Discussões

São Paulo, 13 de junho de 2013

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Política | 82 comentários

“Aquela noite escura teve estrelas:
as estrelas humanas,
as lâmpadas do povo.”

– “Dito no Pacaembu”, Pablo Neruda

De acordo com a Veja, “ação rigorosa da PM impediu depredação da Paulista”. Seu principal articulista, Reinaldo Azevedo, chamou manifestantes de “vagabundos“. Mais cedo, um editorial do Estado de São Paulo pedia que os PMs dessem “um basta” na ação dos “baderneiros”. Já a Superinteressante, outra publicação da Abril, atribuía a culpa da violência… à presidenta Dilma. Todos diminuíam a responsabilidade do governador Alckmin, do PSDB, e ressaltavam o silêncio do prefeito Haddad, do PT.

Mas foi a PM controlada pelo governo do estado que massacrou os manifestantes. Que, ao contrário do que inicialmente tentaram afirmar GloboNews, Foxlha, Veja, Estadão e demais cúmplices, agiam de maneira calma e pacífica mesmo diante da presença da tropa de choque. É profundamente comovente ver os cidadãos gritando “Sem violência! Sem violência” apenas para ver seus pedidos respondidos com o avanço impiedoso de uma polícia obviamente instruída a agredir, machucar e reprimir sem hesitação. Basta observar que, já nos primeiros segundos da ação policial, um criminoso de farda dispara uma bala de borracha nas costas da multidão em fuga.

Enquanto isso, a GloboNews informava que ninguém havia sido ferido e o UOL dava destaque a um pobre PM que supostamente fora obrigado a ouvir gritos de “Lincha, mata!”. Pobres tímpanos sensíveis.

A Internet, contudo, não permite mais tão facilmente a mentira da Velha Mídia. Em questão de minutos, surgia um tumblr dedicado exclusivamente a desmentir a informação de que não havia feridos. Logo, outros vídeos reveladores entregavam até mesmo a ação bandida de policiais para criar a impressão de que os manifestantes haviam promovido quebradeira:

Não é difícil imaginar o objetivo do policial que parte o vidro da própria viatura, é?

Por outro lado, não é fácil compreender o que se passa nas mentes de quatro homens fardados que não hesitam em espancar um fotógrafo desarmado:

Ou como alguém pode disparar um tiro de borracha contra um cidadão que se encontra deitado e indefeso no meio da rua:

Ou contra outros cidadãos que já se encontram com os braços erguidos:

A situação se tornou tão insustentável ao longo das horas seguintes que o apresentador Datena, em seu programa na Band, deu início a uma enquete cuja formulação visava escancaradamente influenciar a resposta dos espectadores: “Você é a favor de protesto com baderna?”.

Ora, se o qualificativo “com baderna” faz parte da pergunta, a tendência de qualquer cidadão é responder “não”. Observem que mesmo quem normalmente se mostraria favorável a manifestações teria a tendência de, levado pela estrutura maniqueísta da pergunta, a se mostrar contra a ideia.

E ainda assim, isto aconteceu:

A revolta dos espectadores diante das ações criminosas da PM foi tamanha que, “baderna” ou não, a maioria decidiu apoiar os manifestantes – e Datena, pensando na audiência, imediatamente mudou de opinião e passou a chamar a “baderna” de “show de democracia”.

E até mesmo a Veja, inundada no Twitter por protestos de internautas revoltados com a manchete citada no início deste post, alterou a chamada de “PM impede depredação da Paulista” para “PM impede tomada da Paulista”.

Pena que se esqueceram de mudar a URL da notícia.

Assim, este 13 de junho foi um dia vergonhoso para a imprensa brasileira (mais um), mas admirável pela ação dos manifestantes. Mais cedo, escrevi que as grandes mudanças na história da humanidade foram movidas pela Ciência, pela Arte e pela inquietude da juventude – e lamentei que as duas primeiras estivessem sendo cada vez mais podadas pela religião, ao passo que a terceira encontrava-se morta. Fico feliz por perceber que há exceções, mas triste ao vê-las apanhando nas ruas de São Paulo. E ainda mais arrasado ao ler tantas manifestações de apoio às ações da PM feitas por jovens – e creio nunca ter bloqueado tantas pessoas no Twitter e no Facebook como fui obrigado a fazer hoje em função das mensagens repletas de veneno reacionário e fascista que recebi. Temo por esta geração: se a juventude é a fase da rebelião e há tantos proto-fascistas em seu meio, imagino, assombrado, a quantidade de Bolsonaros que surgirão em 30 anos.

Além disso, as ações escancaradas da PM me fizeram sentir uma dor profunda ao constatar que, se estes policiais agem assim sob o escrutínio de centenas de câmeras, mal podemos conceber o que fazem rotineiramente quando se encontram anônimos e diante dos miseráveis de nosso país. Penso na humilhação, nas surras, nas feridas e nos mortos jamais registrados por câmeras de iPhone e flashes de jornalistas e percebo como nos encontramos cegos. Com nossa ignorância, somos cúmplices das mortes de um sem-número de índios, de sem-teto, sem-terra e sem-direitos ao redor do Brasil.

O que houve hoje em São Paulo é apenas uma espiadela apavorante por trás da cortina. E vai muito além de um protesto em função de 20 centavos. Acreditar nisso é mais do que alienação; é cegueira absoluta.

O estado assustador do Jornalismo

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Série Jornalistas | 23 comentários

A experiência é simples: entre no UOL, um dos principais portais de notícia do país, e clique nas matérias em destaque neste momento. Provavelmente, encontrará vários erros gramaticais, estruturais, estilísticos, informações desencontradas e perceberá, também, que boa parte dos textos foi construída sem que o jornalista deixasse a redação para apurar o que estava relatando, limitando-se a repetir informações de outras agências (incluindo erros grosseiros de tradução) ou – pior – reproduzindo “colaborações dos internautas”. Isto para não citar a utilização crescente de termos como “galera” e “cornetou” em textos supostamente profissionais – e a VEJA chegou a usar esta semana a incrivelmente grosseira “bichinhas” para descrever dois personagens homossexuais de um programa de tevê.

Percebam que não estou sequer discutindo a cooptação ideológica dos jornalistas, que constantemente são levados a defender os interesses de seus patrões, mas simplesmente a qualidade dos textos que produzem, “vendidos” ou não. E, neste aspecto, a situação da profissão vem se tornando cada vez mais assustadora.

