Luca & Nina

Meu Pequeno Cinéfilo – Parte II

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(Para conferir a Parte I, clique aqui.)

– Papai, fui ver um filme ali no Netflix, mas quando expandi a tela, ela ficou quadrada. Está estranho.

Fui ver do que se tratava e, surpreso, percebi que Deixe-me Entrar, rodado em lindo 2.35:1, estava sendo exibido num absurdo 1.33:1 no Netflix – o que, na prática, equivale a cortar mais ou menos 40% da imagem.

– O Netflix alterou a versão do filme. Mudaram a razão de aspecto. – expliquei, já ciente de que Luca, aos 11 anos, já cansou de me ouvir falar sobre formatos de tela.

– Mas por que eles fizeram isso? – perguntou o pequeno, com espanto.

– Não faço ideia.

– Que saco. – ele completou. – Assim nem vale a pena assistir.

Orgulho.

Meu Pequeno Cinéfilo (Não Mais Tão Pequeno)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cinema em seu máximo, Curso, Luca & Nina | 17 comentários

Neste sábado, gravei um videocast ao vivo com o objetivo de responder a perguntas dos leitores. (Para ver como foi, clique aqui: falo sobre distinção entre montagem e edição, recomendo livros sobre Cinema e falo de uma antiga promessa.) Depois de concluído o papo, repassei as várias perguntas enviadas através do Twitter e do próprio YouTube a fim de ver quais não haviam sido respondidas – e, entre estas, alguém indavaga qual era o filme favorito de Luca, meu filho de 11 anos de idade.

Esta era uma questão que eu não fazia ao pequeno há muito tempo. Porque as crianças, de modo geral, tendem a eleger como favoritos os filmes que acabaram de ver – ou quase. Nina, por exemplo, já elegeu Alice no País das Maravilhas, O Estranho Mundo de Jack, Como Treinar Seu Dragão, Frozen, A Bela Adormecida, Cinderela e diversos outros – e seu irmão, por sua vez, já se apaixonou por obras que vão de Os IncríveisAlien – O Oitavo Passageiro, passando por De Volta para o Futuro, A Casa MonstroTubarãoPredador (não necessariamente nesta ordem cronológica). Porém, aos 11 anos de idade, ele já assistiu a um número suficiente de filmes para começar a formar seu próprio gosto e, portanto, era hora de repetir a pergunta – cuja resposta me surpreendeu. Sem hesitar, ele disse:

– Cães de Aluguel.

Eu havia apresentado a ele a estreia de Tarantino na direção há meses. E não fazia ideia de que o longa havia provocado uma impressão tão forte no pequeno. Depois de conversarmos um pouco sobre sua escolha, ele perguntou se eu não podia apresentar a ele um novo trabalho do cineasta (eu vinha evitando por considerá-los todos violentos demais; Cães de Aluguel era, de certa forma, o mais contido, e ele também já havia conferido Kill Bill). Assim, como eu estava interessado em rever Bastardos Inglórios há algum tempo, saquei o blu-ray do filme e fomos conferi-lo.

E Luca, mais uma vez, adorou.

– Acho que o Tarantino é meu diretor favorito.

– Ele é um bom diretor para se ter como favorito, meu filho. – comentei. – Mas você descobrirá outros que vão tornar a disputa mais apertada.

A partir daí, fiz o que sempre faço quando assistimos juntos a algum filme: discuti a obra com ele. Falamos sobre os temas, sobre as liberdades históricas (e o que Tarantino queria dizer com estas) e, claro, sobre sua linguagem. E foi então que meu filho fez uma pergunta que me pegou completamente (e mais uma vez) de surpresa:

– Tem um grito no filme que o Tarantino sempre usa. Ele é estranho. Você já notou?

Ele estava falando, claro, do Wilhelm Scream, que em Bastardos Inglórios surge quando, no filme-dentro-do-filme, o personagem de Daniel Brühl mata um soldado aliado.

– Você… reparou o grito?

– Reparei. É porque em Cães de Aluguel, quando o Sr. Pink está correndo na rua, eu tinha ouvido esse grito e achado muito exagerado. E aí, quando vi Kill Bill, no final do primeiro volume a Noiva mata um cara que grita do mesmo jeito. E hoje eu ouvi de novo.

