Discussões

Como não amar a Pixar?

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Vídeos | 23 comentários

Não gosto de publicar dois posts com vídeo sucessivamente, mas não há outra maneira. O fato é que sempre que imaginamos que a Pixar não poderia se tornar mais admirável, a produtora de John Lasseter nos surpreende novamente – e como não se apaixonar por uma companhia que não só tem um currículo impecável no que diz respeito às obras que produz, mas que também demonstra ter coração?

Já publiquei aqui dois relatos sobre a filosofia humanista da Pixar: em julho de 2008 (ainda no blog antigo), comentei o carinho demonstrado pelo estúdio por uma fã que fez um vídeo no qual chorava ao ver o trailer de Wall-E e, em junho de 2009, me emocionei com os esforços feitos pela equipe de Lasseter para levar uma cópia de Up até uma garotinha em estado terminal que sonhava em ver o filme antes de morrer.

Detalhe: em ambos os casos, os relatos vieram a público meses depois das estréias dos filmes, não sendo utilizados para ajudar em sua divulgação.

Pois agora, mais uma vez sem nenhum filme prestes a ser lançado, a Pixar ataca novamente, divulgando um vídeo no qual envia uma mensagem de apoio aos homossexuais.

Sim, um estúdio voltado ao público infantil e pertencente à historicamente conservadora Disney decide vir a público apoiando uma causa que, infelizmente, ainda é polêmica (não deveria ser; é questão de pura e simples humanidade) e que certamente poderia trazer dores de cabeça desnecessárias à companhia.

Como não amar a Pixar?

Debate na UFSC: Assista ao vivo!

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões, Vídeos | 19 comentários

Assista ao debate do qual participarei a partir de 17h30, nesta quarta-feira, clicando aqui. (Vá, claro, em “transmissão ao vivo”.)

Do fundamentalismo religioso

postado em by Pablo Villaça em Discussões | 179 comentários

Os comentários deixados em meu videocast sobre “Datena x ateus” trazem alguns dos exemplos mais lamentáveis da mediocridade intelectual humana. Não, esta mediocridade não diz respeito à crença em Deus; apenas na maneira como esta crença se manifesta.
 
Em primeiro lugar, devo dizer que acredito ter sido bastante ponderado no vídeo. Esforcei-me ao máximo para não ofender ninguém ou religião alguma. Limitei-me a contrapor os argumentos de Datena de que “religiosos não cometem crime e/ou não são violentos”, de que os ateus é que são “gananciosos” e que se acreditam “deuses”. Procurei demonstrar que tudo isso se aplica perfeitamente aos que “têm Deus no coração” – mas, ainda assim, não afirmei em momento algum que os ateus são essencialmente pessoas melhores ou que todos os que crêem em Deus são canalhas. Até mesmo minha frase final, sobre o valor de se fazer o bem por amor ao próximo e não por um temor ao divino deve ser interpretado literalmente – eu não afirmei que todos os religiosos só fazem o bem (quando fazem) apenas por temerem a Deus; concluí apenas que esta é uma motivação egoísta.
 
Sim, reitero que fui bastante moderado em meus argumentos.
 
Infelizmente, as barbaridades ditas por muitos nos comentários apenas comprovaram algo óbvio: o fundamentalismo religioso é sempre perigoso. Sempre. Ao eliminar a razão da vítima, torna-a desproporcionalmente agressiva no instante em que julga – com ou sem razão – ter sua crença atacada por alguém. Sim, alguns religiosos se mostraram simpáticos ao meu vídeo e condenaram a apologia da discriminação feita por Datena. Por outro lado, não há como fugir do fato de que todos os comentários virulentos partiram de pessoas que se identificaram como religiosas.
 
Mas o mais assustador é a intensidade dos ataques: determinadas a defenderem seu “Deus”, estas pessoas deixaram mensagens absurdamente agressivas, como verão abaixo, demonstrando total incapacidade de perceberem a contradição absoluta entre o propósito de sua crença (a não ser que acreditem no Deus canalha do Antigo Testamento, no qual nem mesmo os católicos modernos acreditam)  e a crueldade de suas explosões. Sim, crueldade: ao desejarem que eu “queimasse no inferno”, elas obviamente manifestaram a mais convicta vontade de que eu sofresse o pior castigo que conseguiram imaginar. Não importa que eu não acredite no conceito de inferno (para mim, é tão plausível quanto o “País das Maravilhas” de Lewis Carroll); o que importa é a intenção de crueldade destas pessoas. Seria o mesmo que eu desejar a elas que desenvolvam Esclerose Múltipla e câncer ósseo, a pior combinação de doenças que posso conceber.
 
É assim que manifestam seu amor a Deus?
 
O resultado é que sinto-me cada vez mais firme na convicção de que a religião institucionalizada é um mal. E o pior: um mal desnecessário. Crer em Deus não é o suficiente? É preciso também organizar todo um sistema cujo único propósito é conferir poder a humanos despreparados (e canalhas) que irão explorá-lo para benefício próprio e para discriminar grupos com sistemas diferentes? Para mim, isto é incompreensível, ilógico e, sim, maligno e destrutivo.
 
E a prova segue abaixo, nos exemplos (poucos em relação à totalidade de besteiras publicadas, acreditem) de comentários deixados por religiosos em resposta a um vídeo absolutamente respeitoso e contido:
 
“Eu tenho o direito de considerar que, quem não crer em Deus, diz que Deus não existe, é pior do que o criminoso, pois, o criminoso as vezes chega até a matar, mas recorre a Jesus e recebe o perdão. E o ateu não tem a quem recorrer. Claro que você tem que receber minha idéia. Se converta a Cristo, seja dependente de Deus, enquanto você está vivo, tem chance de arrependimento, pois seu texto, está vazio.”
 