Recentemente, várias editoras e redações demitiram dezenas de profissionais alegando a necessidade de “reestruturação” e “cortes de gastos”. Editorias foram fundidas, veículos foram extintos, cargos foram acumulados. Os salários dos sobreviventes, por outro lado, se mantiveram inalterados mesmo com o aumento de funções e responsabilidades. Basta ler esta apavorante matéria da Agência Pública para constatar a tendência – e se uso a palavra “apavorante” é porque não há outra mais apropriada.

Ora, a função do jornalista, quando bem executada, é uma das mais nobres de qualquer sociedade: manter o cidadão informado sobre o que ocorre no mundo ao mesmo tempo em que busca apurar o que muitos insistem em manter oculto. Investigar, denunciar, pressionar – sempre, espera-se, com a imparcialidade de um observador justo – são atribuições de uma profissão que envia seus praticantes aos pontos mais hostis do planeta à procura de informações. No jornalismo cultural, são eles quem analisam, dissecam, destacam, promovem a vanguarda e trazem a obra para o conhecimento do público.

Utopias à parte, mesmo em condições distantes do ideal, o jornalismo é um imprescindível serviço de caráter social. Não é à toa que, nas décadas de 30 e 40, tantas produções hollywoodianas traziam repórteres como heróis de suas narrativas. (Ok, é preciso considerar também que, com a chegada do som, os estúdios foram buscar jornalistas para a elaboração dos roteiros, o que ajuda a explicar a elevação da profissão na ficção.) Ora, até mesmo em períodos mais recentes, filmes inteiros foram devotados à busca incansável pela verdade protagonizada por homens e mulheres que encaravam as redações como um segundo lar (O InformanteZodíaco, As Aventuras de TinTim, Os Homens que Não Amavam as Mulheres e as séries The NewsroomHouse of Cards, entre vários outros).

No entanto, o que se vê hoje é uma inversão de valores: o que importa não é a competência do profissional e sua dedicação ao que faz, mas apenas seu custo aparente. Ao ler a matéria linkada acima, fica claro que os principais alvos dos cortes tendem a ser justamente aqueles que deveriam ser os mais valorizados pelos patrões: os empregados experientes e premiados que assinaram matérias importantes que alteraram, em maior ou menor grau, o curso da História. Em vez disso, tornar-se valorizado em função da experiência é agora temeroso, colocando um alvo nas costas do jornalista, que logo se verá substituído por um jovem inexperiente e, consequentemente, mais barato. Que cometerá erros básicos, desperdiçará histórias importantes, falhará em apurar corretamente suas pautas e – pior – será mais facilmente manipulado pelos interesses dos patrões.

Não é à toa que, há algumas semanas, a Abril protagonizou um momento de embaraço coletivo ao levar seus funcionários a um abraço em torno do prédio da editora em função da morte de Roberto Civita – o que, claro, não salvou dezenas deles da demissão pouco depois.

Agora imaginem se os hospitais passassem a demitir seus médicos mais experientes com o objetivo de contratar apenas rapazes e moças recém-saídos da faculdade. E quem gostaria de ser representado por um escritório de advocacia cujo integrante mais velho tivesse 22 anos de idade? Vale apontar, aliás, que a ideia de descartar os veteranos é prejudicial até mesmo para os profissionais mais jovens, que, com isso, perdem a importantíssima oportunidade de interagir e aprender com os vividos colegas.

Isto para não mencionar, claro, que já iniciarão sua jornada profissional cientes de que serão descartados assim que se tornarem melhores e mais valiosos, numa lógica paradoxal e incompreensível.

Não sou jornalista. Não vivo em redações. Mas temo muito por um mundo no qual o Jornalismo se transforme numa área dominada por profissionais imaturos e despreparados – e os sinais de que isto já está ocorrendo podem ser facilmente observados através dos cliques diários em um portal como o UOL.

Preservar a qualidade do Jornalismo é cuidar do nosso futuro. Simples assim.

Arrested Development e a Linguagem Audiovisual nos Tempos da Internet

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões, Séries de tevê | 2 comentários

(O texto abaixo não traz spoilers importantes da quarta temporada de Arrested Development.)

Em meu curso de Forma e Estilo Cinematográficos, discuto como a variação na mídia acaba levando a um ajuste da linguagem das obras. Durante a década de 70, por exemplo, a proliferação de multiplexes nos Estados Unidos levou a uma diminuição inevitável no tamanho das telas, o que, por sua vez, obrigou os cineastas a investirem menos em planos gerais, mais abertos, e a apostarem em quadros mais fechados – o que, consequentemente, levou a uma maior rapidez na montagem, posto que planos mais abertos exigem mais tempo de tela. Assim, quando avaliamos a duração média dos planos no Cinema, esta sofre uma queda brusca a partir da década de 70 (a linguagem televisiva também colaborou para isto).

Este é apenas um dos inúmeros exemplos que podem ser encontrados ao longo da História da 7a. Arte (a chegada do som e a mudança do frames de 1.33:1 para 1.17:1 seria outra, bem como a popularização do VHS a partir da década de 80 e a necessidade dos diretores de se protegerem contra o Pan&Scan, mas creio que já entenderam o que quero dizer) – e o fato de tantas pessoas passarem a consumir o audiovisual através da Internet certamente representa o mais recente.

Em primeiro lugar, há o fato de que muitos agora assistem a filmes e séries em tablets e celulares, o que, claro, eventualmente começará a obrigar os realizadores a repensarem mais uma vez a lógica visual de seus trabalhos, mas o mais importante a se considerar é que esta é uma forma de consumir Arte que inevitavelmente leva a uma fragmentação da experiência. Vendo um filme ou série no computador, por exemplo, o espectador constantemente se vê compelido a pausar a narrativa para conferir emails, verificar algum status no Facebook ou twittar uma impressão momentânea – e embora isto arruíne a imersão na experiência, é também algo que não podemos ignorar. Com isso, alguns roteiristas passaram a desenvolver experiências narrativas multiplataforma: você assiste a um episódio de sua série na TV enquanto, no iPad, um complemento da projeção pode ser exibido em sincronia, oferecendo informações de bastidores ou pontos de vista diferentes sobre a história.

Ou podemos ter algo como a quarta temporada de Arrested Development, que não apenas foi viabilizada pelo investimento do Netflix, mas que resolveu abraçar completamente esta forma de exibição, incluindo-a de maneira direta e indireta em sua própria narrativa.

