Livros

A Mulher no Livro de Granito

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O som do cascalho sob seus pés era um de seus favoritos no mundo. Respirou fundo, fechou os olhos e ergueu o rosto para sentir o calor do sol. Sorriu e voltou a caminhar.

O cemitério era lindo.

Já estivera em muitos cemitérios. Sempre que visitava uma cidade nova, fazia questão de conhecer dois lugares: o mercado público e o cemitério. No primeiro, testemunhava a cor local, entreouvia sotaques em conversas animadas e sentia os cheiros particulares do lugar; no segundo, mergulhava um pouco em seu passado, via rostos que já não existiam e imaginava a vida que deixara de ser.

E ao longo dos anos, constatara que não havia dois mercados ou dois cemitérios iguais. Ainda assim, nada o preparara para o de Saint-Paul-de-Vence.

Localizado na Riviera francesa, o vilarejo datava da Idade Média e se tornara uma atração turística precisamente pelo charme das pequenas edificações que, situadas no alto de uma montanha e ladeadas pelos grossos muros do que fora uma fortificação, vigiavam todo o imenso e belo vale ao seu redor. Boa parte dos espaços havia sido ocupada por pequenas galerias de arte e por charmosos restaurantes, mas ainda era possível perceber que muitas famílias ocupavam as antigas casas de pedra – e, o mais importante para ele, mantinham o velho cemitério ativo.

Situado ao sul do vilarejo, este se projetava sobre o vale abaixo, trazendo antigas sepulturas que pareciam equilibradas à beira de declives que ofereceriam aos seus ocupantes uma vista invejável caso não estivessem presos em suas residências de cimento e cegados pelo inconsciente eterno.

Mais comprido do que largo, o cemitério se estendia por cerca de duzentos metros a partir da muralha de Saint Paul de Vence e podia ser dividido em três níveis separados por uma pequena escadaria e por uma inclinação natural do terreno, trazendo lápides que iam de conceitos elaborados (e caros) a outras surpreendentemente simples e que traziam apenas os nomes dos falecidos em alto relevo sobre uma placa plana de cobre.

Ele se aproximou do pequeno portão de metal verde, no qual um mapa rudimentar do local era exibido, e notou que este destacava a localização do túmulo de Marc Chagall: a partir da entrada, deveria virar a primeira à direita e depois à esquerda. Embora seu interesse por cemitérios nada tivesse a ver com o local de repouso de nomes famosos, percebeu que gostaria de ver onde o pintor estava enterrado.

Considerando a relação problemática que Chagall mantinha com a própria herança judaica, ficou surpreso ao perceber a quantidade de pedras deixadas por visitantes sobre sua sepultura; por outro lado, a abundância de moedas de um centavo norte-americano não o espantou: turistas vindos dos Estados Unidos tinham o hábito de deixá-las em qualquer túmulo famoso que visitassem ao redor do planeta. Hesitou sobre a possibilidade de abaixar-se e pegar uma pedra para colocá-la ao lado das demais, mas decidiu que respeitaria a indefinição do morto sobre sua religião e abandonou a ideia. Notou, então, que um grupo de turistas japoneses se aproximava para visitar o artista e se afastou rapidamente.

Fez, a seguir, o que costumava fazer nestas visitas, passando a ler os nomes e datas de nascimento e morte presentes nas lápides. Interessava-se principalmente por aquelas que traziam pequenos retratos de seus ocupantes, pois sentia que isto conferia maior realidade às suas histórias, transformando aqueles nomes em pessoas de carne e osso. Conseguia imaginá-los sorrindo, chorando, vivendo. Às vezes, chegava mesmo a derramar algumas lágrimas diante de certas fotos, dependendo do que lia em suas expressões.

Questionava-se se aquele era um exercício saudável, mas convencia-se de que, como escritor, extraía no mínimo alguma inspiração da experiência.

Sob a sombra de uma sebe, viu a sepultura da família Maeght e admirou sua simplicidade. Mais cedo, estivera na fundação que levava o nome do casal formado por Aimé e Marguerite e lera, num painel, como haviam decidido criar aquele espaço após a morte do filho Bernard, aos 11 anos de idade – mas, de alguma forma, ver seus nomes inscritos em mármore e ler suas datas determinantes era algo que os tornava mais palpáveis.

Este era um efeito colateral inevitável de suas visitas a cemitérios, aliás: ler epitáfios como “Ao nosso pequeno filhinho Remi” trazia a tragédia da vida de desconhecidos que vieram em outra época para perto de seu próprio cotidiano – e isto o ajudava nas projeções de seus textos e, gostava de crer, o tornava mais humano.

Nada, porém, que o preparasse para a descoberta que faria em alguns minutos e que ocuparia boa parte de seus pensamentos nos dois anos seguintes de sua vida.

Afastou-se do túmulo da família Maeght e desceu os degraus para o segundo nível do cemitério. Decidira visitar o vilarejo num impulso ao descobrir que, por engano, marcara seu retorno ao Brasil com um dia de atraso, prendendo-o a Nice por mais 24 horas. A passagem por Saint-Paul-de-Vence, contudo, estava se revelando um dos pontos altos de sua viagem.

Família Papillon. Lorious. Goletto.

E então viu a foto.

Envolvido por uma moldura oval prateada, estava o retrato de uma mulher jovem e sorridente. Vestindo um terninho cinzento (ou que parecia cinza, já que a imagem estava em preto-e-branco), ela olhava para a câmera enquanto trazia sobre a cabeça uma espécie de véu branco que se abria para lhe revelar o rosto. Talvez aquela imagem fosse da cerimônia civil de seu matrimônio, já que não usava o vestido tradicional – embora a grande rosa branca sobre o terno, acima do seio esquerdo, sugerisse alguma formalidade.

Seus lábios eram finos e abriam espaço para os dentes que tornavam seu largo sorriso tão encantador e que levava suas maçãs do rosto a se projetarem e a exibirem um rubor que era perceptível mesmo em tons de cinza. O cabelo, preto e curto, surgia numa franja encaracolada sobre a testa, ao passo que as sobrancelhas bem delineadas protegiam seus olhos escuros.

Foram os olhos que o capturaram. Ladeando o nariz estreito, quase classicamente grego na forma como se encurvava sobre a boca, seus olhos eram expressivos como poucos – e se evocavam algum sentimento, era o de tristeza, embora sorrissem.

Olhos tristes tendiam a ser os mais belos. E os dela eram, neste aspecto, maravilhosos.

Estudou a pequena escultura sobre a lápide que, feita em pedra de granito, exibia o formato de um livro aberto que trazia as palavras “A mon épouse chérie. Votre mari dévoué.” em uma página e a foto da garota na outra sobre seu nome e suas datas de nascimento e morte:

Bette Michelet
1932-1961

29 anos tinha Bette ao morrer. E morrera 13 anos antes de ele nascer. Não chegaram a coabitar o planeta, mas ele agora a conhecia. Observou pensativo o retrato por alguns minutos e, sentindo-se triste, decidiu retornar ao hotel.

Despertou no dia seguinte pensando em Bette. Tomou o café da manhã e passou cerca de duas horas na piscina tentando se distrair. No banho antes do almoço, descobriu-se sob a ducha depois de meia hora distante no passado ao imaginar o cotidiano da moça.

Retornou ao cemitério naquela tarde e tirou algumas fotos do túmulo. Precisava saber mais sobre aquela jovem esposa morta tão precocemente e também sobre o marido que a chamara de “querida” no granito.

———— x ———–

Digitou “Bette Michelet” no Google, entre aspas, para garantir o nome exato seria investigado pelo buscador. Pensara em incluir “Saint-Paul-de-Vence” na busca, ou sua data de morte, mas desistiu: queria encontrar a maior quantidade possível de resultados.

