Discussões

Penitência masculina

postado em by Pablo Villaça em Discussões | 92 comentários

Eu não sou um feminista.

Sempre achei que fosse. Fui criado por uma mulher forte e de caráter nobre que, viúva aos 27 anos e com dois filhos pequenos para criar, conseguiu não apenas ser uma mãe sempre presente como se desdobrou para nos dar uma vida confortável. Mais do que isso, mamãe (e, sim, a chamo de “mamãe” até hoje) nos ensinou a sempre pensar no outro, a considerar o sentimento alheio antes de qualquer coisa. Aliás, ela também teve seu exemplo: minha avó, que se divorciou do marido que a agredia numa época em que era impensável que uma mulher fizesse algo assim.

Cresci com uma irmã mais nova, igualmente magnífica, e que vi se transformar de criança bravinha em uma mulher (e agora mãe) íntegra, sensata, profissional exemplar e meiga ao extremo. Cercado por estas mulheres maravilhosas, aprendi desde cedo a perceber as diferenças gritantes entre os dois sexos – e aos poucos percebi minhas próprias fragilidades como indivíduo quando contrapostas à fortaleza daquelas com quem convivia. Percebi como a sensatez, a gentileza e a compaixão, qualidades que nós homens temos que cultivar para que ganhem raízes em nosso cotidiano, parecem vir com naturalidade para grande parte de nossas companheiras de planeta. Quando lia estatísticas sobre atos de violência praticados por homens e mulheres, não me espantava em ver meu gênero dominando o ranking. Passei a ter convicção de que o mundo se tornaria melhor caso governado por mulheres. E ainda creio nisso.

Mas isso não me torna um feminista.

Há algum tempo, envolvi-me numa confusão ao retuitar uma piada sobre mulheres. Basicamente, ela dizia: “Algumas mulheres são conquistadas pela inteligência, pela gentileza e pelo carinho. Para todas as outras existe Mastercard”. Mantenho não se tratar de uma piada machista; ela não afirma que as mulheres são fúteis ou “compráveis”, mas que algumas podem, sim, ser seduzidas pelo poder e pelo dinheiro. Por outro lado, tampouco é uma piada particularmente engraçada ou inteligente – e hoje eu não a tuitaria, já que a especificidade quanto ao sexo feminino a fragiliza conceitualmente, já que poderia se aplicar perfeitamente aos homens (e o fato de ainda assim ser sobre mulheres… bom, creio que a torna machista, sim). O problema, porém, começou quando uma leitora, ofendida pelo tweet, enviou uma mensagem agressiva que, por sua vez, me irritou, levando-me a responder com o sarcasmo que uso nestas situações. Aí começou meu erro, que se tornou inadmissível quando, em certo instante, usei o termo “feminazi” para descrevê-la.

E como me penitencio por isso. Meses se passaram e, desde então, não correu uma semana sem que eu me recriminasse por tê-lo empregado. Por um lado, afirmo sem reservas que eu não conhecia o histórico de seu uso contra feministas por misóginos de todas as estirpes; eu já o lera aqui e ali e honestamente julgava se tratar de um termo usado para descrever feministas radicais que viam o homem sempre como inimigo – uma postura destrutiva para todos. Ainda assim, eu não deveria tê-lo atirado contra a leitora. Em vez disso, deveria ter feito o que fiz apenas depois, quando mais calmo: tentado compreender por que ela ficara tão irritada.

Hoje creio saber: ela enxergou, em mim, apenas mais um homem disposto a reduzir as mulheres a um estereótipo. Se me conhecesse, saberia que eu jamais faria isso – mas não me conhecia e não hesitou em pensar o pior. E, infelizmente, não posso culpá-la por isso.

Porque na maioria das vezes elas estarão certas em pensar o pior a respeito de um homem.

É triste ter que escrever isso, mas também inevitável. E é por isso que não posso me julgar um feminista: eu admiro as mulheres como gênero, mas não faço ideia das dificuldades que elas enfrentam no cotidiano. Ou melhor: faço (alguma) ideia, mas isto é muito diferente de realmente absorver a realidade que vivem.

Nos últimos dias, tenho pensado mais e mais sobre isso. Li (e retuitei) o texto de uma blogueira norte-americana que tentava ponderar com fãs de games que comemoravam o fato de que Lara Croft talvez fosse estuprada em seu próximo jogo – e isto me levou a perceber que normalmente eu não pensaria seriamente sobre o fato de uma personagem fictícia ser violentada; não perceberia as implicações disso. Por outro lado, vejo agora que praticamente qualquer mulher imediatamente questionaria a decisão dos criadores do jogo.

Porque o fato é que, como homem, não sei o que é viver sob a constante lembrança de que um momento de azar ou imprudência ou distração (ou o simples acaso) pode me levar a ser vítima de um crime sexual – uma violência cujas cicatrizes são eternas. Aliás, até há algum tempo, confesso que nem considerava esta ameaça algo tão recorrente na experiência feminina – e creio que esta visão obviamente ingênua se deve ao fato de que sempre aprendi que “não é não”. Aos 16 anos, quando comecei a namorar uma garota um pouco mais velha, lembro-me de estarmos sozinhos em sua casa e, numa sessão de beijos e carícias mais animadas, tê-la sentido afastar minha mão em certo momento – o que levou a um instante quase cômico, minutos depois, quando ela me perguntou se eu não iria tocá-la: “Eu posso? Achei que não queria!”, respondi, confuso. Esta experiência, porém, não mudou minha forma de agir. “Não” permaneceu sendo “não”, mesmo quando parecia ser “sim” – e alguns anos depois, já mais velho, afastei uma outra pequena paixão ao perceber que ela estava alcoolizada ao me abordar. Isto é ser “cavalheiro”? Não, é apenas agir como ser humano.

