Discussões

Belo Monte: decidir porque global falou é que é a gota d’água

postado em by Pablo Villaça em Discussões | 61 comentários

Sim, sou favorável à construção da usina em Belo Monte. Sim, eu sei que esta não é a posição mais popular desde que um grupo de “celebridades” participou de um vídeo sobre a questão, mas é a posição à qual cheguei depois de fazer o que todos deveriam fazer: pesquisar – de verdade – o assunto. Li textos pró e contra a construção da usina. Consultei posts extensos de defensores e opositores. E fui obrigado a constatar que a usina é uma solução perfeitamente aceitável e que o terrorismo feito pelos ambientalistas neste caso específico não tem muita base factual.

Em primeiro lugar, uma observação: acho patético que os globais tenham copiado o vídeo “Don’t vote” encabeçado por Leonardo DiCaprio na época da campanha presidencial norte-americana que resultou na eleição de Obama – e o fato de que o vídeo reconheça o plágio não elimina este último; é o mesmo que reproduzir um texto na íntegra, dar o crédito para o autor original e dizer que isto resolveu a questão. Não resolveu. Será que os cabeças da campanha não têm criatividade suficiente para conceberem um vídeo original? Além disso, se Sarah Silverman tirava o sutiã no original, isto tem a ver com seu estilo próprio de humor; quando Maitê Proença faz o mesmo, soa apenas embaraçoso e despropositado.

Mas antes de qualquer coisa, vamos ao vídeo dos globais:

Ok, é alarmante. Os índios “não vão ter onde morar”; 640 km2 de terra amazônica serão alagados (um número atterador!!!); ela só vai produzir “um terço de sua capacidade” (algo único no mundo!); “ninguém discutiu o assunto”; hidrelétrica não é energia limpa, já que é na floresta!; bem melhor seria investir em energia eólica; será que os índios foram ouvidos?. Como diz Maitê Proença… “é muita pergunta sem resposta”.

Ou não.

Em primeiro lugar, globais, como assim “ninguém discutiu o assunto”? A usina de Belo Monte foi debatida durante anos – não é porque vocês só se inteiraram do assunto agora que o processo todo tem que parar e voltar atrás. Vocês são famosos, mas não são o centro do mundo. Além disso, embora digam no vídeo que “pesquisaram”, tenho uma péssima notícia: ler teleprompter não configura pesquisa – se configurasse, vocês saberiam que comunidades indígenas participaram do processo e que nenhuma aldeia será destruída por Belo Monte. Quanto ao restante das indagações… bom, o sujeito abaixo, só com papel e caneta, demole o vídeo superproduzido de vocês com contas e argumentos difíceis de refutar.

Ok, querem mais dados? Então visitem este e este link. 

Pode parecer óbvio, mas muita gente precisa apenas ouvir atores famosos para decidir assinar petiçãozinha online, descartando qualquer pesquisa básica.

Ofenda a mulher, desculpe-se para o homem

postado em by Pablo Villaça em Discussões | 74 comentários

Imagine que alguém houvesse chamado, digamos, o William Bonner de pedófilo. E que depois de uma repercussão negativa, tivesse pedido desculpas para… Fátima Bernardes. Naturalmente estranharíamos. O ofendido não mereceria mais as desculpas? Eu, pelo menos, apontaria a incongruência.

E, no entanto, depois de ler notícias sobre as desculpas pedidas por Rafinha Bastos, Marcos Luque e Band ao marido de Wanessa Camargo (depois que o primeiro disse no ar que “comeria” a cantora e seu bebê), confesso que meu primeiro pensamento foi: “Olhaí o CQC novamente se retratando apenas ao ofender pessoas influentes – exatamente como no caso envolvendo a esposa de um dos donos da RedeTV”. Sim, pois Marcelo Tas, Rafinha Bastos, Danilo Gentili (com suas “piadas” sobre tortura na época da ditadura) e companhia formam, hoje, um dos grupos de “humor” mais reacionários da televisão brasileira (algo que aponto desde o início do programa), mas, embora já tenham insultado meio mundo, só consideram a possibilidade de baixar a cabeça quando pisam no calo de alguém com certo poder.

No entanto, foi somente ao ler o post de Lola Aronovich (sim, o mundo dá voltas) que me dei conta do mais assustador – e que deveria ter sido óbvio para mim desde o início: embora frequentemente use as mulheres como alvo de suas “piadas” (o que por si só já é bem sintomático), Rafinha Bastos só faz um mea culpa quando, como resultado destas, algum homem se irrita, desculpando-se aos colegas de gênero, não às vítimas reais de suas ofensas.

E o fato de só ter percebido isso ao ter meu nariz esfregado nas evidências me deixou desapontado comigo mesmo, já que, infelizmente, aparentemente julguei natural – sem perceber – que assim fosse.

Espero que este pequeno tapa na cara me faça ficar mais atento de agora em diante.

Situação perigosa

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 37 comentários

Imagine um grupo de artistas que envolva indivíduos espalhados por vários estados.

Agora imagine que um (ou mais) deles faça parte de uma comissão governamental que determinará o destino de verbas para a produção artística. E que sempre alguém do grupo (geralmente mais de uma pessoa) acaba sendo agraciado com recursos financeiros.

Com o trabalho pronto, é hora de inscrevê-lo em festivais e mostras. Imagine agora que um ou mais integrantes deste mesmo grupo façam parte das curadorias de determinados eventos do calendário nacional. E que estes projetos de seus companheiros sejam invariavelmente selecionados para a programação.

E se eu disser que este grupo também conta com críticos que geralmente escrevem artigos incrivelmente hiperbólicos sobre a importância destas mesmas obras, celebrando-as como algo “vital”, “inovador” e por aí afora, criando a impressão de um apoio entusiasmado por parte dos especialistas?

Para completar, imagine que integrantes deste mesmo grupo (ou agregados) participem dos comitês que distribuirão prêmios em festivais e mostras – e que, não surpreendentemente, os trabalhos de seus colegas sempre saiam com um ou mais troféus da cerimônia.

E agora o mais assustador: suponha que estes artistas enxerguem o que fazem como a “verdadeira” Arte, esforçando-se até mesmo para batizá-la com um nome que sugira se tratar do novo “caminho” que esta vem estabelecendo no cenário nacional. E que todos os esforços que não se encaixem nestes padrões supostamente “vanguardistas” sejam considerados por eles como algo “menor”, “sem valor”, puramente “comercial” ou simplesmente medíocre por natureza.