Para começo de conversa, o criador da série, Mitchell Hurwitz, sempre investiu na metalinguagem como um componente fundamental de suas histórias: nas três temporadas originais, por exemplo, o narrador Ron Howard se irritava quando alguém usava o personagem Opie (que ele viveu em The Andy Griffith Show) como um insulto e tampouco continha o desprezo pelo narrador-concorrente utilizado em uma versão da história dos Bluth dirigida por (vejam só) Carl Weathers. Da mesma maneira, num episódio no qual Tobias (David Cross) comentava sobre os cuidadosos detalhes de uma produção para a tevê, um armário da cozinha era aberto para revelar apenas um pacote – e, em outro instante, a própria câmera se escondia quando um juiz ordenava que os repórteres deixassem seu tribunal. No entanto, nesta quarta temporada, Hurwitz abraçou de vez o próprio processo de contar a história daqueles personagens.

E é isto que nos traz ao início deste post: o que o criador de Arrested Development fez na quarta temporada só se revelou possível graças ao fato de tê-la produzido para consumo online.

Adotando uma estrutura de quebra-cabeças diferente daquela vista nas temporadas originais, Hurwitz desta vez compõe uma história que, ao longo de 15 episódios, é contada a partir do ponto de vista de cada integrante da família Bluth, levando até mesmo a apresentações personalizadas nos créditos iniciais. Sim, Michael (Jason Bateman) ainda é o protagonista, mas apenas em função de nosso costume com sua posição na hierarquia da série, já que há alguns episódios nos quais o sujeito pouco aparece. Assim, em vez de nos oferecer uma figura única com a qual pudéssemos nos identificar, a temporada salta de Bluth em Bluth, praticamente adotando as personalidades de cada uma daquelas pessoas ao trazê-las para o centro temporário da narrativa: e se o episódio de GOB é mergulhado em esquemas tolos de vingança, aquele estrelado por Buster se transforma quase numa versão cômica de Psicose, ao passo que o de Lindsay se apresenta como um mergulho quase surreal em um universo que serve de cruzamento entre o ativismo social equivocado e a visão alienada de uma mulher incapaz de enxergar o mundo além do próprio umbigo. Já George-Michael surge numa pequena paródia de A Rede Social, enquanto seu pai atravessa a temporada buscando transformar a história dos Bluth em um filme a ser dirigido por ninguém menos que Ron Howard, que então ganha a tarefa de narrar suas próprias ações como se estivesse falando de uma terceira pessoa.

“Não vejo isso como um filme”, chega a apontar Maeby (Alia Shawket), completando a seguir: “Talvez uma série de tevê”.

Uma série que se reconhece como uma produção audiovisual e que – mais importante – encontra-se ciente do fato de ser uma continuação tardia de um esforço previamente cancelado. Desta forma, quando cenas das temporadas originais são exibidas, Hurwitz cobre a tela com uma marca d’água que sugere que aqueles flashbacks foram capturados ilegalmente através de um software cuja licença sequer foi comprada pelos produtores, numa das piadas recorrentes mais divertidas da quarta temporada. Além disso, é interessante perceber como a própria interface do Netflix é absorvida pela narrativa, sendo mais aparente na linha do tempo que percorre a série sempre que voltamos na cronologia da história ou no momento em que uma sessão de sexo entre dois personagens é exibida em fast-forward. (Já em outro instante, o narrador esclarece uma dúvida através do voice over para evitar que o espectador “volte demais e acabe indo parar no episódio de Maeby”.)

Permitindo que descubramos aos poucos o que realmente aconteceu em cenas vistas vários episódios antes (a identidade da pessoa que se encontra com GOB no piloto só é revelada no décimo-primeiro capítulo, “A New Attitude” – cujo título, por sinal, acaba complementando uma observação feita de passagem por P-Hound no primeiro episódio ao ouvir Michael citar a revista Altitude), Arrested Devolopment constrói uma narrativa complexa que pode ser descoberta gradualmente pelo espectador ou mesmo numa sequência intensa de binge-watching (algo que o Netflix também ajudou a popularizar com a série “House of Cards”).

O mais curioso, porém, é constatar a liberdade que uma produção para a Internet oferece aos realizadores: se sitcoms normalmente ficam presas à duração de 22 minutos por episódio, aqui Mitchell Hurwitz teve a opção de montar cada episódio de acordo com aquilo que julgou necessário, variando de 28 a 38 minutos (e dez minutos são uma eternidade, acreditem). O resultado é que algumas piadas, por exemplo, podem ser desenvolvidas com a calma de um realizador que sabe que a repetição irá torná-las mais eficazes – e o momento em que Lucille (Jessica Walter) obriga Buster (Tony Hale) a inspirar a fumaça de seu cigarro é doloroso e hilário justamente por ocupar um longo tempo.

Ciente de que a facilidade de saltar de um episódio a outro na plataforma do Netflix permitirá ao espectador a avaliação instantânea da tapeçaria de sua narrativa, Arrested Development ainda encanta ao investir em detalhes que muitas vezes só chamarão a atenção quando vistos pela segunda vez – e é interessante, por exemplo, perceber como Michael, ao usar a esteira do aeroporto em Phoenix, passa por um mural que revela alguns dos principais momentos das três temporadas originais, encerrando num “Bem-vindo a Phoenix” que deveria servir como continuação lógica de sua jornada, já que o personagem vivia insistindo em seu sonho de se mudar para a cidade.

Talvez menos consistentemente divertida que as anteriores, esta quarta temporada ainda assim é suficientemente engraçada para justificar a própria existência – e, como experiência audiovisual, certamente representa mais um passo evolutivo importante na linguagem das produções em um universo que vem colocando o poder de montador cada vez mais nas mãos de sua plateia.

E, como apaixonado por esta Arte, não posso deixar de achar fascinante a oportunidade de observar este fenômeno em tempo real.

Os seios de Angelina Jolie

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Variados | 87 comentários

Angelina Jolie é uma boa atriz. No entanto, quando lemos seu nome, o que nos vem à mente em primeiro lugar não são suas performances ou mesmo seu ativismo político, mas sua beleza física. Não é à toa que tantas atrizes ao longo dos anos buscaram papéis nos quais pudessem se esconder sob maquiagem pesada: ocultavam sua perfeição para que pudessem, paradoxa e finalmente, ser vistas sob esta. Somos rápidos em julgar pela aparência – e as mulheres, em particular, encontram-se frequentemente no banco dos réus: belas ou não, são avaliadas pela conformação dos ossos da face, pela pele sobre estes, pelo índice de gordura e pelas curvas. Só então – e talvez – nos preocupamos com sua essência como indivíduos.

