Discussões

RaUL, filósofo brasileiro

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Twitter | 50 comentários

O RaUL, para quem não sabe, tem twitter. E é imperdível. Um dia vira livro.

E simplesmente não posso deixar de transcrever aqui uma série de tuitadas que ele publicou há alguns minutos e que demonstram que até mesmo a mais estúpida das criaturas é capaz de ver certos absurdos:

"EMAJINE COMO CERIA
SE O FAUSTÃO COMESSACE A PUCHAR O SACO, SEM, PARAR, DE UM BANDO DE
MONGO, DA, RUA, A, O, EM, VÉS, DOS ASTRO DA GLOBO.

E EMAJINE CE ELE
DESCOBRICE VÁREOS SINÔMBALO PARA A ESPRESSÃO "UM MONSTRO SAGRADO DA
_____ BRASILEIRA' E FOCE UM PECEUDO ENTELEQUITOAU.

E EMAJINE CE ELE
FICACE TUDO CÉRIO, COMO, SE, QUISECE CONVENCER TUDO MUNDO QUE AS MERDA
QUE ELE HÁ PRESENTA SÃO EMPORTANTE DE VERDADE.

BEM, PÁRA DE
EMAJINAR E CIGA @PBiaL"

Im-pe-cá-vel. Porque chamar de "heróis" um bando de gente fútil em busca de fama fácil é uma ofensa não só à inteligência alheia, mas a todo um povo que se mata diariamente para colocar comida na mesa.

Nostalgia ou perda real?

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões | 38 comentários

Quando adolescente, troquei muitas cartas. Correspondia-me com meu tio, que morava (e mora) em Salvador, com uma amiga do Rio de Janeiro e, quando viajava nas férias, enviava cartas saudosas para a namorada. Todo o exercício era pensado: não era uma simples questão de botar palavras no papel, envelopar, selar e postar. Não. O simples fato de botar a tinta no papel, escrever de próprio punho, sabendo que aquelas palavras seriam lidas por alguém querido do outro lado… isso mudava a dinâmica. Cada palavra era pesada, escolhida a dedo e medida contra suas colegas de cada lado da frase. Era fundamental ser preciso, dizer o queríamos dizer, mas também da melhor maneira – fosse esta a mais elegante, a mais econômica, a mais sentimental ou a mais contundente.

Isso acabou. Agora, basta entrar no MSN, no Orkut, no Twitter ou no Facebook e disparar uma mensagem rápida para seu alvo. Este a lerá, responderá de maneira igualmente rápida e abrirá outra janela para ver um vídeo no YouTube. Demore 10 minutos para responder e acabará recebendo outra mensagem impaciente criticando sua lentidão. As palavras perderam a importância enquanto meio; já são um fim em si mesmas. Não importa a construção da frase, basta que esta cumpra sua função rapidamente.

Não é que eu sinta falta da demora. Como qualquer um, não consigo me imaginar esperando dias ou semanas por uma resposta. Não. Eu simplesmente sinto falta do romantismo de escrever com cuidado não para o público de um blog, mas para aquela pessoa em específico. De polir cada sentença imaginando a reação que ela terá ao ler o que construí no papel. De embolar o papel, frustrado, ao constatar que aquele parágrafo não saiu como deveria. De abrir a carta-resposta antecipando os tesouros que esta traria.

E era certo que esta não me surpreenderia com um "LOL. Rachei aqui com sua carta. xoxoxoxo".

A carta era uma forma de arte. Não é à toa que temos livros que reúnem trocas de correspondências entre escritores, políticos, cientistas, poetas e seus pares. Esta arte deixou de existir. E também a possibilidade de registro deste vai-e-vem de palavras. Vocês conseguem imaginar algo como "Tuitadas entre Rimbaud e Verlaine"? Ou "Conversas de Lispector no MSN"? 

Amo e abraço a tecnologia. Acredito firmemente que novas mídias são capazes de trazer frutos inesperados. Este post, por exemplo, começou com uma série de twittadas.

