Luca & Nina

Repentes e fias

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 9 comentários

Durante nossos dez dias em Natal, fomos a um restaurante que anunciava, como uma de suas principais atrações, o repentista Manuel do Côco. Depois de várias improvisações no palco, ele passou a caminhar pelo ambiente a fim de improvisar um repente para cada uma das mesas do estabelecimento – e enquanto ele cantava seus versos  repletos de divertidas ofensas para os clientes, Luca observava tudo com uma atenção ímpar. Achei interessante o foco do pequeno, mas julguei se tratar de mera curiosidade com relação à figura do repentista.

Até que, finalmente, o artista se aproximou de nossa mesa, uma das últimas, e – talvez por estar cansado – fez alguns versos genéricos sobre o “pai mineiro viajando com os filhos” e se afastou. Foi só então que Luca soltou um imenso suspiro de alívio e, traindo sua verdadeira preocupação, desabafou:

– Ufa. Ainda bem que ele só falou coisa boa da gente.


Nina se tornou estudante em 2011, passando a freqüentar o Maternal II – e vê-la com seu uniforme, claro, me fez chorar como de hábito. No entanto, para que ela se acostumasse logo à idéia de passar todas as tardes em um ambiente “estranho”, tentei empolgá-la com relação aos novos amiguinhos:

– Quer dizer que agora você tem coleguinhas? – e citei o nome de uma das crianças da turma – Tem a Sofia, né?

E, a partir daí, freqüentemente me referi à Sofia ao conversar com a pequena sobre seus “estudos”. Até que, anteontem, o seguinte diálogo aconteceu:

– A escolinha foi legal hoje? Você brincou muito?

– Blinquei.

– Ah, que bom! Com quem você brincou?

– Com a minha fia.

– Sua filha?

– É.

– Com quem?

– Com a minha fia.

Só então a ficha caiu e constatei, pela enésima vez, que a baixinha é louca.


Ah, sim: ontem, aparentemente, Sofia não foi à aula, já que, ao perguntar com quem ela havia brincado na escola, Nina respondeu:

– Com a ôta fia.

Luca, o Nono Passageiro

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina, Twitter | 32 comentários

Há mais de um ano que Luca vinha insistindo para que eu o deixasse assistir à série Alien. Inicialmente, falei que só aos 10 anos de idade. Neste meio tempo, porém, ele assistiu a A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça e vem demonstrando interesse cada vez maior por “filmes assustadores” – algo comum a todas as crianças, sempre fascinadas por aquilo que as amedrontam. Hoje, depois de mais um dia de insistência (“Quando eu vou poder ver Alien? Quando eu vou poder ver Alien?”), resolvi permitir que visse o filme.

E sentei-me ao seu lado para acompanhar a experiência e anotar suas reações, que postei no twitter em tempo real (os números antes de cada comentário dizem respeito, claro, ao tempo de “projeção”):

30′: Enquanto Kane investigava os ovos na nave alienígena, Luca cobria os olhos com os dedos entreabertos. “Acho que vou levar um susto.”

37′: Luca, ao ver o parasita grudado no rosto de Kane: “Eu imaginava que ele fosse menor.” E Nina, passando pela sala: “Palece um guemlins!”

56′: Depois que o Alien sai do peito de Kane, Luca, com olhos arregalados, diz: “Estou adorando esse filme!”.

58′: Plano geral do exterior da Nostromo. Luca: “Nó, como eles vão achar aquele alienzinho numa nave desse tamanho?”.

61′: Luca percebe que estou tuitando e, já conhecendo o pai, pergunta: “O que voce está escrevendo aí, hein?”.

63′: Harry Dean Stanton sai à procura do gato sozinho. Luca: “Coitado.”.

65′: HDS acha a “pele” do Alien. Luca comenta “O Alien cresceu!”, cobre os olhos e gruda em mim.

68′: “Meu filho, se quiser parar o filme, nao tem problema.” “Nao, papai. Eu tô com medo, mas quero ver pra enfrentar.”

75′: Dallas no sistema de ventilação. Luca chega a soltar um “gasp” perfeitamente audível. Nem sabia que isso era possível.

83′: Ash ataca Ripley e é destruído. Luca: “Ele era um robô?!?!?”.

85′: Lambert cai em prantos ao descobrir que Ash é um robô. Luca: “Ela é muito chorona.”. Sempre achei isso.

88′: Ripley vai acionar a autodestruição da Nostromo. Luca: “Nao mostra ela, nao. Toda hora que mostra alguém, a pessoa se ferra!”.

