Novos filmes

Festival do Rio – Dias 03 e 04

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos | 7 comentários

Abraço grande a todos os leitores, alunos e colegas que vieram me cumprimentar durante os últimos seis dias. Eu deveria ter anotado os nomes de todos, mas a correria me impediu de fazê-lo. Considerem-se abraçados como agradecimento pelo carinho. 🙂

 

11) Contágio (Contagion, EUA, 2011). Dirigido por Steven Soderbergh. Com: Matt Damon, Laurence Fishburne, Marion Cotillard, Kate Winslet, Elliott Gould, Jude Law, John Hawkes, Enrico Colantoni, Bryan Cranston, Jennifer Ehle, Gwyneth Paltrow.

Contágio é um Epidemia que se leva a sério e que, para provar isso, adota uma estrutura dividida em várias linhas narrativas (como em Traffic, que Soderbergh dirigiu há 11 anos) a fim de tentar retratar o que aconteceria caso a Gripe Espanhola ou a Peste Negra se espalhassem pelo planeta nos dias de hoje. Assim, de um lado temos os cientistas em uma busca desesperada pela identificação do agente patogênico e de uma possível cura ou vacina enquanto, de outro, acompanhamos os aspectos políticos e econômicos envolvidos – tudo isso através de personagens que raramente têm tempo de tela suficiente para se tornarem mais desenvolvidos, comprometendo uma das facetas mais importantes da narrativa: a humana.

Escrito por Scott Z. Burns e iniciando já no “Dia 2” da epidemia, Contágio já se apresenta ao espectador como uma ode à paranoia: depois de ouvirmos uma tosse insistente, somos apresentados a Beth Emhoff (Paltrow), que, doente, encontra-se em um aeroporto – e de forma nada sutil (algo inevitável neste caso, devo reconhecer), Soderbergh já usa sua câmera para salientar as inúmeras superfícies de transmissão da doença à medida que a garota toca em uma tigela de amendoins, entrega o cartão de crédito a uma garçonete (que, por sua vez, esfrega os dedos na tela do computador) e por aí afora. Com o palco montado, o filme então pode se concentrar naquilo que interessa de fato: a disseminação do vírus e a reação do mundo a esta.

Com um elenco formidável (mesmo: releiam a lista no início deste texto), o longa usa nossas ligações já estabelecidas com estes atores através de trabalhos anteriores para facilitar seu trabalho de mergulhar o espectador na história, já que sabe que não terá tempo hábil para desenvolver os personagens durante a narrativa – e, assim, quando vemos Matt Damon recebendo a notícia, logo no início da projeção, da morte da esposa e do enteado (mais um pai enlutado no Festival do Rio 2011), sentimos por ele não tanto por sua ligação com a família, mas porque, droga!, Matt Damon não merecia isso! Da mesma forma, Fishburne, o eterno Morpheus de Matrix, exala autoridade e segurança como o chefe do Centro de Controle de Doenças, ao passo que Kate Winslet, até mesmo pela trajetória de sua cientista na trama, tem a oportunidade de provocar um pouco mais de impacto no público. Em contrapartida, se Marion Cotillard praticamente desaparece na metade da projeção em função de um incidente patético e artificial (não, não estou revelando o destino da personagem), Jude Law, talvez temendo se perder em meio a um elenco tão grandioso, apela para próteses dentárias e tiques nervosos com o objetivo de se destacar – e consegue.

Devotando bastante tempo e atenção aos aspectos científicos da questão, Contágio tem seus melhores momentos quando se concentra na busca pelo vírus e sua origem, nas explicações sobre seus mecanismos de transmissão, taxa de mortalidade e formas de ação, bem como nas reações dos personagens a estas informações – e mesmo não alcançando a complexidade de O Enigma de Andrômeda, ao menos é perceptível que o filme fez sua pesquisa básica para conferir verossimilhança à narrativa. Infelizmente, à medida que a epidemia devasta o planeta, Soderbergh deixa de lado as sutilezas e converte o longa num drama pós-apocalíptico que talvez servisse como um capítulo anterior de A Estrada ou O Livro de Eli, sem aparentemente perceber que já vimos sequências de devastação, pessoas destruindo vitrines e ateando fogo a carros em dezenas de outras produções. Além disso, o roteiro pesa a mão na caricatura ao trazer os representantes do governo e da burocracia como indivíduos estúpidos que custam a enxergar a gravidade da situação mesmo quando milhares de pessoas já se encontram mortas – e as cenas que trazem teleconferências envolvendo políticos de vários países chegam a soar constrangedoras de tão infantis.