Mas é no mínimo revelador que eventualmente eu tenha sentido a necessidade de transformá-lo num post de blog. E é triste saber que jamais poderei envelopá-lo e despachá-lo pelo correio. Meus correspondentes agora são vocês e isso traz muitas alegrias. Mas antecipar o recebimento pelo correio de uma resposta cuidadosamente concebida não é uma delas.

“A não mais solitária luta de Pablo Villaça pelos direitos autorais”

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Série Jornalistas | 30 comentários

Matéria publicada no site da APIJOR (Associação Brasileira de Propriedade Intelectual dos Jornalistas Profissionais). Recomendo a leitura por conter informações relevantes sobre a questão dos direitos autorais. De todo modo, reproduzo abaixo a entrevista que concedi à jornalista Vanessa Silva para a matéria:

1) Não foi a primeira ocorrência de jornais que utilizam seus conteúdos sem autorização. Como vê essa relação dos veículos com o trabalho jornalístico na internet?

Não, não foi. Há 20 dias, o Tribuna Independente de Alagoas não só reproduziu um texto meu na íntegra como ainda o alterou para que parecesse que o escrevi especialmente para o jornal. (Acrescentaram um "que estréia amanhã, em Maceió" no meio da frase de abertura.) Além disso, no ano passado, o Notícias do Dia de Joinville (SC) republicou minha crítica sobre "O Leitor" – algo que descobrimos vários meses depois. Ao ser procurado pelo departamento jurídico do Cinema em Cena, o editor do jornal foi grosseiro e negou fazer qualquer tipo de reparação. Estamos estudando como agir.

Estes são apenas três exemplos mais extremos: praticamente todos os dias (mesmo), recebo notificações do serviço Copyscape (www.copyscape.com), que assino, me notificando sobre uso de TRECHOS de meus textos em artigos, notas e críticas publicadas em jornais de todo o país – e que nem se preocupam em fornecer créditos ou links para o Cinema em Cena. Não que fornecer os créditos seja o bastante: vivo do que escrevo e crédito não põe comida na mesa. Se alguém usa algo que escrevi, quero (e tenho o direito de) ser pago por isso.

Infelizmente, isso vem acontecendo com freqüência cada vez maior. Por alguma lógica deturpada e irracional, muitos acreditam que algo publicado na Internet é de domínio público e não pensam duas vezes antes de copiar textos inteiros ou trechos específicos, numa falta de ética absoluta que reflete a notória queda na qualidade do jornalismo brasileiro. Triste.

2) Você vai entrar com alguma ação contra o Jornal da Imprensa?

O editor do veículo entrou em contato comigo e pediu desculpas formais. Agora o departamento jurídico do Cinema em Cena discutirá com ele um valor a ser pago pela reprodução da matéria. Como falei, desculpas e créditos não são aceitos no supermercado e nem na tesouraria da escola dos meus filhos.

3) Qual a sua reação ao encontrar um texto de sua autoria sendo utilizado sem sua autorização?

Revolta, frustração, raiva. É terrível ver o fruto do seu trabalho sendo roubado – especialmente com tamanha freqüência e sem pudor algum.

4) Isso ocorre por que motivo? As empresas não têm conhecimento sobre a Lei dos Direitos Autorais, os jornalistas não tem conhecimento sobre seus direitos e por isso “deixam passar” atitudes como essa…

Uma combinação de fatores: em primeiro lugar, como escrevi anteriormente, há essa visão estúpida de que algo publicado na Internet é de domínio público. Além disso, há o amadorismo: indivíduos que ficam tão felizes em ver seus trabalhos publicados/reproduzidos em algum lugar que praticamente se vangloriam por isso – e são muitos, lamentavelmente. Como se não bastasse, há aqueles que trabalham de graça (ou praticamente), aceitando o simples crédito como retribuição pela "colaboração". O que, claro, contribui para criar nas empresas esse sentimento arrogante de que tudo lhes pertence; se querem um texto, basta pegá-lo e pronto.