Lamentavelmente, porém, não é isso que as mulheres encontram rotineiramente – e, como homem, é difícil imaginar o que é ter medo ao sair sozinha tarde da noite; o desconforto de ser abordada por estranhos em festas e baladas; a invasão de ser tocada em ônibus ou metrôs lotados; o desrespeito de ouvir uma cantada grosseira na rua que reduz a vítima a um pedaço de carne ou o insulto de ser assediada no espaço de trabalho. Todas estas situações são corriqueiras na experiência diária feminina, o que se soma também ao fato de serem constantemente julgadas pela aparência. Se belas, suas conquistas são fruto de sua beleza; se não, são vistas como amargas e constantemente têm suas características físicas atiradas em seu rosto (e quantas vezes já não vimos uma mulher combativa ter um “é falta de homem” usado como “contra-argumento”?). É uma situação de vitória impossível – e mesmo quando supostamente conquistam um espaço profissional indiscutível, ainda devem lidar com a realidade de receberem salários inferiores aos de um homem na mesma posição. Isto quando não têm sua independência justificada por algo absurdo, como se fosse impossível ser mulher e forte (não é à toa que alguns críticos – sempre homens, claro – não demoraram a dizer que a protagonista da recente animação Valente era lésbica. Não ocorre a eles a possibilidade de que uma mulher simplesmente não precise de um homem para protegê-la, ajudá-la ou confortá-la o tempo inteiro.)

Como posso, com toda honestidade, saber de tudo isso e ainda me espantar quando uma mulher pensa o pior a respeito de um homem? Espantoso seria que esperassem algo além de misoginia.

Sou um apaixonado pelo sexo feminino – como gênero, como conceito e como exemplo do que temos de melhor como espécie. Mas apenas essa admiração, infelizmente, não me torna um feminista.

Para isso, ainda tenho que crescer.

O que posso prometer é que estou tentando.

A cultura do hype

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 58 comentários

Marshall Fine é um homem jurado de morte. Odiado por centenas de fanáticos fundamentalistas, ele tomou a corajosa decisão de arriscar a própria vida ao cometer um ato de insanidade: criticar publicamente um item aparentemente sagrado para milhares de pessoas. Em instantes, sua cabeça era pedida pelos adoradores ultrajados, que não hesitaram nem mesmo em ameaçá-lo diante de todos com surras que o levariam ao coma e mesmo ao óbito. Pouco depois, o site no qual Fine publicara sua missiva venenosa encontrava-se fora do ar e a revolta provocada por seu texto alcançava proporções absurdas. Teria ele publicado ilustrações de Maomé? Teria chamado Jesus de “bastardo”? Teria comparado o Talmud aos livros de Stephenie Meyer?

Nada disso. Marshall Fine cometeu crime maior: deu uma cotação negativa para O Cavaleiro das Trevas Ressurge no Rotten Tomatoes. Em algumas horas, cerca de 500 comentários haviam sido publicados em resposta – grande parte destes dedicando-se a ofensas pesadas e às já citadas ameaças de morte.

O que há de estranho nisso, além da reação desproporcional à análise de um crítico sobre um filme de super-herói? Simples: o fato de que nenhuma daquelas pessoas  havia assistido ao filme defendido tão energicamente.

Esta é a cultura do hype: não basta ter o desejo de ver um filme; é necessário crucificar qualquer um que não compartilhe de sua opinião pré-formada sobre o longa. Isto não é fanboyzismo, é ser escravo do marketing, um funcionário não remunerado dos estúdios.

E reparem que não estou dizendo ser necessário detestar uma produção para ser atacado pelos fanáticos – e recentemente, ao escrever um texto positivo, mas nada entusiasmado, sobre Os Vingadores, recebi uma enxurrada de tweets, emails e comentários no Facebook sobre minha estupidez, minha ignorância com relação ao universo Marvel e, claro, minha óbvia necessidade de fazer sexo imediatamente. Além disso, muitos daqueles que riam das crepusculetes ao ouvi-las dizer que era necessário ler os livros para compreender os filmes acabaram cometendo o mesmo erro ao me acusarem de não amar o filme por não ter lido os quadrinhos. Houve até quem me acusasse de estar apenas querendo chamar a atenção, como se depois de 18 anos de carreira eu precisasse fabricar uma opinião artificial para ser lido.

Longe de ser um incidente isolado, isto se repetiu semanas depois com O Espetacular Homem-Aranha – com a diferença que, desta vez, os ataques começaram antes mesmo que os fãs tivessem tido a oportunidade de assistir ao filme. Sim, eles discordavam radicalmente de minha posição e dos meus argumentos apenas porque já haviam decidido amar o projeto. Além disso, para provarem minha ignorância e falta de capacidade como crítico, não hesitaram em apontar para o fato de que aprovei a trilogia X-Men original e os dois primeiros Homem-Aranha, claramente obras inferiores.

E que teriam me rendido massacres similares caso tivessem recebido críticas negativas à época de seu lançamento.