Esforçando-se para tentar adivinhar o papel que a Internet desempenharia numa situação como esta, Contágio basicamente retrata a rede como uma força negativa e destrutiva que, servindo para espalhar boatos e desinformação, provocaria muito mais o mal do que o bem (“Blogar é grafitar com pontuação”, diz o personagem de Gould em certo momento – e mesmo que o diálogo seja ótimo, a generalização que contém é injusta e inverídica). Ainda assim, considerando o pânico desproporcional provocado pela gripe suína recentemente (algo que o filme acertadamente comenta), não deixa de ser interessante imaginar como uma epidemia realmente letal seria retratada pela mídia, que tanto se beneficiou em termos de audiência e publicidade ao investir em inúmeras matérias sensacionalistas sobre o H1N1, sendo lamentável que Contágio se mostre, portanto, tão benevolente ao retratar o papel da televisão e dos jornais neste sentido, preferindo se concentrar no lado “maligno” da Internet.

Tecnicamente competente, a produção se destaca principalmente graças à eficiente montagem de Stephen Mirrione, que mantém todas as linhas narrativas numa alternância fluida e orgânica, e à boa trilha de Cliff Martinez, que em diversos momentos compõe uma cadência repetitiva e ritmada que ressalta de forma tensa a passagem do tempo. Por outro lado, a fotografia do próprio Soderbergh jamais sai do lugar comum, chegando a ser contraproducente ao investir em cores quentes e agradáveis nas cenas que enfocam Laurence Fishburne mesmo que o que ali esteja sendo enfocado nada tenha de positivo – e não estou defendendo que a fotografia tenha sempre que ressaltar a atmosfera evocada pelo roteiro, mas tampouco creio que – neste caso – se beneficie ao contradizê-la.

Com um desfecho tolo que tenta enviar o espectador para fora do cinema com a sensação artificial de “resolução”, Contágio acaba não fazendo jus às ambições de sua narrativa, surgindo como pouco mais do que um convencional filme-desastre – mas com Gwyneth Paltrow no lugar de um terremoto. (3 estrelas em 5)

 

2)      12) Um Método Perigoso (A Dangerous Method, Canadá, 2011). Dirigido por David Cronenberg. Com: Michael Fassbender, Keira Knightley, Viggo Mortensen, Sarah Gadon, Vincent Cassel.

O cineasta David Cronenberg construiu sua carreira a partir de personagens psicologicamente fascinantes e complexos, muitas vezes extraindo o terror não da violência gráfica (embora também seja um mestre nisso), mas do puro horror exercido pela mente de seus protagonistas. Assim, é até natural que o diretor invista, neste seu novo trabalho, em um mergulho na origem da psicanálise ao enfocar o embate verbal e ideológico entre seus dois mais célebres expoentes, Freud e Jung, sendo uma pena, portanto, que o filme se revele apenas burocrático e jamais explore o potencial dramático de sua premissa.

Escrito por Christopher Hampton a partir de sua peça e do livro “A Most Dangerous Method” de John Kerr, o roteiro nos apresenta a princípio à perturbada Sabina Spielrein (Knightley), que, histérica, é internada pelos pais em uma clínica/manicômio até que, subitamente, a porta de seu quarto se abre e um homem de aparência elegante e modos comedidos entra e se apresenta: “Eu sou o doutor Jung”. A partir daí, acompanhamos o tratamento de Sabina através de um procedimento inovador e controverso que o médico (Fassbender) apresenta como sendo uma “cura pela conversa” – o que eventualmente o leva a se encontrar com Sigmund Freud (Mortensen) enquanto tentam estabelecer uma parceria que torne a psicanálise mais aceita pela comunidade médica. Porém, eventualmente as discordâncias entre os dois homens começam a minar suas relações, já que Freud parece acreditar que todas as questões remetem ao sexo, ao passo que Jung começa a permitir que sua religiosidade afete sua abordagem clínica, passando a apostar, entre outras coisas, na parapsicologia.

