"

Analisemos.

Eu sei que Julipo não é alguém que eu conheça pessoalmente. Ou, no mínimo, alguém contra quem eu tenha cometido alguma barbaridade. Como sei disso? Porque a última vez em que realmente fiz algo de reprovável com relação a alguém, eu estava no ginásio. Tratava-se de um colega de sala sobre quem fiz um comentário cruel – e que jamais esqueci, tamanho o remorso. Fora isso, não me lembro de jamais ter prejudicado alguém. Não propositalmente. 

E creio que também podemos descartar as acusações de pedofilia e de ser "famoso na Augusta" (seja lá o que isso signifique).

Assim, só me resta uma conclusão: "Julipo" me odeia em função do que escrevo. Críticas e posts aqui no blog. Mas não é um ódio "normal" – um "repúdio" como o que sinto por Diogo Mainardi ou Reinaldo Azevedo. Não, não: "Julipo" quer que eu morra. Que deixe de existir. Que me retire do planeta, poupando o mundo das minhas terríveis opiniões como crítico e ser humano. Se no processo eu deixaria duas crianças órfãs de pai é algo irrelevante para nosso amigo. 

Sim, é possível que o desejo de morte de "Julipo" seja apenas força de expressão, mas… não sei. Há uma certa veemência, uma energia venenosa, um prazer incontido na explosão de ódio que me soa real.

Perguntaram no Twitter se isso me assusta. Sinceramente? Não, nem um pouco. Só me espanta. Acho incrível que existam pessoas capazes de devotar tamanha energia ao ódio que sentem por um completo estranho. 

"Julipo", se pensa em minha morte todos os dias, um conselho: pare de pensar em mim completamente, vivo ou morto. Vá viver sua vida. Estou certo de que há pessoas que admira. Talvez até conheça pessoalmente alguma delas (embora este ódio patológico em relacionamentos absolutamente virtuais seja típico de pessoas que não têm vida social muito ativa). Esqueça que existo.

E, com isso, realmente estarei morto para você. Não é melhor assim?

A gentileza dos curitibanos

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 47 comentários

Várias pessoas me alertaram, antes que eu viesse para Curitiba, sobre o jeitão supostamente pouco simpático dos paranaenses – e vários comentários similares foram publicados aqui no blog por leitores.

Devo ter vindo parar numa dimensão paralela, então, pois o fato é que, até o momento, estou simplesmente encantado com a gentileza, a educação e a simpatia desse povo.

Vou dar um exemplo básico: no Rio, praticamente todos os taxistas que conheci me trataram mal (especialmente se a corrida era curta) e tentaram dar voltas comigo (algo que eu combatia ao exibir claramente o GPS do iPhone). Pois aqui em Curitiba, não só os taxistas sempre exibem uma cortesia ímpar – mesmo quando a corrida dá, sei lá, 7 reais – como ainda surpreendem pela articulação e honestidade. Para que tenham uma idéia, ontem peguei um táxi para ir até o Shopping Barigui a fim de assistir a Transformers 2 e, ao lá chegar, entreguei uma nota de 50 reais para o motorista a fim de pagar os 11 reais da corrida. 

– Rapaz, eu não tenho troco. Você é a terceira pessoa que me paga com uma nota de 50 reais hoje. Você não tem menor?

Eu não tinha. Nesse momento, qualquer um dos taxistas que conheci no Rio iria começar a resmungar enquanto tentava encontrar alguém que trocasse o dinheiro, buscando, com isso, deixar claro como eu estava sendo inconveniente. Pois adivinhem qual foi a reação do motorista curitibano:

– Vamos fazer o seguinte – ele disse, me devolvendo a nota -: depois você me paga.

– Mas… como, depois?

– Você está hospedado no Virmond, não é? Uma hora dessas você vai precisar de táxi de novo e se coincidir de me chamarem, você acerta comigo.

Reparem que ele nem sabia quanto tempo eu ficaria na cidade e também não podia garantir que eu o chamaria novamente.

– Olha, eu agradeço a confiança, mas se o senhor esperar só um minutinho, eu vou ali dentro e troco o dinheiro.

– Não, não precisa, não.

– Mas eu fico meio tenso em ficar devendo…

– Não precisa ficar tenso, não! – ele riu. – Não tem problema algum.

Ainda assim, insisti e, poucos minutos depois, retornei para pagá-lo.

Mas fiquei encantado com a boa vontade do sujeito.

