Discussões

A Importância e a Perversão do Jornalismo

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Série Jornalistas | 1 comente

Quem me acompanha há algum tempo, sabe que uma de minhas grandes preocupações (ok, quase uma obsessão) é a forma como o jornalismo brasileiro se mostra corrompido em sua essência. Sempre discuto como boa parte das pessoas parece não se lembrar de que os veículos de mídia pertencem a corporações e que, portanto, respondem aos interesses destas – o que explica por que qualquer político ligado aos interesses do mercado conseguirá passe livre para dizer e fazer o que quiser, ao passo que aqueles que representem algum tipo de ameaça ao grande capital serão invariavelmente massacrados. Isto não é exclusivo do Brasil, contudo – e o próprio Cinema já retratou esse tipo de lógica perversa em filmes que vão de Cidadão Kane a A Grande Ilusão, passando por O Monstro na Primeira Página. Aliás, o documentário Manufacturing Consent, que acompanha o fantástico Noam Chomsky, aborda estas questões de maneira abrangente – e por isto o incluirei ao fim deste post.

No entanto, há algum tempo li um artigo no “Los Angeles Review of Books” que, girando em torno dos trabalhos de Renata Adler, traz alguns pontos bastante objetivos e que, creio, podem servir como ilustração para algumas de minhas principais preocupações – mesmo que, no processo, Adler critique pesadamente os estágios finais da carreira de Pauline Kael, por quem tenho imensa admiração, mas que, de fato, exibiu um claro declínio em seus anos finais. (Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.) Para facilitar, traduzo, abaixo, algumas das passagens que julgo mais importantes e que abordam não só a má prática jornalística, mas algumas de suas causas:

“O jornalismo cumpre dois papéis importantes: nos mantém informados sobre política, economia e mudanças culturais que podem ressoar através da sociedade e também oferece um ponto de partida para discussões sobre estes temas. É por isso que o bom jornalismo é tão essencial. Mas o jornalismo existe apenas como o esforço acumulado de cada jornalista. Isto significa que a prática cotidiana do jornalismo – a forma com que cada um desenvolve seu trabalho e as circunstâncias sob as quais isto é feito – importa muito por si só.

(…)

Embora eu não esteja certo de que concordo muito que a imprensa esteja em “declínio”, embora esteja sempre sendo prejudicada por forças que podem estimular más práticas, eu certamente acredito que o mau jornalismo acaba servindo aos poderosos; se os jornalistas não contestam apropriadamente as elites econômicas, políticas e culturais, os interesses destas definirão completamente os debates e as conversas de nossa sociedade. (…) “As mesmas forças que são boas para o jornalismo e para os donos das empresas de comunicação são as forças maléficas para o jornalismo em si”; as chances de um jornalista conseguir levar uma boa vida de classe média provavelmente nunca foram tão pequenas. (…) E a pressão para desenvolver uma carreira é uma ameaça concreta que dificulta que o jornalista cumpra bem seu papel na sociedade.

(…) Pecados jornalísticos surgem em várias formas. Os mais óbvios são os fabulistas, que inventam histórias, fontes e eventos. Há os preguiçosos e ingênuos, que são facilmente manipulados por suas fontes. Há os cínicos que deixam propositalmente que suas fontes poderosas os manipulem em troca do tipo de acesso que pode levar a “grandes” carreiras. Adler é particularmente dura ao falar de repórteres que dependem de fontes oficiais “anônimas”, que deixam figuras poderosas do governo e do mercado ditarem pautas das redações apenas porque controlam os caminhos oficiais da informação.

(..) A história oficial é a mais fácil e rápida de se escrever, pois já foi mastigada (pela fonte). Esta é uma maneira através da qual fontes poderosas influenciam a cobertura jornalística: oferecendo uma história fácil para repórteres ambiciosos que querem publicam algo rapidamente.

(…) Atualmente, quase todo o jornalismo é digital; mesmo artigos publicados na mídia impressa existem online. Como os jornais tradicionalmente ofereciam um número maior de posições estáveis para jornalistas e também apoio institucional, isto deixou a indústria mais frágil de modo geral. A pressão sob a qual jornalistas sempre trabalharam – a necessidade de publicar muitos artigos e avançar na carreira – só se tornou pior. (…) Muitos jornalistas ainda recebem ofertas para trabalharem de graça, em troca de “exposição”, um conceito amorfo que apenas reforça a noção de que eles precisam produzir muitos textos rapidamente a fim de construir uma reputação que levará a algum trabalho remunerado. Isto leva a hábitos profissionais que levam os jornalistas a práticas preguiçosas: ênfase na velocidade, falta de compromisso com um artigo em particular (amanhã outro será publicado ou mesmo dali a uma hora) e a uma postura geral de que o jornalismo serve pra produzir conteúdo, não para envolver os leitores.”

Para concluir, o artigo (escrito por Guy Patrick Cunningham) discute uma tendência particular do jornalismo digital contemporâneo: artigos que se limitam a reagir a outros artigos que geraram alguma polêmica:

“Há algumas razões para que este tipo de artigo analítico “agregado” seja problemático. Em primeiro lugar, é simplesmente irresponsável apresentar alguma conclusão ou construir um argumento sem ter feito a pesquisa apropriada: um jornalista precisa reestabelecer sua autoridade em cada artigo que escreve, pois cada um deles pede que o leitor lhe empreste seu tempo e sua atenção. Mais importante, porém, é que isto limita a habilidade do jornalista de realmente explicar um problema. Um jornalista que não conhece o assunto que discute acaba escrevendo um monólogo: eles só têm informação suficiente para apresentar seu próprio juízo sobre a questão, mas não consegue construir o tipo de argumento que poderia convencer o leitor de que sua opinião é a correta.

A questão não é se o leitor deveria ou não discordar da conclusão; a questão é que o leitor não pode. As únicas opções são aceitar a conclusão do artigo ou descartá-la. (…) Esta é a sombra do jornalismo digital comercial: uma controvérsia surge nas redes sociais e as prioridades econômicas dos editores digitais leva-os a pautar trabalhos que capitalizem a onda – textos rápidos que são praticamente criados para fracassar de um ponto de vista do jornalismo tradicional. (…) Os veículos digitais frequentemente promovem um tipo de análise que beneficia as plataformas em vez dos leitores. O problema é uma conversa democrática, o tipo que o jornalismo precisa estimular, acontece entre pessoas, enquanto os veículos digitais querem principalmente apresentar uma conversa para as pessoas – um simulacro que pode ser usado como veículo para anúncios e como meio para coletar dados sobre os interesses dos leitores (para garantir que os anúncios estão bem direcionados).

(…) Isto abre espaço para um texto “analítico” que promete um argumento, mas que não precisa entregá-lo necessariamente. Isto reforça a noção perniciosa de que não há distinção entre jornalismo e mero conteúdo, o que leva a aumentar a aceitação por outro tipo de trabalho “preguiçoso” – incluindo o tipo que se limita a repetir histórias oficiais de fontes oficiais. Quando os jornalistas falham em estimular o pensamento crítico dos leitores com relação ao que leem, diminuem a habilidade dos leitores de se envolver em conversas democráticas de modo geral.

(…) Os jornalistas precisam pensar como escritores – no sentido de que devem ter ambição com relação à qualidade de seu trabalho: se pode ser melhor, tem que ser melhor. Todas as vezes. Isto não é mera questão de boa prática profissional; numa sociedade democrática, jornalistas carregam grande responsabilidade. (…) O bom jornalismo faz com que a sociedade seja mais democrática ao manter as pessoas informadas o bastante para que possam participar do espectro completo da atividade democrática. Mas isto só acontece quando os próprios jornalistas fazem questão de não se acomodar – quando combatem as pressões da carreira, a miopia de editores e as necessidades comerciais do próprio jornalismo. Conteúdo não é conversa. E, no fim das contas, é de que conversa que uma sociedade democrática precisa. É importante não se contentar com nada menos do que isso.”

Amém.

Hollywood, Terra de Maiorias

postado em by Pablo Villaça em Cinema, cinemaemcena, Discussões | 12 comentários

Nesta quarta-feira, a USC divulgou um estudo preocupante sobre a falta de diversidade na representação dos filmes hollywoodianos – ou seja: aqueles com maior alcance em todo o planeta. Para tornar tudo ainda mais desesperador, o estudo restringiu-se a analisar os 700 filmes mais vistos entre 2007 e 2014 (ou seja: as 100 maiores bilheterias de cada ano).

