Livros

O Clube do Filme

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Livros | 40 comentários

Abandonado este blog não está e nunca será. O que pode acontecer, de quando em quando, é uma ausência temporária que jamais durará mais do que três ou quatro dias – mas esse tipo de "férias", como vocês sabem, é raro e continuará sendo. Nos últimos dias, aliás, não atualizei o blog por pura falta de tempo, já que, além das obrigações administrativas relacionadas ao Cinema em Cena e ao InFilm, ainda tive que me submeter a um exame de controle da retocolite – algo que envolve até mesmo sedação (que adoro, diga-se de passagem; caso tivesse me formado em medicina, jamais poderia ser anestesista, pois creio que engrossaria as estatísticas dos médicos viciados). A boa notícia é que, pela primeira vez desde que descobri a doença, ela está totalmente sob controle – não há uma única úlcera em atividade.
 
Dito isso, aproveitei as poucas horas vagas que tive nesses dias para ler "O Clube do Filme", que muitas pessoas me recomendaram nos últimos tempos – tanto por email quanto pelo twitter.
 
Infelizmente, não gostei nada do trabalho de David Gilmour.
 
Ex-apresentador de um programa sobre cinema, Gilmour relata, no livro, uma fase em que se encontrava em dificuldades financeiras após o fim do programa e que coincidiu com os graves problemas que seu filho Jesse passou a enfrentar na escola. Sem saber como estimular o rapaz a estudar, David toma a decisão de permitir que ele abandone os estudos desde que concorde em assistir a três filmes por semana ao seu lado. A idéia é que o Cinema oferecerá a Jesse a educação e a visão de mundo que a escola não conseguiu levá-lo a absorver.
 
Interessante? Sim. Possível? Em parte – eu realmente acredito que o Cinema pode ser uma fonte importante de aprendizado. Responsável? De forma alguma; há muitas coisas que só podemos aprender na escola – e não me refiro às disciplinas, mas à importância das regras e ao convívio social.
 
E este é um problema grave em O Clube do Filme. Como pai, não pude deixar de sentir que David, mais preocupado em ser um pai "moderno" e "amigo" (algo que, ironicamente, ele reconhece), se esquece de um conceito importante no que diz respeito à paternidade: o tough love – os momentos em que precisamos ser rígidos justamente por amarmos nossos filhos. Assim, no intuito de se mostrar "aberto", ele divide cigarros com seu filho de 16 anos enquanto ensina o garoto a saborear vinho – e não é à toa que logo Jesse se torna um fumante inveterado e mergulha em repetidas bebedeiras. Porém, em vez de se preocupar com o fato de estar incentivando o filho a poluir o corpo com cancerígenos e a encontrar a fuga para os problemas no álcool, David se limita a repetir os velhos clichês do pai preocupado: "Nada de drogas! Se usar drogas, nosso acordo está rompido!".
 
Mas é claro que um adolescente sem limites como Jesse logo passa a usar cocaína – e o que David faz, então? Honra sua palavra de tornar-se mais duro com o filho por este ter quebrado o acordo? Não. Passa a mão na cabeça do moleque e tenta argumentar com o rapaz. Resultado: eventualmente Jesse vai parar no hospital após sofrer uma taquicardia resultante do consumo excessivo de drogas – e nem assim seu pai decide revisar o contrato feito com o filho. Ora, se os adultos não sentem necessidade de honrar o que dizem, por que um adolescente deveria fazê-lo? 
 
Além disso, por mais que David insista em pintar o filho como um gênio incompreendido, um rebelde que, por ser excessivamente sensível e inteligente, acaba sendo desestimulado por um sistema de ensino convencional, o fato é que a própria narrativa de Gilmour revela Jesse como um garoto medíocre e emocionalmente imaturo (até mesmo para um garoto de 16 anos). Em certo momento, por exemplo, ele pergunta para o pai se "a América do Sul é um país ou um continente" – uma informação que, convenhamos, não é preciso freqüentar uma aula de geografia para aprender, o que indica uma imensa preguiça intelectual por parte do rapaz. 
 