“Só existe dois caminhos Deus e o Diabo se vc não é de deus vc é um demonio entao….Existe Deus sim e o nome dele é “JEOVÀ” é ele o criador de todas as coisas ,O soberano do universo que merece ser louvado e adorado em toda a terra. è uma pena ver vc que é uma criação dele se rebelar mas eu nem ligo NO DIA DO ARMAGEDOM EU VOU ASSISTIR VC SER DESTRUIDO DE CAMAROTE!!!! CONCORDO COM O DATENA ateu é brinquedo do diabo.”
 
“Os ateus não existem… Você sabe quem é Deus, e Ele escreveu isso em seu coração. Seu problema não é um problema de intelecto, é um problema da vontade. Você sabe quem é Deus, mas você O odeia. “E porque?” diz o ateu. “Porque Odeio a Deus?” “Bem, porque Ele é Bom. Você odeia a Deus porque Ele é bom.” “Mas como vou odiar a Deus simplesmente porque Ele é bom?””Porque você é mau. E os maus odeiam aos bons””
 
“cara vc e escroto”
 
“meu amigão, eu queria saber como vc se dizendo isento de preconceitos, ao invés de trocar as palavras ditas pelo datena por negros não as trocou por brancos ? interessante isso né ? aí acho que está um preconceito seu, bem intrinscamente arraigado dentro de vc, o qual vc sabe e tem conciência dele ! e realmente pessoas que não tem Deus no coração comentem crimes ediondos, assim como ateus sem valores morais os fazem, acho que vc ta tentando se mostrar superior aos não ateus!”
 
“Cuidado o ultimo que disse isso acabou de baixo de um caminhão,não é uma ameaça só estou querendo te ajudar pq normalmente quem coloca o nome de DEUS em vão acaba morrendo e não indo para um lugar muito bom.Só uma pergunta:Como voce consegue dormir sem acreditar em quem morreu por ti?”
 
“MEU DEUS É MAIOR QUE VOCE.”
 
“Não sei o que é pior, a ignorância e grosseria de pessoas como Dantena (que felizmente não são muitas), ou a hipocrisia e malandragem de gente como você (encontrada em qualquer esquina). O egocentrismo citado por Villaca é o mesmo em Datena e no(a) senhor(a).”
 
“cara, pq todo ateu é idiota?”
 
“Eu sou evangelica o meu pastor nunca fez o que o senhor diz como se fosse uma coisa generica voce não conhece todos os pastores do mundo. não conhece o carater das pessoas para julgala dessa maneira. se voce não acredita em Deus problema é seu. mais dai até insultar pessoas que voce não conhece. é uma coisa complicada, nada contra ateus macumbeiros, ciganos, feiticeiros entre outros mais assim como eu respeito respeite tambem”
 
“ateu = LIXO”
 
“Ateus são apenas idiotas. O rapaz aí só prova a regra. Parece um cara esperto, deveria baixar a cabeça e estudar muito antes de dar opinião. No Brasil é assim, todo mundo dá opinião sobre assuntos que ignora.”
 
“TENHO PENA DE VC , COM CERTEZA NÃO CONHECE O SENHOR DEUS, UM DIA VC ESTARÁ DIANTE DELE E VAI PRESTAR CONTAS DESTAS PALAVRAS ,VC É UM POBRE DE ESPIRITO, UM ADVOGADO DO DIABO. QUE DEUS TENHA PENA DE SUA ALMA E SALVE VC COMO FEZ COM O APOSTOLO PAULO.”
 
“Eu acho que vc pode defender a sua religiãoo mais não pode atacar ou até mesmo ofender as dmais como vc fez com as evangelicas e catolicas. vc antes de fazer uma critica ou defender o que vc pensar deveria pensar mais.”
 
“querido nao te conheço a adoro esse portal mas sua critica e PIOR!! lmbre-se que quando nos respondemos aos discursos dessa forma que vc faz e uma coisa que fere a LAICIDADE do estado brasileiro ta! evite comparaçoes pois vamos la quando ele diz que nao tem Deus no coraçao significante de coisa boa !! Pois existe duas resposta no youtube muito boas para isso uma delas e a do padre FABIO DE MELO em resposta a visao de Ana paula valadao “11 de setembro nao teve NENHUM motivo religioso ” se informa.”
 
“Pablo, vc eh uma babaca, idiota, um corno, tem coisas q nao se descuti, uma delas eh a religiao, na boa, CALA SUA BOCA.”
 
“cara não sei o que vc pensa da vida. tudo bem, cada um crê no que quer. ninguém é obrigado a acreditar em Deus. se Datena falou aquilo, é o que o que ele tinha vontade de falar. como vc tem vontade de falar o que diz neste vídeo. vc está se sentindo por vc ser um ateu. A mesma coisa ocorre com os homossexuais, que ninguém pode dizer nada e logo é ameaçado de preconceito. É brincadeira o que vcs revolucionários querem do mundo. Me desculpe amigo, respeite a opinião de cada um e respeitaremos tbm.”
 
“Não seja equivocado e queira sair processando as pessoas só por que as idéias delas não batem com as suas.”
 
“Só o fato de ser Ateu é ser reiligoso, todos temos deuses, o desse rapaz é o orgulho e o própio eu! prefiro o servir o Deus criador!”
 