Os achados não surpreendem, mas entristecem. Alguns dos que listei no twitter mais cedo:

Nesta significativa amostragem…

* 73,1% dos personagens com falas ou nomes eram brancos;

* apenas 30,2% das personagens com falas ou nomes eram mulheres;

* apenas DEZENOVE PERSONAGENS eram homossexuais. NENHUM trans.

Entre as cem maiores bilheterias de 2014…

* apenas 1,9% foram dirigidas por mulheres.

* apenas 4,9% traziam personagens latinos com nomes ou falas.

* NENHUMA foi protagonizada por uma mulher com mais de 45 anos.

Se isto já não fosse o bastante para me entristecer, logo comecei a receber mensagens de usários procurando JUSTIFICAR a predominância de homens brancos cis hetero diante (ao menos como personagens) e atrás das câmeras.

“Ah, mas as mulheres não vão tanto ao cinema!” (Errado: elas correspondem a cerca de METADE do público pagante:http://www.mpaa.org/…/MPAA-Theatrical-Market-Statistics-201…)

“Ah, mas os latinos não vão tanto ao cinema!” (Errado: eles correspondem a UM QUARTO do que Hollywood considera como “espectadores frequentes”: http://www.mpaa.org/…/MPAA-Theatrical-Market-Statistics-201…)

E o meu favorito: gente que atribuiu a ausência de produções estreladas por mulheres mais velhas entre as maiores bilheterias à FALTA DE QUALIDADE deste “tipo de filme”.

Oh, boy. Vamos ver alguns dos “excelentes” filmes estrelados por homens que ficaram entre as maiores bilheterias de 2014?

6.O Hobbit 3
7.Transformers 4
13.Godzilla
15.Tartarugas Ninja
21.Policial em Apuros
28.Uma Noite no Museu 3
30.300 2
35.O Céu é de Verdade
38.Busca Implacável 3
46.Tiras, Só que Não
47.Caçadores de Obras-Primas
49.Hércules
50: The Purge 2
52.Pense Como Eles Também
55.Deus não Está Morto
56.O Filho de Deus
57.Aviões 2
60.Drácula: A História Nunca Contada
61.Quero Matar Meu Chefe 2
71.Sobre Ontem à Noite
72.No Olho do Tornado
73.O Juiz
80.Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola
82. Winter, o Golfinho 2
83.Os Mercenários 3
85.Sex Tape
91.Atividade Paranormal 72
95.Três Dias para Matar
96.Livrai-nos do Mal

Ou seja: dizer que a falta de filmes estrelados por mulheres mais velhas se deve à “falta de qualidade” é estupidez e preconceito. É ÓBVIO que há um problema de falta de diversidade na produção mainstream. Uma falta de diversidade que não reflete a diversidade do público – como atestam as estatísticas de bilheteria que listei acima.

Isto é fato, não é “vitimismo” – uma expressão que, quando usada, 99,9% surge da boca ou do teclado de alguém privilegiado que NUNCA teve que enfrentar barreiras sérias na vida.

Não é difícil se colocar no lugar do outro. Aliás, fazer este exercício de empatia é algo fundamental e profundamente humano sobre o qual falei ao discutir a primeira temporada de Sense8, cuja diversidade na representação é mais um motivo para apreciá-la (meu texto está emhttp://diariodebordo.cinemaemcena.com.br//?p=4905).

Enfim. Para quem quiser conferir o estudo completo, o link é http://annenberg.usc.edu/…/Inequality%20in%20700%20Popular%….

Não há racismo em terra de brancos

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Variados | 12 comentários

As mãos, todas brancas, empurram os microfones diante do rosto do homem negro, alto e coberto de suor. Durante os últimos 90 minutos, enquanto desempenhava seu trabalho de maneira eficiente em campo, salvando seu time em ao menos duas ocasiões de particular perigo oferecido pelo time adversário, ele fora atormentado por vaias contínuas partindo da torcida rival. Estava acostumado a vaias, que faziam parte do esporte – mas aquelas obviamente atravessavam a fronteira da provocação de partida, já que se mostravam contínuas e endereçadas não aos companheiros, mas a ele.

Frustrado, percebeu que era tratado como vilão de uma narrativa na qual deveria ser a vítima em um extremo e herói no outro – lá, por ter enfrentado o mais ultrapassado e odioso preconceito; aqui, por ter erguido a voz a protestado contra este.

Nascido e criado em um país populado por pessoas que se orgulham em dizer que ali não há racismo, ele crescera constatando a mentira desta afirmação. Nas periferias, os tons escuros de pele dominavam; nos bairros enriquecidos, a brancura dos habitantes era o padrão. Nas faculdades, a proporção entre brancos e negros era diametralmente oposta à da população do país, como se os portões da instituição funcionassem como um filtro de raça. Ao mesmo tempo, as tentativas governamentais feitas para corrigir as injustiças históricas eram recebidas com protestos pelo mesmo estrato da sociedade que já se via beneficiado por séculos de dominação – e a irracionalidade dos argumentos ia do inacreditável “Nunca tive escravos; por que devo pagar pelos erros de pessoas que viveram há 200 anos?!” ao desonesto “As cotas raciais são uma forma inversa de preconceito”, que convenientemente ignorava a impossibilidade de massacrar, pela intolerância, qualquer um que tivesse que se preocupar com filtros solares com fator 50.

É fácil afirmar que não há preconceito quando não é você que é parado pela polícia apenas por andar na rua à noite, visto com desconfiança por um desconhecido que atravessa a rua para evitá-lo sem razão aparente ou atacado por gritos que o comparam a um primata irracional.

Finalmente farto e coberto de cicatrizes provocadas por anos e anos de punhaladas verbais, ele havia erguido a própria voz e protestado. Não era sua intenção personificar a acusação, já que o racismo, ele bem sabia, era um fenômeno coletivo, mas a imprensa, com sua necessidade contínua de criar narrativas dramáticas a partir de qualquer situação, havia elevado uma garota flagrada pelas câmeras à posição de antagonista do herói. Isto, ele reconhecia, era prejudicial por sugerir que o preconceito era algo limitado a alguns indivíduos, o que permitia que a sociedade, como um todo, evitasse se olhar no espelho e pudesse negar um problema antigo e tristemente disseminado por todas as camadas econômicas e culturais. Para piorar, a irracionalidade da garota fora confrontada com a irracionalidade daqueles que encaram o justiçamento como corretivo, em vez de como o crime que representa por si só – e as ofensas atiradas na direção da moça (“vadia!”, “puta!”) não só encerravam seus próprios e terríveis preconceitos como ainda se tornavam ainda mais graves em função de ações extremas como apedrejamentos e tentativas de incendiar o lar de seus pais.

Como se não bastasse, as ações destes criminosos travestidos de justiceiros respingaram sobre a vítima inicial, que passou a ser culpada por – vejam só – denunciar os ataques que sofrera.

Negando-se a espetacularizar ainda mais um incidente que nada tinha de espetáculo – mas tudo de trágico e doloroso -, ele se recusou a protagonizar cenas novelescas de redenção ao lado da garota que o ofendera em meio a uma multidão de racistas que permaneciam impunes e, com isso, passou a ser acusado de estrelismo e intolerância (uma tática repulsiva de equiparar o que não se equipara).

E agora, ao retornar ao palco dos ataques que haviam originado toda a polêmica, era atacado pela mesma torcida da qual as ofensas racistas partiram inicialmente – desta vez, com vaias contínuas, como se ele, por se recusar a aceitar mais uma ofensa em meio a todas que o acompanharam ao longo da vida, houvesse criado um inconveniente terrível ao estragar a festa dos que negam viver num país racista.

Olhou para os repórteres brancos à sua frente, que representavam uma mídia branca em uma sociedade cuja economia era dominada por brancos e ouviu mais uma vez uma pergunta em tom acusatório: “As vaias não são normais?”.

Por alguns segundos, ainda acreditando ser possível trazer bom senso a um debate que se fazia cada vez mais urgente, tentou apontar que aquelas vaias, em sua intensidade e direcionamento, não eram as mesmas que costumeiramente acompanham uma partida de futebol. Sem sucesso. Cansado, indagou à repórter branca que insistia na pergunta se esta concordava com o que havia ocorrido na partida anterior.

