Livros

The Fall

postado em by Pablo Villaça em Livros | 7 comentários

Há pouco mais de um ano, comentei aqui o livro “The Strain” (ou “Noturno”, na versão brasileira), primeiro capítulo da trilogia vampiresca concebida pelo cineasta Guillermo del Toro e pelo escritor Chuck Hogan. Na época, escrevi que, apesar de alguns problemas, era “uma boa leitura” e que eu ficara “curioso para ler os dois episódios seguintes da trilogia”. Infelizmente, minha curiosidade foi recompensada com a mais absoluta decepção, já que todos os defeitos presentes no primeiro livro se potencializaram no segundo, enquanto as virtudes praticamente desapareceram.

Investindo numa trama rala que mal consegue dar conta das relativamente parcas 320 páginas do volume, “The Fall” constantemente é obrigado a fazer desvios para flashbacks que pouco contribuem para a narrativa, além de investir páginas e páginas na apresentação de personagens sem nenhuma importância e que acabam sendo mortos já nos mesmos capítulos que os introduzem ao leitor (como o policial que investiga pichadores, por exemplo). Além disso, del Toro e Hogan, talvez por não terem planejado com cuidado a estrutura da trilogia, acabam atirando elementos obviamente mais importantes na história de maneira atrapalhada e súbita, como a revelação da origem do coração mantido vivo por Setrakian ou a necessidade de Nora de cuidar da mãe com Alzheimer durante a fuga.

Mais grave do que isso, porém, é perceber como até aspectos fundamentais da trama são apresentados de forma confusa, como, por exemplo, o plano do Mestre para exterminar os Antigos. Como se não bastasse, os personagens parecem agir de maneira sempre improvisada, como se tomassem qualquer atitude necessária para empurrar a história para a frente – e, neste sentido, o herói do livro anterior, o doutor Ephraim Goodweather, se torna absolutamente patético, saltando de uma estratégia a outra sem qualquer lógica ou planejamento.

Já do ponto de vista estilístico, Hogan (supostamente o responsável pela maior parte do trabalho de escrita) continua a se mostrar medíocre, investindo em descrições detalhadas de elementos triviais (como a história de um prédio que abriga um departamento do governo ou a lógica por trás da criação de um grupo anti-pichadores) e fazendo desvios na narrativa que serven apenas para entediar o leitor (basicamente, tudo envolvendo o garotinho Zack).

Mas o triste é perceber como até mesmo a morte de determinados personagens não conseguem provocar o impacto dramático esperado, já que são apresentadas por Hogan com uma falta de imaginação e sensibilidade alarmantes.

No final das contas, a impressão é a de que não há justificativa plausível para dividir a história concebida pela dupla em três volumes; seria perfeitamente viável incluir tudo o que planejaram em um único livro. Lamentavelmente, a ganância (ou a falta de senso crítico) falou mais alto.

“The Fall: Book Two of the Strain Trilogy”, Guillermo del Toro e Chuck Hogan
William Morrow, 2010
320 páginas

O Guerreiro Solitário

postado em by Pablo Villaça em Livros | 8 comentários

Embora aprecie histórias centradas em detetives assim como qualquer outro amante da Literatura, descobri apenas recentemente a existência do escritor sueco Henning Mankell, criador de um personagem que já deu origem a três longas-metragens em seu país de origem, bem como a mais de uma dezena de produções realizadas para a televisão (sendo interpretado inclusive por Kenneth Branagh em meia dúzia de episódios para a tevê britânica). Funcionário dedicado do departamento de polícia de Ystad, o inspetor Kurt Wallander é um homem divorciado, pai de uma filha em constante crise existencial e filho de um pintor acometido pelo mal de Alzheimer.

E protagonista de cerca de uma dezena de livros de imenso sucesso em vários países.

Neste O Guerreiro Solitário, quinta história estrelada pelo sujeito, Wallander é surpreendido ao atender o chamado de um fazendeiro incomodado por uma jovem que passou o dia em sua plantação, já que, ao se aproximar da garota, acaba testemunhando o instante em que ela pratica a auto-imolação. Chocado com a atitude da moça, ele logo tem sua atenção dividida por uma série de crimes brutais nos quais as vítimas são mortas a machadadas e têm o couro cabeludo arrancado, sobrecarregando-o com a pressão de lidar com um raríssimo caso (na Suécia, ao menos) envolvendo um serial killer.