(Observação em nome do politicamente correto, que desprezo, mas que aqui julgo ser necessário: isto não é um depoimento contra o povo carioca. Ao contrário: os alunos do curso no Rio foram absurdamente alegres e simpáticos – e é bastante possível que eu esteja apenas dando sorte ao encontrar taxistas curitibanos simpáticos. O objetivo deste post é apenas o de ilustrar como a generalização feita sobre o povo de Curitiba tem me parecido injusta. Voltamos agora à nossa programação normal.) 


Quero aproveitar para mandar um abraço para o leitor Thiago Daher, que se aproximou de mim ao final da sessão de Transformers 2 e disse:

– Eu vi você entrando e não quis incomodar, mas como você diz no blog que gosta quando leitores se apresentam…

Ele está certíssimo. Eu realmente adoro conhecer leitores do blog e do site. Batemos papo por alguns minutos depois da sessão e isto ajudou a deixar meu dia mais alegre, já que é um porre, nessas viagens, o tanto que sou obrigado a ficar calado durante o dia, já que não tenho com quem conversar.

Saúde x Percepção

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 54 comentários

É difícil acostumar com a idéia de ter uma doença crônica. Depois de 32 anos em que os únicos "problemas" pertenciam à esfera emocional (a velha depressão, que trato com paroxetina há seis anos e que desde então está sob controle), tive que aceitar a realidade, há dois anos, de que tenho uma doença que provavelmente me acompanhará, em maior ou menor grau, até o fim da vida: a retocolite ulterativa. Foi ela que provocou a perfuração em meu cólon, em agosto de 2007, quase me levando à morte e resultando em três cirurgias, dois dias de UTI e um mês de internação.

E talvez por ter descoberto de maneira tão traumática o fato de ter a doença é que sinto tanta dificuldade em me habituar a ela.

O fato é que tive sorte: não só por ter escapado vivo da perfuração, mas por ter a mais "leve" (relativamente falando) de duas doenças similares, já que a Doença de Crohn afeta todo o intestino, ao passo que a retocolite não traz inflamações para o intestino delgado. Além disso, enquanto algumas pessoas apresentam quadros absurdamente violentos de retocolite, com lesões persistentes em todo o cólon, a minha vem em quadro de remissão quase completa, já que responde muito bem à mesalazina (e isto é um alívio, já que a alternativa química seria o uso pesado de corticóides, com todos os seus terríveis efeitos colaterais).

Sim, há desconfortos: de dois em dois meses tenho que fazer exames de sangue para me certificar de que não há indícios de que a retocolite esteja ativa e de que a mesalazina não está atacando os rins. Da mesma forma, é recomendável fazer colonoscopia de 18 em 18 meses para tornar o controle mais rígido. E além disso, há as dores ocasionais – tanto da doença quanto das aderências provocadas pelas três cirurgias, que foram bastante invasivas e traumáticas. Além disso, ter que tomar quatro comprimidões todos os dias, por todo o sempre, é algo que me deixa chateado – não sou um moleque, é verdade, mas isso não quer dizer que não fico incomodado por já ter que ficar sob medicação constante antes mesmo de atingir os 40 anos.

Seja como for, hoje fui à minha gastro para a consulta de rotina e parece estar tudo sob controle. Agendei nova colono para setembro e terei que fazer mais exames de sangue esta semana, mas tudo apenas por precaução, já que não há indícios de que a doença esteja ativa (na última colono, havia uma pequena área de leve ulceração, mas só).

Mas não minto: vira e mexe, quando sinto uma dorzinha, mesmo mínima, me apavoro. Sinto um medo terrível de estar com outra perfuração e de ter que voltar para o hospital. E o pior é que a retocolite é uma doença provocada e intensificada, acreditem ou não, especialmente como reação ao estresse. Ou seja: preciso relaxar para não correr o risco de piorar a doença, mas o simples fato de tê-la me deixa tenso. Difícil.

Por outro lado, a retocolite talvez seja uma benção disfarçada: como tenho essa bomba-relógio na barriga (e que, espero, jamais voltará a ser detonada), me esforço para apreciar as coisas boas da maneira mais intensa possível. Não fujo de experiências novas e estou sempre alerta para não deixar boas oportunidades passarem em branco.

Mesmo que esta oportunidade seja apenas a de escrever um post bobo e confessional que me aproxime mais de vocês.

Dia de sustos financeiros

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 19 comentários

Susto #01:

Recebo um convite para participar de um evento em Curitiba que implicaria em permanecer um dia a mais na cidade. Entro no site da Gol para verificar o horário do meu vôo de volta e… nada de vôos futuros cadastrados. Nada do vôo para Curitiba ou Brasília – e eu havia comprado as passagens há um mês. O susto é duplo porque: a) a fatura do meu cartão já acusara a cobrança das passagens; e b) os valores haviam subido imensamente desde que eu as comprara.