Imaginou? 

Pois isto está acontecendo com o Cinema brasileiro.

Belo discurso sobre integridade artística

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 29 comentários

O discurso abaixo, belíssimo e relevante, foi feito por um cineasta diante do congresso norte-americano em 1988 – e decidi traduzi-lo aqui depois de descobri-lo graças ao crítico Matt Zoller Seitz não só porque de certa forma se encaixa na discussão sobre dublagem, mas também porque achei curioso que… enfim. O nome do cineasta será revelado ao fim deste post.

“Meu nome é [removido]. Sou roteirista, diretor e produtor de filmes e presidente da [nome de sua empresa], uma corporação de entretenimento que atua em várias áreas. Não estou aqui hoje como roteirista-diretor ou como produtor ou como presidente de uma corporação. Vim como cidadão daquela que acredito ser uma grande sociedade que está precisando de uma âncora moral que a ajude definir e proteger sua herança cultural e intelectual. Que não está sendo protegida.

A destruição de nossa herança cinematográfica, que é o foco de nossa preocupação hoje, é apenas a ponta do iceberg. A lei norte-americana não protege nossos pintores, escultores, músicos, autores ou cineastas contra a distorção de suas obras, que pode arruinar suas reputações. Se algo não for feito agora para definir claramente os direitos morais dos artistas, as tecnologias atuais e futuras irão alterar, mutilar e destruir para as futuras gerações as sutis verdades humanas e os mais altos sentimentos humanos que indivíduos talentosos de nossa sociedade criaram.

O direito autoral é mantido por seu proprietário até ser revertido para domínio público. Obras de arte americanas pertencem ao povo americano; são parte de nossa história cultural. Aqueles que alteram ou destroem obras de arte e nossa herança cultural visando o lucro ou mesmo como um mero exercício de poder são bárbaros – e se as leis dos Estados Unidos continuarem a permitir este comportamento, a história certamente nos classificará como uma sociedade de bárbaros. A preservação de nossa herança cultural pode não parecer um assunto politicamente relevante como discussões sobre “quando a vida tem início de fato” ou “quando poderia ser encerrada”, mas é importante porque diz respeito ao que diferencia a humanidade. A expressão criativa é a alma de nossa humanidade. A arte é distintamente uma iniciativa humana. Temos que respeitá-la se quisermos respeitar a raça humana.

Estes vandalismos atuais são apenas o começo. Hoje, engenheiros com seus computadores podem adicionar cores a filmes em preto-e-branco, modificar a trilha sonora, aumentar o ritmo e adicionar ou subtrair material que atendam aos gostos filosóficos do detentor dos direitos autorais. Amanhã, tecnologias mais avançadas conseguirão substituir atores por “rostos mais jovens” ou alterar diálogos e mudar o movimento dos lábios dos atores para que se encaixem neles. Logo será possível criar um novo negativo “original” com quaisquer alterações que o detentor dos direitos autorais deseje. Até agora, estes detentores de direitos autorais não foram completamente eficientes em preservar os negativos originais dos filmes que controlam. Para reconstruirem velhos negativos, muitos arquivistas tiveram que visitar países orientais nos quais filmes norte-americanos foram melhor preservados.

No futuro, será ainda mais fácil que negativos velhos se percam e sejam “substituídos” por novos negativos – estes, alterados. Esta seria uma grande perda para nossa sociedade. Nossa história cultural não pode ter permissão para ser reescrita. Não há nada que impeça que filmes, discos, livros e pinturas norte-americanos sejam vendidos para uma entidade estrangeira ou para bandidos egocêntricos, que poderiam alterar nossa herança cultural a fim de que esta se encaixe em seus gostos particulares.

Eu acuso as empresas e grupos que dizem que a lei americana é suficiente de estarem enganando o congresso e o povo em função de seus próprios interesses econômicos. Eu acuso as corporações que se opõem aos direitos morais do artista de serem desonestas e insensíveis diante da herança cultural norte-americana e de terem interesse apenas em seus lucros trimestrais, não nos interesses a longo prazo do país. O interesse do povo, em última análise, deve sobrepujar todos os outros interesses. E a prova disso é que mesmo a lei dos direitos autorais permite que os artistas e seus herdeiros aproveitem os frutos econômicos de seus trabalhos por apenas um tempo limitado.

Há aqueles que dizem que a lei norte-americana é suficiente. Isto é um absurdo! Não é suficiente! Se fosse, por que eu estaria aqui? Por que John Huston teria sido tão solenemente ignorado quando protestou diante da colorização de Relíquia Macabra? Por que os filmes são remontados e mutilados?

Devemos prestar atenção a esta questão de nossa alma, não apenas a procedimentos contábeis. Devemos prestar atenção aos interesses daqueles que ainda não nasceram, que deveriam poder ver esta geração como esta geração se viu e as gerações passadas como estas se viram.

Espero que os senhores tenham coragem de liderar os Estados Unidos no reconhecimento da importância da arte do nosso país para a raça humana, criando proteções para os criadores desta arte assim como estas foram criadas na maior parte do mundo.”

 

-x-x-x-x-x-x-x

O nome deste bravo artista que defendeu com tanta paixão a integridade artística e histórica dos filmes? Que condenou a alteração/deformação/mutilação destas obras por empresários em busca de dinheiro ou que colocavam seus egos acima do legado artístico dos autores?

George Lucas.

O que realmente aconteceu

postado em by Pablo Villaça em Discussões | 116 comentários

(O leitor Filipe, que no twitter assina como @VozdoAlem, escreveu um post em seu blog no qual resume os principais acontecimentos da discussão que vem acarretando em QUATRO dias de ofensas via twitter, facebook e email. Fico feliz que ele tenha feito isso, pois eu não estou com cabeça nem paciência para fazê-lo. O assassinato de reputação promovido por Lola é tamanho que uma simples pesquisa no twitter revelará várias ocorrências de pessoas comentando estarem horrorizadas com minhas “declarações machistas” (que não fiz), com meus posts misóginos (que jamais escrevi) e com minha intolerância com minorias (quando sempre as defendi – inclusive neste espaço). Esta é a mais pura definição de “assassinato de reputação”. 