Dramaturgo por profissão, Mankell é um escritor indubitavelmente talentoso, sendo capaz de conceber longas e detalhadas descrições sem que estas soem cansativas ou artificiais – e, aliás, é justamente ao investir nos detalhes que o autor acaba se diferenciando de tantos outros colegas dedicados à literatura de mistério. Mais preocupado em criar um universo complexo e realista do que em criar uma trama surpreendente (a identidade do assassino é revelada ao leitor já na primeira metade do volume), o sueco traz Wallander lidando com os problemas de saúde do pai e com suas próprias inseguranças acerca da nova namorada, além de preocupar-se com questões burocráticas relativas ao seu departamento e à substituição do chefe. Dedicando atenção a cada um dos colegas do protagonista, Mankell elabora uma galeria de personagens convincentes, atribuindo características importantes a cada um deles.

Assim, em certo momento somos informados de que a colega de Wallander, a detetive Anne-Britt, precisa fazer um telefonema urgente, o que desperta até mesmo a curiosidade de seu superior – mas como a ligação envolve uma questão pessoal, provavelmente ligada ao seu filho, o detetive compreende que não deve perguntar do que se trata, obrigando também o leitor a respeitar a intimidade da moça (e, assim, o telefonema logo é esquecido por ser importante apenas ao colaborar para tornar a detetive mais multidimensional). Além disso, Mankell não se descuida ao relatar os procedimentos policiais, desde a varredura das cenas dos crimes até as perícias técnicas e exames laboratoriais, o que torna a narrativa ainda mais verossímil.

Prejudicado apenas por não contar com um assassino particularmente interessante (mas que em sua obsessão por rituais remete diretamente ao amedrontador Francis Dolarhyde de Dragão Vermelho ou aos bobos vilões de Dan Brown), O Guerreiro Solitário ainda é sabotado por um desfecho abrupto e anti-climático, o que é lamentável.

O que não diminuiu meu interesse em descobrir as demais aventuras protagonizadas por um detetive tão prosaico – e por isso mesmo intrigante – quanto Kurt Wallander.

“O Guerreiro Solitário”, Henning Mankell
Companhia das Letras, 1995
483 páginas

Hiroshima e Nagasaki, um crime premeditado

postado em by Pablo Villaça em Livros, Variados | 52 comentários

Estou lendo “O Último Trem de Hiroshima”, de Charles Pellegrino, mas antes de publicar um post específico sobre o livro (ainda estou na metade da leitura), senti uma necessidade absurda de comentar dois elementos específicos do ataque norte-americano a Hiroshima – elementos estes que, confesso, desconhecia:

1) Como já haviam conquistado Iwo Jima, os militares norte-americanos estavam usando aquela base aérea para o lançamento de investidas com bombas incendiárias sobre várias cidades japonesas. No entanto, eles misteriosamente pouparam Hiroshima e Nagasaki de todos os bombardeios. Bondade? Não: estavam guardando as duas para a bomba atômica, já que queriam lançá-la sobre uma cidade ainda intacta a fim de melhor avaliarem os resultados da destruição.

2) Todos os dias, três ou quatro aviões dos EUA sobrevoavam Hiroshima com dois objetivos: a) tirar fotos da cidade para compararem posteriormente com a cidade já destroçada; e b) levarem a população e a defesa anti-aérea a se acostumarem com a presença das aeronaves para que, assim, todos fossem pegos completamente de surpresa quando o ataque finalmente acontecesse.

Estes dois detalhes, somados às descrições detalhadas do ataque em si e dos resultados da bomba e da radiação me fizeram sentir um terrível embrulho no estômago.

Sim, os nazistas eram vermes miseráveis, verdadeiros vilões – ninguém contesta isso. Mas a esta altura a guerra já estava praticamente vencida e o lançamento das bombas cumpriu um papel mais político do que militar. Além disso, somados à tragédia em Dresden, os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki acabaram vitimando principalmente civis (incluindo mulheres e crianças), não alvos militares – e isto é imperdoável em quaisquer circunstâncias.

Um crime premeditadíssimo e repugnante.

O Símbolo Perdido, Gênesis e Laertevisão

postado em by Pablo Villaça em Livros | 47 comentários

Dan Brown é um péssimo escritor. Basta folhear seus livros para observar suas frases de construção capenga, suas descrições que oscilam entre o óbvio e o ridículo, os personagens pessimamente construídos e os diálogos artificiais. Por outro lado, Brown merece créditos por ao menos construir uma lógica interna mínima no que diz respeito aos elementos factuais que distorce para servir à sua trama e que, ao menos no contexto da narrativa, soam interessantes o bastante para prender nossa atenção. Além disso, a estrutura de folhetim que adota, encerrando cada capítulo com uma reviravolta, garantem que o leitor sentirá o impulso de continuar a virar as páginas mesmo que esteja achando tudo aquilo incrivelmente idiota.

O que, no caso de O Símbolo Perdido, é uma verdadeira tortura.