E, sim, a falta de iniciativa daqueles que são roubados é algo que só colabora para que esta prática se torne comum. Posturas como "ah, vai dar trabalho conseguir ser pago", "o que posso fazer? Gastar com advogados?", etc, é algo não só preocupante, mas que indica uma passividade lamentável. Particularmente, devo dizer que no ano passado recebi cerca de 2 mil reais líquidos apenas de cobrança de textos reproduzidos ilegalmente. Não é muito, mas é um "extra" – um dinheiro que entrou sem que eu esperasse, o que é sempre bom.

5) A Apijor é a associação de cuida dos direitos autorais dos jornalistas. Temos um boletim diário sobre direitos autorais e outras temáticas relativas à comunicação. Qual sua apreciação a respeito desta iniciativa? Já conhecia a entidade?

Não, não conhecia. Como disse, sempre batalhei sozinho (ou melhor: ajudado pelo jurídico do Cinema em Cena) por meus direitos e muitas vezes senti uma frustração imensa ao julgar que esta era uma batalha solitária. É bom saber que a Apijor existe e atua para combater esta prática.

6) As empresas, principalmente na Europa, criaram um movimento (Declaração de Hamburgo) contra os agregadores de notícias que indexam conteúdos de notícias mas não revertem nenhum dinheiro para os produitores desses conteúdos. Alguns críticos consideram que essa atitude não será revertida em benefícios para os profissionais, que continuarão não recebendo a mais ou a menos. Qual a sua opinião a respeito?

Há dois tipos de agregadores de notícias: aqueles que linkam para os textos originais e outros que reproduzem as matérias na íntegra ou a maior parte destas. Quanto aos primeiros, nada tenho contra, já que direcionam público para os veículos responsáveis pelas matérias, gerando tráfego e receita em potencial. Quanto aos últimos, devem ser combatidos como o que são: ladrões de conteúdo, publicações que infringem direitos autorais e devem pagar por isso.

—–

Aproveito para agradecer à APIJOR pelo interesse demonstrado pelo assunto e por lutar pelos direitos dos produtores de conteúdo.

A maldição dos efeitos visuais

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 37 comentários

Não sou um purista. Não sou um conservador. Não acho que as novas tecnologias representam o fim do Cinema. Não condeno os efeitos visuais digitais por natureza. Se o fizesse, não teria gostado tanto de Avatar.
 
Dito isso, tenho ficado cada vez mais incomodado com o uso indiscriminado de efeitos digitais nas grandes produções. Chegamos a um ponto em que até planos que poderiam ser perfeita e facilmente criados com efeitos mecânicos passaram a utilizar o computador. Dia desses, vi um filme no qual um personagem entrava em um helicóptero que, em seguida, decolava do alto de um prédio. Era fácil perceber que a cena fora rodada num estúdio, com o greenscreen, e que nada daquilo era real. É mais barato criar num computador a ilusão de um helicóptero decolando de um prédio do que seria alugar um aparelho real, pagar o piloto, subir num prédio com o ator e filmar? Sem dúvida alguma. Não só mais barato, mas mais prático, já que a equipe pode ser reduzida e não há o risco do mau tempo ou da iluminação imperfeita atrapalhar o cronograma da produção.
 
Mas custou ao filme em resultado, já que, naquele instante, fui atirado para fora da história. E aí vem a pergunta: aqueles 100-200 mil dólares de economia valeram a pena? Se estivéssemos falando de uma produção independente, sem recursos, a pergunta perderia o sentido, já que 200 mil dólares pagariam muita coisa, mas para uma superprodução de 100-150 milhões, isso é trocado. Então a resposta seria um sonoro "não".
 
Porém, ninguém mais faz esta pergunta. O computador se tornou uma ferramenta usada indiscriminadamente para criar de macacos gigantes a pequenas explosões, passando por carros, cenários e tudo mais. O problema é que, em vez de criar elementos mais realistas, permitindo que qualquer coisa se torne possível na tela, esse fenômeno tecnológico passou a levar o espectador a questionar tudo que vê.
 
