Luca & Nina

Pequena Corajosa

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 22 comentários

Em meu escritório, tenho duas máscaras de látex: uma do Hulk e outra do Monstro de Frankenstein. Naturalmente, Nina, com apenas dois anos de idade, não é muito fã desta decoração. No entanto, em vez de se entregar ao choro e ao medo, a pequena encontrou uma forma que considero encantadora de lidar com sua apreensão.

De tempos em tempos, entra no escritório, dá um soco em cada máscara e diz um forte “Feio!” antes de sair correndo e voltar às suas brincadeiras diárias.

O curioso é que ela não percebe o verdadeiro risco que corre ao fazer isso: o de levar uma forte mordida nas bochechas.

Projetos de reencarnação

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 30 comentários

Estava assistindo ao jornal quando notei que Luca parecia tenso com a matéria sobre as enchentes na China. Percebendo que as imagens de prédios e casas sendo arrastados pela chuva realmente eram fortes para uma criança de 7 anos, comentei casualmente:

– Ainda bem que a China fica do outro lado do mundo, né?

– É mesmo. Na outra encarnação, eu quero nascer no Brasil de novo.

Surpreendido com a declaração espontânea, perguntei:

– Mas você vai querer ser meu filho de novo na outra encarnação, né?

Sem ao menos hesitar, o pequeno respondeu:

– Só se você for morar no Brasil.

Revoltado por perceber que minha posição geográfica importava mais que meus talentos como pai, voltei-me para Nina em busca de apoio. 

– E você, minha filha? Vai querer ser filha do papai de novo na outra encarnação?

E a baixinha, sem nem mesmo levantar os olhos de sua brincadeira:

– Não. "Canação" não.

Com isso, não tive alternativa: coloquei os dois de castigo.

Nina se apronta para sair

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 24 comentários

– Papai, vamo xair?

– Você está pronta?

– Tô.

– Não está, não, ué. Ainda está descalça!

Ela se afasta resmungando. Segundos depois, volta ao escritório:

– Tô ponta, papai. Já caxei o chinela. 

Casinhos e idade

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 19 comentários

Ao tentar tirar o cinto de Nina a fim de removê-la da cadeirinha para crianças situada no banco de trás do carro, a surpresa:

– Xaco!

– … Minha filha, "saco" o quê?

– Tilar o xinto.

—————————————————————————————————–

Luca se aproxima com o livro da escola:

– Papai, preciso fazer o dever e tem uma pergunta para você responder.

– Ah, legal, qual?

– Quais brinquedos ou brincadeiras que você gostava na sua época, mas que não existem mais?

– …

– Fala, papai!

– (%#$%@*&)

– Não sabe responder? Já sei: aquele telefone com fio!

– Hein?

– Aquele que são duas latinhas ligadas por um fio!

Aparentemente, meu filho acredita que já cheguei aos 90 anos de idade.

Conversando com Luca pelo telefone

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 12 comentários

Ligo para Luca, que está na casa da avó:

– Ei, filhinho.

– Ei, papai.

– Que tal ver Alice hoje à noite?

– Oba! Eu quero!

– Que bom. Então faça seu dever de casa agora pra poder ver o filme à noite.

– Papai, saiu a nota da minha prova. Minha primeira prova!

– E aí?

– Tirei nota máxima!

– Parabéns!

– Papai, eu tô vendo a Lua.

– Hein?

– Ela já apareceu no céu. 

– … Ah, legal, meu filho…

– Ganhei um negócio legal de desenhar.

– Filhinho, concentra na convers…

– É muito legal. 

– Ok, legal. Mas você tem que fazer o dever agora, pois já está quase anoitecendo.

– Eu sei, eu já tô vendo a Lua!

– … pois é, meu filho.

– Oba, vou ver Alice! Beijo, papai!

E desliga o telefone.

Meus filhos não são índios

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Luca & Nina | 87 comentários

Presentear uma criança é muito fácil; basta lembrar-se do que você gostava de ganhar na infância: brinquedos. Sim, você pode até optar por roupas (ao menos os pais do aniversariante vão gostar), mas desde que se certifique de que esta traz algum super-herói ou personagem do Cinema ou da televisão estampados no tecido. Em outras palavras: não estamos falando de física quântica; crianças são fáceis de agradar.
 