“Eu não tenho que concordar”, foi a resposta evasiva e absurda que substituiu a que seria a única aceitável: “Não, claro que não concordo. Que ser humano decente concordaria?”.

Consciente de estar discutindo com alguém cujo único propósito era arrancar uma resposta polêmica que rendesse manchetes e pageviews aos seus patrões brancos, o sujeito se afastou, enojado.

E, no dia seguinte, se descobriu como o vilão da história na qual nascera vítima.

Nada de novo em sua vida.

A Importância da História (ou “Eu Lembro”)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 150 comentários

Em uma entrevista concedida há dois dias e cuja leitura recomendo fortemente, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, fez uma observação bastante interessante sobre a postura política de boa parte da população mais jovem:

“Imagina um jovem de 18 anos hoje. Ele não sabe o que foi a era pré-Lula. Até mais. 25 anos. Uma pessoa de 25 anos hoje, tinha 12, 13, quando o Lula tomou posse. O que eles sabem? Quer dizer, se colocou um desafio muito maior, mas temos de conversar com a população sobre o que se avançou. Até para se apropriar dessas conquistas, as pessoas têm de saber o que era o Brasil antes dessas oportunidades surgirem. É um desafio grande. Uma coisa é explicar para uma pessoa de 40 anos o que era o Brasil antes do Lula e outra para uma pessoa de 25, porque ela não viveu. Ela não viveu o desemprego, a inflação, o apagão, falta de oportunidade educacional.”

É uma reflexão fundamental. Como já apontei algumas vezes, tenho ficado chocado com a quantidade de jovens que vêm assumindo uma postura reacionária, claramente de Direita, enquanto regurgitam clichês retóricos típicos das classes economicamente dominantes. Mesmo quando tentam assumir uma postura apolítica (“Não existe mais diferença entre Esquerda e Direita no país”, “Não tenho partido; sou contra tudo que está aí”; “Todo político é ocrrupto”), fica fácil perceber que se trata apenas de uma fachada, já que todas as críticas que fazem dizem respeito ao governo federal – mesmo quando estão discutindo temas subordinados às administrações estaduais e municipais.

Mas, a partir do que ponderou Haddad, me vi movido a indagar se estes jovens são de fato reacionários (algo ainda mais estranho e triste na juventude) ou se apenas não se lembram de como era o Brasil pré-2002.

Porque eu lembro. Lembro do Plano Cruzado com suas donas-de-casa fiscais de preço; do confisco da bolsa; dos apagões de FHC e sua dependência do FMI. Lembro de quando FHC obrigou o país a racionar luz. Lembro da falta de oportunidades na educação pública. Da falta de universidades (que poderia ser pior; já que ele cogitou acabar com as públicas). Lembro da inflação (que tantos dizem que FHC controlou, mas que na realidade subiu descontroladamente no seu mandato).  Lembro da compra de votos pra reeleição (200 mil/deputado). Lembro dos grampos telefônicos na era FHC. Lembro do Engavetador-Geral da União, que, ao contrário do que ocorre hoje, não permitia que as denúncias fossem investigadas. Lembro do vexame da “festa” dos 500 anos. Lembro do 1,6 BILHÃO que FHC deu ao Marka/FonteCindam (e lembro do Cacciola). Lembro do filho de FHC e seu envolvimento com a EXPO 2000. Lembro do massacre no Eldorado dos Carajás. Lembro da dengue descontrolada. Lembro dos reajustes de 580% na telefonia. Lembro do PIB ridículo. Lembro dos mais de 2 BILHÕES de fraude na SUDAM de FHC. Lembro de FHC chamando aposentados de “vagabundos” E o povo brasileiro de “caipira“.

Lembro, enfim, muito bem de como era este país até 12 anos atrás. Esta é a questão: não falo tanto de política porque gosto. Ao contrário: me dá dor de cabeça, me faz perder leitores e me prejudica profissionalmente.

Eu falo tanto de política porque preciso. Tenho dois filhos. Não quero pra eles o Brasil no qual cresci. Não quero retrocesso. E é por esta razão, por saber que tenho tantos leitores jovens, que me sinto na obrigação de passar a eles um pouco do que vivi e testemunhei.

Isso não é ativismo político; é apenas ser responsável como cidadão.

 

RioFilme e o Cinema Pinte-com-Números

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 20 comentários

Cinema é Arte coletiva. Sempre digo isso aos alunos dos meus cursos e é também uma filosofia que empreguei nos dois filmes que dirigi. Em ambos, os créditos finais trazem os dizeres “Um filme de…” seguidos pelos nomes de todos os integrantes da equipe. Eu posso ter escrito e dirigido ambos, mas eles jamais teriam saído do papel sem a colaboração preciosa de todos aqueles profissionais talentosos. Neste sentido, o Cinema é radicalmente diferente da Literatura, por exemplo, que em último grau surge do sofrimento solitário diante da tela em branco.

No entanto, há uma diferença gigantesca entre “Arte coletiva” e “Arte em comitê”. Na primeira, há colaboração, troca de ideias, visões pessoais que se concretizam a partir da cooperação; na segunda, há o dever de ajustar-se a uma decisão arbitrária ou burocrática que parte não da inspiração ou da motivação interna e criativa do artista, mas da necessidade de chegar a um consenso. E no consenso reside, por natureza, o lugar-comum.

Recentemente, li em algum lugar (perdoem o lapso; realmente não me lembro a fonte) as considerações de um jornalista sobre por que os roteiros das superproduções tendiam tanto à mediocridade. A constatação óbvia: como os longas devem atrair público dos mais diversos países, que, por sua vez, têm especificidades culturais contrastantes, estes roteiros não podem se arriscar em criar personagens e tramas que tragam sutilezas e subtextos, pois estas seriam inevitavelmente perdidas e ou mal compreendidas por espectadores de algum lugar do mundo. A solução, claro, é permanecer no meio-termo, no menor denominador comum.

Este é o Cinema em Comitê por excelência.

Um conceito que, inacreditavelmente, a RioFilme parece interessada em abraçar.

Em artigo recente de O Globo, o diretor comercial da RioFilme, Adrien Muselet, revelou os resultados de uma pesquisa encomendada pelo órgão para avaliar o gosto cinematográfico do carioca. Que surpresa: embora apenas 5% e 3% apreciem dramas e documentários, respectivamente, nada menos do que 24% surgem como “fãs incontestes” dos filmes de ação. As comédias ficam em segundo lugar, com 22%.

Claro. Óbvio. A RioFilme nem precisava ter desperdiçado dinheiro com esta pesquisa; bastava perguntar a qualquer um com dois ou três neurônios funcionais e uma mínima experiência com Cinema.

O que espanta, portanto, não é o resultado obtido, mas as conclusões às quais chegaram Muselet e Sérgio Sá Leitão, secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro: a RioFilme deve investir mais em filmes de ação e menos em dramas e documentários.

Ok, esqueçamos, por um segundo, que a RioFilme é uma empresa que trabalha com recursos públicos e nasceu justamente com o propósito de incentivar o Cinema carioca. Voltarei a esta questão daqui a pouco. Antes, permitam que eu cite uma passagem específica da matéria de O Globo:

“Sá Leitão e Muselet concordam ainda em outro ponto: acreditam que, se o cinema nacional apostar na produção de filmes de ação, poderá abocanhar um mercado que hoje perde para filmes estrangeiros. Muselet lembra que os filmes de ação costumam ter mais potencial de exportação do que os de comédia.”

Hollywood deve estar tremendo de medo.

Ora, “abocanhar” mercado é algo importante, sem dúvida, mas deve ser um objetivo secundário de uma empresa que nasceu, segundo seu próprio site, para atuar na “revitalização do Cinema Brasileiro” – algo que, em 1992, era o mesmo que dizer “ressuscitar”, já que nosso Cinema havia sido basicamente destruído por Fernando Collor e pelo cineasta Ipojuca Pontes quando decidiram extinguir a Embrafilme. Revitalizar, contudo, implica justamente na necessidade de estimular a linguagem, não de engessá-la com determinações prévias sobre o que o público quer ou não ver.