Antigamente (agora, sim, estou soando como um velho saudosista), quando víamos algo como O Grande Roubo de Trem ou Indiana Jones e a Última Cruzada e víamos os personagens saltando sobre os vagões em alta velocidade, sabíamos que não estávamos vendo Sean Connery ou Harrison Ford, mas que algum ser humano, em algum momento, teve realmente que executar aquela cena para que a víssemos na tela. Se o herói despencava de uma imensa altura, sabíamos que alguém tivera que dar aquele salto, mesmo que com o uso de perspectiva forçada para aumentar a velocidade ou a altura. Mesmo artificial, a coisa era real de alguma maneira.
 
Hoje, se vemos duas pessoas lutando sobre um trem, imediatamente consideramos que aquilo foi rodado num estúdio e que o efeito foi criado posteriormente por técnicos. E a urgência e a força da imagem são diluídas pela patente artificialidade (ou por nossa desconfiança acerca desta artificialidade). Também recentemente, vi um filme no qual um personagem caía de um despenhadeiro – e imediatamente o ator era substituído por um boneco digital tão real quanto uma nota de três reais. Conseqüentemente, em vez de sentir o impacto daquela morte, apenas pensei: "Putz, que efeito ruim", o que, claro, foi fatal para o propósito narrativo do longa.
 
Uma coisa é criar o impossível no computador; outra é usá-lo para tentar recriar algo perfeitamente alcançável através de efeitos mecânicos ou de dublês apenas para economizar um pouco e ganhar um dia ou dois no cronograma de filmagens.

A Tragédia em Angra: Uma Novela Jornalística

postado em by Pablo Villaça em Discussões | 29 comentários

Durante minha estada num hotel nos últimos dias, ouvi algumas pessoas comentando em voz alta que já "não aguentavam mais ouvir falar da tragédia em Angra", "que já sabiam mais sobre a tal Yumi do que sobre os próprios parentes", etc, etc, etc. Na realidade, a maior parte dos comentários girava em torno da filha dos donos da pousada Sankay, como se ela fosse a culpada por sua superexposição na mídia após a própria morte.

É claro que isso é um absurdo. Ao mesmo tempo, compreendo a reação dessas pessoas, que não devem necessariamente ser acusadas de falta de sensibilidade ou compaixão, já que, de fato,  é irritante, esta tendência da mídia contemporânea de extrair a última gota de sangue de toda grande tragédia que lhe cai em mãos. E a escolha de Yumi Faraci como o "rosto" do desastre em Angra dos Reis é o exemplo perfeito do modus operandi de uma imprensa que, num mundo dominado pelo infotainment (infotenimento) e pelo déficit de atenção de um público emburrecido e preguiçoso, se sente na obrigação de embalar toda notícia num pacote que envolva drama, personagens marcantes e, se possível, uma trama bem definida.

Ora, a pobre Yumi caiu como uma luva neste sentido: jovem, bela, inteligente, talentosa, carismática e filha de pais com grande poder aquisitivo, ela fez o favor de deixar até mesmo vídeos nos quais surge cantando e que, devidamente tirados do contexto, podem soar como uma "despedida" para os amigos e parentes. E tome reprodução deste vídeo e da matéria que ela fez ao deixar Angra para ir para Belo Horizonte e fotos da moça sorridente e recapitulações da trajetória de seus pais e…

… e as demais vítimas se tornam meros coadjuvantes. 

Porém, é preciso ter em mente que esta não foi uma escolha de Yumi ou de seus parentes. Aliás, imaginem a tortura para os destroçados pais da garota, que, de 5 em 5 minutos, são obrigados a ouvir o nome da filha morta na boca de quem mal a conhecia ou reproduções não-autorizadas de seu vídeo pessoal, produzido para os amigos, agora veiculado em rede nacional.

Terrível.

O que houve em Angra e em vários outros locais do Brasil é, sim, uma tragédia. E não podemos permitir que o tratamento sensacionalista, melodramático, embalado a musiquinhas tristes nos faça esquecer disso. É fundamental que passemos por cima da abordagem comercial do desastre e nos concentremos naquilo que realmente importa: a dor das famílias destruídas pelas já previsíveis conseqüências das chuvas de fim de ano.