Já de início, portanto, o roteiro de Hampton deixa evidente uma de suas principais fraquezas: a maneira limitada, unidimensional, com que enxerga os dois homens e suas contribuições para a ciência que ajudaram a criar. Se Jung é visto como um sujeito altamente influenciável e em aparente busca de uma figura paterna, Freud se transforma quase numa caricatura defendida apenas por quem não conhece de fato sua obra, já que as “pulsões sexuais” descritas pelo sujeito iam muito além da mera obsessão pelo ato sexual. Além disso, as origens teatrais do roteiro ficam bastante evidentes através da insistência em usar um excesso de diálogos para apresentar os personagens e seus dilemas e personalidades ao espectador – e a profunda espiritualidade de Jung, por exemplo, é mais expressada por palavras do que por atos, ficando difícil, para o público, aceitar que ela se torne tão influente em seu trabalho quando mal o vemos praticando de fato sua fé. Como se não bastasse, a troca de cartas entre Freud e Jung se torna um recurso narrativo central do filme (algo evidenciado já nos créditos iniciais), falhando em conferir dinamismo ao longa e apelando, mais uma vez, às falas em vez de às imagens.

Sim, a distância geográfica entre os dois homens certamente dificulta a inclusão de mais cenas que os tragam dividindo a tela, mas uma licença dramática neste sentido seria plenamente justificável e tornaria o processo bem mais intrigante do que as inócuas trocas de correspondência, que, por sua própria natureza, conferem um tom morno às fascinantes discussões que mantém. Além disso, sempre que Jung e Freud surgem juntos em cena Um Método Perigoso imediatamente ganha peso e interesse, mesmo quando os dois discutem temas como os perigos da transferência e da contratransferência na relação médico-paciente ou os intrincados sonhos de Jung (Freud se recusa a expor seus próprios sonhos ao colega por temer que isto “comprometeria sua autoridade” – e o fato de admitir esta pequena vaidade é divertido e revelador).

Oferecendo uma performance controlada na qual o tom de sua voz raramente parece oscilar, Viggo Mortensen cria um Freud repleto de autoridade e inteligência, ao passo que Michael Fassbender compõe Jung como um homem em busca da própria personalidade e de valores éticos, científicos e morais que possa defender, estabelecendo uma dinâmica admirável com seu colega de cena. Por outro lado, Keira Knightley, como Sabina, surge absolutamente constrangedora no primeiro ato da projeção, exagerando de maneira imperdoável (e hilária) ao retratar a histeria da garota através de um excesso de gagueiras, espasmos e – o pior – da insistência em projetar a mandíbula para frente, criando uma figura grotesca e absurda. Além disso, sua insistência em dizer praticamente todos os seus diálogos aos gritos é no mínimo irritante. Assim, quando Sabina evolui na terapia e Knightley se mostra mais contida, já é tarde demais e o espectador sente dificuldade em acreditar na personagem e em seus dilemas. Aliás, é interessante notar como Vincent Cassel, embora também retrate Otto Gross como uma caricatura niilista, cria uma performance bem mais convincente do que a de sua colega de elenco, o que é no mínimo curioso.

Contando com o excelente design de produção de James McAteer, cuja equipe faz um trabalho impecável de recriação de época e se destaca principalmente graças a detalhes como os objetos de cena vistos nos consultórios de Freud e Jung, Um Método Perigoso também traz os esforços do montador Ronald Sanders para conferir unidade à narrativa – mas o sujeito acaba falhando mais em função da estrutura concebida pelo roteiro, que frequentemente apela para saltos abruptos no tempo, do que por sua própria falta de competência. Já Cronenberg adota uma abordagem curiosa e inteligente em sua lógica visual, constantemente empregando uma profundidade de campo grande que, associada aos quadros que trazem um personagem à frente e à direita e outro mais atrás e no lado oposto, ressalta ao mesmo tempo a proximidade psicológica entre aquelas figuras e a hierarquia entre elas, expondo visualmente a própria dinâmica da psicanálise (além disso, o cineasta se diverte ao apenas sugerir sua estabelecida escatologia ao trazer Sabina espremendo uma substância que, embora remeta às fezes pelas quais a personagem é obcecada, se revela apenas como comida – uma brincadeira que ele repete ao trazê-la coberta de lama num lago).