Descobriu apenas cinco – e obviamente nenhum deles era sobre “sua” Bette. Havia uma norte-americana com este nome na Flórida que aparecia sob o título “Wonder who’s calling you?” – um site que aparentemente oferecia o serviço de revelar os titulares de contas de telefones celulares. Além disso, o Google trouxe duas listagens que incluíam “Le cousin Bette”, de Balzac, ao lado de “Le peuple”, de Jules Michelet. Em compensação, falhara em encontrar uma única menção à Bette Michelet enterrada no sul do vilarejo medieval mais famoso da Riviera.

Suspirou, frustrado, e tentou buscar “Bette” e “1961”. Nada.

A Internet, em suas quase 50 bilhões de páginas indexadas pelo Google, se recusava a reconhecer que a moça existira.

Olhou para o relógio e constatou que, se quisesse pegar o avião, deveria se apressar. Jogou na mala as duas camisas que usara em sua rápida passagem por Saint-Paul e guardou os objetos de higiene pessoal na mochila. Sentou-se na beirada da cama e encarou o chão.

E percebeu que não podia partir sem tentar descobrir mais sobre Bette Michelet, que morrera há 54 anos.

Pegou o telefone para ligar para a companhia aérea e sentiu um frio na barriga ao olhar pela janela do quarto e notar que conseguia divisar, ao longe, a silhueta borrada do cemitério no qual se encontravam os restos de sua nova e inesperada obsessão.

(fim da primeira parte)
(parte 2)

Melhor que o Filme

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(Esclarecimento ético: Fernando Ceylão é um amigo. Dito isso, como verão abaixo, seu livro é muito foda – algo que pretendo discutir com adjetivos mais elegantes e convincentes do que o que acabei de empregar.)

Em “Melhor que o Filme”, o ator/humorista/roteirista/diretor Fernando Ceylão consegue um feito admirável: cria um livro multifacetado que experimenta não só com diversos gêneros, saltando de textos cômicos a outros mais dramáticos, como ainda brinca com a própria linguagem, fazendo comentários pontuais sobre o próprio texto (como ao manifestar seu prazer ao usar parênteses, por exemplo) e investindo na metalinguagem. Estes exercícios, aliás, já começam na contracapa, que traz a reprodução de pedidos de frases elogiosas para a própria contracapa, e se espalha para as orelhas do volume, que oferecem um conto sobre… orelhas.

O mais notável, contudo, é observar a segurança de Ceylão como contista: aqui, ele assume a voz e a personalidade de uma camisa polo para narrar sua vida na primeira pessoa; ali, adota os clichês tão comuns em matérias “jornalísticas” de veículos como a Caras para criar uma narrativa surrealista com toques de horror existencial ao mesmo tempo em que trata tudo com a superficialidade de uma revista que insiste em informar a idade e a profissão de seus personagens-celebridades. E, no entanto, nada disso soa como experimentação gratuita, já que, alimentando o humor e a lógica dos textos, surgem observações profundamente humanas e universais sobre nossas inseguranças, aspirações e também nossos pontos cegos diante da realidade alheia. Em certo texto, por exemplo (“A Espera”), Ceylão acompanha a ansiedade crescente de uma mulher que aguarda o telefonema de um possível paquera e, num texto que representa a fluidez dos pensamentos da personagem, traz momentos de humor que surgem justamente do reconhecimento de como somos capazes de pensamentos profundamente preconceituosos – e o fato de os rechaçarmos não elimina o fato de que nos ocorreram:

“Eu vou acordar a babá da Clarinha. Vou bater papo com a babá. Perguntar se na comunidade elas fazem alguma coisa pra esperar passar o tempo enquanto o homem não liga. Na comunidade não tem essas frescuras, elas vão lá e dão. A classe média é o problema. Rico e pobre vai e dá, vai e faz o que tá a fim. Até incesto pra eles, é… Ai, que horror.”

A passagem acima é um exemplo perfeito do estilo do autor: não só o uso da palavra “comunidade” é algo empregado com inteligência ao ilustrar a arrogância com que a patroa se apropria de um termo a fim de se sentir inclusiva e tolerante (o que o pensamento seguinte contradiz) como o “Ai, que horror” final escancara sua autocrítica tardia de classe média que adora se enxergar melhor do que é.

Além disso, o livro revela Ceylão como um escritor capaz de construções que – e aqui falo como alguém que vive de escrever – despertam profunda inveja. No conto “Um Romeu Feio”, por exemplo, ele discute seu carinho por “casais feios” (algo que, acreditem, ele desenvolve de maneira tão delicada que jamais se revela ofensivo) e pontua:

“O casal feio atravessa o mundo na calma dos que estão fora da competição.”

E imediatamente entendemos o que ele quer dizer enquanto apreciamos a bela analogia. Da mesma maneira, em outra passagem, ele nos apresenta a um sujeito que, para evitar brigas, deixa a namorada acreditar estar sempre certa – um dilema que ele traduz como:

“É como se eu namorasse um ditador, mas deixasse ele pensar que estamos numa democracia.”

Mas que isto não leve à impressão de que “Melhor que o Filme” é um apanhado de histórias centradas em torno da experiência do autor como homem branco heterossexual (ou seja: um privilegiado por natureza). Sim, em certo momento ele pode discutir como ter crescido na Tijuca moldou sua persona, mas em outros ele assume com naturalidade os pontos de vista de todo tipo de personagem, tratando-os com respeito e complexidade.

Enquanto desperta o riso.

Depois deste livro, Fernando Ceylão já pode seguramente acrescentar “Autor” aos vários substantivos separados por barras que abrem este texto, pois fez por merecer.

Melhor que o Filme, Fernando Ceylão
Memória Visual, 2014
174 páginas

Um presente para os leitores

postado em by Pablo Villaça em Livros | 21 comentários

Jerry Lewis não marcou o Cinema apenas graças à sua parceria com Dean Martin, às suas dezenas de comédias e ao teleton anual que criou e comandou por anos para angariar fundos para a pesquisa sobre distrofia muscular. Não. Além de tudo isso, Lewis também foi um cineasta talentoso que, entre outras coisas, contribuiu imensamente para o Cinema criando uma ferramenta que os diretores do mundo inteiro hoje consideram como algo fundamental em um set: o video-assist (ele se viu obrigado a inventar uma solução para poder assistir às próprias atuações nos filmes que dirigia). Não é à toa que sou fã incondicional do ator/roteirista/produtor/diretor, já tendo escrito sobre ele várias vezes aqui no blog.

Pois bem: no final da década de 60 e início da de 70, Lewis ofereceu diversas palestras como professor de uma universidade da Califórnia – e, em 1971, estas suas aulas foram compiladas em um livro, “The Total Filmmaker”, que logo passou a ser considerado não só um dos melhores “manuais de direção”, mas também leitura obrigatória para todos aqueles que simplesmente amavam a Sétima Arte. Infelizmente, o livro eventualmente saiu de catálogo e tornou-se indisponível, vindo a se transformar num dos exemplares mais raros da literatura relacionada ao Cinema. Para que tenham uma ideia, cópias usadas do livro podem ser encontradas na Amazon com preços que oscilam entre 394 e mil dólares. Sim, mil dólares por uma cópia nova.

Pois tenho um presente para vocês

Update: Menos de cinco minutos depois que publiquei este post, o blog caiu em função do excesso de acessos. Pelo visto, não sou o único que entendeu a preciosidade aqui divulgada.