A Linguagem do Cinema 3D

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Curso, Discussões | 29 comentários

Avatar é, sem dúvida alguma, um grande avanço no que diz respeito à criação de ambientes e personagens totalmente gerados em computador – e também é importante observar como James Cameron se mostrou capaz de explorar a projeção 3D sem, com isso, cair na velha armadilha de incluir diversos momentos em que algo "salta" para fora da tela, assustando o espectador de maneira artificial e lembrando o público de que, afinal de contas, tudo aquilo não passa de um filme. Porém, por mais madura que tenha sido a abordagem do cineasta, é possível que só venhamos realmente a testemunhar um avanço real na linguagem narrativa do 3D dentro de alguns anos, o que, apesar de natural, não deixa de ser frustrante.
 
Para compreender os motivos que levarão a esta demora, é preciso fazer uma breve recapitulação histórica: no início, quando o Cinema surgiu, a razão de aspecto das telas e, conseqüentemente, da captação das imagens era 4:3 (ou 1.33:1), ou seja: um quase quadrado. Com isso, os cineastas do período eram obrigados a conceber composições que freqüentemente soavam amontoadas, sem espaço para respiro – especialmente quando três ou mais atores se encontravam em campo, o que obrigava os diretores a distribuírem os elementos em cena através de vários planos, de pontos mais próximos da câmera até outros mais afastados desta. Da mesma forma, quando se tornava necessário enfocar amplos espaços abertos, a solução muitas vezes residia em incluir mais teto do que laterais, como fica óbvio no plano (que exibo em meu curso) de … E o Vento Levou em que a câmera se afasta de Vivien Leigh depois que esta faz sua promessa de jamais passar fome novamente – quando, então, o céu domina o quadro, mantendo Leigh em contraluz. (Se fosse realizado alguns anos depois, o filme provavelmente expandiria o quadro para os lados, enfocando mais a terra seca do que as nuvens.)
 
Com a abertura do quadro para razões maiores, de 1.65:1 a 2.35:1, os cineastas finalmente puderam permitir que suas composições respirassem mais, brincando com a gradação dos elementos em cena e distribuindo-as de maneira mais elegante e visualmente sofisticada. Além disso, jogos estéticos feitos através da profundidade de campo  (e que já eram presentes no 1.33:1) permitiam conduzir o olhar do espectador, focando detalhes específicos ou mesmo enganando propositalmente o público, como no inesquecível plano de Cidadão Kane em que temos nossa perspectiva enganada através da grande profundidade de campo e julgamos, erroneamente, que as janelas da sala se encontram bem mais próximas do que estão na realidade – e é somente o deslocamento de Kane pelo ambiente que nos leva a perceber a dimensão da sala.
 
Ora, como isto poderia ser feito num filme 3D? A profundidade do campo, que no 2D deve ser recriada/sugerida através da perspectiva, já é uma informação fornecida automaticamente ao espectador – e, portanto, jogos cênicos como o de Cidadão Kane se tornariam impossíveis. Por outro lado, a exploração desta nova dimensão é algo que certamente renderia uma série de vantagens para os cineastas contemporâneos, que finalmente poderiam compor seus quadros levando em consideração mais um importante aspecto na distribuição de seus elementos cênicos.
 
Porém, como já dito anteriormente, ainda seremos obrigados a aguardar alguns anos até que a linguagem 3D comece a ser suficientemente desenvolvida neste aspecto. Por quê? Enumero alguns fatores:
 
1) A imaturidade: por enquanto, a maior parte dos cineastas encara o 3D como um brinquedo novo. E, como crianças empolgadas, sentem a necessidade de exibir este brinquedo para todos através de trucagens que em nada acrescentam à narrativa, servindo apenas como distrações – se encaixando, aqui, todos os exemplos de planos em que algo parece pular na direção do público, o que, por romper a quarta parede e expor a artificialidade do Cinema, enfraquece a narrativa.
 
2) O costume: ao longo dos últimos cento e tantos anos, os cineastas se habituaram a pensar em apenas duas dimensões ao conceberem seus planos. Serão necessários alguns anos até que consigam se acostumar com a dimensão extra e percebam que agora não precisam mais usar a perspectiva artificialmente, mas que podem literalmente explorar a profundidade do quadro.
 