Infelizmente, nada disso é o bastante para que o filme se estabeleça como algo além do burocrático, já que a teatralidade excessiva e a completa falta de atmosfera transformam Um Método Perigoso em uma mera curiosidade na carreira de seu talentoso realizador.

Observação: a insistência das obras contemporâneas em empregar o greenscreen para facilitar o trabalho da produção vem comprometendo cada vez mais estes trabalhos. Em certo momento de Um Método Perigoso, por exemplo, vemos os personagens a bordo de um navio e imediatamente percebemos que o mar nada mais é do que uma projeção atrás do pedaço de cenário que simula a embarcação, o que imediatamente nos tira do filme ao expor o fazer cinematográfico. Não creio que um projeto como este teria tantas dificuldades em rodar aqueles planos específicos sobre a água e, assim, o greenscreen denuncia apenas a preguiça e o descaso dos realizadores. (3 estrelas em 5)

 

1)      13) Políssia (Polisse, França, 2011). Dirigido por Maïwenn Le Besco. Com: Karin Viard, Joey Starr, Marina Foïs, Maïwenn Le Besco, Karole Rocher, Nicolas Duvauchelle, Emmanuelle Bercot, Frédéric Pierrot, Arnaud Henriet.

De todas as formas de violência possíveis, talvez aquelas que mais nos afetem seja as dirigidas contra crianças. É preciso um tipo especial de canalhice para ferir física ou psicologicamente criaturas tão indefesas, ingênuas e confiantes – e mal posso imaginar o peso sentido por aqueles que devotam suas vidas a lidar com crimes desta natureza. São estes profissionais, aliás, que protagonizam este Políssia (não me perguntem a razão da grafia incorreta na tradução), cujo roteiro usou como base apenas casos reais observados pela diretora, co-roteirista e atriz Maïwenn Le Besco no tempo que acompanhou os trabalhos da Divisão de Crimes contra Menores da polícia francesa.

Assumindo um tom documental através da câmera sempre na mão que parece observar os acontecimentos sem planejamento, o filme não investe em uma trama específica, preferindo, em vez disso, se concentrar nas relações entre os vários policiais que compõem o departamento e alguns dos casos que caem em suas mãos. Assim, ao longo dos 127 minutos de projeção temos a chance de realmente conhecermos aquelas pessoas e seus traços de personalidade, desde o caráter explosivo e impulsivo de Fred (Starr) até o cinismo de Iris (Foïs), passando pela emotividade de Nadine (Viard) e a paixão de Mathieu (Duvauchelle) pela parceira Chrys (Rocher).

Para alcançar este efeito, o roteiro de Maïwenn e Emmanuelle Bercot (ambas também presentes no elenco) enfoca os detetives em diversos momentos isolados de seu cotidiano: em um momento, acompanhamos um interrogatório que denota o tato que devem ter ao questionar testemunhas infantis; em outro, surge dançando e bebendo numa boate apenas para, em seguida, brigarem raivosamente por causa de uma bobagem qualquer. Da mesma maneira, o filme não se furta de retratar as frustrações profissionais que fazem parte do trabalho, como no instante em que os policiais descobrem que um de seus carros foi requisitado por outro departamento ou aquele em que um suspeito bem relacionado consegue se livrar sem maiores consequências. No entanto, mais importante é perceber como aquelas pessoas acabam atuando como suporte psicológico umas das outras, como, por exemplo, na cena em que uma detetive muçulmana confronta um sujeito da mesma religião que obrigou a filha a se casar e seus colegas se colocam atrás dela para apoiá-la em sua explosão de revolta.