Assim, é com espanto e mesmo com repugnância que vejo Muselet, importante executivo de uma empresa voltada para a criação cinematográfica, dizer algo como “Quem faz cinema faz aquilo que gostaria de ver, e não aquilo que o grande público espera.” – uma frase que soaria belíssima caso não fosse uma reclamação, uma crítica.

Fazer algo diferente do que o grande público espera é justamente o que empurra o Cinema para o futuro. É o que dá origem a obras como TatuagemElaSinédoque New YorkAcossado Cidadão Kane em vez de manter a Arte se repetindo com Até que a Sorte nos Separe 2Transformers 4 Jogos Mortais 21.

No entanto, mais importante do que isso é observar que estes últimos filmes, justamente por atraírem um público maior, já contam com a força do mercado. São precisamente aqueles primeiros que precisam do apoio de empresas como a RioFilme e das verbas públicas que trazem. A RioFilme não tem a obrigação do lucro recorde e é isto que a torna tão importante para projetos que se arriscam. Prendê-la ao formulaico, a filmes criados como resposta a um “X” marcado em um formulário de pesquisa, representa condenar inúmeros artistas, narrativas e histórias ao limbo do mercado.

A Argentina, que Muselet classifica como sendo “boa naquilo que também fazemos”, alcançou um sucesso internacional maior do que o nosso – embora produzindo bem menos filmes por ano e tendo uma linguagem menos diversificada – não por tentar se ajustar a interesses do mercado, mas por desenvolver uma linguagem própria que esconde, na aparente simplicidade de suas produções, uma riqueza tocante de temas e histórias. Gastamos infinitamente mais para produzir algo como Até que a Sorte nos Separe 2 do que os argentinos gastaram para fazer uma obra como Medianeras, O Filho da Noiva ou Leonera. 

Nossos cineastas estão entre os melhores e os mais criativos do mundo. Não me canso de dizer isso. Mas Cinema é uma arte cara.

Cara demais para que desperdicemos tempo e dinheiro no lugar-comum e deixemos de investir naqueles que querem torná-la melhor, mais rica e mais complexa.

A Rede

postado em by Pablo Villaça em Discussões | 12 comentários

Hoje tive uma conversa interessante, reveladora e que, como toda boa conversa, me fez perceber certas coisas que deveriam ser óbvias. A conversa foi com Ioná (que divide comigo a honra de ter dado origem às duas criaturinhas mais fantásticas do planeta) e começou com a informação de que ela iria largar o Facebook.

“Mas por quê???”, questionei, como se ela houvesse dito que iria entregar as crianças para adoção.

E o que ela disse a seguir não só fez todo o sentido do mundo como ainda me convenceu de que eu deveria fazer o mesmo.

O fato é que passamos a pensar em termos de redes sociais. Quando leio algo interessante, antes de refletir exatamente sobre o que estava escrito, sinto o impulso da “Curtida” e do “Compartilhamento”. De certa maneira, demonstrar que li algo tornou-se tão ou mais importante que absorver aquilo.

Este, porém, é o menor dos problemas. O mais grave é notar como a rede social pode nos tornar… menos sociais. Pessoas com as quais eu mantinha relações cordiais e das quais gostava acabaram se convertendo, em minha percepção, em figuras lamentáveis em função do que expunham por aqui. Um indivíduo com sensibilidade ímpar para a música, por exemplo, revelava-se um reacionário da pior espécie – e mesmo que meu contato com ele se restringisse à esfera musical, eu me via tentado a cortar toda e qualquer ligação por ter passado a nutrir antipatia por sua figura, esquecendo que, escrotices ideológicas à parte, ele podia ser bem divertido.

Torna-se difícil ler algo como “Cansei de pessoas que só me procuram quando precisam de algo” e não sentir vontade de dar um cascudo no autor do post. Em primeiro lugar, pela necessidade de expor ao mundo, de forma enigmática e que estimule perguntas (o objetivo final), qualquer frustração. Em segundo, por vê-lo adotar uma abordagem tangencial, claramente pouco funcional e imatura para enviar um recado oblíquo a alguém. Em terceiro, por desestimular, sem perceber, a abordagem de qualquer um – pois certamente não irei procurá-lo(a) agora e correr o risco de parecer interesseiro.

Pior, porém (e – de novo – foi Ioná quem me abriu os olhos para isso), é perceber como mesmo nutrindo aversão profunda por qualquer publicação do tipo Contigo, Caras e afins, tornei-me consumidor exatamente daquilo que vendem: da futilidade, da superfície, da aparência.

Não, pior: tornei-me também fornecedor deste produto.

Ir a um show não se resume mais a curtir um espetáculo; inclui tirar fotos no camarote, de costas para o palco, e publicar no Face para apreciação alheia.

Somos não só as estrelas, mas os paparazzi de nós mesmos.

Não quero apenas descer do palco; quero deixar de ser plateia do exibicionismo alheio. Porque isto também me faz crítico, me leva a antipatizar com pessoas perfeitamente decentes que estão fazendo simplesmente o que também sou levado a fazer em função das redes sociais: expor-me como astro de meu próprio reality show.

Não me interessa conhecer sua dúvida acerca das opções de presente de Natal ao marido ou à esposa (dica: se ele(a) tem Facebook, sua necessidade de expor o preço do regalo já suplantou o desejo de fazer uma surpresa); não me interessa se você está preso num engarrafamento e não poderá chegar a tempo (dica: em vez de publicar no Facebook, ligue para as pessoas que estão te esperando); e definitivamente não me interessa ler suas indiretas a quem quer que seja.

Mas igualmente importante: não deveria te interessar que eu fizesse exatamente o mesmo – e já fiz muito.

E devo agradecer à fantástica mãe de meus filhos esta percepção que deveria ser óbvia: a de que, para ser uma criatura verdadeiramente social, devo largar as redes sociais.
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Observação: como sou um profissional de Internet, claro que não posso simplesmente abandonar os serviços de Facebook e Twitter, que são úteis como ferramenta de divulgação de meu trabalho. Assim, quem sai do Facebook é a Pessoa Física, não a Jurídica. Continuarei a linkar para meus textos, videocasts e afins em minha página profissional (que fica em https://www.facebook.com/pablovillaca01?ref=hl) e também no Twitter.

Mas se quiser bater papo, trocar ideias e jogar conversa fora, melhor me ligar ou mandar um email. Vou tentar existir mais fora da Internet.

Beijocas.

P.S.: Ninguém deve ler os exemplos que listei no texto acima como indiretas ou referências a pessoas específicas. Foram comportamentos hipotéticos inspirados em anos de facebook.

A atração dos vilões

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Séries de tevê | 68 comentários

Em meu mais recente post sobre Breaking Bad, comentei o caráter destrutivo do protagonista da série, sua crueldade inigualável (o que ele diz para Jesse no deserto ultrapassa o limite do doentio) e o fato de que seu único legado será a dor que provocou em todos que o cercavam. Por outro lado, é claro que o considero um personagem fascinante – caso contrário, não teria assistido às cinco temporadas do projeto de Vince Gilligan e não me dedicaria a comentar e analisar cada episódio aqui no blog. A pergunta mais intrigante, no entanto, seria: eu gosto de Walt?

É aí que a confusão tem início: sem dúvida alguma, eu gosto de acompanhar sua história, admiro sua inteligência e o considero uma criatura multifacetada. Se ele fosse um indivíduo real, porém, eu jamais apertaria sua mão e certamente o consideraria uma figura abominável.

Pois Walt é abominável e suas ações são típicas de um sociopata. Como se trata de um personagem fictício, contudo, o peso de suas atitudes se torna relativo: sim, ele provocou, direta e indiretamente, as mortes de mais de uma dúzia de pessoas (isto sem nem mesmo considerarmos todos que morreram graças à droga que ele fabrica com tanto orgulho), mas como suas vítimas nunca existiram de fato, torna-se fácil relativizar seu comportamento e mesmo perdoá-lo por tudo.