Lost at Sea: The Jon Ronson Mysteries

postado em by Pablo Villaça em Livros | 2 comentários

Jon Ronson é um jornalista britânico que se especializa em investigar histórias de tom absurdo envolvendo pessoas comuns e histórias relativamente comuns envolvendo pessoas absurdas – entre as primeiras, há o caso do vencedor do “Show do Milhão” britânico que acabou sendo julgado por trapacear (o que acabou inspirando Quem Quer Ser um Milionário?) e da cidadezinha no Alaska que busca manter o clima natalino por todo o ano; já entre as segundas, há as crianças “Indigo”, supostamente dotadas de poderes sobrenaturais, e ninguém menos do que Stanley Kubrick, cujos arquivos Ronson teve a oportunidade de investigar após a morte do cineasta.

Assim, neste Lost at Sea, uma antologia de seus artigos publicados em vários veículos, diversos relatos como estes divertem e impressionam graças ao tom bem humorado e auto depreciativo utilizado pelo autor, que percorre o mundo exibindo um ótimo faro para narrativas potencialmente fascinantes. Em um artigo, por exemplo, ele pode se encontrar numa cidadezinha sueca a fim de conversar com o sujeito que tentou alcançar a fissão nuclear em sua cozinha e, no momento seguinte, surge a bordo de um cruzeiro com o único propósito de conseguir uma entrevista difícil com uma médium que alega ser capaz de revelar o paradeiro de crianças desaparecidas, trazendo imenso sofrimento aos pais com suas “visões” incorretas.

No meio do caminho, Ronson frequentemente provoca o riso ao se colocar como personagem neurótico de seus relatos – o que não o impede, claro, de extrair confissões impressionantes de seus protagonistas, já que, ao mergulhar por semanas ou meses em cada história, acaba criando um vínculo profundo com aquelas pessoas. Assim, mesmo que sintamos arrepios ao ler a seguinte passagem dita por um homem condenado por pedofilia, não podemos deixar de admirar a habilidade do jornalista de levá-lo a se abrir com tanta franqueza (a tradução é minha):

“Chris Denning perguntou se eu queria saber qual era a pior coisa com relação a sentir-se atraído por menores de idade.

“Infelizmente,” ele disse, “eles crescem. Desaparecem. A pessoa pela qual você se sentia atraído some. Deixa de existir. Você nunca poderá ter uma relação duradoura com eles. É muito triste.”

Aliás, se há algo curioso que poderia ser visto como um problema na abordagem de Jonson, este reside em sua natureza excessivamente compassiva: é frequente que, ao final de suas matérias, ele revele ter se apegado aos seus entrevistados – mesmo quando estes são picaretas que se passam por médiuns, pedófilos condenados ou multibilionários que ressentem o fato de serem vistos como privilegiados que deveriam pagar mais impostos. Em alguns destes artigos, surge, inclusive, a impressão de que o autor poderia ter sido mais cáustico em suas conclusões caso não tivesse se deixado envolver pelos personagens.

Isto, porém, não torna suas histórias menos interessantes, envolventes ou divertidas.

Observação: a edição em paperback do livro traz um artigo adicional que não se encontra no ebook, mas que pode ser comprado separadamente por apenas 3 dólares (comprei ambos): The Amazing Adventures of Phoenix Jones – And the Less Amazing Adventures of Some Other Real-Life Superheroes. Único artigo a trazer fotos (fantásticas) acompanhando o texto, é também uma das mais engraçadas, expondo a dedicação e o apego de Jonson aos indivíduos que descobre para suas histórias e envolvendo passagens hilárias como aquela que narra a tentativa de Phoenix Jones de usar uma arma que dispara uma rede de pesca e que, em sua estreia, acabou prendendo o próprio herói, que teve que ser resgatado pela polícia.

Lost at Sea: The Jon Ronson Mysteries, Jon Ronson
Riverhead, 2012
416 páginas

The Amazing Adventures of Phoenix Jones – And the Less Amazing Adventures of Some Other Real-Life Superheroes
Riverhead, 2011
53 páginas

Cinema não é Literatura

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Livros | 43 comentários

Sempre que um novo filme da série (não, não é “saga”) Crepúsculo entra em cartaz, as fãs da subescritora Stephenie Meyer protestam contra as críticas negativas afirmando que “bastaria ler o livro” para compreender melhor a riqueza dos filmes. Não que o argumento “não gostou do filme porque não leu o livro” seja exclusividade das crepusculetes, mas é inevitável constatar a frequência com que esta “defesa” é usada pelas inconformadas garotas. Ora, o que elas parecem não entender é que Cinema e Literatura são artes distintas que exigem estrutura, linguagem e tratamento próprios – e qualquer filme que tente se ater excessivamente ao material original estará fadado ao fracasso, gerando uma narrativa sem ritmo, prolixa e provavelmente confusa. 

A boa adaptação é aquela que respeita o livro que a inspirou sem tratá-lo como um material sagrado, intocável. E qualquer obra baseada em outra pré-existente que só funcione se já tivermos conferido a original é, por definição, um fracasso artístico.

Tomemos, como exemplo de um bom trabalho de adaptação, Os Homens que Não Amavam as Mulheres: em meu texto sobre o filme, comentei que não havia sentido vontade alguma de ler a trilogia de Stieg Larsson após conferir o longa sueco por ela inspirado, mas que isto mudara após assistir à versão de David Fincher – e, de fato, nos últimos dois dias devorei a primeira parte da trilogia. Não é um grande livro e Larsson, como escritor, tropeça em alguns elementos estruturais e, principalmente, em seus diálogos que oscilam entre o óbvio e o expositivo, mas é uma narrativa envolvente e beneficiada pela excelente concepção da personagem Lisbeth Salander. No entanto, o que me chamou particularmente a atenção e que pretendo discutir aqui é o excepcional trabalho de adaptação feito por Steve Zaillian, que cumpre exatamente a função que descrevi acima: respeita o texto de Larsson e suas ideias, mas não hesita em fazer algumas alterações radicais ao transpô-lo para o Cinema.

Analisemos, num primeiro momento, a estrutura básica do livro (e, claro, sugiro que quem não leu o livro ou viu o filme interrompa aqui a leitura, pois comentarei detalhes da trama):

1) Prólogo – Henrik Vanger recebe o quadro e liga para alguém.

2) Somos apresentados ao herói, Mikael, que enfrenta problemas legais em função de uma matéria que escreveu.

3) Somos apresentados a Lisbeth Salander e descobrimos que é introspectiva, mas brilhante investigadora.

4) Mikael é contratado por Henrik e o mistério de Harriet é apresentado.

5) Mikael inicia suas investigações e conhecemos os suspeitos da família Vanger. Ele se envolve com Cecilia Vanger. Passa dois meses na cadeia.

6) Lisbeth enfrenta e resolve seus problemas com o novo tutor. Também descobrimos que sua mãe está em um asilo.

7) Mikael descobre a ligação bíblica por trás dos crimes e os Vanger passam a fazer parte da revista Millennium.

8) Lisbeth é contratada para ajudá-lo e os dois personagens principais finalmente se encontram.

9) A investigação avança e Lisbeth e Mikael se envolvem.

10) Mikael sofre um atentado e descobre o gato morto diante da casa. 

11) Depois de ver as fotos da turista e de Gunnar, Mikael avança em suas conclusões. 

12) Os assassinatos são resolvidos.

13) Mikael e Lisbeth usam Anita Vangler para chegarem à Harriet. Mikael vai para a Austrália e a mãe de Lisbeth morre.

14) Mikael traz Harriet de volta e esta assume o controle das empresas Vanger.