Infelizmente (ou felizmente?), por mais acostumados que estejam com a natureza de seu trabalho, os homens e mulheres retratados em Políssia não conseguem se desvencilhar das barbaridades que testemunham e nem se desligar das tarefas quando chega o momento de ir para casa – e, neste sentido, é comovente perceber como Fred se deixa afetar por um garotinho que deve ser afastado da mãe, moradora de rua, e como todos comemoram felizes a notícia de que um bebê ferido pela mãe drogada irá se recuperar.

Com um elenco homogeneamente soberbo (o que inclui os atores mirins em pequenas e fortes participações), Políssia se revelou, com sua complexidade temática e sua abordagem narrativa fascinante, um dos melhores trabalhos exibidos neste Festival do Rio. (5 estrelas em 5)

 

2)      14) Michael (Idem, Áustria, 2011). Dirigido por Markus Schleinzer. Com: Michael Fuith, David Rauchenberger, Christine Kain, Ursula Strauss, Victor Tremmel.

Quando Michael tem início, acompanhamos a chegada do personagem-título à sua casa após mais um dia de trabalho. Depois de estacionar o carro, guardar seus pertences e preparar o jantar, ele se dirige a uma porta pesadamente protegida em seu porão e, abrindo-a, diz a alguém que ali se encontra que é hora de comer. Só então vemos a figura diminuta de um menino de sete anos de idade e percebemos que aquele aparentemente inofensivo cidadão é, na verdade, um monstro.

Escrito e dirigido por Markus Schleinzer (uma bela estreia em ambas as funções), o longa se dedica à dificílima tarefa de humanizar um pedófilo que, também sequestrador, mantém uma criança como prisioneira por um longo tempo, usa-a como mero objeto sexual. Porém, “humanizar” não é, obviamente, o mesmo que “justificar” – uma distinção importantíssima neste caso, já que, embora passamos a enxergar Michael como um ser humano tridimensional que tem família, canta no carro, tira férias e prepara guloseimas para os colegas de trabalho, é também uma criatura vil cuja psicopatia é evidenciada por sua decisão de cavar um buraco num local isolado ao descobrir que seu pequeno prisioneiro encontra-se adoentado e pode vir a falecer.

Vivido de forma introspectiva e assustadora por Michael Fuith, o personagem-título é retratado pela narrativa através de diversos recortes de seu cotidiano – e a decisão de Schleinzer e de seu montador de constantemente interromperem cenas de forma abrupta, como as abandonando pela metade, evoca uma ideia de continuidade e repetição bastante eficaz. Além disso, o cineasta tem o bom senso de jamais retratar as ações criminosas de Michael de maneira gráfica, sugerindo com economia a crueldade do sujeito (em certo momento, por exemplo, vemos o protagonista entrando no quarto da vítima apenas para, através de um corte seco, já o acompanharmos enquanto lava o pênis na pia do banheiro).

Pois o fato é que obras como esta e O Lenhador não só são importantes como estudos de personagem e por retratarem temas relevantes como ainda contribuem ao nos lembrar de que, embora monstruosas em suas ações, estas criaturas exibem fachadas de normalidade perfeitamente convincentes – o que, paradoxalmente, as tornam ainda mais assustadoras e perigosas. (4 estrelas em 5)

 

3)      15) Histórias que Só Existem Quando Lembradas (Idem, Brasil, 2011). Dirigido por Júlia Murat. Com: Sonia Guedes, Luiz Serra, Lisa Fávero, Ricardo Merkin, Antonio dos Santos.

Rita é uma jovem fotógrafa que, certo dia, chega a um vilarejo habitado por cerca de uma dúzia de velhinhos. Hospedando-se na casa da viúva Madalena, que todos os dias acorda de madrugada para fazer o pão que será vendido aos vizinhos na mercearia do amigo Antônio, a garota se dedica à tarefa de registrar o lugarejo e seus moradores através de fotos de longa exposição que, por sua própria natureza, funcionam como uma metáfora perfeita daqueles indivíduos idosos que, como velhos fantasmas numa cidade de pedra, estão se apagando aos poucos diante de seus velhos e permanentes lares.