E esta seria uma lógica até aceitável – mesmo simplista – caso não houvesse um fator complicador: para absolver Walt, os fãs de Breaking Bad que se veem compelidos a defendê-lo frequentemente atiram a culpa sobre outros personagens: ele foi “traído” por aqueles que amava; sempre pensou em sua família, que não parece entender isto; agia apenas em autodefesa e por aí afora. Nos comentários do post anterior, um leitor chegou a dizer que foi Skyler quem “correu para lavar o dinheiro sujo dele”. Em outras palavras: o tal leitor – homem, claro – ignorou a parte do “sujo” que ele mesmo apontou e preferiu depositar a culpa na esposa do criminoso, optando convenientemente por esquecer como Walt pressionou, ameaçou e aterrorizou Skyler (e me debrucei sobre isso ao falar do episódio S05E04). Assim, a partir do momento em que Heisenberg é elevado ao posto de “herói” enquanto seus opositores se tornam seres repreensíveis, algo muito errado está ocorrendo na análise e na percepção de certos fãs.

A culpa, claro, não é da série em si – que, como obra de Arte complexa e inteligente, faz seu trabalho ao criar um universo e personagens multidimensionais. Aliás, a percepção que a própria série e seu criador têm sobre Walter é clara: ele é um vilão, um psicopata. Não é à toa que Gilligan várias vezes descreveu a narrativa como a história da transformação de um pacato professor em Scarface – e, a menos que ele tenha assistido a uma versão diferente da que vi, esta não é uma comparação lisonjeira no que diz respeito ao caráter de seu protagonista.

No entanto, não são apenas alguns poucos fãs que enxergam Walt/Heisenberg como um verdadeiro herói incompreendido que merece nada além de admiração e pena; leia os comentários em meus posts sobre a série ou em qualquer texto sobre Breaking Bad e perceberá que esta é uma posição mais comum do que poderíamos imaginar a princípio.

O que estes fãs parecem não perceber é que estão confundindo sentimentos, identificando como admiração algo que, de fato, tem mais a ver com a atração que Walt exerce sobre o espectador.

Isto não é incomum: o próprio Scarface de Al Pacino provoca este sentimento. Ao longo do filme de Brian De Palma, vemos o sujeito matar aliados friamente, tornar-se traficante de drogas, cobiçar a irmã sexualmente e matar o melhor amigo justamente por ter ciúmes da garota – e, no entanto, quando ele grita “Say hello to my little friend!” ao final da projeção, torcemos para que derrote seus inimigos quando, talvez, deveríamos estar celebrando seu fim. Da mesma maneira, somos fascinados pelo Coringa, por Darth Vader, Freddy Krueger, Jason Voorhees, Hannibal Lecter ou mesmo pelo Diabo. Ora, coloque Adolf Hitler num bunker ao fim da Segunda Guerra, acompanhe seus últimos dias e não demorará até que uma das cenas do filme se torne um meme aparentemente imortal na Internet.

Por que isto ocorre?

Em primeiro lugar, como já mencionei, há a liberdade de acompanharmos as atitudes desprezíveis de alguém sabendo que as consequências não são reais. Se um bandido detona uma bomba em uma casa de repouso, queremos vê-lo punido; se o faz no contexto de uma obra ficcional, que pode, inclusive, garantir que inocentes não serão mortos e que apenas outros vilões serão destruídos, nos permitimos vibrar com o plano e celebramos a engenhosidade do terrorista. E mesmo que inocentes morram (ou que sejamos contra a pena de morte mesmo certos da culpa do bandido atingido pela bomba), não nos sentimos culpados por nossa reação, já que, na realidade, foi apenas um ator quem deixou de participar da série. Como Chandler Bing disse em um episódio de “Friends” ao explicar por que não chorara com a morte da mãe de Bambi: “É, eu fiquei arrasado quando pararam de desenhar a corça”.

Esta é, porém, uma explicação incompleta: há mecanismos psicológicos por trás de nossa atração por vilões – e há décadas estes encontram-se presentes em abundantes textos teóricos sobre a narrativa cinematográfica e são empregados por realizadores experientes, mesmo que de forma instintiva. Conhecê-los é entender um pouco mais sobre nós mesmos e sobre a complexidade de se contar histórias.

O mais óbvio reside na ausência de superego no aparelho psíquico dos vilões. Responsável por nossa autocensura e construído durante nossas vidas a cada “não” aprendido e convenção moral/legal/social absorvida, o superego limita nossos impulsos e desejos – e, assim, testemunhar alguém que simplesmente não parece dar a mínima para o próprio superego (caso tenha um) é algo que nos oferece a satisfação da fantasia. Afinal, certamente há algo de profundamente libertador em não se render à autocensura – mas também algo de muito egoísta e narcisista. Desta maneira, admirar (ou “admirar”) um vilão é, à sua própria maneira, como admirar a habilidade de um atleta muito talentoso ou o talento de um artista muito habilidoso.

Quando não podemos ter algo, queremos ser este algo – e vice-versa.

Esta ambiguidade entre o ser e o ter é outro mecanismo psicológico que, independentemente do nosso fascínio pela ausência do superego nos vilões, é capaz de explicar por que os admiramos. Ao longo de nossas vidas, estabelecemos identificações secundárias com pessoas que admiramos (a primária precede a formação do conceito do “Eu” e se dá na fase oral do desenvolvimento) e absorvemos características destas, já que não podemos “tê-las” na maioria das vezes (e, assumindo seus traços, suprimimos esta carência ao nos tornarmos estas pessoas). No entanto, nas narrativas ficcionais há uma diferença importante: esta identificação secundária (a primeira é com a câmera) se dá não com o personagem, mas com a situação que vive. E mais: basta que o realizador coloque um personagem em situação de fragilidade para que nos identifiquemos com sua situação e, de forma indireta, com aquele que a enfrenta.

Pensem nisso: a primeira cena de Scarface traz o (futuro) vilão completamente vulnerável. Em A Queda, Hitler não poderia estar mais fragilizado. O Coringa enfrenta o grande herói do filme, tem o rosto coberto por cicatrizes e é perseguido por bandidos e pela polícia.

Walter White tinha câncer terminal, queria deixar dinheiro para a família, enfrentou a ameaça de Krazy-8, Tuco, Gus Fringe e o perigo de ser preso.

Se Scarface gastou seus cinco minutos iniciais para levar o espectador a formar um laço de identificação secundária cinematográfica (um conceito de Metz), Breaking Bad investiu três anos. Assim, mesmo quando percebemos que Walt já não tem redenção possível e se tornou um canalha, os laços estabelecidos inicialmente nos mantêm presos ao personagem e torcendo por ele. Além disso, é fundamental que, para que isto aconteça, de tempos em tempos a série nos ofereça motivos para continuarmos acreditando em seu caráter. Lembrem-se, por exemplo, como no segundo ato de Scarface, quando estamos prestes a desistir do bandido, este se recusa a matar crianças (embora não veja problema em matar outras pessoas) e comparem isto à insistência de Walt em preservar membros de sua família. Ele pode ter envenenado uma criança, permitido que uma jovem morresse na sua frente sem tentar salvá-la e mantido Jesse preso a ele mesmo quando o rapaz tentou reconstruir sua vida, mas, poxa, ele se recusa a matar Hank e… e… e… parece amar a família.

Assim, não é absurdo que alguém goste de Walter White. Como já apontei, eu mesmo gosto do personagem – como personagem. Ainda assim, jamais me ocorreria tentar justificar suas ações e muito menos culpar suas vítimas pelo que sofreram. Somos seres pensantes e uma obra como Breaking Bad é bela justamente por permitir que analisemos nossas contradições internas e percebamos que, sim, podemos sentir fascínio por um canalha mesmo que moralmente permaneçamos íntegros e condenemos o que faz.

O problema começa quando surge a insistência de enxergá-lo como herói e de ver todas as suas ações como uma resposta razoável naquelas circunstâncias específicas – algo que muitos manifestam com a expressão “eu, no lugar dele, talvez tivesse feito a mesma coisa”.

Se este é seu caso, sugiro terapia.

A falácia do politicamente incorreto

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões | 178 comentários

Quando se trata de humor, considero-me um sujeito relativamente experiente. Como já escrevi anteriormente, tenho um bom conhecimento sobre o stand-up, sua história e seus principais expoentes e já li bastante sobre o tema. Além disso, quem acompanha meus textos ou já teve aula comigo sabe que sou até mesmo capaz de provocar um riso ou outro quando a ocasião se apresenta – e nem sempre através de um humor limpinho ou “politicamente correto”. Não ganho a vida fazendo comédia, claro, e tampouco julgo que a profissão de humorista seja fácil. É preciso muita experiência, estudo (sim) e talento para refinar o timing que fará a diferença entre uma piada eficiente e outra inesquecível. Muitas vezes, o menor dos detalhes marca esta diferença.