Copiando descaradamente a estrutura que já usou à exaustão em O Código Da Vinci, Ponto de Impacto e Anjos & Demônios (que basicamente giram em torno de acontecimentos que ocorrem em curto espaço de tempo, mantendo seus heróis numa corrida constante), Brown desta vez parece não ter construído uma trama capaz de segurar mesmo algumas “horas” de aventuras, sendo obrigado, portanto, a conceber vários capítulos que claramente são jogados na narrativa apenas com o objetivo de gastar páginas. Como se não bastasse, sua tendência de manter informações importantes escondidas do leitor (mesmo que os heróis já as conheçam há tempos) é irritante e soa a trapaça, além de acabar exigindo que o autor inclua flashbacks constantes a fim de revelá-las quando se tornam necessárias para a continuidade da história.

Para piorar, se antes o simbologista Robert Langdon surgia como um sujeito inteligente, aqui é retratado como um pateta que demora a compreender certas reviravoltas mesmo quando o leitor já as digeriu com facilidade – e ainda pior é vê-lo dividindo confidências em cenários improváveis como uma esteira rolante no subsolo de Washington ou “ouvir” seus pensamentos capengas (“Confesso que estou impressionado”, ele pensa em certo momento, num dos exemplos mais patéticos da prosa de Dan Brown). Mantendo-se quinze passos atrás de praticamente todos os demais personagens, Langdon só se mantém como centro das atenções em função dos livros anteriores, o que é uma pena, já que era provavelmente o melhor elemento daqueles livros.

Com O Símbolo Perdido, Dan Brown se estabelece definitivamente como o M. Night Shyamalan da literatura norte-americana contemporânea.

“O Símbolo Perdido”, Dan Brown
Editora Sextante, 2009
512 páginas


Laertevisão é um livro de memórias que podemos ler em uma sentada. Assim, é surpreendente que seja, apesar da brevidade, tão abrangente e tocante. Composto basicamente de tirinhas em quatro quadros que retratam passagens da infância do autor, o cartunista Laerte, o livro também conta com um design gráfico inteligente que, através de imagens e anúncios de épocas, remetem o leitor diretamente aos períodos abordados pelos textos.

Divertido sem ser óbvio e emocionante sem resvalar na pieguice, Laerte ainda merece aplausos pelos traços que, embora simples na maior parte do tempo, se mostram sempre expressivos e reveladores, cumprindo perfeitamente o objetivo de representar as lembranças e sensações mais subjetivas do desenhista.

Uma leitura de pouco mais de uma hora que permanece com o leitor por dias.

“Laertevisão: Coisas que Não Esqueci”, Laerte Coutinho
Editora Conrad, 2007
128 páginas


Robert Crumb. Até mesmo aqueles que não acompanham quadrinhos (ou graphic novels) são capazes de reconhecer este nome ou, no mínimo, a fértil obra que produziu ao longo das décadas. Nome seminal da arte que pratica, Crumb assumiu, nos últimos quatro anos, um projeto surpreendente e desafiador: ilustrar a Gênesis, primeiro livro do Antigo Testamento. Para isso – e com o perfeccionismo que lhe é característico -, estudou não só várias versões do texto, como consultou especialistas em hebraico (para avaliar as contradições nas traduções) e teólogos, tomando imenso cuidado para se manter fiel ao livro e para não desrespeitar aqueles que encaram o texto bíblico como sagrado.

Ainda assim, é impossível deixar de constatar que o simples fato de ilustrar a Gênesis é algo que acaba ressaltando não apenas suas contradições, mas também seus aspectos mais abomináveis, como a misoginia, o racismo e a natureza odiosa do Deus ali retratado. Dos óbvios conflitos entre os capítulos 1 e 2 (quando a criação do Homem e da Mulher recebe versões contraditórias) à falta de caráter de figuras supostamente beatíficas da Bíblia (como Abraão, que por duas vezes aplica um golpe em algum monarca usando a esposa para ganhar riquezas), a Gênesis é um resumo perfeito do que o Antigo Testamento representa: um espetáculo de barbaridades que retrata as mulheres primeiro como “auxiliares” do Homem (palavra usada por Deus ao criá-las) e, depois, como criaturas maldosas e inferiores que parecem sempre determinadas a corromper a alma humana.

Mas nada disso é novidade – e o que importa, aqui, é a visão de Crumb, que ilustra cada versículo com maestria, concebendo imagens que impressionam não apenas pela composição, mas também pela expressividade já conhecida de seus traços, tornando o livro uma experiência obrigatória para os fãs de graphic novels.

Principalmente porque, de brinde, ainda temos a chance de testemunhar a natureza esquizofrênica e cruel do Deus “clássico”.

