Discussões

Fazer comédia não é fácil

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Vídeos | 88 comentários

Sempre tive imenso interesse por comédia e pelo stand up em especial. Li e leio constantemente sobre o assunto e me considero um relativo conhecedor da História, da evolução e dos grandes nomes do stand up. Assim, é com certa segurança que posso dizer: Louis C.K., George Carlin, Richard Pryor, Bill Hicks, Andy Kauffman, Lenny Bruce, Russell Peters, Eddie Murphy, Sarah Silverman, Steven Wright, Sam Kinison, Ricky Gervais, Chris Rock, Dave Chappelle, Eddie Izzard, Cedric the Entertainer, Lewis Black e Bill Maher – nenhum destes grandes comediantes construiu carreira no stand up fazendo humor fácil ou politicamente correto. Ao contrário de outros grandes nomes como Seinfeld, Steve Martin, Robin Williams, Albert Brooks, Bill Cosby, Johnny Carson, Jim Carrey, Mitch Hedberg e David Cross, que fazem (ou faziam) uma comédia mais observacional e “limpa” (ou, no caso de Martin, surreal o bastante para fugir de categorizações fáceis), os integrantes da lista inicial primam por extrair do desconforto ou da quase ofensa a centelha cômica perfeita.

Seja Pryor comentando sobre a necessidade do primeiro presidente negro de manter-se em movimento para evitar ser baleado, Murphy imaginando Mr. T como um amante gay ou Bill Hicks exaltando a importância de artistas que se entregam ao sexo e às drogas, o fato é que a comédia, quando realizada com inteligência, pode cruzar fronteiras que uma retórica mais sisuda jamais ganharia permissão para atravessar. Se alguém dissesse que crianças judias não ganham presente no Natal por não acreditarem que Jesus era o filho de Deus, a acusação de anti-semitismo (ou, no mínimo, de estupidez) seria justificada, mas quando Sarah Silverman pergunta se “Claus” (leia-se: Santa Claus ou “Papai Noel”) é um “nome alemão” e canta “Você fez uma lista e eu a chequei duas vezes / E não há ninguém chamado Silverman, Moscowitz ou Weitz”, percebemos o absurdo da lógica religiosa e rimos do comentário sem receio de sermos rotulados de preconceituosos.

Pois não deve haver limite nos temas abordados na comédia – e sim na forma com que esta é desenvolvida. Em outras palavras: o Holocausto não é verboten (desculpem, não resisti) como tópico de stand up, mas o comediante disposto a abordá-lo deverá ter inteligência o bastante para fazê-lo de forma que: 1) Ofereça algo de relevante sobre o assunto; 2) Seja genuinamente engraçada (claro); e 3) Não transforme suas vítimas em piada barata.

Algo que Gervais fez de maneira brilhante, por exemplo, ao imaginar uma conversa entre Nietzsche e Hitler:

Enquanto isso, o brasileiro Danilo Gentili, comentando os protestos da tola “nata paulista” contra a implementação de uma estação de metrô em Higienópolis, bairro com grande população de judeus, opta por soltar no Twitter a seguinte “piada”:

– Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz!!!

De uma só tacada, Gentili transformou a verdadeira questão (a postura ridícula da elite conservadora paulista) em uma piada anti-semita gratuita, tola e que não só não fugia completamente da discussão que a inspirara como ainda ridicularizava cruelmente os seis milhões de judeus mortos por Hitler. Como se não bastasse, o excesso de exclamações ainda demonstra que o timing cômico reside até em detalhes como a pontuação, já que o “!!!” sugere um tom auto-congratulatório que torna o tweet ainda mais estúpido e sem graça.

O problema de Gentili (e, de modo geral, do humor de seus companheiros de CQC) não é abordar temas polêmicos, mas sim não saber fazê-lo. Figuras como ele, Rafinha Bastos, Marcelo Tas ou os integrantes do Pânico vão sempre direto ao menor denominador comum, pensando na piada mais óbvia e atirando-a sem reflexão no mundo, tentando ganhar destaque pelo volume de gags, não pela qualidade destas ou pela reflexão que poderiam inspirar.

Aliás, já que falei em Bastos, o sujeito, que se vangloria por fugir do “politicamente correto”, não parece perceber que há uma diferença gigantesca entre ser ofensivo e engraçado. Em uma apresentação recente, por exemplo, ele resolveu adotar o “estupro” como maneira de tentar soar corajoso em seu humor ao cruzar barreiras. Até aí, ok. O bom comediante deve mesmo buscar desafios. Mas qual foi a “piada” criada por Bastos?

– Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço.

Em primeiro lugar: cadê a piada? Não, sério: onde está a piada? Provavelmente, no “feia pra caralho”, já que comediantes medíocres como Bastos costumam apostar no palavrão e no choque como forma de garantir risadas fáceis (e infelizmente conseguem, já que certa parcela da audiência parece sempre ter parado na adolescência, quando falar palavrões era algo fabuloso por si só). Fora isso, não há nem mesmo a tentativa de uma piada ali.

Agora vejam o que o fabuloso Louis C.K. faz com o tema “estupro”:

Ele não só “defende” o estupro em certas circunstâncias como ainda, unindo três temas explosivos (estupro, pedofilia e o Holocausto), diz que, se voltasse no tempo e encontrasse Hitler ainda criança, estupraria o garoto.

Esta é a diferença entre alguém que sabe usar o humor como arma, escudo e provocação, e alguém como Bastos ou Gentili, que acha que ofender de maneira adolescente um grupo de pessoas é engraçado por natureza.

Neste sentido, a comédia stand up é como um espetáculo envolvendo carros em alta velocidade: deveria ser deixada para os profissionais.

Cinema: uma Arte na qual todos são especialistas

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 50 comentários

Em seu mais recente post no blog “Observations on film art”, que divide com o marido e igualmente brilhante David Bordwell, a acadêmica Kristin Thompson discute a freqüência com que ouve a pergunta “Qual é seu filme favorito?” sempre que se identifica como teórica da Sétima Arte. Buscando compreender o que leva as pessoas a esta indagação, Thompson chega a uma interessante conclusão sobre o pouco respeito (ou, no mínimo, a falta de seriedade) com que o Cinema é encarado enquanto expressão artística. É uma discussão que, inclusive, remete a outra recente aqui do blog sobre a importância que, particularmente, confiro ao embasamento necessário a um crítico profissional.

Diz Thompson (tradução minha. Para ler o artigo na íntegra, em inglês, clique aqui):

“Tento imaginar se estudiosos de ópera ou poesia ouvem perguntas como esta em festas. Será que alguém que acabou de ser apresentado a eles pergunta qual é sua ópera ou poema favorito? Talvez. Eu não perguntaria. Minha reação típica ao descobrir que um estranho é professor de algo é perguntar qual sua área de especialização na esperança de que seja algo sobre o qual eu saiba um pouco a respeito. (…)

Acho que as pessoas têm mais facilidade de perguntar “Qual é, na sua opinião, o melhor filme de todos os tempos?” do que “Qual é, na sua opinião, a melhor ópera de todos os tempo?” porque o Cinema ainda é considerado com menos seriedade como uma forma de arte do que as expressões artísticas mais “nobres”. A maioria das pessoas acha que entende mais de filmes do que de óperas porque, de modo geral, vêem mais filmes do que óperas. O fato de que uma dieta regular de filmes hollywoodianos bem criticados ou mesmo indicados ao Oscar representa apenas uma fatia minúscula do universo de longas feitos até hoje não ocorre a estas pessoas. O mesmo ocorre até mesmo com aqueles que ocasionalmente assistem a uma produção independente ou estrangeira. (…)

Mas este tipo de pergunta não parte apenas de vizinhos que encontro em festas ou recepções. Parte também de professores universitários que são, eles próprios, especialistas em outras formas de arte. Eles provavelmente se sentiriam, como intelectuais dotados de bagagem, compelidos a saber um pouco mais sobre as outras artes – exceto Cinema. David [Bordwell] conversava certa vez com um estudioso de Literatura que teria ficado chocado caso alguém em uma universidade nunca tivesse ouvido falar de Faulkner ou Thomas Mann. Porém, quando David disse que admirava muitos filmes japoneses, o acadêmico perguntou, incrédulo: “Aqueles filmes de Godzilla?”.