15) Lisbeth oferece vasto material sobre Wenneström para Mikael, que se recolhe por meses em sua cabana para escrever. Lisbeth o acompanha.

16) Um informante é descoberto dentro da revista Millennium. Com um dos sócios, Mikael planeja uma estratégia para enganar Wenneström.

17) Uma edição especial da revista é publicada ao lado de um livro. A imprensa repercute as denúncias. Wennerström foge.

18) Lisbeth rouba boa parte da fortuna de Wenneström.

19) Lisbeth se descobre apaixonada por Mikael e decide se declarar.

20) Mikael e Erika são vistos por Lisbeth, que se afasta.

 

Analisando rapidamente estes principais pontos estruturais da trama, é fácil perceber que Steve Zaillian foi bastante fiel ao texto de Larsson, do prólogo ao desfecho. No entanto, como um bom roteirista, não hesitou em descartar personagens importantes no livro, condensar outros e alterar até mesmo revelações cruciais a fim de criar uma narrativa mais fluida e ritmada:

1) A mãe de Lisbeth é descartada. Em vez disso, Zaillian usa o ex-tutor da moça para exercer a função de humanizá-la e demonstrar que é capaz de afeto e calor humano, ganhando tempo também ao não ter que explicar para o espectador as circunstâncias do relacionamento de Lisbeth com dois personagens diferentes.

2) O envolvimento com Cecilia Vanger é descartado. Além de completamente desnecessário (ele é obviamente incluído no livro apenas para criar um conflito entre a descoberta da foto, que parece implicar Cecilia, e o carinho que Mikael sente por esta), este envolvimento representaria o terceiro de Mikael no filme – e se ao longo de 400 e tantas páginas isto não incomoda, ver o herói transando com três mulheres diferentes em menos de duas horas seria, no mínimo, uma distração descartável. 

3) A primeira transa de Lisbeth e Mikael é adiada. No livro, Lisbeth reflete e decide racionalmente ir para a cama com o jornalista. No entanto, ilustrar para o espectador a lógica interna da moça seria difícil sem um diálogo expositivo ou um off (ambos recursos geralmente pedestres) e simplesmente colocá-la na cama com o companheiro soaria arbitrário. Ao mover a transa para logo depois do atentado a Mikael, Zaillian cria um fator motivador para o sexo, que surge mais natural (mesmo que, para isso, ele seja obrigado a mostrar Lisbeth costurando Mikael em vez de levá-lo para o hospital, o que é meio implausível. Dos males, porém, o menor.).

4) Gunnar e Harald são condensados. No livro, Harald é um ex-nazista decrépito e Gunnar se encontra morto há anos. Para ver as fotos tiradas por este durante o acidente em 1966, Mikael é obrigado a recorrer ao filho do sujeito, que busca as caixas e as entrega para o jornalista. Tudo isto consumiria tempo excessivo de tela (e resumir 400 e tantas páginas do livro em 160 de roteiro é uma tarefa considerável) e, assim, Mikael visita a casa de Harold, que se transforma no fotógrafo responsável pelos retratos que o sujeito busca. Com isso, somos apresentados ao ex-nazista e temos acesso às fotos em uma única cena. Solução econômica e elegante.

5) A subtrama envolvendo o jornalista infiltrado na Millennium é descartada. Já sabemos que Wennerström é inescrupuloso e que a revista encontra-se com problemas. Gastar um longo tempo de projeção com as discussões acerca do “espião” e das estratégias para enganá-lo seria puro desperdício. 

6) O sócio de Erika e Mikael é descartado. Além de representar economia de tempo, esta decisão estreita a relação profissional entre o casal, o que é fundamental em uma narrativa que tem apenas duas horas e meia para estabelecer a dinâmica entre vários personagens.

7) Todos os incidentes envolvendo Mikael e os habitantes da cidadezinha na qual passa a morar são descartados: seu flerte distante com a dona do café Susanne, a matéria difamatória publicada no jornal local e a investigação do ex-pároco da vila. Mais uma vez, tudo isto consumiria tempo excessivo e nada acrescentaria à narrativa.

8) A conversa entre Mikael e Martin no porão é expandida. Isto é fundamental para que conheçamos as motivações do vilão (que no livro são explicadas em longas passagens dissertativas) e para ressaltar a tensão da cena.

9) As passagens de Mikael pela prisão e pela cabana, onde permanece meses escrevendo, são descartadas. Nem é preciso esforço para compreender por que Zaillian as considera descartáveis.

10) A resolução do mistério de Harriet é alterado: Anita agora está morta e Harriet, em vez de viver na Austrália, assumiu o lugar da prima – e é preciso aplaudir a coragem do roteirista ao fazer a alteração mais arriscada do projeto, que poderia provocar a ira dos fãs e enfraquecer o filme. O fato, porém, é que Zaillian mais uma vez está correto: incluir Anita representaria introduzir mais um personagem e mais uma etapa na investigação de Mikael. Eliminando-a, Zaillian se vê livre destes dois empecilhos e pode encerrar o mistério bem mais rapidamente: em vez de ir à Austrália, Mikael já encontra Harriet no lugar da prima, o que também elimina a necessidade de explicar que esta não se casou para que Harriet pudesse usar sua identidade e passaporte. Mais importante, porém, é que ao condensar as duas personagens e levar Mikael a visitar Anita no meio da projeção (algo que não acontece no livro), Zaillian evita apresentar Harriet apenas no final do filme, já que normalmente é deselegante, do ponto de vista narrativo, introduzir uma nova figura importante já no terceiro ato. Além disso, o roteirista leva o espectador a sentir a satisfação de perceber que a pista para o mistério principal do longa havia sido plantada bem antes e que já havíamos visto Harriet, o que elimina qualquer risco de sentirmos certa arbitrariedade na solução.

11) As repercussões da volta de Harriet dentro da família Vanger e das empresas do grupo são descartadas, já que o que nos interessa no filme é a história de Lisbeth e Mikael, não daquelas pessoas.

12) Um elemento importante do passado de Lisbeth é exposto no filme, embora seja apenas sugerido no livro. Isto é usado por Zaillian para estreitar os laços entre os dois, já que aqui não podemos contar com os monólogos internos de Lisbeth que expõem sua aproximação cada vez maior do jornalista. Além disso, ajuda a explicar um pouco melhor a pesonalidade da garota. Não era estritamente necessário, fazer isso, mas tampouco atrapalha.

 

Analisadas as principais alterações e o papel que desempenham na narrativa do filme, é importante repetir que, apesar delas, Zaillian se mantém bastante fiel ao centro do livro e à sua estrutura. Assim, é lamentável que não tenha sido indicado ao Oscar por seu trabalho, sendo substituído pelo medíocre roteiro de Os Descendentes, mas ao menos está representado no igualmente eficiente O Homem que Mudou o Jogo.

Resta agora torcer para que as crepusculetes entendam a diferença entre Cinema e Literatura. Ou melhor: para que descubram que Literatura existe.

Life Itself – Capítulo 09: Blackie

postado em by Pablo Villaça em Livros | 17 comentários

Lendo “Life Itself”, do ídolo, mentor e (que orgulho dizer isso) amigo Roger Ebert, mantive basicamente duas reações: choros e sorrisos. O choro começou já no início, quando Roger escrevia sobre o pai, e se manteve até o final; já os sorrisos vinham não apenas de suas histórias e lembranças, mas da maneira elegante e belíssima com que ele construía suas ideias e frases ao longo da narrativa. Roger é um escritor nato; o que ele possui não é apenas “habilidade”, mas talento. Se um dia conseguir escrever com um décimo de seu talento, serei um homem feliz.

