Luca & Nina

Conflitos de gerações

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 13 comentários

Luca e Nina são extremamente carinhosos um com o outro: basta ouvir a voz do irmão que Nina salta de alegria – e por um bom motivo: ele está sempre brincando com a pequena e fazendo gracinhas para que ela caia na gargalhada. Isto não quer dizer, porém, que não se desentendam de vez em quando; são irmãos, afinal de contas. No entanto, mesmo quando a briga é feia, Luca jamais fez qualquer menção de machucar a irmã, já que compreende que esta ainda é quase um bebê.

Nina, por sua vez…

Há algum tempo, a pequena estava folheando um álbum de fotografias quando Luca se aproximou e, interessado numa foto em particular, segurou a página, impedindo que a pequena a virasse. Revoltada, Nina se manifestou:

– Nãããoooo!!!!

Luca continuou a segurar a página.

– NÃÃÃÃÃOOOOOOO!

Como o irmão não dava sinal de que iria soltar o álbum, Nina encontrou uma solução para o dilema e o beliscou com força. Luca, provando ter noção da diferença de seu tamanho para o da irmã, protestou com um grito (o beliscão chegou a deixar marca), mas não reagiu. Apenas reclamou da atitude e se afastou, chateado.

E Nina voltou a folhear o álbum despreocupadamente, embora eu fizesse questão de dizer com firmeza: "Não pode fazer isso, Nina! Não pode machucar seu irmão!".

Dito isso, o que mais chamou minha atenção no episódio foi a forma com que o beliscão foi dado. Nina não reagiu instintivamente; ela pensou no que iria fazer. Antes de agir, ela olhou para Luca por alguns segundos antes de finalmente decidir que a melhor estratégia seria beliscá-lo – e ao chegar a esta conclusão, ela a implementou com decisão absoluta.

E se isto me diz alguma coisa… é que tenho uma mocinha com gênio forte em mãos.


E por falar em conflito de gerações, Luca chegou da escola chateado na última sexta-feira:

– Não sou mais amigo do Ricardo.

– Por quê, meu filho? Vocês sempre brincaram juntos!

– É, mas agora, só porque fez sete anos, ele está se achando!

Eu enfrento o mesmo problema com meus amigos que têm 36 anos.

Luca McFly

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 21 comentários

Há cerca de 12 anos (sim, 12!), ao escrever sobre a trilogia De Volta para o Futuro (aqui estão os textos das partes 1, 2 e 3), comentei:

"De Volta Para o Futuro
é, em suma, um grande filme que deve ser visto, revisto e rerevisto.
Aliás, mal posso esperar para revê-lo ao lado de meus filhos (que ainda
nem nasceram) e conferir suas reações às aventuras de Marty. Ou será
que foram eles que, voltando para o passado, me fizeram conhecer minha
esposa? Posso estar delirando, mas até que seria divertido. Como o
filme."

Pois perdi a oportunidade de redescobrir o filme com Luca: enquanto eu estava em Los Angeles, o pequeno descobriu o box da trilogia de Robert Zemeckis e assistiu aos três filmes num só dia. E desde então voltou a vê-los mais três vezes – todas enquanto eu ainda estava fora.

Pois quando voltei, a empolgação do baixinho permanecia: há alguns dias, ele passou toda a tarde construindo uma "máquina do tempo" – e ao concluí-la perguntou para qual data eu gostaria de viajar.

– Hum… não sei.

– Pensa, papai! A máquina está pronta!

– Hum… ok. 1951. (Sempre tive curiosidade de estar no cinema quando as pessoas viram pela primeira vez Brando em Uma Rua Chamada Pecado. Fico imaginando o impacto que aquela atuação teve sobre cinéfilos de todo o mundo, tão acostumados a um estilo de interpretação completamente diferente.)

– 1951? Por quê?

– À toa. (A explicação sobre Brando ficará para o futuro.)

– Tá bom. 

Ele apertou os "comandos" da sua máquina e, então, com uma expressão preocupada, perguntou:

– Nessa época ainda tinha dinossauro?

Ponderações, Decisões, Explicações

postado em by Pablo Villaça em Editorial, Infilm, Luca & Nina | 120 comentários

Por onde começar?

Não, sério, por onde começar?