Vejam, por exemplo, este “bit” (termo em inglês para uma história ou uma passagem específicas de um repertório cômico) da performance de Louis C.K. no Beacon Theater:

O texto de C.K. é construído com cuidado, aos poucos, apresentando-nos a premissa (“Há crianças das quais não gosto”) e desenvolvendo-a gradualmente até passar de um caso relativamente plausível a uma fantasia de vingança absurda. Percebam que a base da piada já é algo que poderia ser considerado “politicamente incorreto” – um adulto aterrorizando um garotinho que machucou sua filha -, mas Louis C.K. é inteligente o bastante para evitar um erro básico: em vez de transformar o menino no alvo da piada e do ridículo, ele deixa claro para o público que o ridículo é ele, Louis, por agir como um idiota. E este é o segredo para que a piada funcione tão bem. No entanto, depois de levá-la a extremos ainda maiores, o comediante comprova sua inteligência através de um gesto que pode parecer improvisado e natural, mas que, acreditem, foi precisamente calculado: depois de dizer o que faria para destruir a vida dos pais do garoto que detesta, Louis pega a garrafa d’água e a ergue para levá-la à boca (aos 8:01 no vídeo)  – mas um milissegundo antes de beber, diz, quase como se aquilo houvesse acabado de lhe ocorrer: “Você tem que proteger seus filhos”.

E é esta a verdadeira punchline do longo caso e que finalmente leva o público a aplaudi-lo empolgadamente. E não se deixem iludir pela naturalidade do gesto: sou capaz de apostar que em praticamente todos os shows, Louis C.K. repete o gesto de levar a garrafa à boca exatamente naquele momento.

Como falei antes: fazer comédia não é para amadores.

O que nos traz a Danilo Gentili, que, mais uma vez, confunde os conceitos de “piada” e “ofensa”. No vídeo abaixo, Gentili (imitando cada vez mais descaradamente os trejeitos de Jô Soares) diz: “O apagão afetou boa parte do Nordeste. (pausa) Digo ‘boa parte’ porque nem todas as cidades lá têm energia elétrica. (pausa) Sabe como eles perceberam lá no Nordeste que tinha acabado a energia? Quando parou o trio elétrico. (fazendo dancinha) Lá, lá, lá, lá, lá… Ei… cadê a música? Sem água e agora sem luz, os médicos cubanos no Nordeste estão se sentindo em casa. (ri de si mesmo)”. Neste instante, seu lacaio Roger completa: “Mas tem papel higiênico ainda.”

Ok. Em primeiro lugar, o óbvio: independentemente do fato de ser ou não ofensiva, a questão inicial é avaliar se a piada tem graça. Claro que aqui há subjetividade na reação do ouvinte – e mesmo que a plateia de Gentili pareça rir moderadamente (apesar do timing pavoroso do sujeito, que faz pausas erradas, frisa sílabas aparentemente ao acaso e deixa claro estar lendo um texto), há aqueles que riem apenas ao ouvirem palavras como “papel higiênico” ou ao verem alguém fazendo dancinha engraçadinha. Para estes, “pavê ou pacomê” é humor legítimo e moderno e, assim, deixo-os de lado. São casos perdidos.

Porém, há uma maneira fácil de avaliar a qualidade da piada: sua construção. Há alguns princípios em comum no humor eficiente – e um dos mais empregados é a subversão de uma expectativa: levar o ouvinte a esperar algo e ir na direção oposta. Não é, claro, o que Gentili faz, já que seu texto simplesmente reforça estereótipos: o Nordeste é miserável, seu povo só gosta de farra e Cuba é um país sem qualquer infra-estrutura básica.

O fato de todas estas afirmações serem absurdamente falsas não vem ao caso.

Assim, de onde Gentili acredita estar extraindo graça? A resposta é reveladora e aponta para o erro que não só ele, mas seu colega Rafinha Bastos, cometem com tanta frequência: através da ridicularização de indivíduos fragilizados. É um humor do tipo “vejam como estas criaturas inferiores são inferiores. Não são inferiores? HA! Tomara que se fodam!”. É, em suma, algo que chamo de piada-bullying.

Releiam as “piadas” do sujeito e percebam que todas são construídas a partir desta lógica: o Nordeste não tem luz, não tem água, seu povo só nota o problema quando a festa é interrompida e estas são as condições ideais para um cubano viver, já que está acostumado à falta de tudo. Não há construção de uma expectativa e muito menos subversão da mesma. Não há punchline ou crescente. Há apenas preconceito e o convite para que nos tornemos cúmplices deste. Chamar isto de “humor politicamente incorreto” é tentar proteger a falta de talento de Gentili ao sugerir que ali há humor – e não há, como já vimos.

Não é surpresa, aliás, que outro “baluarte” da inteligência e do humor contemporâneos, Felipe Neto, tenha vindo em defesa de Gentili ao afirmar, no Twitter, que “Se vc é do tipo q dá chilique com as piadas do Danilo Gentili sobre o Nordeste, saiba q vc é um ATRASO pro entretenimento brasileiro” – e, logo depois, chama as críticas de “coitadismo”.

(Aqui conterei o impulso de apontar a ironia de ler Felipe Neto chamando quem quer que seja de “atraso para o entretenimento brasileiro”.)

O que Neto, Gentili e Bastos não compreendem é o básico da teoria da narrativa – e que Louis C.K. entende como poucos: de modo geral, o público tende a se identificar com o elemento vulnerável de uma história, não com o dominante. Isto é fruto do próprio processo de formação de nossa individualidade e do conceito do “Eu” até chegar ao processo de identificação secundária na psicanálise e na narrativa (recomendo a leitura de Christian Metz para entender mais sobre o tema). Em poucas palavras: é comum que nos identifiquemos com a situação de alguém em estado de vulnerabilidade. Assim, podemos até rir da vítima em uma piada, pegadinha ou caso – desde que estas narrativas sejam construídas com certa distância, como se estivéssemos apenas observando o desenrolar dos fatos. Porém, no instante em que o narrador se posiciona como parte da história e se coloca em posição de dominância, o espectador/ouvinte tende a simpatizar com a vítima – e, neste caso, a tentativa de piada fracassa inevitavelmente.

É justamente este o erro que estes representantes do humor contemporâneo não percebem cometer, já que sempre se colocam como representantes machos e brancos de um Sul-Sudeste desenvolvido e rico que ri de mulheres, negros, nordestinos e pobres. Como já dito, isto não é piada, mas bullying – e travesti-lo de “humor politicamente incorreto” não só é uma falácia como mais um sintoma do egocentrismo de indivíduos que julgam ter o direito inalienável de humilhar seus “inferiores”.

E defender isto não é lutar pelo humor; é denotar falha de caráter.

O Ódio de Estranhos

postado em by Pablo Villaça em Discussões | 44 comentários

Já tive uma relação mais problemática com o ódio alheio. Houve uma época em que a agressividade de leitores realmente me incomodava por diversas razões, mas, aos poucos, fui percebendo o óbvio: que não podia controlar a percepção de certas pessoas ao meu respeito e que, honestamente, não tinha qualquer intenção de sequer tentar. Assim, adotei uma política simples: passei a bloquear, no Twitter e no Facebook, qualquer um que partisse para ataques pessoais. Argumentações contrárias e discordâncias são uma coisa; insultos, outra. (Ainda assim, vira e mexe alguém insiste em dizer que o bloqueei apenas por “discordar”, aparentemente achando que incluir termos como “babaquice”, “idiota” e afins serve apenas como comentário adicional.)

Hoje, a reação mais comum que experimento ao ler certas mensagens raivosas é a de curiosidade: por que alguém se submeteria à tortura constante de acompanhar os textos de alguém que odeia e que obviamente não acrescenta nada de positivo à sua vida? Houve um período, por exemplo, no qual eu acompanhava o blog de Reinaldo Azevedo com certa assiduidade – até que, certo dia, me dei conta de que aquilo simplesmente me fazia mal e parei. Agora, a menos que haja algum motivo pontual para que eu leia o que o sujeito escreveu, passo longe daquele espaço. E sou mais saudável por isso.