Aliás, como não há previsão de uma versão em português (o original pode ser adquirido aqui; há versão em audiobook também), pedi autorização a ele para traduzir um de meus capítulos favoritos – e Roger graciosamente a concedeu.

“BLACKIE

Toda vez que vejo um cachorro em um filme, penso a mesma coisa: eu quero aquele cachorro. Vejo Skip ou Lucy ou Shiloh e por um momento não consigo nem mesmo pensar sobre a história do filme, apenas no cachorro. Quero pegá-lo, acariciá-lo, levá-lo para passear e dizer a ele que é um bom cãozinho. Quero amá-lo e quero que me ame. Tenho um espaço vazio dentro de mim que só pode ser preenchido por um cão.

Não por um gato. Já tive gatos e gostava deles – mais do que eles gostavam de mim. Mas o que quero é amor incondicional e portanto quero um cachorro. Quero fazer de sua vida um prazer. Quero coçá-lo atrás das orelhas e coçar sua barriga quando ele se deitar. Quero estender sua cauda gentilmente para que o cão possa ver que realmente tem uma bela cauda. Quero lavá-lo com shampoo e atirar-lhe pedaços da comida sob a mesa e deixá-lo compartilhar as novidades com outros cães que encontrarmos pela rua. Quero que ele lata ao ouvir a campainha, que fique feliz ao ver meus amados, que dê a patinha e que pareça preocupado se eu estiver deprimido. Se eu jogar uma bola, quero que o cão a traga de volta e peça que eu a atire novamente.

Se você leu os livros de Travis McGee escritos por John D. MacDonald, se lembrará de Meyer, o economista cabeludo que vivia em um barco. Ele foi jantar com alguns novos donos de barco em uma marina e, ao retornar, McGee perguntou a ele como os sujeitos eram:

– Eram um tédio. – disse Meyer. – Sabe o que é uma pessoa entediante?

– Estou certo de que me contará, Meyer.

– Uma pessoa entediante, Travis, é alguém que te impede de desfrutar a solidão sem, em troca, te oferecer companhia.

Para mim, este é o problema com gatos. Se eles me seguem pela casa toda, não é porque querem brincar, mas sim porque algo comestível pode aparecer ou porque eu talvez os entretenha. Se estas perspectivas parecerem remotas, um gato simplesmente ficará onde está, contemplando-me preguiçosamente enquanto deixo a sala, se lamberá um pouco e voltará a dormir. Tive gatos que batizei de Gato Branco, Gato Laranja e Fã de Esportes; eram todos ótimos gatos e tudo mais, mas tanto fazia para eles se eu existia ou não. Depois que nos casamos, Chaz confidenciou que não gostava que os gatos pulassem sobre a mesa durante o jantar e ficassem encarando-a enquanto comia.

– Eles não vão comer nada a não ser que você deixe a mesa. – expliquei.

– A questão não é essa! – ela respondeu.

Percebi que uma das peculiaridades femininas é que não querem que seu jantar esteja remotamente próximo às pequenas e inquisitivas patas que antes estiveram ocupadas em uma caixa de areia. Homens já não ligam tanto para isso.

Nunca conheci um cão que não implorasse por comida à beira de uma mesa. Se há um cachorro que não faz isso, é porque teve toda a sua cachorrice arrancada pelo medo. Mas um cão não é um ladrão sorrateiro como um gato. Não rouba algo e sai correndo, a não ser que uma oportunidade irresistível se apresente. Um cão é uma companhia para o jantar; ele fica deliciado em ver você comendo, acredita que esta é uma ideia excelente e quer se certificar de que sua comida esteja deliciosa como você merece. Você tem uma compulsão psicologicamente poderosa em oferecer um pedaço a ele, particularmente quando o cão terá convulsões de tanta gratidão. Os cães se lembram de todos os favores que você já fez para eles e guardam estas lembranças em um banco de memórias intitulado Por Que Meu Humano É um Deus.

Mal consigo passar por um cachorro na rua sem desejar acariciá-lo. Se você permitir que eles primeiro cheirem sua mão lentamente, geralmente permitirão que os acaricie. Alguns sujeitos elogiarão o cachorrinho de uma moça bonita a fim de poderem cantá-la; já comigo a questão é estritamente a de conhecer o cachorro. Passar um tempo de qualidade ao lado de um cão me acalma e me deixa contente. Li um artigo no site “Salon” que explicava este fenômeno: a amizade entre Homem e Cachorro libera uma substância na corrente sanguínea de ambos – e é por isso que gostam tanto da companhia mútua. A substância é chamada oxitocina. Você já está à minha frente: sim, leitor, é o componente associado à emoção chamada Elevação.

Tive dois cachorros na infância, Blackie e Ming. Tinham estes nomes porque as freiras dominicanas nos diziam que cães não têm almas e que seria um pecado contra o Espírito Santo batizá-los com o nome de um santo. Isto me fez correr até a enciclopédia, já que nunca havia ouvido falar de um Santo Roger, embora provavelmente fosse soar estranho dar meu nome a um cão. Você não iria querer sua mãe gritando pela porta da rua para toda a vizinhança ouvir: “Roger, tire a cara da lata de lixo e entre em casa!”. Por sorte, havia um Santo Roger Niger em Beeleigh Abbey, então o dilema não existiu. Ele foi consagrado bispo de Londres em 1229, então o assunto estava resolvido. Blackie era meio beagle e meio spaniel. Ming era pequinês. Mas não um pequinês miniatura, esclareço logo: ele tinha um bom tamanho e se dedicava com paixão a perseguir coisas, mastigar coisas e latir para tudo que não pudesse ser perseguido ou mastigado. Sabe como associamos certas memórias a livros? Nunca poderei olhar para “Os Filhos de Sánchez”, de Oscar Lewis, sem lembrar que Ming devorou vários centímetros de sua lombada.

Em Ming depositei a atenção que foi negada a Blackie. A tragédia de Blackie foi não ter sua entrada permitida em casa; meu pai não deixava – e não porque não gostasse de Blackie: “Filho”, ele disse, “você escolheu uma época péssima para trazer um animal para casa. Acabamos de Instalar Carpete em Todos os Aposentos”. De alguma maneira, eu podia ouvir as maiúsculas desde o “I” de “Instalar”. Carpete em Todos os Aposentos era um negócio importante no final da década de 40, bem como janelas panorâmicas, que eram sempre descritas como Janelas Panorâmicas. Dá para perceber que nos mantínhamos atualizados em nossa casa. No entanto, faz parte da natureza de um cachorro se interessar por carpetes e a ameaça que isto representava ao Carpete em Todos os Aposentos era particularmente alarmante para meu pai, já que Se Algo Acontecesse Com o Carpete Teríamos que Arrancá-lo Inteiramente.

Blackie vivia em nosso quintal e por um verão abençoado fomos um cão e seu garoto, correndo por toda a vizinhança – pois cães e garotos corriam livremente naqueles dias. Ele ia a jogos de baseball comigo e perseguia minha bicicleta até o mercado de Harry Rusk e íamos ao parque. Ele conhecia todos os meus amigos. Blackie tinha seu próprio e ativo círculo de amigos, incluindo seu irmão Pimenta, que morava na casa de Karen Weaver, ao lado da nossa, e Sinuca, um dachshund que morava na rua Maple com Jackie Yates. E então as folhas do outono começaram a cair. Logo era inverno e a neve cobria o chão. As férias acabaram, Pimenta e Sinuca foram morar dentro de casa e, como abrigo, Blackie ganhou minha velha casinha de brincar, que, instalada no quintal, tinha uma casinha de cachorro em seu interior e alguns cobertores. “O pelo dele o protegerá no inverno”, disse meu pai. Mas Blackie passava dias e noite longos no frio e na solidão – e eu estava intensamente a par disso. Blackie ouvia o som do ônibus escolar e começava a latir para mim e eu corria para o jardim para consolá-lo, já que ele não parava de ganir. “Sinto muito, Blackie. Eu sinto muito”. Meu coração estava partindo, mas eu não podia ficar do lado de fora para sempre. Quando entrava e sentia o ar quente me abraçando, sentia-me devorado por dentro. Eu o havia traído. Mas entendia que meu pai tinha suas razões.