3) O dinheiro: como toda grande mudança técnica na História do Cinema, o 3D não surgiu de um impulso artístico, mas como conseqüência de preocupações estritamente financeiras. Foi assim com o Som, com a Cor e com o abandono do 1.33:1. Assim, o 3D é mais uma resposta direta às ameaças da pirataria do que qualquer outra coisa. Porém, o número de telas 3D ainda é relativamente pequeno e, portanto, nenhum filme se pagaria caso buscasse explorar apenas os cinemas aptos à exibição em três dimensões. Conseqüentemente, os cineastas ainda não têm liberdade para pensar estritamente em 3D, já que devem se preocupar também com as telas em que seus filmes serão exibidos em 2D – o que, obviamente, é um imenso obstáculo ao desenvolvimento da linguagem. Além disso, há a questão do home video, que representa uma fatia determinante na renda das produções e que ainda não conta com uma solução de exibição em três dimensões.
 
Porém, considerando os esforços de Jeffrey Katzenberg, chefão da DreamWorks, e do próprio James Cameron no sentido de popularizar o formato (incluindo o desenvolvimento de um 3D que não exija o uso de óculos especiais), é apenas uma questão de tempo até que nos aproximemos do momento em que os cineastas finalmente se verão completamente livres para que possam explorar e desenvolver a linguagem – e esta é uma pequena revolução que estou ansiosíssimo para testemunhar.

Publicidade em blogs

postado em by Pablo Villaça em Discussões | 20 comentários

Eu sempre digo em meus cursos que o Blog é o futuro do Jornalismo. E acredito nisso. No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer até que um número razoável de blogueiros possa ser visto de maneira profissional – não só no que diz respeito à qualidade de seus escritos, mas também à ética profissional. Pois o fato é que muitos, mas muitos blogueiros se vendem facilmente. E por pouco. E a maior prova disso é que quando sou procurado por agências interessadas em anunciar aqui no blog (não no Cinema em Cena, mas no blog), a postura é sempre a mesma: pagamos "x" (um valor ridículo) e não queremos que você diga que se trata de um anúncio. A abordagem é tão direta que não é difícil concluir que eles já fizeram isso centenas e centenas de vezes.

E se não tivessem sucesso já teriam mudado de tática.

Ontem mesmo recebi um desses emails (vou excluir o nome da pessoa que me abordou e o de sua agência, bem como do produto em questão – e os grifos são meus):

"Olá

Tudo bem?

Bom, primeiramente, queria te dar os parabéns pelo
seu blog. Achei bem legal.

Eu trabalho para um XXXXX
e uma das minhas funções é justamente procurar blogs interessantes para formar
parcerias.

Queria saber se você tem interesse em nos ajudar com a nossa
divulgação.

O que procuramos com o seu blog é uma indicação na sua barra
lateral (nada de banner, nem de publicidade, só uma indicação
mesmo
).

Como não somos um blog, não podemos oferecer uma troca de links,
infelizmente.

Queria saber se, como troca de incentivos, poderíamos
acordar uma soma em dinheiro
, para que todos saiam ganhando.

Entendo que
escrever um blog dá trabalho, e você merece um incentivo.

Bem, me diz o
que você acha dessa proposta, ok?

Aguardo seu contato, mesmo em caso de
resposta negativa.

Abs,

XXX"

 

Em primeiro lugar, o tom condescendente me irritou profundamente. "Merece um incentivo"? O que ela acha? Que está conversando com um adolescente que está brincando de blogueiro no porão da casa dos pais? Ainda assim, respondi:

"XXX,

me incomodaria muito indicar o site sem deixar
claro que seria divulgação publicitária. Eticamente, não me sentiria
confortável.

 
Quanto a uma divulgação assumidamente publicitária,
qual seria o valor proposto por vocês?
 
Abraços,
Pablo"
 
A resposta:
 
"Oi Pablo,

Infelizmente, gostariamos apenas de uma indicação em forma de
link.

Agradeço seu contato"

Inacreditável. E o pior é saber que logo veremos o produto que ela está divulgando sendo "indicado" por vários blogs por aí.