“pablo vc é um ignorante igual ao datena ter Deus no coraçao nao tem nada a ver com religiao , quem realmente tem Deus no coraçao nao pratica crimes nao seu imbecil, vc ta comparando catolicismo com Deus vc ta loko , leia a biblia que vc vai entender oque é ter Deus no coraçao, ai nao vai sobrar tempo nem pra vc postar um video idiota e sem fundamentos iagual a esse !!!!!!!!!”
 
“porque que ele coloco negro no lugar de quem ta sendo vítima do preconceito??? isso é racismo viu?!!”
 
“Tomara que o datena assista a essa merda de video seu , e enfie um belo processo no seu rabo, por estimular crise de sistema , e difamação sobre a imagem de tal pessoa citada por vc. mas enfin ..passar bem,,”
 
“O Datena não é ateu e portanto não pode falar sobre ateísmo ou questionar a índole de ateus. Da mesma forma você, Pablo. Como você não sabe o que é ter Deus no coração, então não pode falar a respeito questionar os que tem.”
 
“”Voce ser uma pessoa de bem, pq simplesmente respeita o próximo”. Olha a hipocrisia.. só vcs sabem o que é respeito? um cristão nao saberia amar o próximo? As Leis de Deus serviam como as leis humanas. Para um VERDADEIRO cristao nenhuma punicao é maior que afastar-se Dele.”
 
“Você acabou de jogar nas costas de todos os religiosos do mundo os crimes do 11 de Setembro, que foram cometidos por um pequeno grupo terrorista e muito impopular até dentro do Islã. Você acha que todos os religiosos do mundo devem processá-lo por isso? Ora! Você disse que QUEM TEM DEUS NO CORAÇÃO é capaz de crimes odiososos. Você não pode falar isso e ficar impune, pode? Ah, então tudo bem o Datena falar mal de vocês ateus, certo?”
 
“Não existe falta de crença seu espertão, até voce crê que não crê em nada, ate mesmo crê em uns merdas de Carl Sagan e Richard Dawkins. fique com Deus”
 
“bla bla bla, cara como vc é chato . para vc acredita que viemos do macaco kkkkkrsrsrsrsr! eu ñ sei quanto a vc mais eu ñ vim do macaco eu sou de Deus feito a sua imagem e semelhança;=D”
 
“O que mais eu acho o fim do cumulo e este comentarista sem noção ,comentando algo que nem tem dominio kara o datena e burro e vc tbm.querendo posar de comentarista nem tem intelecto o suficiente nem cultura e o pior se acha ,se ta de brincadeira né me poupe,CAMPANHA VAMOS EXPULSAR ESTE COMENTARISTA TONTO PABLOVILLACA.”
 
“falou bonito mas v esta errado ATEU pode ate nao ser bandido …mas eh 1 baita de 1 idiota incredulo e infantil ..eu prefereria vender drogas , ser 1 hitler , do que ser ateu …quem nao tem crença merece penalidades”

Pra que serve a crítica?

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 33 comentários

Já escrevi sobre o assunto há vários anos (nove, pra ser preciso), mas esta é uma questão que, incompreensivelmente, jamais deixa de surgir em qualquer conversa sobre o papel do crítico. Sempre que uma superprodução é lançada, aqueles que já eram seus fãs antes de mesmo de conferi-la se transformam em animais raivosos diante de qualquer crítica negativa e passam a atacar o incauto que teve o infortúnio de escrevê-la – e nestas ocasiões sempre surgem aqueles que afirmam categoricamente que a crítica cinematográfica é um exercício de futilidade, uma profissão inútil e por aí afora.
 
O que estas pessoas estão buscando, na realidade, é uma reafirmação de seus gostos, o que as leva a encarar uma crítica divergente como um ataque à sua inteligência, como uma afronta pessoal – o que obviamente é um absurdo por definição. Há alguns anos, traduzi aqui um texto fantástico do crítico canadense Geoff Pevere sobre estas reações viscerais à crítica cinematográfica e agora transcrevo, abaixo, trechos de um outro excepcional artigo de autoria de um certo Q.Le. (Eu não o conhecia; descobri esse texto através do site Movie City News, de meu amigo Dave Poland.) Como sempre, esclareço que os erros de tradução são de minha responsabilidade e sugiro que leiam o artigo na íntegra no site de Le, que é bem mais extenso e envolve sua descrição reveladora de um debate do qual participou e que inspirou seu post. Além disso, é interessante observar que ele também se tornou fã de Anton Ego (que uso como avatar no MSN e no fórum do Cinema em Cena), comprovando algo do qual eu já desconfiava: aquele personagem de Ratatouille se tornou um verdadeiro ícone dos críticos de Cinema.
 
"O CRÍTICO ESSENCIAL (E POR QUE PRECISAMOS DELES)
 
(…) A crítica boa e legítima vem se tornando cada vez menos apreciada nos dias de hoje.
 
Quando penso em crítica, não estou buscando uma reafirmação de minha opinião – estou buscando algo que me faça pensar diferente. Ver algo sob uma nova luz, ver algum tópico a partir da perspectiva de outro indivíduo, perceber uma metáfora ou analogia ou simbolismo ou qualquer coisa – qualquer coisa que me faça ver algo novo. Se concordo ou não com a crítica em si é irrelevante; o que importa é que eu possa extrair algo dela, que talvez eu possa aprender algo com ela.
 