Talvez por isso Shiloh – O Melhor Amigo tenha me afetado tanto. O pai naquele filme estava essencialmente correto. Certo ano, exibi Shiloh no Ebertfest, festival que fundei na Universidade de Illinois, e nosso convidado era o grande ator Scott Wilson, que interpreta o recluso caçador de esquilos que age de forma tão cruel com o cão. Depois do filme, convidamos crianças da platéia para subirem ao palco e uma garotinha timidamente perguntou a Scott: “Moço, por que você é tão mau?”. Scott poderia ter respondido que era apenas um ator interpretando um papel, mas demonstrou um instinto perfeito ao dizer: “Querida, eu não sei. Mas aprendi a lição”.

Alguns meses depois do exílio de Blackie, o pai de Jackie Yates, um bom homem, mencionou ao meu pai que Blackie latia quase a noite toda sob sua janela. Eu sabia que isso era verdade, pois seus latidos solitários me mantinham acordado. Às vezes, eu abria a janela e dizia: “Está tudo bem, garoto!”, mas sabia que não estava tudo bem e que minha voz apenas despertaria mais lamentos. Eu tentava espiar através de minha cortina e às vezes, sob a lua, via que Blackie estava parado do lado de fora de sua casinha olhando com reprovação para minha janela. Através da porta do quarto, eu ouvia trechos de conversas vindos da sala, à noite: “Nunca para de latir… o garoto… o cachorro… Roger ama aquele cachorro… Eu sei, eu sei… Bob Yates… também me mantém acordado…“.

Anunciaram que minha prima Bernardine de Stonington tinha me convidado para uma visita. Isso implicava em minha primeira viagem de avião em uma nave DC-3 da Ozark Air Lines para Decatur. Quando voltei, sentamos no carro no aeroporto e minha mãe disse: “Há algo que seu pai quer te contar” – e eu sabia o que era e meu coração começou a gritar: “Blackie!”. Blackie tinha fugido de casa. A dez quarteirões da rua East Washington, 410, ele correu na frente de um carro dirigido por Enos Renner, marido de Frances, grande amiga de minha mãe. Os Renners ligaram para nossa casa depois de lerem sua coleira. Fiquei sentado no carro sabendo que era mentira. Algo se quebrou dentro de mim. O que Blackie estava fazendo a dez quarteirões de casa? Por que ele havia sido convenientemente atropelado por um carro dirigido por uma testemunha que já conhecíamos? Em casa, caí na cama e chorei, sabendo que Blackie não havia sido morto – ao menos não pelo carro de Enos Renner -, e que poderia estar chorando por mim no canil naquele momento. Ou poderia estar morto.

Esta é a história de Blackie. Ming morreu de ferimentos de batalha: pulou de minha cama para pegar uma mosca, caiu de mau jeito e partiu a coluna. Suas pernas traseiras ficaram paralisadas. Meu amigo Hal Holmes sugeriu que talvez pudéssemos fazer um carrinho para que ele pudesse se arrastar, mas ambos sabíamos que não funcionaria. Nesta época, eu tinha cerca de vinte anos. Nunca mais tive outro cachorro. Nunca me pareceu que seria justo com o cão: eu estava sempre viajando, chegava tarde em casa e suas refeições seriam esquecidas, ninguém poderia levá-lo para passear e assim por diante. Hoje em dia já não faz mais sentido: Chaz está ocupada em tomar conta de mim. É assim que as coisas são. Não há como eu ter um cachorro. 

Mas sempre haverá um espaço vazio dentro de mim. Um que tem mais ou menos o tamanho de Blackie.”

A Confederacy of Dunces e Born Standing Up

postado em by Pablo Villaça em Livros | 5 comentários

Ao longo dos anos, tentei diversas vezes ler A Confederacy of Dunces, livro que John Kennedy Toole escreveu em 1969, mas que só viria a ser lançado em 1980, bem depois de seu suicídio e graças aos esforços de sua mãe e do escritor Walker Percy. Infelizmente, eu sempre acabava abandonando o livro depois de 50 ou 100 páginas – algo relativamente incomum em meus hábitos como leitor. Finalmente, depois de três ou quatro anos desde minha última tentativa, decidi atacar as 405 páginas escritas por Toole e, talvez pela primeira vez, compreendi exatamente o que havia me levado à desistência no passado: o protagonista. Eu simplesmente não havia conseguido lidar com Ignatius J. Reilly, o insano, preconceituoso, obeso e repugnante anti-herói da narrativa. Vê-lo descrever suas funções fisiológicas, sua “válvula” que se fecha sob qualquer contrariedade e acompanhar seus monólogos repletos de delírios de grandeza não é tarefa fácil – e, assim, fui derrotado inúmeras vezes. Da mesma maneira, a imensa quantidade de personagens secundários e de tramas paralelas me incomodavam terrivelmente, já que sempre que a história parecia engrenar, Toole cortava para outro núcleo.

Mas o mais grave é que eu estava tentando ler o livro em uma tradução para o português.

Pode soar presunçoso, mas A Confederacy of Dunces é um trabalho que só funciona realmente em seu idioma original, já que Toole escreve com a voz de cada personagem: se os discursos de Reilly são compostos com uma cadência intensa e vocabulário repleto de grandes palavras e insultos (“mongolóide” é uma de suas favoritas), o pobre Burma Jones, faxineiro de um bar sem classe, tem seus discursos grafados pelo escritor de maneira reveladora (“You ain got nobody to come in and mop your flo. Whoa!”), ao passo que o policial Mancuso, que em certo momento pega uma gripe quase fatal, surge nas páginas dizendo coisas como “You udder arrest. Patrodeman Madcuso. Uddercover. Cubb alogg wid me. You udder suspiciudd.”. Com isso, Toole praticamente leva o leitor a enxergar aquelas pessoas através da maneira característica com que se comunicam, o que é notável.

Mas mais do que isso: contando com mais de uma dúzia de personagens importantes, A Confederacy of Dunces aos poucos vai revelando a genialidade por trás de sua estrutura aparentemente desconjuntada – e quando o livro chega ao clímax, a vontade que tive foi a de aplaudir a construção precisa do autor, que amarra todos os elementos de forma inteligente e surpreendente. Como se não bastasse, Toole usa sua divertida história (e o livro é hilário) para fazer críticas sociais e políticas importantes – especialmente se considerarmos a época em que concebeu sua obra.

É lamentável, portanto, que seu suicídio tenha nos privado de novos livros – e não duvido que viesse a receber outros prêmios Pulitzer quem fizessem companhia ao que ganhou postumamente por este seu fabuloso esforço.

“A Confederacy of Dunces”, John Kennedy Toole
Grove Weidenfield, 1980
405 páginas

Se precisei de várias tentativas para finalmente mergulhar na lógica de A Confederacy of Dunces, o contrário ocorreu com esta autobiografia do ator/roteirista/escritor/comediante/músico Steve Martin: em apenas uma sentada, devorei seu relato sobre os anos que passou fazendo stand-up – uma experiência que há muito eu não vivia. Relativamente curto com apenas 208 páginas, Born Standing Up (que no Brasil ganhou uma edição intitulada “Nascido para Matar… de Rir”) faz um objetivo apanhado da infância de Martin, de sua relação problemática com o pai severo e de seus primeiros flertes com o show business, quando, aos 13 anos, começou a trabalhar como vendedor de guias na Disneylândia. 