Escrevo este post porque ontem, em resposta ao meu texto sobre a importância de se aprender linguagem cinematográfica, um tal “Marcelo Pesseghini”* deixou duas mensagens que me chamaram a atenção pelo grau de raiva e veneno. Na primeira, me acusava de “hipocrisia” por defender a alfabetização visual e “cobrar caro” por meus cursos – especialmente (e isto me divertiu particularmente) por ser de esquerda. No processo, ainda alegou que eu poderia reduzir o valor pela metade e ainda “lucraria muito”. Além de ignorar o fato de que cobro valores diferentes para cidades diferentes, dependendo dos custos de produção, o sujeito supõe ser capaz de calcular algo que claramente desconhece, já que não faz ideia dos valores (altos, devo acrescentar) envolvidos nestas viagens: aluguel de auditório, passagens, hotel, alimentação, transporte na cidade, fabricação de canetas, impressão de guias, pastas e certificados e assim por diante. Ainda assim, mantive o mesmo valor em cada cidade por nada menos do que quatro anos, não aumentando um centavo – e só atualizei o valor ao lançar o Forma e Estilo (e, aproveito para apontar, vários alunos já chegaram a comentar que consideravam a matrícula barata em relação a outros cursos com carga horária e temas similares).

No entanto, apesar da argumentação boba do tal “Marcelo”, não julguei que sua mensagem fosse mais agressiva do que outras que já recebi.

Até que, claro, ele resolveu enviar uma segunda:

“INTOLERANTE! Esse é o seu defeito, Sr. Pablo Vilaça. Por isso vive castigado por depressão e medo. É tão materialista que não aceita um argumento que não satisfaça seu ego nojento. Arrogante você não é, apenas é egocêntrico. Adora ser amado, mas não se importa nem um pouco em amar o outro, mesmo quando ele é errado. Vc acha que brigando e sendo violento com Marco Feliciano o converterá? Sua incapacidade de construir diálogo enoja qualquer ideal igualitário. Do que adianta ser materialista se isso é algo intrínseco ao egoísmo? Vc leu muito mal Thomas Hobbes pra ser tão fã de propriedade privada. Se a sua única realidade é a fé na humanidade, porque não acredita mesmo em Rousseau, no bom selvagem? Seu empirismo e ceticismo pouco amáveis causam me amargura.

Vc não sabe oferecer amizade a ninguém. Quanta intolerancia nessa vida! Qual seria o motivo de tanto ódio? Por que querer sempre estar certo?

Por que vestiu esse papel de defensor dos pobres e dos humilhados quando vc é parte da opressão que causa isso? Sua vida de violência é tão inútil quanto a de Marco Feliciano.

Chore mesmo por atenção. Viva com tranquilidade o luto pela morte de Roger, mas não o culpe pelo seu comodismo materialista. Trabalhe duro, largue esse seu vício nojento de viver no twitter. Vc é um saco as vezes. Outras é desejável como amigo.

É sério, estou cansado de ve-lo ser tão negligente e por não saber usar essa sua racionalidade tão empírica. E não venha com esse argumento de que ninguém é obrigado a segui-lo! Por que então ter fé na humanidade se vc é extra-humano?

Menos que seu destino inexorável de morrer é o mesmo de todos nós!”

Uou. Não sei o que é mais feio na mensagem acima: chamar de “castigo” a depressão que trato desde os 15 anos de idade e sobre a qual sempre fui extremamente aberto em meus escritos por acreditar que desmistificar a doença é algo fundamental ou se a acusação de que não sei “oferecer amizade a ninguém”, posto que não me conhece ou aos meus. Não, creio que citar a morte de Roger de maneira gratuita, apenas para meter o dedo em uma ferida aberta, leva o prêmio.

Internet é algo curioso: há um bom tempo, um outro leitor costumava me atacar com frequência aqui neste espaço – independentemente do assunto abordado. Seu nome era Rodrigo Baldin e, certo dia, após uma mensagem particularmente agressiva, enviei a ele um email para perguntar exatamente qual era o problema que tinha comigo. Fiz isto por perceber, em várias de suas mensagens, uma ambiguidade subjacente: ao mesmo tempo em que me atacava, manifestava certa preocupação genuína e generosa com o bem-estar de meus filhos. Trocamos emails, ele fez meus cursos e – final feliz – hoje o considero (e à sua esposa, que conheci semana passada em São Paulo) um amigo pessoal e querido. (E por isso sinto liberdade de mencioná-lo aqui.)

Já a mensagem de Marcelo é rancorosa e repleta de amargura (como ele mesmo aponta). Então por que a copio aqui e dedico a ela um post?

Por dois motivos: em primeiro lugar, como um alerta. A vida é curta demais para que dediquemos qualquer tempo ao ódio puro – especialmente se as razões são puramente pessoais. Se ataco Marco Feliciano, é porque suas ações ferem diretamente milhões de pessoas. É uma figura pública capaz de guiar rebanhos, formar dogmas e, o mais perigoso, criar e aprovar leis se não for monitorado. Leis e dogmas que oprimem, diminuem e segregam homossexuais, mulheres, negros e outras minorias que ele supostamente deveria representar como presidente da Comissão de Direitos Humanos. Ninguém nunca leu ou lerá uma mensagem minha em um site/blog pessoal atacando indivíduos por serem quem são. Sim, posso criticar o racismo de uma Micheline Borges, linkar para o post de um sujeito que deseja a morte de médicos cubanos, mas não passarei os dias entrando em seus perfis para atacá-los. A briga é e sempre será por causas e ideologias, não por personalidades. Se critico enfaticamente a postura leniente de uma associação de blogueiros em relação ao plágio, meu problema é com o crime cometido (sim, plágio é crime) e com o fato de não terem punido o criminoso com a expulsão – o mínimo que deveriam fazer -, mas jamais com os integrantes X, Y ou Z (embora alguns deles tenham imediatamente levado a questão para o lado pessoal e me insultado em redes sociais).

Uma coisa é não se furtar de manifestar sua opinião a respeito de causas que julga importante; outra é encarar indivíduos como inimigos. Não sou “inimigo” de Reinaldo Azevedo, Marco Feliciano ou Bolsonaro; sou opositor, o que é muito, mas muito diferente.

Mas este sou eu – e realmente não consigo ver sentido em dedicar tempo ao ódio puro por indivíduos, remoendo mensagens de amargor e monitorando suas atividades virtuais a fim de atacá-los a cada oportunidade que se apresenta.

Bom, mas esta foi a primeira motivação deste post; a segunda é abrir os comentários abaixo para que aqueles que decidirem não seguir o conselho acima possam ventilar a raiva que nutrem por mim ou pelo que “represento” (seja lá o que isto for. Sensualidade infindável, espero, embora provavelmente esteja errado.). Estou certo de que logo aparecerá alguém para apontar como estou sendo hipócrita, como bloqueei fulano ou beltrano sem motivos, como isto é “censura” (não é; não sou obrigado a ler o que José ou Maria escrevem, assim como estes não são obrigados a ler o que escrevo), como sou injusto, intolerante, arrogante (ei, tenho melhorado!) ou feio (não é minha culpa).

Não prometo ler (quem estou enganando? Provavelmente lerei.), mas sua raiva ficará registrada publicamente. E você, tendo dado este importante passo terapêutico, poderá seguir adiante sabendo que finalmente me colocou no devido lugar. Não se preocupe; sou grandinho e conseguirei lidar com sua rejeição.

* Update: Claro que se tratava de um pseudônimo. Claro. Não me toquei que o sujeito havia usado o nome do garoto acusado de matar os pais há algumas semanas – e o fato de ter escolhido este nome apenas ressalta o pior sobre sua personalidade.

O Cinema é uma Árvore de Natal

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Curso, Discussões | 77 comentários

O Cinema é uma das formas de expressão artística menos respeitadas como tal. Ir ao cinema é um passatempo trivial; uma forma de esperar enquanto alguém faz compras no shopping ou, no máximo, uma distração projetada numa tela enquanto amigos conversam sobre outras coisas, enviam mensagens de texto e riem das próprias piadas. Claro que nem todos enxergam os filmes desta forma, mas, considerando que em todas as últimas dez vezes em que fui ao cinema enfrentei espectadores como estes, há indícios de que hoje sejam a maioria. Não é à toa que a dublagem tornou-se padrão: de que importa o fato de um grupo de artistas ter passado vários meses pensando cada segundo da mixagem de um longa se este trabalho será refeito em questão de horas por um técnico normalmente sobrecarregado de trabalho? Que diferença fará a composição de um ator que passou um tempo infindável pesquisando, construindo e ensaiando cada variação vocal de seu personagem – um esforço que, novamente, será completamente substituído em algumas horas por um dublador que, naquela mesma semana, viverá dúzias de outros personagens em mais uma penca de trabalhos?

Este desrespeito à Sétima Arte não é novo, claro: já em 1908, a fundação da Sociedade do Filme de Arte, em Paris, tinha como propósito principal trazer algum peso artístico aos filmes de um e dois rolos, denunciando o esforço dos realizadores da época em alcançar algum tipo de respaldo criativo. Se pudessem saltar algumas décadas no tempo, perceberiam a futilidade do exercício – ao menos, como tentativa de estabelecer o Cinema como equivalente da Arquitetura, da Escultura, da Pintura, da Dança, da Música e da Poesia – as seis “primeiras” Artes que, enumeradas por Hegel, seriam seguidas pela Sétima graças ao manifesto do italiano Ricciotto Canudo (na realidade, inicialmente ele descrevera o Cinema como a sexta, acrescentando posteriormente a dança como a sexta precursora do audiovisual – mas divago).

Pois amar o Cinema é respeitá-lo como forma de expressão artística, como uma linguagem com alfabeto e regras gramaticais próprios – e não compreendo como alguém que se diz “cinéfilo” pode declarar amor à Arte ao mesmo tempo em que afirma que esta é apenas entretenimento. Aliás, não consigo compreender nem mesmo como podem criar categorias como “filme de Arte” e “entretenimento”, como se houvesse um juízo de valor capaz de colocar um acima do outro em função apenas de seu objetivo inicial. Ora, Shakespeare queria entreter, o que não o tornou menos inesquecível; o blues nasceu de raízes populares; os formalistas russos queriam atingir o maior público possível (afinal, seus filmes eram ferramentas da Revolução) e isto não os impediu de estabelecer os princípios da montagem. Posso abominar Rob Schneider e Adam Sandler, mas jamais diria que o que fazem não é “Arte”. Não são obras que admiro, mas são criações artísticas ainda assim – e é para isto que serve o juízo crítico: para avaliar, a partir de critérios (artísticos, de linguagem, forma, estilo e históricos), uma obra específica. Que não deixa de ser “obra” apenas por ser avaliada negativamente.

Há algum tempo, cometi o erro cardeal de tentar discutir o conceito de crítica com alguém que julgava despreparado para se dizer um profissional do meio – e só percebi o equívoco que cometera ao ouvi-lo perguntar, durante a discussão, o que era “teoria cinematográfica” (ou algo similar; não me lembro das palavras exatas). Naquele momento, percebi que estava tentando argumentar sobre Um Conto de Duas Cidades com alguém que achava a alfabetização algo desnecessário para apreciar Dickens, mas já era tarde demais e havia perdido um bom tempo de minha vida martelando um prego sem cabeça (o que só resulta em cansaço e não serve para construir algo sólido).

Não que o espectador médio (aquele que vai ao cinema para ver apenas os megalançamentos da semana e que imediatamente cochila ao se deparar com um filme em preto-e-branco) precise estudar linguagem para apreciar o que assiste – mas, garanto, até mesmo estes se beneficiariam enormemente caso compreendessem um pouquinho a lógica da gramática cinematográfica. O fato é que a maioria do público presta atenção em basicamente duas coisas ao ver um filme: nos atores e na história. No entanto, estes dois elementos estão longe de ser os únicos responsáveis pelas reações que experimentamos diante da telona. Se choramos, rimos, sentimos tensão, nos identificamos com os personagens (sempre indiretamente através da situação que vivem) e refletimos sobre o mundo e em quem somos como indivíduos enquanto assistimos a um filme (curta, média ou longa-metragem), isto se deve a um conjunto de fatores que, como sistemas interdependentes, constroem cuidadosamente nosso envolvimento: do design de produção à fotografia, passando pela montagem, pelo som, pelos efeitos visuais, pelos figurinos e por todos os aspectos (micro e macroscópicos) da criação cinematográfica. A densidade do grão é escolhida com um objetivo em mente e a razão de aspecto é pensada como elemento narrativo – e se até os pontos que constroem a imagem e os limites da tela são definidos a dedo pelos realizadores, é porque fazem diferença no impacto que provocam.

Em um belíssimo artigo publicado há cerca de duas semanas, o cineasta Martin Scorsese discutiu brevemente a evolução da linguagem audiovisual e a importância de sermos capazes de distinguir entre o que vemos no Cinema e a enxurrada de estímulos audiovisuais que nos atingem a cada segundo em monitores nos ônibus e metrôs, em comerciais de tevê e vídeos de gatos no YouTube. Escreveu Scorsese:

“Estamos frente a frente com imagens o tempo todo, de uma maneira que jamais ocorrera antes. E por isso acredito precisarmos estimular a alfabetização visual em nossas escolas. Os jovens precisam entender que nem todas as imagens existem para serem consumidas como fast food e então esquecidas; precisamos educá-los para que entendam a diferença entre imagens em movimento que estimulam sua humanidade e sua inteligência e imagens que estão apenas querendo vender algo a eles.”

O que ele propõe não é absurdo e muito menos supérfluo: quem compreende a gramática do audiovisual torna-se imediatamente mais crítico em relação a tudo que vê,  incluindo a cachoeira de imagens que, cuidadosamente montadas pelo telejornalismo, sugerem realidades muitas vezes absurdamente diferentes do que de fato ocorre no mundo – e basta uma compreensão parcial do potencial inigualável da linguagem específica do Cinema para que percebamos com maior clareza manipulações que na maioria das vezes são absorvidas sem qualquer discernimento crítico por parte de um público que parece presumir que se uma câmera registrou algo, então este algo deve ter ocorrido daquela maneira. (E caso conhecessem o conceito de montagem produtiva dos formalistas russos, por exemplo, saberiam que até ideias podem ser plantadas sutilmente na mente do público através da mera justaposição de imagens específicas.)

Ler imagens é, portanto, não apenas um capricho, mas uma necessidade. Como o próprio Scorsese aponta em seu artigo, houve uma época em que até a alfabetização literária era considerada um risco por muitos – incluindo Sócrates, que temia que o ato de ler e escrever pudesse substituir o saber real pela aparência de conhecimento.

No entanto, mesmo que considerássemos apenas o propósito “cinéfilo” de tal alfabetização visual, isto já representaria um ganho de conhecimento enorme que, no mínimo, proporcionaria experiências mais envolventes e completas. Ao ser capaz de “ler” a escrita dos realizadores, o amante do Cinema consegue se divertir simultaneamente com o fazer do filme e com seus resultados práticos; pode, por exemplo, chorar diante de uma cena emocionante e também apreciar a maneira com que esta construiu cuidadosamente aquela reação. (Ou chorar ao mesmo tempo em que percebe o maniqueísmo artificial ao qual foi submetido.)

Cito de novo Scorsese:

 “(As reações que um filme provoca) têm a ver com o jogo de luzes e sombras, com a dinâmica emocional e psicológica entre os personagens, com a atmosfera do tempo costurada na ação – com todas as escolhas feitas atrás da câmera que resultaram na experiência imediata do filme vivida pelos espectadores (…). Estes são os aspectos de um filme que se revelam de passagem, as coisas que fazem o filme criar vida para o espectador. E a experiência se torna ainda mais rica quando você explora estes elementos com maior proximidade.”

Uma das reações que costumo ouvir de meus alunos – e que é minha favorita – é a vontade que manifestam de poder rever todos os filmes que conheceram antes do curso, como se sentissem frustração por ter desperdiçado o potencial que estes continham. E é esta sensação – a de que cada filme contém milhares de presentes escondidos e que estão à disposição de qualquer um que fizer algum esforço – é o que define o verdadeiro amor pelo Cinema. E não consigo compreender como alguém poderia não querer descobrir e abrir estes presentes.