Se isto ocorre com a secretária de nosso dentista, com a caixa do supermercado, com a advogada no fórum, com a médica no consultório e com a universitária em sala de aula, imaginem o escrutínio ao qual uma estrela internacional como Jolie é submetida – especialmente se considerarmos que seu corpo é também seu instrumento de trabalho. Para boa parte dos homens ao redor do planeta, ela não é sequer um ser humano, mas um conjunto agradável de seios, pernas e lábios. Sua personalidade é um inconveniente, não um atributo. Muitos destes machos vieram parar neste post porque o Google, enganado pelo título, respondeu suas consultas movidas a hormônio com um link equivocado.

Não que apreciar a beleza seja, por si só, algo que poderíamos classificar como “errado” – somos quem somos, afinal, e buscamos o belo por natureza. O problema surge quando esta beleza inspira o que temos de mais feio: a desumanidade.

Há pouco, Angelina Jolie anunciou, num artigo publicado no New York Times, ter se submetido a uma mastectomia dupla depois de descobrir, graças a uma avaliação genética, ter 87% de chances de desenvolver o mesmo tipo de câncer que matou sua mãe, Marcheline Bertrand, aos 56 anos de idade. Beirando os 40, Jolie decidiu que o risco era alto o bastante para justificar uma medida profilática extrema e retirou os seios. Pensou em sua saúde e em sua família, não na carreira ou na vaidade. Ser um cadáver bonito não é grande consolo.

Sua decisão, porém, imediatamente inspirou machos a saírem das cavernas em postura revoltada. No portal G1, por exemplo, os comentários – invariavelmente publicados por homens – iam do adolescente “Tomb Raider ficou sem peitos!” ao profundamente ignorante “Alguns parentes meus morreram de infarto. Agora tenho que tirar meu coração?”. Entre acusações de “falta de fé” por parte de evangélicos, Jolie também foi condenada pela “automutilação”.

Porém, foi mesmo em minha página no Facebook que li o comentário mais ilustrativo:

“Coitado do Brad Pitt.”

Por que o considerei tão simbólico? Porque, ao contrário dos demais, representa a reação imediata até mesmo de muitos homens que condenariam sem hesitar os demais comentários.

Há algum tempo, escrevi sobre minhas próprias falhas ao encarar as lutas femininas – e uma destas batalhas diz respeito justamente à tendência do universo masculino de encarar as mulheres como adorno, como peças de decoração ambulantes. Angelina Jolie é mãe de seis crianças, ativista, artista, feminista e, acima de tudo, um ser humano que naturalmente quer prolongar o máximo possível a já tão curta estadia no planeta – mas para boa parte dos homens, ela é simplesmente um brinquedo sexual com o qual fantasiar e o prêmio que Brad Pitt ganhou por ser Brad Pitt. E que agora está defeituoso, perdeu o valor, partiu-se. É um troféu amassado depois de cair da estante.

Aparentemente, 13% de chances de jamais desenvolver o câncer que já lhe custara a mãe representam uma estatística boa o bastante para justificar a manutenção de seus tão cobiçados seios. E como ela se atreve a arruinar a fantasia masculina daqueles que jamais se encontrarão sequer no mesmo edifício que a atriz – e muito menos em sua cama? Cerca de 400 mil mulheres morrem em função do câncer de mama por ano (há 50 mil casos novos por ano só no Brasil), mas, para muitos machos, estes números se traduzem não em vidas perdidas, mas apenas em 800 mil seios a menos no mundo.

Ler as reações à decisão absolutamente pessoal de Angelina Jolie é ter acesso a um mundo de chauvinismo e falta de empatia. É retornar não à década de 50, mas à Idade Média. É perceber a infinidade de homens que enxergam o corpo feminino como um objeto que possuem – mesmo que apenas para admiração à distância.

É esquecer que Angelina Jolie – ou qualquer outra mulher – é muito mais do que um par de seios.

Graças à Ciência, a atriz agora poderá respirar com mais tranquilidade por ter melhorado suas chances de acompanhar o crescimento dos filhos. Pena que não haja medida profilática (ou mesmo tratamento) para o câncer de caráter. Muitos homens se beneficiaram de algo assim.

Update: Poucos dias depois de Jolie anunciar a dupla mastectomia, sua tia morreu em função do mesmo tipo de câncer de mama que matou sua mãe.

Resposta de Kleber Mendonça a Cadu Rodrigues

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 12 comentários

Tentei linkar direto pra página do Kléber no Facebook, mas não deu certo. A pedidos, transcrevo aqui a resposta matadora de KMF:

“Resposta a Cadu Rodrigues, diretor-executivo da Globo Filmes: ——-

Olá Cadu

Estava em trânsito o dia inteiro, cheguei em Istambul onde O Som ao Redor será exibido nos próximos dias. O Facebook e a imprensa fervilham com nosso embate. Preciso lhe agradecer pelo desafio, mas sua proposta associa a não obtenção de uma meta comercial (200 mil espectadores) como prova irrefutável de que eu não seria um cineasta. Isso não me parece correto, pois o valor de um filme, ou de um artista, não deveria residir única e exclusivamente nos número$. Sobre ser crítico ou cineasta, atuei como ambos e meu discurso permanece o mesmo, e sempre foi colocado publicamente, e não apenas em mesas de bar: o sistema Globo Filmes faz mal à idéia de cultura no Brasil, atrofia o conceito de diversidade no cinema brasileiro e adestra um público cada vez mais dopado para reagir a um cinema institucional e morto. Devolvo eu um outro desafio: Que a Globo Filmes, com todo o seu alcance e poder de comunicação, com a competência dos que a fazem, invista em pelo menos três projetos por ano que tenham a pretensão de ir além, projetos que não sumam do radar da cultura depois de três ou quatro meses cumprindo a meta de atrair alguns milhões de espectadores que não sabem nem exatamente o porquê de terem ido ver aquilo. Esse desafio visa a descoberta de novos nomes que estão disponíveis, nomes jovens e não tão jovens que fariam belos filmes brasileiros que pudessem ser bem visto$, se o interesse de descoberta existisse de membro tão forte da cadeia midiática nesse país, e cujos produtos comerciais também trabalham com incentivos públicos que realizadores autorais utilizam. Não precisa me incluir nessas novas descobertas, gosto do meu estilo de fazer cinema. Ainda estou no meio de um grande desafio com O Som ao Redor, 9 cópias 35mm, mais algumas salas em digital, chegando aos 80 mil espectadores em 8 semanas, e com distribuição comercial em sete outros países. A maior publicidade de O Som ao Redor é o próprio filme. Para finalizar, esses embates são importantes, fazemos cinemas diferentes, em geografias diferentes. Obrigado, tudo de bom. Kleber”

Walter Navarro tenta parar o Tempo

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Série Jornalistas, Variados | 57 comentários

Tenho amigos queridos que trabalham no jornal O Tempo. Mais do que queridos: jornalistas talentosos que fazem o melhor trabalho possível em suas respectivas áreas. Não irei citá-los por não achar justo relacioná-los, mesmo que perifericamente, ao que discutirei abaixo, mas saliento que o caderno Magazine, em especial, é fruto de um trabalho de incrível competência e amor por parte de seus responsáveis.