90′: Ripley vai buscar Jonesy. Luca: “Ela vai arriscar a vida pra salvar o gato?! Puxa, ela AMA esse gato!”.

97′: Ripley dá de cara com o Alien no corredor. Luca: “Essa luz piscando deixa a cena mais tensa!”.

99′: Ripley volta para tentar desligar o sistema de autodestruição enquanto a Mãe faz a contagem. Luca: “NÃO VAI DAR TEMPO!!!”

101′: Luca: “O legal é que o filme vai deixando a gente cada vez mais tenso!”.

102′: Ripley volta para o local em que encontrou antes com o Alien e não vê nada. Luca: “Acho que ele entrou na navezinha!”.

103′: A Nostromo explode num show de luzes e Luca, mineiramente, reage com um: “Nóóóó!”.

105′: Enquanto Ripley coloca Jonesy para dormir, Luca já se antecipa: “Tô com medo.”. Eu: “Quer que pare o filme?”. “Nao! Mas tô com medo.”

107′: O Alien tenta agarrar Ripley. Luca dá um salto. “Eu SABIA que ele estava lá!”.

108′: Luca se aconchega em mim e diz: “Nao precisa parar o filme, mas me abraça.”

111′: Luca: “Pelo menos aí é fácil achar o alien. Mas… hum… é fácil ele achar ela também.”

113: “Alien, o Oitavo Passageiro” termina com Ripley em hipersono. Luca solta um suspiro, como que aliviado, e exclama: “Adorei!!!”.

Luca completa 8 anos no dia 14 de fevereiro. Eu havia dito a ele que só poderia ver “Alien” com 10 anos de idade. Não aguentei.

Próximo filme que apresentarei a Luca: “O Massacre da Serra Elétrica”. Acho que está pronto.

Update: Estou impressionado com o número de pessoas que realmente acreditou que eu iria apresentar O Massacre da Serra Elétrica ao meu filho de sete anos de idade.

Confiança

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 5 comentários

Ouço o interfone tocar e Luca correndo para atendê-lo. Percebo que abriu o portão e pergunto:

– Quem era, meu filho?

– O vizinho. Ele disse que esqueceu a chave de casa e pediu pra abrir.

– E você abriu???

– É, ué. Ele disse que o nome dele era Márcio e que morava no 303.

– Sim, mas você abriu????

E ele, já impaciente:

– Abri, papai. Se fosse ladrão, não tinha falado o nome!

Conclusão sobre Papai Noel

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 22 comentários

Depois que Luca enviou sua cartinha a Papai Noel, que incluía o desejo de ganhar um boneco de Darth Vader, comecei a buscar o brinquedo nas lojas físicas e online. E nada. Darth Maul, Luke Skywalker, C-3PO… todos eram facilmente encontrados com um ou dois cliques, mas Vader parecia ter desaparecido do comércio nacional. Já ansioso, publiquei um pequeno pedido de ajuda no Twitter e, dez minutos depois, já havia conseguido localizar o boneco graças à ajuda de vários leitores.

Aliviado, comentei com Luca:

– Olha, só por curiosidade eu procurei o Darth Vader em várias lojas da internet. E não achei nenhum, acredita? Ainda bem que você pediu pro Papai Noel, porque se tivesse pedido pra mim, eu não ia conseguir encontrar! Aliás… fiquei até preocupado: como será que o Papai Noel vai conseguir o Darth Vader se nas lojas não tem?

E ele, sem hesitar:

– O Papai Noel fabrica os brinquedos, papai.

Corta para duas semanas depois. Num dos últimos dias de aula, a professora de Luca permitiu que os alunos levassem brinquedos para a escola e o pequeno escolheu o Esqueleflex que havia ganhado de Papai Noel no ano passado. Ao entrar no carro, na hora de voltar para casa, porém, a surpresa:

– Sabe o que eu achei na caixa do Esqueleflex e que eu nunca tinha notado? Um adesivo da Ri-Happy! Sabe o que isso significa?!

Gelo na espinha. Já era possível até imaginar as frases seguintes: “Que não foi Papai Noel quem me deu isso! São os pais que dão! Sempre os pais! Os mentirosos e traiçoeiros pais!”

– O… o que isso significa, meu filho?

– Que o Papai Noel não fabrica os brinquedos coisa nenhuma! Ele compra na Ri-Happy!

Não há nada mais lindo que a inocência de uma criança.

Pequeno Cínico

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 23 comentários

Estava jogando “Mario Kart” com Luca quando, durante a largada, percebi que meu personagem não saía do lugar.