(…) A percepção mais comum é a de que críticos são como abutres, sempre prontos para atacar e destruir o duro trabalho de qualquer aspirante a artista. Eu acredito no oposto: criticar é pensar, e é uma arte que vem se tornando cada vez menos apreciada em um mundo que valoriza uma mentalidade de "quero me sentir bem agora" em vez de qualquer coisa de maior substância intelectual. O prolífico Todd McCarthy, um crítico de cinema com imenso conhecimento sobre a arte e sua história, foi recentemente demitido da antes prestigiada Variety numa decisão que claramente reflete a mudança da sociedade: críticos valem menos do que o Tomatômetro, o Metacritic, enquetes do Yahoo e frases curtas sobre "como este filme é fantástico!" ou "que porcaria de filme!". Todos querem uma reafirmação de suas opiniões que lhes façam sentir bem – e críticos de verdade não oferecem isso.
 
Críticos defendem seus argumentos e suas decisões por trás destes. Freqüentemente um crítico vai chamar a atenção sobre um novato que ele encara como digno de nota. (…) Isto não é necessariamente uma obrigação do crítico, mas representa o tipo de valorização que freqüentemente o crítico considera ser devida aos artistas que admira. Da mesma forma, esta é a força motriz ao desancar obras que consideram ruins e ofensivas, quando sentem que o público merecia algo melhor. (…) Nenhuma opinião é, a princípio, certa ou errada – o que importa de fato é a argumentação por trás de cada opinião, os motivos que levam um crítico a apoiar ou a atacar uma obra. 
 
Críticos de verdade não são como Ben Lyons, que de forma infame declarou que Eu Sou a Lenda era "um dos melhores filmes já feitos" e que atacou Sinédoque, Nova York, de Charlie Kaufman, por ser "difícil de entender". (…) Ele não é um crítico de cinema, é um gerador de frases para anúncios de televisão. Ele é um daqueles nomes que você vê em cartazes de filmes universalmente atacados debaixo de frases como "Este filme é ÓTIMO!" sem que nenhum argumento seja apresentado para embasar a afirmação. (…) Isso não é um crítico de cinema, é uma turbina publicitária que não oferece nada que mereça atenção.
 
(Nota do tradutor: lamentavelmente, há vários Ben Lyons "brasileiros" – alguns deles, infelizmente, por trás de alguns sites incrivelmente populares -, mas citá-los é desnecessário. Vocês os reconhecerá facilmente através de seus textos ou "argumentações".)
 
O que críticos de verdade oferecem é uma área de dissonância mental, de discussão instigante. David Edelstein estava do "lado errado" quando atacou O Cavaleiro das Trevas em 2008 e fãs irados (muitos dos quais nem mesmo haviam visto o filme quando o artigo foi publicado) o acusaram de ser um "babaca arrogante", alguém que estava apenas atrás de "acessos para seu site". Poucos discutiram realmente o que ele havia escrito em seu texto, que era inteligente e bem argumentado. Eu não concordo com Edelstein em todos os seus argumentos, mas sua opinião tinha valor. (…)  Eu prefiro ler um texto que discorde de minha opinião, mas que seja articulado, do que um festival de elogios vazios e superficiais a um filme do qual eu goste.
 
A crítica é essencial; sem ela, estamos destinados a um ciclo perpétuo de sentimentalismo barato, condenados à infantilidade sem qualquer esperança de amadurecermos em direção a idéias críticas e honestas. Discussões não são sobre certo ou errado, ganhar ou perder – são sobre idéias e sobre como estas são apresentadas; são sobre prosa. Discussões nunca são definitivas e jamais serão; em vez disso, estão condenadas a serem continuamente repetidas e revisadas, a baterem de um lado a outro até o fim da consciência humana. Nós precisamos delas para o nosso próprio bem – e precisamos delas ainda mais nos dias de hoje, nesta sociedade que valoriza cada vez mais uma mentalidade centrada apenas em se sentir bem."

Arrotando em Velhinhos (ou Humor para Imbecis)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Séries de tevê | 87 comentários

Não assisto a Pânico na TV. Quando tentei ver alguns trechos do programa, há anos, percebi que não fazia meu estilo de humor, embora conseguisse entender por que tantas pessoas próximas a mim insistiam em elogiar o programa, já que, aqui e ali, consegui enxergar algo de novo ou mesmo de anárquico no projeto. Com o passar do tempo, porém, até estes meus amigos, observando a decadência do humorístico, foram abandonando o Vesgo e sua turma (sempre vi o Emilio Surita como um personagem secundário da empreitada, um apresentador de circo que, com sua cartola e falta de graça, é esquecido assim que sai do picadeiro). E, assim, tive o privilégio de, por um bom tempo, não ser obrigado nem mesmo a pensar no Pânico na TV ou a reconhecer sua existência.
 
Até ler esta notícia.
 
Em poucas palavras: uma integrante do programa compareceu a uma festa em homenagem à atriz Glória Pires e, percebendo que a veterana intérprete Laura Cardoso concedia graciosamente entrevista a todos que se aproximavam, tentou abordá-la com o único objetivo de… arrotar em seu rosto.
 
Há mais na história, mas aqui tenho que fazer uma pausa: então arrotar no rosto de uma senhora de 82 anos agora é humor? Mesmo?
 
Sempre fui a favor de uma boa peça (ou "prank", como chamam os norte-americanos) – desde que, claro, esta não invadisse o espaço pessoal da vítima. Quando o CQC começou, por exemplo, fiquei fascinado com a figura do "Repórter Inexperiente" de Danilo Gentilli, que, afinal, apenas criava uma situação de constrangimento a partir de sua aparente falta de traquejo profissional – e a reação dos entrevistados, por mais divertida ou embaraçada (e embaraçosa) que fosse, era fruto do contexto da entrevista, não de uma agressão por parte de Gentilli. (Com o tempo, Danilo também se rendeu às agressões, infelizmente, seguindo a decadência de todo o CQC.)
 