Como se não bastasse, a âncora narrativa do livro – o tal clube do filme – não desempenha papel importante algum na história. Sim, aqui e ali David apresenta (de maneira sempre desorganizada e aleatória) algum longa para o filho, introduzindo a projeção com algumas trivialidades sobre a produção, mas jamais sentimos que estas experiências realmente trazem algum propósito educativo maior. A impressão é apenas a de que David quer uma oportunidade de impressionar o filho (e o leitor) com seus conhecimentos cinematográficos – e se no processo ele conseguir transformar Jesse em um cinéfilo, ótimo. Ainda assim, quando ele faz um "teste" com o rapaz no final do livro e o garoto demonstra conhecer Fassbinder, por exemplo, não conseguimos encontrar, no próprio livro, a origem de tal familiaridade com o cineasta alemão (e muito menos entendemos como isso substitui uma educação "formal").
 
Finalmente, o mais decepcionante em O Clube do Filme é perceber como a visão do próprio David Gilmour é limitada no que diz respeito ao Cinema. Sim, ele parece conhecer o bê-a-bá da Arte e seus nomes e correntes principais, mas de maneira puramente burocrática, acadêmica (no sentido pejorativo da palavra), sem jamais oferecer qualquer interpretação mais complexa ou mesmo menos clichê sobre aquilo que está comentando. Aliás, isto explica por que David se impressiona tão facilmente com os "talentos" do filho, já que também se mostra claramente impressionado com a própria mediocridade.
 
Embora tenha sido escrito com a idéia de relatar uma experiência bem sucedida e edificante, O Clube do Filme me levou a finalizar a leitura com um único pensamento: "Que família triste".
 
O Clube do Filme (The Film Club)
Editora Intrínseca, 2009
239 páginas 

The Strain

postado em by Pablo Villaça em Livros | 24 comentários

Terminei de ler ontem o livro "The Strain", co-escrito por Chuck Hogan e pelo cineasta Guillermo del Toro. Poucas vezes levei tanto tempo para ler um livro, já que comecei na viagem para Los Angeles, em 25 de julho, chegando ao fim apenas um mês depois. Porém, que isto não soe como crítica à obra; eu realmente tenho tido pouquíssimo tempo para dedicar a atividades não relacionadas a trabalho. Espero mudar isso logo.
 
Seja como for, "The Strain" (que no Brasil ganhou o péssimo título "Noturno") é uma história de vampiros bem contada que remete diretamente ao maravilhoso livro do irlandês Bram Stoker – não apenas em sua trama principal, mas também na composição dos personagens. Se Stoker criou, por exemplo, um grupo de heróis composto por um estrangeiro especialista em vampiros (Van Helsing), um corretor de imóveis, um médico, um "cowboy" e uma bela jovem (Mina), Hogan e del Toro repetem a fórmula com um professor estrangeiro especialista em vampiros (Setrakian), um epidemiologista, um exterminador de ratos com sensibilidade "cowboy" e, claro, uma bela jovem (Nora, que também é epidemiologista). Da mesma maneira, se o romeno Dracula cruzava os mares em seu caixão transportado por um navio, exterminando a tripulação no caminho, aqui o polonês Surdu cruza os mares em seu caixão transportado por um avião, exterminando passageiros e tripulação no caminho. As referências surgem até mesmo em nomes de personagens secundários: Renfield, por exemplo, ganha uma homenagem no capitão Redfern, e assim por diante.
 
Dito isso, "The Strain" está longe de ser apenas uma releitura sem criatividade de "Drácula". Primeiro livro de uma trilogia, ele estabelece bem as bases da trama, apresentando de forma interessante os principais personagens e suas motivações – e a maneira com que salta constantemente de uma figura a outra lembra, também, a estrutura imaginativa que Stoker usou em seu livro, embora Hogan e del Toro mantenham sempre o tradicional narrador em terceira pessoa, ao contrário do que fazia o irlandês (sempre me espanto como "Drácula" é levado pouco a sério por amantes da literatura; o que Stoker fez naquele trabalho, em termos de estrutura, é simplesmente maravilhoso).
 
Já no que diz respeito ao estilo, "The Strain" é apenas adequado. Hogan (que, imagino, tenha sido o principal responsável pela elaboração do texto em si) não é um escritor dos mais sofisticados, embora, aqui e ali, tome algumas liberdades que agradam pela surpresa (como, por exemplo, ao ilustrar a velocidade e a raiva do ataque feito por Eph a um vampiro ao descrevê-la com a frase "KnifeKnifeKnifeKnifeKnifeKnife"). Na maior parte do tempo, contudo, ele faz um trabalho burocrático, mas não deficiente.
 
É uma boa leitura e confesso que fiquei curioso para ler os dois episódios seguintes da trilogia, que serão lançados em 2010 e 2011.
 
"The Strain"
Editora William Morrow (HarperCollins), 2009
401 páginas

Honrado

postado em by Pablo Villaça em Livros, Personalidades | 17 comentários

Há cerca de quinze dias, fui procurado por duas pessoas que estão encabeçando um projeto muito especial: um livro sobre uma grande figura do nosso Cinema. Depois de me explicarem do que se tratava a obra, elas revelaram que o livro trará textos de um pequeno grupo de autores que foi – e isto me deixou particularmente honrado – selecionado pessoalmente pelo homenageado.

Ainda não posso revelar nada de específico sobre o projeto, mas fiquei muito, muito feliz. E claro que aceitei participar.

A Ditabranda

postado em by Pablo Villaça em Livros, Personalidades, Política | 8 comentários

No update que fiz no post passado, incluí link para a carta enviada por Antônio Espinosa para a Folha e na qual desmente as informações que a "jornalista" Fernanda Odilla publicou alegando tê-lo como fonte. Pois na carta Espinosa cita um "personagem" de meu livro "O Cinema Além das Montanhas", Carlos Alberto Soares de Freitas, e achei que valeria a pena copiar aqui o trecho relevante.

(Para quem não conhece a Coleção Aplauso, subsidiada pelo Governo de SP – daí o ótimo preço -, ela é sempre escrita na primeira pessoa, como se o autor do livro estivesse "encarnando" o biografado – no caso, o cineasta mineiro Helvécio Ratton.)

"EM 1970, RESOLVI QUE ERA HORA de deixar a organização e sair do país. Não era uma decisão fácil: mesmo que as coisas estivessem afundando e as perspectivas se tornando cada vez mais sombrias, era impossível deixar de se sentir como um traidor, como se estivesse abandonando os companheiros que estavam presos e sofrendo nos porões da ditadura. Havia um enorme peso moral em largar tudo.

Além disso, eu seria obrigado a me virar sozinho, já que a organização não possuía um esquema montado para retirar os militantes perseguidos do país; tirar as pessoas da luta não era uma prioridade – e eu não sabia por quanto tempo teria que ficar escondido e nem mesmo se conseguiria sair do Brasil. Finalmente, manifestei minhas intenções para o meu contato na Var-Palmares, o dirigente Carlos Alberto Soares de Freitas. Cerca de dez anos mais velho do que eu, Beto, um sujeito afável e interessante, era muito conhecido em Belo Horizonte, onde era dono de um bar famoso na Avenida Getúlio Vargas, quase com Avenida Afonso Pena. Eu e Beto tínhamos uma relação muito afetuosa: eu gostava imensamente dele e admirava sua inteligência.     A esta altura, ele já era um dos caras mais procurados do Brasil.

Quando expliquei que pretendia deixar o país, ele aceitou minhas ponderações de forma tranqüila, embora deixasse claro que discordava de minha decisão. Muito correto, me entregou algum dinheiro para que eu pudesse sobreviver por algum tempo e, assim, nos despedimos. Ele foi uma das últimas pessoas da organização com quem estive antes de sair. Menos de um ano depois, em 15 de fevereiro de 71, Beto foi preso ao lado de dois companheiros na pensão em que residia, em Ipanema. Levado para o DOI-CODI, foi torturado durante os 100 dias seguintes, sendo finalmente assassinado com vários tiros à queima-roupa. Seu corpo nunca foi encontrado. Em homenagem à mãe deste companheiro, que passou a manter o quarto do filho exatamente como ele deixara, Chico Buarque compôs Pedaço de Mim, na qual canta:

Ó pedaço de mim, ó metade arrancada de mim
Leva o vulto teu, que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu".

Conversas com Woody Allen

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Livros | 10 comentários

Esqueci de comentar aqui que terminei de ler, há algumas semanas, um livro fantástico chamado "Conversas com Woody Allen" (512 páginas, editora Cosac Naify). Escrito por Eric Lax, o livro traz diversas entrevistas feitas com o cineasta ao longo de 30 anos e, neste sentido, é extremamente interessante justamente por refletir a visão de Allen sobre sua arte e si mesmo ao longo das décadas. Além disso, a divisão do livro em temas (Montagem, Roteiro, Casting, etc) permite que o texto se transforme num fascinante estudo sobre os métodos de trabalho do diretor, que discute, ainda, sua predileção por dramas em detrimento das comédias e a "preguiça" que, segundo ele, limita o sucesso artístico de todas as suas empreitadas.

Recomendadíssimo.

(Agora estou lendo "Fazer um Filme", de Fellini. Quando terminar, posto algo aqui.)

Gomorra – O Livro

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Livros | 7 comentários

Acabei de ler "Gomorra", do italiano Roberto Saviano, que deu origem ao filme homônimo. Ganhei o livro no Natal, mas as férias me fizeram ler num ritmo mais lento do que o habitual (é curioso: tem gente que aproveita as férias para colocar a leitura em dia; eu já acho muito mais fácil ler no dia-a-dia).

É uma leitura interessante, mas difícil. Ao contrário do que eu imaginava, o livro não constrói uma narrativa linear ou mesmo várias entrecruzadas, como no filme. Em vez disso, o texto de Saviano é um denso e abrangente relato jornalístico repleto de detalhes, nomes e cifras que disseca as inúmeras linhas de ação da Camorra não só na Itália, mas em toda a Europa e mesmo em outros continentes.

Ao fechar o livro (editora Bertrand Brasil, 350 páginas), fiquei ainda mais impressionado com o belo trabalho de adaptação, que conseguiu extrair, daquele calhamaço de informações, o básico para construir algumas poucas tramas suficientemente complexas para retratar com fidelidade a complexidade das operações da Camorra.

Recomendadíssimo.

Directorama

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Livros | 13 comentários

A série Directorama, que deverá voltar ao Cinema em Cena numa data ainda a ser definida, acaba de ganhar sua primeira edição impressa. Criada pelo holandês Peet Gelderblom, ela busca imaginar como seria o "paraíso dos diretores" e traz interações divertidas entre figuras como Bergman, Antonioni, Hitchcock, Kubrick, Welles, entre vários outros.

Peet, aliás, me deu a honra de incluir uma frase de referência ao seu trabalho na contracapa da edição em inglês:

"Critics who are struggling to fit a film’s core issues in 800 words,
take notice! Peet is able to capture filmmaker’s essences in a few word
balloons, while still being funny and illuminating." — Pablo Villaça (Cinema em Cena)

Acesse o site de Peet para saber mais sobre o livro e, quem sabe, comprar o seu.

Scott Turow

postado em by Pablo Villaça em Livros | 6 comentários

Li esta semana "Os Limites da Lei", de Scott Turow (Record, 236 páginas). Gosto muito de Turow, autor de "Acima de Qualquer Suspeita", e já li toda a sua obra – que considero vastamente superior a de John Grisham, que trabalha no mesmo gênero (dramas de tribunal). Dito isso, "Os Limites da Lei" é o primeiro livro de Turow do qual realmente não gostei. Em praticamente todos os seus trabalhos, o escritor combina três elementos claros: um personagem com graves problemas pessoais (geralmente com alguém da família); uma intrincada questão legal; uma ameaça à integridade física do herói/anti-herói (neste último caso, aponto para o fascinante advogado corruptor de "Ofensas Pessoais").
 
Infelizmente, desta vez Turow parece ter mergulhado na preguiça em função do formato adotado (o livro foi originalmente publicado em capítulos na revista de domingo do "New York Times"): a doença da esposa do protagonista é uma desculpa esfarrapada para torná-lo mais atormentado; a questão legal praticamente não interfere na trama; e as ameaças jamais soam autênticas. Para piorar, a identidade do "vilão" beira o ridículo, assim como suas motivações. E até mesmo o estilo do texto de Turow parece truncado em função da necessidade de empregar capítulos menores, o que é decepcionante. 
 
Agora estou lendo "Placing Movies", antologia de textos publicados pelo crítico norte-americano Jonathan Rosenbaum em diversos veículos. E Rosenbaum é sempre uma leitura fascinante.
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