Discussões

George Clooney sobre o casamento homossexual

postado em by Pablo Villaça em Discussões | 20 comentários

“Todas as vezes em que ficamos contra a igualdade (de direitos), estivemos do lado errado da História. É o mesmo tipo de argumento que eles usaram quando não queriam negros no exército ou o casamento entre negros e brancos. Um dia, a luta pelo casamento homossexual soará tão arcaica quanto George Wallace parado à frente da Universidade do Alabama e tentando impedir James Hood de frequentar as aulas porque era negro. As pessoas ficarão embaraçadas de terem ficado do lado errado. Então é encorajador saber que esta será uma briga que soará tola para nossa próxima geração. Até mesmo vários jovens conservadores hoje em dia não encaram a igualdade no casamento como um problema. O governo sempre leva uma geração extra para alcançar a sociedade”.

“Não se trata de destacar um grupo em particular e lhe conceder direitos especiais; trata-se de dar a todos os mesmos direitos.”

Boatos de que você é gay te seguem há anos.

Acho divertido, mas a última coisa que me verá fazendo será protestar dizendo “Isto é mentira!”. Isto seria injusto e cruel para com meus bons amigos da comunidade gay. Não vou permitir que alguém faça parecer que ser gay é algo ruim. Minha vida privada é privada e sou feliz nela. Quem sairá ferido se alguém pensa que sou gay? Estarei morto há muito tempo e ainda haverá pessoas dizendo que eu era gay. Não me importo.”

George Clooney, em entrevista excelente para o The Advocate.

Conversão para 3D: a nova colorização

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Curso, Discussões | 21 comentários

Não, não assisti a Star Wars: A Ameaça Fantasma em 3D e não pretendo fazê-lo. Em primeiro lugar, já não gosto tanto assim do filme para justificar uma revisita; em segundo, não vejo sentido em voltar ao cinema para assistir a uma versão inferior à original em técnica e linguagem.

Sim, “inferior”. Assim como as versões colorizadas de obras em preto-e-branco representavam um atentado artístico ao alterarem a fotografia cuidadosamente planejada dos originais, a conversão de longas tradicionais para o 3D é uma estupidez do ponto de vista artístico, fazendo sentido em apenas um aspecto: o financeiro. E este, claro, interessa exclusivamente aos estúdios. O fato é que o Cinema, ao longo de mais de cem anos, encontrou maneiras próprias de levar o espectador a perceber a profundidade de seus universos mesmo estando preso à bidimensionalidade: não apenas empregou o conceito de “perspectiva” desenvolvido pelos artistas plásticos da Renascença como ainda desenvolveu formas de empregar a profundidade de campo para evocar a distância entre os elementos em cena – e discuto isso amplamente em meu curso. Assim, quando um filme concebido em 2D é convertido para 3D, todas estas decisões artísticas e técnicas tomadas durante sua realização se convertem instantaneamente de algo orgânico e funcional para um obstáculo a ser contornado. É como se os cineastas estivessem lutando contra si mesmos e contra o próprio filme enquanto tentam enfiar na obra pronta um recurso que simplesmente não tem espaço ali.

Assim, é espantosa, a hipocrisia de James Cameron: depois de atacar vários cineastas por converterem seus filmes para 3D, dizendo que estavam matando a tecnologia em seu berço, o cineasta não hesitou em converter seu próprio Titanic, como se subitamente suas críticas (relevantes, vale apontar) não se aplicassem às suas próprias ações.

Mas aqui prefiro abrir espaço para meu amigo e mentor Roger Ebert, que, num post recente sobre o relançamento de Titanic, concluiu o texto com as seguintes observações:

“E agora à falha final: o processo 3D, claro. Cameron foi elogiado justamente por ser um dos poucos diretores a empregar o 3D de maneira eficiente em Avatar, mas Titanic não foi rodado para o 3D – e assim como você não consegue maquiar um porco, não pode transformar 2D em 3D. O que você pode fazer – e ele tenta fazer isso bem – é encontrar certas cenas que possa apresentar como tendo pontos de foco em primeiro, segundo e terceiro planos. Mas e daí? Você sentiu falta de alguma dimensão quando assistiu a Titanic pela primeira vez? Não importa quanto tempo ou dinheiro Cameron gastou na conversão, o fato é que esta é um 2D readaptado. Caso encerrado.

Ou não exatamente. Há mais do que isso. O 3D causa uma perda considerável no brilho da tela – alguns dizem que esta perda chega a 20%. Se você visse um filme comum obscurecido desta maneira, reclamaria com o gerente do cinema. E aqui você supostamente deve se sentir agradecido por ter a oportunidade de pagar mais por algo danificado. Se estiver atento, aliás, perceberá que muitos planos e sequências nesta versão não estão sequer em 3D, permanecendo em 2D. Se tirar os óculos, as imagens saltarão da tela com uma melhora dramática de luz. 

Eu sei por que este filme está em 3D: é para justificar o ingresso mais caro. Péssima maneira de se tratar uma obra-prima”.