Como pai, confesso, senti meu coração disparar de orgulho. E expliquei a ele a história daquele grito específico e mostrei a ele um clipe que costumo exibir nas aulas do A Arte do Filme: Forma e Estilo Cinematográficos, quando ilustro este efeito sonoro para os alunos. No entanto, Luca ainda tinha perguntas:

– Tá, mas por que o Tarantino usa em todo filme?

Isto nunca havia me ocorrido – e, de fato, nem sei se Tarantino usou o Wilhelm Scream em algum outro trabalho além destes três. Porém, a questão levantada por Luca me deixou feliz por denotar sua compreensão acerca de um princípio que tende a ser ignorado por boa parte dos espectadores: cada decisão tomada por um diretor, por menor que seja, tem um motivo. E ao perguntar por que Tarantino insistia em usar os gritos, Luca buscava uma explicação narrativa, mesmo sem ter consciência da natureza exata de sua inquietação.

Assim que pensei naquilo, porém, a resposta veio instantaneamente. Mas se há algo que aprendi como professor é que, muitas vezes, é melhor permitir que o aluno encontre a resposta sozinho do que entregá-la de bandeja. Com isso, perguntei:

– Lembra que papai já te explicou que todos os filmes do Tarantino são basicamente sobre uma coisa só?

– Lembro. Cinema.

– Hum-hum. E aí?

Ele me olhou por alguns segundos e sorriu.

– E aí que ele usa o grito porque acaba sendo uma brincadeira com Cinema e com a História do Cinema?

– That’s a bingo!

E lhe dei um beijo que certamente vai deixar sua bochecha com um roxo imenso.

O tropeço de um pai

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 20 comentários

Hoje, levei Luca para visitar o Festival Internacional de Quadrinhos em BH. O pequeno anda cada vez mais interessado em HQs e, assim que contei a ele que o evento estava de volta à cidade, passou a insistir para que eu o levasse. Não era necessário insistir; passear com ele é sempre algo que me deixa alegre.

Já no pavilhão do festival, passamos por uma dupla similar à nossa: um pai em torno dos 40 anos que caminhava ao lado do filho de 10 – e, neste instante, ouvi o primeiro dizer:

– Só você mesmo para me fazer vir a um festival de quadrinhos, meu filho.

Foi dito com tom de afeto enquanto o sujeito passava a mão na cabeça do garoto, que sorriu de volta para o pai. E foi o jeito com que o menino sorriu que me fez pensar. Não era um sorriso falso, mas tampouco refletia alegria. Era… um sorriso. Uma resposta.

Entendi, claro, o que o tal pai quis dizer com aquela frase: “Eu te amo tanto, meu filho, que faço tudo por você. Saiba disso.”. Foi uma declaração de carinho, uma verbalização da dedicação para com o filho. Ele queria que o garoto soubesse como era importante. Não se tratava de uma cobrança, de um desabafo ou algo do gênero. No entanto, assim que vi o rosto da criança, percebi que era a coisa errada a dizer.

Pior: percebi que  já cometera aquele erro em algumas ocasiões.

Pois o fato é que crianças são perfeitamente capazes de ler subtexto – e o daquela afirmação era, de certo modo, uma confissão sobre o sacrifício relativo de estar ali. O menino estava alegre por visitar o festival e queria que o pai dividisse aquele sentimento. Ao ouvir o que o outro dissera, porém, esta alegria se partira um pouco; havia a companhia do pai e isto era prazeroso, claro, mas de certa forma agora havia a sombra da obrigação.

O menino não queria se sentir grato ao pai por levá-lo ao festival de quadrinhos; queria sentir, em vez disso, que este compartilhava sua felicidade por visitar o evento. A criança desejava dividir com o pai seu encantamento pelos quadrinhos.

Aquele sorriso amarelo do garoto doeu em seu pai, que percebeu na hora o que fizera. Sei disso porque aquele pai era eu.

E fiz questão de deixar claro para Luca, a partir daquele instante, o quanto estava curtindo folhear e comprar revistas e discutir edições antigas, publicações favoritas e arcos antigos com meu filhote, já tão crescido e muito mais versado naquela forma de expressão artística que eu. E não era fingimento; eu realmente adorei a tarde. Melhor: percebi que Luca notou minha alegria.