Esta é a natureza do hype: a obra em si não interessa, mas sim o contexto de seu lançamento. A lógica perversa e cada vez mais comum chega a impressionar pela previsibilidade: qualquer grande produção – especialmente se for parte de uma franquia ou de um universo já estabelecidos – é naturalmente antecipada com paixão cega por grande parte dos fãs, que já decidiram se tratar da melhor coisa que o Cinema já produziu mesmo antes de assistirem a um único frame da versão finalizada. Assim, quando as críticas começam a surgir, são recebidas com orgasmos múltiplos e júbilo caso sejam positivas e com ódio irracional se apontarem falhas na obra-prima.

Semanas depois, vem a segunda fase: o backlash, uma onda negativa que se opõe aos amantes fanáticos que a antecederam. Os integrantes deste movimento atacam o longa, acusando-o de ser “superestimado” e fazendo pouco de seus admiradores. Assim como estes, porém, os haters se limitam a argumentações vagas sobre a obra em si, optando, em vez disso, pelo ataque aos fãs. Mais algumas semanas e o ciclo se repete até que, na maior parte das vezes, o filme que despertou tantas brigas acaba sendo esquecido por todos. (Mesmo. Desde que O Espetacular Homem-Aranha foi lançado, quantos posts ou tweets ou textos você leu sobre Os Vingadores – que, semanas antes, era onipresente na Internet? E onde estão aqueles que massacraram os críticos quando Transformers 3 foi recebido com desprezo por estes profissionais? Quem mais assiste a Transformers 3 hoje em dia, aliás?)

O lamentável em todo este ciclo é que basta uma análise rápida para perceber que algo fundamental foi deixado de fora: o filme em si. Toda a discussão, afinal, gira em torno não do longa, mas das expectativas em torno deste e da antipatia que um tipo de fã sente pelo outro.

E enquanto todos se agridem, os estúdios correm alegremente rumo ao banco.

Cabe, aqui, lembrar o que Pauline Kael escreveu há tantas décadas: “Nas Artes, a única fonte de informações confiável é o crítico; o resto é Publicidade”. Ela não queria dizer com isso, claro, que você deve encarar a palavra do crítico como Evangelho; apenas que a discussão promovida por este é movida por um interesse genuíno pelo filme em si, não pelo dinheiro que você vai deixar nas bilheterias. E pensar sobre a Arte só é possível se você ignorar o contexto do marketing e concentrar-se na obra.

Se fizermos isso, todos cresceremos como cinéfilos e seres humanos. Já a troca de insultos motivada pelo simples hype nos conduzirá apenas à mais profunda ignorância.

Dito isso, espero gostar do novo Batman. Afinal, quero conhecer meus netos.

Boa Sorte, Boa Noite, Má Dublagem (ou Filme Dublado, Não #06)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Não ao dublado, Sem categoria, Vídeos | 34 comentários

Eu não vou nem comentar a perda significativa do trabalho vocal de David Strathairn, que, captando as inflexões características e o tom imponente e repleto de autoridade de Edward R. Murrow, foi indicado ao Oscar, ao BAFTA, ao Independent Film Awards, ao SAG e venceu o prêmio de atuação em Veneza. Claro que pegar todo o seu trabalho de composição vocal criado ao longo de meses e substituí-lo pela voz de um dublador que teve algumas horas para a tarefa é algo que beira o absurdo, mas… nem é o que há de pior nesta cena específica.

O que quero que reparem é como a versão brasileira ignora completamente a decisão do diretor George Clooney e de seu designer de som ao incluir um eco durante o discurso de Murrow, substituindo o tom intimista de uma cerimônia voltada para a indústria jornalística por uma tentativa de grandiosidade, de salão amplo e espaçoso, que simplesmente não reflete a intenção dos realizadores.

E ainda há quem insista que dublar não é mutilar a obra original.

Totalmente tipo sei lá o quê, entendeu?

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Vídeos | 12 comentários

Vi isso no blog fantástico do querido Jim Emerson e tive que traduzir, já que tem absolutamente tudo a ver com a discussão iniciada no post anterior:

Tradução (texto de Taylor Mali):

Caso não tenha notado,
de alguma forma tornou-se errado
soar como se você soubesse do que está falando?
Ou acreditar fortemente no que está, tipo, dizendo?
Pontos de interrogação invisíveis e parênteses (entendeu?)
vêm se anexando ao final de nossas frases?
Mesmo quando estas sentenças não são, tipo, perguntas?

Frases declarativas – assim chamadas
porque costumavam, tipo, DECLARAR coisas que eram fatos, ok,
ao contrário de outras coisas que, tipo, totalmente, entende, não eram —
foram infectadas por uma entonação interrogativa
totalmente descolada e tragicamente cool?
Como se eu estivesse dizendo:
não me considere um nerd só porque notei isso.
Não tenho nada pessoalmente investido em minhas opiniões.
Só estou, tipo, te convidando a se juntar a mim na minha própria incerteza?

O que aconteceu com nossa convicção?
Onde estão os membros sobre os quais andávamos?
Eles foram, tipo, cortados
com o restante da floresta tropical? Entendeu?
Ou não temos, tipo, nada a dizer?
Será que a sociedade se tornou tão repleta desses
sentimentos de pfnshnha
Que chegamos ao ponto em que somos
a geração mais agressivamente inarticulada
a existir desde…
você sabe, um tempão!

Então te imploro, eu te peço, te desafio
a falar com convicção.

Diga o que acredita de uma forma que evidencie
a determinação com que você naquilo acredita.
Porque ao contrário da sabedoria dos adesivos,
não é suficiente, hoje em dia, apenas QUESTIONAR A AUTORIDADE.
É preciso tê-la ao falar, também.

