Novos filmes

Críticas – 27/01/2012

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Os Descendentes, Precisamos Falar sobre o Kevin, Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres e J. Edgar.

Críticas – 20/01/2012

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As Aventuras de TinTim, A Separação, Precisamos Falar Sobre o Kevin e Prova de Artista.

Update: 2 Coelhos.

Criticas – 13/01/2012

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Sherlock Holmes 2, O Espião que Sabia Demais, L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância e As Aventuras de Agamenon, o Repórter.

(Ah, sim: e Cavalo de Guerra.)

Críticas – 02/12/2011

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Um Dia, Os Especialistas, Os Nomes do Amor.

Update: Os Muppets.

Update 2: Operação Presente.

Videocast – Amanhecer: Parte 1

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Mostra de São Paulo – Dias 10, 11 e 12

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(Abraço ao leitor Leandro, que demonstrou tanta gentileza ao me abordar hoje no Arteplex Frei Caneca.)

Encerro aqui o mês mais atribulado de minha carreira como crítico. Ao longo dos últimos 25 dias, cobri os dois mais importantes eventos de Cinema do país praticamente sem intervalos, vendo nada menos do que 105 filmes e escrevendo sobre todos eles. Foram quase 60 mil palavras escritas (ou, em termos jornalísticos, 356 mil toques), num total de 106 páginas do Word (fonte Times New Roman, tamanho 11, espaçamento simples). Em outras palavras, um pequeno livro.

Estou exausto, mas também com a sensação de ter feito o possível para levar a vocês o máximo de cada evento sem sacrificar muito a qualidade dos textos. Espero que tenham curtido.

Vamos, então, aos doze últimos longas vistos na Mostra:

41) This Is My Picture When I Was Dead (Idem, Jordânia, 2010). Dirigido por Mahmoud al Massad. Com: Bashir Mammon Mraish.

Em 1983, o ativista da OLP Mamoun Mraish sofreu um atentado organizado pelo Mossad israelense que lhe tirou a vida e quase matou também seu filho de quatro anos que se encontrava em seu colo no momento dos disparos. Reavivado após um breve coma, Bashir Mraish, agora com cerca de 30 anos, surge neste documentário buscando descobrir mais sobre o pai e seu envolvimento na causa palestina.

Com uma introdução fabulosa concebida pelo diretor Mahmoud al Massad, que traz um bombardeio em Gaza durante o Natal de 2008 acompanhada por músicas natalinas que levam o público a se questionar se não estaria de fato testemunhando apenas fogos de artifício, This is My Picture When I was Dead acompanha Bashir (um Humberto Martins árabe) enquanto este visita antigos companheiros de seu pai e mantém conversas com a mãe e com amigos – discussões que Massad intercala com imagens de arquivo e breves reencenações (entre as quais, a mais eficiente é mesmo a do atentado que matou o pai do protagonista).

Infelizmente, o filme logo perde o foco ao buscar retratar também o cotidiano de Bashir – e se seu trabalho como cartunista político é inteligente e pertinente, o mesmo não pode ser dito sobre suas conversas acerca de casamento, namoradas e problemas com o carro. Da mesma maneira, por que incluir sua visita ao médico e a descoberta de um tumor em suas costas se isto jamais volta a ser abordado pelo filme? Sim, o diretor pretende fazer um recorte da vida do sujeito, com suas trivialidades e questões mais relevantes, mas um possível câncer do protagonista é algo sério demais para ser tratado com tamanha casualidade.

Fotografado com eficiência e conferindo um tom quase ficcional à narrativa em função do cuidado com os quadros, o filme nos oferece uma reflexão sensível sobre uma vida que quase foi cortada em seu início, mas não o faz de uma maneira particularmente eficiente, o que é uma pena. (2 estrelas em 5)

 

42) A Terra Ultrajada (Terre outragée, França/Ucrânia, 2011). Dirigido por Michale Boganim. Com: Olga Kurylenko, Andrzej Chyra, Nikita Emshanov, Ilya Iosifov, Vyacheslav Slanko, Sergei Strelnikov.

Feliz no dia de seu casamento, a bela Anya (Kurylenko) não percebe os peixes mortos que flutuam no lago ao lado de sua pequena festa ou os pássaros mortos nos campos. Aliás, nem mesmo as gotas negras da chuva parecem alertá-la para o fato de que algo está terrivelmente errado, já que ela consegue apenas se preocupar com o marido, arrancado da recepção para combater um incêndio na floresta que cerca Pripyat, sua cidade. Era 26 de abril de 1986, um sábado, e o incêndio ocorria de fato na usina nuclear de Chernobyl.

Dirigido por Michale Boganim a partir de roteiro escrito por ele em parceria com Anne Weil, A Terra Ultrajada investe sua metade inicial na recriação do dia do acidente – e é aí que a experiência do cineasta como documentarista é bem utilizada ao conferir realismo ao caos crescente que tomaria conta da cidade. Ilustrando a chegada da primeira tropa de contenção com suas roupas de proteção que assustariam a população desavisada, o longa também usa esta sequência para nos apresentar aos personagens principais: além de Anya (a protagonista indiscutível), um cientista que se torna o primeiro a perceber as dimensões do desastre e um fazendeiro que se recusa a deixar sua propriedade. Com isso, esta primeira parte do filme surge angustiante com o bipe constante dos contadores Geiger e com a constatação crescente de que a maior parte daquelas pessoas já está morta sem se dar conta do fato.

Com um olho cuidados para os detalhes (o bilhete deixado no portão de casa por uma garotinha pedindo que sua cachorrinha não seja morta é devastador), Boganim transporta o espectador para Pripyat durante aquela evacuação confusa e desesperada, ao passo que o impecável design de produção faz um belíssimo trabalho de recriação da cidade – o que se revelará particularmente importante quando passarmos a ver a verdadeira Pripyat na segunda metade da projeção.

Que também é a mais frágil do projeto. Concentrando-se nas consequências psicológicas do acidente sobre Anya e Valery, filho do cientista que buscara salvar a população, o filme perde o foco justamente neste momento, sendo prejudicado também pela instabilidade da protagonista, cujas ações, motivadas pelo trauma passado, pela relação conflituosa com o próprio lar e com os amantes, a transformam numa personagem difícil e desagradável. Da mesma maneira, o jovem Valery soa mais irritante do que tocante, o que é um problema – e, para piorar, as breves cenas que trazem seu pai ainda vivo e enlouquecido jamais contribuem com a narrativa, surgindo quase como uma alucinação do garoto.

Ainda assim, a força resultante das locações reais, que revelam Pripyat como uma autêntica cidade fantasma, sustenta a segunda parte de A Terra Ultrajada, mantendo o espectador preso à história em função da geografia, não dos personagens. (2 estrelas em 5)

 

43) Habemus Papam (Idem, Itália, 2011). Dirigido por Nanni Moretti. Com: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Jerzy Stuhr, Renato Scarpa, Camillo Milli, Margherita Buy.

A ideia que move Habemus Papam é excepcional: depois de eleito pelo conclave de cardeais após a morte do antigo Papa, o novo sumo-pontífice apavora-se diante da possibilidade de assumir o comando da Igreja e se recusa a apresentar-se aos fiéis. Presos no Vaticano enquanto o novo Papa não for identificado ao público, os cardeais entregam-se a jogos infantis enquanto discutem vários assuntos com um psiquiatra ateu chamado de urgência para tentar curar a fobia de seu líder. Posso imaginar inúmeras situações potencialmente hilárias que esta premissa originaria – e, de fato, o diretor Nanni Moretti pensou na maioria delas, falhando apenas em desenvolvê-las com cuidado, mostrando-se mais interessado em atirar para todos os lados do que em se concentrar para garantir que as gags funcionariam bem.

Já humanizando os poderosos cardeais desde o princípio, quando ficam momentaneamente no escuro e isolados do mundo depois que uma falha de luz ocorre durante o conclave, Moretti é hábil ao estabelecer o tom levemente satírico de sua obra ao trazer um religioso tentando espiar o voto do colega, estabelecendo também a falta de vaidade daqueles homens e o peso representado pelo cargo ao mostrá-los orando secretamente para que não sejam os escolhidos. No entanto, o filme parece mesmo encontrar seu caminho quando o psiquiatra vivido pelo próprio diretor entra em cena e tenta, sem sucesso, manter uma sessão com o novo Papa enquanto é observado por todos os cardeais e recebe a orientação de não discutir nada relacionado a sonhos, desejos, sexo ou mesmo os sonhos do paciente.

Assim, se por alguns momentos sugere estar prestes a se tornar uma espécie de O Papa no Divã, o longa rapidamente toma outro caminho, abandonando aquela linha narrativa, mas mantendo o personagem – e, embora o médico jamais volte a se encontrar com o Papa (o que é uma pena), é mantido na trama ao ser impedido de deixar o Vaticano, passando a interagir com os cardeais e rendendo alguns bons momentos (mas não o suficiente para justificar sua inclusão no filme, o que é indicativo do descuido com que é explorado pelo roteiro, que parece inclinado a abandonar situações no meio exatamente como o campeonato de vôlei organizado pelo psiquiatra e abruptamente encerrado antes das semi-finais).

O mais frustrante é perceber como Habemus Papam parece reconhecer tudo o que poderia fazer com aquela premissa, já que, vez por outra, brinca em explorar ideias como retratar os cardeais enlouquecendo na companhia uns dos outros; ao trazê-los discutindo a Fé e a Bíblia com o psiquiatra ateu; ou ao iniciar uma discussão entre este e um dos principais cardeais sobre Darwinismo e Criacionismo – mas nenhuma destes esforços segue adiante. Por outro lado, Moretti é bem-sucedido em sua tentativa de retratar aqueles homens como indivíduos dignos da posição que ostentam, surgindo até mesmo infantilizados por sua fé incondicional e por sua ingenuidade.

Neste sentido, vale dizer, é que o veterano Michel Piccoli se apresenta como o destaque indiscutível do longa: encarnando o novo Papa com um equilíbrio perfeito de insegurança, pânico, mas profunda gentileza e doçura, o ator constrói um personagem vulnerável, fragilizado, mas cujas atitudes, que poderiam ser facilmente interpretadas como covardes, refletem apenas sua preocupação incondicional com seus fiéis e com a própria Igreja. Trata-se provavelmente de uma das melhores performances do ano e da própria carreira de Piccoli – e considerando a galeria de personagens memoráveis vividos pelo sujeito, isto não é pouca coisa.

Mas fazendo jus ao seu potencial cômico ou não, Habemus Papam é um filme honesto e corajoso ao seu próprio modo – algo que se comprova em seu desfecho forte, humano e que, mesmo talvez soando insatisfatório ao espectador, é perfeito do ponto de vista dramático. Com isso, mesmo lamentando o desperdício de uma boa ideia, torna-se impossível desgostar do resultado por ela originado. (3 estrelas em 5)

 

44) Tudo pelo Poder (The Ides of March, EUA, 2011). Dirigido por George Clooney. Com: Ryan Gosling, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman, George Clooney, Evan Rachel Wood, Marisa Tomei, Jeffrey Wright, Max Minghella, Jennifer Ehle, Gregory Itzin, Michael Mantell.

Quarto trabalho de George Clooney na direção, Tudo pelo Poder representa um retorno do cineasta à boa forma depois do fraco O Amor Não Tem Regras, comprovando que ele se sai melhor quando está lidando com indivíduos inteligentes em situações complexas. Acompanhando a campanha de um pré-candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, o filme já antecipa as complicações que perturbarão seus personagens em seu título original, que, com sua referência ao “Júlio César” de Shakespeare, nos sugere cuidado com os “idos de março” – mês no qual a história se passa.

Roteirizado por Clooney, seu parceiro habitual Grant Heslov e por Beau Willimon a partir da peça escrita por este último, o longa gira em torno das primárias democratas para decidir quem será o candidato do partido ao cargo mais importante do país – uma corrida dominada pelo carismático governador Mike Morris (Clooney), cuja campanha é comandada pelo experiente Paul Zara (Hoffman), chefe do assessor de imprensa Stephen Meyers (Gosling). Enfrentando um candidato mais conservador que conta com o inteligente Tom Duffy (Giamatti) como estrategista, a equipe de Morris traz ainda a estagiária Molly (Wood), que, ao se envolver com Meyers, permite que este descubra um segredo com potencial para provocar uma reviravolta completa na disputa.