Ligo para a Gol, cujos atendentes estão ocupados. Meia hora depois, retornam a ligação. Ao que parece, por um erro do sistema as passagens não haviam sido associadas à minha conta no site da Gol. Em cinco minutos, problemas resolvidos.

Susto #02:

Recebo, pelo correio, um aviso de "pagamento pendente" da Sky e ameaça de corte do sinal. Ora, pago as contas pela Internet todos os meses, sempre no mesmo dia (programamos nossos vencimentos assim, justamente para evitar confusão), e já há alguns meses que não dou calote em ninguém.  Tongue out

Ligo para a Sky esperando ouvir que desde que enviaram a cobrança o pagamento já havia sido acusado, mas não é isso que acontece. Realmente, não viram sinal do dinheiro.

Entro no banco e peço para ver o extrato mensal: todos os pagamentos do mês estão lá. Menos o da Sky.

Das duas, uma: a) Houve algum erro no momento do pagamento, que foi extornado sem que eu fosse notificado (o funcionário da Sky disse que isso ocorre com certa freqüência em pagamentos feitos online pelos bancos); ou b) Eu realmente pisei na bola e não paguei a Sky este mês. Shit. Seja como for, paguei "de novo".

Susto #03:

No mês passado, recebi a primeira conta do iPhone pela Vivo e tomei um choque: 400 e tantos reais, sendo que 300 e tantos eram apenas de uso do GPRS (Internet, a grosso modo). Verifiquei no aparelho meu gasto e não havia chegado a utilizar 100 MB – e o plano iPhone 90 da VIVO me permitiria usar até 500 MB mensais dentro da franquia. Liguei para a Vivo, reclamei e fui informado de que receberia uma resposta em cinco dias úteis. 

Dez dias depois, recebo um SMS informando que minha reclamação havia sido deferida. Assim, relaxei e esperei a chegada da conta corrigida para pagá-la. Ela não chegou e… bloquearam o iPhone. Possesso, ligo para a Vivo: primeiro, a atendente diz que eu deveria pagar a conta errada, sendo reembolsado posteriormente. Obviamente, me recusei a fazê-lo. Ela explicou, também, que o vendedor com o qual comprei o iPhone se esqueceu de me cadastrar na promoção iPhone 90 – daí cobrarem "excesso" de GPRS. A conta deveria ter vindo com um valor de 65 reais, não 400 e tantos.

Fui transferido para uma supervisora depois de ameaçar entrar em contato com a ANATEL. Ela me passou os números do código de barras da conta correta pelo telefone e desbloqueou o telefone (cobrando 8 reais por isso, mas vá lá).

Problema resolvido, certo? Errado.

Hoje, ao abrir a conta da Vivo, quase caio para trás: 857 reais! Para que compreendam o tamanho do choque, meu plano é de 113 reais por mês, ou seja: cobraram quase 750 reais a mais sem a menor justificativa.

Ligo para lá e tudo se repete: não me cadastraram na promoção iPhone 90 (desta vez, usei 240 MB de GPRS; menos da metade do que poderia dentro da franquia); o cara da loja da Vivo errou; blábláblá. Conclusão: registraram mais uma vez minha reclamação e, desta vez, exigi que dilatassem o prazo de vencimento da conta para evitar problemas. Vamos ver se no mês que vem resolvem isso.

É muito chato ser adulto.

Punheta fatal

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Personalidades | 38 comentários

Um dos problemas da asfixia auto-erótica é que, em caso de erro, você vira piada na hora da morte:

"David Carradine teria morrido em acidente "de masturbação", segundo a Polícia".

O que seria "menos pior"? Caso a hipótese de suicídio tivesse se confirmado, os parentes de Carradine mergulharariam na dor de imaginar por que não perceberam o que estava ocorrendo com o ator, se poderiam ter feito algo para ajudá-lo e por aí afora. Agora, provavelmente estão constrangidos por ele, que morreu exposto em sua intimidade. Em contrapartida, se o suicídio revelava uma alma torturada, a morte por asfixia auto-erótica provavelmente significa que, aos 72 anos, Carradine continuava em busca do prazer e da satisfação sexual – e isso é muito bacana, não?

Em outras palavras: se eu pertencesse à família de Carradine, estaria triste, mas aliviado. Se eu fosse o próprio Carradine, estaria morto de vergonha.

Literalmente.

Reis da estupidez

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Mundo | 64 comentários

Lamento profundamente a morte de todos os passageiros da Air France (o Rob Schneider não estava no vôo*, estava?), mas essa mania da imprensa brasileira em se referir ao pobre Pedro Luiz como "príncipe" é irritante. Em matéria publicada hoje, a Folha ainda inclui a seguinte manchete: "Princesa quase embarca com o primo no vôo* 447".

