Cotidiano

De volta

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Curso | 26 comentários

Às vezes acontece – e vocês sabem disso: há momentos em que o blog simplesmente deixa de ser aquele espaço bacana e interessante que me permite interagir com os leitores do Cinema em Cena e se torna uma obrigação. E há ocasiões em que esta sensação surge justamente no momento em que estou fisicamente exaurido. Depois de uma semana em São Paulo (e vocês se lembram de como aquela semana trouxe razões para que eu me sentisse cansado), passei por BH voando em uma semana que se mostrou igualmente desgastante: tive uma reunião na escola do Luca (que, como seu velho pai, não é uma criança das mais comportadas em sala de aula), passei horas negociando uma campanha publicitária no Cinema em Cena, fiz dois exames de rotina e ainda preparei todo o material para o curso do Rio, incluindo a produção de certificados, guias de aula e por aí afora. 
 
E agora estou na capital carioca depois da primeira aula da décima edição do curso de Teoria, Linguagem e Crítica.
 
Mas e o blog?, perguntam vocês. Será que eu o troquei pelo Twitter? Claro que não; tratam-se de dois animais completamente diferentes. O que ocorre é que o twitter exige apenas 140 caracteres por post e, portanto, posso publicar trivialidades apenas para ventilar a necessidade de me "comunicar" com os leitores, ao passo que me sentiria culpado caso publicasse um post curto e bobo aqui no blog – um espaço que, para mim, traz um peso maior, a responsabilidade de fazer jus ao tempo que vocês gastam para ler cada post.
 
Em outras palavras: peço desculpas pela ausência e volto a ser o blogueiro de sempre.
 
Prometo tentar, ao menos.

Hotel Bom pra Cachorro. Só pra cachorro.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 73 comentários

Sim, não posto desde a madrugada de quarta-feira. Por quê? Ora… porque fiquei no pior hotel que já tive o desprazer de me hospedar em 34 anos. E, ligando o modo "longo monólogo de revolta", explico os motivos:

Todo ano, quando viajo para a Mostra, me hospedo em um de três hotéis – todos excelentes. Desta vez, porém, como iria ficar apenas 5 dias, decidi experimentar um local novo com o objetivo de somar uma nova opção às minhas idas a São Paulo. Assim, entrei num site especializado no assunto, selecionei a região que me interessava e encontrei o Hotel Panamericano.

Imediatamente, reconheci a foto da fachada: todo ano, durante a Mostra, subo e desço a Augusta milhares de vezes enquanto vou do Frei Caneca ao Unibanco, ao Bombril, Cinesesc e vice-versa. Sempre me pareceu uma entrada imponente e, ao ver algumas fotos do saguão e de um dos quartos, fiz a reserva online. O preço da diária não era particularmente abusivo e achei que o pior que poderia acontecer seria passar cinco dias relativamente desconfortáveis e pronto.

Como eu estava enganado.

A ilusão demorou 5 minutos: ao chegar ao hotel, ao meio-dia da segunda-feira, constatei satisfeito que a recepção era elegante e bem decorada. Preenchi a ficha e perguntei sobre a Internet: 68 reais por um cartão que me daria acesso irrestrito por uma semana via wi-fi. Aceitável. Paguei a estadia adiantadamente (um procedimento relativamente comum) e, ao receber a chave do quarto, me dei conta de que caíra numa armadilha.

Porque se tratava realmente de uma chave. Não um cartão, como todo bom hotel vem usando há anos, mas uma chave. Atrelada a um chaveiro imenso e horroroso.

Subi ao oitavo andar (quarto 801) e, realmente, o lugar era bem diferente da foto. Não era pavoroso, mas decepcionante. Ainda assim, aceitável. Já o banheiro era outra história: a banheira tinha uma lateral que media no mínimo uns 90 centímetros – e arrisco-me a dizer que uma pessoa baixinha ou com algum problema nas articulações jamais conseguiria entrar no chuveiro para tomar um banho. Além disso, era o tipo de design perfeito para gerar acidentes na saída do banho, já que o chão molhado e a necessidade de saltar um obstáculo para sair do chuveiro criavam condições ideais para um desastre.

De cara, decidi que não voltaria a me hospedar ali, mas achei que o pior já havia passado. Além disso, a Internet era rapidíssima, o que tornava tudo um pouco menos torturante.