Não me lembro, em toda minha trajetória profissional, de ter vivido um período tão desgastante física e emocionalmente quanto os últimos meses. Se por um lado era extremamente empolgante estar mergulhado no trabalho em uma empresa nova e cheia de potencial como o InFilm, por outro eu me via afastado de minha família (mesmo antes de viajar para Los Angeles) e em débito com o Cinema em Cena (site e blog).

Por algum tempo, acreditei que daria conta de conciliar tudo e que eventualmente as coisas se tornariam mais tranqüilas. O InFilm é uma empresa jovem e, no cargo de diretor geral, minha responsabilidade é completa em sua estruturação: do estabelecimento de contatos com clientes à operacionalização dos programas, passando por negociações junto a possíveis parceiros e contratação de pessoal, meu dever é estar a par de absolutamente tudo e – mais – de estar diretamente envolvido em todas estas facetas. Ao menos até que, já madura, a empresa já tenha uma dinâmica que dispense tamanho envolvimento de minha parte em tudo.

Mas quanto tempo isto levaria? Três meses? Seis? Um ano?

E o Cinema em Cena? E este blog? Como ficariam neste período? Se no início julguei que conseguiria fazer tudo-ao-mesmo-tempo-agora, percebi que isto era uma ilusão. Embora tenha feito – aqui mesmo, neste espaço – promessas de que nada mudaria, de que voltaria a escrever com a freqüência habitual, o dia-a-dia do InFilm simplesmente não permitia que isto acontecesse: trabalhando do momento em que acordava até voltar para a cama (normalmente por volta de 3h da manhã), sem praticamente parar para nada, confesso que praticamente não consegui encaixar nenhuma de minhas obrigações com o site ou com este blog nas quase 18 horas de trabalho diário.

Ou mesmo meus filhos.

Se a rotina estava se revelando massacrante, porém, as coisas se tornaram ainda mais claras com minha ida para Los Angeles.

A questão é que, embora não tenha dito isso no blog, os planos iniciais previam que eu já ficasse no mínimo três meses por lá, retornando apenas em 19 de dezembro. Depois das festas de fim de ano, nova viagem para Los Angeles sem previsão de retorno.

Em três semanas, já enlouqueci de saudades dos meus pequenos.

No post intitulado "Toy Stories, Píer Santa Monica e Saudades", expressei minha angústia por estar longe das crianças e um leitor, sugerindo que talvez eu estivesse sendo "melodramático", ponderou que um de seus amigos, embora também muito apegado aos filhos, teve que se manter afastado destes em função de exigências profissionais e oportunidades de carreira. Enquanto isso, outro leitor argumentou, em post relacionado, que o InFilm representava uma oportunidade única em minha carreira e que, de qualquer forma, eventualmente meus filhos cresceriam e deixariam o lar – e que, portanto, seria prudente fatorar tudo isso na equação.

Ambos estavam certos. E tenho a convicção de que publicaram seus pontos de vista com a mais nobre intenção de me ajudar a avaliar este momento profissional e pessoal.

Sim, o InFilm é uma oportunidade ímpar. Sim, meus filhos eventualmente vão crescer e tocar suas vidas, saindo de casa, estabelecendo suas próprias famílias e por aí afora.

Mas querem saber o que também é uma oportunidade única? A de vê-los crescendo –  especialmente porque eventualmente eles vão se tornar adultos e abandonar o ninho. Quando viajei para Los Angeles, por exemplo, Nina já andava para baixo e para cima, mas ainda demonstrava certa insegurança revelada pelo seu jeitinho meio trôpego, quase bêbado, de caminhar – algo que eu achava lindo. Isso acabou. Ela agora caminha com segurança absoluta. Já Luca, que estava lendo muito bem, mas ainda tropeçava aqui e ali, evoluiu tremendamente nesse período, praticamente deixando de lado as gaguejadas e aqueles errinhos que tanto me comoviam.

E eu perdi todo esse processo. Crianças muito jovens mudam muito rapidamente; sempre quis ser um pai presente e estar ao lado delas em todas as suas descobertas e evoluções. Talvez porque meu próprio pai não teve essa chance por ter morrido aos 40 anos e quando eu tinha apenas 5 anos e minha irmã, pouco mais de um. Ou talvez porque eu não tenha tido a oportunidade de ter crescido com meu pai ao meu lado, não sei. Mas o fato é que saber que perdi momentos importantes nas vidas de Luca e Nina é algo que me angustia tremendamente.