Este é o cerne da questão que me deixa aborrecida ao ouvir a incômoda pergunta do “melhor filme/filme favorito”. Se é um não-acadêmico quem pergunta, minha resposta tende a interromper a conversa, o que é lamentável. Mas qualquer um tem o direito de amar o filme que quer amar e de acreditar, se assim quiserem, que Avatar é o melhor filme já produzido.

Mas quando se trata de um estudioso que alega ser conhecedor das artes que me lança um olhar vazio quando menciono A Regra do Jogo ou qualquer uma das demais obras-primas do cinema mundial, eu realmente o critico mentalmente. É mais importante saber da existência de O Orfeu de Monteverdi ou do As Meninas de Velázquez do que de um filme de Renoir? É óbvio que eu diria que não. No entanto, não creio que estes acadêmicos se sintam particularmente embaraçados por não reconhecerem o título de um mero filme. (…)

Uma observação final: se algo que eu disse aqui soar “elitista”, talvez você deva considerar o amplo movimento que vem ocorrendo em nosso país (N.T.: e no Brasil também), especialmente na extrema direita, e que iguala qualquer tipo de aprendizado com elitismo.”

Update: Aproveito para rememorar este post que publiquei ano passado: “Pra que serve a crítica?“.

Saldanha

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões, Videocast | 286 comentários

Hoje, depois de alguns desentendimentos no twitter, Maurício Saldanha e eu conversaremos (civilizadamente, espero) em streaming ao vivo. Linkarei aqui.

Update (17/02): Confiram abaixo a íntegra da conversa:

Update 2 (18/03): Recebi emails e twittadas de leitores dizendo que não estavam conseguindo assistir à conversa. Verifiquei o problema e, infelizmente, o vídeo com o debate foi retirado do ar. Jurandir Filho, dono do canal no qual ele estava hospedado (e que não deve ser culpado por isso), explicou no Twitter que “uma das partes” solicitou que o vídeo fosse removido. (Aproveito para esclarecer que a tal “uma das partes” não fui eu.) Particularmente, acho lamentável: fui convidado para o debate pelo Saldanha, me dispus a participar (algo pelo qual ele inclusive agradeceu no início da conversa, dizendo que “não esperava que eu fosse aceitar”) e gastei quase duas horas do meu tempo na conversa. Se eu soubesse que haveria o risco de que o papo fosse simplesmente deletado posteriormente, teria exigido hospedá-lo eu mesmo. Vacilo meu.

Uptade 3 (19/03): O leitor Humberto Gomes, que havia gravado o debate, o disponibilizou na íntegra no Vimeo. Obrigado, Humberto!

Por que o MinC está certo em autorizar Maria Bethânia a captar 1,3 milhão para seu blog

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política, Variados | 204 comentários

Se eu fosse um troll querendo irritar propositalmente meio mundo, este seria o título de um post dedicado a defender o deferimento do projeto de Maria Bethânia.

Mas não sou e este post não fará isso.

Porque não há como defender um absurdo como este. Sim, a Lei Rouanet é, hoje, um dos principais mecanismos fomentadores da cultura brasileira. É um sistema imperfeito, repleto de falhas, mas é o que temos – e, bem ou mal, tem conseguido viabilizar uma infinidade de projetos importantíssimos que, de outra maneira, jamais sairiam do papel e que, ao saírem, se revelaram contribuições importantíssimas para a história cultural de nosso país. No entanto, é preciso que haja bom senso na avaliação das rubricas aprovadas – e esta foi claramente a falha grosseira aqui cometida.

Em primeiro lugar, há que se observar uma perversão do sistema representada pelo modo de captação em si: dos 1,3 milhão de reais aprovados, nada menos do que 130 mil reais (ou 10%) ficarão com a empresa responsável pela captação. É um valor ofensivo quando consideramos que é um dinheiro saído do bolso do contribuinte para, a rigor, apoiar um projeto de cunho cultural – não para enriquecer uma empresa (ou, em muitos casos, laranjas) que fez a intermediação do negócio. A porcentagem da comissão deveria ser bem menor – e deveria, também, ter um limite quanto aos números absolutos relativos a cada projeto. 130 mil reais é um valor indecente. (Update: há um teto – ainda absurdo – de 100 mil reais por projeto.)

Dito isso, é importante avaliar o projeto de Bethânia. Esqueçamos, de cara, a interpretação ridícula da Foxlha, sempre disposta a criar factóides, de que o dinheiro tem como objetivo a criação de “um blog”. Colocado nestes termos, é claro que a revolta se torna maior, já que todos aqui sabem que o custo de criação de um blog – mesmo com software e layout proprietários – não chegaria a 5% do valor aprovado. Não, o projeto prevê a produção de 365 vídeos, o que é bastante diferente.

Ignoremos, por um momento, o valor de produção e manutenção do blog em si e consideremos que todo o dinheiro seria investido na produção das peças. R$ 1,17 milhão (já descontados os 10% dos captadores) dividido por 365 resultaria em um valor bruto de R$ 3.205 reais por vídeo – algo muito mais razoável de se aceitar, mesmo que o interesse despertado por um projeto como este junto à população seja mínimo (algo que não devemos jamais levar em consideração, posto que a lei não pode e nem deve tentar avaliar subjetivamente o alcance popular de uma iniciativa cultural, o que prejudicaria artistas dispostos ao choque e ao novo).

A pergunta, então, deveria ser: três mil reais por vídeo é um valor tão absurdo assim? Impulso inicial de quem sabe como é caro produzir audiovisual: não, não é. (Especialmente porque não estamos falando de um vlog produzido por um Felipe Neto da vida em seu quarto na casa da avó enquanto vomita obviedades, mas de algo protagonizado por uma das maiores representantes de nossa música e dirigido por um de nossos cineastas mais bem-sucedidos, Andrucha Waddington.)

Mas basta analisar a lógica por trás da produção para ver que, sim, o valor é absurdo. Porque, a rigor, não estamos tratando de 365 produções individuais que envolverão pré, filmagem e pós isoladas, mas de um grande projeto que envolverá estas três etapas em um momento único (e se não for assim, então os produtores são picaretas e desorganizados). Dita o bom senso que todos os vídeos provavelmente serão produzidos no espaço de um ou dois meses e que não terão, individualmente, mais do que 3-5 minutos cada – e a não ser que cada peça seja ambientada em um cenário absurdo como um dos braços do Cristo Redentor, uma base submarina e a Lua, é lógico supor que o grosso do trabalho será feito em estúdio.

Igualmente razoável é imaginar que a montagem dos vídeos não será uma destas loucuras experimentais que envolverão centenas de horas de pesquisas de imagens de arquivos, já que o projeto é centrado em Maria Bethânia e mantê-la fora de campo seria uma ofensa ao contribuinte.

Temos, então, uma ou duas semanas de diárias de estúdio, produção de figurinos, cenários (estou pensando grande), equipe de filmagem (reduzida,  já que não posso acreditar que Waddington vá investir em uma decupagem muito complexa para 365 vídeos de Internet) e as dezenas de horas de ilha de edição (e repito: estamos falando de vídeos de 3-5 minutos envolvendo Bethânia recitando poesias).

Um milhão, cento e setenta mil reais por isso?

Aí, sim, a palavra “absurdo” pode ser dita com propriedade. (E não como a Foxlha e tantos outros blogueiros apressados fizeram ao repetir uma acusação sem qualquer embasamento ou estudo mais detido da natureza da projeto.)

Claro que, para ser completamente justo, eu (na verdade, qualquer um) só poderia bater o martelo nesta acusação depois de estudar a planilha de custos apresentada pelos proponentes ao Ministério da Cultura. Mas ainda assim, considerando a logística da produção e uma experiência básica em audiovisual, a conta ainda soa exageradamente salgada e fora de propósito.