Naquela noite, liguei para a recepção para perguntar qual era o número da cozinha, já que eu gostaria de pedir um lanche. Fui informado, então, de que o hotel não tinha cozinha e que eles "recomendavam" o Shopping Frei Caneca para refeições. Considerando que já havíamos passado da meia-noite, a sugestão foi tão útil quanto dizer que eu poderia escolher ser atendido por Wolfgang Puck em pessoa. Além disso, fiquei curioso para saber como, afinal, eles preparavam o café da manhã – mas preferi não perguntar. (Por incrível que pareça, este se revelou satisfatório.)

Dois dias se passaram. Até que, na quarta-feira, tudo começou a desabar. Em um momento específico, quase literalmente.

Para começar, a Internet parou de funcionar logo depois que publiquei o post sobre Lost. Ao ligar para a recepção, fui informado de que deveria entrar em contato com o 0800 da empresa que fornecia o acesso ao hotel. "É apenas um real por minuto de ligação", disseram. Contrariado, liguei. De cara, o atendente tentou me convencer a reiniciar o notebook, a verificar configurações e o diabo a quatro. Expliquei que trabalhava com Internet, usava a rede há mais de 15 anos, desde o BBS, e que sabia quando o problema era comigo ou com a rede – e que definitivamente o problema era com a rede (leia-se: com eles). Depois de me pedir "um momento", o sujeito me forçou a ouvir uma musiquinha de espera por uns dois ou três minutos e, finalmente, me informou que, "de fato, a rede do Hotel Panamericano estava fora do ar". Previsão de reparo: até meio-dia do dia seguinte. Fui dormir.

A Internet não voltou a funcionar apropriadamente até o final da minha passagem por São Paulo.

A quinta-feira começou ainda pior: despertei espirrando. Literalmente: acordei porque estava espirrando sem parar. E a crise durou mais de 20 minutos, chegando a provocar uma forte sensação de desmaio. Algo no quarto me provocara uma crise alérgica fortíssima. Saí e comprei um Claritin D e só então voltei a respirar normalmente. Neste meio-tempo, já estava usando o 3G da Vivo para acessar emails e Twitter (estou até com medo do Roaming do 3G), já que a Internet decidira não voltar mais. Revoltado, liguei para a recepção e o atendente afirmou que providenciaria o estorno do cartão de acesso.

Na manhã seguinte, fui dormir quase às 4 da madrugada, depois de solicitar para ser despertado às 10 horas. Isto não foi necessário: às 7 da manhã, o som de marretadas no quarto 901, logo acima do meu, me fez acordar num salto de susto, como se o apartamento estivesse desabando. Liguei para a recepção:

– Por favor… tem um barulho altíssimo no apartamento acima do meu, como se alguém estivesse martelando.

– Sim, senhor, o apartamento está em reforma.

– Mas é impossível dormir ou fazer qualquer coisa com esse barulho.

– Sinto muito, senhor, mas realmente não há nada que possamos fazer.

– Há, sim. Para começar, vocês podiam mandar a reforma parar, já que tem um hóspede incomodado no quarto de baixo.

– Sinto muito, senhor.

Pensei em perguntar por que haviam me colocado num quarto localizado exatamente sob outro que entraria em reforma dias depois, já que o hotel estava longe de estar lotado, mas desisti. Eu não iria mudar de quarto faltando apenas um dia para ir embora.

Às 10 da manhã, o telefone tocou:

– Senhor, serviço de despertador.

– Não era necessário. As marteladas já me despertaram há horas.

A recepcionista, acreditem ou não, riu do comentário. Desliguei o telefone pensando em matar alguém.

No dia seguinte, sábado, descobri que a Gol alterara meu vôo de volta para a noite – e, assim, eu teria que permanecer mais meio período no hotel. Às 12h30, ligaram da recepção:

– Senhor, o período de check-out encerrou há meia hora. O senhor desejará ficar mais uma diária ou apenas meia?

Achei aquilo de uma desonestidade absurda. Em todos os hotéis em que fiquei, a recepção liga meia hora antes do vencimento do horário de check-out para avisar que ele vai se encerrar, permitindo, assim, que o hóspede distraído saia a tempo de evitar um gasto inesperado. O Hotel Panamericano aparentemente liga meia hora depois para avisar que o gasto já se tornou inevitável.

Às 18 horas, cheguei à recepção com minha bagagem. E fui informado de que deveria pagar mais 80 reais. Pedi para ver o extrato – algo que eles deveriam ter imprimido sem que eu solicitasse. E lá estavam os 68 reais da Internet.