Como escrevi no twitter há alguns dias, foi ao ler esta versão de Crumb que constatei que o Antigo Testamento é um Senhor dos Anéis no qual Deus é simultaneamente Gandalf e o olho de Sauron.

Um personagem fascinante, portanto, mas que, ao meu ver, deveria inspirar não devoção, mas antipatia.

“Gênesis”, Robert Crumb
Editora Conrad do Brasil, 2009
216 páginas

Pela Bandeira do Paraíso – Uma História de Fé e Violência

postado em by Pablo Villaça em Livros | 23 comentários

Jon Krakauer, autor dos excelentes livros-documentário “No Ar Rarefeito” e “Na Natureza Selvagem”, voltou seu olhar em 2004 para o fanatismo religioso representado pelo brutal assassinato da jovem Brenda Lafferty e de sua filha de apenas 15 meses, Erica. Morta pelos próprios cunhados mórmons, Brenda vinha insistindo para que o marido se afastasse das doutrinas dogmáticas pregadas por seus quatro irmãos – até que o mais velho deles, Ron Lafferty, recebeu um “comunicado divino” para que livrasse o planeta da presença maligna da cunhada e da sobrinha bebê. A partir daí, Krakauer busca retratar não apenas a trajetória de Ron e seu irmão Dan (autor dos crimes) no mormonismo, mas também o próprio nascimento da religião iniciada pelo “profeta” Joseph Smith Jr. em 1830.

Embora eu tenha usado as aspas em torno da palavra “profeta” no parágrafo anterior, é importante observar que o escritor não faz esse tipo de juízo de valor em seu próprio texto. Relatando as experiências de Joseph Smith de maneira direta e objetiva, Krakauer aborda de forma sóbria até mesmo suas visões do anjo Moroni e sua “descoberta” das placas de ouro enterradas sob uma árvore e que trazia o incrível relato da ida do povo de Jerusalém para a América do Norte seiscentos anos antes de Cristo (lá eles se dividiram entre nefitas e lamanitas; os primeiros, eram honrados e temerosos a Deus, ao passo que os segundos, invejosos e violentos, foram punidos pelo Senhor e passaram a ter “pele escura” – o que explica por que Colombo não encontrou caucasianos ao chegar ao continente). Ainda assim, é claro que Krakauer discute a absoluta falta de evidências físicas e históricas da história narrada no Livro dos Mórmons, além de levantar, também, o passado mais do que obscuro de Smith, que havia sido condenado até mesmo por charlatanismo antes de inventar sua igreja – e esta abordagem seca e objetiva do autor se revela, claro, a mais acertada do ponto de vista jornalístico.

No entanto, o centro do livro gira em torno da questão da poligamia, que, introduzida por Smith vários anos depois da fundação da igreja (ele – digo, “Deus” – era afeito a enviar novas regras para seus fiéis), acabou resultando em controvérsia e, eventualmente, contribuiu para a morte do “profeta” – o que não impediu seu sucessor, Brigham Young, de mantê-la ativa. A poligamia, aliás, só viria a ser banida décadas depois quando o governo norte-americano praticamente ameaçou destruir o mormonismo, levando seus líderes da época a se livrarem do conceito por perceberem que isto afastava o apoio do público. Além disso, Krakauer documenta fartamente o racismo imperante na religião, bem como seu machismo galopante, deixando bastante claro como a própria lógica interna do mormonismo leva ao surgimento constante de dissidências e de fundamentalistas que desejam resgatar as pregações originais de Joseph Smith.

Tudo isso enquanto mantém a tragédia protagonizada pelos irmãos Lafferty em 1984 no centro da narrativa, ilustrando suas causas ao narrar eventos passados da violenta história da igreja – incluindo, aí, o repugnante massacre de Mountain Meadows, quando figuras importantíssimas na história do mormonismo ordenaram que o exército particular da igreja exterminasse uma caravana composta por 140 emigrantes, incluindo mulheres e crianças absolutamente indefesas.

Krakauer, porém, vai além: focando também o julgamento de Ron Lafferty, ele aborda a tese da defesa de que o sujeito seria “insano” e que resultou em vários depoimentos de psiquiatras que, do lado da promotoria, argumentaram convincentemente que Lafferty não era mais ou menos “louco” do que um religioso comum. “Toda crença religiosa ocorre em função da fé irracional. E fé, por definição, tende a ser imune ao argumento intelectual ou à crítica acadêmica”, aponta o escritor em certo momento, refletindo um argumento que dominaria a tese dos promotores – que, claro, conseguiram a condenação do assassino.