Que princesa? O Brasil virou o castelo da Disney? Não temos princesas, príncipes, reis ou rainhas. O Brasil é, graças aos Céus, uma república. E já há alguns anos.

Mais adiante, na mesma matéria, o repórter escreve: "O príncipe é o quarto na linha de sucessão do trono real, caso o Brasil volte a adotar a monarquia –o primeiro é d. Luiz".

O que é isso? Uma versão "sistema de governo" da Síndrome de Estocolmo? Complexo de plebeu? 

E como assim, "caso o Brasil volte a adotar a monarquia"? Então tá: a partir de agora, sempre que alguém se referir a mim, quero que o seguinte esclarecimento seja incluído: "Pablo Villaça é o líder maligno indiscutível da Terra – caso o planeta adote sua proposta de se converter num Império Villaciano".

Tão plausível quanto.

 

* Enquanto a reforma ortográfica não se tornar obrigatória, recuso-me terminantemente a adotá-la.

House, obsessões e cansaço

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 51 comentários

Um dos motivos que me levaram a postar bem menos no blog nas últimas semanas reside em minha personalidade obsessiva: quando cismo em começar algo novo, simplesmente tenho que me situar completamente acerca daquilo que estou abraçando, seja um projeto, uma crítica, um tópico ou uma série de tevê.

Em outras palavras: House e o acidente da Air France. 

Nos detenhamos primeiro no segundo (apenas para que eu possa construir a frase anterior, que julgo curiosa): acidentes aéreos mexem terrivelmente comigo. Sim, em parte em função de meu velho medo de voar, mas também porque sinto imensa dificuldade em assimilar que, de uma hora para outra, mais de 200 pessoas compartilhem o mesmo momento fatal, deixando de existir no mesmo segundo. Penso em seus segundos finais, no terror que experimentaram, tento imaginar que tipo de pensamento cruzou a mente daqueles que perceberam que tinham apenas alguns instantes de vida, se fizeram alguma prece rápida, se pensaram em suas famílias, se lamentaram experiências vividas ou não vividas, se se lembraram dos grandes erros que cometeram, se…

Enfim. Se eu ganhasse um centavo por cada vez que sonhei com um desastre aéreo, estaria rico. E estes sonhos reaparecem com carga total quando algo como o desastre do Air France acontece. Além disso, leio tudo o que é publicado, faço questão de conhecer os nomes das vítimas, suas idades, profissões e o que faziam no vôo. Ao mesmo tempo, tento fugir disso (sem sucesso) por saber que não encontrarei explicação nenhuma para algo que se deve somente ao acaso: o fato de, em função de circunstâncias mil, todas elas terem se reunido naquela mesma aeronave fadada a desaparecer no mar.

E então me deprimo com a natureza randômica de nossas existências, a aparente falta de um propósito maior para tudo isso e… bom, entro num processo de angústia capaz de retro-alimentação que me joga ainda mais para baixo.

Isto é algo que eu discutiria na terapia, caso não a tivesse abandonado há tantos meses, e que talvez por isso vem parar aqui, neste blog.

Quanto a House, é simples: ao perceber que gostaria de passar a acompanhar a série, fiz o que sempre faço e assisti a todos os episódios já produzidos, terminando apenas há alguns minutos. E mantenho a opinião que publiquei anteriormente no blog: é uma série estruturalmente convencional, batida e cansativa que só sobrevive graças à complexidade de seu protagonista. Um protagonista tão fascinante que, mesmo reconhecendo o caráter repetitivo dos episódios, senti-me empenhado a conhecê-los integralmente. 

Mas há mais: como House, também tenho dificuldades em acreditar na Humanidade ou em "algo maior", mas, ao contrário do médico vivido por Hugh Laurie, acredito fortemente no Indivíduo. Como House, também não creio que as pessoas possam mudar, mas, diferentemente dele, acredito que há muitas pessoas essencialmente boas espalhadas pelo mundo e que podem fazer uma enorme diferença.

Assim, é bastante possível que esta maratona guiada por este personagem em específico tenha sido a responsável por me fazer sentir tão exaurido nesse exato momento, já que lidar com este conflito entre processos racionais similares e os impulsos emocionais contrastantes é algo com o qual venho me debatendo durante toda a vida e que a série consegue explorar com tanta propriedade.

Ou talvez seja esta maldita tosse que me atormenta há semanas.

Ou tudo isso ao mesmo tempo agora.

Brincando de Kubrick no hotel Overlook

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 22 comentários