– O que está acontecendo??? Por que não estou correndo? – perguntei, transformando-me imediatamente naqueles velhos que, na minha infância, encaravam o Atari com assombro absoluto.

Bastou que Luca lançasse um rápido olhar para os controles em minha mão para que diagnosticasse o problema:

– Você não pode apertar o “A” antes da luz ficar verde, papai, senão o carro não anda.

– Poxa, meu filho, e por que não me avisou?!?!?

E o pequeno, sem hesitar um segundo:

– É, papai, a vida é assim mesmo: cheia de decepções.

Nina no País das Maravilhas

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 7 comentários

Luca se aproxima de mim às oito da noite e diz: “Acabei de ver Star Wars e agora vou fazer o meu Para Casa!”.

– Puxa, filho, mas está bem tarde. Achei que tivesse feito à tarde.

– É, o filme demorou.

E saiu do escritório correndo antes que eu pudesse responder. Assim, virei-me para Nina, que havia acompanhado o irmão, e perguntei na base da brincadeira:

– E você, molequinha? Fez o seu Para Casa?

E ela, sem hesitar:

– Fizo!


Aliás, Nina está cada vez mais obcecada por Alice no País das Maravilhas (a versão de Tim Burton). Todas as manhãs, assim que acorda, pede para ver o filme – e quando este chega ao fim, começa a rir feliz e vem me contar pela enésima vez tudo que aconteceu na história. Além disso, aprendeu a cantarolar o tema do filme e, vira e mexe, posso ouvi-la num “tchu, tchu, tchu. Tchu! Tchu!” ritmado que soa exatamente como a trilha de Danny Elfman.

Mas só percebi o grau de fascinação da pequena por Alice quando, no fim-de-semana, visitamos minha mãe e, ao ver uma espadinha de plástico azul que pertencera ao meu irmão caçula há duzentos anos, Nina ergueu o brinquedo e exclamou:

– Olha, papai! É a espada “Vortal”! Eu vou matar o “Jaguadartes”!

Minha heroínazinha.

Orientando a irmãzinha

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 8 comentários

Luca vem ao escritório, pega o DVD de Star Wars e volta para a sala. Enquanto coloca o filme para rodar, vira-se para Nina com ar professoral e explica:

– Eu gosto muito do Star Wars, do Império Contra-Ataca e do Retorno de Jedi.

Faz uma pausa enquanto Nina repete “Táuórs” e, então, completa:

– Os outros três não são tão bons.

Meu garoto.

Nina militante

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 24 comentários

No domingo à noite, eu brincava na sala com as crianças quando o debate presidencial teve início. Para minha surpresa, Nina, ao olhar para a tevê, imediatamente exclamou:

– A Dilma!

Rindo espantado com a reação da pequena de dois anos de idade, perguntei:

– Você conhece a Dilma, meu amor?

Ao que Nina, virando-se para mim com a carinha mais charmosa do mundo, respondeu:

– Vota na Dilma “pofavor”, papai?

Não é porque é minha filha, não, mas se eu tivesse filmado a cena e esta fosse exibida no programa eleitoral, Dilma ganharia com 90% dos votos válidos.


Nina, aliás, agora está com uma mania encantadora. Sempre que está falando sobre Luca com alguém, refere-se ao baixinho como “meu imão”. E é impossível não mordê-la ao ouvir frases como “Meu imão tá na ecola?” ou “Meu imão é muito engaçado”.


Além disso, Nina agora cunhou um verbo novo e que faz todo o sentido do mundo. Descobri isso durante o almoço, quando a mocinha, segurando uma faca (infantil, segura!), pediu mais um pedaço de frango e, fazendo o movimento de corte, exclamou:

– Eu estou “facando” o fango!

Traumatizando meu filho

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 44 comentários

Ao ver o filme-concerto Louis C.K.: Hilarious, do mais brilhante comediante da atualidade (seu programa Louie, no Showtime FX, também é magistral), fui surpreendido por uma passagem que reproduziu, quase em todos os detalhes, uma conversa que tive com Luca há alguns meses. Na ocasião, depois de assistir aos comerciais de 2012 na televisão, o pequeno se aproximou de mim com expressão tensa:

– Esse filme é de fim do mundo, papai?

– É, meu filho. Mas é só um filme.

– Então o mundo não vai acabar?

– Claro que não, meu filho. Pode ficar tranquilo.

– Nunca? Nunca, nunca, nunca?