Mas o Pânico, por outro lado, sempre se notabilizou por não respeitar a privacidade alheia, desde o assédio à atriz Carolina Dieckman, quando foram diante de seu prédio chamá-la por megafone, até as perseguições a carros de "celebridades" (como detesto este termo!). No entanto, eu não sabia que a nova tentativa de "humor" do programa envolvia simplesmente a expulsão de gases pela boca (humor de banheiro mesmo) – e, pior, direcionando-os ao rosto de outra pessoa.
 
Isto não é humor, é pura grosseria. E ainda que o humor possa ser grosseiro, resumir a "piada" a isso é simplesmente estupidez.
 
A coisa fica pior, no entanto: se arrotar no rosto de qualquer pessoa já seria algo imperdoável, tentar fazê-lo diante de uma senhora de 82 anos que está buscando apenas ser gentil já ultrapassa a fronteira do abominável. Posso soar conservador, mas "respeitar os mais velhos" foi algo que aprendi ainda na infância – e jamais me ocorreria ser possível que alguém pudesse imaginar uma situação na qual arrotar propositalmente no rosto de um idoso diante das câmeras (nem acredito que acabei de escrever esta frase) fosse algo aceitável.
 
Mas tem mais: percebendo o que a "humorista" Vanessa Barzan (apropriadamente conhecida como Mulher Arroto, o que a torna a figura mais unsexy da TV mundial) iria basicamente agredir Laura Cardoso, os jornalistas presentes no evento alertaram a atriz, impedindo a aproximação da outra.
 
Que ameaçou chamar a polícia.
 
Deixem-me repetir isso: Vanessa Barzan ameaçou chamar a polícia por ter sido impedida de arrotar no rosto de uma senhora de 82 anos de idade.
 
Aparentemente, chegamos ao ponto em que uma criatura, apenas por aparecer em rede nacional, julga-se no direito de fazer o que bem entender, mesmo que isto implique em invadir o espaço alheio ou agredir (física, moral ou psicologicamente) um idoso. E esta postura se tornou tão aceita que, de acordo com a matéria acima linkada, "os jornalistas argumentaram que até entendiam o lado humorístico da atração, mas que
arrotar no rosto de uma senhora como Laura Cardoso nada mais é do que
uma falta de respeito".
 
Não, meus amigos: arrotar no rosto de qualquer pessoa é uma falta de respeito. Que Cardoso tenha 82 anos apenas transformou este fato em algo muito além do repugnante.
 
E o pior: se você assiste ao Pânico na TV, dando audiência e respaldo ao programa, é desde já cúmplice deste tipo de atitude. Querendo ou não.

Debatendo a “saga” Crepúsculo

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões, Videocast | 108 comentários

Depois de assistir ao vídeo do Maurício Saldanha, do CabineCelular, no qual ele defende Eclipse e a "saga" Crepúsculo, decidi que a oportunidade para um bom debate era curiosa demais para ser desperdiçada. E…


A fronteira entre o argumento e a estupidez

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Twitter, Variados | 32 comentários

No último dia 5 de maio, data em que os Estados Unidos celebram a cultura mexicana num reconhecimento à vasta população imigrante do país, cinco estudantes combinaram de ir à escola usando camisas que exibiam a bandeira norte-americana, numa provocação clara à data e aos colegas de origem latina. Como resultado, receberam ordens da diretoria de voltarem para casa antes que algum conflito ocorresse no colégio. É claro que imediatamente a extrema direita conservadora e preconceituosa se manifestou contra a escola, dizendo que os alunos tinham o direito de "sentir orgulho" dos Estados Unidos – algo que ninguém havia questionado.
 
Em resposta ao caso, o crítico de cinema Roger Ebert, assumidamente liberal, postou a seguinte consideração em seu twitter:
 
"Garotos que usam camisas com a bandeira (norte-)americana no 5 de Maio deveriam ter que dividir a mesa com aqueles que usam a foice e o martelo no dia 4 de Julho".
 
O raciocínio de Ebert não poderia ser mais claro, mas imediatamente a "twittosfera" reacionária passou a atacá-lo, sugerindo que ele deveria deixar os Estados Unidos já que não se orgulha do país – o que levou Roger a publicar um texto sobre o assunto em seu site. No entanto, o que mais me assustou neste caso foram as mensagens deixadas por alguns imbecis que, cientes da  longa luta de Ebert contra o câncer (e que o deixou desfigurado), publicaram mensagens como:
 
"Quantos pedaços devem cair do rosto de (Roger Ebert) antes que ele entenda que deve se calar?"
"Eu estava pronto para dar uns tabefes na cara gorda de Ebert, mas aí me lembrei (que ele está desfigurado). E pensei: legal!"
"Ele estará morto em breve, então que se foda!"
 
Usar os problemas de saúde de alguém numa discussão (mesmo que estes estejam no passado) é algo que, sinceramente, considero inaceitável – e não creio que pense assim por ter passado por um grave problema de saúde que quase me matou, já que estou certo de que pensaria da mesma forma ainda que nunca tivesse passado por aquelas cirurgias em agosto de 2007. Acredito que usar uma questão pessoal, particular, de alguém com quem nos desentendemos é deselegante, cruel e sinal de que não estamos muito seguros de nossos argumentos. 
 
Aliás, este incidente envolvendo Ebert me lembrou de uma outra briga que está ocorrendo em Belo Horizonte e que envolve um amigo muito querido, Pedro Olivotto. Antigo dono dos cinemas Liberdade, Pedro vendeu sua parte das salas para o Grupo Usina há pouco mais de um ano – e agora entrou na Justiça por sentir que está sendo lesado no negócio.
 