Ao final do dia, quando deixamos o festival, seu sorriso era completo, imenso e feliz. Eu sorria da mesma maneira.

E jamais repetirei o erro de fazer parecer que ele me deve alguma gratidão por dividir comigo seus interesses. Eu é quem devo a ele a felicidade de um dia como hoje.

Videocast Cinema em Cena – Pai e filho discutem O Hobbit

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Luca, 9 anos, e seu pai (13 anos) discutem O Hobbit e os 48fps.

Lógica

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Nina, 4 anos, se aproxima com expressão séria.

– Papai, não é verdade que as pessoas têm que fazer o que os reis mandam?

Por um segundo, penso em iniciar uma resposta discutindo a existência de países com regime monarquista, monarquia parlamentarista, a mudança no status da realeza ao longo dos séculos e por aí afora. Em vez disso, digo apenas:

– Sim.

– E não é verdade que as pessoas têm que fazer o que as rainhas mandam?

– Sim.

– E não é verdade que o leão é o rei da selva?

– Sim.

– E a leoa não é a rainha da selva?

– Sim.

– Então não é verdade que as pessoas têm que fazer o que os leões e as leoas mandam?

– … Sim.

– E não é verdade que eu sou do signo de Leão?

– Ah. Sim.

– Então dá pra você ir lá na sala, explicar isso tudo pro Luca e mandar ele me obedecer?

Tempo de pergunta

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Luca observa a transferência de dados de um CD para o HD e começa a ficar incomodado com a tela que registra o tempo estimado:

– Faltavam 12 minutos. Depois, 19 minutos. Agora, 27 minutos e 30 segundos. Que coisa maluca.

Ele fica em silêncio. Depois de alguns segundos, do nada, pergunta:

– Quem inventou o tempo, papai?

– Hein?

– Esse negócio de medir o tempo. Quem inventou?

Cacetada. Ser pai é ouvir uma pergunta dessas sem qualquer aviso e ficar tenso para não parecer estúpido. Puxo a memória. E respondo incerto:

– Foram os romanos, acho. O primeiro calendário… ou… um dos primeiros… foram os romanos.

– Hum. Mas não teve ninguém específico, não? Tipo… “Fulano de Tal”?

Desisto de tentar impressioná-lo.

– Foi o Zé, meu filho. Foi um cara chamado Zé.

Momentos com as crianças

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 13 comentários

Nina, revoltada porque Luca pediu que ela diminuísse o volume da tevê, manifesta sua raiva mordendo o irmão. Imediatamente a coloco de castigo, o que, claro, a leva a me chamar de “Idiota!” e a me olhar com ódio profundo. Alguns minutos depois, me aproximo e pergunto se está mais calma. Chorando, ainda chateada por estar sendo punida, ela acena com a cabecinha e sento ao seu lado para conversarmos. Explico que não se deve agredir ninguém, que assim ela perde a razão mesmo quando está certa, etc e tal. E concluo:

– Você precisa aprender a controlar sua raiva, meu amor.

Ao que a pequena de 3 anos responde de imediato:

– Mas eu já nasci brava.



Já no domingo, arrasada ao ser comunicada de que, sim, teria que tomar banho depois de suar horrores durante uma brincadeira, Nina declarou com solenidade:

– Este é o pior dia que já conheci na minha vida.



Luca estava jogando Minecraft quando seu amigo Dudu, que estava fazendo uma visita, pediu para brincar e imediatamente começou a ser atacado por zumbis, morrendo em questão de segundos. Aborrecido, Luca disse:

– Poxa, muito obrigado, Dudu!

E este, sem qualquer traço de ironia:

– Ué, de nada.

E Luca, após um segundo de hesitação:

– Eu estava usando sarcasmo.



Por falar em Luca, às vezes falho terrivelmente como pai – mesmo tendo consciência de estar falhando. Dia desses, por exemplo, insisti para que ele provasse ervilha e o baixinho quase vomitou. Julgando a reação exagerada, falei:

– Precisa disso tudo, meu filho, para um negocinho tão pequeno?

– É pequeno, mas o gosto é forte.

E eu, me tornando imediatamente o pior pai do mundo.

– That’s what she said.