Praticamente ignorando os republicanos, que só atuam perifericamente no sentido de tentar garantir a vitória do oponente de Mike por temerem a força do governador, Tudo pelo Poder é fascinante justamente por abordar uma impiedosa batalha entre integrantes do mesmo partido que, ganhe quem ganhar, obrigatoriamente se tornarão aliados futuros. Assim, quando observamos as conhecidas estratégias dos oponentes, constatamos que a natureza impiedosa das campanhas não é fruto necessariamente de divergências políticas (embora estas também existam), mas resultado direto da própria lógica eleitoreira – uma lógica que dita que informações negativas sobre o adversário devem sempre ser vazadas para a imprensa, já que invariavelmente resultarão em vantagem: se forem verídicas, prejudicarão o candidato; se forem falsas, ele perderá um dia sendo obrigado a desmenti-las.

Inteligente ao escalar-se como Morris, já que traz uma aura de sofisticação e inteligência ao personagem, Clooney encarna aqui um candidato democrata claramente inspirado em Obama (o da campanha, não o eleito) – algo refletido até mesmo em seus cartazes eleitorais: liberal e sem medo de assumir-se como tal, ele defende tópicos polêmicos com eloquência e maturidade, respeitando a divergência sem, contudo, aceitar posições absurdas como válidas apenas para agradar os eleitores. Resistente a ceder em pontos que lhe são caros apenas para aumentar suas chances na eleição, Morris lamenta já ter sido obrigado a se entregar a propagandas negativas contra o adversário e a se reunir com financiadores, ilustrando a natureza corruptora do próprio modelo eleitoral.

Remetendo em diversos momentos ao igualmente intrigante Tempestade Sobre Washington, dirigido por Otto Preminger em 1962, Tudo pelo Poder se beneficia da inteligência de seus personagens, que muitas vezes parecem estar numa partida de xadrez ou mesmo de pôquer, com direito a blefes que poderiam garantir uma vitória ou a ruína dos jogadores. Assim, quando Stephen toma a impensada atitude de aceitar um convite para encontrar-se com o rival Tom Duffy, o estrategista vivido por Philip Seymour Hoffman disseca suas motivações para tê-lo feito com precisão absoluta, demonstrando compreendê-lo talvez até melhor do que o próprio Stephen – o que, no entanto, não significa perdoá-lo, resultando naquela que talvez seja a melhor cena do filme.

Destaque em um longa com elenco fabuloso, Philip Seymour Hoffman encarna Paul com um misto de lealdade e paranoia que, associadas à inteligência do sujeito, formam uma combinação perigosa, ao passo que Paul Giamatti, como seu grande rival, leva o espectador a respeitar Tom mesmo torcendo contra seu sucesso. E se Evan Rachel Wood confere vulnerabilidade à bela Molly, é um prazer ver Gregory Itzin roubando a cena ao discursar em um velório (e o fato de o ator ter interpretado um presidente corrompido na série 24 Horas acaba adicionado um subtexto curioso à narrativa). No entanto, o centro de Tudo pelo Poder é mesmo o assessor interpretado por Ryan Gosling, cujo idealismo inicial é o primeiro passo do grande arco dramático do roteiro à medida que percebemos como ele rapidamente cederá aos piores impulsos para inicialmente defender seu candidato e, em seguida, a si mesmo.

Com uma fotografia eficiente de Phedon Papamichael, que acerta tanto no simbólico (como no plano que traz Stephen articulando em contraluz, pequeno, por trás da gigantesca bandeira norte-americana) quanto na atmosfera da narrativa (como o encontro mergulhado em sombras de Stephen e Morris), Tudo pelo Poder ainda merece aplausos pela rima temática perfeita que amarra suas pontas, da encenação para uma plateia do plano inicial à entrevista em rede nacional do final.

Mesmo não revelando nada de novo sobre o processo eleitoral norte-americano (ou brasileiro ou francês ou…), Tudo pelo Poder envolve e intriga do princípio ao fim. (5 estrelas em 5)

 

45) Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams, EUA/Canadá/França/Inglaterra/Alemanha, 2010). Dirigido por Werner Herzog.

De acordo com os criacionistas, que tentam conferir aura de ciência à crendice através da expressão “design inteligente”, o mundo tem apenas dez mil anos. Seria curioso, portanto, escutá-los justificando a existência de um monumento histórico tão magnífico quanto a caverna de Chauvet, que, descoberta em 1994 por Jean-Marie Chauvet, Éliette Brunel Deschamps e Crhistian Hillaire, traz as pinturas rupestres mais antigas já vistas pelo homem – algumas com mais de 30 mil anos.

Transformada em uma verdadeira cápsula do tempo depois que sua entrada foi selada por um deslizamento de terra há cerca de 20 mil anos, a caverna foi vetada à visitação pública pelo governo francês, que busca, assim, preservar a integridade do achado – e, neste sentido, a entrada permitida ao cineasta Werner Herzog e à sua equipe representa talvez a única possibilidade que teremos de contemplar algumas das primeiras manifestações artísticas criadas no escuro e com carvão por nossos antepassados, bem como outras obras concebidas apenas pela ação da natureza e do tempo, como os depósitos de cristais de calcita sobre crânios de animais.

Impressionante pela escala das pinturas, pelo fato de estas visivelmente contarem pequenas histórias e por procurarem retratar o movimento dos animais através de sugestões gráficas (como um número maior de pernas), a caverna de Chauvet é encarada por Herzog, sempre fascinado pela Natureza, como um espaço quase religioso – algo manifestado nos corais que remetem ao sacro na trilha sonora e ao silêncio devotado que ele inclui em certa passagem do filme. Da mesma maneira, o rico design de som procura cercar o público com o gotejar constante da água que permeia as paredes da caverna enquanto a câmera do cineasta enfoca verdadeiras-obras primas como a cortina translúcida de pedra que desce das paredes do lugar.

Aventureiro como de costume, Herzog se esforça para ilustrar as dificuldades da filmagem apesar de jamais deixar o preciosismo de lado, levando os cientistas e a equipe que o acompanham a posar para a câmera enquanto fazem pequenas coreografias quase ritualísticas com as cabeças. Além disso, o diretor oferece alguns de seus belos insights habituais como ao comparar o jogo de sombras das cavernas com o próprio Cinema (citando, inclusive, Fred Astaire em Ritmo Louco) ou ao comentar que algumas das pinturas foram sobrepostas por outras feitas cerca de 5 mil anos depois (“Nós estamos presos na História, mas eles não estavam”). Em contrapartida, há outros instantes em que o cineasta obviamente força nas filosofadas, tropeçando especialmente na pretensão ao se perguntar o que um grupo de crocodilos albinos pensaria ao ver aquelas pinturas.

Hábil ao retratar a emoção dos cientistas diante das próprias descobertas e da magnitude daquela construção natural, Hergoz volta a exibir sua notória sensibilidade ao investigar os sentimentos de seus entrevistados, sendo particularmente curioso perceber seu interesse acerca do passado de um arqueólogo que costumava trabalhar num circo (por outro lado, todo o segmento dedicado a um velho perfumista poderia ter sido descartado sem qualquer prejuízo à narrativa).

Optando por rodar o documentário em 3D por imaginar que desta forma as representações pictóricas poderiam ser melhor apreciadas pelo espectador, já que a superfície irregular da caverna desempenha papel importante na dinâmica das pinturas, Herzog acerta em sua conclusão sempre que o filme se concentra na geografia do lugar e nas gravuras, que, de fato, ganham vida através do 3D – e, em certos momentos, sentimos até o impulso de baixar a cabeça para não acertarmos alguma estalactite. Por outro lado, se há algo que não combina muito bem com o 3D é a câmera na mão e com excesso de movimentos – algo corriqueiro em Caverna dos Sonhos Esquecidos, já que as limitações de tempo, espaço e permissão impediriam a utilização de tripés, dollies, etc. Como se não bastasse, frequentemente observamos graves distorções na tridimensionalidade do filme, como no instante em que duas cientistas se colocam diante de uma parede com vários pontos vermelhos e o fundo parece se destacar sozinho ou no plano que traz a câmera num aeromodelo e sendo agarrada por um membro da equipe (quando, então, a sensação é a de que ficamos vesgos subitamente). Além disso, há vários instantes em que as figuras humanas surgem achatadas como recortes de papel diante da profundidade da caverna, criando um efeito feio e obviamente incorreto.

Ainda assim, como o 3D funciona nos momentos que interessam de fato (os planos que exibem apenas as pinturas e as formações geológicas) e como o documentário nos oferece entrada a um lugar mágico e inigualável, Caverna dos Sonhos Esquecidos é um filme que já merece aplausos desde sua gênese. E por falar em “gênese”, se os criacionistas usarem a desculpa habitual que já empregam para justificar a existência dos fósseis e disserem que os achados de Chauvet foram deixados por Deus na Terra com o objetivo de testar a fé dos homens, digo apenas que, se for este o caso, trata-se da pegadinha mais linda que a História já testemunhou. (3 estrelas em 5)

 

46) Vou Rifar Meu Coração (Idem, Brasil, 2011). Dirigido por Ana Rieper.

A grande virtude de Vou Rifar Meu Coração, documentário sobre a força da música brega especialmente no nordeste do país, reside na estupenda seleção dos personagens enfocados pela diretora Ana Rieper – e em vários momentos pude visualizar mentalmente a cineasta erguendo os punhos em sinal de vitória por trás da câmera ao ouvir declarações particularmente inspiradas e divertidas feitas por seus depoentes.

Intercalando depoimentos de fãs daquele gênero musical a outros feitos por alguns de seus principais expoentes (Wando, Odair José, Amado Batista, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned e Lindomar Castilho – cujos nomes, talvez por identificação, acabam soando tão cafonas quanto suas músicas), o longa não busca identificar através de legendas a identidade dos entrevistados, o que, embora por vezes frustrante, é eficiente ao equiparar artistas e fãs, reduzindo todos ao mesmo patamar: o de defensores do brega. Neste aspecto, é curioso perceber como a paixão por aquelas músicas vem constantemente associada a lembranças afetivas – especialmente a casos de traição (um campo promissor que chega a inspirar o sucesso de um radialista que, criador de um programa chamado “A Hora e a Vez do Corno Apaixonado”, comemora: “Esse negócio de corno dá certo!”).

E é precisamente graças a estes relatos que Vou Rifar Meu Coração se torna tão memorável, já que não há como deixar de admirar (mesmo rindo) alguém capaz de dizer sem qualquer sombra de ironia algo como “Acredito que outra pessoa, além de mim e da esposa, ele não tem”. Da mesma maneira, a diretora Ana Rieper faz um verdadeiro achado ao incluir no filme o ex-prefeito Osmar e suas duas famílias – e é curioso perceber como mesmo se relacionando há 33 anos com a amante, com a qual tem filhos e netos, ele a trata como… amante, afirmando que a prioridade é a esposa (que, sim, sabe de tudo, já que o marido passa três noites por semana na casa da outra). E mesmo que seja comovente ver o sofrimento destas mulheres, é impossível não rir da habilidade de Osmar em convencê-las a batizar todos os filhos (e também os netos!) com variações de seu próprio nome, o que torna difícil até mesmo para a avó a tarefa de lembrar os nomes de todos os netos.

Por outro lado, é interessante observar como os cantores enfocados pelo documentário surgem pregando filosofias e soltando frases  bregas como as músicas que os tornaram famosos, o que é, no mínimo, um sinal de coerência – e, neste aspecto, Wando merece destaque não só por sua estranha dicção e pelo visual, mas também por soltar pérolas como “Imagina uma pessoa que nunca deu flores para outra pessoa”. E o que dizer do sujeito que ganha a vida como cover de Amado Batista, naquela que, depois de limpador de jaulas, deve ser a profissão mais triste do mundo?

Ainda assim, Vou Rifar Meu Coração tem um imenso mérito que é o de jamais fazer o que fiz no parágrafo anterior: juízo de valor sobre as canções que enfoca. Para Riepert, aquelas músicas são tão válidas quanto os sentimentos que despertam – e, brincadeiras à parte, devo dizer que concordo com a cineasta. Pois as manifestações daquelas dores e lembranças podem vir até embaladas numa roupagem cafona, mas jamais deixam de refletir sentimentos ser profundamente reais e, por isso mesmo, tocantes. (5 estrelas em 5).