E é por esta razão que Walter Navarro merece ir para a rua. Não apenas por vomitar preconceitos e, no processo, se apresentar ao mundo como um ser humano absolutamente repugnante, mas por sujar, praticamente sozinho, as páginas do caderno que seus colegas tão brilhantemente criam. E é por esta razão, também, que não escrevi uma linha sequer sobre o texto incrivelmente estúpido de José Robert Guzzo publicado na Veja sobre o movimento LGBT: está na Veja, que, historicamente, encontra-se sempre do lado errado de qualquer questão sobre a qual se manifeste – e é impossível poluir algo que já atingiu níveis tóxicos. (Além disso, Jean Wyllys já publicou a resposta definitiva a Guzzo.)

Neste sentido, Navarro é o cadáver em putrefação que flutua num lago límpido (eu iria compará-lo a outra coisa flutuante, mas isto apenas descreveria o que ele carrega na mente) e que precisa ser removido antes de contaminar a água de forma irremediável.

Em primeiro lugar, o contexto: em sua coluna semanal no jornal O Tempo – e cuja existência já me impressiona há tempos, já que o sujeito obviamente não sabe escrever, sendo péssimo não apenas em estilo, mas em gramática, ortografia e retórica -, Walter Navarro decidiu falar sobre um tema espinhoso que normalmente deveria ser deixado a cargo de pessoas que possuem algum conhecimento mínimo sobre História, Sociologia ou Caráter: a tragédia envolvendo os Guarani-Kaiowá, que, expulsos das próprias terras e mantidos distantes de suas raízes culturais em um pedaço minúsculo de chão que mal lhes permite a sobrevivência, publicaram uma carta chocante e comovente sobre a situação na qual se encontram.

Entra Walter Navarro, com a sensibilidade típica de um homem incapaz de compreender qualquer coisa que se mostre distante de sua realidade imediata.

Tem coisa mais chata, hipócrita, brega e programa de índio que este pessoal do Facebook adotando o nome Guarani Kaiowá?“, começa o colunista em seu espaço em O Tempo – e até aqui posso compreender suas motivações. De fato, o cyberativismo rende patetices risíveis e perigosas – e não são poucos aqueles que alteram seus sobrenomes por alguns dias no Facebook para manifestar uma “causa” que descobriram na web enquanto acreditam que isto os tornará admiráveis e engajados, quando, na verdade, apenas torna-os ainda mais passivos. Não digo, com isso, que todos que o fazem são “tolos” ou “ingênuos” (como alguns inicialmente interpretaram), mas apenas que este tipo de manifestação não deve substituir um envolvimento mais ativo nas causas defendidas.

Infelizmente, esta primeira frase é a única no texto de Navarro que faz algum sentido – o restante é uma enxurrada de imbecilidades, preconceitos e da mais profunda ignorância. Com um tom que ele acredita ser irreverente, mas que soa apenas como a mais profunda intolerância, o sujeito inclui afirmações como “Como diriam o Marechal Rondon e os irmãos Villas Boas, “Índio bom é índio morto”! “Matar, se preciso for, morrer, nunca!”“; grafa “Barack (Obama)” como “Barak” (isto num jornal!); chama Rita Lee de “maconheira” para tentar desqualificar uma de suas letras pró-Índios; e arremata um longo e tolo parágrafo com a inacreditável sentença de que “Os guaranis kaiowá não passam de recolhedores de mel no meio do mato. É o povo mais primitivo do mundo, nem chegou à Idade da Pedra”.

De acordo com Walter Navarro, este grande antropólogo, historiador e filósofo, “(…)o Brasil é assim, uma mistura de índios flatulentos com criminosos portugueses“. E encerra, orgulhoso de seu “humor” que levaria até mesmo Rafinha Bastos a considerá-lo ofensivo: “A vadiagem dos guaranis kaiowá pelo menos é lucrativa. Ontem, troquei um canivete suíço (falso) por várias toras de mogno de sua reserva

Se J.R. Guzzo não fosse apaixonado por cabras, eu sugeriria que procurasse Walter Navarro, o asno. O filhotinho resultante desta união despertaria interesse de cientistas em todo o planeta e daria início a uma nova espécie: Intolerantis imbecilicus.

– X –

A repercussão do texto de Navarro, claro, assustou os donos de O Tempo, levando a um editorial claramente apavorado visando controlar os danos. Infelizmente, as palavras do editor Vittorio Medioli são atrasadas, poucas e leves demais. Embora diga que O Tempo errou ao permitir a publicação do texto, que traz “linguagem chula” (aparentemente, o grande problema da coluna, em sua visão), ele afirma que defenderá a permanência de Navarro como colaborador. Ora, considerando que Medioli é também fundador de O Tempo, isto não é defesa, é decisão.

O curioso é que, no mesmo editorial, ele escreve que insistiu “para “mais uma oportunidade” em outras ocasiões”, apontando o que todos já sabem: Navarro faz há muito tempo este tipo de discurso odioso. Quem acompanha o jornal já leu suas colunas misóginas, homofóbicas e racistas.

Para justificar a manutenção do sujeito, Medioli diz que o jornal defende “a liberdade de expressão”. Ora, ninguém está sugerindo que Navarro seja amordaçado ou impedido de se manifestar. Por outro lado, oferecer a ele uma plataforma para que divulgue suas ideias é algo reprovável e perigoso. Abomino Bolsonaro, por exemplo, mas não pretendo impedi-lo de jorrar seu ódio – mas tampouco ofereceria a ele uma coluna no Cinema em Cena.

Demitir um colunista como Walter Navarro não é cercear a liberdade de expressão; é apenas exibir discernimento suficiente para reconhecer que, em 2012, discursos como os dele são anacrônicos e inaceitáveis, denunciando uma natureza que merece o ostracismo, não divulgação. Homens como Walter Navarro devem ser encontrados berrando insanamente seu ódio e preconceito sobre um caixote no centro da cidade, não escrevendo (mal e porcamente) nas páginas de um jornal como O Tempo.