Com uma montagem inteligente que salienta a natureza repetitiva do cotidiano daqueles indivíduos, permitindo que o espectador imediatamente repare em qualquer modificação mínima da rotina, o longa de Júlia Murat (filha de Lúcia) explora com inteligência suas evocativas locações e os cenários, empregando a fotografia de Lucio Bonelli para criar uma atmosfera de placidez que, contraposta às sombras duras e à decisão de frequentemente trazer os personagens deslocados para o canto dos quadros, estabelece um tom simultaneamente onírico e profundamente realista – e o fabuloso elenco também contribui para este curioso naturalismo de sonhos.

Mas o mais interessante em Histórias que Só Existem Quando Lembradas (que belo título) é perceber como, mesmo co-escrito e dirigido por uma cineasta jovem, o filme oferece reflexões sensíveis sobre nossa percepção da memória e sobre a própria efemeridade da vida, que, mesmo aos 15, 50 ou 90 anos de idade, parece ter passado como um piscar de olhos. Assim, quando um personagem aponta que o fato de ter perdido uma namorada aos 18 anos tem seu lado positivo por fazê-lo se sentir com aquela idade ao se lembrar da moça, sentimos um breve arrepio de reconhecimento por sabermos como nossas memórias representam não só um coletivo de experiências, mas também de sensações que permitem, ao seu próprio modo, pequenas viagens no tempo como esta descrita por aquele homem. Da mesma maneira, a própria atividade artística/profissional de Rita (vivida pela bela e talentosa Lisa Fávero) atua como mais um símbolo da importância que conferimos ao passado, às nossas lembranças e também de como os reinterpretamos de acordo com o momento no qual nos encontramos no presente.

Com um ritmo calmo e quadros predominantemente estáticos que levam o espectador a adotar uma postura contemplativa, este trabalho de Júlia Murat é ambicioso, corajoso e aponta sua diretora como um nome a ser observado de agora em diante. (4 estrelas em 5)

 

1)      16) A Jóia (Il gioiellino, Itália, 2011). Dirigido por Andrea Molaioli. Com: Toni Servillo, Remo Girone, Sarah Felberbaum, Lino Guanciale, Vanessa Compagnucci, Fausto Maria Sciarappa, Lisa Galantini, Jay O. Sanders.

            Em 2003, a Parmalat italiana, até então vista pelo público e por boa parte do mercado como sendo uma companhia de imenso sucesso e em franca expansão, surpreendeu a todos ao quebrar de maneira espetacular, revelando, no processo, longas práticas de manipulação financeira, corrupção e sonegação. Aqui transformada numa gigante do laticínio batizada de “Leda” (mas que tem logomarca e embalagens obviamente inspiradas nas da Parmalat), a empresa e seus altos executivos se estabelecem como a base de um complexo e interessante roteiro escrito pelo diretor Andrea Molaioli ao lado de Ludovica Rampoldi e Gabriele Romagnoli.

            Orgulhoso da empresa que fundou e encabeça, Amanzio Rastelli (Girone) é um homem que não se cansa de repetir que, para ele e sua companhia, os “valores vêm antes do dinheiro” – um mantra que constantemente entra em conflito com a realidade da Leda, que vive em crônicas dificuldades financeiras apesar de dominar o mercado (“Leite não dá lucro!”, diz a irmã e sócia do executivo ao defender a venda da corporação). Determinado a manter a aparência de sucesso e mesmo a entrar em outros mercados, Rastelli e seu braço direito financeiro, o dedicado Ernesto Botta (Servillo), se empenham em sempre conseguir novas formas de financiamento para seus projetos, eventualmente cruzando a fronteira da ilegalidade praticamente sem olharem para trás.

            Vivido por Remo Girone como um homem cujo idealismo parece servir de mero disfarce para um pragmatismo que beira a falta de escrúpulos, Rastelli adota uma estratégia conveniente para manter a pose de integridade ao deixar boa parte dos problemas econômicos de sua empresa a cargo de seus executivos mais próximos, só se envolvendo nas questões mais graves quando inevitável (até que isto parece ocorrer em tempo integral). Orgulhoso, teimoso e arrogante, Rastelli ainda se revela um covarde ao atribuir aos demais a responsabilidade por suas próprias falhas – e não é à toa que algumas destas mesmas características acabam se refletindo em sua sobrinha Laura (Felberbaum), mesmo que em menor escala.