O crítico, profissional em extinção

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Discussões | 135 comentários

Sou um dinossauro. Ou talvez seja mais correto dizer que pertenço a uma profissão jurássica e que, como tipógrafos, ascensoristas e telegrafistas, estou fadado à extinção.

Não, não creio estar exagerando. Nos últimos dias, dois incidentes particulares me levaram a refletir sobre a natureza do que faço e seu prazo de validade enquanto atividade profissional: o primeiro foi o breve e desconfortável debate entre o colunista David Carr e seu colega de New York Times, o crítico de cinema A.O. Scott; o segundo, o anúncio da demissão (e extinção do cargo) da crítica Stephanie Zacharek, que escrevia para o site Movieline. Curiosamente, conheço os três pessoalmente, tendo conversado brevemente com Carr e mais extensamente com Scott e Zacharek quando participei do seminário de crítica promovido pelo NYT em 2007, mas não creio que o impacto destes acontecimentos tenha a ver com qualquer grau de pessoalidade originado desta coincidência, mas sim com o triste estado da curiosidade intelectual que venho observando nos últimos anos.

Esta não é uma discussão nova, claro. Já em 2001, quando tinha apenas sete anos de profissão, escrevi dois artigos que buscavam esclarecer a função e a formação do crítico cinematográfico de acordo com a visão que tinha (e tenho) sobre meu papel profissional: “Pra que serve o crítico, afinal?” e “Formando um crítico de cinema“. Anos depois, voltei ao tema em posts como “Pra que serve a crítica?” e “Crepúsculo, Pevere, Rosembaum, Kael, Rossmeier, Atkinson” – e, sinceramente, hoje percebo a futilidade do esforço. Quem compreende o papel da crítica não precisa de maiores esclarecimentos; aqueles que a encaram como “questão de opinião” já interromperam a leitura no segundo parágrafo.

Considerem este post, portanto, como uma reflexão interna publicada como forma de terapia, como uma forma de negociar internamente meu valor e meu destino, representando, assim, o terceiro passo rumo à aceitação de meu fim profissional, tendo já passado pela negação e pela raiva (e mal posso esperar para chegar à “depressão”).

De imediato, o óbvio: não existo como árbitro do que é “bom” ou “ruim”. Nunca acreditei no papel do crítico como guia de consumo, como alguém que existe para dizer o que o leitor deve consumir culturalmente ou não. Escrevi várias vezes (e insisto no ponto) que, num mundo ideal, todos deveriam ver todos os filmes – incluindo aqueles que desprezo, já que, no mínimo, a bagagem adquirida passaria a funcionar como base de comparações futuras (além de sempre podermos aprender através de contra-exemplos). Assim, quando leio comentários em meu videocast sobre Prometheus que “alertam” os demais leitores para que não deixem de ver o filme “por causa deste imbecil”, sinto vontade de perguntar em que momento, em minha fala, sugeri que o filme fosse boicotado. Nunca sugeri boicote e jamais o faria – e apontar o crítico como alguém que se julga no direito de ditar o gosto alheio é uma das grandes falácias daqueles que detestam nossa profissão.

Mas o contrário também é verdadeiro: vira e mexe, alguém me envia um email ou tweet com o claro propósito de me elogiar e dizendo que sou seu “crítico favorito, já que sempre concordamos”. Sinto dizer (e aprecio a gentileza do gesto), mas isto não é um elogio. O que a afirmação implica é que meu valor está associado à minha capacidade de prever a reação do leitor e de passar a mão sobre sua cabeça, aprovando seus gostos. Aliás, acredito exatamente no oposto: o bom crítico é aquele que desafia seus leitores. Não como alguém “do contra”, mas como um profissional que estudou a Arte, viu mais filmes e, portanto, pode apontar elementos que passaram despercebidos ao espectador.

E a palavra-chave, na frase anterior, é “estudou”.

É extremamente comum ouvir, como resposta a uma crítica, que esta representa “apenas uma opinião”, sugerindo, com isso, que todas as “opiniões têm mesmo valor”. Este, claro, é o reduto do medíocre: em vez de apresentar argumentos que embasem suas posições, julga mais simples e confortável apenas afirmar que sua posição é tão válida quanto a de qualquer um apenas porque… ora, porque ele a sentiu ou intuiu. Há, ainda, quem apele para o lugar-comum do “é uma questão de gosto”, o que, em seu centro, é apenas uma variação menos elaborada (se é que isto é possível) do “toda opinião é igualmente válida”.

O que estas pessoas não percebem é que estão falando de algo diferente: da reação a uma obra de arte. Um filme pode provocar o choro em um e o riso em outro – e o crítico que tentar desmerecer a reação do espectador em vez de buscar analisar como a obra a provocou estará cometendo um erro básico (e é por esta razão que não acredito que o bom crítico se deixa influenciar pela reação da plateia ao seu lado; seu foco deve estar naquilo que se encontra na tela, não no público que a contempla). Assim, quando alguém que despreza a crítica acusa a profissão de “ser do contra”, de “sempre diferir do gosto popular”, está reagindo não contra a argumentação do texto, mas à ideia (que não vem do crítico, mas dele mesmo, espectador inseguro) de que ele seria estúpido por ter tido reação diferente. Quanto a esta questão, meu amigo (e crítico fabuloso) Jim Emerson escreveu:

“A Crítica é mais do que a afirmação de um gosto pessoal. (…) Filmes são experiências emocionais (entre outras coisas) e as pessoas respondem a eles emocionalmente. Espera-se dos críticos, porém, que mergulhem mais fundo, que analisem, expliquem e interpretem.”