– Eu não vou pagar pela Internet. Comprei um cartão para uma semana e ela só funcionou dois dias. Um dos recepcionistas me disse que providenciaria o estorno.

– Hein? Como era o nome desta pessoa?

– Márcio*.

– Márcio? Não trabalha ninguém aqui com esse nome.

– Então me enganei. Mas expliquei pra ele que liguei para o help-desk duas vezes, que a Internet não funcionava e ele disse que iria providenciar o estorno.

– Não podemos fazer isso.

Finalmente, as frustrações de toda a semana começaram a me fazer perder o controle.

– Não podem? Escuta aqui, rapaz, eu não estou te perguntando se eu terei que pagar a Internet. Eu estou te informando que não irei pagar. Converse com quem você tem que conversar e pronto, o problema não é meu.

– Peraí. Vou ligar pro funcionário.

Ele, então, se dirigiu ao telefone que ficava ali mesmo, a poucos centímetros de onde eu estava, abriu uma agendinha, procurou o nome do funcionário e discou. E as palavras seguintes me fizeram sentir uma raiva que eu não experimentava há anos:

– Alô, Márcio? O hóspede do 801 está dizendo que… (explicou o caso inteiro) Você disse que iria estornar o cartão? Não? Tem certeza? Ok.

Ele desligou o telefone e se virou para mim. 

– Senhor, ele…

– Cara, antes de você falar uma palavra sequer, deixa eu te perguntar um negócio: tem "idiota" escrito na minha testa? Você acabou de me dizer que não tinha nenhum Márcio nesse hotel, sugerindo com isso que eu menti, e aí você liga para o cara na minha frente? Você não tem vergonha na cara, não? Você tentou me enganar descaradamente e, ao não conseguir, assume a sua mentira da maneira mais ofensiva possível!

– Eu quis dizer que ele não tinha autoridade para estornar o cartão.

– Você não "quis dizer" porra nenhuma. Você mentiu. A palavra é essa: mentiu. Você tentou me enrolar, apostando que eu não ia ter certeza do nome do funcionário e acabar cedendo. Deixa eu te explicar um negócio: os 70 reais da Internet para mim são o de menos. Já paguei mais do que isso por coisa pior. Mas eu não vou dar um centavo sequer por uma coisa que não funcionou. E muito menos agora, com essa sua mentira absurda.

– Senhor…

– Não tem nada de "senhor"! Não adianta falar "senhor" e ao mesmo tempo mentir pra que eu pague por um serviço que não presta. Esse é pior hotel que já fiquei aqui em SP. O quarto me provocou crise alérgica, a banheira é ridícula, a Internet não funciona e vocês obrigam os hóspedes a ligarem para um help-desk que cobra pela informação óbvia e inútil de que a rede não funciona, vocês não têm cozinha e ainda colocam um hóspede sob um quarto em reforma e, quando reclamo, dizem que não podem fazer nada.

– Quem disse que não podia fazer nada?

– Não lembro o nome da moça. Mas provavelmente ela não existe também, não é?

– Se ela disse isso, está errada. Deveria ter mudado o senhor de quarto imediatamente.

– Mas não mudou. E eu não vou pagar pela Internet.

– Só um segundo.

Ele voltou ao telefone e ligou para a empresa que faz a manutenção do Speedy no hotel:

– Seu Antunes*? Aqui é do Hotel Panamericano. Estou com um hóspede que… (relata o caso inteiro). Sim, seu Antunes, ele está falando a verdade. Não funcionou mesmo. Eu sei porque até a Internet aqui da recepção não funciona desde quarta-feira.

Ao ouvir esta última informação, que comprovava que ele sabia que eu tinha razão, comecei a rir. E a raiva passou instantaneamente. A situação se tornou tão absurda que, talvez paradoxalmente, percebi que ficar irritado era inútil.

Seja como for, ao desligar o telefone o rapaz já se dirigiu imediatamente ao computador e estornou o cartão. Paguei o que restava da conta e me dirigi à saída.

– Até breve, senhor. – ele ainda disse.

Que espere sentado.

* O nome dele não era Márcio. Substituí aqui no blog para evitar complicações para o rapaz, mas é claro que, na hora, falei o nome correto.
* Idem.