No entanto, apesar da seriedade de seu tema, Pela Bandeira do Paraíso é também acidentalmente divertido ao ilustrar, por exemplo, a forma curiosa com que Joseph Smith costumava resolver seus dilemas: como sua esposa não aceitava a poligamia, ameaçando também arranjar um amante caso o “profeta” se casasse com uma segunda mulher, Smith logo recebeu uma “mensagem de Deus” que ordenava “a serva Emma Smith a seguir e a se prender ao servo Joseph e a mais ninguém. Caso ela não siga este mandamento, será destruída, disse o Senhor; pois eu sou o Senhor seu Deus e a destruirei caso ela não siga minha lei”. Já em outra ocasião, sem ter o dinheiro necessário para publicar a edição original do Livro dos Mórmons, o sujeito recebeu um novo “comunicado divino” que instruía um amigo a vender sua fazenda e oferecer o dinheiro a Joseph para que este investisse na publicação – o que finalmente viabilizou a primeira edição da bíblia do mormonismo.

Ainda assim, a maior parte do livro de Krakauer é simplesmente revoltante – especialmente ao revelar que ainda hoje há milhares de moças adolescentes que, vivendo em comunidades fundamentalistas, são estupradas por homens de 50, 60 ou 70 anos depois de serem ordenadas a se tornarem suas “esposas”. Além disso, o poder econômico e político crescente do mormonismo (que, afinal, resultou na fundação do estado de Utah e de sua capital Salt Lake City) ameaça invadir cada vez mais esferas do poder público, além de se espalhar por outros países – e há a previsão de que em 20 ou 30 anos o número de mórmons chegue a 300 milhões em todo o planeta. (Infelizmente, fenômenos como o repugnante Crepúsculo, da mórmon Stephenie Meyer, contribuem para a conversão de novos fiéis.)

Intrigante e tão bem escrito quanto os demais livros do talentoso Krakauer, Pela Bandeira do Paraíso funciona, de maneira direta e indireta, como uma condenação violenta do próprio conceito de religião – e é assustador que uma das constatações mais lúcidas presentes na obra parta do assassino fundamentalista Dan Lafferty: “A religião organizada nada mais é do que o ódio disfarçado de amor”.

Que o digam os movimentos contra a união civil homossexual, por exemplo.

“Pela Bandeira do Paraíso – Uma História de Fé e Violência
Companhia das Letras, 2003
384 páginas

Donnie Brasco, de Joe Pistone

postado em by Pablo Villaça em Livros | 6 comentários

Entre 1976 e 1981, o agente do FBI Joseph D. Pistone desempenhou aquela que se revelou a tarefa mais perigosa de sua carreira: assumindo o nome "Donnie Brasco", infiltrou-se em uma das maiores famílias mafiosas de Nova York e, de sujeito visto com estranheza pelos bandidos, logo galgou os degraus da organização a ponto de ficar a poucas semanas de se tornar um "wiseguy" – um mafioso reconhecido oficialmente pelos chefões do crime.
 
Claro que todos vocês já conhecem parte desta história graças ao excelente filme dirigido por Mike Newell em 1997 – e sobre o qual falei neste podcast: com Johnny Depp no papel de Pistone/Brasco e Al Pacino interpretando o mafioso "Lefty" Ruggiero, o longa conseguiu a proeza de resumir os riscos assumidos pelo agente durante seis anos a um longa de 127 minutos de duração (ou 147 minutos na versão estendida, que foi a que comentei em áudio). Porém, é claro que muito ficou de fora e, assim, ler as 416 páginas do livro co-escrito por Pistone ao lado de Richard Woodley representa não apenas uma revisita ao filme (numa versão superestendida, digamos), mas também como exercício para compreender o árduo trabalho de adaptação feito pelo ótimo roteirista Paul Attanasio.
 
Detalhando a gênese da idéia de se infiltrar na Máfia por um longo período de tempo (um programa que o FBI não tinha na época, já que as missões do tipo costumavam durar apenas poucos dias), Pistone e Woodley fazem um cuidadoso relato sobre a preparação do agente para assumir o papel e sua abordagem delicada e paciente dos alvos, desde a aproximação de uma quadrilha periférica à Máfia até sua eventual relação com Lefty, com o assassino Tony Mirra (inexistente no filme) e, claro, com o chefe Sonny Black (interpretado por Michael Madsen no longa). Neste sentido, aliás, é curioso observar como a versão de Lefty vivida por Pacino acaba se revelando um amálgama do verdadeiro Lefty com Sonny Black, que, na vida real, estabeleceu uma amizade muito maior com Brasco do que aquela vista no filme, quando se mantém sempre distante – e Pistone chega a explicar, em seu livro, que realmente passou a gostar de Sonny, embora isto não o tenha impedido de desempenhar sua missão mesmo sabendo que, ao se revelar como agente, os demais chefões da Máfia iriam inevitavelmente ordenar a morte de Black.
 