Amor – Ódio – Amor – Ódio – e Ódio novamente

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Twitter, Variados | 68 comentários

Quando comecei a atuar como crítico de cinema, em 1994, era um completo desconhecido no meio. Escrevia para alguns BBS de Belo Horizonte (a Internet pré-Internet) e em um jornal regional. Em 97, com a criação do Cinema em Cena, comecei lentamente a ganhar alguns leitores e eventualmente decidi largar a Medicina (estava no sétimo período da UFMG) para me dedicar com exclusividade ao site – e dois anos depois, como chefe de redação da revista MovieStar, percebi que a crítica viera para ficar.
 
Nesta época, eu era "novidade" – e, assim, era comum ver meu nome citado ao lado de elogios feitos por leitores satisfeitos com a chance de ler algo sobre Cinema escrito por alguém diferente dos medalhões habituais. O curioso é que, lendo textos da época (especialmente aqueles escritos em 1997 e 98), continuo a concordar com os argumentos em si, mas sinto certa vergonha da forma com que escrevia (há exceções; acho a análise sobre Amadeus aceitável, por exemplo). Com o passar do tempo, fui me sentindo mais seguro de minha "voz" e o Cinema em Cena foi se estabelecendo como referência na Internet brasileira.
 
E, de um dia para o outro, comecei a perceber que muitos me odiavam.
 
Sim, a palavra é "ódio". Passei a receber emails ofensivos com freqüência cada vez maior e em diversos fóruns meu nome se transformou em sinônimo de "mau crítico". O romance inicial havia chegado ao fim. Para piorar, ignorando os conselhos de amigos e familiares, eu buscava ativamente essas mensagens negativas, lendo-as e, em vários casos, respondendo-as. E cada uma delas me irritava profundamente.
 
E então, depois de  uns dois anos, as mensagens positivas e os elogios retornaram como que por encanto. Eu era "in" mais uma vez. Sim, aqui e ali surgiam detratores, mas nada como antes. Ou eu estava fazendo algo de incrivelmente certo ou o ciclo reiniciara sozinho. 
 
O que me traz à fase atual: ou estou fazendo algo de incrivelmente errado ou o ciclo saltou para a segunda fase. Chega a impressionar: há pessoas que parecem ignorar tudo o que escrevo até que, ao encontrarem uma palavra da qual discordam, escrevem posts longos e apaixonados sobre como sou detestável, estúpido e mereço a morte. Claro que agora aprendi com os erros do passado e não saio buscando estas ofensas, mas há sempre leitores "prestativos" que não hesitam em enviar links para as agressões – e mesmo tendo amadurecido um pouquinho (ênfase no "pouquinho"), não consigo resistir ao simples clique que me levará à fogueira.
 
Há exceções? Claro que sim: há alguns dias, por exemplo, linkei aqui a carinhosa carta aberta de um leitor – que, por sua vez, inspirou várias outras mensagens de carinho. Mas os haters também se fazem presentes pelo Twitter (quando insistem em incluir um "@pablovillaca" em seus posts de ataque para se certificarem de que os lerei), através de emails e em posts no fórum do Cinema em Cena (parei de ler outros fóruns e mesmo de publicar respostas no nosso próprio). Mas acho que é inevitável que isso aconteça.
 
Enfim. Não há uma conclusão ou mesmo um insight neste post. Senti apenas a necessidade de comentar esse curioso (e frustrante) ciclo que venho observando ao longo destes quase 16 anos (caramba) como crítico.

Criticando o que você ama

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões | 49 comentários

Algumas das respostas que venho recebendo em relação ao comentário em áudio sobre (500) Dias com Ela me deixaram curioso. Fãs do filme – infinitamente mais educados e articulados do que as crepusculetes, vale dizer – argumentam que certos filmes provocam reações tão fortes que não devem ser analisados racionalmente. Compreendo.
 
Mas discordo veementemente.
 
A crítica (ou uma simples discussão) tem o dever, por definição, de buscar articular as razões por trás do sucesso ou fracasso de uma obra. Sim, há o componente subjetivo que deve ser igualmente discutido, mas se o crítico se limita a este último, a análise servirá para uma única pessoa: aquela que a formulou. Um leitor retrucou, no Twitter, por exemplo, que "filmes como esses não se analisam tão tecnicamente assim. Tem o 'fator humano'. Vai de identificação."
 
Ora, eu gosto de me considerar humano. Nunca fiz um teste de DNA para comprovar se realmente pertenço à raça humana, mas desconfio que seria positivo. E certamente já me apaixonei inúmeras vezes e senti o gosto ácido da rejeição em diversas outras ocasiões. Assim, sei como o personagem de Joseph Gordon-Levitt se sentiu ao ver a amada partir (isso ocorre no início do filme, não é spoiler, seus chorões!) e compreendo sua dor – e apontei isso ao discutir a bela atuação do rapaz. Porém, como crítico, não devo e não vou fechar os olhos para aquilo que cerca e cria a narrativa – e o fato é que de um ponto de vista estritamente objetivo, (500) Dias com Ela é bastante falho como Cinema. 
 
Acredito que o que o leitor quis dizer ao sugerir que eu não analisasse o filme "tão tecnicamente" diz mais respeito à sua própria vontade de permanecer cego aos problemas do longa para que estes não manchem seu amor pela história. E respeito isso: em alguns casos, fechar os olhos para os defeitos do objeto amado é uma atitude mais do que compreensível; é ideal, até. E, humano que sou, também faço isso aqui e ali, como em meu texto sobre Campo dos Sonhos, por exemplo, que deixa clara minha submissão irrestrita ao tema do filme. Porém, com exceção da obra protagonizada por Kevin Costner, não me lembro de ter publicado análise sobre longas que, de uma maneira ou outra, senti terem comprometido minha visão crítica em função de alguma reação excessivamente subjetiva – e se pudesse voltar no tempo, provavelmente não teria escrito sobre Campo dos Sonhos (mesmo porque acho o texto – redigido nos primeiros anos de minha carreira – terrivelmente embaraçoso).
 
Mas, no fim das contas, eu ganho a vida escrevendo sobre Cinema. E, assim, é meu dever, sim, dissecar aquela obra que te fez chorar e apontar (se for o caso) que esta reação foi provocada por uma narrativa defeituosa, maniqueísta e deselegante.
 
E você poderá simplesmente desviar o olhar e ignorar o que escrevi. Não ficarei magoado, acredite.

Observatório de Imprensa

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 17 comentários

Trecho do artigo de Alberto Dines:

"A Folha de S.Paulo consegue se
superar a cada nova edição. Mais surpreendente do que a publicação do
abjeto texto de Cesar Benjamin (sexta, 27/11), sobre o comportamento
sexual do líder metalúrgico Lula da Silva quando esteve preso em 1979,
foi a completa evaporação do assunto a partir do domingo (29), exceto
na seção de cartas dos leitores.

Num dia o jornal chafurda na lama, dois dias depois se apresenta
perante os leitores de roupa limpa e cara lavada, como se nada tivesse
acontecido. E pronto para outra.

Não vai pedir desculpas? Não pretende submeter-se ao escrutínio da
sociedade? Não se anima a fazer um debate em seu auditório e depois
publicá-lo como faz habitualmente? E onde se meteram os procedimentos
auto-reguladores que as empresas de mídia prometem há tanto tempo
quando se apresentam como arautos da ética? Não seria esta uma
oportunidade para ensaiar algo como a britânica Press Complaints
Comission (Comissão de Queixas contra a Imprensa)?

E por que se cala a Associação Nacional de Jornais? Este não é um
episódio que põe em risco a credibilidade da instituição jornalística
brasileira? Um vexame destas proporções não poderia servir de pretexto
para retaliações futuras? Ficou claro que depois do protesto inicial
("Isto é uma loucura!"), o presidente Lula encerrará magnanimamente o
episódio. A Folha, em compensação, enfiará o rabo entre as pernas."

Como fico chateado quando alguém copia um texto meu na íntegra em vez de linká-lo, roubando pageviews, caso queiram ler o restante do ótimo texto de Dines, cliquem aqui.