 

47) A Educação (Die Ausbildung, Alemanha, 2011). Dirigido por Dirk Lütter. Com: Joseph Konrad Bundschuh, Anke Retzlaff, Anja Beatrice Kaul, Stefan Rudolf, Dagmar Sachse.

Vivido por Joseph Konrad Bundschuh (uma mistura de Michael Cera e do Sheldon de The Big Bang Theory), Jan é um jovem alemão que trabalha como atendente no call center de uma grande empresa. Prestes a concluir seu período de experiência e ansioso para conseguir um contrato permanente, ele se vê em meio a interesses conflituosos entre seu chefe, sua supervisora e sua mãe, que, representando o sindicato na companhia, tem alguma – mas não muita – estabilidade no emprego. A partir daí, o diretor e roteirista Dirk Lütter busca retratar o caráter opressivo e desumano da mentalidade corporativa, mas sem jamais conseguir dizer algo de particularmente original sobre o assunto.

Enfocando a tensão constante daquelas pessoas, que temem constantemente perder o emprego que tanto detestam, A Educação traz os habituais jogos de interesses entre diferentes departamentos e as conversas de bebedouro que sempre giram em torno de uma entidade maligna e sem rosto identificada apenas como “Eles” (como em “Eles vão fazer cortes de pessoal”, “Eles decidiram reduzir a cobertura do plano de saúde” e por aí afora).

Com um design de produção óbvio que busca contrastar a brancura sem vida do ambiente corporativo à escuridão deprimente da casa do protagonista, A Educação acerta em seus momentos mais sutis, como ao trazer Jan e seus colegas enfrentando constantes filas para entrar no trabalho, para almoçar, etc. – e, de forma similar, Lütter é inteligente ao empregar uma câmera quase sempre estática em todas as cenas, ressaltando o caráter entediante da rotina do rapaz.

Infelizmente, os tropeços do cineasta ocorrem em número infinitamente maior do que seus acertos, já que o longa parece recheado de ideias mal acabadas como as constantes repetições de estradas percorridas em alta velocidade e do hábito do protagonista de destruir roupas recém-adquiridas para devolvê-las às lojas. Além disso, o coral que comenta as transições da narrativa (algo também utilizado no recente norueguês Happy, Happy) soa mais como distração do que como algo que realmente contribua para o filme, que, ao final, diz pouco e ainda de maneira aborrecida. (2 estrelas em 5)

 

48) Uma Viagem (Izlet, Eslovênia, 2011). Dirigido por Nejc Gazvoda. Com: Luka Cimpric, Jure Henigman, Nina Rokovec.

Com 30 minutos de projeção, os três personagens principais de Uma Viagem, estupidez dirigida por Nejc Gazvoda, já haviam urinado de uma ponte sobre os carros que ali passavam; destruído um carro a pontapés e pauladas; atropelado e rido da morte de um gato; recebido a notícia da morte de uma criança com uma referência casual à similaridade com um filme e promovido um concurso de arrotos e cuspe à distância.

Com isso, se aos dois minutos eu quis sair da sala, aos dez minutos já os odiava e, ao fim, queria matá-los. E saber que dediquei três minutos para escrever estes dois parágrafos dedicados a eles já é algo que me provoca profundo arrependimento. (1 estrela em 5)

 

49) Jogos de Verão (Giochi d’estate, Suíça, 2011). Dirigido por Rolando Colla. Com: Armando Condolucci, Fiorella Campanella, Alessia Barela, Antonio Merone, Roberta Fossile, Marco D’Orazi, Chiara Scolari, Francesco Huang.

Candidato suíço ao Oscar 2012, Jogos de Verão resgata a magia e as dores da infância ao acompanhar duas semanas da vida de um grupo de adolescentes e pré-adolescentes em uma estação de veraneio enquanto suas famílias acampam no local, enfocando brigas, descobertas e paixões em uma narrativa triste, porém sempre humana.

Escrito a oito mãos e dirigido por Rolando Colla, o filme traz como seu centro o jovem Nic (Condolucci), que atua como protetor do irmão mais novo diante das constantes e violentas brigas de seus pais, o explosivo Vincenzo (Merone) e a resignada Adriana (Barela). Já em seu primeiro dia de férias, Nic tem sua atenção atraída por Marie (Campanella, uma revelação), que insiste que sua mãe lhe revele o paradeiro do pai que nunca conheceu. Usando estes conflitos como ponto de partida, o roteiro traça um retrato complexo do relacionamento dos pais do protagonista (Adriana parece se excitar com a violência do marido, embora também a deteste), avalia os efeitos deste sobre os garotos e desenvolve a dinâmica do pequeno grupo que se forma em torno de Nic e que inclui ainda um imigrante chinês e a irmã caçula de Marie.

Sem medo de investir ocasionalmente no melodrama, Jogos de Verão nem sempre se mostra coeso (por que, por exemplo, a mãe de Marie insiste em esconder da filha o que houve com seu pai?), mas isto não o impede de apresentar ao espectador aquele mundo a partir dos olhos de seus jovens personagens – e quando Nic diz ter descoberto um cadáver em uma cabana abandonada, sabemos que aquilo é improvável, mas compreendemos a excitação curiosa das crianças diante da possibilidade. Além disso, o diretor Rolando Colla merece créditos por jamais hesitar em retratar aspectos mais delicados da infância e da adolescência, como a crueldade da qual as crianças são capazes e também a descoberta da sexualidade – e, neste aspecto, Colla se sai notavelmente bem ao enfocar a bela Fiorella Campanella em seu biquíni e em danças sensuais sem jamais parecer estar explorando a jovem atriz de 14 anos de idade.

Merecendo aplausos por sua estrutura bem construída (a primeira brincadeira dos garotos envolvendo a possibilidade de ver um cadáver reflete-se na visita final a um cemitério), Jogos de Verão toca especialmente graças ao seu protagonista que, mesmo tão jovem, mostra-se já endurecido pela vida – e é impossível não se comover ao vê-lo deixar cair uma lágrima apenas por receber, talvez pela primeira vez em sua vida, um gesto autêntico de carinho. (4 estrelas em 5)

 

50) Marathon Boy (Idem, Inglaterra/Índia, 2010). Dirigido por Gemma Atwal.

Quando a diretora britânica Gemma Atwal decidiu acompanhar a história do garotinho indiano Budhia Singh, em 2005, é improvável que tenha imaginado que o projeto tomaria cinco anos de sua vida e acabaria registrando uma situação explosiva que resultaria em prisões, acusações de tortura, conspirações envolvendo o governo de um estado indiano e até mesmo assassinato. Assim, é admirável que a cineasta jamais tenha perdido o foco, conseguindo, com isso, capturar cada etapa daquela trágica jornada com sua câmera e oferecendo ao espectador um acesso impressionante aos principais envolvidos na história.

Vendido pela mãe por uma ninharia a um vendedor ambulante que o agrediria constantemente, o pequeno Budhia Singh foi resgatado da favela pelo treinador de judô Biranchi Das, que o levou para morar no orfanato que mantinha com seu próprio dinheiro ao lado da esposa. Certo dia, irritado com os palavrões ditos pelo menino de três anos, Biranchi o puniu com a ordem de que corresse em volta do pátio da casa e saiu para trabalhar, acreditando que Budhia pararia mais cedo ou mais tarde. Ao retornar cinco horas depois, porém, o sujeito constatou chocado que o garoto permanecia correndo. Impressionado com a resistência da criança, Biranchi decidiu transformá-lo num maratonista – e aos três anos de idade, quando Atwal começa a acompanhar a história, Budhia já havia concluído nada menos do que seis meia maratonas (21 quilômetros).

Construindo uma relação de confiança com Biranchi, Budhia e com a mãe biológica do garoto ao longo dos anos, a diretora monta sua narrativa apenas através do depoimento de vários personagens, jamais empregando qualquer tipo de narração e apenas ocasionalmente incluindo vinhetas animadas que preenchem certas lacunas. Isto, no entanto, não só jamais impede Marathon Boy de oferecer uma visão abrangente de toda a situação como ainda permite que tenhamos acesso a vários pontos de vista acerca da questão.

E por “questão”, entendam “Biranchi Das”. Obviamente obcecado em levar o menino para as Olimpíadas e colocar seu próprio nome nos livros de História, o sujeito jamais esconde seus sonhos de grandeza e revela-se um grande manipulador da mídia. Por outro lado, sejam lá quais forem suas motivações, é fato que tirou inúmeras crianças das ruas, oferecendo a elas carinho, comida e educação – e vários destes órfãos deixam clara sua gratidão a Biranchi ao longo da projeção. Além disso, apesar de ter adotado Budhia legalmente, o treinador jamais impediu que a mãe biológica do garoto o visitasse; ao contrário, ajudou a mulher a arranjar um emprego e a levava para todos os principais eventos disputados pelo menino – e ela também surge no primeiro ato de Marathon Boy tecendo fartos elogios a ele. Ainda assim, é impossível não constatar que Biranchi realmente exagerou ao levar Budhia a correr 67 quilômetros em menos de sete horas a fim de registrar um recorde – e é doloroso ver a criança passando mal, vomitando e sofrendo convulsões ao fim do evento.

Isto, porém, nem se compara ao que aconteceria a Budhia depois que sua mãe, movida por ganância, informações falsas e provavelmente pela pressão do governo, passou a acusar o treinador de ser o oposto de tudo aquilo que ela dissera antes – e é aqui que o acesso conseguido por Gemma Atwel se revela fundamental, já que a diretora chega a registrar um dos novos “protetores” do garoto, um bandido local, dizendo que o obrigaria a correr uma maratona contra a vontade. Como se não bastasse, as acusações de que Biranchi teria agredido Budhia e desviado dinheiro arrecadado para sua criação logo caem por terra quando laudos médicos apontam que o menino não tinha qualquer tipo de marca de agressão e descobrimos que o treinador não teria acesso a qualquer quantia do fundo criado para o pequeno maratonista, mesmo que houvesse dinheiro na conta – e não havia.

A partir daí, porém, Marathon Boy choca o espectador com incidentes que se tornam cada vez mais complexos e graves, sendo incrível que praticamente todos eles tenham sido testemunhados pela câmera da diretora ou recuperados através de uma formidável pesquisa de imagens de arquivo.

Triste e revelador, Marathon Boy é quase épico em sua abrangência e dificilmente será ignorado na corrida ao Oscar 2012. E nem direi que merece mesmo ser lembrado, já que esquecê-lo é simplesmente impossível para o espectador. (5 estrelas em 5)

 

51) Marighella (Idem, Brasil, 2011). Dirigido por Isa  Grinspum Ferraz.

Dirigido pela sobrinha do pensador e guerrilheiro Carlos Marighella, morto pelos militares em novembro de 1969, este documentário é ao mesmo tempo uma investigação particular da diretora sobre o tio que mal conheceu e também um resgate de sua trajetória admirável a partir de cartas (narradas por Lázaro Ramos), fotos, gravações em áudio e depoimentos daqueles que o conheceram.

Cobrindo toda a vida adulta de Marighella, o filme fala rapidamente sobre seus pais, saltando logo para o momento em que largou a faculdade por sentir-se mal em “perseguir um diploma enquanto crianças trabalham para comer” e entrou para o Partido Comunista do Brasil, mudando-se para o Rio de Janeiro a fim de reorganizá-lo depois do levante de 1935. Preso e torturado durante o Estado Novo, ele viveria um breve período de legalidade, sendo até mesmo eleito deputado federal, apenas para voltar em seguida à clandestinidade na qual passou boa parte de sua existência e que culminaria no lançamento do “Manual do Guerrilheiro” e em seu estabelecimento como uma espécie de Che Guevara brasileiro, tornando-o o “inimigo público número 1” da ditadura militar.

Didático ao dividir a vida de Marighella em seis partes (ou “pistas”, como coloca a diretora), o filme é bem sucedido ao evocar a inteligência e o espírito liberal do guerrilheiro, que já se declarava comunista na década de 30, quando isto equivalia a se mostrar disposto a morrer pelo socialismo, defendendo também o ensino secular e o divórcio numa época de moralismo religioso exacerbado (não que hoje seja muito diferente).