Usando o acesso ao parque para brincar, mas também para se tornar próximo dos artistas locais, Martin logo se encantaria com números de mágica, aprendendo a fazer vários deles e se tornando vendedor de uma loja de truques de ilusionismo – o que eventualmente o levaria a conceber uma apresentação solo que combinaria mágica, números musicais (ele aprendeu sozinho a tocar banjo ainda jovem) e piadas. Sem jamais tentar se passar por “artista íntegro em dificuldades financeiras”, o autor relata com leveza mesmo os momentos mais complicados de sua trajetória – e fiquei particularmente surpreso ao perceber como Martin sempre se envolveu com mulheres belíssimas e interessantes mesmo quando ainda era um artista pobre e desconhecido (curiosamente, depois de atingir a fama, ele praticamente se isola em função da cicatriz psicológica deixada pela frieza de sua família).

Hábil ao explicar como construia seus espetáculos e a lógica por trás de sua comédia, Martin acaba criando aqui quase um manual de stand-up – embora seu senso de humor nonsense e essencialmente visual (“I’m a wild e crazy guy!” era, afinal, seu bordão mais famoso, ao lado de seus “pés malucos” que disparam em danças inesperadas) talvez não seja traduzido de forma tão eficiente para o formato escrito (algo que ele mesmo reconhece em vários momentos).

Escritor econômico, mas obviamente talentoso, Steve Martin leva o leitor à impressão final de que, ao virarmos a última página, realmente tivemos a oportunidade de mergulhar no início de sua carreira e de conhecer a fundo sua lógica e suas inspirações como artista. E passar a admirá-lo ainda mais é algo que se torna, assim, quase inevitável.

“Born Standing Up: A Comic’s Life”, Steve Martin
Scribner, 2008
208 páginas

 

Exausto – mas Ebert me entusiasma

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Curso, Livros, Variados | 13 comentários

Os últimos quinze dias foram absurdamente exaustivos. Às vezes, tendo a esquecer que o dia tem apenas 24 horas e acumulo uma série de atividades e compromissos apenas para, no meio do processo, perceber que estou esgotado. Há algum tempo, o cineasta (e querido amigo) Helvécio Ratton me procurou perguntando se eu toparia escrever o pressbook de seu novo filme, o documentário O Mineiro e o Queijo – o mesmo trabalho que eu havia feito para seu belo Batismo de Sangue. Não é um trabalho que eu goste muito de fazer e por alguns motivos: é muito desgastante, exige bastante tempo, apenas a imprensa lê este material e ele logo é esquecido quando o filme é lançado, já que o que importa de fato é o longa. Porém, eu também tinha alguns motivos para aceitar: 1) sou fã incondicional de Helvécio; 2) Simone, sua esposa e produtora, é uma pessoa igualmente encantadora; e 3) Depois de receber uma cópia intermediária do filme, fiquei apaixonado pelo documentário. E topei, imaginando que seria mais simples do que o de Batismo – e mais curto (aquele tinha em torno de 50 páginas).

Subestimei a complexidade do assunto abordado por O Mineiro e o Queijo, já que seu pressbook ficou praticamente com a mesma extensão daquele que escrevi para Batismo. Mas Helvécio e Simone aprovaram e gostaram do resultado – e isso para mim é o que basta.

No entanto, ao mesmo tempo em que pesquisava e escrevia o pressbook, estávamos em intensa fase de pré-produção de Morte Cega, meu segundo curta. Reuniões com a direção de arte, de fotografia, figurinos, produção e, claro, ensaio com os atores: Maurício Canguçu, Carlos Magno Ribeiro e Geraldo Magela (o Ceguinho). Com produção entregue ao Guilherme Fiúza (5 Frações de uma Quase História), que conheci justamente através de Helvécio, o filme teve uma dimensão infinitamente maior do que a de A_ética, que se resumiu a oito pessoas trancadas num depósito durante três noites, trabalhando de graça e comendo pizzas compradas com os cupons fornecidos por nosso único patrocinador. Desta vez, a produção envolveu mais de 50 pessoas (chegamos a ter 32 pessoas no set), teve um custo consideravelmente maior (70 mil captados através da Lei Municipal) e envolvia diversas locações, figurantes, efeitos de maquiagem, dezenas de objetos de cena, figurinos e por aí afora.

Se somarmos ao pressbook e ao filme as obrigações no Cinema em Cena e, claro, a polêmica que tanto me desgastou na semana passada, posso dizer que dormi cerca de 5 horas diárias nos últimos 15 dias – e, claro, minha saúde pagou o preço: fiquei gripado, tive conjuntivite no último dia de filmagens e fui obrigado tomar corticóides duas vezes em um único mês.

Mas estou feliz: o pressbook agradou Helvécio e Simone, as filmagens me deixaram feliz e otimista e não deixei de escrever críticas em nenhuma das semanas anteriores. Além disso, arranjei um tempinho para produzir o curso em Curitiba no fim de setembro, que já está com mais de metade das vagas esgotadas.

Por outro lado, no domingo, meu amigo e mentor Roger Ebert assistiu a A_ética e me enviou o seguinte comentário, que compartilhei com os leitores no Facebook:

“Você é um verdadeiro diretor. Antecipo escrever sobre seu primeiro longa”. 

Fui ao paraíso e voltei.

Como se não bastasse, hoje li um trecho da autobiografia de Ebert e fiquei encantado por esta passagem, que transcrevo abaixo (tradução minha):

“Assisti a um número indescrítivel de filmes e esqueci a maior parte deles – espero. Lembro-me daqueles que valem ser lembrados e que dividem a mesma prateleira em minha mente; não existem “filmes antigos”. Em certo sentido, certos filmes “antigos” se libertam do conceito de “tempo”. Vejos filmes mudos, às vezes, e não sinto estar assistindo a obras velhas; sinto estar olhando para um “agora” que foi capturado, tempo preso numa garrafa. Quando vi os filmes mudos pela primeira vez, os atores me pareceram estranhos e datados; hoje soam mais… contemporâneos. O principal problema de um filme que tem 10 anos é o fato de não ter 30 anos. Depois que os penteados e os figurinos param de ser “datados” e começam a ser “históricos”, podemos dizer se o filme em si resistiu ao tempo”.

Quando eu aprender a escrever como Ebert, estarei realizado. Até lá, sigo tentando. 

Claquete final de “Morte Cega”. 1-7-1. Hum.

A Vida Imortal de Henrietta Lacks

postado em by Pablo Villaça em Livros | 5 comentários

Não há pesquisador no ramo das Biológicas que não tenha trabalhado com as células HeLa. Usadas desde o desenvolvimento da vacina contra o pólio até a avaliação dos efeitos de uma bomba nuclear sobre o DNA humano, as células HeLa vêm sendo empregadas em laboratórios de todo o mundo há cerca de 60 anos. Mas se o público leigo jamais ouviu falar destas células, o mais lamentável é saber que, até há pouco tempo, nem mesmo os cientistas tinham conhecimento, em sua maioria, acerca da origem destes valiosíssimos instrumentos de pesquisa – uma lacuna que o livro da norte-americana Rebecca Skloot procura preencher de maneira admirável.