            Porém, a figura central de A Jóia é mesmo o inteligente Botta, encarnado pelo sempre brilhante Toni Servillo como um homem solitário e introspectivo cujas maneiras controladas frequentemente cedem lugar a assustadoras explosões e a tiradas certeiras. Dedicando-se de corpo e alma a uma empresa da qual é mero funcionário, já que nem mesmo possui ações da Leda, o chefe financeiro da companhia jamais parece descansar – e, assim, quando o vemos em casa usando um casaco com a marca de sua empregadora, percebemos que sua devoção a Rastelli e à Leda beira a obsessão.

            Investindo numa fotografia que ressalta o aspecto sombrio dos bastidores do poder, trazendo os personagens em salas escuras e cobertas de fumaça que poderiam ter saído de um filme sobre a Máfia, A Jóia conta uma história que eventualmente atinge vários países e diferentes níveis de poder, mostrando de maneira didática e envolvente como os esquemas de Botta e Rastelli vão se tornando cada vez mais complicados e graves – e se inicialmente os dois parecem agir sem má fé, interessados apenas em recuperar a empresa para, em seguida, consertarem a situação, eventualmente percebemos como deixam de avaliar a proporção que as coisas tomaram, prejudicando milhares de pessoas (como os empregados e investidores da Leda) apenas porque não aceitam a ideia de que podem ter perdido o jogo.

            Repleto de diálogos memoráveis e atuações impecáveis, A Jóia é um filme que entretém ao mesmo tempo em que se estabelece como um preocupante retrato da filosofia presente em boa parte das grandes corporações da atualidade e de seus altos executivos, que parecem se julgar acima de tudo e de todos. (4 estrelas em 5)

 

2)      17) O Dublê do Diabo (The Devil’s Double, Bélgica, 2011). Dirigido por Lee Tamahori. Com: Dominic Cooper, Ludivine Sagnier, Raad Rawi, Philip Quast, Mimoun Oaïssa, Nasser Memarzia.

            O cineasta neozelandês Lee Tamahori nunca dirigiu um grande filme – o mais próximo que chegou disso foi com o bom No Limite, de 1997, e o mais distante foi em 007 – Um Novo Dia para Morrer. Ou melhor: não mais, já que este O Dublê do Diabo abre um buraco dentro do porão que já existia no fundo do poço da carreira do diretor. E tudo isso para que ele tente transmitir uma mensagem corajosa e surpreendente: Uday Hussein, filho de Saddam, não prestava. Mal posso esperar para ver o que Tamahori tem a dizer sobre Hitler.

            Escrito – possivelmente com lápis de cera em cartolina – por Michael Thomas a partir do livro autobiográfico de Latif Yahia, o roteiro gira em torno deste último, que, vivido por Dominic Cooper, é obrigado por Uday a assumir o papel de seu dublê em função da grande semelhança física entre ambos. Sem ter outra opção a não ser a de se submeter às cirurgias plásticas exigidas pelo cargo e a permitir que sua família o julgue morto, Latif eventualmente cria imensa aversão pelo empregador, que acaba se revelando um psicopata-pedófilo-serial killer-filhinho de mamãe-drogado-alcoólatra-feio-bobo-cabeça de melão.

            Aparentemente sem conhecer o significado de “sutileza” (ou mesmo as letras que compõem esta palavra), Thomas e Tamahori trazem Uday exibindo vídeos de tortura para os amigos apenas por prazer, estripando amigos da família em acessos de explosão, estuprando noivas no dia de seu casamento e perseguindo colegiais (cujas idades são ressaltadas pelo fato de usarem aparelhos nos dentes) a fim de violentá-las e matá-las. Tudo isso enquanto usa figurinos absurdos que o transformam numa caricatura ainda maior.

            Certamente julgando que a oportunidade de interpretar um papel duplo lhe valeria uma chuva de prêmios e elogios, o limitado Dominic Cooper apela para a opção mais fácil ao assumir tarefas do tipo: converte Uday e Latif em extremos absolutos, descartando qualquer nuance ou complexidade em suas composições. Assim, enquanto Latif surge como um sujeito sempre de expressão séria e contrariada, Uday se estabelece como uma espécie de Scarface – caso este fosse interpretado por Borat.