Democracia é mais do que uma simples questão de gosto

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 28 comentários

Não gosto de Rafinha Bastos. Não como pessoa, pois não o conheço (embora, pelo estilo de suas piadas, tampouco queira conhecer), mas como humorista. Considero-o dono de um humor óbvio, juvenil (no pior sentido) e que aposta no simples choque para provocar o riso – e escrevi sobre isso há algum tempo neste post. Assim, vê-lo sem espaço na televisão, confesso, me agradou. Não por um sentimento cínico de “revanche”, mas porque é sempre bom ver alguém medíocre perdendo espaço na mídia (e agora resta apenas torcer pelo fim do Zorra Total, do BBB, do… desisto.)

Hoje, porém, li a notícia de que o novo DVD do comediante havia sido “proibido pela Justiça de São Paulo”. O motivo: piadas (ou, conhecendo Bastos, “piadas”) feitas sobre deficientes físicos e mentais.

Em primeiro lugar, não é surpresa que estes sejam os alvos do “humorista”: Rafinha Bastos notoriamente prefere ridicularizar alvos fáceis. Como se não bastasse, suas tiradas frequentemente confundem ofensa e humor, já que ele parece acreditar que ser “politicamente incorreto” é o bastante para ser relevante e inteligente. Não é; o que importa é como você expressa esta natureza “politicamente incorreta”. 

Mas o objetivo aqui não é analisar as razões por trás da mediocridade de Bastos, mas a proibição da venda de seus DVDs. Pois, gostando ou não do comediante (não), simplesmente não posso aprovar uma medida dessas. Ninguém deveria.

Iniciada pelo secretário municipal Marco Belizário, responsável por uma pasta que pretende defender os interesses dos deficientes, a ação confunde responsabilidade legal e censura. Na primeira, qualquer um deve ser responsabilizado pelas besteiras que diz ou faz, sendo passível de consequências legais; na segunda, um grupo reduzido de pessoas define o que é aceitável ou não para toda a sociedade e interfere com a postura arrogante de impedir que julguemos por nós mesmos.

De acordo com Belizário, “humor tem que ter limite; não pode ser uma coisa nojenta”.

Ok, duas considerações, cara-pálida:

1) Quem define estes limites? Quais são os critérios objetivos para traçá-los? Porque o humor frequentemente tende a ser julgado segundo o gosto pessoal – e o que é inaceitável ou “sem graça” para um, não é para outro. Sim, há declarações (ou piadas) que se encaixam na definição de difamação e/ou injúria, mas a lei já cobre estes casos, prevendo punições. Como, então, defender que alguém avalie previamente algum material, julgando se ele deve ou não ser exposto para o público em geral? Aliás, sabe a frase anterior, sr. Belizário? Pois é, ela poderia ser a definição de “censura”.

2) É claro que o humor pode ser “uma coisa nojenta”. Não vou nem entrar na discussão sobre o que é “nojento” ou não, já que (novamente) isto seria algo absolutamente subjetivo, mas mesmo algo reconhecidamente nojento pode, claro, representar um válido esforço humorístico. Há quem consideraria o nascimento de Macunaíma uma cena “nojenta”, mas poucos negariam se tratar de algo genial – e se definirmos que o humor “nojento” merece ser proibido, não demorará muito até que Quem Vai Ficar com Mary? seja retirado das lojas em todo o Brasil, já que ver Cameron Diaz usando um gel de esperma não é visão das mais agradáveis (embora, novamente, seja algo hilário).

A decisão da justiça de São Paulo (“justiça” com minúsculas) casa-se com aquela do Rio sobre Um Filme Sérvio: juntas, formam não só precedentes perigosíssimos, mas – o pior – começam a estabelecer um padrão. E isto, sinceramente, me apavora: estamos em 2012 e dois produtos culturais (ambos de qualidade no mínimo questionável, mas isto não importa) foram proibidos por uns poucos de chegarem ao alcance de muitos a partir da alegação de que são “ofensivos”. 

Mas a Justiça (agora, sim, com maiúsculas) não serve para isso? Para punir excessos? Rafinha Bastos não foi processado por Wanessa Camargo por ofendê-la em rede nacional e perdeu? Maravilha: justiça feita. Falou uma imbecilidade e foi punido por isto. Ninguém o censurou; ninguém exigiu que a piada fosse retirada de onde quer que seja – e se Bastos foi demitido da Band, isto é simplesmente a atitude de uma empresa procurando defender os próprios interesses. 

O que ocorreu agora, porém, é completamente diferente: se você quiser ouvir as piadas de Bastos, não conseguirá (ao menos, não legalmente). Vivemos numa sociedade democrática que, depois do período sombrio da Ditadura, aprendeu a defender a liberdade de expressão – e não há “limites” para a “liberdade de expressão”, sr. Belizário, pois isto seria um paradoxo legal. O que há, repito, é a possibilidade de punir excessos, o que é completamente diferente de impedir a expressão.