Ao contrário do que muitos parecem pensar (“esse cara adora falar mal de tudo!”), não encaro a crítica como um exercício de masoquismo, como a oportunidade de me torturar ao ver e escrever sobre filmes que sei que detestarei. Antes de ser crítico, sou um profundo apaixonado pelo Cinema (todo bom crítico o é) – e quando entro numa sala de projeção, preparo-me para ser encantado pela obra que verei. Se posteriormente publico uma crítica negativa, não o faço por prazer, mas por obrigação profissional de articular racionalmente algo que me desagradou ou desapontou – e o inverso é igualmente verdadeiro: a crítica positiva é a manifestação racional do amor experimentado diante da Arte.

E desta vez a palavra-chave é “racional”. Sim, claro que “sinto” ao ver um filme. Choro feito um bebê com frequência no cinema (para imenso constrangimento de meu filho), rio alto de boas tiradas e me contorço na poltrona diante de uma cena tensa. No entanto, se ao escrever sobre o que vi acabar me limitando a descrever o que senti (“Chorei muito!”, “É emocionante!”, “Que filme divertido!”, “Dá muito medo!”), terei escrito um texto que valerá para uma única pessoa: eu mesmo. Descrever sentimentos é a opção populista do crítico sem embasamento teórico; o bom profissional irá além: explicitará como os realizadores dispararam aquelas emoções em seu público ou por que falharam ao tentar fazê-lo.

Daí a importância do estudo e da bagagem. Ninguém daria ouvidos a um especialista em economia que jamais houvesse estudado o assunto ou a um correspondente de guerra que jamais houvesse saído do estúdio. Da mesma forma, o que diferencia o crítico do espectador “médio” (um termo que uso não de forma pejorativa, como muitos parecem querer acreditar, mas como descrição objetiva de alguém que encara o cinema como passatempo descartável e não tem interesse em enriquecer sua experiência como cinéfilo) é o conhecimento sobre teoria, linguagem e história cinematográficas.

E só isto já desqualifica a posição de que “toda opinião é igual”, já que o que realmente importa são os argumentos que embasam cada opinião. Dizer que a fotografia de um filme “é boa” ou que este é “bem montado” nada significa; é uma afirmação vazia que não diz nada – e é por isso que o bom crítico empregará exemplos retirados do próprio longa para justificar suas posições, frequentemente usando as observações disparadas pelo lançamento da semana para discutir elementos que dizem respeito ao Cinema de modo geral.

(Aliás, se comentei antes que dizer que sou um bom crítico “porque sempre concordo com sua opinião” é um elogio vazio, devo reconhecer que sempre fico lisonjeado quando vejo alguém tuitar ou “facebookar” que irá ler algumas de minhas críticas antigas apenas pelo prazer de visitá-las. “Confesso que não tenho curiosidade de ver todo filme que entra em cartaz, mas adoro ler todas as críticas que você publica, mesmo sem ter visto o longa em questão”, escreveu um leitor outro dia, naquele que provavelmente é o maior elogio que já recebi justamente por apontar que o texto tem valor como análise cinematográfica em si, não como guia prático de consumo.)

Porém, em vez de aproveitarem o conhecimento do crítico para talvez aprenderem um pouco mais sobre a Arte, há muitos que preferem apenas vê-lo como alguém “arrogante”, como um “pseudo-intelectual” (a “ofensa” que é marca registrada daquele inseguro quanto ao próprio intelecto ou à própria cultura); é mais fácil acreditar, por exemplo, que fingi ter apreciado A Árvore da Vida do que reconhecer o próprio comodismo ao sequer tentar entender o filme de Malick. Quanto à “arrogância”, retorno a palavra a Jim Emerson:

“(É necessária) uma certa forma de arrogância para se fazer um filme, para se apresentar em público ou diante da câmera e para escrever uma crítica. (…) Dizer que alguém do showbiz (e isto inclui as pessoas que escrevem sobre ele) está exibindo ‘arrogância’ é como dizer que um bombeiro está exibindo ‘coragem’ ao entrar em um prédio em chamas. Você não poderia desempenhar seu trabalho sem ela. Mas não basta a arrogância. Preparo e experiência também são necessários.”

E é exatamente por isso que jamais me defendi da acusação de “arrogância”: desacompanhada de estudo, é reprovável; embasada por argumentos, é o que me permite ter a “audácia” de publicar o que escrevo para consumo alheio.

Nada disso interessará por muito mais tempo, porém. A ideia de que “na internet, todo mundo é crítico” é o que parece dominar – mesmo que, como discuti acima, o estudo, a bagagem e a experiência sejam fundamentais ao definir o autêntico “crítico”. Infelizmente, como escrevi no twitter, hoje o que importa é o hype, não o pensamento crítico.

A crítica cinematográfica desaparecerá ao lado dos filmes legendados. Morreremos afogados nos braços um do outro, como expressões ultrapassadas do amor e do respeito incondicionais pela Sétima Arte.

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P.S.: Se você leu este post na íntegra, não precisava ser convencido(a) do valor da crítica; está habituado(a) a ler e aprecia a discussão racional – e mesmo que tenha discordado de tudo que escrevi, certamente terá capacidade de articular esta discordância. O problema reside naqueles que pararam no título ou no segundo parágrafo, deram um “page down” para ver o tamanho do texto, ficaram com preguiça e abandonaram a página. E como estes representam a maioria, a crítica permanecerá condenada por mais que a defendamos. 