Especialmente quando consideramos que Bethânia já foi beneficiada pelo MinC há pouco tempo depois que uma comissão do ministério deu parecer negativo ao seu pedido de captação apenas para que Juca Ferreira ignorasse a opinião de seus próprios técnicos e concedesse à cantora a autorização para captar outra fortuna.

Bethânia é – e me perdoem o clichê faustosilvano – um monstro sagrado de nossa cultura. Mas isto não quer dizer que ela tenha o direito de enfiar as mãos em nossos bolsos desta maneira – especialmente por um projeto que qualquer produtor competente faria (e muito bem feito) por um terço do valor aprovado.

E a vocalista do Doces Bárbaros certamente concordaria comigo quanto a isso.

Update: Para ler o projeto aprovado, clique aqui (154,53 kb). (Obrigado ao Otávio Ugá por enviá-lo.)

Observação: 600 mil reais para a “diretora artística” (leia-se: Maria Bethânia). Inaceitável. (E observem que, sem este valor, o custo aproximado fica em torno do 1/3 que calculei em meu post.)

Update 2: O valor inicial do projeto era 1,8 milhão. O MinC aprovou “só” 1,3 milhão. Deveria ter cortado mais fundo; o projeto é bom, mas não a este preço.

Update 3: O leitor Narcélio Filho, nos comentários abaixo, aponta que o texto enviado pelos proponentes ao MinC inclui trechos retirados da Wikipédia sem citação da fonte. Esta história fica mais patética a cada minuto que passa.

Update 4: A cópia da Wikipedia é mais patética do que imaginei. Sabe aquele aluno que cola na hora da prova e, sem notar, escreve coisas como “Assim como vimos no capítulo 27” ou “Vide apêndice 3”? Pois é, os proponentes do projeto fizeram coisa parecida no seguinte trecho:

“Entre os filmes estão o longa-metragem 2 filhos de Francisco, de Breno Silveira, que teve uma bilheteria de mais de 5,3 milhões de espectadores aos cinemas em 2005, maior público do cinema brasileiro nos últimos 25 anos.[carece de fontes?]”

“Carece de fontes”?

Update 5: Recebi de uma fonte que prefiro manter anônima, a fim de evitar problemas para a mesma, a planilha de custos readequada do projeto. Há várias modificações feitas em função do valor menor aprovado (cerca de 500 mil reais), mas o que mais me chamou a atenção é que o valor destinado à própria Maria Bethânia, inacreditáveis 600 mil reais, permaneceu inalterado. A justificativa apresentada no projeto que recebi:

“Segundo resposta à diligência: De forma a readequar o orçamento, propomos novos valores para a remuneração da artista Maria Bethânia (antes designadas somente como direção artística total R$ 600.000,00), da seguinte forma:
Direção artística: R$ 100.000,00
Seleção de textos e pesquisa: R$ 135.000,00
Atuação em vídeos (365 videos): R$ 365.000,00
(Total: R$ 600.000,00)”

Update 6: O cineasta Jorge Furtado, um de nossos melhores e mais subestimados, escreveu um post em seu blog defendendo o projeto. Acompanho o blog de Furtado desde o início e é a primeira vez que discordo dele – e é uma discordância das mais significativas e por vários motivos:

1) Furtado, como homem inteligente, comete uma falsidade que não faz jus ao seu próprio histórico político ao argumentar que o projeto não envolve dinheiro público, mas apenas o direito dos realizadores “se humilharem” diante dos empresários (pobrezinhos). Ora, ele sabe muito bem que a renúncia fiscal é, por definição, dinheiro público: em vez de ir para os cofres do Estado, parte do imposto vai para o projeto, permitindo que as empresas transformem tributos em verba publicitária, já que sua marca será associada a um projeto cultural.

(Pra esclarecer: não tenho absolutamente nada contra isso. Como falei lá em cima, a Rouanet é imperfeita, mas viabilizou uma infinidade de projetos maravilhosos. E se permitir que as empresas divulguem suas marcas é um incentivador para que isto ocorra, ótimo. Mas não vamos fingir que não se trata de dinheiro público.)

2) Furtado parece acreditar que devemos dinheiro a Bethânia por seu histórico como artista. Sugere até que, em circunstâncias ideais, o governo deveria dar o 1,3 milhão de reais para a cantora com um “buquê de rosas e um cartão, pedindo desculpas pela confusão”. Desculpe, Furtado, mas o único dinheiro que, como fã de Bethânia, devo a ela é aquele que já entrego ao comprar seus CDs. Seguindo esta lógica absurda, deveríamos depositar fortunas nas contas não só de Bethânia, mas de Fernanda Montenegro, João Gilberto e – por que pararmos por aí? – dos herdeiros de Graciliano Ramos, Jorge Amado, Noel Rosa e companhia.

3) A atitude lamentável de Furtado em colocar no mesmo balaio todos aqueles que criticaram o projeto. Aparentemente, eu, com meu histórico de defesa esquerdista, agora sou irmão de alma de serristas, da Foxlha, Veja e etc. Em vez deste reducionismo ofensivo, Furtado talvez devesse analisar o projeto em si – como fiz neste post – em vez de usar generalizações que tentam despistar a essência do problema (como os absurdos 600 mil reais previstos apenas para Bethânia).

4) Prefiro nem comentar a argumentação de que os protestos revelam “preconceito contra a Internet” (minha carreira foi construída aqui) e “contra baianos” – apenas porque uma meia dúzia de imbecis resolveu fazer piadas a respeito da naturalidade de Bethânia.

Lamentável. Esta defesa cega só pode ser fruto de um corporativismo, de um coleguismo incapaz de críticas. Porque Furtado é um homem inteligente demais, íntegro demais, sensato demais para aprontar uma dessas. Continuo fã, mas a admiração incondicional se quebrou um pouco.

Update 7: Uma outra revelação grave relacionada ao projeto original: o texto apresentado ao MinC pelos proponentes traz a seguinte passagem ao descrever a equipe envolvida:

Agência de conteúdo para celular: Aorta Entretenimento
Empresa de Belo Horizonte especializada em aplicativos e produção de conteúdos para novas mídias. Em
seu portfolio de clientes, estão grande empresas como Claro, Oi, Globosat, Ig, Skol e Vivo.”

Pois o coordenador do núcleo de webradio da Aorta, meu amigo Rodrigo James, respondendo a uma indagação minha via twitter, fez o seguinte (e surpreendente) comentário:

“E se eu te falar que a gente nem sabia que tava lá? Foi surpresa pra todo mundo”.

A coisa só piora.

Update 8: Jorge Furtado deixou um comentário abaixo esclarecendo suas posições questionadas aqui. Peço que leiam, por gentileza.

Esclarecendo a questão nuclear no Japão (post de leitor)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Variados | 25 comentários

Há cerca de três anos, quando o assunto da moda era o iminente início das atividades do LHC (o acelerador/colisor de partículas), o leitor Caio Gomes, que é físico, enviou um email com o intuito de esclarecer algumas das dúvidas mais comuns que atormentavam os leigos (leia-se: eu). Agora, Caio retorna com mais um texto interessante e informativo sobre a situação das usinas nucleares no Japão. (A propósito: o blog dele pode ser acessado aqui.)

A crise nuclear do Japão, fisica nuclear e o acidente de Chernobyl – O que tem me deixado com raiva ao ler jornais nesse fim de semana

Vou tentar resumir aqui de maneira rápida o porque a reação geral da mídia (não só nacional ) tem sido extremamente exagerada pela questão das usinas nucleares no Japão, e como comparar com Chernobyl é completamente fora de propósito.

Uma usina nuclear funciona como uma grande panela de pressão: ela retira a energia térmica gerada pelo reator através de vapor, que é utilizada para movimentar turbinas. Esse calor é gerado por reações no reator, que vem a partir do decaimento do oxido de urânio em materiais menos radioativos.