Não, Rafinha Bastos não torna fácil a tarefa de defendê-lo. É arrogante, tolo e reage como um adolescente ao comentar o caso – e tampouco foi fácil defender o péssimo Um Filme Sérvio, mas não acredito que meu dever, como cidadão, seja defender apenas aquilo que aprovo e condenar o que desprezo. Ser cidadão é abraçar uma sociedade livre na qual meus fihos possam crescer certos de que têm responsabilidade sobre o que dizem, mas também liberdade para se manifestar. E me choca terrivelmente ver colunistas e blogueiros liberais, sempre dispostos a defender boas causas, celebrando a censura a Rafinha Bastos apenas porque o sujeito é um babaca. 

Não se iludam: o que aconteceu hoje, meus amigos, não é motivo de riso para absolutamente ninguém.

Dublagem de um Escândalo ou um Escândalo de Dublagem (Filme Dublado, Não! #04)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Não ao dublado, Vídeos | 35 comentários

Update: Meu amigo João Papa, diretor talentoso e, como tal, opositor da dublagem, resolveu editar os sons originais e dublados de Núpcias de Escândalo em uma mesma cena a fim de permitir uma comparação mais clara não só da destruição provocada pelos dubladores, mas também pela mixagem. Aviso: se você tem menos de 88 anos, as imagens (ou melhor: os sons) abaixo poderão chocá-lo(a).

Cary Grant, Katharine Hepburn e James Stewart – não apenas três das vozes mais facilmente reconhecíveis da clássica Hollywood, mas também caracterizadas por cadências e timbres inesquecíveis. Não encontrei a versão com som original da cena que aqui posto dublada. Agora comparem a cena com som original (e obrigado ao leitor Valdemar Eidam por subi-la para o YouTube) com a versão dublada exibida na TCM e presente no DVD do filme. Mesma coisa. Mixagem impecável e Hepburn/Grant/Stewart quem? Pffff.

Coringa sem força (Filme Dublado, Não! #03)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Não ao dublado, Vídeos | 31 comentários

Sugestão do leitor Fernando Sette:



Captain Birth (Filme Dublado, Não! #02)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Não ao dublado, Vídeos | 28 comentários

Indicação de @cinemaedebate, o vídeo abaixo comprova que a dublagem realmente não faz diferença.

Update: E para quem costuma afirmar que nossa dublagem é uma das “melhores do mundo”, é interessante notar que nossos dubladores podem até ser bons, mas os técnicos de som de nossos estúdios de dublagem têm muito o que aprender, já que, embora existam e possam ser observados no vídeo abaixo (já que são inevitáveis), os problemas de mixagem na versão dublada de Tropa de Elite nem chegam perto daqueles vistos nas dublagens brasileiras, que massacram o equilíbrio cuidadoso entre as várias faixas de áudio.

O Poderoso Mun-ha, o de vida eterna (Filme Dublado, Não!)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Não ao dublado | 20 comentários

É, de fato a dublagem não afeta em nada o filme. Não mutila a obra, não altera a mixagem, não compromete as performances… nada. Ver Brando e Bonasera falando com as vozes de Mun-ha e Alf é como o filme nasceu para ser visto. Mesma coisa. Mesmíssima. Exatamente. Igualzinho.

(No primeiro vídeo, salte para 5 minutos e 24 segundos para ver exatamente o trecho retratado no segundo.)

SOPA/PIPA

postado em by Pablo Villaça em Discussões | 13 comentários

Muito já foi escrito sobre estas duas absurdas propostas lançadas no congresso norte-americano – e eu mesmo já gastei alguns tweets com o assunto, incluindo a notícia de que o proponente do SOPA decidira retirá-lo de tramitação depois dos blackouts promovidos em protesto por centenas de importantes sites ao redor do mundo. No entanto, tão grave quanto a iniciativa dos congressistas dos EUA foi uma notícia que passou despercebida por boa parte da grande mídia e que revela muito sobre como a política funciona em um mundo no qual as corporações têm direitos de indivíduos.

Como vocês certamente sabem, as indústrias fonográficas e cinematográficas são as principais interessadas na aprovação do SOPA (Stop Online Piracy Act) e do PIPA (Protect IP Act) e que o principal representante dos grandes estúdios é a velha e arcaica MPAA (Motion Picture Association of America), presidida por quase quarenta anos pelo conservador Jack Valenti e que agora encontra-se sob o comando do ex-senador Chris Dodd. (Embora democratas, já que estamos falando da “liberal” Hollywood, Valenti e Dodd acima de tudo defendem os interesses das corporações; são pagos para isso.) Pois bem: em entrevista concedida à Fox News (reveladora, a escolha de falar com a repugnante emissora de extrema direita) há alguns dias, Dodd fez a seguinte declaração:

– Aqueles que contam com o apoio de – entre aspas – “Hollywood”  precisam entender que esta indústria está observando cuidadosamente quem vai defendê-la quando seus empregos estão em risco. Não me peça para assinar um cheque para você quando você pensa que seu emprego está em perigo e depois me ignore quando o meu  encontra-se em risco”.

Ora, nem vou dizer que “para bom entendedor, meia palavra basta”, já que Dodd usou palavras inteiras e deixou bastante claro que o financiamento de campanha promovido pelos grandes estúdios (que contribuem com milhões de dólares em todas as eleições) só será direcionado aos que apoiarem as medidas absurdas defendidas pela MPAA. O mais grave é saber que Dodd foi congressista por nada menos do que 30 anos, de 1981 a 2011, tendo deixado o cargo em janeiro e assumido a presidência da MPAA apenas dois meses depois – ou seja: se há alguém com acesso completo aos políticos e aos seus modelos de financiamento de campanha, é ele (e não se iludam: foi exatamente por isso que ele foi colocado no cargo por Hollywood, já que sua função é basicamente a de um lobista de luxo).

Com isso, é preciso que todos entendam que a batalha pode ter sido vencida, mas a guerra encontra-se longe de chegar ao fim: a MPAA está disposta a jogar pesado, já que está até mesmo intimidando publicamente os congressistas e praticamente acenando com as cédulas na direção dos políticos. É fundamental que fiquemos todos atentos.

Os malefícios da dublagem

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 230 comentários

(Por alguma razão misteriosa, o post original parou de funcionar. Então aqui vai o texto novamente.)

(Update: Quando estou errado, estou errado. Não há como discutir. Depois de algumas horas desde a publicação deste post, percebi que a principal objeção feita a ele pelos poucos que discordam diz respeito não aos argumentos que apresentei, mas ao tom que empreguei. Classificar como “medíocres”, “ignorantes”, etc, aqueles que gostam de dublagem acabou afastando pessoas que, de outra maneira, poderiam avaliar os argumentos pelo que são, não pela raiva pontual com que os defendi. E querem saber? Estas pessoas estão corretas. Meu tom agressivo em nada ajuda os pontos que estou tentando estabelecer, além de ser desnecessário e, em última análise, infantil. Assim sendo, desculpo-me pela adjetivação excessiva e pelas hipérboles atiradas aqui e ali e peço que se concentrem nos argumentos, não na intolerância e radicalismo que exibi em determinados pontos.)

 

Na última sexta-feira, O Planeta dos Macacos: A Origem chegou aos cinemas brasileiros com um anúncio preocupante feito pela Fox: o filme seria lançado com mais cópias dubladas do que legendadas em nossas salas. Reparem que estamos falando de um longa com classificação indicativa “12 anos” e que, portanto, esta decisão nada tem a ver com o conceito de torná-lo “acessível” aos espectadores mais jovens. Não, a ideia era atender a um público adulto que rechaça legendas – não por problemas físicos (falarei disto adiante), mas por simples preguiça de ler. Sim, os defensores da dublagem usam argumentos dos mais diversos (que contestarei abaixo), mas, no fundo, a questão é uma só: preferem a comodidade de assistir a um filme que não os obrigue a praticar o que aprenderam na alfabetização. Afinal, se já fugiram das bibliotecas, por que deveriam ser encurralados por letras nas salas de cinema?

Obviamente que os dublófilos não assumem isto, mas, pessoalmente, jamais encontrei alguém que tivesse o hábito da leitura e reclamasse de legendas. Assim, perceber que são estes espectadores medíocres e preguiçosos que estão sendo levados em consideração pelas distribuidoras, passando a moldar a experiência cinematográfica de todos aqueles que de fato amam esta Arte, é algo que me revolta absurdamente. Especialmente quando observo que, em sua defesa, apresentam os mais estapafúrdios argumentos – e antes de explicar por que a dublagem é nociva aos filmes, irei me deter nas “defesas” apresentadas por este contingente pró-mutilação.

1) E quem não sabe ler? Não tem direito de ir ao cinema? 

Além de estúpido, este é  um argumento repleto de cinismo, usando a população analfabeta do país como desculpa para defender sua própria preguiça de ler. Aqui a questão é simples: seja por questões culturais, sociais ou simplesmente econômicas (quem não sabe ler geralmente não tem o melhor dos salários), arrisco-me a dizer que menos de 0,01% daqueles que vão às salas de cinema são analfabetos. Justificar a necessidade de dublagem em filmes exibidos nas telonas através do argumento da “acessibilidade” é uma besteira – e mesmo que um grupo significativo de iletrados tivesse o hábito de conferir os lançamentos da semana, isto não justificaria a desproporcionalidade crescente entre cópias dubladas e legendadas.

O fato é que pessoas sem educação formal têm acesso aos filmes normalmente pela TV aberta – onde 100% das produções são dubladas. Assim, é justo dizer que esta parcela da população já está sendo mais do que atendida – especialmente considerando que praticamente todos os lançamentos em DVD já vêm com a opção da dublagem (e a palavra-chave aqui é “opção”). Considerando que estas são as formas economicamente mais acessíveis de se assistir a filmes de todas as épocas, gêneros e países, é incontestável que a população analfabeta (seja este analfabetismo real ou funcional) não está sendo excluída do acesso à Sétima Arte – e eu, como amante do Cinema, jamais defenderia que isto ocorresse.

2) E os deficientes visuais? Não podem ir ao cinema?

Claro que podem. Mas, novamente, não creio ser justo que uma minoria absoluta seja responsável por moldar a maneira com que a maioria irá experimentar os filmes. Além disso, há duas questões complexas relacionadas ao tema: em primeiro lugar, há o fato óbvio de que Cinema é uma mídia visual. Há ótimos projetos de áudio-descrição em vigor, mas estes envolvem salas específicas em sessões específicas – exatamente como deveriam ser. Sim, ainda têm pouco alcance, apoio e divulgação, mas a saída não é a  dublagem – ao contrário, já que esta não resolve a questão fundamental de explicar ao espectador cego o que está ocorrendo na tela. Neste sentido, aliás, a simples dublagem é um obstáculo para os deficientes visuais, já que as distribuidoras podem alegar que já atendem a esta comunidade através do áudio em português, deixando de investir na produção de trilhas de áudio-descrição. 

Há, também, o fato de que a experiência de ir ao Cinema é única justamente em função do mergulho sensorial oferecido pela sala – e, neste, o mais importante reside justamente no tamanho da tela e da imagem. Ora, para o deficiente visual, este é um fator nulo por definição, o que torna curiosa a insistência daqueles que os usam como desculpa para a  dublagem. Por outro lado, os mesmos que defendem ferrenhamente o acesso dos deficientes visuais acabam ignorando sem dó alguma uma outra parcela importante da população: os deficientes auditivos. Na última semana, não por coincidência, recebemos email de uma leitora surda que reclamava justamente da oferta cada vez menor de cópias legendadas que permitiam sua ida às salas de exibição – sendo que, pela própria natureza do Cinema, faz infinitamente mais sentido facilitar o acesso dos deficientes auditivos aos filmes em tela grande do que o dos deficientes visuais. Sim, seria ótimo se todos pudessem ser atendidos – mas, repito, a solução para os deficientes visuais reside não na  dublagem , mas na audio-descrição.

3) Pobrezinhos dos dubladores! Você quer tomar o ganha-pão da categoria? Além disso, temos os melhores dubladores do mundo!

Jamais questionei a competência de nossos dubladores – ao contrário: em várias ocasiões, afirmei que temos, sim, alguns dos melhores profissionais do ramo. Além disso, em vários textos elogiei os trabalhos de figuras como Guilherme Briggs e Garcia Junior, chegando até mesmo a publicar um texto defendendo a reserva de mercado para os profissionais do ramo, que vêm perdendo papéis para “celebridades” de maneira vergonhosa. Porém, por mais que reconheça o talento destes profissionais, há algo que, por melhor que sejam, eles jamais conseguirão contornar: o fato de que a  dublagempor natureza, distorce, deforma e prejudica a obra de arte original – especialmente tratando-se de longas envolvendo atores de carne-e-osso (explicarei as razões a seguir).

Além disso, não se preocupem com os dubladores: o que não falta a eles é trabalho. Séries de tevê, animações (para cinema e televisão) e praticamente todas as produções lançadas em home video contam com suas versões dubladas – e jamais me coloquei contra a opção de que estas trilhas em português façam parte dos discos. Aliás, o que ocorre é justamente o contrário: como um número cada vez maior de projetos vem recebendo versões dubladas, o que ocorre é uma verdadeira enxurrada de trabalhos, obrigando os estúdios de dublagem a se desdobrarem para atender a demanda – o que resulta em uma qualidade cada vez mais duvidosa das trilhas em português.

Aliás, aproveito para reafirmar o cinismo daqueles que defendem a  dublagem  usando a desculpa do “mercado de trabalho dos dubladores”: por que não se manifestam com relação aos salários dos professores? Ou dos médicos da rede pública? Ou dos garis? Vocês realmente acham que convencem alguém com este falso altruísmo? Menos hipocrisia, por favor.

4) As legendas “atrapalham” o filme.

Deixei este “argumento” por último por considerá-lo o mais estúpido de todos. Em primeiro lugar, o óbvio: então as legendas atrapalham a apreciação do filme, mas ouvir uma voz completamente diferente da original e em absoluta falta de sincronia com os movimentos labiais é algo que não incomoda? Mesmo? Há quemrealmente seja capaz de alegar que a legenda seja uma distração maior do que a  dublagem, do que ouvir, sei lá, o Bruce Willis falando com sotaque paulista e dizendo “Pombas!”? 

Sinceramente, eu poderia encerrar por aqui, mas irei além: só se atrapalha com a legenda quem não tem o hábito da leitura. (Antes que alguém cite os deficientes visuais: ler item 2.) Meu filho Luca, que tem apenas oito anos de idade, já vem assistindo a filmes legendados há pelo menos um ano – e com cada vez mais naturalidade e facilidade. Assistiu a Harry Potter 7.2 nada menos do que quatro vezes nos cinemas e, em todas as ocasiões, em sua versão legendada – por opção. Também conferiu desta maneira O Planeta dos Macacos e uma infinidade de outros títulos em DVD e blu-ray – de Quanto Mais Quente Melhor Banzé no Oeste, passando porAssassinato por MorteStar Trek e a série Alien. E riu, sentiu medo e aproveitou cada filme ao máximo, sem se importar com as legendas.

Aos oito anos de idade.

Ora, sou um pai coruja como qualquer outro, mas jamais me atreveria a dizer que Luca tem superpoderes que o tornam mais apto a ler legendas do que espectadores com 15, 20, 30 ou 40 anos de idade. 

O mesmo vale para mim: não apenas leio as legendas como faço anotações durante os filmes – e qualquer um que leia meus textos será obrigado a reconhecer que, concordando ou não com o que escrevi, sou suficientemente capaz de absorver o que está na tela a ponto de citar exemplos específicos de movimentos de câmera, cortes, detalhes de fotografia, gestos de atores e assim por diante. E, sim, leio as legendas mesmo quando domino a língua original (se estiver assistindo a um filme brasileiro com legendas em português, não consigo evitar acompanhá-las).

Assim, quando ouço/leio alguém dizer que as legendas “atrapalham” a compreensão do filme ou a plena “apreciação das imagens”, imediatamente faço uma anotação mental e coloco a pessoa na prateleira daquelas que simplesmente não têm o hábito da leitura e que, por preguiça intelectual, querem obrigar todo o resto da população a abandonar as letras. Quer defender a  dublagem? Ao menos use uma desculpa que não denuncie algo triste sobre seus hábitos culturais.

Repito: oito anos de idade.

No entanto, não sou simplesmente contra dublagem; sou também entusiasmadamente a favor da manutenção da língua original nas produções de cada país. E por algumas razões fundamentais:

1) A qualidade técnica:

Faça um teste: ao assistir a um filme dublado que traga parte do áudio original (numa canção ou através de personagens que conversam numa língua diferente daquela usada pelo protagonista), feche os olhos e preste atenção no som. Percebeu a diferença? Claro que sim. Aliás, você teria percebido mesmo ao manter os olhos abertos, já que a disparidade é gigante. 

Isto se deve a uma questão técnica tão importante para o Cinema que a Academia criou uma categoria especial para premiá-la no Oscar: a da mixagem de som (ou Melhor Som).

Cada filme envolve, em sua pós-produção, um trabalho árduo e extremamente detalhista de combinação das diversas trilhas que trazem os vários elementos sonoros da produção: os diálogos, os ruídos, as trilhas incidentais e instrumentais e até mesmo o som ambiente, do silêncio, de cada set. Esta mixagem requer um estudo delicadissimo do nível preciso de cada faixa em cada segundo de projeção – um trabalho que, nas versões dubladas, tem seu equilíbrio arruinado quando os estúdios brasileiros atiram uma destas faixas fora para substituí-la pela versão em português. 

Não acredita? Então coloque um DVD no seu player e repasse cenas inteiras em suas versões originais e brasileiras; se não perceber a diferença gritante da mixagem em cada uma delas, consulte urgentemente um otorrino.

2) A suspensão da descrença:

Já é suficientemente difícil, para o espectador, aceitar Ryan Reynolds como um patrulheiro espacial que, graças a um anel presenteado por um alienígena moribundo, torna-se capaz de viajar pelo universo e de criar objetos a partir de energia verde enquanto veste um collant digital. No entanto, somos capazes de comprar estes absurdos na maior parte do tempo graças a um contrato psicológico que firmamos com cada filme: o da suspensão da descrença. Basicamente, nos dispomos a aceitar os absurdos atirados em nossa direção a fim de que sejamos capazes de mergulhar na história – mas pedimos, em troca, que as produções mantenham seus artifícios intactos para que nada nos traga de volta à realidade durante a experiência.

E é por isso, por exemplo, que somos imediatamente atirados para fora da narrativa quando vemos oboom (microfone) no alto da tela, já que este é o equivalente de receber um tapa no rosto e ouvir um grito de “Isto é só um filme, idiota!”. (A propósito: em 99% das vezes que isto acontece, o erro é do projecionista; reclame com o gerente da sala para que a janela de projeção seja ajustada corretamente e o boom fique fora de quadro.)

Agora imaginem ouvir Bill Murray abrindo a boca apenas para ouvirmos a voz de Wesley Snipes. Que é a mesma de Will Smith. Que é idêntica à de Kevin Spacey. Que também sai da garganta de Samuel L. Jackson. Que a divide com Danny Glover, Alfred Molina, Ed Harris e Denzel Washington. (No caso, todos dublados por Márcio Simões.) Ou o que dizer da experiência de ouvir Bruce Willis se comunicando com a mesma voz durante anos apenas para, subitamente, descobri-lo com um som completamente diferente a partir de 2006, quando seu dublador oficial (Newton da Matta) faleceu?

Mais: confesso ter mais facilidade em aceitar Schwarzenegger matando 270 pessoas com um único tiro do que ouvi-lo soltando um “Seu filho da mãe!”, um “Ora, bolas!” ou mesmo um “Mermão” carioquíssimo enquanto pratica seu genocídio particular. Isto para não mencionar o fato óbvio de que as palavras que saem de sua boca são completamente destoantes de seus movimentos labiais, ressaltando de maneira inegável a irrealidade do que está ocorrendo na tela. Aliás, este é um “detalhe” (e coloco entre aspas por ser tudo, menos um “detalhe”) tão importante que os animadores dedicam centenas de horas de trabalho cuidadoso à ilustração de cada fonema empregado pelos dubladores de seus personagens – justamente para que, mesmo acompanhando as aventuras de um panda ninja, não questionemos por que seus lábios não seguem os sons emitidos por sua boca.

E a  dublagem em outra língua diferente da original simplesmente mata este esforço e dificulta exponencialmente a tão importante suspensão da descrença.

3) O trabalho do ator:

Atuar é criar um personagem. Isto envolve um profundo trabalho de composição e estudo envolvendo meses de pesquisas, ensaios, laboratórios e tentativas para que o intérprete descubra não só a psicologia de seu personagem, mas também a maneira com que este se move, gesticula e… fala. Ouçam, por exemplo, o registro rígido, duro, da voz de Meryl Streep em Dúvida e comparem-no à leveza de sua expressão vocal em Mamma Mia! ou ao pedantismo escutado em O Diabo Veste Prada. Tentem dissociar o professor Snape da dicção venenosa, estudada, calculada, empregada por Alan Rickman na série Harry Potter. Percebam como Sean Penn, em Milk, exibe uma afetação milimetricamente estudada em seus diálogos, ocultando-a quando seu personagem quer passar uma imagem mais séria para a mídia e o eleitorado. Assista ao clímax de Coração Satânico e tente ignorar a rouquidão desesperada de Mickey Rourke.

Agora ouça as versões dubladas e perceba a disparidade provocada pela diferença entre os meses dedicados pelos atores originais aos seus personagens e as poucas horas (se muito!) que os dubladores brasileiros tiveram para gravar seus diálogos.  

Se ainda assim você mantiver que a  dublagem não deturpa a obra, então não precisa de um otorrino, mas de um psiquiatra.

Aceitar a  dublagem é aceitar pegar todo o trabalho de composição de um ator, selecionar uma parte fundamental deste e atirá-la fora, substituindo-a por um elemento criado sem estudo, sem cuidado e com pressa. É dizer que não há problema em se alterar as cores de Lição de Anatomia, de Rembrandt, ou de O Grito, de Munch, desde que os “desenhos” sejam mantidos na íntegra. Ora, nenhuma forma de arte seria submetida a uma deturpação destas – e perceber que algo assim é visto com naturalidade no Cinema é uma prova inconteste da persistente falta de prestígio e respeito que a Sétima Arte enfrenta desde seus primórdios.

É por esta razão, também, que considero as dublagens de animações como algo um pouco mais fácil de aceitar: afinal, ali estamos substituindo todo o trabalho de um ator pelo de outro. Sim, na maior parte das vezes o cuidado na composição não é o mesmo (Luciano Huck gravou todo o seu péssimo trabalho em Enrolados em apenas 4 ou 5 horas), mas ao menos não temos um resultado digno do monstro de Frankenstein. (Sim, ainda há a questão dos movimentos labiais, mas considerando toda a artificialidade da própria técnica, que foge do realismo, é um problema menor.) Já aceitar a  dublagem em produções com atores de carne-e-osso (live action) é, por todas as razões descritas acima, algo que considero inadmissível em alguém que realmente amaCinema.

E aí mantenho o que já escrevi neste blog e no twitter tantas vezes: você pode até gostar de ver filmes, mas se defende a  dublagem – sinto muito -, não pode afirmar que ama a Sétima Arte. Uma coisa é precisar do áudio alternativo (como no caso de crianças pequenas ou de indivíduos com problemas visuais); outra é dizer que o prefere. Se prefere, má notícia: você não apenas não ama o Cinema como ainda o prejudica.

Ir ao cinema para ver um filme em tela grande é um gesto de amor ao Cinema. E perceber que as distribuidoras brasileiras querem afastar este público das salas é algo deprimente – e pior: contando, em seu crime contra a Sétima Arte, com a complacência do público. A ideia é simples: “lancemos muitas cópias dubladas; eles podem até não gostar, mas pagarão o ingresso assim mesmo”. A saída? Quando a cópia for dublada, boicote o filme. Busque a versão legendada ou espere pelo DVD/Blu-ray. Acredite: conferir a cópia dublada é o mesmo que comer carne estragada apenas para dizer que foi a um churrasco.

Diga “não” à  dublagem nos cinemas. A Sétima Arte merece seu apoio.

Globo, BBB e o “lindo amor” de Pedro Bial

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Séries de tevê | 59 comentários

Eu tinha 20 anos de idade e estava numa calourada da UFMG, onde cursava Medicina. Durante a festa, uma colega do Diretório Acadêmico, do qual eu era diretor, se aproximou de mim e, do nada, me deu um beijo enlouquecedoramente intenso. Era linda, a moça, e eu tinha por ela uma queda que já durava alguns meses – uma paixonite que a timidez (há muito perdida) me impedia de manifestar. A princípio, empolgado, retribuí o beijo, mal acreditando no que estava acontecendo.

E então percebi o gosto do álcool. 

Por alguns segundos, tentei ignorar, mas senti-me estranho, mal, diante do que ocorria. Por um lado, queria que os beijos continuassem; por outro, eu sabia que a garota costumava ser reservada, contida, e que aquela postura não refletia seu comportamento habitual. Sim, eu a queria – mas não daquela maneira, não sem ter certeza de que ela me queria de volta e com plena consciência disso. Assim, interrompi os beijos e expus minha preocupação sobre seu estado naquele momento – e falei que, no dia seguinte, caso ela ainda quisesse dar prosseguimento àquilo… bom, que eu estaria ali e feliz.

Pois há pouco mais de um dia, a Globo, emissora de tevê aberta com maior audiência do país, exibiu imagens de uma garota praticamente inconsciente em função do álcool (fornecido pela própria empresa) enquanto esta tinha seu corpo explorado por um colega de cativeiro. As imagens se prolongaram por minutos intermináveis. Ninguém fez nada; nenhum produtor chamou o rapaz que a explorava; ninguém da ilha de corte interrompeu a transmissão. Mais tarde, quando internautas protestaram, o diretor do programa, o poderoso Boninho, afirmou categoricamente que “não houve estupro” (aparentemente, transferiu seu papel de “Deus” daquele microcosmos para o mundo real) e que quem insistia na afirmação estava sendo “racista”, já que o rapaz envolvido é negro.

Mais tarde, ao comentar as imagens, o apresentador Pedro Bial disse apenas que “o amor é lindo”.

É uma história tão sórdida que chega a espantar que seja real. 

Não assisto ao Big Brother. Acompanhei a primeira edição e, tempos depois, vi aquela envolvendo Jean Wyllys. E então me dei conta de que não fazia sentido perder horas e horas acompanhando pela tevê o cotidiano de pessoas que eu não gostaria de conhecer fora dela. Dito isso, é impossível ignorar o programa: mesmo colocando filtros no Twitter para eliminar menções a ele, acabo aprendendo os nomes dos participantes e ficando a par dos acontecimentos diários – e, também neste sentido, o Big Brother faz jus à palavra “praga”. Desta forma, já ouvi casos de homofobia, machismo e racismo perpetrados e divulgados pelo programa – mas nada que se comparasse ao que ocorreu agora.

Exagero? Recapitulemos: a moça, mantida em cativeiro (mesmo que voluntário) pela emissora, embebedou-se com o álcool oferecido à vontade em uma festa, deitou-se ao lado de um homem que explorou seu corpo por um longo tempo diante das câmeras enquanto ela se encontrava obviamente desacordada e ninguém fez nada. Exibiram as imagens, tinham consciência do que ocorria, mas nada fizeram. Confrontados, defenderam o agressor, acusaram os acusadores de “racismo” e minimizaram o ocorrido. Certamente achando que ainda estamos na década de 90, Boninho obviamente acreditou que mataria o assunto na base do grito.

Mas não estamos mais na década de 90, Boninho. As redes sociais e a internet democratizaram o mundo de uma maneira que a Velha Mídia não consegue compreender. Antigamente, vocês abafariam o caso. Antigamente, o livro A Privataria Tucana seria morto no útero da editora. Mas no século 21 o caso não foi abafado e o livro é o mais lido do país. 

Não que tenhamos motivos para celebrar. Ainda há muitos que, possivelmente vítimas da síndrome de Estocolmo, insistem em defender a emissora e o programa, que deveria sair do ar imediatamente. Como é possível que vivamos num país que censura um abuso sexual fictício em Um Filme Sérvio e nada faz em relação a um incidente real veiculado ao vivo em rede nacional? Como racionalizar uma contradição dessas?

Sim, o rapaz foi expulso do programa, mas o Big Brother, que promoveu, explorou, acompanhou, veiculou, lucrou e acobertou o crime, continua no ar. (E se eu fizesse parte da família da moça, estaria consultando advogados neste instante. Há uma fortuna em potencial apenas esperando ser transferida dos cofres da Globo para a conta de sua vítima.) Para piorar, de acordo com meu amigo Hélio Flores, que assiste ao Big Brother (ninguém é perfeito), a garota foi instruída a mentir para os colegas sobre o ocorrido. A cumplicidade da Globo, de Boninho e do programa neste incidente repugnante é difícil de negar.

Um Filme Sérvio continua proibido no país. Aguardemos para ver se há um mínimo de coerência em nosso sistema legal.