Trazendo interessantes depoimentos de seu filho e também de sua ex-companheira Clara Charf, que aos 84 anos de idade se mostra uma mulher ainda bela e extremamente lúcida, Marighella ainda se dá ao luxo de resgatar anedotas da guerrilha, como, por exemplo, ao trazer uma antiga revolucionária que relembra o assalto (ou “desapropriação”, nos termos da época) em que usaram uma metralhadora fabricada de improviso e a arma desmontou completamente no meio da ação.

Pecando apenas pelo excesso de tangentes (como a animação envolvendo a “Prova em Versos” e as digressões sobre o “tio Carlos”, que interessam mais à diretora do que ao espectador, jamais se encaixando organicamente ao restante da narrativa), Marighella pode até não revelar nada de novo sobre o personagem-título, mas é relevante por tentar apresentá-lo às novas gerações e por fazer isto de forma clara e sempre interessante. (4 estrelas em 5)

 

52) Parada em Pleno Curso (Halt auf freier Strecke, Alemanha, 2011). Dirigido por Andreas Dresen. Com: Milan Peschel, Steffi Kühnert, Talisa Lilly Lemke, Mika Seidel, Ursula Werner, Otto Mellies, Bernhard Schütz, Thorsten Merten, Inka Friedrich

Infelizmente, já senti algumas vezes a tristeza de ver um parente querido sendo devastado por doenças lentas e impiedosas: perdi um tio para a Esclerose Lateral Amiotrófica, outro para um câncer de estômago e vi o avô materno de meus filhos diminuindo num hospital por mais de um ano. É um processo que consome não só o doente, mas também sua família e, neste aspecto, este Parada em Pleno Curso merece aplausos por retratar bem a degradação física de um pai de família que, aos 40 anos, descobre-se a poucos meses da morte em função de um glioblastoma.

Demonstrando, ao contrário do ridículo Inquietos de Gus Van Sant, que uma doença como esta traz repercussões físicas graves, nada tendo de engraçadinha ou trivial, o filme de Andreas Dresen consegue ir em apenas 110 minutos do diagnóstico de Frank (Peschel) ao momento em que sua esposa Simone (Kühnert, de A Fita Branca) já se vê movida a desejar vê-lo morto logo em função do sofrimento. Neste meio tempo, acompanhamos o sujeito enquanto tenta se adaptar à notícia de que irá morrer, experimenta os primeiros sintomas colaterais do tratamento, vê sua memória falhando (bem como suas funções cognitivas), deixa de falar e torna-se vítima do próprio corpo, tendo que usar fraldas e receber doses constantes de morfina para suportar a dor – um processo terrível que o ator Milan Peschel retrata com perfeição.

Sem jamais usar trilhas dramáticas que ressaltem o peso da situação, Dresen muitas vezes parece interromper suas cenas na metade, criando uma ideia de recortes do cotidiano que confere verossimilhança à narrativa (algo similar ao feito, por exemplo, no recente Michael pelo austríaco Markus Schleinzer). Demorando a revelar o rosto do médico que diagnostica Frank na cena inicial com o objetivo de ressaltar a impessoalidade do processo (frisando isto ao trazer o sujeito atendendo ao telefone no meio da consulta), o cineasta também explora bem os diários em vídeo mantidos pelo paciente, embora peque ao manter estes breves interlúdios mesmo quando Frank já se mostra incapaz de gravá-los, quebrando a cronologia linear mantida até então e fugindo da lógica narrativa por ele mesmo estabelecida.

Comovente ao ilustrar a união da família de Frank, que enche a casa de bilhetinhos que o ajudem a localizar cada aposento com facilidade, Parada em Pleno Curso também é eficiente ao discutir a reação de Simone à doença do marido, já que, mesmo amando-o profundamente (ou justamente por isso), ela passa a se torturar e a se culpar por desejar sua morte – um sentimento perfeitamente natural, mas não por isso menos complexo ou difícil.

Assim, como o longa conta com tantas virtudes, é lamentável perceber que, no fundo, funciona como um mero exercício narrativo, já que não oferece nada de novo do ponto de vista temático ou narrativo, empalidecendo, por exemplo, diante do dinamarquês Uma Família, que retrata os meses finais da vida de um homem de maneira muito mais tocante e impactante mesmo sem abrir mão do realismo e sem apelar para o melodrama.

Sim, é devastador acompanhar o fim de Frank, mas a pergunta é: afinal, por que o fizemos? E a falha do filme em responder isto é também seu grande problema. (3 estrelas em 5)

Mostra de São Paulo – Dia 09

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos | 1 comente

Abraço ao leitor Marcelo (acertei o nome?), que encontrei no Arteplex e que disse também ter me cumprimentado na Mostra passada.

Por falar em Arteplex, os absurdos continuam. Ontem, a aluna Samantha (ei, Samantha!) testemunhou um porteiro praticamente gritando com uma velhinha que havia tentado entrar na sala embora estivesse na fila errada. Quando a idosa reclamou da irritação do sujeito, este respondeu: “A senhora ainda não me viu irritado!”.

Se não fosse a obrigação profissional, confesso que boicotaria o Arteplex Frei Caneca.

Quanto aos filmes de ontem:

36) Periferic (Idem, Romênia, 2010). Dirigido por Bogdan George Apetri. Com: Ana Ularu, Mimi Branescu, Andi Vasluianu, Ioana Flora, Timotei Duma.

Mais um belo exemplar da “nova onda” do cinema romeno, Periferic, como a maior parte de seus companheiros de movimento, constrói sua narrativa a partir da observação minimalista da ação de seus personagens, conferindo peso dramático às suas atitudes mais prosaicas que, por isso mesmo, se revelam fundamentais não só na compreensão da personalidade daquelas pessoas, mas também de suas trajetórias.

Baseado num argumento de Cristian Mungiu (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias), o longa de estreia do diretor Bogdan George Apetri acompanha um dia na vida de Matilda (Ularu), uma presidiária que recebe um passe de 24 horas para comparecer ao enterro da mãe. Ao longo do dia, a moça irá se encontrar com o irmão, com o ex-amante e com o filho enquanto tenta conseguir dinheiro para pagar pela fuga planejada de antemão.

Marcando estes encontros através de intertítulos que determinam também o horário de cada interação, Periferic evoca tensão já ao estabelecer um limite de tempo para a jornada da protagonista – e à medida que ela vai se aproximando (ou ultrapassando) os prazos pré-estabelecidos, sentimos a urgência crescente em sua postura. Além disso, através dos confrontos entre Matilda e aquelas pessoas acabamos descobrindo alguns (mas não todos) detalhes sobre seu passado e sobre o crime que a levou à prisão – e mesmo que jamais descubramos tudo, já podemos ter uma boa ideia acerca do que a garota fazia e de quem ela é.

Esta, aliás, é uma das forças do longa: a personalidade de Matilda. Agressiva, antipática e visivelmente perigosa quando acuada, a moça está longe de representar uma companhia agradável para o espectador, que já em seu primeiro encontro com o irmão é levado a compreender os ressentimentos deste com relação à garota (mesmo que o sujeito seja um covarde em outros aspectos). Sorrindo satisfeita ao responder uma acusação da cunhada com uma ofensa, Matilda ainda é capaz de ir para a cama com o ex-amante mesmo depois de saber que este pretende trapaceá-la em um acordo financeiro e – mais grave – que entregou seu filho a um orfanato, numa atitude auto-destrutiva, mas também repugnante.

Seguindo seus companheiros da nova onda ao montar a narrativa basicamente através de cenas mais extensas costuradas umas às outras através de cortes secos e sem qualquer uso de som não-diegético, Apetri é hábil ao transformar as deprimentes vidas daquelas pessoas em um espetáculo naturalista sempre hipnótico, jamais desrespeitando a lógica de seu universo. Assim, quando vemos Matilda entregando um cigarro aceso ao filho e soprando fumaça em seu rosto, nos surpreendemos com nossa própria reação, um sorriso, já que percebemos que, para os dois, aquele não é um momento de negligência maternal, mas sim de máxima intimidade e carinho. (4 estrelas em 5)

 

37) As Neves do Kilimanjaro (Les neiges du Kilimandjaro, França, 2011). Dirigido por Robert Guédiguian. Com: Jean-Pierre Darroussin, Ariane Ascaride, Marilyne Canto, Gérard Meylan, Grégoire Leprince-Ringuet, Robinson Stévenin, Karole Rocher.

Se Periferic, que vi durante a Mostra de São Paulo exatamente antes deste filme, trazia indivíduos repugnantes levando tristes vidas, o contraste com este As Neves do Kilimanjaro não poderia ser maior, já que o longa de Robert Guédiguian enfoca pessoas essencialmente boas em situações que, mesmo ocasionalmente tristes, refletem a alegria construída através de suas ações – e mesmo que algum conflito surja durante a narrativa, sabemos que ao final elas irão tomar as melhores atitudes e se sairão bem de alguma maneira.

Citando o título do belíssimo conto de Ernest Hemingway embora nada tenha a ver com o texto ou com o filme que este inspirou em 1952, sendo na verdade uma adaptação de um poema de Victor Hugo, o roteiro de Guédiguian e Jean-Louis Milesi concentra-se no casal de meia-idade Michel (Darroussin) e Marie-Claire (Ascaride). Líder sindical, ele é demitido do emprego ao sortear o próprio nome em uma lista de cortes depois de se negar a receber tratamento especial e, velho demais para conseguir outro emprego, parece acomodar-se em uma aposentadoria precoce, passando os dias ao lado dos netos enquanto a esposa trabalha como diarista. Felizes e apaixonados, eles celebram 30 anos de casamento e recebem uma boa soma em dinheiro e passagens para férias na África, mas é então que, certa noite, são assaltados ao lado da irmã e do cunhado de Marie-Claire.

Trata-se, como é fácil perceber, de uma trama relativamente simples, mas repleta de implicações psicológicas: inicialmente, claro, há o abalo sofrido pela violência do assalto e que leva Denise (Canto) a um choro constante, seu marido Raoul (Meylan) a revoltar-se e a desejar vingança e Michel a uma leve depressão. Porém, ao descobrir que o crime foi cometido por um jovem demitido ao seu lado, o ex-sindicalista entrega-o à polícia apenas para, quase imediatamente, arrepender-se de tê-lo feito, já que o sujeito cuidava dos dois irmãos pequenos e era também um “trabalhador”.

Surgindo aqui sem os modos secos vistos no recente O Porto e sem a amargura exibida em Segunda-feira de Manhã, o ótimo Jean-Pierre Darroussin encarna Michel como um homem íntegro, alegre e carinhoso que, de certa forma, sente culpa pela vida pequeno-burguesa que leva na meia-idade e que criticaria na juventude. Mas não só isso: reconhecendo na ação do assaltante o desespero provocado pelo desemprego, Michel questiona sua própria responsabilidade no que diz respeito à atitude do outro. Enquanto isso, Ariane Ascaride confere calor humano e dignidade à Marie-Claire, parecendo feliz mesmo ao ser obrigada a arranjar um novo emprego como entregadora de jornais aos cinquenta e tantos anos de idade – e é admirável perceber o conforto de ambos como casal e a intimidade construída ao longo das décadas (algo que fica claro, por exemplo, nos sinais que trocam em um jogo de cartas).

Por outro lado, por mais que compreendamos as dúvidas de Michel, torna-se impossível, para o espectador, compartilhar de sua pena por Christophe, o assaltante – não apenas porque testemunhamos a violência de suas ações, mas também em função de seu cinismo ao ser confrontado pelo protagonista e por sabermos que já estava planejando outro assalto, o que nos leva a concluir que talvez ele não fosse a melhor das influências para os irmãos caçulas. E, neste aspecto, é tocante perceber a preocupação de Marie-Claire e do marido para com as crianças – o único elemento do poema de Victor Hugo (além da ideia principal sobre “a bondade dos pobres”) a ser diretamente refletido no roteiro.

Sabotando a narrativa com a utilização ocasional de uma canção absurdamente cafona e de uma trilha equivocada na maior parte do tempo, As Neves do Kilimanjaro é doce e caloroso como seus personagens principais, mas falho como seu jovem bandido. (3 estrelas em 5)

 

38) Montevidéu – O Sonho da Copa (Montevideo, bog te vídeo: Prica prva, Sérvia, 2010). Dirigido por Dragan Bjelogrlic. Com: Milos Bikovic, Petar Strugar, Nina Jankovic, Danina Jeftic, Milutin Karadzic, Branimir Brstina, Viktor Savic, Nebojsa Ilic.