(Aqui abro um parênteses importante: não conheço detalhes do processo e, portanto, não vou opinar sobre o mérito da causa. Vou apenas discutir a natureza dos argumentos apresentados pelo lado que se opõe a Olivotto, como verão a seguir.)
 
Pois bem: em matéria publicada por meu (também querido) amigo Paulo Henrique Silva no jornal Hoje em Dia, o dono do Grupo Usina, Anderson Faria,  é citado na seguinte passagem:
 
"(Faria) ataca Olivotto, afirmando que o ex-proprietário está equivocado,
“demonstrando que seus problemas de saúde permanecem”, e que “a
administração do cinema não está sujeita às intempéries do Sr. Pedro".
 
E foi aqui que senti vontade de atirar o jornal do outro lado da sala, tamanha minha frustração com a postura de Faria. Pois o fato é que, há alguns anos, Pedro enfrentou um câncer gravíssimo e se submeteu a um tratamento pesado e demorado. Pai de dois filhos jovens, meu bravo amigo combateu a doença com elegância, coragem e determinação, vencendo-a para grande alívio não só de sua família, mas de seus muitos amigos. E como toda vítima de câncer, ele continua a monitorar a saúde por saber que o risco de uma recidiva é real.
 
Agora pergunto: o que o câncer (ex-câncer! Toc, toc, toc.) enfrentado por Pedro tem a ver com a disputa judicial descrita na matéria de Paulo? Absolutamente nada. Nada, nada, nada. Zero. Nadica de nada. Limitado a um órgão do aparelho digestivo, ele jamais poderia ter influenciado as ações ou o comportamento de Olivotto e, portanto, citar a doença neste contexto representa apenas um ato de covardia e, sim, crueldade. Especialmente se considerarmos que, como já dito, Pedro tem filhos jovens e, claro, já vive sob o peso de temer um retorno da doença. (Que não voltará!)
 
Acho que o Grupo Usina é fundamental no cenário cultural de Belo Horizonte e, como cinéfilo, bato palmas para qualquer empresário que invista em salas de cinema – mas ao dizer esta frase, Anderson Faria demonstrou apenas ter perdido completamente a noção do que seria aceitável numa discussão como esta. (Como se não bastasse, Pedro Olivotto ainda é um homem fundamental, importantíssimo, na história da cinefilia mineira. Suas contribuições para o nosso Cinema, suas iniciativas para aproximar o público da Sétima Arte, são públicas e notórias – e é por isto que ele tem o respeito de qualquer cinéfilo que conheça sua trajetória e mereceria, portanto, um tratamento mais honroso mesmo de seus adversários na esfera jurídica.)
 
Ora, todos aqui sabem como desprezo Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi. Isto não quer dizer, porém, que eu celebraria ou trataria com ironia qualquer problema de saúde que estes viessem a ter – e garanto que jamais seria vil a ponto de agredi-los ao usar uma doença para diminui-los. Há limites para qualquer briga, desentendimento ou bate-boca. E acredito que Ebert e Olivotto foram vítimas de pessoas que, infelizmente, parecem não conhecer estes limites.

Semana de Homofobia

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 88 comentários

Começou no dia 4 de Maio, com um artigo intitulado "Escândalo e Decadência" assinado por Valério Mesquita na Tribuna do Norte:

"Captei
na internet que o Senado iniciou a discussão da proposta de
discriminação da homofobia em colisão com as convicções cristãs. Começou
a tramitar sub-repticiamente na Câmara Federal e, em 23 de novembro de
2006, foi aprovada sorrateiramente em plenário. Como pano de fundo a
proposta pretende punir quem reprova o homossexualismo. A relatora,
senadora Fátima Clede do PT de Roraima (quem diabo é Fátima Cleide?), já
emitiu(…)"

O texto de Mesquita (quem diabo é Valério Mesquita? Ou, para falar a língua do sujeito, eu deveria perguntar: "QUE diabo é Valério Mesquita?"?) já começa com uma confusão clara de alguém que acredita que sua "fé" é tão inquestionável que deve determinar as relações sociais e legais de seus concidadãos. Num Estado Laico como o Brasil, as leis da Igreja não se confundem com as do país – e presumir que as "convicções cristãs" devem ser defendidas mesmo que firam direitos legais (como o de não ser discriminado por orientação sexual) é não só uma imensa estupidez, mas uma arrogância sintomática de quem segue um Deus de intolerância. Além disso, as sugestões do autor de que a lei foi apresentada "sorrateiramente" e que ele a "captou" por acaso denuncia apenas sua própria ignorância, já que tudo foi fartamente debatido por meses. Mas continuemos:

"Num país onde o presidente da República fala abertamente em preservativo
e ponto G não há como não concluir que o governo perdeu o respeito
pelos valores éticos e cristãos. Isto porque o projeto insensato se
propõe incriminar qualquer pessoa física ou jurídica (igrejas) que de
alguma forma não aceitam o comportamento homossexual ou a “orientação
sexual” como uma prática ou “padrão social aceitável” em qualquer lugar
público ou privado.
"

Oh, não! O Presidente fala sobre planejamento familiar e proteção contra doenças sexualmente transmissíveis! Que pecado imperdoável! Sim, o Vaticano foi, por anos (acho que ainda é), um dos maiores acionistas da Bayer, que fabrica camisinhas, mas esse tipo de hipocrisia movida à ganância é algo que empalidece diante do dever de um gestor público de divulgar medidas de proteção aos seus cidadãos. E falar de "ponto G" só pode ser considerado algo "anti-ético" por alguém que encara o sexo como tabu, como pecado, como algo a ser discutido através de sussurros carregados de culpa. Como se não bastasse, Mesquita não vê problema algum em colocar seu direito à liberdade religiosa (uma escolha) acima dos direitos daqueles que nasceram com determinadas orientações sexuais, o que, claro, não é de se espantar vindo de alguém que empalidece diante do conceito de que a mulher deve sentir prazer no sexo.