A taxa de reação é controlada através de “barras de controle” que são inseridas no núcleo. Com isso as reações no reator podem ser paradas quase instantemente, sobrando apenas a radiatividade natural do oxido de urânio e dos produtos da reação de fissao (que deve parar em torno de uma semana).

No caso da usina japonesa, isso foi feito na sexta feira: Logo após o terremoto, as barras de controle foram utilizadas, e toda a reação nuclear de fissão foi interrompida. Todo o problema que estamos vendo é resultado apenas do calor gerado pelos produtos da fissão.

Este é o primeiro fato que precisa ser claramente observado: não há mais fissão sendo feitas no reator.

O problema agora é unicamente retirar o calor residual pelo reator. Como a usina parou de funcionar, e portanto as bombas que movimentam a agua, existe um sistema reserva a partir de geradores de diesel. Esses sistemas começaram a funcionar, mas foram destruídos pelo tsunami logo a seguir. Como uma terceira garantia, a usina foi projetada com uma bateria reserva (que entrou normalmente em funcionamento), que pode movimentar a agua por oito horas, até onde um novo sistema de geração deveria ser encontrado. Não sei o porque ainda, mas nesses oito horas não foi possível obter um novo sistema de geração de energia.

Mas para casos como esse (onde os dois primeiros sistemas de segurança não funcionam), os reatores são projetados ainda com três camadas de proteção. A primeira camada é uma cobertura de zirconio feita sobre o urânio. Esta camada de zirconio derrete a 2200 graus Celsius enquanto o urânio derrete a 3000 graus Celsius. A segunda camada de proteção é essa feita pela agua que circulam as barras de zirconio/urânio e que pode retirar o calor gerado.

Caso as barras de zirconio/urânio sejam expostas ( ou seja, a agua em torno de algum ponto delas evapore), estas barras começarão a derreter ( e uma vez completamente expostas devem derreter completamente em torno de uma hora). Para impedir esse derretimento, todo o reator é coberto por uma camada de concreto e aço progetada para resistir a todo tempo até o nucleo resfriar (indefinidamente, já que a temperatura de fusão destes materiais é mais alta que a temperatura de derretimento dos materias do núcleo).

Esta é a construção da usina: o que deve estar acontecendo então?

Com a falha dos geradores, passaram a trabalhar nos sistemas de contenção para impedir o derretimento do nucleo e para isso existem varios sistemas que vão tentar tirar o calor do nucleo. Outra preocupação é em retirar a pressão do nucleo, que poderia causar um rompimento do segundo sistema de contenção.

– esses gases não oferecem risco de contaminação, já que eles os elementos radioativos dividirão em elementos não radioativos em segundos. Além de gases não radioativos mas inflamaveis como o Hidrogenio. É esse hidrogenio que vem causando as explosões vistas nas noticias, ou seja, não relacionados a nada que ocorre no nucleo do reator.

– a analise do gás interno ao refrigerador poderia pode indicar se o derretimento parcial do nucleo está acontecendo, já que traços de Césio apareceriam caso o derretimento estivesse ocorrendo: traços de Césio começaram a aparecer nos gases ventilados do reator.

– Com indicios de derretimento, os técnicos decidiram usar agua do mar para impedir o derretimento como plano B. Ao que tudo indica, isso baixou a temperatura do reator 1.

Nos próximos dias a temperatura do reator ainda estará alta, mas cada vez menos problematica.  Há ainda riscos de explosões causadas pelo Hidrogenio ventilado, mas também será cada vez menos problematico.

E ainda lembro que em ultimo caso ainda teriamos a terceira camada de contenção que entraria em jogo caso o derretimento total do nucleo ocorresse.

No momento estamos no no segundo estagio: os técnicos estão tentando impedir o derretimento do núcleo, mas ainda não chegamos ao ponto de usar a ultima camada de proteção.


E Chernobyl?

E porque as comparações com Chernobyl são descabidas?

Primeiro a usina de Chernobyl usava um desenho diferente de reator: primeiramente o resfriante dela não era agua e sim carbono. E em segundo lugar, o terceiro recipiente de conteção  ( o de concreto e aço) não existia.

O que isso muda? O carbono, a altas temperaturas pode incendiar e vaporizar, levando o material do nucleo em seu vapor. Sem o terceiro compartimento de proteção, quando a pressão do reator aumentou e ele rachou, esse vapor foi lançado diretamente na atmosfera, levando pedaços do núcleo de urânio para a atmosfera.

Isso é importante: Em Chernobyl não foi uma explosão nuclear (como uma bomba).  Foi uma emissão de elementos radioativos na atmosfera (a famosa bomba suja) que causaram os danos de radioatividade. A simples existência do terceiro compartimento de segurança impediria esse lançamento na atmosfera e com isso os maiores danos de Chernobyl teriam sido evitados.

As usinas do Japão estão então protegidas de um acidente como Chernobyl, já que mesmo na época que Chernobyl foi construída já se sabia que aquele desenho de usina era inseguro.

 

O Rico Cinema Brasileiro

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 148 comentários

Dia desses, alguém fez um comentário no twitter comparando desfavoravelmente o cinema brasileiro diante do hollywoodiano – o tipo de injustiça que sempre me tira do sério. Já enfrentamos preconceitos demais em relação à nossa produção e, assim, ler este tipo de ataque é algo não só falso, mas perigoso. Há algum tempo, por exemplo, iniciei uma discussão com a diretora de Desenrola depois que esta, orgulhosa, retuitou um comentário feito pelo apresentador Pedro Bial no qual este, citando seu filho, elogiava o filme dizendo que “de tão bom, parecia americano”. Ora, se até mesmo cineastas brasileiros se mostram dispostos a reforçar esta impressão, como podemos esperar que o público prestigie nossas produções?

Infelizmente, porém, este preconceito é extremamente comum e indubitavelmente tem origem na vergonhosa qualidade da nossa filmografia durante a década de 80, quando técnica, temática e narrativamente produzimos os piores trabalhos de nossa História – algo compreensível se considerarmos o contexto político da época e a maneira equivocada com que a Embrafilme selecionava os projetos que iria bancar (o que tampouco justificou a decisão de Collor e Ipojuca Pontes de extinguí-la, destruindo nosso Cinema por cinco longos anos). O fato é que antes e depois deste período o Cinema brasileiro sempre se mostrou riquíssimo – e nosso passado traz não apenas cineastas admiráveis, mas também responsáveis por empurrar os limites da Sétima Arte em suas épocas (vide Mário Peixoto, Humberto Mauro e Gláuber Rocha). Da mesma forma, sempre defendi que temos os melhores documentaristas do mundo e mantenho esta posição sem hesitação.

Mas não só isso: em função de nossa imensa dimensão territorial, o Brasil se mostra imensamente diversificado em sua produção, já que temos pólos cinematográficos, maiores ou menores, em todas as regiões do Brasil (ao contrário dos Estados Unidos, que basicamente concentra sua produção nas costas Leste e Oeste, ou seja: Nova York e Los Angeles) – e só isto explica como, num mesmo ano, somos capazes de produzir obras tão distintas do ponto de vista temático, estético e narrativo quanto, por exemplo, Cidade Baixa, Cinema, Aspirinas e Urubus, Xuxinha e Guto Contra os Monstros do Espaço e Jogo Subterrâneo.

E, sim, citei um filme da Xuxa como exemplo desta diversidade, já que tampouco afirmei que não produzimos porcarias. Ora, quanto mais longas forem realizados, mais decepções serão lançadas – isto é uma questão de lógica e estatística. Ainda assim, somente nos últimos dez anos realizamos tantas obras admiráveis que, defendo com convicção, podemos facilmente nos considerar como uma das cinematografias mais ricas da atualidade.

Aliás, quando afirmei isso no twitter, um leitor me desafiou a listar vinte filmes que comprovassem isso.

Vinte?

Que tal… noventa?

1,99 – Um Supermercado que Vende Palavras
2 Filhos de Francisco
5 Frações de uma Quase História
Ainda Orangotangos
Além da Estrada
Amarelo Manga
O Amor Segundo B. Schianberg
Anjos do Sol
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias
Antônia – O Filme
Aqui Favela: O Rap Representa
Arquitetos do Poder
Batismo de Sangue
Bicho de Sete Cabeças
Bróder!
Cabra-cega
O Caminho das Nuvens
Caro Francis
A Casa de Alice
Casa de Areia
O Céu de Suely
Chega de Saudade
O Cheiro do Ralo
Cidade Baixa
Cidade de Deus
Cidade dos Homens
Cinema, Aspirina e Urubus
Contra Todos
Crime Delicado
Dois Perdidos Numa Noite Suja
Domésticas
Doutores da Alegria
Edifício Master
Em Trânsito
Estamira
Estômago
Feliz Natal
A Festa da Menina Morta
O Fim e o Princípio
Glauber, o Filme – Labirinto do Brasil
Hércules 56
O Homem do Ano
O Homem que Copiava
Hotel Atlântico
Houve uma Vez Dois Verões
O Invasor
Janela da Alma
Jogo de Cena
Justiça
Lavoura Arcaica
Linha de Passe
Loki – Arnaldo Baptista
Madame Satã
O Maior Amor do Mundo
A Máquina
As Melhores Coisas do Mundo
Memórias Póstumas
Meninas
Meu Tio Matou um Cara
Morte Densa
Mutum
Narradores de Javé
Nelson Freire
Nem Gravata Nem Honra
Nina
Uma Noite em 67
Ônibus 174
Peões
Pequenas Histórias
A Pessoa é para o que Nasce
O Poeta de Sete Faces
Pretérito Perfeito
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Redentor
Samba Canção
Saneamento Básico, O Filme
Santiago
Seja o que Deus Quiser!
O Senhor do Labirinto
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Terra Vermelha
As Três Marias
Tropa de Elite
Tropa de Elite 2
Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo
Vinícius
Vlado – 30 Anos Depois
Uma Vida em Segredo
Vocação do Poder

E percebam que deixei de incluir vários filmes que têm seus admiradores, mas dos quais particularmente não gostei (ou mesmo que detestei) ou que, mesmo gostando até certo ponto, não julgo merecerem figurar numa lista de “longas admiráveis”. Entre eles: Abril Despedaçado, Caramuru – A Invenção do Brasil, Carandiru, Cazuza, Chico Xavier, De Passagem, A Dona da História, Durval Discos, Encarnação do Demônio, Lisbela e o Prisioneiro, Lula – O Filho do Brasil, Meu Nome Não é Johnny, Nosso Lar, Olga, O Outro Lado da Rua, A Partilha, Proibido Proibir, Quase Dois Irmãos, Se Eu Fosse Você, O Xangô de Baker Street e Zuzu Angel. Além disso, mesmo admirando-as, evitei incluir co-produções com outros países, como Um Passaporte Húngaro, Diários de Motocicleta, Ensaio Sobre a Cegueira, José & Pilar, O Banheiro do Papa e Lixo Extraordinário, embora a participação brasileira nestes projetos seja de importância indiscutível.

Agora… se depois de ler esta lista alguém ainda insistir em associar o nosso Cinema com as porcarias produzidas ao longo de apenas uma única década em meio à nossa riquíssima  e extremamente diversificada trajetória cinematográfica, bom… aí o caso é de cegueira. Ou de puro preconceito.

Update: É claro que, como toda lista, esta encontra-se incompleta. Eu a compilei basicamente dando uma rápida olhada nas minhas listas de fim de ano e, assim, certamente há vários longas que mereciam estar ali e ficaram de fora por esquecimento ou porque simplesmente eu não os vi. Corrijam as injustiças nos comentários. 😉

Update 2: Acho que não fui muito claro: a lista acima inclui apenas filmes lançados de 2001 em diante.

Dez Regras para Salvar os Cinemas

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 118 comentários

Que o público de cinema tem diminuído significativamente, todos já sabem. Alguns culpam a pirataria; outros, o preço dos ingressos. O fato, porém, é que ir ao cinema tem se transformado em uma experiência que, longe de trazer o prazer antes garantido pelo ato de assistir a um filme na tela grande, vem se transformando num exercício de paciência: o público vem se tornando cada vez mais grosseiro, as projeções deixam a desejar e os longas são distribuídos com atrasos absurdos.

Na maior parte do tempo, como crítico de cinema, tenho o privilégio de assistir aos lançamentos semanais não só com certa antecedência, mas na companhia de espectadores que sabem se comportar: meus colegas de profissão. Há, claro, o inconveniente de as cabines (as sessões para a crítica) acontecerem pela manhã – um horário que meu organismo aprendeu a rejeitar ao longo das décadas -, mas isto é um obstáculo insignificante diante da perspectiva de passar raiva nas sessões abertas ao público.

Recentemente, tendo sido obrigado a encarar uma sessão dupla de Biutiful e Besouro Verde no BH Shopping, em Belo Horizonte, lembrei-me da frustração representada por uma experiência medíocre nas salas de cinema, o que me levou a propor as dez regras seguintes que, voltadas para os exibidores e distribuidores, têm o objetivo de apontar o caminho da reconciliação entre o público e a tela grande, levando a um novo crescimento na venda de ingressos. Não custa sonhar.

As três primeiras regras são voltadas para os distribuidores; as seguintes, para os exibidores. Espalhem a mensagem. 

1) Ter bom senso ao definir as datas de lançamentosÀ Prova de Morte foi lançado no Brasil depois de Bastardos Inglórios, que Tarantino dirigiu dois anos depois daquele segmento de Grindhouse. Woody Allen, durante um bom tempo, só chegava por aqui com um ou dois anos de atraso. Scott Pilgrim foi adiado diversas vezes até ser lançado de maneira porca em algumas poucas praças. Nós sabemos que não há mercado no Brasil para todas as produções lançadas ao redor do mundo anualmente e que planejar o que vai para o cinema ou o que será distribuiído diretamente em home video exige um estudo cuidadoso – ainda assim, o jogo de datas que ocorre toda semana, com várias alterações e cancelamentos, é algo que não permite nem mesmo que o espectador brasileiro crie expectativa com relação aos projetos que deseja ver. Nos Estados Unidos, os cinéfilos já sabem com antecedência que às vezes chegam a dois ou três anos a data exata em que o filme que querem ver irá estrear; aqui, marcar um lançamento no calendário seria passar atestado de burrice, já que as distribuidoras parecem anunciá-los aleatoriamente, não se importando em mudá-los muitas vezes na semana anterior à suposta estréia. Com isso, não há estímulo maior para a pirataria e para o download domiciliar, já que a incerteza de poder assistir ao filme é, sem dúvida, um grande motivador para que vários fãs garantam por conta própria a exibição da obra.

2) Jamais lançar um filme estrangeiro apenas em cópias dubladas – Durante um longo tempo, o padrão de lançamento era o seguinte: filmes infantis chegavam em cópias dubladas e legendadas; os adultos, apenas com som original e legendas. Era um sistema perfeito que garantia a alegria de todos os segmentos. Nos últimos tempos, porém, tem se tornado cada vez mais freqüente que obras voltadas ao público adulto também ganhem cópias dubladas e as animações não ofereçam opção de legendas para os interessados. E isto é de uma estupidez surpreendente. O que as distribuidoras não parecem perceber é que, com isso, estão afastando os cinéfilos que sempre tiveram o hábito de ir aos cinemas – e se em contrapartida acreditam que os longas dublados atrairão um novo público, estão terrivelmente enganadas, já que espectadores com este perfil sempre valorizaram e continuarão a valorizar mais a experiência de se ver um filme em casa, na tevê. Resultado: afasta-se uma parcela antes fiel à telona sem garantir que um novo segmento ocupe seu lugar.

3) Só incluir os créditos da legendagem quando o filme terminar de fato – Já perdi a conta do número de vezes em que subitamente fui informado de que o filme chegara ao fim ao ler a legenda “Tradução de Fulano de Tal” – um crédito que surgia na tela enquanto a narrativa continuava a transcorrer. A política aparentemente é a de que, terminados os diálogos, o tradutor deve assinar seu trabalho, mesmo que ainda restem vários segundos ou mesmo minutos de projeção. Isto ocorreu, por exemplo, em Vivendo no Limite e, recentemente, em Além da Vida. Ora, se um diretor quer que observemos algo na tela por algum tempo antes de partir para os créditos finais, é porque acredita que isto é importante para o impacto emocional de sua obra – e ao jogar o nome do tradutor na tela antecipadamente e revelar, assim, que o filme basicamente chegou ao final, os responsáveis pela legendagem sabotam este efeito, desrespeitando as intenções do realizador.

4) Jamais interromper a projeção antes que os créditos finais se encerrem – Por motivos que discuto em meu curso e já abordei perifericamente aqui no blog, o tempo dedicado aos letreiros finais é precioso na experiência do espectador no cinema; faz parte de seu retorno gradual à realidade, permitindo que o longa se sedimente em sua mente e em sua percepção emocional ao mesmo tempo em que já abre espaço para a reflexão sobre o que acabou de ser exibido. Cortar os créditos é, assim, uma forma ótima de sabotar o impacto provocado pela narrativa, além de ser um imenso desrespeito à equipe ali reconhecida. Como se não bastasse, tem se tornado cada vez mais comum que cenas sejam incluídas após os créditos finais – e já fui repetidamente agredido como cliente dos multiplexes ao permanecer na sala (algo que sempre faço, mesmo quando sei que não há nada depois dos letreiros) apenas para ver a projeção interrompida quando eu sabia que haveria uma cena extra dentro de alguns minutos. Quando pago um ingresso, pago para ver todos os minutos de projeção – e não é à toa que a duração de um filme  informada pelas distribuidoras inclui os créditos finais.

5) É fundamental treinar bem os funcionários do cinema – Já fui tratado com impaciência, agressividade ou descaso por funcionários de diversas salas em todo o Brasil. Recentemente, ao tentar entregar meu ingresso para a sessão de Besouro Verde, no Cineplex BH, fui surpreendido pela atitude do funcionário que, ao ver meu ingresso, empurrou-o de volta à minha mão e disse com um tom bruto: “A sala não abriu ainda. Você não pode entrar, não”. E quando perguntei se não havia um local de espera dentro do cineplex, a resposta foi: “Tem, não. Se quiser, tem que esperar lá fora”. Da mesma maneira, no Cinemark do Pátio Savassi, fui obrigado a pedir silêncio às duas funcionárias do espaço que insistiam em conversar durante a sessão e que nem ao menos desligaram seus rádios, permitindo que apitassem a cada três ou quatro minutos. E a questão vai além, já que este treinamento tem a ver também com a regra seguinte…

6) Nunca abra as portas da sala antes que o filme chegue ao fim – Assim como o surgimento do nome do tradutor arruína a experiência, é frustrante perceber, enquanto a projeção ainda está ocorrendo, a movimentação dos funcionários na parte dianteira da sala para abrir as portas de saída no exato segundo em que o filme chegar ao fim. Além de ser uma distração nada bem-vinda, esta atitude indica a iminência do desfecho da história momentos antes do planejado pelo realizador. Porém, considerando a freqüência com que os funcionários chegam a abrir a porta antes do final do filme, tenho até me sentido grato quando se limitam apenas a caminhar rumo à saída.

7) Voltar a empregar lanterninhas que monitorem a exibição – O cinema Arclight, em Los Angeles, é considerado o melhor de uma cidade na qual o padrão de projeção é, por natureza, mais exigente do que na maior parte dos lugares. E há um motivo para isso: antes do início da cada sessão, um funcionário da casa se dirige ao público explicando que o rigor técnico é uma preocupação do lugar e que, várias vezes durante a projeção, ele retornará à sala para verificar se está tudo correndo bem – além de avisar que estará logo ali fora caso algo ocorra. Já nos nossos cinemas, espectadores conversam o tempo inteiro, atendem celular, brigam nas salas, a projeção sai de foco, caixas de som deixam de funcionar, a película sai da posição e ninguém faz nada caso uma revolução não ocorra. Ora, quando pago ingresso, quero a experiência completa, perfeita: uma projeção impecável em uma sala silenciosa. Se há outros clientes ali que não respeitam isso, então devem ser removidos do local, já que não têm o direito de estragar aquele momento para todos os demais. Antigamente, o lanterninha se encarregava de manter este respeito mútuo na sala: de tempos em tempos, entrava para verificar o comportamento e não hesitava em exigir educação ou retirar os imbecis que não compreendiam que todos ali pagaram ingresso para assistir ao filme, não para ouvir sua voz irritante. Hoje em dia, são os próprios espectadores incomodados quem devem agir por conta própria – e não é à toa que têm ocorrido um número cada vez maior de brigas nas salas e até mesmo de mortes (como o sujeito que foi esfaqueado há cerca de um ano depois de atender o celular várias vezes e o rapaz que levou um tiro, semana passada, por comer pipocas de forma excessivamente barulhenta em uma sessão de Cisne Negro).

8) Limpar os óculos 3D – Os cinemas cobram, em média, 30% a mais pelos ingressos das salas 3D – um custo justificado por eles como sendo fruto da necessidade de higienizar e manter os óculos especiais usados pelo público. Assim, é inaceitável que recebamos, em troca destes 30%, óculos sujos, com lentes manchadas e que às vezes chegam até a feder – isto quando não estão tortos. Querem cobrar mais? Então prestem algum serviço por isso.

9) Usar a intensidade de luz adequada do projetor – Muitos exibidores têm a noção equivocada de que uma boa maneira de aumentar a vida útil das caras lâmpadas de seus projetores reside na estratégia de mantê-las numa intensidade menor do que a recomendada pelos padrões técnicos internacionais. Isto não só é uma besteira, já que as horas úteis se mantêm inalteradas, como ainda contribui para tornar a experiência pior para o espectador, que é obrigado a assistir a uma projeção escurecida e longe do ideal. Quando esta prática se soma às projeções em 3D, que exigem os óculos que já comprometem a luminosidade, o resultado é desastroso.

10) Limitar o tempo de propagandas antes dos filmes – Sim, é verdade que as salas de exibição não costumam tirar a maior parte dos seus lucros dos ingressos, que, afinal, são revertidos em sua maioria para as distribuidoras. Assim, se as bomboniéres são as responsáveis pelos lucros dos cinemas (sim, eles estão mais interessados na venda de pipoca e refrigente do que nos ingressos em si), os exibidores também têm se mostrado cada vez mais interessados no trocado extra proporcionado pelos vídeos publicitários exibidos no início das sessões. Até aí, tudo bem: é preciso compreender que há uma necessidade comercial em jogo. Porém, quando as propagandas começam a interferir na experiência do cliente/cinéfilo, algo está muito errado – e já estive em sessões que tiveram quase 20 minutos de publicidade antes do início dos trailers. Assim, um acordo razoável seria o de permitir no máximo 5 minutos de comerciais no início da sessão – e com a exigência de que estes vídeos comecem pontualmente no horário marcado no ingresso. Com isso, o espectador que não quiser se submeter à publicidade indesejada poderá usar este tempo para ir ao banheiro ou comprar pipocas – o que, mesmo assim, certamente deixará um número suficiente de clientes na sala para justificar o interesse dos anunciantes (já que, afinal, nem todas as sessões têm comerciais e poucos se arriscariam a um atraso apenas por apostarem nos cinco minutos de publicidade).