Selecionado pela Sérvia para representa-la no Oscar 2012, Montevidéu aborda a formação da seleção nacional iugoslava durante as preparações para a primeira Copa do Mundo organizada pela FIFA em 1930, no Uruguai. Infelizmente, embora a história em si seja interessante e tivesse imenso potencial, acaba sendo desperdiçada pelo desejo do diretor Dragan Bjelogrlic de apelar para o clichê e para o melodrama, comprometendo o filme de maneira irremediável.

Com uma boa introdução que traz a acertada observação de que, na época, o futebol ainda não consistia de “pessoas pobres nas arquibancadas observando jogadores ricos correndo no campo”, o roteiro escrito por Ranko Bozic e Srdjan Dragojevic a partir do livro de Vladimir Stankovic é ambientado numa época politicamente conturbada daquele país (embora, reconheçamos, isto possa descrever qualquer década) e na qual o simples conceito de uma “seleção nacional” encontrava resistência por partes de grupos distintos que tinham suas próprias ideias acerca do que “nacional” deveria representar. É aí que conhecemos os jogadores Tirke (Bikovic) e Mosa (Strugar), cuja relação irá guiar a narrativa entre brigas e reconciliações dentro e fora de campo.

Focando também a dificuldade encontrada pelo cartola responsável pela seleção para conseguir os fundos necessários para a viagem ao Uruguai, Montevidéu já começa a tropeçar com alguns minutos de projeção ao incluir flashbacks nada orgânicos para nos apresentar ao passado do protagonista – e um deles chega a surgir risivelmente no momento em que Tirke encontra-se prestes a chutar a bola em direção ao gol durante uma partida. Da mesma maneira, como o filme já se encarrega de dizer que Mosa e Tirke entrarão para a história como uma dupla célebre do futebol nacional, todas as tensões que poderiam ser provocadas pelas brigas entre os dois se dissipam antes de surgirem, já que já sabemos que resolverão todos os desentendimentos eventualmente.

Enfiando dois romances igualmente artificiais na narrativa talvez por acharem que estes são necessários em qualquer filme, os roteiristas ainda apelam para todo tipo possível e imaginável de clichê – e quando Tirke se vê a centímetros de distância dos lábios da amada já somos capazes de antecipar o grito de “Mosa!” que interromperá o beijo (o que, claro, se confirma). Incluindo também personagens dispensáveis que servem apenas para aumentar a duração do longa (como os vizinhos que, mesmo amigos, brigam em função de tudo e que ocupam valiosos minutos de tela), Montevidéu ainda espera que torçamos pelo romance entre Mosa e a pintora Valerija (Jankovic) mesmo retratando esta última como uma burguesa antipática e pedante que adora rir dos nomes e costumes dos “camponeses” – e, da mesma maneira, fica difícil sentir qualquer simpatia pelo supostamente divertido Rajko (Karadzic) quando este insiste em agir como um cafetão mais interessado em convencer um rico jogador a ficar com sua sobrinha.

Realizando um trabalho eficaz de recriação de época (embora a vizinhança de Tirke surja mais como um cenário do que como um espaço real), o longa recai na obviedade ao empregar uma fotografia que o banha em tons de sépia e uma trilha absurdamente excessiva que, de maneira quase ininterrupta, insiste em comentar tudo o que ocorre na tela, dos momentos mais dramáticos aos mais cômicos.

Voltando a cair no ridículo em seu desfecho implausível que busca justificar a narração (igualmente dispensável) feita por um pequeno engraxate, Montevidéu não se envergonha nem mesmo de encerrar sua narrativa com um inacreditável plano que traz alguém congelado enquanto pisca para o espectador – e se um filme que parece adotar a lógica de uma série de tevê da década de 80 foi o escolhido pela Sérvia para representa-la no Oscar, não posso nem imaginar a qualidade dos que perderam a disputa.

A não ser que o único outro concorrente tenha sido Um Filme Sérvio – só assim poderei compreender a escolha. (2 estrelas em 5)

 

39) Os Contos da Noite (Les contes de la nuit, França, 2011). Dirigido por Michel Ocelot. Com as vozes de Julien Beramis, Marine Griset e Michel Elias.

Adotando a mesma estratégia narrativa e o mesmo estilo visual de seu Príncipes e Princesas, o cineasta Michel Ocelot cria, em Os Contos da Noite, mais um belo e lúdico filme ainda que, como a maior parte das antologias, este se revele irregular justamente em função das várias histórias que pretende contar e que naturalmente oscilam em interesse e riqueza temática.

Focando em três artistas que, sozinhos em um velho cinema/teatro, se dedicam a encenar novas histórias para si mesmos diante de uma plateia vazia, o roteiro do próprio Ocelot traz, então, seis curtas fábulas que, com as lições de moral típicas do formato, certamente fascinarão o público mais jovem sem, com isso, afastarem os adultos – e até mesmo a repetição que tanto fascina as crianças pode ser observada numa rima narrativa que jamais soa cansativa ou dispensável ao ser empregada para introduzir cada história e ao mostrar a alteração das silhuetas dos personagens.

Surgindo como uma combinação de teatro de sombras e de lanterna mágica, o design de Ocelot emprega apenas o contorno dos personagens com uma sugestão ocasional de tridimensionalidade através de seus fluidos movimentos. Porém, se isso poderia soar como algo visualmente entediante, o longa contorna o problema através de seus backgrounds coloridos em tons vivos que sugerem cenários ricos e inventivos que oscilam do intenso azul da noite ao dourado de uma cidade de ouro, passando pelo verde de uma densa floresta e por aí afora.

E mesmo que uma ou outra destas fábulas fique abaixo do esperado (e é uma pena que justamente a última seja também a mais fraca, aborrecida e previsível), Os Contos da Noite encanta por refletir, na postura de seus personagens artistas, a magia e o prazer no ato de se criar e compartilhar histórias. (3 estrelas em 5)

 

40) Malditos Cartunistas (Idem, Brasil, 2011). Dirigido por Daniel Garcia e Daniel Paiva.

Trazendo os depoimentos de 25 cartunistas ao longo de 90 minutos de projeção, este documentário de Daniel Garcia e Daniel Paiva consegue discutir de maneira abrangente diversas facetas da profissão e de seus praticantes, desde a nomenclatura conferida ao que fazem (cartuns? Quadrinhos? Tiras?) até o que pensam acerca da aposentadoria, passando pela natureza do “dom” do desenho e pela própria definição de “Arte”.

Saltando de um tema a outro de maneira fluida graças à montagem eficiente dos próprios diretores, o longa liga de forma orgânica os assuntos ao seguir a discussão sobre “Marias Nanquim”, por exemplo, à obsessão de muitos cartunistas pela nudez feminina e pelo sexo ou ao desdobrar a discussão acerca da praga do politicamente correto em uma tangente que aborda os processos sofridos por vários profissionais do desenho.

Descontraído ao trazer seus entrevistados completamente à vontade (Ota chega a dar depoimentos enquanto prepara – em 10 minutos! – uma tira para enviar ao jornal), os cineastas não encontram dificuldade nem mesmo para levar os depoentes a confessarem o reaproveitamento de desenhos – e é revelador, por exemplo, perceber como Angeli não hesita em sugerir suas ressalvas com relação à qualidade artística do trabalho de Maurício de Sousa mesmo admitindo a eficiência deste como empresário. (E tampouco é acaso que Sousa – do qual sou fã confesso – seja protagonista de um trecho do filme completamente devotado ao seu estúdio, já que representa um caso único na América Latina.)

Tropeçando na escolha dos cartuns que surgem a todo momento na tela para ilustrar o trabalho dos entrevistados, já que as imagens (especialmente aquelas com muito texto) distraem o espectador, que naturalmente busca estudá-las enquanto tenta ouvir o que está sendo dito, Malditos Cartunistas também peca pela falta de cuidado com a captação das imagens – e mesmo tendo assistido a uma cópia particularmente ruim durante a Mostra de São Paulo, pude observar facilmente o foco completamente errado utilizado em algumas entrevistas. Da mesma maneira, o longa é visualmente burocrático, tentando brincar graficamente com a natureza dos quadrinhos em apenas um segmento da projeção.

Defendendo que o importante para um bom cartunista é a leitura e a cultura, não necessariamente saber desenhar, Malditos Cartunistas faz, ao final, um bom trabalho ao defender o valor desta (sim!) Arte que muitas vezes acaba sendo diminuída em status apenas por ser associada a critérios infantis – e, neste aspecto, até mesmo a expressão “história em quadrinhos” serve como forma de menosprezá-la, já que, como diz alguém em certo momento do filme, ninguém jamais iria se referir a Romeu e Julieta como “história em letrinhas”. (3 estrelas em 5)

Mostra de São Paulo – Dia 08

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos | 2 comentários

Abraços ao aluno Leonardo, que já encontrei várias vezes durante a Mostra (aliás, “aS MostraS”, já que ele obviamente leva sua cinefilia a sério).

Por outro lado, o anti-abraço de hoje vai novamente para o Arteplex Frei Caneca. Apesar da iniciativa do gerente geral Marcos Tunes de me mandar um email se desculpando pelo funcionário que me provocou, o despreparo da equipe daquele cinema ao lidar com o público tornou-se óbvio mais uma vez durante a sessão de Cut: depois que o filme já havia sido iniciado, um funcionário da casa insistia em conversar através do rádio na lateral da sala, o que levou o crítico Eduardo Valente, que se encontrava na sessão, a soltar um “shhhh” perfeitamente aceitável. Inacreditavelmente, porém, em vez de respeitar o pedido de silêncio feito por um cliente durante a projeção, o funcionário – diferente daquele que me provocou, vale dizer – decidiu tomar satisfações com Valente, soltando um alto e agressivo “Ô cidadão, eu tô verificando se a imagem está boa pra você!”, não só importunando um espectador como também incomodando toda a sala. Com isso, sou obrigado a recomendar que evitem o Arteplex Frei Caneca a todo custo. Pagar caro para ser agredido pelos funcionários do cinema não é uma opção aceitável.

Mas vamos aos filmes:

31) Cut (Idem, Japão, 2011). Dirigido por Amir Naderi. Com: Hidetoshi Nishijima, Takako Tokiwa, Takashi Sasano, Shun Sugata, Denden, Takuji Suzuki.

É triste ver um cineasta experiente como Amir Naderi realizando uma obra que poderia ter sido criada por um adolescente. Empregando metáforas óbvias e tolas para discutir o estado do Cinema contemporâneo, Naderi erra no diagnóstico e no método, embora certamente aposte que será aplaudido por plateias de cinéfilos em todo o mundo apenas por fazer uma lista padrão de clássicos da Sétima Arte e por citar duas dúzias de cineastas celebrados. E talvez sua estratégia funcione, o que será lamentável.

Protagonizado por Hidetoshi Nishijima, o filme traz o ator como o aspirante a cineasta Shuji, que logo no início da projeção pode ser visto em frente ao túmulo de Akira Kurosawa orando por inspiração (ele visitará também os túmulos de Ozu e Mizoguchi). Sentindo-se feliz apenas ao projetar obras clássicas em sua cobertura, em sessões anunciadas através de cartazes colados pela cidade, o rapaz também entra em conflito com a polícia ao percorrer Tóquio com um megafone enquanto brada contra o cinema comercial, mas sua vida finalmente muda quando seu irmão morre e ele descobre que deve uma fortuna à Yakuza em função dos empréstimos feitos pelo falecido para bancar seus três filmes. Com um prazo de duas semanas para quitar a dívida, ele decide oferecer o corpo como saco de pancadas para os mafiosos que frequentam o ponto de encontro no qual seu irmão foi executado.

Já bobo ao estabelecer um contraste entre as dezenas de fotos de cineastas espalhadas pelo apartamento de Shuji e os cartazes de boxeadores presentes no bar que este passa a frequentar, Cut ainda garante a simpatia dos cinéfilos ao apresentar uma lista, no clímax da narrativa, de 100 filmes admiráveis “sem nenhuma ordem específica” – embora os dez últimos sejam os únicos acompanhados por fotos e o primeiro lugar (uma escolha óbvia, mas natural) seja ilustrado através de duas de suas cenas mais célebres. Já no restante do tempo, o máximo que Shuji consegue fazer como protesto é berrar frases simplistas como “O Cinema atual é uma merda! Cinema é arte! Vejam os clássicos!”, sabotando sua própria defesa da Arte através de argumentos que poderiam ter sido recitados por Bob Esponja caso este falasse palavrões e perdesse dez pontos de Q.I.

Infelizmente, a tolice do protagonista é refletida pelo próprio diretor, que, certamente desconhecendo os mecanismos de produção do Cinema desde seu início, se limita a equiparar a influência dos donos do dinheiro sobre os artistas à pancadaria sofrida por Shiju, que, afinal, é um “cineasta” cujo corpo é martirizado por aqueles que seguram as cédulas. Além disso, para se manter em pé e evitar o nocaute, o rapaz recorre às lembranças dos filmes clássicos que projeta, completando a metáfora ao estabelecer a “verdadeira arte” como escudo diante dos golpes do dinheiro. Por outro lado, trazer Shiju se curando das surras ao banhar-se no reflexo dos filmes que projeta é uma ideia bem mais poética e eficiente – talvez o único grande acerto do projeto.

Determinado a mostrar praticamente todos os socos recebidos pelo protagonista para pagar sua dívida, Cut ainda é um teste de paciência para o espectador – e a partir de certo momento, comecei a fazer cálculos mentais a fim de tentar determinar quantos golpes ainda teria que testemunhar considerando que o sujeito estava cobrando 8.000 ienes por murro e restavam cerca de 3 milhões de ienes em sua conta.

E confesso que ao chegar ao resultado de quase 400 socos até o fim do filme desejei ser nocauteado e poupado daquela tortura. (1 estrela em 5)

 

32) Bullhead (Rundskop, Bélgica, 2011). Dirigido por Michael R. Roskam. Com: Matthias Schoenaerts, Jeroen Perceval, Jeanne Dandoy, Barbara Sarafian, Frank Lammers, Sam Louwyck, David Murgia, Erico Salamone, Philippe Grand’Henry.

Candidato belga ao Oscar 2012, Bullhead traz um protagonista interessante que, perdido em uma trama desnecessariamente complicada, tem sua força diluída apesar da intensa performance de Matthias Schoenaerts.

Marcando a estreia de Michael R. Roskam na direção de longas, o roteiro também escrito por ele conta uma história ambientada no submundo do mercado negro de carne na Bélgica, onde a aplicação de esteroides e hormônios do crescimento no gado é investigada pela polícia e resulta na morte de um ativista que tentava denunciar o esquema. O foco da narrativa, no entanto, é o jovem Jacky (Schoenaerts), um sujeito gigantesco que, aplicando hormônios em si mesmo, também atua naquele mercado, sendo convidado a entrar num esquema perigoso com o poderoso Marc Decuyper (Louwyck), responsável pelo assassinato do ativista. Temendo os riscos que aquela parceria provocaria, Jacky ainda tenta lidar com um incidente trágico de seu passado e com sua paixão por uma perfumista local enquanto um antigo amigo de infância, Diederik (Perceval) ressurge em sua vida.

Encarnando o protagonista como um brutamonte ansioso e introspectivo, Schoenaerts faz jus ao título do filme ao manter a cabeça sempre projetada para a frente e ao usá-la como sua arma favorita. Aparentemente sem perceber a ironia de trabalhar num segmento que exige a aplicação de hormônios no rebanho enquanto ele mesmo se vê obrigado a injetar-se com testosterona (e a palavra-chave aqui é “obrigado”), Jacky traz sua maior contradição em seu corpo, já que, masculino e imponente em seu exterior, sofre por não julgar-se um homem de verdade em função de suas deficiências hormonais, o que o transforma num personagem naturalmente fascinante.

Mas é aí que o roteiro começa a interferir exageradamente e torna o que poderia ser um interessante estudo de personagem em um policial padrão e frágil, errando já em sua estrutura, que subitamente joga o público num longo flashback depois de mais de meia hora de projeção. Trazendo legendas que identificam as várias regiões que ambientam a história, o filme parece se orgulhar da suposta complexidade de sua trama, investindo também em um humor quase infantil ao trazer dois mecânicos caricaturais que destoam completamente dos demais elementos do longa. Além disso, ainda que Diederik seja um personagem também com grande potencial, já que sua condição de informante reflete o fato de ter sido obrigado a calar-se na infância, o roteiro desperdiça a oportunidade ao usar sua homossexualidade não para torná-lo mais complexo, mas apenas para fazer piadinhas ocasionais.

Deixando lacunas irritantes em sua trama apesar dos flashbacks intrusivos (por que Bruno e o pai de Jacky ficaram com graves problemas mentais?), Bullhead sobrevive única e exclusivamente em função do protagonista, que certamente merecia estar em um filme melhor. (3 estrelas em 5)

 

33) Construção (Idem, Brasil, 2011). Dirigido por Carolina Sá.

Primeiro longa-metragem da brasileira Carolina Sá, Construção tem início ao apresentar ao espectador a pequena e adorável filha de sua diretora, Branca, que está prestes a conhecer o irmão mais velho que reside com o pai em Cuba. Desta maneira, o documentário parece sugerir que investigará o estabelecimento desta relação fraternal, logo se perdendo em uma série de reflexões que tiram momentaneamente o foco da narrativa, quase comprometendo de forma irremediável o resultado final.

Sem jamais fornecer ao público algumas informações básicas fundamentais para contextualizar ao menos sua premissa inicial (há quanto tempo Branca não via o pai? Carolina e o músico René se separaram? Vão todos morar em Cuba?), Construção ainda se complica quando, já no primeiro jantar da família, René dá uma resposta atravessada na filha, que pedia a mamadeira, e trata Carolina com um machismo irritante, criando uma antipatia imediata quando deveríamos justamente estar investindo nossas emoções naqueles laços familiares. O mais grave, contudo, é constatar que, depois de algum tempo, o irmão de Branca simplesmente deixa o filme sem qualquer aviso, traindo a introdução da narrativa enquanto a cineasta investe sua atenção em outros interesses – leia-se: seu pai.

Falecido há não-se-sabe-quanto-tempo (outra falha da diretora) em função de sabe-se-lá-o-quê (idem), Marcos de Vasconcellos, pai da cineasta, era arquiteto e, a julgar pelo que aprendemos em Construção, um homem admirável. Sensível, carinhoso, divertido e dono de uma inteligência aguda, ele é ressuscitado aqui através de cartas que escreveu para a esposa (ou ex-esposa? São irritantes, as lacunas do filme), de gravações em áudio e de imagens que registrou com sua Super8. Obrigado a viajar por um longo tempo (não me perguntem a razão), ele percebe estar perdendo a família em cartas repletas de frustração e paixão – um distanciamento que, aliás, Carolina tenta usar como paralelo de sua própria relação afetiva embora falhe justamente por não fornecer informações suficientes para contextualizá-la.

Inteligente ao manter sua câmera sempre na altura dos olhos de Branca (ao enfocar-se diante do espelho e ao mostrar René na cozinha, a diretora coerentemente usa ângulos baixos), Carolina também altera a textura de algumas de suas próprias imagens para refletir o Super8 rodado pelo pai – mas a cada acerto como estes, tropeça como, por exemplo, ao incluir a narração em espanhol de uma mulher cuja identidade jamais fica clara ou ao trazer um garotinho cubano lendo com dificuldades um texto de Fidel em comemoração ao aniversário da Revolução (e qual a relevância deste texto? E quem é aquele garotinho? E por que usar alguém que obviamente não sabe ler direito?).

Começando a demonstrar o rumo de sua narrativa ao tentar estabelecer conexões simbólicas entre a construção de uma cidade, a natureza da Pátria e o núcleo familiar, o filme finalmente encontra seu centro nas cartas trocadas pelos pais da cineasta, acabando por se estabelecer como um verdadeiro e tocante tributo a Marcos de Vasconcellos.

Ainda assim, o grande momento de Construção vem mesmo em seu soberbo plano final, que traz a câmera percorrendo diversos apartamentos em um prédio e ilustrando, assim, como espaços idênticos podem abrigar vidas e personalidades tão diferentes, transformando o documentário de Carolina Sá, em seus minutos finais, numa celebração mágica e comovente da arquitetura da natureza humana. (3 estrelas em 5)

 

34) A Alma das Moscas (El alma de las moscas, Espanha, 2010). Dirigido por Jonathan Cenzual Burley. Com: Andrea Calabrese, Javier Sáez.

A Alma das Moscas foi roteirizado, produzido, montado, fotografado e dirigido por Jonathan Cenzual Burley, que aqui estreou em todas estas funções – e se já é complicado para um estreante lidar com uma tarefa, imagine o que é coordenar os trabalhos em cinco das mais importantes atividades em um longa-metragem. Caso tivesse construído um bom filme, Burley seria um novo Orson Welles; considerando o resultado da empreitada, porém, está mais para Uwe Boll.

Não que o projeto não tenha seus bons momentos: contando a história do encontro entre dois irmãos que se conhecem apenas quando estão a caminho do enterro do pai, o longa traz uma introdução eficiente ao contar a história da vida do falecido Evaristo – e as primeiras cenas envolvendo os irmãos vividos por Calabrese e Sáez também contam com um bom senso de humor. Infelizmente, ao assumir a estrutura de road movie A Alma das Moscas despenca em ritmo exponencial, apelando para personagens tolos e gags infantis.

Há, claro, instantes pontuais de diversão: a pobre senhora que permanece ao lado de um telefone público para anotar recados representa uma boa sacada por parte do filme e a historinha envolvendo Federico, amaldiçoado pela narcolepsia, é ocasionalmente engraçada, mas de modo geral o filme acredita ser bem mais irreverente do que é na verdade, já que suas invencionices (como a moça das melancias e o grupo de músicos ladrões) soam mais como distrações do que como intervenções orgânicas na narrativa.

Aliás, para cada instante mais inspirado (como o voice over sobre a “memória da geografia”) há vários outros que embaraçam pela tolice (como a cena na qual os irmãos tentam falar com um cachorro através do olhar, o encontro com o fantasma de Evaristo e o incidente envolvendo um sujeito que defecava ao lado de uma cerca) – e estes se tornam ainda mais irritantes em função do amadorismo evidente de Burley como diretor, montador e diretor de fotografia. Observem, por exemplo, como o sujeito coloca sua câmera no trajeto de um carro que se aproxima e permite que percebamos, um pouco antes do corte, o momento em que o motorista começa a frear para não acertar o equipamento – e notem, também, como as transições entre os diversos temas musicais são feitas de forma risível através do fade rápido de uma composição para que a seguinte possa ser introduzida. E quanto menos for dito sobre os péssimos atores, melhor.

Torçamos pela aposentadoria de Burley. (2 estrelas em 5)

 

35) Como Começar Seu Próprio País (How to Start Your Own Country, Canadá, 2010). Dirigido por Jody Shapiro.

Documentário divertido pela própria natureza de seus excêntricos personagens, Como Começar Seu Próprio País ainda assim aborda um tópico importante cujas repercussões são cotidianamente refletidas no noticiário internacional – e por mais que tente encontrar um equilíbrio entre a discussão séria que propõe e a graça com que a aborda, o longa de Jody Shapiro mais diverte que informa.

Introduzindo o assunto ao apontar que a definição de país passa mais por critérios políticos do que geográficos, o filme investiga vários possíveis critérios que possam estabelecer um território como sendo soberano, desde sua população até sua autossuficiência econômica, passando por sua dimensão territorial e por sua capacidade de interagir com outras nações. A partir daí, Shapiro apresenta ao espectador algumas micronações lutam pelo reconhecimento internacional e a outras que parecem existir apenas na mente de seus lunáticos líderes.

Tomemos, como exemplo, a República da Molossia: ocupando meio hectare no estado de Nevada, nos Estados Unidos, ela é comandada por seu fundador, o presidente (“presidente”?) Kevin Baugh desde 1977. Contando com seis habitantes – três dos quais são cachorros -, a Molossia vive um conflito particular com o Texas, cujos produtos foram banidos de seu território quando a esposa do presidente o deixou para residir naquele estado. Por outro lado, se há um componente claramente humorístico (ainda que levemente insano) na existência da Molossia, o mesmo não pode ser dito sobre o Principado de Sealand, que fundado numa plataforma submarina na costa da Inglaterra, acabou ganhando uma espécie de reconhecimento jurídico quando as cortes britânicas determinaram que aquela “nação” estava fora da jurisdição inglesa. Ainda assim, não deixa de ser hilário descobrir como o principado foi vítima de um breve golpe de Estado em 1978, quando o “príncipe” do país foi preso em um quarto pelo autointitulado Primeiro-ministro de Sealand.

Da mesma maneira, se o Novo Estado Livre de Caroline foi fundado pelo artista Gregory Green mais como um conceito do que como um espaço territorial (para se tornar cidadão, basta enviar um email ao seu presidente), o Principado de Hutt River, na Austrália, também ganhou uma espécie de reconhecimento estatal ao não ser taxado pela Receita Federal australiana (embora esta tenha tentado), o que não deixa de ser um estímulo aos aspirantes a “príncipe” espalhados por todo o mundo.

Excentricidades à parte, porém, o fato é que os critérios para o reconhecimento de uma nação são polêmicos por natureza, sendo utilizados de forma cínica para negar à Palestina, por exemplo, o ingresso nas Nações Unidas embora aquela seja reconhecida como nação por mais de cem países. Assim, é uma pena que Como Começar Seu Próprio País aborde a questão de forma apenas periférica, mostrando-se mais interessado em fazer rir do que pensar. (3 estrelas em 5)

Mostra de São Paulo – Dia 07

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Abraços ao aluno Jardel, que encontrei no Arteplex.

Anti-abraços ao funcionário do Arteplex Frei Caneca que me provocou gratuitamente na entrada de uma das sessões depois de ter lido meu post sobre sua atitude durante a confusão envolvendo Habemus Papam – uma provocação que levou a um rápido bate boca que só encerrei, dando as costas ao sujeito, depois que me dei conta do ridículo da situação. Por outro lado, parabéns ao gerente geral do cinema, Marcos Tunes, que me enviou um email pedindo desculpas pelo comportamento do funcionário menos de uma hora depois que publiquei um tweet sobre o incidente.

Dito isso…

27) Elena (Idem, Rússia, 2011). Dirigido por Andrei Zvyagintsev. Com: Nadezhda Markina, Andrey Smirnov, Aleksey Rozin, Yelena Lyadova.

Elena é um estudo de personagem e um conto de moralidade complexo e intrigante que, a partir de uma trama relativamente simples, busca discutir não só temas como culpa e os extremos aos quais podemos chegar quando acuados, mas também – e aí o filme se torna ainda mais interessante – a fidelidade irrestrita que os pais devotam aos filhos acima de qualquer outra coisa.

Dirigido por Andrei Zvyagintsev (do ótimo O Retorno) e escrito por Oleg Negin, esta produção russa tem início ao acompanhar o despertar de sua personagem-título (Markina), que, já habituada à sua rotina diária, abre os olhos segundos antes de o alarme disparar. Casada com o rico Vladimir (vivido pelo veterano cineasta Andrey Smirnov), ela dorme em um quarto separado e atua mais como sua criada do que como esposa, já que, bem mais velho, ele também já parece apegado às suas próprias rotinas. Não que não haja carinho entre eles ou mesmo sexo, pois há – mas o fato é que eles se sentem mais confortáveis como companheiros com uma hierarquia claramente estabelecida do que como marido e esposa (ao menos, isto se aplica a Vladimir).

Ambos com filhos gerados em relacionamentos passados, Elena e o marido encontram, na prole, a maior fonte de discórdia: se a primeira ressente o fato de Vladimir privilegiar Katya (a bela Lyadova) apesar de ser tratado com indiferença por esta, o sujeito não suporta a ideia de ter que sustentar a família do preguiçoso filho de Elena – e a própria mulher admite que há grande verdade no que ele diz acerca do rapaz. No entanto, quando Vladimir sofre um ataque cardíaco e decide escrever um testamento deixando tudo para a filha, sua esposa decide ser necessário tomar medidas drásticas.

E isso é que é tão fascinante nesta produção: Vladimir e Elena são essencialmente boas pessoas, embora aqui e ali demonstrem certo egoísmo ou teimosia, mas que acabam se tornando indivíduos muito piores em função dos filhos – aí, sim – profundamente egoístas, comodistas e mesmo agressivos – e a relação de Vladimir com a filha, por exemplo, parece ser inteiramente baseada em cruéis jogos de palavras.

Paciente na construção da narrativa, Zvyagintsev é particularmente feliz na introdução do longa ao retratar a rotina do casal e ao ilustrar a verdadeira jornada feita pela protagonista para visitar o filho, estabelecendo também um importante contraste entre seu luxuoso apartamento e a vizinhança pobre e poluída do rapaz (além disso, ao incluir um plano que deixa clara a semelhança física entre Sergey e o filho, neto de Elena, o diretor confere ainda mais verossimilhança àquele triste família). Da mesma maneira, ao rodar as ações da personagem-título no clímax dramático da história em um único e longo plano, o cineasta cria uma forte atmosfera de tensão e realismo ao praticamente exibir a mulher em tempo real pensando no que fará em seguida.

Enriquecido por uma trilha que investe basicamente em um único tema musical que surge pontualmente para marcar alterações psicológicas na narrativa, Elena é um filme forte, mas inegavelmente triste. Como deveria ser. (4 estrelas em 5)

 

28) O Céu Sobre os Ombros (Idem, Brasil, 2011). Dirigido por Sérgio Borges. Com: Everlyn Barbin, Edjucu Moio, Murari Krishna, Grace Passô.

Oscilando de maneira instigante entre a ficção e o documentário, O Céu Sobre os Ombros emprega recortes do cotidiano de três homens em Belo Horizonte para realizar quase um estudo de personagens – e se digo “quase” é porque o resultado final, embora intrigante, funciona mais como uma observação distanciada daquelas pessoas, oferecendo poucos elementos mais aprofundados sobre suas personalidades e motivações.

Dirigido com segurança por Sérgio Borges, o longa nos apresenta inicialmente a Murari Krishna, que, como o próprio nome aponta, segue a doutrina Hare Krishna, sendo também integrante da Galoucura e funcionário de um call center – e é justamente este tipo de contradição aparente (um Hare Krishna membro de torcida organizada?) que torna O Céu Sobre os Ombros rico e fiel à complexidade da natureza humana. Acompanhando também o aspirante a escritor Edjucu Moio, que jamais permite que alguém leia seus escritos e que acredita estar prestes a morrer por ter “se cansado de tudo”, o filme realmente ganha vida nas sequências devotadas à transexual Everlyn Barbin, que, universitária, discute Foucault pelo telefone com um colega durante o dia e oferece o corpo na rua por 30 reais durante a noite. Vaidosa e inteligente, Barbin é também comovente à sua própria maneira – e é tocante vê-la se embelezando antes de ir almoçar em um bar com mesas de alumínio.

Assim, mesmo que o filme jamais consiga criar uma unidade narrativa, saltando aparentemente ao acaso entre um personagem e outro e jamais chegando a lugar algum, de certa maneira este trabalho de Sérgio Borges alcança, sim, um belo resultado simplesmente ao ilustrar a beleza (muitas vezes trágicas) de pessoas comuns em sua rotina prosaica, mas frequentemente fascinante aos olhos de estranhos. (4 estrelas em 5)

 

29) Calvet (Idem, Reino Unido, 2011). Dirigido por Dominic Allan.

Jean Marc Calvet foi segurança particular, tornou-se ladrão, trapaceiro e finalmente afundou nas drogas ao se viciar em heroína, cocaína e crack, permanecendo meses trancado em sua casa enquanto se drogava. Neste meio tempo, tornou-se garoto de programa para bancar o próprio vício, foi estuprado em um banheiro público e abandonou a esposa e o filho pequeno, ficando mais de uma década sem vê-los. O mais notável é que, ao final de toda esta trajetória degradante, Calvet ressurgiu como um pintor respeitado e capaz de conseguir ofertas de até cem mil dólares por uma de suas telas.

Usando o depoimento do personagem-título como base do filme, que jamais entrevista pessoas do passado do sujeito para confirmar os relatos, o diretor Dominic Allan parece aceitar tudo o que Calvet diz como verdade absoluta, limitando-se apenas a incluir uma ou outra imagem ocasional para ilustrar uma ideia (como ao incluir planos de um crocodilo quando o sujeito fala de sua época como bandido) e efeitos sonoros para sugerir sentimentos (como o trovão ouvido durante o relato sobre seu estupro). Além disso, o cineasta acompanha Calvet em visitas a locais de seu passado sem perceber que esta excursão pouco acrescenta às histórias narradas pelo sujeito, que parece, acima de tudo, interessado em estabelecer apenas uma pesada mitologia acerca de si mesmo (o que o beneficiaria como artista “conturbado”).

Assim, é difícil acreditar no arrependimento de Calvet por ter abandonado o filho quando o pintor obviamente explora esta atitude de maneira cínica, permitindo que a câmera de Allan o filme enquanto escreve uma carta para o rapaz depois de 12 anos afastado enquanto chega a fazer piadas sobre como deveria assiná-la. Da mesma maneira, ao conversar com o garoto pelo telefone pela primeira vez, Calvet novamente transforma algo que deveria ser um momento delicadíssimo e particular em puro espetáculo, caprichando nos pesados suspiros e na emoção claramente exagerada para efeitos dramáticos.

No entanto, se até aí poderíamos apenas lamentar o cinismo do artista, há um momento no qual este cruza a fronteira do puro mau-caratismo ao encontrar-se com o rapaz enquanto Allan registra a cena à distância, sem que o pobre filho abandonado perceba, demonstrando descaso absoluto para com o sofrimento de mais de uma década do garoto e transformando-o em coadjuvante do reality show de seu repugnante pai.

Calvet é, em suma, um documentário tão canalha quanto seu protagonista. (1 estrela em 5)

 

30) Uma Vida Tranquila (Una vita tranquila, Itália, 2010). Dirigido Claudio Cupellini. Com: Toni Servillo, Marco D’Amore, Francesco Di Leva, Juliane Köhler, Leonardo Sprengler, Alice Dwyer, Maurizio Donadoni.

Quando vemos o chef Rosario Russo (Servillo) pela primeira vez, este se encontra prestes a matar um javali em uma caçada. Trata-se de uma ação certamente corriqueira em seu dia a dia, mas há algo na maneira com que o diretor Claudio Cupellini enfoca a cara do animal e seus olhos quase tristonhos, contrapondo-os à expressão fria do caçador, que nos faz perceber algo mais por trás de tudo aquilo: uma crueldade contida por parte do cozinheiro.

É esta impressão que nos voltará à memória mais tarde quando dois jovens italianos chegam ao hotel/restaurante mantido por Rosario ao lado da esposa e filho alemães: claramente impactado pela visita dos rapazes – especialmente a de Diego (D’Amore) -, o sujeito mostra-se feliz em ver o jovem, mas também tenso em função de algo – e logo percebemos que há algo no passado do personagem que ressurge com aqueles visitantes.

Um dos melhores atores em atividade, Toni Servillo (Il Divo, Gomorra, A Jóia) constrói Rosario inicialmente como um homem de sorriso largo e obviamente à vontade em seu novo país e no papel que construiu para si mesmo: o de pai de família e cozinheiro. Aos poucos, porém, o sujeito vai adicionando uma forte carga de tensão aos modos afáveis do personagem – e é admirável como, em certo momento, Rosario aparentemente abre o mesmo sorriso de antes para o marginal Edoardo (Di Leva, ótimo) e percebemos, em seu olhar, uma clara nota de perigo.

Com um design de produção que evoca o conforto familiar do hotel do protagonista (merecendo destaque seu pequeno escritório, que traz fotos e desenhos do filho), Uma Vida Tranquila perde-se momentaneamente no terceiro ato ao trazer vários incidentes marcantes em sucessão, mas eventualmente reencontra seu caminho no desfecho tristemente irônico – e mais uma vez é preciso aplaudir a lógica visual do longa, que contrapõe a brancura do uniforme de cozinheiro de Rosario, que o acompanhou durante quase toda a narrativa, à escuridão de seu figurino final.

E de seu caráter. (4 estrelas em 5)

Mostra de São Paulo – Dia 06

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Abraços aos alunos Márcio (que fez o curso em Fortaleza) e Charles, que encontrei ontem na correria da Mostra.

E…

 23) Las Acacias (Idem, Argentina, 2011). Dirigido por Pablo Giorgelli. Com: Germán de Silva, Hebe Duarte, Nayra Calle Mamani.

Filme de estreia do roteirista e diretor Pablo Giorgelli, Las Acacias é o longa que os irmãos Dardenne falharam em trazer para a Mostra este ano. Construído basicamente através da observação do comportamento de seus três personagens principais em planos nos quais os diálogos jamais têm a mesma importância que as mais corriqueiras ações, este é um trabalho admirável que já estabelece Giorgelli como uma das grandes revelações de 2011.

Sem contar com um único diálogo em seus dez primeiros minutos, Las Acacias emprega esta introdução para nos apresentar de forma eficiente ao protagonista, o caminhoneiro Rubén (Silva, fantástico), enquanto este inicia sua viagem, faz uma parada em um posto a fim de banhar-se em uma pia e aguarda a chegada da paraguaia Jacinta (Duarte), que concordou em levar a Buenos Aires a pedido do patrão. Surpreso ao constatar que a moça traz consigo um bebê, o sujeito se mostra visivelmente contrariado – e é justamente por termos passado aqueles minutos iniciais ao seu lado que compreendemos perfeitamente por que aquela intrusão representa um aborrecimento em seu silencioso cotidiano.

Buscando o realismo absoluto, Giorgelli descarta, entre outras coisas, qualquer tipo de recurso mais artificial de montagem, como fades, fusões ou elipses muito bruscas, optando também por investir exclusivamente em sons diegéticos para compor sua narrativa (leia-se: tudo que ouvimos ao longo do filme tem origem naquele universo; não há trilha sonora, por exemplo). Desta forma, sentimos a passagem do tempo ao lado dos personagens – e quando Rubén finalmente pergunta a Jacinta qual é seu nome, nos surpreendemos ao constatar que praticamente um dia inteiro de viagem se passou sem que ele demonstrasse a mais básica das cortesias.

Desenvolvendo o relacionamento entre aquelas pessoas de maneira delicada, o filme  é tão sensível em seu olhar que, quando o caminhoneiro joga fora o cigarro que acabara de acender por perceber que a fumaça seria danosa ao bebê, imediatamente enxergarmos naquela atitude aparentemente tão corriqueira uma colossal mudança de comportamento e, a partir deste instante, de fato o homem parece se abrir levemente para suas passageiras.

Não que Rubén se torne outro personagem – e é admirável perceber como, mesmo tornando-se mais simpático, o sujeito mantém seus modos reservados, demonstrando coesão em sua composição. Por outro lado, Giorgelli não precisa de muito para revelar detalhes importantes ao espectador: quando Jacinta pergunta ao motorista se este tem filhos, por exemplo, sua resposta de duas palavras (“Não. (pausa) Tenho.”) é o suficiente para que percebamos um mundo de tristeza e arrependimentos.

Mas se os atores adultos merecem aplausos por seus trabalhos, é mesmo a bebê Anahi (Mamani) quem rouba a cena do início ao fim, já que, além de absolutamente adorável, teve suas ações observadas com tamanha paciência pelo diretor que chega a dar a impressão de ter sido ensaiada, já que brinca, boceja, sorri e fecha os olhos para dormir nos momentos exatos exigidos pela narrativa – e posso apenas imaginar a quantidade de material que a montadora Maria Astrauskas teve que analisar para chegar àqueles planos tão perfeitos.

Permitindo que o espectador apreenda elementos importantes da história dos personagens através de um número reduzido de informações, Las Acacias aproxima o público daquelas pessoas de maneira tão eficiente que, ao final, apenas a respiração mais pesada de Rubén já nos comove profundamente. E, neste aspecto, a inteligência do diretor estreante é também demonstrada quando o sujeito revela não ter visto seu único filho nos últimos oito anos e Jacinta não se preocupa em perguntar o motivo – e nem precisaria, já que sabe que aquela não será uma história feliz.

Las Acacias é um dos melhores filmes desta edição da Mostra de São Paulo. (5 estrelas em 5)

 

24) O Dominador (Haunters, Coréia do Sul, 2010). Dirigido por Kim Min-suk. Com: Go Soo, Kang Dong-won, Choi Deok-Moon.

Quando O Dominador tem início, vemos uma mulher ansiosa arrastando o filho pequeno por uma multidão: com uma prótese no lugar da perna direita e os olhos vendados, a criança surge frágil e vulnerável – e só um pouco depois descobriremos que o garoto, Cho-in (Soo), é de fato o vilão da narrativa. Capaz de controlar as ações de qualquer pessoa que consiga enxergar, o menino cresce para se tornar um verdadeiro psicopata, roubando e matando sem qualquer pudor até que, certo dia, se depara com Gyoo-nam Lim (Dong-won), que se mostra invulnerável ao seu poder.

Trata-se de uma premissa interessante que, infelizmente, o diretor Kim Min-suk desperdiça através de uma abordagem desastrosa que tenta combinar sem sucesso o terror inerente à situação a um humor cartunesco que falha na maior parte do tempo e ainda compromete o peso do restante da narrativa. E isso é lamentável, já que a sequência pré-créditos, que nos apresenta a Cho-in, é eficaz ao nos apresentar ao seu poder e ao trazer planos inteligentes como aquele no qual ele observa um cardume de peixes nadando em sincronia enquanto ele observa tudo diante de um aquário – o que resume numa única imagem sua própria situação de isolamento.

Eis então que o longa salta para acompanhar Gyoo-nam, o suposto herói da história, e tudo começa a se perder. Vivido com modos infantis por Kang Dong-won, o rapaz muitas vezes parece um débil mental com seu sorriso exagerado e modos estabanados – e, assim, quando ele tenta se estabelecer como um herói sério e angustiado, levamos algum tempo para nos ajustar a ideia. Infelizmente, porém, assim que começamos a aceitar a nova situação, o diretor cria momentos que estariam mais à vontade em uma animação, como ao trazer a van dirigida pelo protagonista se equilibrando nas rodas dianteiras depois de uma freada brusca ou ao tentar fazer comédia com os dois amigos do sujeito, que se comportam como caricaturas grosseiras.

Ainda assim, O Dominador consegue capturar nossa atenção através de confrontos bem conduzidos entre mocinho e vilão, construindo também alguns momentos silenciosos que se mostram bastante eficazes – como aquele em que Cho-in, testando seus poderes, controla as ações dos trabalhadores vistos através das várias janelas do prédio diante de seu hotel. Da mesma maneira, vê-lo transformar dezenas de transeuntes em uma espécie de exército zumbi é o bastante para gerar uma forte tensão ao levar o público a compreender os obstáculos no caminho do herói.

No entanto, o fato é que o longa não consegue resistir ao próprio (e falho) senso de humor – e fica difícil levar a sério a morte de personagens importantes, por exemplo, quando a gravidade da situação é constantemente diluída por gags tolas. Além disso, O Dominador peca pelo epílogo estúpido ao tentar revelar-se como um filme de origem de um novo super-herói sem que, para isso, tenha feito qualquer esforço para construí-lo como tal.

Taí uma produção que merecia uma refilmagem.

Observação: os cineastas contemporâneos precisam urgentemente compreender que o plano que traz alguém parado na rua até ser atropelado por um veículo que surge de maneira súbita na tela já se tornou um clichê irritante. (3 estrelas em 5)

 

25) A Ilusão Cômica (L’illusion comique, França, 2010). Dirigido por Mathieu Amalric. Com: Loïc Corbery, Suliane Brahim, Julie Sicard, Muriel Mayette, Cyril Hutteau, Alain Lenglet.

Adaptação da peça de Pierre Corneille, A Ilusão Cômica traz o texto escrito no século 17 para os dias atuais limitando-se a cortar boa parte do original, mas jamais modificando ou acrescentando algo aos seus diálogos. Produzido para a televisão francesa e marcando o retorno de Mathieu Amalric à função de diretor depois de sua excelente estreia em Turnê, o filme conta a história do amor proibido de Clindor (Corbery) e Isabelle (Brahim) e as traições e triângulos (às vezes, pentágonos) amorosos que surgem em função deste romance.

Beneficiado pelos diálogos elegantes e melódicos de Corneille, o longa leva algum tempo até se mostrar completamente à vontade com as rimas do texto, já que inicialmente depende de longas narrações que finalmente cedem lugar à ação propriamente dita, só então permitindo que as falas fluam naturalmente (ainda assim, alguns dos atores falham ao recitarem seus diálogos de maneira excessivamente monocórdia e sem vida).

Inteligente em sua ideia de transformar o mago Alcandre (Pierre) em um detetive particular que basicamente conta toda a história de Clindor ao seu pai através de monitores de segurança – o que também serve como comentário sobre a própria relação entre narrador e espectador -, A Ilusão Cômica é hábil ao transformar um imenso hotel numa versão moderna de um castelo, permitindo, assim, que as ocasionais menções a reis e princesas sejam interpretadas de maneira simultaneamente literal e simbólica.

É uma pena, portanto, que o design de produção com suas cores chapadas e a própria abordagem visual de Amalric se mostrem tão convencionais e desinteressantes, jamais fazendo jus à intensidade de uma trama repleta de reviravoltas e interesses obscuros, transformando A Ilusão Cômica numa mera e decepcionante curiosidade. (2 estrelas em 5)

 

26) Eu, Você, os Outros (Toi, moi, les autres, França, 2010). Dirigido por Audrey Estrougo. Com: Benjamin Siksou, Leïla Bekhti, Cécile Cassel, Marie-Sohna Conde.

Segundo longa de Audrey Estrougo, Eu, Você, Os Outros é um interessante musical urbano que usa uma historinha de amor boba como justificativa para investir em mensagens de fundo político – e mesmo falhando no romance e no protesto, é simpático o bastante para merecer aplausos comedidos.

Demonstrando sua intenção de trazer a magia do musical para o cotidiano urbanizado dos personagens já em seus excelentes créditos iniciais, o filme acompanha Leïla (Bekhti), que, morando num bairro repleto de imigrantes ilegais, está prestes a se formar em Direito. É então que ela conhece o playboy Gabriel (Siksou), que se encontra prestes a se casar, mas prefere passar as noites jogando pôquer e evitando a noiva socialite.

Retratada através de cores intensas e da vivacidade de seus habitantes, a comunidade de imigrantes concebida por Estrougo é um universo vivo e agradável no qual mesmo as constantes batidas policiais são retratadas através de coreografias envolventes e criativas – mas é sinal da inteligência da cineasta que, mesmo que o processo de revista ocorra numa dança, os demais personagens observem a ação da polícia com expressões de realista tensão. Da mesma maneira, mesmo que os figurinos não apelem para a estilização, mostrando-se verossímeis em seu naturalismo, as cores empregadas em seus tecidos refletem a força e a energia daquelas pessoas.

Prejudicado pelas canções irregulares e por vezes aborrecidas, Eu, Você, os Outros ainda assim encanta ao incluir momentos de óbvia magia em sua narrativa, como as borboletas que, simbolizando a paixão dos amantes, encontra vários personagens – e, da mesma maneira, as coreografias simples mas eficazes conferem seu próprio vigor ao filme. Por outro lado, o romance entre Leïla e Gabriel jamais evoca a grandeza e a urgência exigidas pelo filme, já que não acreditamos que aquele envolvimento seja de fato o grande caso de amor que os jovens insistem estar vivendo. Além disso, os conflitos jogados no roteiro soam artificiais e são sempre rapidamente resolvidos para que outro obstáculo possa surgir no caminho dos amantes: em um instante, Leïla descobre que Gabriel é noivo e foge, perdoando-o na cena seguinte; mais tarde, ressente-se ao descobrir que o pai do namorado prendeu sua amiga, mas logo esquece o assunto quando este promete resolver a questão; e assim por diante.

Artificial em sua resolução (que nada resolve de fato), Eu, Você, os Outros ainda soa pretensioso ao incluir em seu clímax imagens de arquivos de um protesto pelos direitos dos imigrantes, trivializando a questão sem, com isso, conferir peso à própria narrativa. Com isso, o filme se apresenta como um musical pontualmente envolvente, mas nada mais do que isso. (3 estrelas em 5)