"(…) aprovada a lei, as aberrações sexuais (transtornos de conduta moral)
deixarão de ser um vício, um problema médico e ou social para ser um
mérito, e quem o criticar será tratado como criminoso."

Um criminoso como o senhor Valério Mesquita (quem diabo é Valério Mesquita?) demonstra ser ao tratar os homossexuais publicamente como "aberrações".

"E como ficam os postulados bíblicos e as igrejas que já sofrem e
combatem, não só publicamente, mas internamente, tais procedimentos à
luz das Sagradas Escrituras e dos bens costumes?"

Duas opções: caso queiram manifestar o conceito de "Deus", "Jesus", oração, Fé e por aí afora, podem ficar onde bem entenderem, já que a liberdade religiosa é algo defendido na Constituição. Por outro lado, caso queiram utilizar a desculpa da liberdade religiosa com o objetivo de pregarem a intolerância, devem ficar na cadeia e nos tribunais. Simples assim.

"Até a dona de casa que descobrir e exonerar a babá lésbica que cuida das
crianças será punida."

Aqui não vejo nem como contra-argumentar. O raciocínio de Mesquita é tão distante de qualquer resquício de bom senso que sinto estar diante de um marciano. Um marciano homófobo, claro.

"A postura pró-safadeza do governo brasileiro não é novidade. (…) Perseguir os católicos e evangélicos que jamais deixarão de seguir a
infabilidade da palavra de Jesus Cristo (“o que desligares na terra será
desligado no céu”) pelas diabruras de almas mortas dentro de corpos
inutilmente vivos é retroagir ao tempo das catacumbas."

É aqui que preciso parar e contar até mil para controlar o velho temperamento e não dizer alguns palavrões. A estupidez de Mesquita é rivalizada apenas por sua arrogância ao usar a "infabilidade da palavra de Jesus Cristo", um personagem que, de tão deturpado, já virou figura ficcional, para estabelecer sua superioridade moral. Além disso, ao classificar homossexuais como "almas mortas dentro de corpos inutilmente vivos", é o próprio Mesquita quem retorna ao "tempo das catacumbas" (WTF?), praticamente fazendo a defesa da execução de gays e lésbicas em função de sua "deturpação moral". Se isto não é o suficiente para processá-lo, então nossas leis precisam mesmo de uma revisão urgente.

Não conheço o Tribuna do Norte, mas ceder espaço a um ser abjeto como Valério Mesquita não é indício de que seja uma publicação que deva ser levada a sério.

Infelizmente, porém, o discurso enlouquecido do homófobo Mesquita não foi o pior momento da semana, já que, no Globo, um artigo traz a afirmação do arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, de que "a sociedade atual é pedófila". E o que o valoroso Dadeus (hihihi) usa para defender tal afirmação? Talvez o excesso de exposição de crianças em programas de televisão nos quais são levadas a dançar usando roupas mínimas enquanto imitam danças erotizadas de funkeiras que cantam atrocidades como "Fama de putona só porque como seu macho"?

Não.

Ele queria apenas defender os inúmeros casos de abuso sexual envolvendo padres ao afirmar que a pedofilia se generalizou e que é mais comum entre "médicos, professores e empresários". De onde ele tirou essa informação? Do mesmo lugar do qual tirou a frase seguinte: "Antigamente não se falava em homossexual. E era discriminado. Quando começa a (dizer) que eles têm direitos, direitos de se manifestar publicamente, daqui a pouco vão achar os direitos dos pedófilos".

Em outras palavras: escalado pela CNBB para falar publicamente pela organização, Dadeus usou, como defesa das canalhices feitas por sua quadrilha de hábito, o conceito absurdo, preconceituoso e repulsivo de que a homossexualidade estaria associada à pedofilia de alguma maneira abstrata – e que defender um seria defender o outro. Percebam que, com isso, ele não condenou seus colegas criminosos, limitando-se apenas a desviar a atenção do assunto ao atacar um grupo que, ao contrário dos padres pedófilos, não fazem mal a absolutamente ninguém, desejando apenas que a sociedade respeite a orientação sexual com a qual nasceram e que envolve sexo consensual por parte de dois adultos.

Mas a insanidade do arcebispo continua. Aparentemente julgando que suas idéias preconcebidas servem como substitutas de pesquisa psicológica e comportamental, ele prossegue:

"Nós sabemos que o adolescente é espontaneamente homossexual. Menino brinca com menino, menina brinca com menina. Só depois, se não houve uma boa orientação, isso se fixa."

Aqui sou levado a questionar o significado do verbo "brincar". Quanto à afirmação de que é a "boa orientação" que finalmente "conserta" a natureza homossexual do ser humano (sim, por que é isso que ele argumentou, no fim das contas), bom… só posso dizer que se é esse tipo de pessoa que a CNBB apresenta como representante, então a Igreja está perdida.

O que nos traz, claro, à terceira e derradeira notícia que encerra a semana da homofobia no Brasil: os discursos homofóbicos feitos por Anthony Garotinho em eventos promovidos para alavancar sua candidatura ao governo do Rio:

"Anthony Garotinho, que deve concorrer ao governo do Rio de Janeiro este
ano, vem sendo acusado de incentivar a homofobia em eventos realizados
por todo o estado. Os atos promovidos pelo político oficialmente tem
caráter religioso, mas na prática servem como palanque para que
Garotinho, que é envagélico, fale contra a união homoafetiva e ataque
adversários que apoiam a realização de Paradas Gay.