Pedi permissão ao Filipe para copiar aqui o trecho de seu post que dizia respeito à questão. Não concordo com boa parte dos argumentos restantes de seus post sobre minorias, mas linko aqui para o texto integral para que os interessados possam lê-lo.

Para concluir: Lola tem se mostrado tão maniqueísta e mal intencionada em sua cruzada que chegou ao ponto de dizer que linkei para um texto contra minorias – o post de Filipe -, omitindo que escrevi, em seguida, que discordava daquelas ideias e que havia linkado para que as pessoas pudessem ver, sem a manipulação da blogueira, o que realmente aconteceu. Além disso, quando questionada por uma leitora sobre estar me atacando quando minha postura anti-intolerância é óbvia, ela respondeu dizendo que “não me conhecia” antes deste episódio. Outra mentira, já que em JULHO escreveu sobre mim em seu blog ao discutir Assalto ao Banco Central, comentando na época: “Pablo, que é crítico profissional com um bom tempo de estrada e muitos leitores (…).

Como se não bastasse, Lola ainda atacou todos aqueles que ousaram me defender – e, de quebra, todos os meus leitores – ao twittar: “Se eu fosse o Pablo, teria vergonha dos meus leitores! O nível dos coment. de seus defensores é tão absurdo que eu repensaria minha função na blogosfera.”. Bom, Lola, em primeiro lugar eu não sou “blogueiro”; tenho um blog, o que é diferente. Em segundo, tenho imenso orgulho de meus leitores. Imenso.

Enfim: é este tipo de líder que as dezenas de pessoas que vêm me atacando e ofendendo há quatro dias optaram seguir.)

Tem uma coisa chamada politicamente correto que, creio Eu, todos devem conhecer ou, ao menos, ter uma opinião do que seja. Politicamente correto – a meu ver – é um processo que pretende tornar os símbolos culturais nulos do que se convencionou classificar de preconceito em uma determinada época, dirigido a determinado grupo de indivíduos.

Um exemplo disso é a adoção da palavra “presidenta” após a Dilma ser eleita. O termo presidente é assim desde que aprendi a falar português (é um substantivo uniforme comum de dois) e só agora se inventa de querer criar uma versão feminina dele. “Ah, Filipe… agora chegou uma mulher ao posto máximo governamental do nosso país, então a palavra pede mudanças”. Ué, existem mulheres no tráfico de drogas há muito tempo e nem por isso inventaram o termotraficanta, o que mostra a dualidade presente na questão e um possível preconceito.

Claro que esse tipo de classificação é muito subjetiva e depende de interpretações de alguém – ou um grupo – supostamente instruído para criar uma espécie de padrão aceitável pela sociedade. Se estamos vivendo em tempos denominados Politicamente Corretos, é porque esse tipo de demarcação linguístico-cultural se espalha num ritmo assustador.

Um exemplo disso ficou patente nesse fim de semana, num embate no Twitter que revelou bastante sobre como funciona esse tipo de patrulha ideológica. Para resumir, o crítico de cinemaPablo Villaça linkou uma piada remixada que dizia basicamente o seguinte: “Existem mulheres que você ganha com um olhar. Existem mulheres que você ganha com um bom papo. Existem mulheres que você ganha com um beijo. Para todas as outras, existe Mastercard” [imagem abaixo].

 

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Só para esclarecer e tentar ser justo, a piada linkada foi uma forma de complementar uma piada anterior que dizia que vários homens não conseguem atrair mulheres e apelam para o dinheiro. Logicamente que a piada não quer dizer somente isso, pois têm um sentido invertido, com a afirmação que as mulheres é que são compráveis. Mas, antes de dizer que existem mulheres compráveis, a piada afirma que existem outras três categorias de mulheres, levando-se em consideração que tipo de atrativos elas vêem nos homens. E bom, quer doa em algumas mulheres quer não, existem mulheres que só pensam em dinheiro, como creio ter sido o caso de Anna Nicole Smith, que casou com o bilionário J. Howard Marshall II, de 89 anos – ela tinha 27 anos na época. Como ela, existem outras, e afirmar com toda a certeza do mundo que não existem mulheres que se interessam por dinheiro, me parece um salto no vazio da burrice.

Mas o nosso amigo Pablo tem 9.786 seguidores no Twitter e eis que surge alguém não muito satisfeito com a piada: a Maria Júlia, que se diz feminista de carteirinha. Vamos a alguns tuits dela com reações a piada acima (e somente a piada, nada mais, antes que se assustem):

Só se for a sua. RT @pablovillaca: Como conquistar as mulheres: migre.me/5udwP (:P) [Link]

@pablovillaca Isso é machista, e mostra que você é 1) incompetente pra discutir; 2) um completo imbecil. [Link]

@pablovillaca É mais simples do que parece: Ao pensar em piadas com mulheres, não as faça, pq são sempre machistas. [Link]

@pablovillaca A imagem que você postou serve, sim, pra perpetuar um preconceito contra as mulheres, de que elas são ganhas c/ $ [Link]

Sabe o que eu acho? Que homem, ao pensar em brincadeiras sobre mulheres, devia simplesmente CALAR A BOCA. [Link]

O mais engraçado é ver um bando de homens vindo socorrer o amiguinho. Solidariedade machista. [Link]

Esse é o @pablovillaca mostrando que não passa de um machista patético. Acha que piada com mulher, dinheiro e louça é engraçado. [Link]

E aí, @pablovillaca, aposto que cê curtiu a piada do Rafinha Bastos! Foi só piada, né? Bóra estuprar mulher feia!! Oportunidade pra elas! [Link]

Isso tudo da mesma criatura, só pra constar. Vamos do início: como primeiro movimento, ela começou com uma agressão, ao separar apenas uma parte da piada (machista, na opinião dela) e jogar para cima da mulher do Pablo, que linkou a piada. Em reação ao comportamento que considerou desmedido, ele inicia uma série de piadas ainda mais cínicas e engraçadas (para nós homens, claro, nenhuma mulher riria disso… tirando umas 15 que Eu conheço), incluindo TPM, louças, brincos e outras coisas, além de jogar argumentos dela contra ela mesma (as imagens foram capturadas pela Lola Aronovich, principal motivo desse texto, como demonstrarei nos próximos parágrafos).