P.P.S.: Se você leu este “P.S.” ao finalizar o rápido “page down”, vestiu a carapuça e decidiu comentar negativamente apenas para fingir que leu tudo, a fragilidade dos seus argumentos te denunciará. Nem tente.

A aberração e o assaltante

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões | 130 comentários

Há alguns minutos, depois de ler um tweet revoltado da querida Maria Fro, descobri o vídeo abaixo no blog do colunista Renato Rovai e me vi experimentando um intenso sentimento que combinava uma pena profunda e um ódio colossal: pena de um assaltante, vejam só, e ódio por uma jornalista.

Não é a primeira vez que o infortúnio e a dor de miseráveis se transformam em matérias policialescas que tentam ganhar o riso sádico do espectador através da humilhação alheia: programas sensacionalistas, infelizmente, existem aos montes na tevê brasileira – geralmente em canais abertos e exibidos no período da tarde, quando têm acesso às mentes influenciáveis de crianças que, assim, gradualmente se convertem em robôs prontos para enxergar o próximo de maneira absolutamente desumanizada. Que estes programas persistam e se proliferem em emissoras que se beneficiam de concessões públicas já é espanto suficiente; saber que rendem audiências colossais é motivo apenas para a depressão.

Até hoje, porém, confesso que agia de forma covarde: evitando assistir a qualquer clipe originado por estes programas, eu me protegia do choque e da revolta. O que os olhos não vêem não machuca a alma. No entanto, movido pelos tweets de Maria Fro, cedi ao impulso de clicar no vídeo.

E testemunhei uma fratura exposta na humanidade.

Somos um país de desiguais. Filhos de bilionários atropelam e matam ciclistas e são defendidos por apresentadores de tevê playboys num corporativismo de afortunados. Um jovem negro rouba o colar de uma garota, é acusado de estupro, apanha da polícia e tem o rosto ferido exposto em rede nacional para o consumo macabro de uma audiência ávida por desgraças. Como se não bastasse, uma repórter bela, saudável e exalando sentimento de superioridade diante do animal à sua frente não hesita em acusá-lo do crime que ele nega enquanto, rindo divertida da ignorância daquele que não teve suas oportunidades de estudo, faz escárnio de suas tentativas desesperadas de se defender. Fria e impassível diante das lágrimas do ser humano que ali sofre, ela o obriga a repetir palavras que ele jamais pôde aprender – e quando ele se dirige à família através da câmera, implorando por ajuda e compreensão, o editor do programa, certamente rindo da própria ideia, inclui um efeito sonoro de choro de criança ao fundo enquanto estampa a legenda “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”.

“Acusado de estupro alega inocência”.

Depois de ter sua voz registrada em centenas de horas de gravações que comprovam seus crimes, Carlos Cachoeira é tratado pela mídia nacional como “suposto contraventor”. Sua voz “supostamente o implicaria”, com o verbo no futuro do pretérito. Já o miserável no tabloide audiovisual “alega inocência”. A situação inverte-se; já condenado pela repórter, que o insulta com berros de “Estuprador! Estuprador!”, cabe a ele provar a própria inocência, não ao sistema comprovar sua culpa.

É uma lógica de Kafka exclusiva para pobres e pretos. Sim, “pretos”; chamá-lo de “negro” seria conferir a ele um respeito que o mundo não lhe reserva.

Chorei ao ver as lágrimas desesperadas do assaltante confesso Paulo; envergonhei-me de dividir o genoma da jornalista Mirella Cunha. Certa de fazer um bom trabalho ao pisotear a honra de alguém que ela obviamente julga não merecer o oxigênio que respira, ela parece orgulhosa de exibir sua beleza externa para o público doente que assiste ao seu espetáculo deprimente. O que não sabe é que a feiura de seu caráter a torna infinitamente mais repulsiva que o rapaz machucado e de dentes podres e tortos que ataca com seu microfone e seu status social.

Plagiadores: sub-raça.

postado em by Pablo Villaça em Discussões | 24 comentários

Não entendo e nunca entenderei o que leva uma pessoa a copiar textos de outra. Mas sei que, como vítima constante de plágio, este é um dos crimes que mais revoltam aqueles que vivem da escrita. Pois neste domingo um ex-aluno chamou minha atenção para um caso alarmante que, por sua vez, inspirou minha preocupação em função da falta de reação por parte de jovens blogueiros que deveriam se revoltar contra as atitudes reprováveis de um colega.

O que mais me chateou, porém, foi descobrir que há alguns meses eu indiquei o site do tal plagiador para meus leitores no Twitter, já que ele estava promovendo uma competição na qual um grupo de ex-alunos competia – e ao tentar ajudá-los, divulguei um site que não merecia anúncio. Além disso, ao ficar a par do caso reconheci o avatar do criminoso (porque plágio é crime) e constatei, desapontado, que já troquei mensagens amigáveis com o sujeito, já o retuitei e o via com simpatia. Triste.

Agora a cereja do bolo: depois de ser denunciado por meu ex-aluno (cujo blog, Cinema Sem Erros, pode ser lido aqui), o plagiador… ameaçou processá-lo por insistir em “comentários negativos ao seu respeito“. Repetindo: o indivíduo rouba o texto alheio, é exposto e ameaça processar quem denunciou seu crime.