Update importante: um leitor aponta nos comentários abaixo que o editorial de Medioli é de 2010, o que comprova o que escrevi acima: Navarro já há muito espalha ódio nas páginas de O Tempo. Resta saber se o jornal continuará a ser leniente com o sujeito. Considerando que já assumiram publicamente os problemas provocados pelo colunista, a partir de agora só posso considerar os editores de O Tempo cúmplices do odioso “articulista” que sustentam.

Update 2: Em sua página no Facebook, o jornal O Tempo publicou o seguinte post por volta da meia-noite de hoje: “Informamos que o jornal O TEMPO decidiu afastar o colunista Walter Navarro do seu quadro de colunistas e que a Sempre Editora não compactua com nenhum tipo de preconceito e/ou manifestação preconceituosa. Reforçamos, assim, o nosso compromisso com o bom jornalismo.”

Ok, parece uma boa notícia. No entanto, o que exatamente é “afastar”? Demissão? Suspensão temporária? Com pagamento ou sem? Ou é apenas colocá-lo na geladeira até que todos se esqueçam de mais esta abominação que publicou nas páginas do jornal? Até que isto fique claro, hesitarei em celebrar.

O deputado e o ursinho

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 75 comentários

Tornou-se clichê usar o belo poema de Eduardo Alves da Costa, escrito como desabafo libertário diante da ditadura militar, mas é inevitável pensar neste trecho de “No Caminho com Maiakóvski” diante de certas manifestações de autoritarismo cultural que vêm acontecendo no Brasil com frequência cada vez mais alarmante:

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

Este é o problema em ser seletivo ao decidir quais batalhas se quer lutar em uma guerra – se você abandona umas e abraça outras, não está realmente defendendo seu lado; está comodamente lutando apenas em causa própria.

Pois minha causa é a de liberdade absoluta para a Arte, aprovando ou não seu conteúdo. Desprezei profundamente Um Filme Sérvio; isto não me impediu de defendê-lo a ponto de escrever sobre sua proibição, ajudar a organizar e participar de uma exibição pública e de um debate ao seu respeito. Considero Rafinha Bastos uma das piores coisas que o humor nacional já produziu, mas protestei quando seu DVD foi proibido pela justiça de São Paulo. O que me motivou a fazer tudo isso foi a certeza de que eram os primeiros passos para que a ideia de censura voltasse a circular aos poucos entre os brasileiros – e era apenas uma questão de tempo até que representantes eleitos democraticamente começassem a vomitar o desejo de proibir outras obras baseados puramente em seu gosto pessoal.

Entra Protógenes Queiroz, delegado da PF, deputado federal e um sujeito que, até então, vinha colhendo elogios por sua postura inabalável de combate à corrupção. Provando que o ser humano é a mais complexa das criaturas e que o mesmo homem que representa uma bandeira fundamental pode meter o pé em outra igualmente imprescindível, o deputado decidiu que era o momento de usar sua posição para defender a censura.

O caso, porém, começa de forma patética, digna de umas das notícias falsas publicadas pelo Piauí Herald: depois de levar o filho de 11 anos de idade para assistir ao longa Ted, de Seth MacFarlane, Protógenes, chocado com o que viu, decidiu agir como um fã de Restart e xingar muito no Twitter:

Foi o primeiro passo de uma cruzada pessoal cuja etapa seguinte foi uma matéria no Estadão que, esta sim, parece ter saído do The Onion brasileiro: com o título “Deputado quer proibir filme de ursinho viciado” (ok, podem rir), o texto traz as seguintes pérolas:

“O deputado, também delegado da Polícia Federal, criticou os Ministérios da Justiça e da Cultura por terem liberado o filme para maiores de 16 anos. “Não poderia ser liberado nem para 16 nem para 18 anos. Esse filme não pode ser liberado para idade nenhuma. Não deve ser veiculado em cinemas”, afirmou. Protógenes disse que, como deputado, pedirá explicações dos dois ministérios sobre a liberação do filme.”

Em primeiro lugar, o óbvio: depois de se ver numa situação constrangedora ao levar o filho de 11 anos para assistir a uma obra cuja classificação indicativa era “16 anos”, Protógenes resolveu descontar o embaraço que sentiu na própria democracia. Assumindo o papel de um juiz Dredd da moral e dos bons costumes, ele assistiu ao filme, avaliou o material e decidiu que ninguém mais deveria ter o direito de vê-lo. “Esse filme não pode ser liberado para idade nenhuma”, sentenciou do alto de sua visão megalomaníaca de mundo. E, dentro desta lógica, não hesitou em “pedir explicações” sobre a “liberação do filme”.

A explicação é simples, deputado: o Brasil voltou a ser uma democracia. Não temos mais, felizmente, um comitê central que decide arbitrariamente, a partir de critérios morais, religiosos e/ou ideológicos, o que o resto do país pode ou não ver. Para o bem ou para o mal, somos tratados como adultos pelo governo (ao menos neste aspecto), não como crianças que devem ser orientadas com relação ao que devem consumir culturalmente.

Mas Protógenes prossegue em seu show de embaraço ao alegar que o filme “instrui o espectador a não estudar e a não trabalhar”. Ora, mesmo que isto fosse verdade (e não é; o modo de vida de Ted e seu dono é claramente retratado como empecilho para o crescimento da dupla, demonstrando que o deputado não sabe sequer interpretar uma obra), que ideia absurda é esta de que um longa consegue “instruir” alguém a fazer algo? Se uma pessoa decide se tornar consumidora de drogas porque viu isto num filme, seu problema já antecedia a ida ao cinema; era uma questão de caráter, imaturidade ou insanidade, não de um longa-metragem perverso agindo sobre sua mente.

Porém, a experiência do parlamentar se torna realmente hilária quando ele relata:

“Protógenes disse que o filho perguntou se ele queria ir embora. “Respondi que não. Queria ver até onde ia aquele desrespeito.””

Recapitulemos: o filho de 11 anos de idade perguntou se ele queria ir embora. E ele disse “não”.

Mas a culpa é do filme, não de sua falha como pai.

A sessão de embaraço termina com este pequeno momento de surrealismo:

“Protógenes disse ainda que ficou indignado ao ver um herói de sua juventude – Flash Gordon – usando cocaína.”

E aí começo a entender a lógica (ou falta) de Protógenes: para alguém que aparentemente acredita que Flash Gordon é real e cocainômano, é realmente difícil estabelecer o limite entre ficção e realidade.