Ah, mas e se eu levasse toda a família para Los Angeles?

Acreditem, pensei muito nisso. Exaustivamente. E cheguei à conclusão de que não seria uma atitude responsável de minha parte. Aliás, seria tremendamente egoísta. Além de ter que abandonar escola e amigos, Luca teria que mergulhar numa cultura radicalmente diferente enquanto ainda enfrentaria dificuldades com a nova língua. E sei como as crianças podem ser cruéis com aqueles que julgam "estranhos", vindos de fora. Por outro lado, é fato que crianças se adaptam muito mais facilmente a novas circunstâncias do que os adultos.

Mas mantê-los longe da família? Das avós, tão carinhosas e sempre presentes em suas vidas? Dos tios? Dos primos? Luca e Nina já perderam os dois avôs (Luca ainda conviveu um pouquinho com o avô materno; Nina nem chegou a conhecê-lo.); seria justo impedir que convivessem com as avós?

De todo modo, apesar de todos os problemas, ainda seria possível resolver o impasse – eles poderiam passar algum tempo comigo em Los Angeles; eu poderia voltar uma vez por mês; eventualmente poderíamos arrumar uma maneira deles se mudarem para lá com um esquema de viagens pré-planejado para que vissem as avós com a maior freqüência possível; e por aí afora.

Seria sofrido para mim, claro, mas possível.

Mas e o Cinema em Cena? Prestes a completar 12 anos de existência, o site é o mais antigo do gênero na internet brasileira. E também é um "filho" querido para mim. Eu poderia abandoná-lo? Esta seria a única alternativa viável, já que tentar me manter a bordo seria apenas adiar o inevitável, prejudicando-o (e aos leitores) no processo. Além disso, e minha responsabilidade para com meus sócios? Há oito anos, a AeC, uma das empresas mais bem sucedidas em seu setor no Brasil, tornou-se acionista do site e, desde então, vem investindo em sua manutenção e infra-estrutura. Ao aceitar o convite para dirigir o InFilm, conversei com meus sócios, Cássio e Guilherme, e os assegurei de que continuaria a ter o Cinema em Cena como prioridade – e eles, sempre compreensivos e confiantes em minha honestidade, abandonaram as reservas e me parabenizaram pela oportunidade conquistada. O que me deixou profundamente grato.

Como eu poderia decepcioná-los depois de todos esses anos de apoio constante? E os leitores, que vinham reclamando (com propriedade) de minha ausência? Como reagiriam à minha saída do site? 

Acho que já sabem onde vou chegar.

Depois de ponderar por dias sobre todas estas questões, procurei Marcos Wettreich, criador e principal acionista do InFilm – e também a pessoa que me convidara a dirigir a empresa. Expliquei toda a situação e confessei que não sabia como resolvê-la, como encontrar uma maneira de conciliar todos os elementos em jogo. Manifestei minha paixão pela proposta do InFilm e minha crença absoluta de que ela se tornará uma empresa extremamente bem-sucedida. E também confessei como adoraria fazer parte desta trajetória, embora não visse como isto seria possível.

E aqui preciso fazer parênteses para falar sobre Marcos: empresário absurdamente bem-sucedido e com uma reputação admirável no mercado, ele se tornou não apenas um amigo querido nos últimos meses, mas também uma espécie de tutor. Embora eu tenha orgulho de ter mantido o Cinema em Cena vivo e em trajetória crescente por mais de uma década, assumir a direção de uma empreitada como o InFilm representou um desafio amedrontador e inédito em minha vida – e que me trouxe a oportunidade de discutir e aprender com Marcos diariamente, já que, neste período, conversamos várias vezes ao dia, todos os dias (sim, inclusive aos sábados e domingos; o homem é um cavalo no que diz respeito ao trabalho). Com isso, praticamente fiz um curso intensivo e imensamente útil de gestão nestes últimos meses – e com um professor que, caso cobrasse por isso, me custaria uma fortuna.

Pois bem: como pai de crianças jovens e também como empresário, Marcos demonstrou uma compreensão absurda diante do que coloquei. Como pai, percebeu como eu estava sofrendo em função da distância de meus filhos; como empresário, aplaudiu minha preocupação para com meus sócios de tantos anos. E, embora lamentássemos ambos diante do impasse, concordamos que, neste momento, permanecer no InFilm era algo que eu não poderia me dar ao luxo de fazer.

Foi uma conversa não só amigável, mas reveladora e repleta de otimismo. De seu lado, Marcos deixou claro que as portas do InFilm continuam abertas para que, no futuro, eu possa voltar a fazer parte da empresa (nem que seja como cabeça de algum programa específico); do meu, aproveitei meus contatos com a OFCS para deixar pessoas competentes e apaixonadas à disposição do InFilm em Los Angeles – além de ter assegurado estar à disposição para resolver qualquer questão mais urgente que dependa de mim neste período de transição. Além disso, me dispus a auxiliar na intermediação de outros contatos em L.A., já que acabei conhecendo várias pessoas e reforçando relacionamentos estabelecidos ao longo dos anos por email.

E, acreditem, para mim é extremamente importante saber que deixo portas abertas e que tenho, em Marcos, um novo amigo; teria sido terrível caso esta minha passagem pelo InFilm tivesse originado ressentimentos ou algum mal-estar profissional. E sou e serei sempre grato a ele pelo generoso convite e por todas as "aulas" que tive neste período.

Aulas que, aliás, serão colocadas em prática com todo o vigor no Cinema em Cena a partir de agora. Percebi, entre outras coisas, que andava no piloto automático como editor e administrador do site e que preciso sacudir um pouco as coisas. Em termos de audiência, o site nunca esteve tão bem; mas isso não pode ser o bastante. E não será.

Página virada, capítulo novo. Volto aos meus filhos biológicos e ao meu filho jurídico. E espero vê-los, todos, crescendo muito e sempre.

I'm back, baby.

Toy Stories, Píer Santa Mônica e Saudades

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Luca & Nina, Viagens | 19 comentários

Fundado em 1926, o El Capitan é um cinema importante não só na história
de Los Angeles, mas também na da Sétima Arte de modo geral: foi lá, por
exemplo, que Orson Welles promoveu a première mundial de Cidadão Kane quando
nenhum outro exibidor aceitou o risco de provocar a fúria do magnata da
mídia William Randolph Hearst, com quem o cineasta vinha travando uma
batalha pública desde que o outro se dera conta de que Kane nada mais
era do que uma ficcionalização de sua própria vida.
 
Assim, quando entrei no cinema no sábado pela manhã para assistir à sessão dupla de Toy Story e Toy Story 2
em 3D, não estava ali apenas para conferir a nova versão dos belíssimos
filmes de John Lasseter, mas também para respirar um pouco da História
do Cinema. Onde teria sentado Orson Welles naquela noite específica?
Será que ele tinha alguma idéia de que estava lançando um clássico que
se tornaria referência absoluta nas décadas seguintes? O que teriam
dito os espectadores enquanto se encontravam no hall, após a sessão?
 

 
Logo, porém, tive que abandonar estes exercícios de imaginação pois a cortina vermelha havia sido aberta e You've Got a Friend In Me,
de Randy Newman, começara a tocar. A platéia, repleta de adultos e
crianças (muitas caracterizadas como seus personagens favoritos, desde
Woody e Buzz até a cowygirl Jesse e – para minha surpresa – os pequenos
aliens verdes que se submetem ao "Garra"), começou a aplaudir enquanto,
no palco, versões de "carne-e-osso" de Woody, Buzz e Jesse dançavam
desajeitada e alegremente. A coreografia, claro, logo descambou para
aquele clichê musical norte-americano dos braços dados e pernas
atiradas para o alto, culminando numa chuva de papel picado sobre a
platéia, mas a energia das crianças, que vibravam com tudo, tornou
aquele momento particularmente memorável – e senti uma dor quase física
por não ter meus pequenos ao meu lado naquele instante. 
 

Encerrada a dança, a tela se iluminou e vimos o trailer de Toy Story 3
– e em 10 segundos, ao ver Andy indo para a faculdade e os brinquedos
sendo abandonados, percebi que estava chorando. Sim, talvez eu esteja
excessivamente sensível em função da saudade que estou sentindo das
crianças, mas é igualmente possível que a Pixar tenha acertado em cheio
mais uma vez com a premissa do filme, não?
 
Seja como for, a sessão foi um sucesso:
despertando risos e aplausos durante toda a projeção, o El Capitan
exibiu jogos de perguntas e respostas na tela durante os 10 minutos de
intervalo – e fiquei impressionado ao perceber que Tim Allen e Joan
Cusack emprestaram suas vozes para as pequenas vinhetas que serão
exibidas apenas durante estas sessões especiais dos longas. Quanto à
tridimensionalização dos filmes, só posso dizer que foram muito bem
sucedidas, despertando minha curiosidade para as possibilidades deste
tipo de renovação. E se isto se tornar uma nova tendência? E se grandes
clássicos forem submetidos a este tratamento? Sim, parte de mim se
arrepia só de pensar nisso, mas outra parte, confesso, tem certa
curiosidade em conferir os resultados de versões 3D de obras como 2001, Fantasia e, por que não, O Poderoso Chefão.
(E isto partindo de alguém que sente profundo desprezo por modificações
como colorização de filmes em preto-e-branco e a conversão de obras em
widescreen para o formato 4:3.)

Após a sessão, claro, a saída levava diretamente à
loja da Disney, que também administra o El Capitan há vários anos
(quando não está exibindo os novos projetos do estúdio, o cinema
programa clássicos; na semana passada, por exemplo, Branca de Neve estava em cartaz). Ali, as crianças enlouquecidas pressionavam seus pais para que comprassem algum dos diversos produtos Toy Story estrategicamente espalhados pelo salão. 
 
E como eu queria ter enfrentado esse tipo de pressão naquele momento. 

Já no domingo, resolvi fazer um passeio de improviso e fui até o píer
de Santa Monica para assistir a um outro tipo de espetáculo: o
pôr-do-sol. Eu já vira o Sol se por ao lado do letreiro de Hollywood
duas vezes ao visitar o Observatório Griffith: uma levado por Ana Maria
Bahiana, em agosto, e a mais recente na semana passada, ao assumir o
posto de guia turístico diante de minha colega de InFilm Luisa, que se
encontrava em Los Angeles pela primeira vez. Porém, aquela visão,
maravilhosa como era, empalideceu diante do que vi no domingo.
 
  
 
Em primeiro lugar, é preciso descrever o choque
térmico que senti ao chegar ao píer. Los Angeles tem se revelado uma
cidade absurdamente quente nestas minhas duas estadas – e, assim, desta
vez nem mesmo incluí um agasalho em minha bagagem. Ao chegar ao píer de
Santa Monica, porém, o vento cortante e gelado me fez tremer, me
obrigando a comprar uma blusa de frio numa lojinha estrategicamente
localizada ao lado do parque ali instalado (e a julgar pelo número de
pessoas que usavam agasalhos idênticos ao meu, suponho que muitos
outros foram surpreendidos pelo vento). 
 
Caminhando sobre as tábuas do píer, imediatamente
notei a estranha proximidade das gaivotas: assim como os esquilos do
Central Park, em Nova York, que se aproximavam dos humanos sem o menor
receio justamente por estarem habituados a serem alimentados por estes,
as aves do píer chegavam ao ponto de bicarem alimentos estendidos pelos
turistas – e o mais incrível: enquanto aparentemente flutuavam no ar.
Sim, flutuavam: como o vento ali é fortíssimo, os pássaros conseguem
ficar praticamente parados em um mesmo ponto apenas com um levíssimo
bater de asas disparado contra a direção do fluxo do ar, como um
beija-flor. Assim, descem lentamente até os visitantes enquanto bicam
as guloseimas, o que resulta numa imagem estranha e bela.
 
 
 
Mas por que perder tempo com descrições se as
imagens podem falar por si mesmas? Peço perdão apenas pela baixa
resolução das fotos, já que o iPhone é conhecido por ter uma
camerazinha bem chulé (todas as imagens deste post podem ser ampliadas
com um clique).

 

Mas, mais uma vez, embora tenha achado a experiência
incrivelmente agradável, não consegui curtir como gostaria aquele
passeio: sim, queria Luca e Nina ao meu lado ali, vendo o Sol e pedindo
para que eu comprasse ingressos para a montanha-russa e a roda-gigante.
E, com isso, cheguei a uma conclusão importante: depois que me tornei
pai, deixei de ser um indivíduo. Agora sou composto por três partes – e
quando uma ou mais destas partes estão distantes, tudo se torna
inevitavelmente incompleto; o que normalmente despertaria alegria e
prazer fica abafado pela saudade e pelo sentimento de que pedaços
importantes de mim não estão ali para curtir tudo aquilo.

Quando estou longe dos meus filhos, sinto como se parte da minha alma tivesse sido amputada.

E se você já ouviu falar de "dor fantasma", sabe que, mesmo ausentes, aqueles membros amputados continuam a doer terrivelmente.

Saudades

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina, Viagens | 11 comentários

A única forma que encontro para expressar como estou sentindo falta dos meus pequenos é parafraseando uma frase dita por Daniel Stern no ótimo Amigos, Sempre Amigos:

"Se saudades fossem pessoas, eu seria a China".

Cansado em Los Angeles, Desabafando de Madrugada, Esperando Retaliações

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Luca & Nina, Variados | 95 comentários

Estou ausente deste blog? Sem dúvida. Fiquei sem escrever críticas nas duas últimas semanas? Sim.

Mas em 15 anos como crítico de cinema e em quase 12 anos de Cinema em Cena, vocês podem contar nos dedos da mão esquerda do Lula quantas vezes eu tirei férias ou me ausentei do site. Workaholic por natureza, sempre trabalhei como um cavalo – e se nas últimas semanas escrevi menos posts e críticas, não é porque me entreguei à vagabundagem. Ao contrário; o sentimento de exaustão física, mental e emocional que estou experimentando neste momento chega a ser difícil de descrever. 

Como devem imaginar, assumir um cargo novo numa empresa ambiciosa como o InFilm não é brinquedo – e além de atuar na operacionalização de vários aspectos do negócio, ainda passei as duas últimas semanas fechando os detalhes mais cabeludos do programa Como Filmes e Programas de TV São Realmente Feitos. Em seguida, vim para Los Angeles pela segunda vez em um mês e meio, numa viagem absurdamente exaustiva, e já mergulhei no evento não apenas como um de seus "guias" (na falta de termo melhor), mas também como responsável por registrar da maneira mais fiel possível o que ocorre a cada dia

E tudo isso longe de minha família – e se há algo que vocês já devem saber a esta altura é que ficar longe de meus filhos é um sofrimento que, para mim, chega a representar uma dor física. Falar e vê-los pelo Skype até poderia ser um paliativo caso eu não percebesse que ver o "Papai" através da tela do computador é algo que não só não diminui a falta que os pequenos sentem de mim como ainda a intensifica por escancarar a distância – e ver Nina, por exemplo, esticando os bracinhos para vir para meu colo do outro lado da tela é de partir o coração.

É claro que vocês não têm nada a ver com meus "problemas"; o que interessa é que eu entregue críticas e textos de boa qualidade. Por outro lado, é justamente isso que me faz ficar profundamente chateado ao ler comentários do tipo "Arranje outro crítico para o Cinema em Cena!", "Se não pode escrever, deixe para outro", e por aí afora.

Ora, que a modéstia vá para o Inferno; se cheguei onde cheguei é porque tenho textos de ótima qualidade e com análises mais profundas e abrangentes do que normalmente se vê por aí (embora, claro, haja outros grandes críticos que provavelmente me deixam no chinelo. Pelo menos, reza a lenda.) Então não consigo entender este clamor por um substituto: se o que você quer é apenas outro texto sobre cinema, há algo novo chamado Internet que contém talvez algumas dezenas de textos sobre o assunto, possivelmente até uma ou duas centenas. Procure-os. Porém, se o que você deseja é ler mais textos meus, bom… então não entendo como um "substituto" poderia suprir esta demanda.

Ainda assim, fiquei simultaneamente triste e lisonjeado ao ler as reclamações de vocês – triste porque não gostaria que estivessem insatisfeitos; lisonjeado porque estão reclamando justamente por sentirem falta dos meus textos. E não há elogio maior para alguém que vive da escrita do que receber pedidos de "queremos mais".

E eles serão atendidos.

Luca perceptivo

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 46 comentários

Estava assistindo a Ponte para Terabítia com Luca quando, ao ver a fascinação de Jess (Josh Hutcherson) pela professora de música vivida por Zooey Deschanel, comentei:

– Ele está apaixonado pela professora dele, você notou?

Nesse instante, Luca se virou para mim com uma cara de "Papai é um imbecil" e respondeu, revoltado:

– Você tá maluco? Ela é uma professora!

Mas o que me espantou no pequeno (e que dá título a este post) foi perceber como ele já é capaz de decifrar alguns sinais mais sutis da linguagem cinematográfica. Em certo instante do filme, depois que Jess e Leslie (AnnaSophia Robb) têm um dia particularmente agradável, a garota se afasta em direção à sua casa e, depois de um close do menino contemplando-a, encantado, voltamos a vê-la correndo em câmera lenta. Foi aí que Luca comentou:

– Como será que esse filme termina? Tomara que ele termine bem.

Em um décimo de segundo, graças a um detalhe de montagem, ele havia captado um indício de que algo poderia acontecer – e que se confirmou duas seqüências depois. Fiquei impressionado com – e orgulhoso do – meu garoto.

Mini-me

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 91 comentários

Fizemos um pedido para entrega na farmácia e, trinta minutos depois, ouvimos a campainha. Estávamos, Luca e eu, deitados na rede enquanto eu lia para o pequeno uma revistinha do Cebolinha e, preguiçoso, pedi que ele atendesse o interfone – algo que ele fez sem problemas, abrindo o portão para o entregador. Segundos depois, quando este bateu na porta do apartamento, Luca o recebeu de maneira segura e desenvolta. Até, claro, que o rapaz, meio que rindo, perguntou:

– É você quem vai assinar pela entrega?

– Não! – respondeu meu filhote, com a voz surpresa.

Nesse momento, levantei da rede, que estava fora do campo de visão do entregador, e entrei na sala sorrindo. Ao me ver, o sujeito fez uma imensa cara de espanto e, sem se conter, apontou para mim e, em seguida, para Luca, dizendo:

– Você grande… e você pequeno!

Pobrezinho do meu filho.

Descanso (Descanso?!?!)

postado em by Pablo Villaça em Curso, Luca & Nina, Variados | 15 comentários

Hoje foi o penúltimo dia de aula do curso. Desta vez, estou trabalhando com uma turma menor, de 17 pessoas, já que: a) decidi abrir menos vagas por ter alugado um auditório menor e por não querer deixá-lo muito cheio, o que provocou certo desconforto na edição ocorrida em maio; e b) tive apenas 3 semanas para divulgar o curso, já que, além de resolver abrir esta edição extra de última hora, atendendo a pedidos de pessoas que só poderiam fazer o curso no período das férias, ainda acabei antecipando as aulas em uma semana em função de minha viagem para Los Angeles.

O fato da turma ser menor, porém, não prejudicou a dinâmica; ao contrário, os alunos têm perguntado mais do que de hábito, o que me fez atrasar um pouco em relação às demais edições (e só "alcancei" o ponto certo do curso hoje, no penúltimo dia). 

No entanto, se nas edições feitas fora de BH eu costumo trabalhar durante o dia, aqui estou dedicando o tempo livre a Luca e Nina, que vieram comigo. Assim, levei o baixinho ao Playcenter (cuja lotação, em plena quarta-feira, tornava as filas imensas, tornando impossível aproveitar os brinquedos como o desejado) e também fomos ao Instituto Butantan, onde testemunhamos as cobras no serpentário sendo alimentadas com ratos vivos – algo que achei meio cruel, já que os funcionários do Instituto seguravam os ratinhos pela cauda, balançando-os em frente aos répteis, até que estes atacassem e matassem os bichinhos. Já no espaço ao lado, os ratos eram jogados sobre as cobras, durando pouco tempo – e vimos até mesmo uma cobra engolindo um rato, o que deixou Luca impressionado. Para completar o passeio, demos a sorte de encontrar um biólogo que havia retirado uma falsa coral do cativeiro a fim de mostrá-la para uma jornalista do Estadão e que permitiu que Luca segurasse o réptil.

Somado ao dia delicioso que passamos no Parque da Turma da Mônica (onde brinquei com o filhote até mesmo na piscina de bolinhas), esta foi uma semana bem gostosa, ainda que terrivelmente cansativa, já que eu saía dos passeios direto para a sala de aula. 

E é claro que, justamente por isso, tive pouquíssimo tempo de "blogar".

No sábado, embarco para Los Angeles a convite do InFilm para participar do Programa FX – e devo ficar por lá até o dia 3. Espero ter um tempinho para ao menos publicar algumas impressões sobre o evento ao final de cada dia, embora também pretenda escrever uma matéria um pouco maior sobre o que verei por lá.

Mas antes disso, é claro, preciso encerrar esta edição do curso em São Paulo – o que farei nesta sexta-feira.

Vacinas e pirulitos

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 30 comentários

Hoje levei as crianças para que fossem vacinadas: Luca ainda tinha que receber uma dose da vacina contra Hepatite (a próxima injeção, só em 2014) e Nina… bom, a pequena ainda terá que enfrentar muitas agulhas até estar totalmente protegida contra as principais doenças que ameaçam crianças menores. Como de hábito, Luca começou a reclamar sobre a vacina assim que acordou, tentando nos convencer a deixar a idéia para lá – e assim que chegamos ao posto, o baixinho começou a chorar e a implorar por clemência. Fiquei com pena justamente por lembrar-me de como também detestava a palavra "vacina" quando criança, mas, depois de explicar pela enésima vez a importância daquilo para o pequeno, tive que segurá-lo até que levasse a injeção, o que o deixou revoltadíssimo.
 
Revolta que passou no exato segundo em que a enfermeira disse: "Pronto, acabou" – e mesmo ainda me fuzilando com um olhar magoado, percebi que ele não tinha sentido a dor que antecipara e que, portanto, estava tranqüilo.
 
Hora de Nina ser vacinada contra a meningite.
 
Neste caso, eu realmente senti um remorso tremendo ao observar como minha mocinha brincava inocentemente, divertindo-se imensamente com as fotos de bebês coladas na parede. A pequena não fazia idéia do que a esperava. Assim, peguei-a no colo e a abracei. Ela olhou para mim e sorriu, achando que eu estava iniciando alguma brincadeira. Quando a agulha entrou em sua perna, ela inicialmente fez uma expressão séria, confusa, como se tentasse compreender o que estava acontecendo e, em seguida, desabou no choro. 
 
Meu coração bobo de pai se partiu ao meio. Logo, porém, ela estava rindo novamente.
 
Como recompensa pelo "sofrimento", as crianças ganharam pirulitos de morango (mais o meu, que sempre peço por "sofrer" com eles) e voltamos para o carro. Como Nina ainda é pequena para chupar balas, deixei o pirulito embalado em sua mão apenas para que ela brincasse com aquela coisa colorida e se distraísse. Alguns minutos depois, porém, ao olhar pelo retrovisor percebi que de alguma forma ela havia conseguido tirar o plástico e mordiscava o doce. Achei bonitinho e deixei pra lá.
 
Até que, certo tempo depois, olhei pelo retrovisor novamente e levei um choque: Nina chegava a brilhar em função de todo o açúcar que se encontrava grudado em seu cabelo, em seu rosto e também no pescoço e na roupa – além, claro, da cadeirinha de proteção, do cinto de segurança e de tudo que estava ao seu alcance. Aparentemente, ela achara mais interessante esfregar o doce no ambiente ao seu redor do que em saboreá-lo.
 
E agora, distraída com os dedinhos grudados uns nos outros, ela se esquecera do pirulito, que se encontrava colado em sua bochecha esquerda. 
 
Atônito, só consegui dizer um fraco "Nina…". Isto atraiu a atenção de Luca, que, embora sentado ao lado da irmã, olhava pela janela viajando em sua própria imaginação. 
 
– Meu filho, tira o pirulito da sua irmã, por favor… – pedi.
 
Ao que Luca prontamente atendeu, arrancando o doce da bochecha da irmã (o que chegou a provocar um pequeno barulho) e enfiando-o alegremente na boca.