Com uma visão nada glamourosa ou sensacionalista da Máfia, "Donnie Brasco" é uma leitura sempre envolvente, tensa e interessante, funcionando não só por fornecer um relato detalhado dos bastidores da Cosa Nostra, mas também por funcionar como um interessante estudo de personagem no que diz respeito ao próprio Joseph Pistone, que, em função de sua obsessão pela missão, sacrificou sua própria convivência com a esposa e as filhas por seis anos – além de, claro, condená-las a uma existência de anonimato para todo o sempre, já que ainda hoje tem sua cabeça colocada a prêmio pelos mafiosos.
 
"Donnie Brasco – Minha Vida Clandestina na Máfia"
Editora Record, 1997
416 páginas

Blind Descent

postado em by Pablo Villaça em Livros | 26 comentários

Qual é a montanha mais alta do mundo? Fácil, não? Qualquer pessoa minimamente informada responderá, sem hesitar, que é o Everest – e talvez alguns até mesmo saibam dizer aproximadamente a altura: 8.800 metros (8.844,43, pra ser exato). No entanto, se eu perguntasse "qual o ponto mais profundo da Terra?", provavelmente pouquíssimas pessoas saberiam a resposta.*
 
Pois o fato é que a exploração de supercavernas (aquelas com profundidades inimagináveis) talvez represente, hoje, a última fronteira da humanidade no que diz respeito à investigação dos limites do planeta: já temos imagens abundantes do fundo dos oceanos, já fomos à Lua e nos preparamos para ir a Marte, conquistamos o Everest e os pólos. Mas ainda não sabemos qual é o ponto de maior profundidade da Terra, já que equipes ao redor do mundo (mas especialmente concentradas na República da Georgia e no México) continuam a explorar ativamente algumas das maiores e mais ameaçadoras supercavernas já mapeadas.
 
E quando digo "ameaçadoras", estou usando um eufemismo, já que a atividade vem se revelando, ao longo das décadas, ainda mais arriscada do que a escalada do Everest (cujos riscos foram explorados no maravilhoso livro No Ar Rarefeito, de Jon Krakauer) e as campanhas rumo ao pólo sul capitaneadas por Roald Amundsen e por Robert Scott no início do século passado. Na realidade, há mais de 50 formas – todas terríveis – de encontrar a morte numa expedição em uma supercaverna, desde afogamento e quedas até soterramento, hipotermia, envenenamento por gases e picadas de escorpiões, passando por infecções provocadas por micróbios com os quais normalmente teríamos pouco ou nenhum contato.
 
Uma lista mais detalhada destes riscos pode ser encontrada no ótimo livro Blind Descent: The Quest to Discover the Deepest Place on Earth, de James M. Tabor, publicado pela Random House nos Estados Unidos (o título ainda é inédito no Brasil). Buscando expor para o leitor todos os riscos e extensos preparativos envolvidos na exploração de supercavernas – uma atividade pouquíssimo discutida ou mesmo conhecida por parte do grande público -, Tabor se concentra em dois dos principais exploradores das últimas décadas: o norte-americano Bill Stone e o russo Alexander Klimchouk, responsáveis por expedições importantes no México e na Geórgia, respectivamente.
 
Rico em suas descrições não só das técnicas envolvidas na atividade, mas também da topografia das supercavernas, Blind Descent muitas vezes assume a característica de uma aventura repleta de suspense especialmente ao enfocar a natureza obsessiva de Stone, que, determinado a encontrar o ponto mais profundo da Terra, não se afastava de seus objetivos mesmo quando, durante as expedições, alguns acidentes graves se colocavam em seu caminho – e as descrições feitas por Tabor das mortes dos jovens Ian Rolland e Chris Yager encontram-se entre os momentos mais tocantes e chocantes do livro.
 
Dedicando-se particularmente a explicar a perigosíssima atividade do mergulho em cavernas, quando os exploradores são obrigados a enfrentar espaços estreitos, escuros e completamente submersos a fim de encontrarem novas passagens, Blind Descent poderia perfeitamente ser adaptado para o Cinema ou – ainda melhor – gerar um documentário tão angustiante quanto aquele produzido a partir do já citado livro de Krakauer. Enquanto isso não acontece, ao menos já cumpre a nobre missão de apresentar ao mundo os corajosos (e enlouquecidos) homens e mulheres que, assim como George Mallory e sua explicação sobre sua obsessão em escalar o Everest ("Porque ele está lá"), dedicam suas vidas a um objetivo que, embora não consigamos compreender totalmente, representa mais um exemplo fascinante da dedicação da natureza humana à superação de seus próprios limites.
 