Mas querem saber o que não é um bom presente de aniversário? Uma bíblia.
 
Em primeiro lugar, é algo que qualquer criança, por mais religiosa que seja, achará chato. E segundo – e mais importante -, meus filhos não são índios para serem catequizados por um convidado metido a missionário. Para completar: educação religiosa cabe aos pais. Eu determino o que quero ou não ensinar aos meus filhos a este respeito – e se você ainda por cima conhece a posição anti-Religião do pai do aniversariante… bom, aí o presente já deixa de ser simplesmente uma gafe e vira uma ofensa.
 
"Ofensa?", podem pensar alguns. "Que exagero. Dar uma bíblia de presente não pode ser considerado uma ofensa!".
 
Ah, não? Pois veremos como o casal (evangélico) que nos presenteou com uma bíblia irá se sentir quando, no próximo aniversário de um de seus filhos, eu presenteá-los com o que chamo de box "Escolha uma Religião": um pacote que inclui o Corão, o Talmude (e o Torá) e, claro, o Evangelho Segundo o Espiritismo.
 
Já a bíblia ficará de fora, pois presumo que a criança em questão já possua uma.

Nina Wallace e Papai Longshanks

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 17 comentários

Minha diversão favorita nos últimos dias é aprisionar Nina apenas para vê-la implorar por sua liberdade. Crueldade? Talvez. Mas sua impaciência crescente é tão bonitinha de testemunhar que não consigo resistir. 

Normalmente, começa assim:

– Táu, táu, papai!

– Tchau, filhinha! – digo, para despistá-la. Quando ela se vira, porém, eu a agarro e começo a beijá-la no pescocinho e a fazer cócegas. Depois de rir por alguns segundos, ela se lembra de que queria ir a algum lugar e diz:

– Cença, papai. Cença.

– Não dou licença, não! – e continuo a mordê-la. 

– Cença! Cença!

– Papai é mau! Não dou licença, não!!! – e insisto nas cócegas.

Até que eventualmente ela perde a paciência e berra:

– Sóta! Sóta mim! Sóta mim!

E eu a solto.

– Táu, táu, papai.

– Tchau, filhinha.

E a agarro novamente.

Nina enfermeira

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 20 comentários

Contando a paroxetina (anti-depressivo) e a masalazina (para a retocolite), tomo cinco comprimidos por dia. Assim, é claro que Nina já notou que algumas vezes por dia seu velho pai enfia algumas pílulas na boca – e achou um barato. Assim, sempre que me vê indo em direção aos remédios (que guardo no alto da geladeira), ela se aproxima e diz:

– Memédio papai. Memédio papai. – e estende a mãozinha. Então, entrego o comprimido à pequena que, com uma imensa alegria, o coloca em minha boca, completando em seguida: – Memédio papai. Deu.

Como acho isso lindo, toda vez que vou tomar os remédios, chamo a pequena, que vem correndo alegremente e já gritando "Memédio papai!".

Só agora me dei conta de que talvez a esteja condicionando a tomar conta do pai na velhice.

Eu sei, eu sei: sou um gênio.

Meu pai

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Luca & Nina | 67 comentários

Depois de gravar o áudio sobre O Segredo dos Seus Olhos, no qual comentei sobre o fato do filme me levar a uma série de reminiscências, passei a pensar em meu pai. De certa forma, ele está sempre em minha mente, já que uma de minhas grandes epifanias durante a terapia foi perceber o óbvio: que sua morte precoce foi responsável por dar origem a uma série de neuroses, medos e inseguranças que carreguei (e carrego) ao longo dos últimos 30 anos. Dito isso, embora ser órfão de pai não seja algo que jamais consigamos esquecer, não é comum que eu passe horas a fio pensando no velho Geraldo.

"Velho Geraldo". Quem dera isso fosse verdade. Morto em 1980 em um acidente de carro, meu pai tinha 40 anos quando deixou minha mãe viúva, aos 27, e com dois filhos pequenos para criar. Ele nunca teve a chance de envelhecer – ora, estou quase atingindo a idade que ele tinha quando morreu. Ainda assim, pensar no meu pai é algo que automaticamente me leva a assumir uma postura infantil, como se ele fosse essa figura paterna intocável, de autoridade eterna, e eu fosse instantaneamente devolvido aos 5 anos que tinha quando o perdi. Isto se contrapõe à minha relação com minha mãe, que aprendi a conhecer profundamente ao longo das décadas e que se tornou mais do que uma guia, mas uma grande e amada amiga.  