(Update: Aqui é o Pablo novamente: o Filipe deixou de fora uma parte importante. Quando a leitora enviou o primeiro tweet dizendo “só se for a sua (mulher)”, respondi: “Que falta de senso de humor absurda”. Não a agredi nem fui irônico. Em resposta, ela enviou o segundo tweet, me chamando de “incompetente” e “imbecil”. Mais uma vez respondi com educação. Foi só quando ela enviou o tweet me mandando “CALAR A BOCA” é que finalmente percebi estar tratando com alguém incapaz de uma discussão racional e passei a responder com ironias. Vale ressaltar, inclusive, que neste meio tempo uma outra leitora (e que foi minha aluna em Manaus) enviou um tweet condenando a piada, mas educadamente – e que a respondi com similar educação, sem ironias ou agressividade. Devolvo vocês ao post do Filipe:)

Agora também sou racista? Então inclua homofóbico e anti-semita na lista. RT @_julinha: o mov. negro tb é “chato-politicamente-correto”? [Link]

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Ele não parou por aí, obviamente, tem mais coisas, mas Eu paro por aqui, porque essa batalha se estendeu por uns bons dois dias inflamados e não estou escrevendo uma Monografia, além da timeline dele ter muito mais tuits, o que dificulta a minha coleta dias depois dos fatos.

Após a mesma Julinha linkar um texto de uma feminista – que Eu (e várias pessoas que conheço, inclusive feministas) classificaria de radical – chamada Lola Aronovich, doutora em  Literatura em Língua Inglesa pela UFSC e dona do blog Lola Escreva, a discussão esquentou. O motivo é que ela, assim como Pablo, é relativamente famosa e é tida por muitas como uma espécie de representante da luta feminista.

Pois bem, ela não demorou e escreveu um texto relatando algo que ela chamou de “padrão eterno”, que resumidamente seria o seguinte (primeiro parágrafo do texto “PADRÕES QUE SE REPETEM SEMPRE”, da Lola):

Tem um padrão que se repete sempre. É assim: uma pessoa ou um blog ou uma coluna ou whatever com um bom histórico de publicações e declarações em defesa das mulheres escorrega. Publica um texto de alguém falando mal de feministas e chamando-as de feminazi, ou traduz um vídeo de um cara dizendo que o feminismo é uma droga, ou linka uma piadinha machista. Isso repercute, e o sujeito que escorregou é criticado por várias pessoas, incluindo, lógico, feministas. Como o sujeito reage a essas críticas? Negando que seu escorregão foi machista e usando clichês machistas pra ofender as feministas que o criticam.

A mensagem do texto escrito por ela casa e foi complementada muito bem por um tuit que ela mandou quase ao mesmo tempo:

Todo mundo escorrega e é machista às vezes. Acontece. Mas se alguém te critica por isso, saiba ouvir. Reflita. Peça desculpas. [Link]

Para alguém que diz lutar contra preconceitos linguísticos (inclusive o lance da presidenta), que é doutora em literatura – que entende de linguagem com um mínimo de profundidade, por consequência -, usar os termos sempre e todo mundo me parece uma linha argumentativa que se aproxima da tradição ególatra-messiânica com que foi redigida a Bíblia (que ela obviamente não curte, como deixou claro no texto “Assim me diz a Bíblia”), que trata basicamente da necessidade de um salvador que um mundo cruel e pecaminoso (onde nós habitamos) possui. Quer provas? Mando um versículo:

“Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3:23)

Repare na similaridade das mensagens. Se fizermos uma fusão do texto de Paulo e da Lola ficaria mais ou menos assim: “Pois todos são machistas, e carecem do feminismo”. E essa similaridade denota que ela parece querer saber mais sobre as mulheres do que as próprias mulheres (ou mais sobre mim do que Eu mesmo). “Todo mundo (…) é machista às vezes”. Me pergunto se uma mulher pode ser machista ou um homem feminista. E outra: se TODO O MUNDO é machista, então o machismo não é um problema.

Mais para frente ela manda outra distorção:

Piadinha dizendo que mulher se vende e só se interessa por dinheiro não é lá muito respeitoso à metade da população mundial, e é obviamente uma mentira.

Você entendeu a piada do cartão? Porque posso ter perdido completamente a minha (pouca) racionalidade e só Eu não ter visto essa mensagem de metade da população mundial só se interessa por dinheiro, como foi o caso dela (messianismo-ególatra novamente).

Antes de prosseguirmos, voltemos aos tuits da Júlia (apoiados pela Lola, como mostrarei abaixo). “Que homem, ao pensar em brincadeiras sobre mulheres, devia simplesmente CALAR A BOCA”, diz um deles. Não sei para vocês, mas para mim, isso soa como ela se colocando como representante única e exclusiva das mulheres no sentindo de dizer: “Se a piada me atinge, não a faça, mesmo que uma mulher goste”, ignorando uma série de mulheres que simplesmente não se sentiram atingidas pela piada e o Pablo retuitou posteriormente.

Imagine a seguinte situação: João é casado com Ana, e Júlia (digamos que é a Júlia dos tuits acima) está na casa deles para o almoço. Ana está a beira do fogão cozinhando e João passa atrás dela, dá um tapa em sua bunda, beija seu pescoço e diz algo como “É isso aí, cozinha direito”, o que leva Ana a esboçar um sorriso, retribuir o beijo, e lembrar que fez a mesma piada quando João cozinhou na semana passada. Júlia, uma feminista fervorosa e radical, tem direito de se indignar, e chamar João de imbecil e machista escroto? Pense bem aí…

 

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Para alguém que diz pregar a igualdade, isso me parece bastante absurdo, principalmente se levarmos em conta o tipo de palavreado que ela usou logo depois – e a Lola chamou simplesmente como uma “crítica não radical”, como demonstrou no tuit abaixo.

(+) Meu post ñ foi sobre uma piada ou pessoa, mas sobre UM PADRÃO.Quem vir os tweets verá q eu (ou @_julinha) ñ fomos as radicais da história. [Link]

E pior: em sua visão, Lola diz que Pablo é que deveria simplesmente não ter reagido as críticas (ele não tem o direito, aparentemente), ou simplesmente deveria ter ignorado Júlia (me pergunto por que ela não fez o mesmo, ou dirigiu o mesmo comentário a Julia?).