Insanidades à parte, porém, a postura do deputado é perigosíssima: muitos de vocês talvez não se lembrem, mas eu ainda me recordo de uma época em que obras de arte eram impedidas de chegar aos brasileiros por quaisquer motivos arbitrários alegados pela Censura – e não foi um período bonito, acreditem. A arrogância de Protógenes, aliás, é tamanha que ele não hesita em escrever como se estivesse de fato falando em nome de todos os brasileiros:

 A melhor parte para mim, claro, é o fato de ele protestar contra os “enlatados culturais americanos”… via twitter for iPad. 

Dito isso, o tempo verbal “Não aceitamos” é de uma arrogância assustadora – e preocupante. Assim como é alarmante perceber como Protógenes se encontra tão convencido de seu papel como juiz do que o povo brasileiro merece ou não ver que não se dá conta de contradições patentes em sua postura como “defensor da democracia”. Ora, no dia 23 de setembro, o deputado publicou o seguinte tweet:

“Não concordo com a restrição a (sic) liberdade de expressão”. Perfeito, Protógenes. Sua postura é admirável. Aliás, sabe para quem você deveria ensiná-la? Para o Protógenes 24 horas mais velho:

Espero que vocês se entendam, pois certamente parecem ter visões bastante conflitantes de mundo. A propósito: aproveite que irá conversar com ele e envie um recado por mim, por gentileza: diga a ele que a imagem que exibe no cabeçalho de seu blog pessoal é uma das mais honestas que já vi no espaço oficial de um parlamentar. Deprimente, claro, mas ainda assim honesta.

Que a humanidade se defina pelo que tem de melhor

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões | 55 comentários

Hoje pousamos um caminhão em Marte.

Vou repetir isso, pois parece uma sentença saída de uma obra de ficção científica: hoje, 6 de agosto de 2012, enviamos um equipamento exploratório do tamanho de um caminhão a outro planeta, pousando com precisão absoluta para que conseguisse já enviar imagens da superfície marciana imediatamente. “Curiosidade” é o nome da nave, que custou 2,6 bilhões de dólares e conseguirá não só registrar tudo através de fotos e vídeos, mas também é capaz de extrair rochas, analisar sua composição e enviar o resultado para casa – uma viagem que a informação leva 14 minutos para completar.

“Curiosidade”. Isto é o que impulsiona a humanidade. O desejo de saber mais, de se reconhecer ignorante, mas jamais limitado por esta ignorância, usando-a como alavanca para o saber. Esta é a diferença entre o cientista, o pensador, que faz perguntas para as quais não tem indícios de resposta, e outros que oferecem a mesma resposta para todas as perguntas. Um cientista não tem “fé”, mas incertezas. E se formula hipóteses que acabam sendo contraditas por fatos, repensa suas premissas em vez de tentar ajustar a realidade à sua visão preconcebida do mundo.

Ao contrário do que afirmam alguns, não há arrogância na Ciência. Se houvesse, esta não evoluiria.

Em 2012, enxergamos a menor das partículas, cuja existência havia sido teorizada há 50 anos, e enviamos um caminhão a Marte. Vimos o anúncio dos cientistas do CERN e o pouso ao vivo (embora este último com o atraso provocado pela distância) através de nossos computadores em vídeo transmitido por satélites e cabos para todo o mundo simultaneamente. Enquanto testemunhávamos a vitória da inteligência humana, podíamos acessar também imagens das Olimpíadas, que nos ofereciam um olhar sobre a vitória do empenho físico e do melhor que podemos fazer apenas com nossos corpos: um homem corre 100 metros em 9,63 segundos; uma jovem chinesa nada 400 metros medley em 4.28:43; uma mulher de 53 quilos ergue 131.

Mas não somos perfeitos, claro. Enquanto centenas de mentes se unem para demonstrar como o universo surgiu, um moleque invade um cinema e tira a vida de doze pessoas e um outro protozoário entra em um templo e elimina outras seis. Milhares de pessoas decidem prestigiar uma cadeia de restaurante cujo presidente classificara os homossexuais como aberração, usando suas carteiras e estômagos como suporte para a intolerância. No Brasil, figuras como Silas Malafaia, Bolsonaro e Reinaldo Azevedo diminuem o Q.I. coletivo apenas por respirarem, desperdício de carbono que são. Misoginia, homofobia e diversos outros tipos de intolerância são vendidos a milhões de pessoas sob a desculpa de que “Deus desaprova” esse ou aquele tipo de comportamento – como se Deus, caso existisse, não só rejeitasse suas próprias criações como ainda fosse estúpido a ponto de comunicar suas vontades através dos vermes que se apresentam como seus porta-vozes.

Isto pode nos desanimar. Angustiar. É difícil celebrar nosso avanço intelectual se este é combatido por grupos cada vez mais poderosos que trazem a ignorância não só como objeto de orgulho, mas como principal arma.

Mas aí me lembro de que um equipamento construído pela humanidade encontra-se agora a 250 milhões de quilômetros da Terra. E me lembro de que “enxergamos” uma partícula cuja meia-vida é de 1 zeptosegundo. E me lembro de que um sul-africano nadou 100 metros na modalidade peito em 58.46 segundos.

E concluo que, apesar de tudo, é uma época linda, esta na qual vivemos.

Onde Deus estava durante o tiroteio em Aurora?

postado em by Pablo Villaça em Discussões, religião | 221 comentários

Depois que um pastor publicou um texto explicando “onde Deus estava” durante o tiroteio no cinema em Aurora (basicamente, ele diz que Deus nos deu o “livre arbítrio” – a não ser quando ele decide intervir por algum motivo que jamais compreenderemos), um leitor publicou uma resposta nos comentários que traduzirei aqui. Como de hábito, sintam-se livres para reproduzir a tradução abaixo (mas um link para o blog seria gentil).

“Caros cristãos,

aqui é Deus. Decidi tirar um tempo para explicar pessoalmente minha ausência no tiroteio em Aurora. E enquanto faço isso, achei que também poderia explicar minha ausência durante cada assassinato, massacre e crime já ocorridos na história do mundo e em toda guerra, todo lugar atacado pela fome, por secas e inundações.

Sabem, é que eu não existo. Nunca existi. Realmente fazia sentido para vocês que eu pudesse criar um universo inteiro com bilhões e bilhões de planetas e então esperasse cerca de 13.700.000.000 anos até poder me concentrar em alguns judeus da Palestina há cerca de 2.000 anos enquanto ignorava o restante das 200.000.000 de pessoas que existiam no planeta naquela época? Fui eu quem fiz aqueles poucos judeus ou foram eles que me fizeram?