Não sei quem era meu pai. Ou melhor: sei aquilo que descobri através de terceiros. Era um homem divertido, mas explosivo (não com a família, mas com estranhos); era um trabalhador incansável, workaholic (o que herdei), mas notório pão-duro (o que não herdei, infelizmente). Era um pai carinhoso, mas que viajava mais do que o ideal. Tinha um imenso coração e se esforçava ao máximo para ajudar desconhecidos em necessidade (advogado, era extremamente comum ter clientes que o pagavam em milhares de prestações ou que acabavam representando serviço pro bono), mas era politicamente conservador – um homem de direita.

E morreu moço.

Tenho algumas poucas lembranças de meu pai: um passeio de bicicleta, um pequeno acidente de carro enquanto me levava para a escola, uma festa de aniversário. Mas a lembrança mais marcante que tenho é da notícia de sua morte: sem saber exatamente o que acontecia, lembro de ver minha mãe chorando e de experimentar uma terrível inquietação com seu sofrimento. Lembro de um tio nos visitar e comentar com meus primos baixinho, sem saber que eu ouvia: "Tadinho dele; o papai dele morreu". Mas não me lembro de realmente compreender o que significava tudo aquilo, que nunca mais veria meu pai.  

É estranho: se ele não tivesse morrido, eu certamente seria uma pessoa completamente diferente. Para começar, as inclinações esquerdistas de minha mãe talvez não tivessem exercido tamanha influência sobre mim. (E eu hoje talvez fosse eleitor do Serra, quem sabe?) Possivelmente não teria largado a faculdade de Medicina para me dedicar à escrita e ao Cinema. E, claro, meu amado irmão caçula, fruto do segundo casamento de minha mãe, não existiria. Ao mesmo tempo, é claro que eu gostaria que ele ainda vivesse. Não sei como tudo se encaixaria, mas não gostaria de ter perdido meu pai tão cedo, já que isso gerou um vazio que ainda hoje luto para preencher.

Por outro lado, de certa forma ele nunca nos abandonou. Quando tinha pouco mais de um ano, Luca me pegou de surpresa ao ver uma foto de meu pai e identificá-lo como "vovô" (algo que narrei nesse post) e, sinceramente, acredito ser um pai melhor justamente por não ter tido a chance de conviver com o meu. Mas tê-lo perdido aos 5 anos não é – e provavelmente nunca será – algo com o qual eu consiga lidar confortavelmente.

Como diria Kurt Vonnegut: "Coisas da vida". 

Enlouquecido pelo filho

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 36 comentários

Hoje tirei o dia para sair com Luca: fomos ver O Fada dos Dentes (bobinho, mas bem divertido) e depois fizemos um passeio que incluiu lanche, sorvete, visita à Leitura MegaStore (um favorito de pai e filho) e por aí afora. Foi, como sempre, uma delícia. Mas cheguei ao final do dia com dor de cabeça. Por quê? As perguntas. Sempre as perguntas. Um dia inteiro delas.

– Papai, o que faz a Terra ficar girando?

– Papai, o que faz existir a gravidade?

– Papai, se um asteróide estivesse vindo pra Terra, tem como não deixar ele chegar aqui?

– Se um asteróide não tivesse acertado a Terra, os dinossauros existiriam até hoje?

– Qual seu dinossauro favorito? Por quê?

– Como os animais surgiram? E as plantas? 

– Qual seu animal favorito? E sua planta favorita?

– Quanto ganha um motorista de ônibus?

– E um astronauta?

– Quem inventou as cores? 

– Como assim, elas sempre existiram? Alguém teve que inventar o roxo. Não existe nada roxo na natureza, existe?

– Qual sua cor favorita?

Ao final do dia, já atordoado, devolvi:

– Meu filho… o papai pode fazer uma pergunta?

– Pode.

– Você fica caladinho só um segundo?

Mas para esta pergunta ele já sabia a resposta. Um instantâneo e definitivo "Não".