@brunotasca Quem podia(devia)ter tido atitude diferente ñ fui eu, mas o Pablo.Ele tb podia ter ignorado a @_julinha, ou mandado só 1 tweet. [Link]

Esse comportamento de achar que somente a interpretação dela é válida é que para mim parece um padrão (parece, não será com dois ou três exemplos que chamarei algo de padrão), como ela deixa claro em uma série de textos dela. Em outras palavras: a Júlia estava em seu direito de escrever impropérios contra a esposa de Pablo, mas ele não estava em seu direito de fazer piadas que elas classificaram como “machistas”. Mais uma prova tuitada desse comportamento quase paranóico? Toma:

Como tem feminista q se despreza! RT @joaopdias_m Feminista q se preze tem q lutar é por direitos,igualdade.Ñ por besteiras culturais! [Link]

Outro problema é a interpretação dela da piada em comparação com um outro texto dela que falasobre a humorista Sarah Haskins: para ela, TODAS as mulheres podem ser compradas com cartão de crédito (ou dinheiro, bens materiais, em essência) e nessa piada não há espaço para outra interpretação, segundo ela mesma. Já os vídeos da Sarah – uma feminista que satiriza a forma como homens são retratados por propagandas destinadas as mulheres, principalmente de utilidades do lar – são apenas “críticas engraçadas”.

Em um trecho do tal texto ela diz:

Sarah começa dizendo que ser mulher não é fácil, já que a gente trabalha e cuida dos filhos e da casa, sem a ajuda daquelas bestas conhecidas como… nossos maridos.

Em outro trecho:

O primeiro pedacinho de comercial do segmento da Sarah mostra um pai tentando preparar o café da manhã dos filhos, que olham assustados. Sarah diz: “Gastei cinco anos pra fisgar esse cara. O motherf***er [Nota do FiliPêra: eu traduziria como “filho da puta” mesmo] não sabe nem preparar café da manhã”. Ela se frustra que os homens não consigam fazer as coisas, porque, afinal, lembra de como o seu amor era nos comerciais antes de se casar? Ele andava em carrões, paquerava mocinhas, se divertia com os amigos… Tudo acabou quando ele conheceu você e se casou. “E agora ele é ligeiramente mais burro que um cachorrro”. Hahahaha.

Ela termina o texto dizendo que “Ah, dá pra passar o dia todo gargalhando”, e está certa. É fácil entender que todos os esquetes representados por Sarah são piadas que ridicularizam estereótipos criados por empresas de publicidade, ou similares. Da mesma forma que a piada do cartão é uma crítica a existência de estereótipos entre o pensamento de certas classes sociais – incluindo várias mulheres.

 

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Em outro tuit, a Julinha responde exatamente o motivo de Eu não defender minorias:

O mais engraçado é ver um bando de homens vindo socorrer o amiguinho. Solidariedade machista.

Percebe a mensagem? Se ELA e a LOLA rotularam a piada de machista, NINGUÉM pode pensar diferente; fazer isso é “solidariedade machista”. É a mesma lógica do “cala a boca” dela em outro tuit. Da mesma forma que me parece estranho – para alguém que diz querer a igualdade – usar adjetivos como “escroto” e “imbecil” para responder uma piada consideraram preconceituosa. É estranho ela não ter a mínima capacidade de reconhecer que está reproduzindo o mesmo tipo de comportamento preconceituoso que diz combater.

Pablo Luthor

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Twitter | 96 comentários

(Post adaptado e complementado a partir de twittadas)

Acabei de dar block nuns 20 da gangue que julga sem conhecer, que condena sem saber o contexto. Para terem uma ideia de como é patrulha: um sujeito linkou para um post me condenando. Eu digo educadamente que ele desconsiderou o contexto. Ele pede explicações. Forneço. Ele pede mais. Forneço. Ele continua equivocado e me esforço para explicar mais. Depois de um tempo, vendo que ele já formou a opinião antes mesmo de me ouvir, digo que não vou me explicar mais e dou block. Sabem o que ele faz? Publica para seus seguidores: “Fui questionar o Pablo educadamente, ele me agrediu e me deu block.”

Esse é o nível da gangue. O povo fala tanto sem saber que já disseram que eu devia me desculpar “pelo POST MACHISTA no meu BLOG”. O tal “post machista no meu blog”? Um link no twitter para essa imagem

O tempo inteiro busquei responder com polidez: me xingaram de “machista/misógino/cafajeste” e atacaram minha filha de 3 anos. Do lado de lá, fizeram pouco até disso: acharam “divertido” eu ficar chateado com o ataque à minha pequena. Disseram que respondi com brutalidade a uma feminista e preferiram ignorar que foi ELA quem me agrediu e me xingou no início de tudo. E eu nem a agredi; fui irônico – minha arma favorita, como sabem. Aparentemente, por ser mulher, ela tinha o direito de me colocar nomes e me atacar com virulência; ao reagir com ironia, me transformei num demônio. E passaram a exigir que eu me desculpasse depois de ter sido atacado. Para continuar nas bandeiras de cartão de crédito: não tem preço.

Mas já vão 72 horas de ataques, ofensas, etc. A todo momento chegam tweets de pessoas dizendo que acho que posso “comprar as mulheres”, que sou o típico “machista” que acha que a feministas devem ficar caladas (hein?) e que fui eu quem comecei toda a polêmica ao “atacar as feministas”. (Repito: meramente respondi com ironia a uma seguidora que me agrediu verbalmente em função do link para a imagem do Mastercard.)

Tentei explicar o equívoco. Desculpei-me por um termo agressivo que usei no calor da raiva (o único que empreguei, por sinal). Incluí links para todos os vários textos que publiquei neste blog e no Cinema em Cena em defesa das mulheres, tentando levar aquelas pessoas a enxergarem que estavam me atacando sem conhecer o contexto da discussão (a agressão da moça) ou mesmo meu caráter. Tudo isso em vão, já que, do outro lado, uma “representante” feminista percebeu que me atacar lhe renderia cliques e pageviews, dedicando o fim de semana a me vilipendiar enquanto tentava posar de figura ponderada que estava “apenas tentando me alertar polidamente”. (Sim, foi a mesma que mais tarde escreveria ter achado “divertido” me ver chateado com os ataques à Nina – e não a linkarei aqui para não cair no seu jogo e enviar leitores para seu blog, já que já permiti que me usasse até demais.)

Então querem saber? Desisto. Elas descobriram a farsa e arrancaram minha máscara. Sou misógino. Sou machista. Sou racista. Sou anti-semita. Sou homofóbico. Detesto crianças e animais. Sou um monstro. Em resumo: sou um ser humano desprezível, vil, incorrigível. Não percam tempo em me seguir ou tentar me ofender. Porque não tenho conserto.

Querem saber até que ponto vai minha vilania? Eu torço pra Argentina. E ouço Rebecca Black todo dia. E GOSTEI do anúncio dos pôneis.

Mais do que isso: Rob Schneider merece um Oscar de melhor Ator; O Poderoso Chefão é uma fraude cinematográfica. E Michael Bay > Godard.

Outro dia, vi uma poça de lama no chão. Joguei o filho de um amigo nela para passar por cima sem sujar a sola do sapato.

Fui a um hospital de câncer para rir dos pacientes. E depois fui a um asilo e ofereci milho cozido aos velhos banguelas.

Na saída, uma criança pediu esmola. Dei a ela um maço de cigarros e um vidro de cola. E aí voltei pra casa e fui navegar em sites de pedofilia até o sono chegar.

Este foi um dia típico do cotidiano de Pablo Villaça, o vilão machista/misógino/cafajeste, o nêmesis da boa e heróica Lo(uc)la.

E agora com licença que vou ali estrangular um cachorro. (Eufemismo para masturbação. Que praticarei enquanto literalmente estrangulo um cachorro.)

Só não aceito que digam que gosto de Crepúsculo. PORQUE HÁ LIMITE PRA TUDO!

E pra todos que me atacaram nos últimos três dias a mando de Lady Voldemort… aqui procês, ó:

7

Update: Postei um comentário final sobre minha posição logo abaixo.

Nojo

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Vídeos | 67 comentários

(Update: Quer ver algo ainda mais trágico? Então fiquem com isso: um menino incentivado por um “pastor” a vender os brinquedos para dar o dinheiro para a igreja enquanto é psicologicamente torturado ao ver a mãe com “o demônio no corpo”. Sinceramente? Os “pastores” e “obreiros” presentes neste vídeo merecem uma coisa só: a cadeia.)

Quem mora em BH, conhece o clã de pastores Valadão. Tenho ainda em fita (gravei por acidente e decidi guardar) o instante em que um deles, André, disse na tevê que seu novo CD “Milagres” estava, de fato, “operando milagres nas vidas daqueles que o haviam comprado”. É este tipo de discurso que me provoca repulsa nas religiões organizadas – e o vídeo abaixo, no qual outra Valadão avalia as roupas de suas fiéis, é igualmente repugnante. Vale apontar a afirmação: “Guarde o seu colo (dos seios); o seu tesouro, que é do seu marido”. Estamos em 2011 e, particularmente, acho inacreditável que alguém ainda trate a mulher como posse masculina e não receba vaias públicas. Vale apontar também que a família Valadão possui uma loja de roupas “cristãs”, o que ajuda a explicar a necessidade sentida por eles de estabelecer regras para o vestuário de suas seguidoras.

Como escrevi no twitter mais cedo: você pode até precisar acreditar em Deus, mas certamente não precisa de religião.

Amém?

Um Filme Sérvio e os ditadores do bom gosto

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões, Política | 62 comentários

(Update: Hoje, a partir de 20h30, estarei no Galpão Cine Horto, em BH, para exibição e debate de Um Filme Sérvio ao lado de vários colegas da crítica mineira como Marcelo Miranda, Marcelo Castilho Avellar, Renato Silveira, Rafael Ciccarini, Ursula Roesele, entre outros. Recomendo que os interessados cheguem cedo para pegar senha, já que a sessão é gratuita.)

Eu não gosto de Um Filme Sérvio

Não, permitam que eu reescreva esta frase: eu detesto Um Filme Sérvio. Trata-se de uma abominação cinematográfica. Seu roteiro é patético como suas “ideias”; sua direção é de uma incompetência que rivaliza apenas com a estupidez de sua trilha sonora; sua montagem é tão pedestre quanto sua fotografia. Como longa-metragem, esta imbecilidade escrita e dirigida por Srdjan Spasojevic mereceria ir parar no lixo da História do Cinema, sendo esquecido e ignorado por todos que amam esta Arte.

Assim, é com imensa frustração (e até mesmo um pouco de raiva) que me vejo na obrigação de defendê-lo. Gastar tempo, palavras e espaço com uma porcaria como Um Filme Sérvio é algo que me irrita profundamente – principalmente quando há tantas obras merecedoras destes mesmos tempo, palavras e espaço sendo ignoradas pelo público. Infelizmente, porém, o longa de Spasojevic tornou-se símbolo de uma discussão fundamental graças à estupidez de alguns legisladores e políticos, que, na tentativa de ditar o gosto alheio, acabaram oferecendo uma maravilhosa campanha publicitária – e gratuita – para a produção.

A esta altura, todos já conhecem a polêmica: prestes a ser exibido no RioFan, Um Filme Sérvio foi barrado pela Caixa Econômica, patrocinadora do evento e do espaço de exibição, que justificou sua atitude através de um release que concluía: “… a arte deve ter o limite da imaginação do artista, porém nem todo produto criativo cabe de forma irrestrita em qualquer suporte ou lugar”.

Foi uma atitude tola? Desnecessária? Impensada? Sem dúvida alguma – e manifestei esta posição no twitter assim que recebi o email enviado pela assessoria da Caixa. Dito isso, a instituição estava apenas exercendo seu direito ao cancelar a exibição. Como patrocinadora do evento, é natural que se preocupe com o tipo de conteúdo que irá apoiar direta ou indiretamente – e, no seu lugar, eu também teria receios de associar a marca a uma obra tão estúpida. Ainda assim, a análise do conteúdo do RioFan e a discussão com os organizadores/curadores deveria ter ocorrido antes do agendamento da sessão, não depois que todo o programa já havia sido divulgado, indicando uma tremenda falta de organização por parte do departamento de marketing cultural da Caixa.

No entanto, a coisa ganhou outra proporção quando uma liminar impetrada pelo DEM (este bastião da honra na política brasileira que chegou a mudar de nome para se distanciar da história que construiu como PFL e, antes disso, como Arena e UDN) barrou a exibição de Um Filme Sérvio no Odeon e em circuito nacional, associando-se à ação do procurador mineiro Fernando Martins que, ao impedir que o longa fosse submetido à classificação indicativa, conseguiu garantir na prática que a produção não chegasse aos cinemas.

E é aí que a discussão fica realmente interessante.

As justificativas do DEM e do procurador? De modo geral, a “imoralidade” e a “falta de gosto” de Um Filme Sérvio, bem como o excesso de violência presente na narrativa e os atos sexuais “degradantes” envolvendo necrofilia, incesto e até mesmo o estupro de um recém-nascido.

Eles estão certos quanto a isso. Um Filme Sérvio realmente é – ao meu ver (e ressalto isto para voltar à questão mais adiante) – uma produção de mau gosto. E, sim, a violência do longa soa gratuita, tendo claramente o propósito único de chocar em vez de construir uma narrativa que use estes abusos físicos/sexuais como forma de dizer algo (aqui e ali o diretor tenta estabelecer um paralelo entre os acontecimentos na tela e a história política e de guerras da Sérvia, mas estas tentativas são claramente cínicas, buscando fingir uma preocupação temática-social que simplesmente inexiste no roteiro). Assim, não posso discordar daqueles que encaram Um Filme Sérvio como um esforço baixo, repugnante e desnecessário.

O que eu não posso fazer, contudo, é usar estas minhas impressões para impedir que você assista ao filme e tire suas próprias conclusões. Pois, vejam só, quando eu digo que o longa é de extremo “mau gosto” ao meu ver, estou deixando subentendido que outras pessoas poderão enxergar nele uma relevância que para mim inexiste. Além disso, meu gosto não é universal (longe disso) – e certamente haverá alguém que se encantará com a abordagem de Spasojevic. 

E esta seria uma discussão puramente subjetiva, não legal. A Constituição e o Código Civil não estabelecem critérios para o que seria “bom gosto” – e nem poderiam. Assim, é extremamente preocupante quando a desembargadora Gilda Maria Dias Carrapatoso mantém a proibição do filme ao alegar que “não se pode admitir que, em nome da liberdade de expressão, cenas de extrema violência física e moral, inclusive utilizando recém-natos, sejam levadas ao grande público, vez que podem provocar reações adversas, às vezes, em cadeia, em pessoas sem equilíbrio emocional e psíquico adequado para suportar tais evidências de desumanidade”. (Aliás, desembargadora, “espectadores” é com “s”, não “x”.)

Ora, de imediato levanto algumas questões:

1) “Não se pode admitir que, em nome da liberdade de expressão, cenas de extrema violência sejam levadas ao grande público”? Como assim? Como ela pode tentar conciliar ideias como “liberdade de expressão” e “não se pode admitir”? Ou temos liberdade de expressão ou não – e os limites desta devem ser ditados pela Lei, não por impressões pessoais e subjetivas sobre os efeitos da representação da violência na tela. E não se iludam: são impressões pessoais e subjetivas. Além disso, como isto não se aplicou a, digamos, O Albergue, Turistas, Encarnação do Demônio e tantos outros projetos similares? A Lei não pode ter pesos e medidas diferentes.

2) Se formos barrar tudo que pode provocar “reações adversas” em “pessoas sem equilíbrio emocional e psíquico adequado”, peço que incluam na fila obras como Impacto Profundo, Clube da Luta e Os Smurfs, porque sempre haverá pessoas que se deixarão afetar por algo que, para o resto da  humanidade, é absolutamente inócuo. Da mesma forma, dizer que Um Filme Sérvio “estimula a pedofilia” é um argumento de assombrosa estupidez – ou devemos acreditar que há quem assista ao filme e pense: “Taí, gostei! Vou estuprar um recém-nascido!”? Além disso, se as autoridades quiserem bancar as babás de toda a população, protegendo-as daquilo que julgam “perturbador”, já podemos prever que todo o poder judiciário entrará em colapso com a sobrecarga infinita de trabalho – e eu mesmo entrarei com  uma liminar que barre no Brasil  toda a filmografia de Rob Schneider.

Mas em toda esta briga há um único argumento levantado por defensores da censura prévia que merece alguma – mas não muita – discussão: trata-se do Estatuto da Criança e do Adolescente, que, em seu artigo 241, estabelece ser proibido:

Simular a participação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica por meio de adulteração, montagem ou modificação de fotografia, vídeo ou qualquer outra forma de representação visual.” Neste caso, quem comercializar este produto também estará sujeito às penas previstas.

Um Filme Sérvio, a rigor, faz isso? Sim, faz. Mas aí a questão é de interpretação da lei. Em primeiro lugar, ela foi concebida para proteger jovens da exploração sexual – e claramente tinha como intenção coibir a pedofilia e o mercado sexual envolvendo crianças. Ora, Um Filme Sérvio é claramente um filme de ficção (o bebê “estuprado” no longa é um boneco óbvio, sendo impossível confundi-lo com um recém-nascido de carne e osso): assim, quando assistimos à produção, não há dúvida alguma de que o que estamos vendo não é real – justamente o efeito oposto do que buscam os canalhas que produzem vídeos pornográficos de pedofilia para comercialização entre criminosos sexuais. Usar uma lei criada para proteger crianças de crimes reais com o objetivo de barrar uma obra de ficção é uma atitude não só desonesta e irresponsável, mas também imoral, já que leva ao risco de que a lei seja revisada e enfraquecida, tornando-a inócua para coibir perigos reais, não imaginários.

Além disso, novamente há a questão dos pesos e medidas diferentes: por que Baixio das Bestas não foi igualmente barrado? Ou Lolita? Beleza Americana? Festa de Família? Sobre Meninos e Lobos? Dúvida? A Promessa? South Park? A única diferença entre estes e Um Filme Sérvio é, mais uma vez, o “bom” e o “mau” gosto, não a interpretação da Lei em si, que poderia se aplicar a todos eles em maior ou menor grau. E repito o mais importante: em nenhum deles, incluindo o trabalho de Spasojevic, acreditamos por um segundo sequer que uma criança foi realmente submetida à exploração sexual – e impedir isto é a alma do artigo 241.

A conclusão é que, se alguns casos são ignorados pela justiça e outros combatidos, isto passa a não ter nada a ver com a Lei, mas sim com Política – e a Lei jamais pode ser seletiva, por qualquer motivo que seja. Ou alguém duvida (como bem apontou meu amigo Pedro Olivotto, responsável pelo Belas Artes de BH) que a história seria completamente diferente caso Um Filme Sérvio estivesse sendo distribuído pela Fox Films do Rio em vez da Petrini Filmes do Maranhão?

Toda esta polêmica, por fim, me lembra de alguns dos belos discursos feitos pelo personagem de Edward Norton em O Povo Contra Larry Flynt – vários dos quais são reproduções na íntegra das defesas apresentadas pelo advogado de Flynt, Alan L. Isaacman, em julgamentos ao longo dos anos:

“Estamos discutindo uma questão de gosto, não de Lei. E é inútil discutir gosto – muito menos nos tribunais. (…) Na verdade, tudo o que esta discussão faz é permitir a punição de discursos impopulares (…) – e estes são vitais para a saúde da nação. Não estou tentando convencê-los de que deveriam gostar do que Larry Flynt faz (ou, no caso, de Um Filme Sérvio). Eu não gosto do que ele faz. Mas o que eu gosto é de viver num país onde você e eu podemos tomar esta decisão por nós mesmos. Eu gosto de viver num  país no qual eu possa pegar a revista Hustler, lê-la se quiser ou atirá-la no lixo se acho que é ali é seu lugar. Ou não comprá-la. Gosto de ter esse direito, me importo com ele. 

E vocês deveriam se importar com ele também, porque vivemos num país livre. Dizemos muito isso, mas às vezes nos esquecemos do que significa. Vivemos num país livre. Esta é uma ideia poderosa, é um jeito maravilhoso de se viver. Mas há um preço para esta liberdade, que é, às vezes, termos que tolerar coisas das quais não gostamos necessariamente. Então vocês devem pensar se querem tomar esta decisão por todos nós. Se começarmos a cercar com paredes aquilo que alguns de nós julgam como sendo obsceno, acordaremos um dia e perceberemos que surgiram paredes em lugares que jamais esperaríamos que surgissem. E aí não poderemos ver ou fazer nada. E isto não é liberdade”.

É exatamente assim que me sinto. Eu abomino Um Filme Sérvio. Mas defenderei até o fim o seu direito de vê-lo, de ignorá-lo, de atacá-lo ou de considerá-lo “imoral”.

Mas jamais de proibi-lo.

Ameaçado

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política, Twitter | 43 comentários

Ao longo dos últimos anos, recebi por email uma infinidade de mensagens de ameaças (todas relacionadas à religião e às causas gays), mas hoje, pela primeira vez (ao menos que me lembre), fui ameaçado publicamente:

O tal “homens honrados” (em aspas gigantescas, por favor) é um fórum no qual um grupo de indivíduos anônimos se reúne para ventilar seus preconceitos e fantasias de vingança machistas. São, como escrevi no twitter em resposta a esta mensagem, fósseis ambulantes, elementos vestigiais da evolução da humanidade, como os sisos – e, também como estes, fadados à extinção eventual. Aliás, logo um colega troglodita do sujeito se uniu às ameaças e ofensas:

O curioso é que para alguém que se coloca tão contra a homossexualidade, “Mister Blonde” não parece perceber o caráter sugestivo de seu próprio avatar, o que apenas me leva a concluir que, de fato, entre os homofóbicos há muitos que agem com ódio por temerem a própria natureza e os próprios impulsos gays. Direcionando o pânico em forma de ódio para o mundo exterior, tentam sufocar a própria orientação. Triste. E patético.

Seja como for, o fato é que estou sendo ameaçado por homofóbicos, processado por Newton Cardoso e insultado por crepusculetes e transformetes. 

Alguém aí pode fazer um vídeo “It Gets Better” para me animar? Wink

Update: Outra.

Os gays vencerão

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 77 comentários

Não vou escrever um longo post – já empreguei milhares de palavras na discussão da causa homossexual neste blog -, mas preciso dizer algo a respeito do discurso homofóbico da ex-atriz e agora deputada Myrian Rios: opor-se aos homossexuais apenas por princípio já é uma postura estúpida e irracional por natureza (é o mesmo que opor-se a negros ou anões), mas equiparar homossexualidade e pedofilia já ultrapassa a fronteira da imbecilidade e atinge o território do crime. Ter uma mulher dessas como deputada é uma afronta maior do que a de ter um Tiririca congressista. Voto no palhaço analfabeto, mas não nos dejetos humanos como Rios e Bolsonaro. A falta de cultura é contornável; a de caráter, não.

Dito isso, meu único consolo é saber que criaturas como estes dois projetos mal-acabados de seres humanos estão fadados à extinção – ou, ao menos, à posição de relíquias ou de anacronismos ambulantes. A causa gay está destinada ao sucesso – e aqueles que tentarem derrotá-la estarão apenas condenando-se ao papel de bárbaros desprezíveis.

Ao comentar sobre a tragédia recente numa escola do Rio, escrevi que somos uma espécie de natureza essencialmente bondosa – e acredito nisso. Mais: me parece óbvia nossa evolução ao longo dos séculos e das últimas décadas – e esta evolução, na melhor aplicação darwinista, implica no isolamento e eventual extinção daqueles que não se adaptarem à nova realidade. 

Ora, no mesmo dia em que Myrian Rios fez seu discurso pavoroso na assembléia do Rio, linkei esta matéria do The Independent sobre um casal de homossexuais que, juntos há 60 anos, finalmente irão se casar graças à aprovação do matrimônio gay em Nova York. Reparem: quando eles se conheceram, a homossexualidade era crime em todos os estados norte-americanos.

Hoje, a proporção da população que aprova o casamento gay é de 2 para 1 entre aqueles com menos de 35 anos de idade.

Somos cada vez mais tolerantes enquanto espécie – e a estatística acima comprova isso. E a tendência é a de que as novas gerações sejam ainda mais liberais que as anteriores. Não duvido que em mais alguns anos a intolerância sexual se tornará crime. Os jovens se encarregarão disso.

E quando isto acontecer, figuras como Myrian Rios, Bolsonaro e Silas Malafaia serão considerados espécimes tão absurdos quanto o motorista de ônibus que quis obrigar Rosa Parks a ceder seu lugar no ônibus a uma passageira branca.