A importância de um elogio

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 64 comentários

Depois da aula (animadíssima, por sinal), voltei a pé para o hotel e, no caminho, parei para jantar no Athenas Café e Restaurante (Augusta, 1449, Consolação). Estava meio desanimado (detesto comer sozinho em restaurantes), mas isto não me impediu de notar o atendimento fantástico que o garçom ofereceu: sempre rápido e prestativo, ele limpava a mesa a qualquer sinal de bagunça (como a umidade do copo se espalhando pela madeira) e trocava os pratos antes mesmo que eu me desse conta do que havia ocorrido – e isso sem jamais parecer ansioso por me ver longe dali. O cardápio aparecia num piscar de olhos, bem como os pratos e a conta.

Assim, quando recebi o troco, perguntei:

– Qual é o seu nome?

– Eliandro.

– Eliandro, poucas vezes fui tão bem atendido.

Ele abriu um sorriso largo e surpreso – duvido muito que esperasse o elogio.

– Sério, senhor?

– Seríssimo. Você está de parabéns.

– Puxa vida… – ele ainda sorria, feliz, e parecia pensar em algo apropriado para dizer. Finalmente, acabou estendendo a mão, incrivelmente alegre. Apertei sua mão e deixei uma gorjeta no valor de quase 40% da conta – algo que eu nunca havia feito na vida.

Levantei-me e, num impulso, fui até o balcão e pedi para falar com o gerente. O balconista foi chamá-lo com uma expressão receosa, já antecipando alguma reclamação. 

– Pois não, senhor? – perguntou o gerente, demonstrando que a cortesia é algo comum na equipe.

– Eu queria fazer um elogio. As pessoas costumam chamar o gerente só para reclamar; quando algo é bem feito, é importante elogiar. O garçom que me atendeu, Eliandro, fez um serviço excepcional. 

– Que bom ouvir isso, senhor! Eu vou transmitir isso a ele! – e completou, cúmplice: – Mas eu já sabia que ele era bom de serviço!

O que me custou fazer aquele elogio? Nada. Mas o garçom ficou tão feliz (assim como o gerente) que saí dali igualmente alegre, como se alguém tivesse me elogiado, e não o contrário.

Faz bem ser gentil.

Contratempos de viagem

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 21 comentários

É irritante: comprei a passagem para SP ainda em março, já que não queria dores de cabeça e contratempos (a do Rio também já está comprada, bem como a de Curitiba). Quase dois meses de antecedência.

E na véspera do vôo, em pleno domingo de Dia das Mães, recebo um email me avisando que o vôo havia sido cancelado em função de "readequação da malha aérea".

Por sorte, tenho um hábito compulsivo de checar emails – algo que se arraigou com o iPhone. Assim, li a mensagem às 15 horas, apenas 40 minutos depois de seu envio, e pude ligar para a Gol a fim de providenciar a mudança do vôo. Mas pergunto: e se eu não tivesse um iPhone? Se checasse emails só à noite? Ou não checasse, já que estávamos em pleno domingo de Dia das Mães, e simplesmente fosse para o aeroporto na manhã seguinte sem saber de nada?

Eu provavelmente não teria conseguido embarcar para São Paulo e deixaria toda a turma do curso a ver navios. E ainda levaria um tremendo prejuízo.

Para que tenham uma idéia, mesmo ligando apenas 40 minutos depois do recebimento do email, duas das opções de vôos oferecidas na mensagem pela Gol já haviam se esgotado. Assim, fiquei com duas opções: embarcar ontem mesmo, às pressas (o vôo sairia às 17 horas!!!), ou pegar um vôo hoje que me deixaria em Guarulhos, em vez de Congonhas. Sem opção, aceitei.

O problema com Guarulhos, aliás, não diz respeito apenas ao fato do aeroporto ser absurdamente longe; implica, também, em ser tratado como passageiro de vôo internacional, mesmo que esteja num vôo doméstico. Em resumo: checagens e contra-checagens de bagagem; revista minuciosa; fila imensa no detector de metais em Confins, na sala "A" (na sala "B", dos domésticos, a fila é quase sempre rapidíssima); chatice de explicar para 500 pessoas, em Guarulhos, que estou vindo de BH e que, portanto, não preciso mostrar passaporte ou declarar bagagem; e assim por diante.

Como se não bastasse, ao me dirigir ao ponto em que pegaria o ônibus da Gol que faz o traslado para Congonhas, recebi a informação de que ônibus que partiria às 10h30 já havia saído (embora fossem 10h12) e que o próximo sairia apenas às 11h. Quando a moça que estava ao meu lado se espantou com a demora, o funcionário, extremamente grosseiro, retrucou:

– E olha que ainda tá bom demais, viu? Porque normalmente só teria outro às 11h30! Tá bom demais!

Tá, não, moço. Tá, não.

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