Nesse momento, fiquei em dúvida com relação ao que dizer. Imaginei que eventualmente Luca leria sobre as previsões dos físicos sobre a explosão do Sol, dentro de alguns bilhões de anos – e, neste instante, minha paranóia paterna me fez enxergar o pequeno (já crescido) chegando à conclusão de que eu mentira para ele e que, portanto, não era confiável. E estupidamente permiti que isso me levasse a responder:

– Bom… um dia, daqui a bilhões de anos, o Sol vai explodir e aí o mundo vai acabar. – e emendei rapidamente: – Mas isso só vai acontecer daqui a muito, muito, muito, muito, muito, muuuuuuuito tempo!

Antes mesmo de terminar, vi que havia feito besteira. Os olhos do baixinho se encheram de lágrimas e ele começou a chorar, assustado.

– Não, meu filho! Não precisa chorar, não! Isso só vai acontecer daqui a bilhões de anos!

Nada.

– Filhinho, não fica assim! Você não está entendendo: quando isso acontecer, nem você, nem papai, nem Nina, nem os seus filhinhos, nem os seus netinhos, nem os seus tatatatatatatataranetinhos vão existir mais!

E foi aí que ele caiu no choro de vez.

Levei quase uma hora para acalmá-lo, pegando-o no colo, conversando, fazendo gracinhas e por aí afora. E ainda assim, quando ele se afastou, senti que pensava no que acabara de escutar.

Mas foi só ao ver Hilarious, acreditem ou não, que me dei conta realmente do que havia feito. Nas palavras de Louis C.K., que passou exatamente pela mesma situação com a filha (ou ao menos é o que afirma), em uma questão de poucos segundos revelei para meu filho de sete anos de idade que um dia ele e todos que ele conhece irão morrer, deixarão de existir.

E que, então, o Sol explodirá.

Pais: os melhores criadores de trauma que a natureza já produziu.

Irmãozinhos

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 19 comentários

Estou no escritório quando Nina chega:

– Papai, posso bincar com o ópédi?

– Cadê o iPad?

– O Luca tá bincando com o ópédi.

– Então depois que o Luca acabar de brincar, você pode. Mas agora é a vez dele, tá?

– Tá.

Ela sai correndo. À distância, escuto a troca de diálogos:

– Luca, me dá o ópédi.

– Eu tô brincando, Nina.

– Luca, me dá o ópédi!

– Agora, não.

– LUCA, ME DÁ O ÓPÉDI!!!!!!!

Silêncio por alguns segundos tensos. E aí, o grito de Luca:

– NINA, SUA BURRA!!!! EU TE ODEIO!!!!!!

E ouço os passos do baixinho correndo em direção ao escritório – seguidos, claro, pelos de sua irmã.

– Papai, a Nina me mordeu!

– Papai, o Luca não quis dar o ópédi!!!!

– E o que você fez, Nina? – pergunto, em tom bravo.

– Eu “modi” o Luca.

Na barriga do pequeno, uma intensa mancha roxa.

– Nina, não pode morder seu irmão. Está de castigo.

Ela ergue os braços e, com o desespero de um condenado à morte, berra:

– NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOO!!!

Eu a deixo de castigo pelos dois minutos habituais (os castigos de Luca duram 15; há que respeitar as idades de cada um) e a libero. Ela imediatamente corre para a sala e, com a voz mais bravinha do mundo, ordena:

– Luca, me dá o ópédi!


Aliás, embora briguem ocasionalmente, é preciso dizer que Luca e Nina se dão maravilhosamente bem. Amigos ao extremo, estão sempre brincando juntos e fazendo carinho um no outro, além de constantemente dizerem coisas como “Eu te amo!” e “Você é lindinho(a)!”. Neste sentido, vale dizer, também fico bastante impressionado com Luca, já que Nina vira e mexe acerta o irmão com algum tapa (ou mesmo machuca-o com mordidas): embora tenha apenas 7 anos e, portanto, seja impulsivo especialmente quando irritado, o pequeno jamais encostou na irmãzinha, limitando sua revolta a gritos como os descritos acima. Acho muito lindo.


Já mais tarde, Nina abre minha carteira e, tirando uma nota de 50 reais, diz com alegria:

– Achei dinheilo!

– E o que vai fazer com ele, sua doidinha?

– Vou complar balinha.


Enquanto isso, agora à noite, Nina se aproxima de mim enquanto vejo um filme e diz:

– Papaizinho lindinho?

– Oi, meu amor.

– Quelo ver minha novela.

Sem saber como reagir à frase, opto pela saída habitual: mordo minha filha.