(*Atualmente, a caverna mais profunda do planeta é a Voronya, na Geórgia, cujo ponto mais baixo fica a 2.191m da superfície e a 13.432m de sua entrada.)
 
"Blind Descent: The Quest to Discover the Deepest Place on Earth"
Editora Random House, 2010
304 páginas

Dean & Me (A Love Story)

postado em by Pablo Villaça em Livros | 9 comentários

Biografias são livros tristes por definição: se
existem, é porque o protagonista levou uma vida digna de ser eternizada
em livro, mas o fato é que invariavelmente terminam da mesma maneira
melancólica, narrando a velhice e a morte do herói ou de pessoas
queridas a ele.
 
O que me traz a "Dean & Me (A Love Story)",
livro co-escrito por Jerry Lewis e James Kaplan e que se concentra na
parceria de dez anos entre Lewis e Dean Martin, que, entre 1946 e 1956,
se tornaram as figuras mais bem-sucedidas não só dos palcos, mas também
das telas norte-americanas e mundiais. Narrado na primeira pessoa, o
texto não é dos mais elegantes, abusando de coloquialismos, frases de
efeito e pontos de exclamação (tudo que tentei evitar, por exemplo, ao
escrever meu livro sobre Helvécio Ratton, que por questões contratuais
também tinha que ser narrado na primeira pessoa embora eu tenha sido o
autor de cada uma das sentenças ali presentes). Ainda assim, embora
peque como literatura, "Dean & Me" funciona graças ao imenso carinho
que Lewis manifesta por seu velho parceiro e que pode vir como uma
surpresa para quem conhece a trajetória turbulenta da dupla.
 
Aliás, aqui e ali, o excesso de generosidade de
Lewis chega a soar, é importante apontar, como algo artificial – como se
o comediante tentasse provar sua própria grandeza justamente ao se
mostrar magnânimo -, mas ainda assim, o que salva a narrativa é o
carinho sempre sincero manifestado por ele.
 
Concentrando-se principalmente nos dez anos em que
Lewis e Martin trabalharam juntos, mudando a face do showbusiness
em Hollywood no pós-Guerra, o livro faz um belíssimo trabalho ao
recontar o primeiro encontro dos dois, em uma rua de Nova York, e o
surgimento gradual de uma espécie de amizade sempre pontuada pelo fato
de Lewis encarar o outro com uma admiração similar à reservada a um
irmão mais velho. A partir daí, acompanhamos as brincadeiras que
passaram a pregar um no outro sempre que se apresentavam no mesmo local
(Martin cantando e Lewis dublando discos velhos enquanto fazia
caretas) e finalmente chegamos ao momento definitivo em que Jerry, ao se
apresentar em Atlantic City, sugere que o mafioso dono da casa de shows
contrate Martin para substituir um outro cantor, deixando escapar que
ambos costumavam se divertir bastante no passado – sem perceber que o
sujeito interpretara essa fala como uma promessa de que eles iriam se
apresentar juntos num número que envolveria comédia e música.
 
Nascia a dupla Martin & Lewis.
 
Ao longo das 300 páginas seguintes, Lewis e Kaplan
narram a ascensão meteórica da dupla, a transição para Hollywood e o
gradual ressentimento que ambos passam a nutrir um pelo outro: Martin,
por ser sempre ignorado pela crítica, que o encarava (injustamente) como um "escada"
desinteressante para as maluquices do parceiro; e Lewis, por se deixar
levar pelo próprio ego e por perceber que Martin tinha outros interesses
além da dupla. Ainda assim, embora o comediante relate algumas
passagens desabonadoras sobre o velho parceiro (como as duas ocasiões em
que deixou de comparecer a compromissos assumidos), ele acaba dirigindo
as críticas mais pesadas a si mesmo.
 
Com um terceiro ato melancólico e mais breve que
narra os anos finais da carreira de Martin e sua solidão auto-imposta
após a morte do filho em um acidente de avião, "Dean & Me" é uma
carta de amor tocante e memorável, o que compensa também o fato de pouco
revelar sobre muitos pontos importantes da vida de seu co-autor, como 
seu primeiro ataque cardíaco durante as filmagens de Cinderelo Sem
Sapato
ou a criação de seu telethon anual para arrecadar dinheiro
para a pesquisa da cura da Distrofia Muscular.
 
E nestes tempos de YouTube, é um bônus ler sobre
seu esperado (e para ele surpreendente) reencontro com Dean Martin em 1976 e
poder ver a cena com facilidade na Internet – quando podemos até mesmo observar claramente o olhar de admiração e insegurança que lança para o velho parceiro num reflexo claro do que sempre sentiu por este.
 
Um belo livro que, infelizmente, não foi lançado no
Brasil, mas que pode ser facilmente comprado em qualquer loja virtual.
 
Dean & Me (A Love Story), de Jerry Lewis e
James Kaplan
Broadway Books, 2005
341 páginas

Blog fora do ar e Presente de Natal atrasado

postado em by Pablo Villaça em Administrativo, Livros | 9 comentários

Como muitos devem ter visto, o blog ficou fora do ar por quase 24 horas. Finalmente, depois de muita luta, a fantástica Edyene, meus braços direito e esquerdo no que diz respeito a qualquer aspecto técnico do Cinema em Cena, identificou o erro, mesmo estando de férias – não era no código do blog, mas nos posts com a Promoção de Natal (partes 1 e 2). Estes problemas provavelmente foram causados pelo número imenso de comentários publicados por vocês em um espaço curtíssimo de tempo e, infelizmente, por mais que tivéssemos tentado salvar os posts… eles faleceram às 20:05 desta terça-feira, 29 de Dezembro de 2009. Que descansem em paz no Paraíso dos Posts e no Santo Cache do Google.
 
Ainda assim, como até o momento do desastre ninguém havia acertado as dez posições de minhas listas de melhores e piores, ninguém saiu diretamente prejudicado. Ainda assim, como sou bonzinho, vou bolar duas novas promoções para compensá-los pela frustração.
 
Enquanto isso, um presente de Natal atrasado (ao menos, espero que considerem como presente): meu livro "O Cinema Além das Montanhas" pode ser lido gratuitamente no site da Editora Imprensa Oficial. Aliás, toda a coleção Aplauso (que, por definição da editora, sempre traz livros escritos na primeira pessoa) está disponível para leitura gratuita. Para acessar a página do meu livro, clique aqui (você poderá lê-lo online ou baixar uma versão em PDF ou TXT). Espero que curtam.

Livros que li recentemente

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Livros | 8 comentários

A Vingança do Poderoso Chefão (de Mark Winegardner, inspirado em personagens de Mario Puzo; Ed. Record, 516 páginas) – A trama obviamente não faz jus a nenhum dos roteiros escritos por Puzo e Coppola, mas confesso que gostei de reencontrar os velhos personagens em novas situações – especialmente Tom Hagen. Ainda assim, a idéia dos delírios com Fredo é ridícula, Mark Winegardner parece incapaz de escrever diálogos condizentes com a personalidade de Michael e algumas das alterações concebidas pelos escritor nos eventos originais simplesmente não batem (como Hagen pode ter oficialmente morrido de um "ataque cardíaco" depois do que vemos neste livro?). 2/5
 
O Negociador (John Grisham; Ed. Rocco, 416 páginas) – Como em "A Firma", Grisham se mostra melhor em criar situações e personagens do que em desenvolvê-los. Assim, embora seja envolvente em sua maior parte, o livro acaba se revelando previsível em vários pontos (como o destino de Baxter) e insatisfatório em diversos outros (como o desfecho). 2/5
 
Making Movies (Sidney Lumet; Ed. Vintage, 220 páginas) – Este é um livro pelo qual tenho imensa admiração e que, inclusive, indico na bibliografia do meu curso (em sua versão brasileira, da Ed. Rocco). Assim, quando encontrei essa versão original em inglês em Los Angeles, decidi comprá-la para reler o texto de Lumet em sua língua-mãe e, mais uma vez, me encantei não só pela visão deste cineasta tão subestimado, mas também por seu processo de criação. Leitura obrigatória para quem ama Cinema. 5/5
 
Adventures in the Screen Trade (William Goldman; Ed. Grand Central Publishing, 594 páginas) – Outro livro que decidi reler depois de vários anos, este relato honesto (aliás, até demais, diriam alguns) feito por Goldman no início da década de 80 é considerado quase um clássico da literatura especializada em Cinema (especialmente roteiros) em função do retrato impiedoso e cáustico que ele pinta de Hollywood. Porém, confesso que o livro havia deixado uma impressão mais profunda da primeira vez em que o li; desta vez, senti Goldman mais como um cara talentoso, mas rancoroso e fofoqueiro, o que é uma pena. De todo modo, uma leitura sempre interessante e, sim, instrutiva. 4/5
 
Which Lie Did I Tell – More Adventures in the Screen Trade (William Goldman; Ed. Vintage, 492 páginas) – Eu ainda não havia lido a continuação do livro escrito por Goldman em 83 e, assim, achei que o fato de ter relido o original seria um bom momento para conhecê-la. Infelizmente, ela segue a regra das continuações em Hollywood e se revela desnecessária e medíocre, oferecendo ao autor apenas mais uma oportunidade para fofocar enquanto tenta estabelecer algumas regras bobas e básicas sobre a elaboração de roteiros. 2/5