Em evento realizado na última semana na Baixada Fluminense,
Garotinho esteve acompanhado por Emanuel de Albertin, cantor gospel que
soltou a pérola: "Se Deus fizesse o homem para casar com homem, não
seria Adão e Eva, teria feito Adão e Ivo". O mesmo cantor perguntou aos
presentes no palco e à plateia se eram favoráveis à união civil gay.
Todos disseram ser contra e Garotinho aproveitou para alfinetar Fernando
Gabeira e Sérgio Cabral. "O Gabeira e o Sérgio Cabral são a favor. O
governador patrocina Parada Gay em Copacabana", disse."

O que nos traz ao tipo de combinação que vem se tornando cada vez mais comum na política brasileira e que encaro como  um dos maiores perigos que a sociedade enfrentará nos próximos anos: a combinação de política e religião feita por candidatos que, pregando para a base evangélica, vêm buscando alcançar cargos através da propagação do ódio e do preconceito. Políticos que, eleitos, terão poder e influência para emplacar leis que beneficiem não o país de modo geral, mas apenas aos conservadores preconceituosos que, acreditando falar em nome de Deus, agem como verdadeiros demônios, esforçando-se para diminuir, discriminar e eliminar aqueles que, ao seu ver, não são dignos de "Jesus".

Uma Cruzada feita nas urnas e que, portanto, soa legítima embora, em sua essência, seja um pequeno câncer espalhando-se pela República.

Sim, eu comparei religião a um câncer. Mas o mais curioso é que, neste caso, a quimioterapia recomendada é simples e sem efeitos adversos: o amor ao próximo. Algo que, paradoxalmente, os religiosos extremistas parecem ter uma dificuldade imensa em experimentar.

Papa Palpatine, o Sumo-Canalha

postado em by Pablo Villaça em Discussões | 67 comentários

Na realidade, nem tenho muito a acrescentar. Quem acompanha este blog sabe minha posição sobre religião de um modo geral e, principalmente, conhece minha adoração por crianças – não só as minhas. Embora me orgulhe de ter conseguido controlar meu temperamento, que no passado me levou a várias altercações vergonhosas, não me envergonho de dizer, por exemplo, que provavelmente voaria no pescoço da babá que agrediu um bebê de 11 meses. Sou completamente irracional no que diz respeito a adultos que machucam crianças.
 
Assim, embora já soubesse que o cardeal Ratozinger (vulgo Papa Palpatine) atuou, no passado, para encobrir escândalos da Igreja envolvendo pedófilos, chegando a ameaçar com a excomunhão qualquer um que ajudasse a polícia nas investigações (assistam ao documentário Deliver Us From Evil), a matéria publicada ontem no New York Times renovou minha revolta com relação ao canalha que hoje detém o posto mais importante da Igreja Católica ao revelar que, na década de 90, ele ajudou a proteger um padre que molestou… duzentos garotos surdos nos Estados Unidos.
 
Se fosse um governante qualquer, a única saída para este verme de hábito seria a renúncia. Mas não espero que isso aconteça: se a Igreja Católica tem o costume de proteger pedófilos, seria muito otimismo esperar que seu líder maior fosse derrubado por um escândalo "menor" como esse.
 
Por outro lado, se você é católico, pode renunciar à Igreja. Não estou falando sobre renunciar a Deus, que, se existir, nada tem a ver com as ações repugnantes dos homens que se dizem seus representantes, mas sim sobre renunciar a uma organização cujo presidente é um protetor de pedófilos. Ou você realmente acredita que faz algum sentido se dizer católico ao mesmo tempo em que renega o Papa?
 
Nestes momentos, acho realmente uma pena que não exista um Inferno. Seria fantástico ver o Papa sendo continuamente estuprado pelo Diabo.

Meus filhos não são índios

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Luca & Nina | 87 comentários

Presentear uma criança é muito fácil; basta lembrar-se do que você gostava de ganhar na infância: brinquedos. Sim, você pode até optar por roupas (ao menos os pais do aniversariante vão gostar), mas desde que se certifique de que esta traz algum super-herói ou personagem do Cinema ou da televisão estampados no tecido. Em outras palavras: não estamos falando de física quântica; crianças são fáceis de agradar.
 
Mas querem saber o que não é um bom presente de aniversário? Uma bíblia.
 
Em primeiro lugar, é algo que qualquer criança, por mais religiosa que seja, achará chato. E segundo – e mais importante -, meus filhos não são índios para serem catequizados por um convidado metido a missionário. Para completar: educação religiosa cabe aos pais. Eu determino o que quero ou não ensinar aos meus filhos a este respeito – e se você ainda por cima conhece a posição anti-Religião do pai do aniversariante… bom, aí o presente já deixa de ser simplesmente uma gafe e vira uma ofensa.
 
"Ofensa?", podem pensar alguns. "Que exagero. Dar uma bíblia de presente não pode ser considerado uma ofensa!".
 
Ah, não? Pois veremos como o casal (evangélico) que nos presenteou com uma bíblia irá se sentir quando, no próximo aniversário de um de seus filhos, eu presenteá-los com o que chamo de box "Escolha uma Religião": um pacote que inclui o Corão, o Talmude (e o Torá) e, claro, o Evangelho Segundo o Espiritismo.
 
Já a bíblia ficará de fora, pois presumo que a criança em questão já possua uma.