Fruto de uma pesquisa que durou quase uma década, o livro resgata a memória de Henrietta Lacks (HeLa sendo, portanto, as iniciais de seu nome e sobrenome), que, morta em 1951 em função de um câncer devastador, deixou para trás quatro filhos pequenos que só viriam a descobrir a importância da mãe para a Medicina já adultos e quase por acaso. Pobre, negra e sem educação formal, Henrietta é retratada por Skloot como uma jovem alegre e mãe carinhosa que, fruto de uma infância infeliz, começava a encontrar algum tipo de felicidade quando, aos 30 anos, descobriu um tumor maligno no colo do útero que pareceu se alastrar de uma maneira absurdamente veloz – e foi justamente a natureza virulenta da doença que, de alguma maneira, disparou um processo similar à imortalidade nas células de Henrietta, tornando-as capazes de se reproduzirem in vitro de forma jamais antes vista. (Este processo, explicado de forma fascinante no texto, é relacionado à enzima telomerase, que reconstrói os telômeros presentes no fim dos cromossomos e que diminuem, em circunstâncias normais, à medida que as células se multiplicam, funcionando como uma espécie de marcador do tempo de vida destas.)

Intrigante como relato médico (e o ex-estudante de medicina presente em mim simplesmente adora este tipo de literatura), o trabalho de Skloot é magistral também em sua dimensão humana – e a maneira com que a escritora recria a vida de Henrietta da infância à morte, detendo-se com sensibilidade em sua doença e sofrimento, funciona não só como drama envolvente, mas como tributo a uma figura que, sem saber, tornou-se instrumental numa série de avanços científicos importantíssimos que beneficiaram toda a humanidade. Mas Skloot vai além ao discutir a bioética relacionada à utilização de material orgânico por cientistas, relatando também outros casos importantes que serviram como base para o estabelecimento de jurispridência sobre o tema.

No entanto, um dos principais elementos do livro diz respeito aos descendentes de Henrietta, que, humildes, jamais ganharam um centavo dos bilhões de dólares arrecadados com a comercialização das células da mãe – o que leva à triste ironia de perceber que os filhos da mulher tão importante para a Ciência não tinham dinheiro sequer para a compra de medicamentos. Skloot dedica particular atenção, neste sentido, à Deborah Lacks, filha de Henrietta que, ao longo dos anos, buscou preservar a memória da mãe e descobrir o que havia ocorrido com a irmã, enviada para  um sanatório aos cinco anos de idade. Além disso, o livro estabelece com precisão as consequências da ausência de Henrietta na vida das crianças, que, deixadas a cargo do pai e de uma parente particularmente sádica, carregariam sequelas físicas e psicológicas dos maus-tratos sofridos num lar quebrado.

Aliás, se há uma ressalva a ser feita com relação ao livro e ao trabalho de Skloot, esta está relacionada à proximidade excessiva da escritora com Deborah, já que, em vez de relatar a trajetória da família Lacks, a moça acaba se envolvendo com esta, o que acaba transformando a própria Rebecca em personagem importante da narrativa (e é incômodo perceber que, de certa maneira, acaba se tornando mais uma pessoa branca e privilegiada pelo destino a usar os Lacks como forma de ganhar destaque – mesmo que, é importante ressaltar, Skloot claramente esteja agindo com a melhor das intenções, chegando a criar uma fundação para dedicar parte dos lucros do livro à família de Henrietta. E, assim, repito: o único porém é sua decisão de se colocar como semi-protagonista do próprio livro.)

Estruturado de maneira pouco orgânica, muitas vezes interrompendo passagens fascinantes para saltar no tempo de forma frustrante, A Vida Imortal de Henrietta Lacks ainda assim representa uma leitura sempre envolvente e instigante, merecendo aplausos também por finalmente trazer à luz uma mulher que, mesmo morta, foi explorada pela sociedade que já tanto a oprimira em vida.

“A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, Rebecca Skloot
Companhia das Letras, 2010
454 páginas

Drácula, o Morto-vivo

postado em by Pablo Villaça em Livros | 17 comentários

Drácula, o Morto-vivo é tão ruim que seus editores se sentiram compelidos a incluir, como posfácio, depoimentos dos dois autores tentando explicar quais eram suas intenções ao escrever o livro. Ironicamente, a principal delas era buscar coibir o crescente desvirtuamento da natureza do personagem depois de décadas de exploração feitas por filmes, livros e adaptações teatrais concebidas por artistas não ligados a Bram Stoker, responsável pelo clássico publicado em 1897 – e, assim, é triste que justamente um sobrinho-bisneto de Stoker assine a co-autoria desta que é uma punhalada no legado do escritor.

Cometido por Dacre Stoker e Ian Holt (um pesquisador que dedicou sua vida a Drácula, aparentemente não tendo aprendido nada no processo), o livro revela-se pavoroso do início ao fim, pecando em todos os aspectos: a trama é ridícula, os personagens são terrivelmente desenvolvidos, a estrutura é falha e o estilo é digno de um pré-adolescente empolgado em assinar uma fan fiction de Bakugan.

Desvirtuando completamente os heróis do livro original, Stoker e Holt não só transformam Jonathan Harker, Jack Seward, Arthur Holmwood, Abraham Van Helsing e Mina Harker em criaturas aborrecidas e que nada lembram aqueles criados por Bram, como ainda alteram, em retrospecto, a natureza das ações dos personagens no clássico, convertendo Drácula em um herói injustamente perseguido pelos demais – e até mesmo a destruição de Lucy Westenra pelo vampiro é revista aqui como uma tentativa desesperada de salvá-la das transfusões mal-sucedidas feitas por Van Helsing. Além disso, a dupla de autores não hesita em alterar várias das características clássicas dos vampiros estabelecidas pelo escritor irlandês – e se é aceitável que derivações do gênero tomem tais liberdades, isto se torna absurdo numa obra que se pretende continuação direta daquela obra seminal.

E como Stoker e Holt justificam todas estas alterações? Inacreditavelmente, incluindo o próprio Bram Stoker como personagem deste livro e sugerindo que Drácula não passou de um plágio descarado cometido pelo escritor, que teria escutado a história narrada por um dos heróis originais, que, portanto, apresentou Drácula como vilão de maneira cínica e mentirosa. Além disso, Stoker é retratado aqui como um sujeito excessivamente vaidoso e estúpido – e se este é o tipo de “tributo” que Dacre pretendia fazer ao antepassado, só posso imaginar que tipo de insulto cometeria caso buscasse ofendê-lo.

Investindo um tempo enorme em personagens secundários que nada acrescentam à trama (incluindo o próprio Stoker e outras figuras verídicas jogadas no livro apenas para mostrar que seus autores fizeram alguma pesquisa), Drácula, o Morto-vivo ainda traz uma vilã caricata que, como se não bastasse, revela um moralismo alarmante por parte dos escritores: lésbica e liberada sexualmente, a condessa Elizabeth Bathory se coloca como a “inimiga de Deus”, sendo combatida pelo principal guerreiro do Senhor, o próprio Drácula, que se mostra romântico e casto – um jogo de princípios morais conservadores que atravessa toda a história.

Aborrecido e repleto de furos e incoerências, o texto dos dois homens ainda cheira a literatura barata, apelando para descrições patéticas e cafonas de “corpos voluptuosos” e diálogos sofisticados como “Prepare-se para morrer, sua piranha!” (mesmo).

Se queriam preservar o legado de Bram Stoker e de seu magnífico livro, Dacre e Holt conseguiram apenas golpeá-lo com o similar a uma estaca de madeira. Por este atentado em forma de sub-literatura, Dacre Stoker merecia ser banido da família.

“Drácula, o Morto-vivo”, Dacre Stoker e Ian Holt
Ediouro, 2010
480 páginas