Aliás, vocês realmente acham que eu ficaria sentado sem fazer nada enquanto os nazistas matavam 6 milhões do meu “povo escolhido”, mas acharia importante intervir para transformar água em vinho a fim de evitar que alguns anfitriões não ficassem embaraçados em um casamento em Canaã? Por que eu parecia estar tão ativo no Oriente Médio em um breve período há cerca de 2.000 anos, mas completamente ausente em qualquer outro lugar do planeta e pelo restante do registro histórico do mundo? Fui eu quem fiz os judeus ou foram eles que me fizeram?

Então vocês realmente acham que meus milagres periódicos provam minha existência, é? Então por que não fazer algo inquestionável, sem ambiguidade, como colocar um crucifixo gigantesco no céu ou a minha face na Lua? Por que os crentes têm sempre que construir meus milagres a partir de eventos perfeitamente explicáveis por causas naturais?

Isso acontece todas as vezes em que ocorre uma tragédia ou uma quase tragédia de qualquer tipo – em qualquer lugar do mundo e em todas as culturas. O capitão “Sully” Sullenberger pilota um avião com problemas até pousar com segurança no rio Hudson, em Nova York, sem que qualquer morte ocorra e é um milagre de Deus; uma jovem é encontrada na Índia, completamente aterrorizada, mas viva depois de ter sido raptada e estuprada por uma semana e é um milagre de meu concorrente Rama (ou Vishnu ou Shiva) que ela tenha sido devolvida à família; ou uma família no nordeste do Paquistão sobrevive a um míssil norte-americano perdido e é um milagre de Alá.

O que estas proclamações interesseiras de intervenção milagrosa sempre ignoram é o lado negativo desses incidentes. O fato de que os passageiros e a tripulação do voo 1549 ficaram aterrorizados e o avião foi destruído; que 11 pessoas inocentes morreram em Aurora; que a garota ficou presa por sete dias enquanto era estuprada e sodomizada e que ficará traumatizada para o resto da vida; ou que outros civis inocentes foram mortos pelo míssil.

Claro, pois nenhum destes incidentes foram realmente “milagres”. Quando a totalidade dos fatos é levada em conta, “milagres” se revelam como nada mais do que crentes desesperados por algum tipo de sinal da minha existência e que, para isso, ignoram os aspectos negativos de um grupo de fatos, focando exclusivamente no lado positivo e batizando esse “bem” isolado como um milagre meu ou dos outros contos de fadas. Um CEO poderia também ignorar as perdas de sua empresa e declarar ser um “milagre” que a companhia tenha subitamente dobrado de valor.

Outro hábito irritante dos meus “milagres” é que sempre parecem andar ao lado, mas um pouquinho atrás, da ciência médica – como um irmão caçula irritante que se recusa a se afastar. Até meados dos anos 90, aqueles com AIDS que rezavam por um milagre nunca foram atendidos. A medicina encontra um meio de controlar a doença e de repente eu começo a realizar milagres com pacientes de AIDS. Nenhum paciente de poliomielite jamais foi agraciado com um milagre até a vacina Salk surgir – e eu rotineiramente ignorava pacientes com câncer até que a quimioterapia e a radioterapia foram desenvolvidas. De repente, preces direcionadas a mim por pacientes com câncer começaram a ser regularmente “atendidas”.

Por que eu pareço surdo às preces de pessoas com amputações que desejam seus dedos, braços ou pernas de volta ou de outros que perderam olhos ou orelhas e daqueles que foram vítimas de queimaduras horríveis? E também de outros que sofrem de doenças patentemente visíveis, mas ainda incuráveis? Por que, ao mesmo tempo, sou receptivo às preces daqueles cujas condições são incertas, internas e, assim, vulneráveis a alegações milagrosas?

Tire cinco minutos para fazer duas listas: uma de doenças que irei curar milagrosamente e outra de doenças que não curarei. Você rapidamente descobrirá que elas coincidem perfeitamente com as doenças que a medicina ou o próprio corpo podem curar e aquelas que não podem. Por que acham que isso acontece? É quase como se meus milagres fossem criados a partir da ambiguidade médica, não é?

Não, meus amigos humanos. Receio não existir. Não posso ler suas mentes (ou “ouvir suas preces”, como gostam de dizer) e vocês não alcançarão a imortalidade (ou “a vida eterna”, como gostam de dizer), não importando quantos mandamentos criados na Paletina na Idade do Ferro vocês decidam “manter”. Sigam adiante e aproveitem os poucos anos que têm. Vocês estiveram mortos pelos últimos 13.700.000.000 e não foi tão desconfortável assim, foi?

Deus”

A voz de Bane (ou Filme Dublado, Não! #07)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Não ao dublado | 123 comentários

Em matéria publicada no site Entertainment Weekly, Tom Hardy discute a cuidadosa composição vocal de seu personagem em O Cavaleiro das Trevas Ressurge – e que é completamente descartada na versão dublada.

“Para interpretar Bane, uma força constante e deliberadamente maligna de vontade e da mente, o ator britânico quis desenvolver uma voz distinta que evocasse (ainda que tangencialmente) a erudição do personagem dos quadrinhos e sua herança étnica (Bane vem de um país fictício no Caribe). Hardy procurou um som condizente com um homem mergulhado na maldade e que evocasse a sabedoria de uma alma antiga – e que conseguia traçar suas raízes na cultura latina antiga. “Havia dois caminhos que poderíamos seguir”, diz Hardy. “Poderíamos interpretar um vilão muito simples e direto ou poderíamos seguir um caminho muito peculiar, que seria totalmente justificado pelo texto, mas poderia parecer muito, muito estúpido.” Não surpreendentemente, Hardy decidiu seguir a segunda opção. “É um risco, pois eu poderia ser ridicularizado – mas também poderia ser algo muito novo e excitante”, diz ele. Embora alguns tenham julgado seus diálogos incompreensíveis na prévia exclusiva exibida em IMAX antes de Missão: Impossível 4 em dezembro, o ator pede paciência. “O público não deveria se preocupar muito com a voz resmungante”, diz Hardy. “Conforme o filme avança, eu acho que você vai ser capaz de se sintonizar à sua cadência.”

Já em outras entrevistas, Hardy revelou a inspiração para a voz do vilão:

“Eu a baseei num cara chamado Bartley Gorman. Ele é o rei dos ciganos; um boxeador, um viajante irlandês, um cigano. (…) Um cigano Romani. Eu queria salientar a origem latina, mas uma latinidade Romina, não sul-americana. Seu sotaque cigano é muito específico”.

Mas estou certo de que os dubladores brasileiros fizeram todo o trabalho de pesquisa realizado por Tom Hardy ao longo de mais de um ano para que a voz de Bane representasse a concepção original do ator.

Certo?