Pois bem: como não tolero plagiadores, pedi ao Eduardo Monteiro e ao João Marcos Flores, ambos ex-alunos que denunciaram os plágios, para me enviarem provas de que os textos foram copiados – e eles me encaminharam uma penca de links pesquisados pelo Copyscape (site que também utilizo para descobrir reproduções não autorizadas de meus textos). Através dos links, descobri que vários outros ex-alunos (como Rodrigo Cunha e Silvio Pilau) foram vítimas do plagiador, o que me irritou ainda mais – se já não tolero esta raça, fico ainda mais revoltado quando as vítimas são alunos (e digo sempre: para meus ex-alunos, tudo).

Alguns dos links que comprovam os plágios podem ser acessados aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. (Quero ver o senhor tentar me ameaçar de processo, senhor Kadu Silva. Será interessante, posto que as provas de seus plágios são inúmeras.)

Para encerrar, linko para um post escrito pelo Eduardo no qual ele expõe outro detalhe deprimente: depois de denunciar o plagiador em um grupo de blogueiros no Facebook, boa parte de seus companheiros fez vista grossa para os crimes – e alguns deles chegaram a chamá-lo de “chato” por apontar o que estava ocorrendo. Ora, quando os próprios blogueiros parecem não se importar com o respeito à sua autoralidade… é porque a coisa vai mal.

O trabalho vocal de Julianne Moore (ou Filme Dublado, Não! #05)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Não ao dublado, Vídeos | 39 comentários

Em meu post sobre os malefícios da dublagem, comento, em certo momento, que  “atuar é criar um personagem. Isto envolve um profundo trabalho de composição e estudo envolvendo meses de pesquisas, ensaios, laboratórios e tentativas para que o intérprete descubra não só a psicologia de seu personagem, mas também a maneira com que este se move, gesticula e… fala. (…) Aceitar a dublagem é aceitar pegar todo o trabalho de composição de um ator, selecionar uma parte fundamental deste e atirá-la fora, substituindo-a por um elemento criado sem estudo, sem cuidado e com pressa”.

Lembrei-me disso ao ler uma entrevista concedida por Julianne Moore na época do lançamento de Mal do Século (Safe), de Todd Haynes, e durante a qual ela diz sobre sua personagem:

“Minha primeira chave para chegar até ela foi sua voz, seus padrões vocais. Comecei com uma cadência de fala típica do sul da Califórnia. É quase um ritmo cantado, sabe – as pessoas se referem a este sotaque como “a qualidade do Valley” que migrou pelo país e se tornou um padrão vocal universal dos Estados Unidos. Foi importante para mim que sua voz tivesse este tipo de melodia. E então eu encerrava cada sentença com um ponto de interrogação, o tempo inteiro. Assim, ela parecia incapaz de fazer uma declaração afirmativa, o que a tornava insegura e sem definição. Também fui além de minhas cordas vocais, porque queria a sensação de que sua voz não estivesse conectada ao seu corpo – por isso sua voz tem um timbre tão alto. (Minha personagem) é uma pessoa completamente desconectada de qualquer tipo de fisicalidade, de qualquer sentimento de ser ela mesma, de realmente se conhecer. Neste sentido, creio que as escolhas vocais que fiz serviram como metáfora”.

Dito isso, leiam o que um dublador brasileiro PROFISSIONAL tem a dizer sobre o assunto no vídeo abaixo (a partir de 2:41).

Transcrevo o trecho relevante:

Entrevistador: Quanto tempo o dublador tem para se preparar para dublar aquele trabalho que o (ator original) levou meses (para desenvolver)?

Dublador: Horas. (risos)

Entrevistador: E consegue fazer bem?

Dublador: Consegue fazer o melhor possível. (mais risos)

Desculpem-me, mas não creio que isto seja assunto para risos. Cinema é meu grande amor; a integridade da obra original é algo caro para mim e para qualquer um que realmente ama Cinema. Não há nada de engraçado em dizer que o trabalho de meses de um ator é substituído por outro feito em horas e sem qualquer estudo cuidadoso. E desculpem-me, mas… “o melhor possível” não é o bastante. Mais: é um insulto a quem paga o ingresso e recebe, de acordo com os próprios dubladores, uma versão que, comparada à original, é apenas “o melhor possível” que conseguem fazer em algumas horas.

Aliás, vejam a matéria linkada acima na íntegra e se surpreendam com o cinismo de Ricardo Szperling, diretor de programação da rede Cinemark, que chega a usar o inacreditável argumento em defesa da dublagem que transcrevo a seguir: “A qualidade de imagem (do Cinema) melhorou também. Você tem telas maiores, você tem produções melhores e com efeitos especiais… então… se você não tem rejeição a assistir a uma cópia dublada, você aproveita mais o filme”. Em outras palavras: o diretor de programação da Cinemark, além de não entender absolutamente nada de Cinema (“você tem produções melhores e com efeitos especiais”. Hum-hum), trata seus clientes como verdadeiros imbecis ao usar o débil sofisma de que se não tivermos problemas com a dublagem, aproveitaremos “mais” os filmes.

Inacreditável.

Eu Receberia os Piores Subornos de Seus Lindos Divulgadores?

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Discussões | 19 comentários

E eis que recebo email de um cara que trabalha com a divulgação do Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. O que ele quer? Que eu escreva um post sobre o filme incluindo as informações do release e convidando meus leitores a seguirem o longa nas redes sociais. Em troca, ele generosamente me oferece dois kits do filme: um para mim e outro para ser sorteado no meu “blog”, seguindo “meus critérios”.

Respondi a ele que o Cinema em Cena é um dos sites de cinema mais visitados do pais, que tenho 18 anos de carreira e a “proposta” é ofensiva.

Agora o mais irônico: eu gosto MUITO do filme, mas agora fiquei meio antipatizado com o projeto. Sei que a culpa não é do Beto Brant, mas os caras que contrataram uma empresa tão amadora para divulgar o filme merecem demissão. E o mais triste: tenho CERTEZA de muitos blogs e sites aceitarão a oferta do cara. Patético.

“Nas Artes, a única fonte confiável de informações é o crítico. O resto é publicidade” – Pauline Kael. E levo isso MUITO a sério. Uma coisa prometo a quem me lê: você pode não concordar em NADA com o que escrevo, mas tenha certeza de que é MINHA opinião, não algo comprado.

P.S.: Não, não foi a primeira (nem a segunda ou terceira) vez que isso aconteceu. Um incidente anterior foi descrito aqui.

Desabafo de um secularista preocupado

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 82 comentários

Marcelo Crivella é o novo ministro de Dilma – e, com isso, a bancada evangélica ganha oficialmente um cargo importante no governo (ênfase no “oficialmente”). Não sei nem como expressar meu profundo desapontamento com a presidenta – e vocês sabem que poucos fizeram tanta campanha por ela como eu. Assim, me espanta que dilmistas fundamentalistas tentem justificar a nomeação de Crivella dizendo que “o Ministério da Pesca é irrelevante” ou que “Crivella não é Malafaia”. Ora, como bem apontou um leitor no Twitter, Crivella pode não ser espalhafatoso como seu colega “pastor”, mas foi igualmente instrumental na derrota da PLC 122, que buscava barrar a homofobia.

O fato é que a presença de Crivella fortalece os teocratas – e esta é uma ameaça real e crescente. A bancada evangélica vem comendo o poder pelas beiradas e muitos parecem não perceber a estratégia. Há dez anos, se alguém tentasse apresentar uma lei que tornasse a oração compulsória em escolas públicas, seria rechaçado ou encarado como louco. Hoje, em Ilhéus, isto já é realidade. Logo a obrigação se espalhará para outras cidades e, antes que percebamos, será federalizada. É assim que eles agem; apresentam hoje uma lei que é encarada como absurda (permitir que crianças sejam educadas em casa – o que impedirá que aprendam sobre Evolução e outros conceitos rechaçados pelos evangélicos -; legalizar a “cura” da homossexualidade) sabendo que enfrentarão protestos – mas cientes de que, ao voltarem a apresentá-las com pequenas modificações em algum tempo, serão recebidos com menores objeções. Com isso, aos poucos vão transformando seus dogmas e preconceitos em legislação. 

E é assim que nasce uma teocracia.

Mas a estratégia da bancada evangélica é ainda mais covarde: quando diante de protestos mais contundentes, imediatamente invoca a “liberdade religiosa” para defender suas posturas de intolerância e rematada ignorância, buscando atirar sobre seus oponentes um rótulo que descreve perfeitamente aquilo que eles mesmos fazem o tempo inteiro: o de preconceituosos e intolerantes. 

O perigo é crescente: os evangélicos são organizados politica e financeiramente (com direito a isenção de impostos), sendo beneficiados também por poderem contar com um pensamento de manada que move suas bases: os fiéis/eleitores. Acostumados a aceitar a palavra dos “pastores” (sempre entre aspas, por favor) como verdade absoluta e a Bíblia como manual de instruções da vida, estes seguidores representam um contingente eleitoral quase imbatível – e enquanto os secularistas (ou simplesmente aqueles que, mesmo religiosos, acreditam na separação entre Igreja e Estado) não se organizarem e perceberem que estamos travando uma batalha por nossa liberdade, estes religiosos continuarão a ganhar mais e mais poder político.

Se nao fizermos nada, em 10 anos viveremos num país em que a oração é obrigatória em todas as escolas, gays são internados pra tratamento “corretivo”, o criacionismo é ensinado nas escolas, filmes e séries com “mensagens satânicas” são banidos, as pesquisas cientificas são limitadas por dogmas religiosos e assim por diante. Acham exagero? Leiam os jornais e acompanhem a atuação da bancada evangélica e dos “pastores”. Tudo que descrevi é defendido por eles.

Quanto à tal “liberdade religiosa”, não se iludam: assim que os parlamentares evangélicos se fortalecerem o suficiente, descobriremos que “liberdade religiosa” significa abaixar a cabeça pra eles – e isto incluirá membros de inúmeras outras denominações religiosas, de católicos a espíritas. A imagem do “pastor” chutando a estátua de uma santa não deve ser esquecida; os “pastores” evangélicos tratam os demais credos como aberrações. E sei que logo surgirão fiéis dizendo que não são assim, que estou me referindo a exceções em sua religião, mas o fato é que estas “exceções” são justamente os líderes de suas organizações – e não é possível dizer que um grupo é inocente quando praticamente todos os seus cabeças têm sangue nas mãos.

Acreditem: lamento muito não conseguir ficar calado diante desta ameaça real. Profissionalmente, seria muito mais inteligente me abster. Perco leitores ao me manifestar – não só evangelicos não fanáticos, mas outros que queriam apenas ler sobre cinema. Sei disso. E repito: sinto por isso. Mas antes de tudo, sou cidadão. E antes de ser cidadão, sou pai. E não quero ver meus filhos crescendo numa teocracia.

Caminhamos pra isso.