Momentos dos baixinhos

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Luca insiste em vestir sua máscara do Homem-Aranha e chamar Nina para uma brincadeira de ação. Até que, já farta com o irmão, a pequena diz com a voz mais firme do mundo:

– Me deixe em paz, Homem-Aranha!

E até Luca é obrigado a parar para rir.



Quando Nina nasceu, Luca foi presenteado com um boneco grande e articulado do Homem de Ferro e informado de que aquele era um mimo que sua irmãzinha havia trazido – uma forma de diminuir o ciúme que certamente sentiria. Pois há alguns dias, ao ser informada de que trouxera este herói para o irmão mais velho, Nina, 3 anos, sacudiu os ombros e comentou com naturalidade absoluta:

– É, eu sempre gostei da Marvel.



– Estou com dor de estômago. Acho que vou ter que tomar um sonrisal.

– Ué! – espantou-se Luca ao ouvir isso. – Sonrisal serve pra quê?!

– Para dor de estômago, uai.

E ele, demonstrando sua lógica particular:

– Achei que fosse anti-depressivo.

Perfeito.



– Quanto tempo falta para eu ser adulta? – pergunta Nina, do nada.

– Falta bastante, minha filha. Por quê?

– Pra eu poder casar.

– Você vai querer casar, minha filha? Pra quê?

– Pra eu poder ter filhotinho.

Gelo na espinha.



Durante uma brincadeira, Luca pergunta para a irmã:

– Você vai trabalhar quando ficar grande, Nina?

– Vou, claro!

– O que você vai querer ser?

– Princesa Aurora Surfista.

Bela profissão.



Nina, com a vozinha mais doce do mundo, pergunta:

– Puta que “fariu” é palavrão?



Preparando-se para ir para a escola, Nina seleciona as próprias roupinhas e escolhe uma calça rosa, uma blusa vermelha e um tênis verde.

– Minha filha, essa roupa não combina nada! Você está parecendo uma palhacinha! Vamos colocar uma outra roupa para você ir bem linda para a escolinha.

E a pequena, sem hesitar e olhando no espelho:

– Linda eu já sou, agora quero ser engraçada.

 

Teste de equilíbrio

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Nina brincava com a avó paterna em um parquinho quando, vendo um daqueles brinquedos de girar, ocupou um dos lugares e pediu:

– Me roda, vovó!

A avó, apesar da labirintite que a ataca até mesmo ao ver outros rodando, atendeu. Tudo pelos netos. Depois de algum tempo, o brinquedo parou de se movimentar e Nina imediatamente exclamou:

– De novo, vovó!

– Hum… Nina, acho que já rodou muito, meu bem.

– De novo, vovó! Por favor! Me roda de novo!

– Nina, você rodou muito. Já está até tonta.

– Não estou tonta, não.

– Está, sim. Vovó está vendo.

– Não estou, não.

Pacientemente, a avó propôs:

– Vamos fazer o seguinte, então: desce do brinquedo e vê se está tonta. Se não estiver, a vovó te roda mais.

Aceitando o desafio, a pequena voltou para o chão e, visivelmente desequilibrada, se apoiou no aparelho. Respirando fundo, olhou para a avó e disse:

– Deixa só tudo parar de rodar que eu vou te mostrar que não tô tonta!

Um segredo e uma charada impossível

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– Hoje a professora me xingou. – diz Nina com carinha triste.

– Por que, minha filha?

– Porque eu não fiz nada direitinho. Não cantei direitinho, não dancei direitinho e não brinquei na areia direitinho. Eu não quis emprestar a pá para os meninos; só para as meninas. (pausa) E fiz uma coisa que não vou te contar.

– O quê? Conta pra mim…

– Não quero te contar.

E realmente não contou. Medo.



Nina se aproxima de mim:

– Papai, eu quero ver um filminho.

– Outro, minha filha? Já viu três, hoje!

– Mas… é que esse eu não tinha conseguido terminar!

– É, meu bem? Qual?

– Adivinha qual foi?

– Hum… Procurando Nemo?

– Não.

O Estranho Mundo de Jack?

– Não.

– Desisto. Qual foi?

– Vou te dar uma pista: começa com a letra “Fantástica Fábrica de Choco…”.

Pensei por alguns segundos e cheguei à conclusão de que a única resposta possível seria mordê-la muito.