Se estas dez regras passassem a ser seguidas por distribuidores e exibidores, estou certo de que o público de cinema voltaria a crescer. Infelizmente, enquanto não forem implementadas, nós, amantes do cinema e defensores da experiência da tela grande, não teremos muitos argumentos que convençam outros a dividirem esta paixão. Afinal,  confesso ficar sem resposta quando alguém me pergunta algo como “Por que eu deveria pagar por ingressos caros, estacionamento, pipoca e refrigerante para ter uma experiência medíocre e irritante se posso ficar em casa e assistir ao filme na minha tevê de tela grande em alta resolução (baixado pela Internet ou comprado) sem passar raiva e gastando muito menos?”.

Em vez de rebater, sou obrigado a concordar e a dizer apenas: “É verdade. Distribuidores e exibidores, por que deveríamos?”.

Propaganda Eleitoral Gratui… Caríssima

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Premiações e eventos | 18 comentários

“2222. Vote Tiririca. Porque pior do que tá, não fica.”

“Meu nome é Eneas!”

“Contra o preconceito relacionado à idade dos 50 adiante, vote Melissa Leo para Atriz Coadjuvante”

Hein?

Há cerca de oito anos, escrevi uma Conversa de Cinéfilo discutindo as táticas sujas da Miramax na corrida ao Oscar – táticas que continuariam a ser empregadas pelos irmãos Weinstein e por seus concorrentes até os dias de hoje (vide, por exemplo, a discussão sobre a tendência inicial do Rei George VI, protagonista de O Discurso do Rei, de não confrontar os nazistas e perceba como esta surgiu “coincidentemente” na época das indicações ao Oscar). Porém, se por um lado recrimino com veemência a própria idéia de transformar um reconhecimento artístico em campanha política, por outro sei que isto é tão antigo quanto a própria Academia. Além disso, produtores são produtores – e faz parte de seu modo de pensar encarar os troféus como algo que possa alavancar a carreira financeira de um projeto (ou de seus envolvidos) e que, portanto, deveriam ser encarados como um investimento.

No entanto, quando indivíduos que deveriam se preocupar com sua Arte entram na lógica comercial do lobby por prêmios, a questão se torna deprimente.

Entra Melissa Leo, uma atriz admirável que nos últimos anos finalmente vem recebendo o reconhecimento por uma carreira recheada de belas interpretações. Depois de estrear nas telas aos 25 anos, Leo viria a começar a atrair a atenção da mídia, dos críticos e dos próprios colegas apenas 18 anos depois ao interpretar com sensibilidade a esposa sofrida de Benicio Del Toro em 21 Gramas, numa atuação que muitos julgaram que seria inevitavelmente indicada ao Oscar. Não foi, é verdade, mas ao menos trouxe à atriz a oportunidade de passar a atuar em produções maiores (mesmo que nem sempre boas) como O Amigo Oculto e Três Enterros. Logo, porém, ela voltou a ser esquecida – até que o talento a trouxe de volta ao centro das atenções graças ao independente Rio Congelado, que lhe rendeu a surpreendente indicação ao Oscar. Leo não venceu (Kate Winslet foi premiada por O Leitor) e isso, aparentemente, mexeu com sua cabeça.

Porque nada explica sua decisão de comprar, esta semana, anúncios nas principais trades de Hollywood para tentar divulgar sua própria performance em O Vencedor. Ora, normalmente, o estúdio já investe pesadamente neste tipo de publicidade – e, de fato, é impossível entrar em sites especializados como o Movie City News, a Variety, Hollywood Elsewhere, entre outros, sem encontrar banners que trazem em letras garrafais o tradicional “FOR YOUR CONSIDERATION” acompanhado pelos nomes de Christian Bale, Melissa Leo e Amy Adams, todos indicados ao Oscar pelo filme de David O. Russell.

Assim, por que Leo tomaria a impensável atitude de investir seu próprio dinheiro (e seu nome!) em anúncios pessoais? Porque, aparentemente, não está satisfeita com a campanha e com o fato de “não ter sido convidada a aparecer em mais capas de revista” (suas palavras, não minhas). Infelizmente, porém, ao comprar os anúncios dedicados a si mesma, Leo está cometendo uma gafe monumental, já que raramente atores tomam esse tipo de atitude justamente por reconhecerem que trata-se de prática vista com desconfiança pelos colegas.

E deveria mesmo ser vista assim, já que não apenas é cafona, mas deselegante. No caso de Leo, a situação se torna ainda mais incômoda pelo fato de estar concorrendo com uma colega de elenco pela estatueta (Amy Adams) – e sua justificativa de que decidiu tomar esta iniciativa por ver-se vítima de “preconceito com relação à sua idade” pode até ser real, mas soa como uma desculpa das mais esfarrapadas.

E o curioso é que, até então, ela vinha sendo vista como a grande favorita ao prêmio, sendo perfeitamente possível que sua atitude venha apenas a prejudicá-la. Sua atuação em O Vencedor é fortíssima, mas é preciso lembrar sempre de que toda eleição envolve também a personalidade e a simpatia dos concorrentes, não apenas sua carreira – e, portanto, eu não me espantaria ao descobrir que, com seus anúncios cafonas, Melissa Leo acabou prestando um imenso favor às suas concorrentes.

2011 começa

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Editorial | 47 comentários

Eu estava precisando destas férias. Muito. Porque o fato, meus amigos, é que eu estava farto de escrever. Não apenas “cansado”, mas com antipatia do ato da escrita.

Para que tenham uma idéia da gravidade deste sentimento, um breve histórico: escrevo desde os sete anos de idade. Tenho ainda o caderninho no qual, em 1981, comecei a registrar pequenas histórias, absurdas e sem estrutura como as de todas as crianças, que anunciava se tratar de um “livro”. Nunca parei. Fui editor do jornalzinho da escola ainda no primeiro grau e, aos 12 anos, enviei um manuscrito para a Editora Lê para que fosse apreciado. Na época, o escritor André de Carvalho, editor da Lê, tomou uma atitude que me comove ainda hoje ao me convocar a ir até a empresa. Trêmulo e ansioso, entrei em seu escritório e ele, com um carinho surpreendente, disse:

– Pablo, normalmente, quando não temos interesse em publicar o trabalho de alguém, enviamos uma carta para a pessoa com o manuscrito e um comunicado dizendo que “o texto não se encaixa nos interesses editoriais e mercadológicos da editora”. Porém, considerando sua idade, eu não quis fazer isso por temer que a recusa fosse desestimulá-lo a escrever. O seu livro, para começar, não é um livro: tem 50 páginas. É curto demais para ser um livro e longo demais para ser um conto. E ainda falta maturidade a ele. Você escreve muito bem, mas ainda é muito novinho. Você precisa continuar a escrever, porque faz isso muito bem, mas ainda não é um Escritor. Ainda. Continue escrevendo e você certamente vai chegar lá.

Mesmo aos 12 anos, saí daquela sala imensamente grato a André de Carvalho. E determinado a continuar escrevendo por toda a vida.

E continuei. Contos, poesias, roteiros, textos teatrais, críticas, artigos, posts de blog. Mesmo na época da Medicina (meu teste vocacional havia indicado “Comunicação”, mas insisti na vontade de ser médico inspirada por Tempo de Despertar. Coisa de adolescente.), continuei a escrever para jornais regionais de BH ou simplesmente para consumo próprio. E em 1997 veio o Cinema em Cena até que, 14 anos depois, aqui estamos.

Nos últimos meses, porém, algo começou a mudar. Passei a escrever por obrigação, não por amor. Escrevia já irritado e permitindo que a acidez do meu humor corroesse o texto por dentro. Um pouco de cinismo é bom; em excesso, devora a alma. O que poderia estar acontecendo? O resultado é que, aos poucos, fui trocando este blog pela rapidez sem compromissos do Twitter. Claro que continuei com as críticas (2010 foi o ano em que mais publiquei análises), mas menos pelo tesão de escrever do que pelo prazer de estudar e discutir os filmes.