            Como resultado, temos um Uday tão absurdo e divertido que frequentemente sentimos o impulso de rir de suas ações em vez de condená-las – e, no processo, o filme consegue apenas fazer com que Saddam, por contraste, se apresente até como um indivíduo razoavelmente sensato. E não creio que esta tenha sido a intenção de seu pavoroso diretor. (1 estrela em 5)

 

3)      18) Ninja Kids!!! (Nintama Rantarô, Japão, 2011). Dirigido por Takashi Miike. Com: Seishirô Katô, Shidô Nakamura, Rei Dan, Susumu Terajima, Takahiro Miura, Takuya Mizoguchi.

            Ah, Takashi Miike. Como é possível que um cineasta experiente que traz dúzias de títulos em seu currículo – vários memoráveis, como Ichi the Killer e Uma Chamada Perdida – seja capaz de comandar um desastre como este Ninja Kids!!!? Baseado em um mangá adorado pelo público japonês e que vem sendo publicado há quase três décadas, este aborto cinematográfico aparentemente tenta encaixar todos os personagens que já apareceram na publicação ao longo de seus 100 minutos de duração, criando uma experiência não apenas estúpida, mas também incompreensível.

            Estabelecendo o tom fabulesco já em seus primeiros minutos ao trazer imagens como a de uma árvore imponente vista no alto de um morro e sob um céu brilhante enquanto folhas em suspensão cercam o pequeno protagonista, Ninja Kids!!! parece uma espécie de Harry Potter versão samurai, focando nos esforços de Rantaro (Katô), um menino de cabelos desgrenhados e imensos óculos redondos, enquanto este tenta se tornar o primeiro ninja de sua família a se formar na escola comandada por um veterano desdentado que adora impressionar seus jovens alunos.

            Concebido para atingir o público infantil (algo que fica claro também no grafismo colorido e alegre de seu título), o filme frequentemente emprega gags visuais voltadas para crianças e envolvendo melecas, peidos e cocô de cachorro, além de cobrir seus atores adultos de próteses, perucas e outros recursos de maquiagem a fim de transformá-los em criaturas fantásticas e divertidas – tudo isso sem sucesso, já que acaba soando apenas grosseiro e raramente engraçado.

            Com um outro momento de inspiração (como o comentarista ninja que rasga a tela esporadicamente para explicar alguns conceitos), Ninja Kids!!! é predominantemente tolo e confuso – e mesmo o design de produção e os figurinos imaginativos acabam soando, graças ao roteiro sem estrutura ou lógica e à direção histérica, como cobertura de chocolate em um bolo de câncer.

            De acordo com uma das variantes do teorema do macaco infinito, se pudéssemos manter milhares de macacos datilografando ininterruptamente ao longo de séculos, eventualmente os animais acabariam reproduzido toda a obra de Shakespeare. Porém, para saber o que apenas um macaco faria em três ou quatro dias, basta assistir a Ninja Kids!!! .(1 estrela em 5)

Críticas – 07/11/2011

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A partir de hoje publicarei aqui a cobertura do Festival do Rio.

Enquanto isso, fiquem com as críticas de A Hora do Espanto e Capitães da Areia.

Videocast – Conan, o Bárbaro

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Críticas – 09/09/2011

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Cowboys & Aliens, Além da Estrada e Uma Doce Mentira.

Críticas – 02/09/2011

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Apollo 18.

Update: O Homem do Futuro.

Críticas – 27/08/2011

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Planeta dos Macacos: A Origem.

Críticas – 12/08/2011

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A Árvore da Vida.

Update: Super 8.

Críticas – 05/08/2011

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Melancolia.

Update: Quero Matar Meu Chefe.

Críticas – 29/07/2011

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Capitão América: O Primeiro Vingador.

Críticas – 15/07/2011

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Update: crítica de Harry Potter 7.2 no ar.

Cilada.com

Ainda hoje publicarei a crítica de Harry Potter 7.2, mas, até lá, fiquem com o videocast que gravei sobre o filme: