Luca & Nina

Luca banguelinha

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Na noite do último sábado, dia 17, Luca estava escovando seus dentinhos antes de ir para a cama quando, de repente, tuf! – um de seus incisivos desapareceu. Sentindo algo embaixo da língua, ele retirou o objeto estranho com a mão e, com um imenso sorriso esburacado, exibiu seu primeiro dente-de-leite a deixar a posição de origem.

Emocionado, mas levemente melancólico, fui obrigado a constatar o inevitável: meu filhote passou de fase.

No Mercado Modelo

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina, Variados | 51 comentários

Era um senhor mais velho, de uns 55 ou 60 anos, barrigudo e bastante calvo. Os cabelos que lhe restavam espalhavam-se pelos lados da cabeça, enbranquecidos. Sentado no restaurante localizado no terraço do Mercado Modelo, ele se mostrava claramente orgulhoso da jovem morena que estava ao seu lado. O que ele parecia não notar, porém, era o ar de enfado da garota ao ouvir sua interminável conversa.

Identifiquei-me com ele, pois eu também tinha, sentada comigo à mesa, uma moça bem mais jovem que nem parecia reparar em mim. No entanto, quando eu fazia alguma gracinha, minha acompanhante ria genuinamente, abrindo uma boquinha desdentada e feliz.

A diferença é que, apesar de ambos termos idade suficiente para sermos pais de nossas companheiras, apenas eu era realmente pai da mocinha em meu colo, ao passo que ele obviamente não tinha interesse algum de enxergar a morena como sua filha.

Quando ela finalmente se levantou para cruzar o terraço a fim de se debruçar gratuitamente sobre a grade de proteção, pude ter uma visão completa do espetáculo de vulgaridade que representava: usando uma blusinha preta apertada que tentava expulsar seus enormes seios por cima do decote e pelos lados, ela exibia ainda um mini-short tão colado ao corpo que era perfeitamente possível notar o relevo de sua igualmente minúscula calcinha sob o pano. Com coxas grossíssimas e um cabelo alisado e tingido, ela era o típico "mulherão" que investia no corpo para disfarçar o rosto apenas passável ao mesmo tempo em que garantia a atenção de algum homem mais velho com certo poder aquisitivo e tolo o bastante para acreditar que o que atraía a jovem gostosona era sua experiência de vida e talvez seu charme.

Se fosse um pouco menos cego, ele talvez tivesse reparado que ela só abriu um largo sorriso quando ele tirou um maço de notas de cem do bolso para pagar a conta – e o olhar vitorioso da moça para a garçonete caracterizada de baiana exibia o orgulho de alguém que laçou um animal valioso.

Quando o casal se levantou para ir embora e ela saiu rebolando exageradamente em direção à porta, não pude deixar de sacudir a cabeça com certa tristeza. Tristeza por ele, que fazia papel de trouxa diante de todos embora julgasse estar abafando, e tristeza por ela, que se colocara tão claramente à venda, aceitando ser apenas um pedaço de carne temporariamente atraente e transformando-se, no processo, numa caricatura barata de mulher idem. 

Mas não foi só tristeza que senti, infelizmente: embora reconhecesse sua relativa sensualidade, senti também um pouco de repulsa por aquela garota em roupas excessivamente apertadas que tentava parecer ser mais gostosa do que de fato era – e também por aquele homem que não reconhecia sua natureza patética ao não perceber estar pagando por companhia.

E esta repulsa, por sua vez, apenas reforçou minha tristeza.

Já sozinho no terraço, olhei para a menininha que brincava feliz com os lacinhos de sua roupa e me comovi com sua inocência. Ao olhar para seu velho pai, ela abriu outro sorriso, o que imediatamente intensificou o contraste entre sua pureza e o mundo à nossa volta. Nina (e mesmo Luca) sorri quando se sente divertida e não esconde sua raiva, tristeza ou medo. E não finge sentir algo que não sente nem tenta ser algo que não é.

Por que não podemos ser assim para sempre?

Ponta de Areia e Nachtergaele cancelado

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina, Personalidades, Premiações e eventos, Variados | 28 comentários

Como metade do título do post já indica, o debate com Matheus Nachtergaele, que aconteceria após a exibição de A Festa da Menina Morta, foi cancelado. O ator/diretor não virá mais a Salvador e, assim, a sessão perdeu o sentido. Os organizadores da Mostra me convidaram para realizar o debate com outro cineasta que trará seu filme para o evento, mas declinei por um motivo simples: como ainda não tinha assistido ao filme em questão, eu teria que vê-lo para, logo em seguida, comandar uma discussão sobre o mesmo. Além de sempre fazer questão de me preparar bem para esse tipo de atividade (algo que não teria tempo de fazer), eu ainda corria o risco de detestar o filme e, portanto, criar um clima desconfortável durante aquela que deveria ser uma ocasião importante para seu diretor – e por mais que eu obviamente fosse polido e tentasse esconder o que achei do longa, esse tipo de coisa sempre transparece (especialmente porque eu não teria tempo, como já disse, para preparar o material do debate).

Pena. Eu estava animado para a conversa com Nachtergaele. De todo modo, se você estiver em Salvador entre hoje e o dia 24, não deixe de comparecer à Mostra Cine Brasil, que acontecerá nas salas do circuito Sala de Arte. Imperdível.


Com relação à primeira parte do título, queria apenas dizer que a praia de Ponta de Areia, na Ilha de Itaparica, é uma das praias mais deliciosas nas quais já estive. E perfeita para quem tem filhos, já que as águas são calmíssimas, rasas e não muito frias.

Pena que o sistema de ferry-boat está terrível. Duas horas na fila para embarcar de volta para Salvador. Um absurdo, já que pagamos 30 reais pela travessia.

Luca, o Tempo e os Litros

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 7 comentários

Ontem fomos visitar o Museu Náutico e, em certo momento, falei para Luca:

– Esse lugar tem quase 500 anos, sabia?

Percebendo que a informação não havia causado o impacto esperado, comentei:

– É que você não tem noção de quanto tempo são 500 anos.

Ao que Luca, revoltado, retrucou:

– Tenho, sim! É mais de um mês! 


 Já esta tarde, enquanto estávamos na piscina, Luca começou a encher um disparador de água com o conteúdo da piscina para crianças e a despejá-lo na dos adultos. Seu propósito: alterar os níveis das duas piscinas. Rindo, falei:

– Meu filho, não dá para fazer isso. Você precisaria encher uns dois milhões desse negócio para começar a fazer alguma diferença.

Sem hesitar, ele virou-se para mim, orgulhoso, e disse:

– Pois eu já enchi mais de dez!

Virada de ano

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Luca detesta fogos de artifício. Mais: ele fica desorientado quando os estouros começam. Irritado e com medo, ele leva as mãos aos ouvidos, pede para entrarmos em casa, para que os fogos parem e assim por diante. É um pânico que acho bastante curioso por ter certeza de conhecer sua origem.

Flashback: 31 de Dezembro de 2002. Ioná estava no oitavo mês de gestação quando decidimos assistir aos fogos de artifício na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte. Ao lado de meu primo e sua esposa, fomos até a beira da Lagoa sem notarmos que havíamos escolhido um local que ficava a poucos metros de um dos pontos de onde os estouros seriam disparados. Assim, em vez de assistirmos aos fogos à distância, ficamos na boca do dragão.

O barulho era ensurdecedor e, para piorar, um erro fez com que uma pequena parte dos fogos explodisse em solo, provocando uma pequena comoção e dando a impressão momentânea de que um acidente muito maior iria acontecer. Ioná ficou nervosíssima, tremendo, e voltamos para a casa de meu primo chateados com a experiência. E o pior: não só Ioná demorou a acalmar-se (ficou pálida e tremia muito) como Luca, lá no conforto do útero, disparou a soluçar por quase uma hora. Víamos a barriga de Ioná tremer com a força dos soluços.

Nada me tira da cabeça que foi esta experiência intra-uterina que levou Luca a ter medo de explosões e barulhos muito altos ainda hoje. Profundamente ligado ao organismo da mãe, ele certamente sentiu todas as alterações químicas provocadas pelo medo de Ioná em reação àqueles estouros monstruosos ocorridos "lá fora". E isso marcou o pequeno antes mesmo de nascer.

Nossos traumas já começam no útero.

(Dito isso, a virada 2008-2009 foi deliciosa. É muito bom estar com a família toda reunida, já que minha mãe e meu irmão também vieram para Salvador. Faltou apenas minha irmã, que mora em Brasília. Quem sabe no ano que vem?)

A importância da Fantasia

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 19 comentários

Luca acordou às oito da manhã – mesmo tendo dormido às 3 da madrugada. Ansioso, correu para brincar com os presentes que ganhara no Natal ao mesmo tempo em que assistia a Wall-E (outro de seus pedidos a Papai Noel). Em certo instante, ao pegar um caderno de desenhos que trazia o Homem-Aranha na capa, o baixinho olhou para o alto e, sem reparar que estava sendo observado à distância por seus pais, sussurrou, emocionado:

– Obrigado, Papai Noel!

Meus olhos se encheram de lágrimas. Esse tipo de inocência, de entrega absoluta à fantasia, é algo que me emociona profundamente. De todas as mudanças pelas quais Luca inevitavelmente passará, creio que uma das que mais lamentarei (que doerá mesmo) será o abandono da crença em Papai Noel. Isto, para mim, representa tudo o que mais me encanta nas crianças: elas não precisam de "provas", de lógica, de nada. Basta a palavra dos pais que, em seus coraçõezinhos puros, jamais: seriam capazes de dizer uma mentira.

E honestamente? Não é mentira. Eu realmente acredito em Papai Noel – ao menos, no sentimento que ele simboliza.

É por isso que estimulo ativamente a imaginação e a fantasia de Luca (e, no futuro, de Nina): na Páscoa, por exemplo, uso a madrugada para fazer pegadinhas de coelho por toda a casa (basta sujar as pontas de quatro dedos da mão com talco ou farinha) levando até os ovos de chocolate; e, no Natal, incentivo Luca a escrever (ou, nos anos anteriores, desenhar) cartinhas para Papai Noel. Aliás, este ano, Luca manifestou certa frustração com o fato de sempre passarmos o Natal na casa de sua avó, já que isso impedia o Bom Velhinho de vir até nossa casa. Assim, ontem à noite deixamos um copo de leite com chocolate sob a árvore e fomos para a casa de minha mãe. Quando voltamos, o leite havia desaparecido e dois presentes encontravam-se em seu lugar com uma cartinha.

Assim que entramos em casa, de madrugada, Luca correu para a árvore e, por um segundo, não viu nada.

– Papai Noel não passou aqui. – ele disse, com uma carinha desapontada. Neste instante, viu os presentes e a cartinha. – Passou, sim! Passou, sim!

Em seguida, correu até o copo de leite: – Ele bebeu tudo!

Como de hábito, meus olhos lacrimejaram. (Luca já está acostumado com o pai chorão.)

Na carta, Papai Noel dizia estar orgulho de Luca por este ser um ótimo irmãozinho e completava: "Diga a Nina que Papai "Leléu" manda um beijo!".

Ora, Papai "Leléu" é como Nina diz Papai Noel quando conversa com Luca (dublada, claro, por seu pai em voz de falsete) – e isto explica o espanto do pequeno ao ler aquilo:

– Ele sabe que Nina fala Papai Leléu!

Sua surpresa com a onisciência do Bom Velhinho, adivinhem, me fez chorar mais uma vez.

Estou ficando pior com a idade.

Casinhos de Luca

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 19 comentários

Ontem fomos a uma festa de aniversário em um sítio próximo a Belo Horizonte. Ao perceber que estávamos deixando a cidade, Luca, que não tem muita confiança em seu pai como motorista (ver este post), disse:

– Ah, não! A gente vai viajar? O papai vai bater!

– Meu filho! – protestei – O seu pai dirige muito bem, viu? Aliás, eu dirijo melhor na estrada do que na cidade!

– É porque tem mais espaço e fica difícil pra você bater, né?


Já no sítio, Luca ficou surpreso com o número de pessoas que não conhecia. Quase todos parentes, é verdade, mas dos quais o baixinho não se lembrava. É claro que Nina logo se tornou uma sensação, passando de colo em colo. Em certo instante, Luca se aproximou de mim com uma expressão preocupada:

– Papai, cadê a Nina?

Apontei para um grupinho que estava a alguns metros dali e mostrei que Nina estava no colo de minha prima Alessandra (que Luca não conhecia):

– Está ali, no colo daquela moça.

Ele se afastou, observando aquelas pessoas estranhas, e logo retornou:

– Papai, eu gostaria que você pegasse a Nina.

– Meu filho, ela está bem ali, no colo daquela moça, olha!

Então, com uma expressão absurdamente séria, ele perguntou:

– Aquelas pessoas são nossas conhecidas?


À noite, já em casa, Luca e eu nos deitamos em minha cama para jogarmos uma partida de… bom… sei lá o nome. São várias cartas com Power Rangers diferentes: verde, azul, sombra, ômega, vermelho, etc. Cada jogador vira uma carta sobre a mesa e, quando duas semelhantes aparecerem, é preciso dar um tapa sobre o monte. O mais rápido leva tudo. E há uma carta especial que, quando descartada, deve ser atingida com a mão enquanto o jogador grita "Power Rangers Força Total". Talvez o nome do jogo seja esse, não sei.

De todo modo, como eu estava deitado de barriga para cima, Luca, sempre buscando formas novas de se divertir, falou:

– Podemos jogar em cima da sua barriga?

Ora, desde minhas cirurgias considero minha barriga como uma área tão sensível quanto… bom, vocês sabem. Assim, falei:

– Você está louco? Vamos brincar de acertar as cartas em cima da minha barriga?

– Eu prometo que jogo devagar, papai. Por favor!

– (suspiros) Ok, filhote. Vamos lá. Mas cuidado com o papai, tá?

Para minha surpresa, ele cumpriu a promessa. Quando surgiam duas cartas de mesma cor, ele rapidamente colocava a ponta do dedinho sobre o monte, com um cuidado imenso, enquanto sorria por ter vencido a rodada.

Esquecendo cinco anos de experiência como pai, convenci-me de que tudo ficaria bem.

E foi aí que a carta especial foi virada sobre a "mesa".

– POWER RANGERS FORÇA TOTAL!!!!!!!!!!! – berrou Luca, atingindo as cartas com uma intensidade que fez jus ao que havia acabado de gritar.

Soltei um berro de dor e devo ter ficado verde, azul, sombra, ômega, vermelho, etc, porque Luca, olhando para mim com uma carinha de "sei que fiz bobagem", sorriu sem graça e disse:

– Você tinha razão, papai. Eu sempre esqueço de ter cuidado.


Retomamos o jogo, mas usando a cama como mesa. De repente, quando duas cartas semelhantes surgiram, Luca bateu no monte, gritando, feliz:

– ALMÔNDEGA!

– Hein?

– ALMÔNDEGA!

Já sem conter o riso por perceber que ele queria dizer "ômega", pedi que repetisse mais uma vez. Porém, o pequeno, também notando que falara errado, respondeu:

– Almôndega… Eu nunca sei se isso é uma comida ou um Power Rangers.

Desta vez, até os vizinhos do quarteirão de baixo puderam ouvir minha gargalhada.

Nina magoada

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 15 comentários

Nina estava sentada em seu carrinho quando, vendo aquela coisinha pequena e sorridente, não resisti e disse:

– MENININHA LINDA DO PAPAI!!!

Foi como se uma bomba houvesse explodido. Assustada com o tom de minha voz, ela olhou para mim magoadíssima, fez beicinho e disparou a chorar.

– Não, minha filhinha! Desculpa o papai! 

Tentei fazer gracinhas, mas nada resolvia. Afastei-me e ela se acalmou. Então, retornei calmamente e, sorrindo, suavizei a voz ao dizer:

– Ei, amorzinho do papaaaaii…

Novamente o beicinho. E o choro. Saí de perto e ela parou de chorar. Voltei. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a carinha de choro retornou.

Fiquei preocupado: minha filha estava com medo de mim. Eu precisava reconquistá-la e, assim, nos dez minutos seguintes fiquei sussurrando gracinhas e cobrindo-a de beijinhos. Finalmente, ela abriu um sorriso. 

Hora do teste final. Afastei-me, esperei alguns segundos e retornei, dizendo:

– Ei, menina linda do papai!

Ela olhou para mim, pareceu pensar um pouco, avaliar a situação e, então, abriu um sorriso imenso.

Eu domara a baixinha.

A fase azul de Picasso

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Luca trouxe para casa os trabalhos que fez ao longo do ano – entre eles, uma pintura em papel que retrata um cachorrinho-esqueleto ao lado de uma criança-esqueleto envolvidos numa noite profundamente azul. É uma imagem triste que imediatamente me incomodou.

– Que desenho é esse, meu filho? – perguntei, preocupado.

– Ah, é um cachorrinho morto brincando com o meu esqueleto.

Fiquei ainda mais ansioso. O que estaria passando pela cabeça de meu pequeno?

– Por q… por que desenhou isso?

– A gente estava aprendendo sobre a fase azul de Picasso.

– Hein?!

– É. Um amigo do Picasso se "siusuidou" e o Picasso ficou muito triste e começou a fazer pinturas tristes.

– Hein?!

– É, o amigo dele gostava de uma moça, mas a moça parou de gostar dele e aí ele "siusuidou". E o Picasso ficou triste e fez quadros tristes. E a professora pediu pra gente fazer um quadro triste. Aí fiz um cachorrinho morto brincando com meu esqueleto.

– (…) Ah, tá.

Luca cada vez mais independente

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina | 4 comentários

Assim que entrou no carro, ao fim da aula:

– Mamãe, amanhã você vai ter que pagar a cantina da escola.

– Por quê?!

– Porque você colocou biscoito no meu lanche hoje e eu não estava com vontade de comer nada doce. Aí eu comprei um enroladinho. Mas só que eu não tinha dinheiro, então você tem que pagar a cantina amanhã.

Cinco anos de idade. Oh, boy.