Estes dez dias parado foram, portanto, essenciais por dois motivos: primeiro, porque senti saudade de escrever – algo que não ocorria há tempos e que só me traz a certeza de que, querendo ou não, isso está no meu DNA. Mas, ainda mais importante do que isso, pude pensar sobre minha exaustão. E cheguei à conclusão de que ela se deu por duas razões:

(E aqui este post se tornará mais confessional, franco e auto-destrutivo, expondo minhas falhas de caráter, meu ego e jogando para o mundo algo que eu deveria manter internamente. Ou seja: seguirá a linha que este blog sempre teve.)

1) Os ataques feitos por detratores. Sim, parece incrível que, com 17 anos de carreira, eu ainda me deixe afetar por mensagens, emails, tweets, comentários enviados por aqueles que não apreciam meu trabalho. Quem acompanha minha trajetória certamente já me viu abordar o assunto várias vezes. É uma falha de caráter: como todo egocêntrico, tenho necessidade de ser amado por todos. É imaturo, é estúpido, é inútil. Mas é a verdade.

E é também impossível.

Ninguém é amado por todos. Nem Gandhi, nem Lennon, nem o Dalai Lama. Ora, se nem Chaplin conseguiu, por que eu conseguiria? Não, mais: por que eu deveria? Ou por que deveria me importar com isso? A resposta, claro, é: não deveria. Não sou mais especial do que ninguém (tive que obrigar meus dedos a escreverem isso; tiveram cãibras durante a digitação), mas, por outro lado, aqueles que me atacam também não são. E certamente não deveriam ser ouvidos com mais atenção do que aqueles que me presenteiam com seu carinho – algo que, como sabem, tendo a fazer. Críticas construtivas serão sempre bem-vindas; trolls em busca de atenção devem ser ignorados. É preciso absorver esta regra.

O que me traz ao segundo ponto:

2) Ser amado (ou apreciado) não faz diferença alguma.

É bom para o ego? Sem dúvida. É agradável sentir-se querido? Claro. Mas nada disso deveria importar, já que escrevo não para ser adorado, mas sim porque preciso escrever. Sempre precisei e sempre precisarei. Se algum dia (toc-toc-toc) perder tudo o que tenho e me transformar num sem-teto, usarei carvão para escrever nos muros e calçadas da cidade. (Ok, limparei depois, prometo.)

Em outras palavras: preciso me preocupar mais com os textos e menos com a reação que estes provocam. Sim, adoro e sempre adorarei o retorno de vocês (devoro os comentários), mas preciso – e vou – aprender a encará-los como um complemento ao que faço, não como a essência do meu trabalho.

Sempre me orgulhei de ser capaz da auto-análise. Considero-me particularmente talentoso para identificar minhas falhas de caráter, minhas infantilidades e minhas fragilidades. Por outro lado, não sou tão bom em corrigi-las – e chego a abraçar algumas por considerá-las idiossincrasias divertidas.

Mas a susceptibilidade excessiva aos ataques de desconhecidos não é algo divertido. É estupidez pura. E evitá-la é questão de sobrevivência.

Como é bom estar de volta. E como é bom sentir prazer novamente em escrever.

Começo aqui 2011.

Dublagem para os Dubladores

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Discussões, Novos filmes, Vídeos | 59 comentários

A crítica de Enrolados está no ar, mas decidi copiar aqui a segunda parte do texto por achar que poderia render discussões interessantes:

Dublagem para os Dubladores

Imaginem A Bela e a Fera se comunicando com as vozes de Doris Giesse e Conrado. Ou Woody e Buzz Lightyear soando como Luiz Thunderbird e Max Fivelinha. Considerando a óbvia motivação por trás da escalação do apresentador Luciano Huck para a dublagem do galã Flynn Ryder em Enrolados, estes cenários seriam perfeitamente plausíveis, já que os quatro nomes citados se encontravam em grande evidência na época do lançamento daqueles belíssimos filmes. (E se não conseguiu se lembrar de nenhum deles, isto indica que você tem menos de 30 anos de idade ou uma memória seletiva como a de Sherlock Holmes, que se orgulhava de não guardar nenhum fato irrelevante na mente.)

Felizmente, porém, o bom senso prevaleceu e profissionais competentes em dublagem responderam pela tarefa fundamental de conferir vida e personalidade a personagens tão importantes (Ju Cassou, Garcia Jr., Alexandre Lippiani e Guilherme Briggs, respectivamente) – e se normalmente sou contra a dublagem de produções com atores de carne-e-osso, sempre abracei sem reservas as vozes brasileiras das animações por acreditar que, afinal, estávamos substituindo o trabalho de um ator por outro (em vez de apenas parte deste trabalho, o que considero um absurdo) e que a seleção destes intérpretes era feita com cuidado e levava em consideração as exigências específicas de cada papel. Até que Bussunda dublou Shrek, Paulo Vilhena protagonizou O Espanta Tubarões, o Pânico na TV chacinou Asterix e os Vikings e a coisa se perdeu de vez – e se não chamo a dublagem de Luciano Huck em Enrolados de “pavorosa” é por não querer ofender o adjetivo em época de reforma ortográfica.

Porque o que os executivos responsáveis pela decisão parecem não perceber é que dublar é muito mais do que dizer as falas traduzidas para o português; até mesmo atores veteranos e talentosos enfrentam dificuldades com a tarefa, já que, além de serem obrigados a conferir espontaneidade e significado aos diálogos, ainda devem recitá-los em sincronia perfeita com os movimentos dos lábios dos personagens – e o que dizer então de não-atores como Bussunda, equipe do Pânico e Huck, que já teriam dificuldade apenas com a composição de seus personagens? Com isso, o que se vê em Enrolados é um Flynn Ryder cujas expressões corporais e faciais denotam uma vivacidade e um dinamismo que simplesmente não encontram reflexo nas palavras sem personalidade que saem de sua boca – e com isso Huck consegue a proeza de desperdiçar todas as piadas e gags protagonizadas pelo sujeito, que se torna um vácuo de carisma na tela.

Mas não culpo o apresentador pelo desastre absoluto representado pela dublagem de Enrolados e que compromete de forma irremediável a versão brasileira, já que isto seria o mesmo que culpar a faca usada por um psicopata para apunhalar alguém (e como pai de filhos pequenos, entendo perfeitamente a tentação de ganhar pontos com a prole ao surgir como (anti-)herói de um filme da Disney). Não, os responsáveis por este crime são aqueles que o convidaram a assumir uma função para a qual não tinha o menor talento, competência ou mínima experiência – e que deveriam ter seguido o exemplo de seus colegas em outros países: basta dizer que se na França o escalado foi Romain Duris, três vezes indicado ao César Awards (o Oscar francês), aqui ficamos presos ao apresentador do “Lata Velha”.

E acreditem: eu gostaria muito de estar exagerando. Aliás, se julgasse possível baixar as expectativas do público a ponto de levá-lo a considerar o trabalho de Huck até razoável, eu afirmaria até mesmo que a dublagem do sujeito é potencialmente letal e capaz de destruir todos os sonhos e esperanças dos espectadores que a testemunhassem – mas, em vez de exagero, creio que isto representaria apenas uma meia-inverdade. (Eu não me surpreenderia caso ela provocasse distúrbios genéticos, por exemplo.)

Mas o mais triste é saber que dentro de 50 anos, quando o nome de Luciano Huck for apenas uma vaga lembrança na mente de meia dúzia de fanáticos pela história da televisão brasileira, tornando inválida até mesmo a motivação para escalá-lo, o filme continuará a existir e a ser prejudicado por sua voz. E quando meus bisnetos perguntarem por que aquele namorado da Rapunzel conversa de forma tão mecânica, artificial e sem graça, responderei apenas: “Não faço idéia. Agora troquem minha fralda”.

E esta será uma tarefa mais agradável para meus descendentes do que continuar a escutar a tortura que é Enrolados em português.

Update: Para quem quiser “degustar” a dublagem de Huck antes de ir ao cinema (agradeço ao Platy pelo link):




E comparem com o trailer, que contou com alguém que claramente sabia o que estava fazendo: