Novos filmes

Dublagem para os Dubladores

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Discussões, Novos filmes, Vídeos | 59 comentários

A crítica de Enrolados está no ar, mas decidi copiar aqui a segunda parte do texto por achar que poderia render discussões interessantes:

Dublagem para os Dubladores

Imaginem A Bela e a Fera se comunicando com as vozes de Doris Giesse e Conrado. Ou Woody e Buzz Lightyear soando como Luiz Thunderbird e Max Fivelinha. Considerando a óbvia motivação por trás da escalação do apresentador Luciano Huck para a dublagem do galã Flynn Ryder em Enrolados, estes cenários seriam perfeitamente plausíveis, já que os quatro nomes citados se encontravam em grande evidência na época do lançamento daqueles belíssimos filmes. (E se não conseguiu se lembrar de nenhum deles, isto indica que você tem menos de 30 anos de idade ou uma memória seletiva como a de Sherlock Holmes, que se orgulhava de não guardar nenhum fato irrelevante na mente.)

Felizmente, porém, o bom senso prevaleceu e profissionais competentes em dublagem responderam pela tarefa fundamental de conferir vida e personalidade a personagens tão importantes (Ju Cassou, Garcia Jr., Alexandre Lippiani e Guilherme Briggs, respectivamente) – e se normalmente sou contra a dublagem de produções com atores de carne-e-osso, sempre abracei sem reservas as vozes brasileiras das animações por acreditar que, afinal, estávamos substituindo o trabalho de um ator por outro (em vez de apenas parte deste trabalho, o que considero um absurdo) e que a seleção destes intérpretes era feita com cuidado e levava em consideração as exigências específicas de cada papel. Até que Bussunda dublou Shrek, Paulo Vilhena protagonizou O Espanta Tubarões, o Pânico na TV chacinou Asterix e os Vikings e a coisa se perdeu de vez – e se não chamo a dublagem de Luciano Huck em Enrolados de “pavorosa” é por não querer ofender o adjetivo em época de reforma ortográfica.

Porque o que os executivos responsáveis pela decisão parecem não perceber é que dublar é muito mais do que dizer as falas traduzidas para o português; até mesmo atores veteranos e talentosos enfrentam dificuldades com a tarefa, já que, além de serem obrigados a conferir espontaneidade e significado aos diálogos, ainda devem recitá-los em sincronia perfeita com os movimentos dos lábios dos personagens – e o que dizer então de não-atores como Bussunda, equipe do Pânico e Huck, que já teriam dificuldade apenas com a composição de seus personagens? Com isso, o que se vê em Enrolados é um Flynn Ryder cujas expressões corporais e faciais denotam uma vivacidade e um dinamismo que simplesmente não encontram reflexo nas palavras sem personalidade que saem de sua boca – e com isso Huck consegue a proeza de desperdiçar todas as piadas e gags protagonizadas pelo sujeito, que se torna um vácuo de carisma na tela.

Mas não culpo o apresentador pelo desastre absoluto representado pela dublagem de Enrolados e que compromete de forma irremediável a versão brasileira, já que isto seria o mesmo que culpar a faca usada por um psicopata para apunhalar alguém (e como pai de filhos pequenos, entendo perfeitamente a tentação de ganhar pontos com a prole ao surgir como (anti-)herói de um filme da Disney). Não, os responsáveis por este crime são aqueles que o convidaram a assumir uma função para a qual não tinha o menor talento, competência ou mínima experiência – e que deveriam ter seguido o exemplo de seus colegas em outros países: basta dizer que se na França o escalado foi Romain Duris, três vezes indicado ao César Awards (o Oscar francês), aqui ficamos presos ao apresentador do “Lata Velha”.

E acreditem: eu gostaria muito de estar exagerando. Aliás, se julgasse possível baixar as expectativas do público a ponto de levá-lo a considerar o trabalho de Huck até razoável, eu afirmaria até mesmo que a dublagem do sujeito é potencialmente letal e capaz de destruir todos os sonhos e esperanças dos espectadores que a testemunhassem – mas, em vez de exagero, creio que isto representaria apenas uma meia-inverdade. (Eu não me surpreenderia caso ela provocasse distúrbios genéticos, por exemplo.)

Mas o mais triste é saber que dentro de 50 anos, quando o nome de Luciano Huck for apenas uma vaga lembrança na mente de meia dúzia de fanáticos pela história da televisão brasileira, tornando inválida até mesmo a motivação para escalá-lo, o filme continuará a existir e a ser prejudicado por sua voz. E quando meus bisnetos perguntarem por que aquele namorado da Rapunzel conversa de forma tão mecânica, artificial e sem graça, responderei apenas: “Não faço idéia. Agora troquem minha fralda”.

E esta será uma tarefa mais agradável para meus descendentes do que continuar a escutar a tortura que é Enrolados em português.

Update: Para quem quiser “degustar” a dublagem de Huck antes de ir ao cinema (agradeço ao Platy pelo link):




E comparem com o trailer, que contou com alguém que claramente sabia o que estava fazendo:

A Última Crítica de 2010

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Cisne Negro.

Hugh Hefner e Joan Rivers: O Passado os Absolve

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes | 3 comentários

Assisti recentemente a dois documentários que poderiam perfeitamente formar uma interessante sessão dupla: Joan Rivers: A Piece of Work e Hugh Hefner: Playboy, Activist and Rebel. Em comum (além de serem ótimos filmes) há o fato de que lidam com figuras que, embora importantes e intrigantes, atualmente são encaradas por grande parte do público como piadas ambulantes – o que se revela uma injustiça quando consideramos a trajetória que percorreram ao longo de suas carreiras.

Dirigido pela dupla Ricki Stern e Anne Sundberg, mais conhecidas por seu cinema político (o bom The Devil Came on Horseback sendo seu trabalho mais notório), Joan Rivers acompanha a comediante do título ao longo de um ano, retratando-a em um período de claro declínio em sua carreira. Transformada (por sua própria responsabilidade, diga-se de passagem) em uma caricatura em função das excessivas cirurgias plásticas e dos anos que passou como entrevistadora do tapete vermelho em cerimônias como o Oscar, Rivers passou a ser vista com descaso pelo mesmo público que por tanto tempo acompanhou seu desempenho como comediante stand-up e como apresentadora convidada oficial do Tonight Show com Johnny Carson, um dos programas mais célebres da história da televisão norte-americana. O surpreendente, porém, é perceber como Rivers continua divertida e com o pensamento ágil aos 75 anos, sendo perfeitamente capaz de lidar com situações difíceis durante apresentações ao vivo e jamais se policiando para evitar confrontos com outros nomes importantes da indústria do entretenimento. Mas, mais do que isso, o filme é hábil ao não retratá-la como ícone, permitindo que enxerguemos seus (vários) defeitos ao mesmo tempo em que notamos como, por trás da fachada durona, há uma mulher que continua vulnerável às críticas alheias. Além disso, como foi rodado justamente durante o período no qual Rivers participou do Celebrity Apprentice, o documentário ganha de presente um arco narrativo pronto para desenvolver sua estrutura, o que o torna ainda mais envolvente – e mesmo que cheguemos ao fim do longa reconhecendo a inteligência da protagonista, não deixamos de perceber que, no fim das contas, esta continua a ser uma peça de menor importância em uma indústria marcada pela futilidade que ela própria ajudou a alimentar.

Mas se Joan Rivers é vista como uma piada de mau gosto, o magnata Hugh Hefner, criador da “Playboy”, tornou-se símbolo da auto-indulgência, da excentricidade e – óbvio – da “imoralidade” (e uso entre aspas porque este é um julgamento subjetivo, preconceituoso e tolo) ao surgir em fotos e eventos usando seu indefectível pijama e acompanhado por suas sete (agora “apenas” três) namoradas loiras, jovens e peitudas. Pergunte a qualquer indivíduo com menos de 50 anos o que acha de Hefner e a resposta virá recheada de inveja ou condenação (e possivelmente de ambas), já que ninguém pensará em associar o sujeito aos movimentos políticos e sociais que marcaram o mundo nos anos 50, 60 e 70 ou mesmo às causas… feministas(!).

No entanto, o fato indiscutível é que Hefner realmente desempenhou um papel fundamental ao longo das décadas ao usar sua considerável influência e o poder econômico representado/proporcionado pela “Playboy” para abraçar, por exemplo, causas importantes como a luta contra a intolerância racial, tornando-se, inclusive, amigo de Martin Luther King e de Jesse Jackson. Aproveitando que seu programa de tevê era produzido de forma independente, o sujeito levou artistas e intelectuais negros à televisão numa época em que estes tinham espaço limitado, além de ajudar a romper a barreira que impedia comediantes negros de alcançar o mainstream (para isto, sua decisão de escalar Dick Gregory num show comprado por empresários sulistas foi crucial). Além disso, Hefner ofereceu ajuda a Lenny Bruce quando este passou a ser perseguido pelas autoridades norte-americanas por seu comportamento “obsceno” nos palcos; combateu a entrada de movimentos religiosos na política; enfrentou a lista anti-comunista do senador McCarthy e atuou para mudar leis que regulavam o aborto e impediam a comercialização de contraceptivos em vários estados dos Estados Unidos – estas duas últimas causas ligadas essencialmente ao movimento feminista, que, no entanto, logo passou a atacar a “Playboy” por transformar as mulheres em “objetos sexuais” (uma acusação que o empresário rebate com eloqüência no filme, que, diga-se de passagem, também oferece grande espaço aos que combatem a figura hedonista de “Hef”).

Estabelecendo que, brincadeiras à parte, a revista também poderia ser comprada sem qualquer hesitação por seu conteúdo “não gráfico”, o documentário ilustra a maneira como Hefner desenvolveu sua linha editorial ao oferecer suas páginas a escritores como Ray Bradbury (que publicou, ali, seu “Fahrenheit 451”) e também a entrevistas fascinantes que mudaram a forma de se conduzir esse tipo de matéria também nos demais veículos.

Reveladores ao resgatarem a memória de seus protagonistas, Joan Rivers e Hugh Hefner são belos exemplos de obras que conseguem pintar retratos intrigantes de seus personagens-títulos sem, com isso, se entregarem à desonestidade das hagiografias.

Crítica – 17/12/2010

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Tron – O Legado.

Críticas – 11/12/2010

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As Crônicas de Nárnia 3, Machete.

Críticas – 26/11/2010

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Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, Demônio.

E está tendo havendo pré de A Rede Social em várias cidades.

Comentários

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Update 3: Desde que reabri os comentários, nada menos do que 7.422 mensagens-spam foram enviadas por robôs. Todas barradas, claro, mas o bastante para enlouquecer minha caixa postal (recebo notificação de todos os comentários publicados) e me irritar profundamente. Conseguimos instalar o sistema de CAPTCHA e três filtros anti-spam. Quero ver o que acontece agora.

Update 2: Comentários funcionando novamente.

Update: Crítica de Um Homem Misterioso.

Tentamos de tudo, mas, infelizmente, sem sucesso: os spam-bots driblam todos os sistemas que instalamos – e o código CAPTCHA torna o blog lento demais.

Por outro lado, não consigo mais ficar sem o retorno de vocês. Este blog sem a participação dos leitores perde o sentido; tenho ficado até mesmo desanimado em publicar novos posts em função disso.

Assim, os comentários estão de volta. Mas moderados. Terei que aprovar manualmente cada uma das mensagens a fim de filtrar o spam, mas, como de hábito, não barrarei mensagem alguma de vocês (a não ser, claro, que contenham ofensas pessoais).

Primeira pergunta: ainda tem alguém aí?

(Aproveito para linkar as críticas de Harry Potter 7.1, Senna, Minhas Mães e Meu Pai, A Rede Social, Red – Aposentados e Perigosos e José e Pilar.)

Mostra de São Paulo 2010 – Dia 12

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Abraços à ex-aluna Amábile, que encontrei hoje no MASP.

55) Impacto (Bay Rong, Vietnã, 2009). Dirigido por Le Thanh Son. Com: Thahn Van Ngo, Hieu Hien, Hoang Phuc Nguyen, Johnny Nguyen, Lam Minh Thang.

Isto parece um filme de Hong Kong!”, exclama um personagem, em certo momento de Impacto. Esta frase revela não só a obviedade do humor do filme como suas pretensões metalingüísticas – pretensões estas que falham miseravelmente à medida que o longa se expõe como uma mera colagem capenga de cenas extraídas de obras infinitamente melhores.

Protagonizado por figuras que se acreditam tão duronas e fascinantes como os heróis do cinema de ação que tentam copiar, esta produção traz a bela Thahn Van Ngo como Trinh, uma ladra que é obrigada pelo implacável mafioso Dragão Negro a realizar sete missões a fim de que possa salvar a filha pequena, seqüestrada há anos pelo sujeito. Prestes a cumprir sua última tarefa (roubar um laptop), ela monta uma equipe para o trabalho, mas tudo sai errado e ela acaba se unindo ao misterioso Phong (Hien) para recuperar o aparelho sem saber que o sujeito é, na verdade, um policial infiltrado.

Plagiando descaradamente elementos de obras como Cães de Aluguel (os ladrões que se conhecem apenas pelos apelidos – incluindo um sujeito que reclama do nome recebido), Kill Bill, True Lies e Duro de Matar, este Impacto é o tipo de filme no qual os vilões disparam centenas de tiros de metralhadora a poucos metros de distância dos mocinhos sem jamais conseguirem acertar uma única vez – e mesmo quando acertam, acabam atingindo uma área menos grave (como a perna) que se mostra milagrosamente curada em questão de dias. Aliás, é um mistério por que estes bandidos chegam até mesmo a sacar suas armas, já que logo as atiram longe para que possam enfrentar os heróis em longas cenas envolvendo artes marciais. (E se as lutas se mostram bem coreografadas, acabam sendo prejudicadas pela insistência do diretor em acelerar as imagens nas seqüências de ação, criando um efeito risível.)

Recheado de diálogos atrozes, Impacto ainda faz um merchandising pavoroso ao longo de toda a projeção – uma iniciativa que, mesmo patética, mostra-se eficaz, já que acabei decorando o nome do energético (Enervon) que, co-patrocinador do projeto, tem sua marca exposta sem qualquer sutileza em diversos instantes. Soando interminável com seus 90 minutos de duração, o filme maltrata o espectador por um longo tempo apenas para, subitamente, encerrar sua trama da maneira mais ofensiva e tola possível.

Para suportar este longa, só mesmo com Enervon. (1 estrela em 5)

 

56) Aurora (Idem, Romênia, 2010). Dirigido por Cristi Puiu. Com: Cristi Puiu, Clara Voda, Catrinel Dumitrescu, Luminita Gheorghiu, Valentin Popescu.

Depois de já ter me decepcionado com o retorno do dinamarquês Christoffer Boe ao cinema com o irregular Tudo Vai dar Certo depois de quatro anos de ausência, agora é a vez de experimentar um imenso desapontamento com uma grande promessa da Romênia: o cineasta Cristi Puiu, que, depois de ter passado cinco anos longe dos sets após o sucesso de seu maravilhoso A Morte do Senhor Lazarescu, volta à função com este frustrante Aurora, que não apenas dirigiu e roteirizou, como também protagonizou, em sua estréia como ator.

Adotando a mesma lógica narrativa de boa parte das obras da cinematografia romena contemporânea (4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias, Polícia, Adjetivo, Se Eu Quiser Assobiar, Assobio e o próprio Sr. Lazarescu), este Aurora se constrói a partir da observação cuidadosa do cotidianos de seus personagens, que tornam-se mais reais e multidimensionais ao surgirem em atividades prosaicas com as quais qualquer espectador poderá se identificar com facilidade. Já empregando longos planos praticamente estáticos desde o primeiro segundo de projeção, Puiu não demonstra pressa alguma em levar a história adiante – e, assim, as três horas de projeção são gastas, quase em sua totalidade, em cenas que enfocam conversas triviais, extensas caminhadas e assim por diante. Isto é, até que, em dois momentos específicos, o protagonista se entrega a chocantes atos de violência que expõem, assim, a estratégia do diretor.

Pois o fato é que a história é o que menos interessa em Aurora; é a forma com que os acontecimentos são desenvolvidos que interessa a Puiu. Buscando representar a banalidade da violência e também sua natureza muitas vezes indecifrável, o cineasta concebe uma diegese extremamente realista a fim de nela inserir um assassino – que, com isso, foge do caráter cinematográfico, glamuroso, dos criminosos de Hollywood e surge como uma das criaturas complexas, mas também patéticas e triviais, que podem ser encontradas diariamente nas páginas policiais dos jornais.

Trazendo poucos diálogos e insistindo num tom de voz sempre baixo, Puiu, como ator, encarna o protagonista como um homem inseguro e não muito brilhante que, caminhando com passos infantis e com o hábito de se repetir para conferir ênfase às suas afirmações, é obviamente um indivíduo perturbado. Com isso, o espectador começa a se perguntar o que há por trás das ações do sujeito – justamente a intenção do diretor, que, no entanto, nos reserva uma última observação cruel ao demonstrar, em seu ato final, que aquele homem que passamos 180 minutos acompanhando não é importante nem mesmo em seu próprio filme, já que é tratado com total desinteresse pelos policiais com quem mantém uma conversa.

Dito tudo isso, a verdade é que, embora a estratégia de Cristi Puiu seja clara e inteligente em conceito, na prática acaba se revelando um irritante exercício de paciência. Ora, enquanto em A Morte do Senhor Lazarescu cada cena, por mais extensa e contemplativa que fosse, movia a história adiante e fascinava o espectador por sua própria lógica interna, aqui as trivialidades do protagonista soam justamente como isso: trivialidades – e passar três horas observando um sujeito antipático enquanto este aguarda numa fila para comprar um pedaço de bolo ou permanece parado em um semáforo esperando a luz verde é algo que expõe apenas a terrível auto-indulgência do diretor.

Com 90 minutos, Aurora poderia ser mais uma obra-prima do romeno; com o dobro deste tempo, é apenas o retrato de um cineasta que passou a acreditar na própria lenda. (3 estrelas em 5)

 

57) Como Eu Terminei Este Verão (Kakya Provel Etim Letom, Rússia, 2010). Dirigido por Aleksei Popogrebsky. Com: Grigoriy Dobrygin, Sergei Puskepalis.

Assim como em Aurora, que conferi no mesmo dia em que assisti ao russo Como Eu Terminei Este Verão, a história deste longa escrito e dirigido por Aleksei Popogrebsky é um mero fiapo que só ganha força graças ao intrigante tratamento narrativo concebido pelo cineasta – mas que, infelizmente, também desaba em seu ato final por esta mesma razão.

Rodado em uma base de observação no Ártico, o filme acompanha dois homens que passam longos períodos de tempo isolados do mundo enquanto se dedicam à medição de dados científicos retransmitidos várias vezes por dia através de rádio para uma base distante. Certo dia, enquanto o mais velho deles, Sergei (Puskepalis), encontra-se ausente, o jovem Pavel (Dobrygin) recebe a notícia de que a família do companheiro morreu em um acidente – mas falha em avisar o outro em função de um desentendimento e, a partir daí, a situação se torna cada vez mais insustentável enquanto o rapaz busca uma forma de contornar o problema.

Extremamente eficiente em sua primeira metade, quando se concentra em retratar o cotidiano entediante dos dois homens, o filme ainda explora muito bem as fascinantes locações, desde a velha casa ocupada por eles até o barracão situado no alto de uma encosta e que só pode ser alcançado através de uma semi-destruída escadaria de madeira. Dominados pelo tédio e pela tensão provocada pela rigidez dos horários, pelas condições climáticas e pela ameaça constante representada pelos ursos polares, os personagens estabelecem uma dinâmica que oscila entre a afabilidade e o confronto – e, neste sentido, o corpulento Sergei, hierarquicamente superior, realmente se apresenta como uma figura intimidante, ao passo que Pavel, um quase moleque repleto de energia (que ele gasta em brincadeiras infantis como ao saltar em barris de metal ou ao se pendurar em uma antena), surge inseguro e fragilizado.  

O que, no entanto, jamais se revela um motivo plausível para o verdadeiro pavor que o jovem passa a manifestar diante do outro e que leva às ações extremas que dominam o terceiro ato da projeção – e é esta falha absoluta em convencer o espectador de que as atitudes de Pavel são justificadas que condena Como Eu Terminei Este Verão a um anti-clímax frustrante, desperdiçando não só seus 90 minutos iniciais, mas também todo o esforço feito pelos realizadores no sentido de rodarem o projeto num ambiente hostil e, por isso mesmo, tão incomum nas telas. (3 estrelas em 5)

 

58) O Mágico (L’illusionniste, França, 2010). Dirigido por Sylvain Chomet. Com as vozes de Jean-Claude Donda, Edith Rankin.

Depois de estrear na direção de longas com o maravilhoso As Bicicletas de Belleville, em 2003, o cineasta francês Sylvain Chomet retorna sete anos depois com um projeto curioso: baseado em um roteiro inédito deixado pelo mestre Jacques Tati, este O Mágico não só resgata o texto do diretor como ainda busca emular elementos de suas obras, além, claro, de contar com um protagonista que é sua imagem perfeita. Neste sentido, esta produção estabelece paralelos curiosos com Luz nas Trevas, sobre o qual também escrevi durante a Mostra de Cinema de São Paulo e que fazia uma experiência-homenagem similar com o diretor Rogério Sganzerla.

Protagonizado por um mágico talentoso, mas antiquado, cujo número vem despertando aplausos apenas moderados de uma platéia mais interessada em rock’n’roll e em apresentações que tragam alguma excitação, o filme acompanha o ilusionista enquanto este viaja à Escócia em busca de novos espectadores. Depois de se apresentar em um pub, ele atrai a atenção de uma adolescente que trabalha no local e que, acreditando estar diante de um mágico real, decide acompanhá-lo em suas viagens, mostrando-se interessada em presentes caros que o pobre artista se esforça para comprar a fim não só de manter a ilusão, mas também para continuar a ser admirado pela menina, a quem parece encarar como uma espécie de filha.

Trazendo pouquíssimos diálogos (como num autêntico filme de Tati), O Mágico volta a provar o talento de Chomet como animador ao exibir um imenso apuro técnico em uma narrativa que depende exclusivamente das imagens para prender o espectador – e não só o design dos personagens é fascinante, mas também seus movimentos, desde a esquelética cantora de vaudeville que caminha com um gingado que parece quase partir-lhe a coluna até o palhaço depressivo que, mesmo sem maquiagem, exibe os traços de um clown, passando, claro, pelo próprio protagonista, que surge como uma representação perfeita de Jacques Tati (ou de seu monsieur Hulot), incluindo até mesmo seus maneirismos (como os braços esticados para baixo e as mãos constantemente contraídas). E como não se encantar com o balançar de um pequeno barco nas águas turbulentas de um lago, com as gotas de água que parecem atingir a “câmera” durante uma tempestade ou com o movimento do kilt de um velho escocês ao vento?

Com uma direção de arte que confere uma clara melancolia aos cenários sem, contudo, deixar de torná-los calorosos a fim de refletir o prazer que o mágico e a garota sentem na companhia um do outro, o longa também encanta por seus belíssimos efeitos de cores e luzes ao retratar a cidade durante a noite ou ao trazer o personagem-título deitado em seu sofá enquanto o placar luminoso do lado de fora projeta um brilha característico sobre seu corpo. Da mesma maneira, o design sonoro da produção torna-se digno de prêmios ao trazer aquele universo à vida através de detalhes como o bater de um encanamento envelhecido ou o leve zumbido de uma lâmpada elétrica. Em contrapartida, a trilha sonora do próprio Chomet, ainda que evocativa, peca pelo excesso, parecendo determinada a criar um tom melancólico por conta própria.

Sem jamais buscar divertir como As Bicicletas de Belleville, já que até mesmo suas gags visuais revelam-se mais inocentes do que engraçadas, este O Mágico parece reconhecer a triste situação de seu protagonista e abraçá-la sem reservas – mesmo celebrando o humor de Tati ao, por exemplo, levar o ilusionista a entrar num cinema que exibe Meu Tio. E se o mestre francês é a principal referência do filme, não é, porém, a única, já que Chomet também se mostra interessadíssimo em transformar a adolescente que acompanha o personagem-título em uma versão da Alice de Lewis Carroll, incluindo não só uma cópia do vestido azul da garota como também um coelho fujão – e como a menina que visita o País das Maravilhas, a jovem escocesa parece acreditar estar diante de uma criatura de natureza mágica, fantástica, fugindo da realidade à sua volta através de uma fantasia implausível.

E que eventualmente resulta apenas em dor e decepção, comprovando que, sem ter o público infantil como alvo de seu trabalho, Chomet não hesita em abraçar a triste melancolia de um mundo no qual a magia definitivamente não existe.

Observação: há uma cena adicional após os créditos finais. (3 estrelas em 5)

Mostra de São Paulo 2010 – Dia 11

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51) Sussurrando (Whispering, China, 2010). Dirigido por Zhai Yinghao.

Investindo em múltiplas narrativas paralelas para estabelecer um retrato da China contemporânea, Sussurrando é um filme carregado de melancolia que desenvolve com sensibilidade seus tristes personagens – e mesmo que não se revele um grande filme, é tocante o bastante para merecer aplausos.

Acompanhando quatro famílias cujos destinos se cruzam pontualmente, o longa aborda o cotidiano difícil de uma jovem que, mãe de um garoto de sete anos, sofre com a ausência do marido enquanto tenta evitar que o filho descubra que o sujeito está preso; a relação de um casal que entra em crise quando o marido, sempre agindo como adolescente, decide voltar a tocar em uma banda; os esforços de um fotógrafo para encontrar a mãe desaparecida; e a dificuldade de uma gestante de se relacionar com o marido e com o irmão mais novo depois de ter sido abandonada na infância pelos próprios pais.

É claro que, eventualmente, vamos identificando as relações entre os personagens e percebemos, por exemplo, que a gestante é colega de trabalho da mãe “solteira”; que o filho desta estuda na escola que tem, como diretora, a esposa do músico; que este já se encontrou com a mãe do fotógrafo; e assim por diante. Mas o mais importante é que cada narrativa é bem-sucedida, individualmente, em desenvolver seus personagens, retratando-os como figuras multidimensionais e interessantes – e é curioso, por exemplo, perceber como o guitarrista é tratado como criança pela esposa, que parece adotar com o marido o mesmo comportamento que emprega com seus alunos. Da mesma maneira, é revelador perceber como a gestante tenta se mostrar impassível diante do irmão caçula apenas para eventualmente expor o carinho que sente por este e que a ajuda a preencher a carência provocada pela infância infeliz.

Beneficiado por uma montagem que costura bem as várias histórias e que também confere dinamismo às narrativas individuais, Sussurrando traz ainda uma trilha incidental evocativa que salienta a atmosfera melancólica do filme, que acaba se apresentando como um filhote chinês (embora bem menos ambicioso) das fabulosas costuras de Robert Altman. (4 estrelas em 5)

 

52) Politécnica (Polytechnique, Canadá, 2009). Dirigido por Denis Villeneuve. Com: Maxim Gaudette, Sébastien Huberdeau, Karine Vanasse, Evelyne Brochu.

Baseado num chocante massacre ocorrido em Montreal em 1989, Politécnica é um filme com desordem de múltiplas personalidades que, sem saber exatamente que direção seguir, se divide entre duas ou três abordagens dramáticas que, além de eliminarem a coesão da narrativa, ainda diminuem o impacto que a história poderia provocar em função dos terríveis acontecimentos que narra.

Iniciando a projeção com o ataque de um jovem perturbado (Gaudette) à faculdade que freqüenta, o trabalho de Denis Villeneuve logo mergulha num flashback que revela as motivações do rapaz: sentindo-se prejudicado pelas “feministas”, ele escreve uma carta carregada de misoginia e explica que tomou a decisão de assassinar várias mulheres há anos, tendo se preparado com cuidado para a ocasião. A partir daí, o roteiro nos apresenta à bela Valérie (Vanasse), que se arruma para uma entrevista de estágio, e ao simpático Jean-François (Huberdeau), colega de sala da moça – duas figuras que ganharão destaque a partir da metade do filme.

Eficiente ao estabelecer um tenso clima de antecipação ao momento dos ataques, o cineasta ainda toma a interessante decisão de rodar o projeto em preto-e-branco, o que diminui o caráter cinematográfico da violência ao eliminar a intensidade do sangue na tela. Além disso, ao constantemente se concentrar em planos fechados que trazem o rosto do assassino, Villeneuve parece fascinado em tentar decifrar o processo mental do sujeito, escancarando nossa incapacidade de compreender um homem como aquele ao enfocar os olhos frios e vazios do rapaz – e mais tarde, ao investir num novo flashback, o diretor emprega a mesma estratégia, mas desta vez ao enfocar Valérie, que naturalmente se revela uma figura bem mais humana e acessível.

Infelizmente, é justamente a estrutura de Politécnica, construída a partir de flashbacks e elipses, que compromete o filme: durante o clímax do tiroteio, por exemplo, Villeneuve envia o espectador bruscamente para outro ponto da narrativa que, revelando Jean-François numa pequena viagem, demora a se identificar como um salto para o futuro ou um retorno ao passado – e quando finalmente a questão é esclarecida, somos surpreendidos por uma atitude do personagem que soa gratuita, já que o roteiro não desenvolvera o sujeito o bastante para que pudéssemos compreender sua ação (“culpa” é uma explicação possível, mas também superficial e insuficiente). Da mesma maneira, todo o terceiro ato envolvendo Valérie surge frustrante e insatisfatório, incomodando também ao apelar para uma solução clichê ao amarrar sua trajetória.

Fotografado com competência e contando com planos memoráveis que, contudo, soam gratuitos (o travelling que encerra o filme, por exemplo, é interessante, mas qual é o seu propósito específico?), Politécnica parte de um ato bárbaro para tentar desenvolver temas maiores, mas só consegue se mostrar eficiente mesmo ao recriar a tragédia, falhando em todos os seus propósitos mais ambiciosos, o que é uma pena. (3 estrelas em 5)

 

53) Revolução da Luz Vermelha (Hong Deng Meng, China, 2010). Dirigido por Sam Voutas. Com: Zhao Jun, Vivid Wang, Jiang Xiduo.

Poucas coisas são mais constrangedoras do que uma comédia sem graça. Testemunhar os esforços desesperados de atores em busca do riso, mas sabotados pelo filme que os cerca, é algo que representa uma experiência torturante – e, neste sentido, Revolução da Luz Vermelha deveria ser denunciado à ONU por atentar contra a Convenção de Genebra.

Escrito e dirigido com uma impressionante falta de talento por Sam Voutas (que ainda faz uma constrangedora participação como um milionário da indústria erótica), o filme gira em torno do derrotado Shunzi (Jun), que é demitido no mesmo dia em que perde a esposa e a casa em que mora. Voltando a morar com os pais, ele finalmente enxerga uma oportunidade de sucesso ao decidir abrir uma sex shop – que, claro, não é vista com bons olhos pela comunidade chinesa.

E aí reside o primeiro problema do longa, que inicialmente estabelece que mais de dois mil estabelecimentos deste tipo já existem no país apenas para retratar o preconceito sofrido por Shunzi como algo natural e corriqueiro – e até mesmo o fato de enfrentar problemas para conseguir uma licença comercial contradiz a informação sobre a abundância de lojas eróticas na China moderna. Este, porém, é um tropeço menor se comparado às atuações caricatas de praticamente todo o elenco, desde o péssimo protagonista até o pavoroso Masanobu Otsuka, que só falta escorregar numa casca de banana para tentar transformar seu chefão do mundo erótico em uma figura divertida (mas sem jamais alcançar sucesso na empreitada). Como se não bastasse, até a trilha sonora do projeto se revela rasteira, soando mais como um tema de Nintendo do que como algo feito para o Cinema.

Atormentando o espectador com cenas longas que se arrastam interminavelmente na tentativa de provocar o riso, o filme investe em diálogos sem vida que deveriam ter sido limados na primeira revisão do roteiro – e, ao longo da projeção, são extremamente comuns os momentos como aquele em que dois personagens mantêm conversas do tipo:

– Quer saber de uma novidade?

– Não.

– Não quer?

– Quero.

– Então eu vou contar.

– Conte.

– Prepare-se, pois vou te contar a novidade.

– Conte logo!

– Quer mesmo ouvir?

– Sim.

– Então eu vou contar.

E se já senti sono apenas ao citar esta passagem, imaginem o que significa ser submetido a 91 minutos de instantes como este.

O mais absurdo, porém, é que Voutas parece realmente acreditar ter concebido uma trama com início, meio e fim que estabelece um arco reconhecível para seu protagonista, já que, durante o terceiro ato, investe no tipo de solução que, envolvendo uma comunidade interessada em ajudar um de seus membros, simplesmente ignora o fato incontestável de que Shinzu jamais se revelou como alguém digno de ser auxiliado pelos vizinhos, já que não se mostrou especialmente divertido, simpático ou minimamente carismático – indicando que o cineasta espera que aceitemos que o sujeito seja amado por todos apenas por ser o personagem principal do longa.

Infelizmente para Voutas (e para o filme), porém, a realidade é que Shinzu poderia morrer carbonizado sem provocar qualquer lamentação por parte do público. E eu, particularmente, ainda ficaria feliz em atirar as cópias desta porcaria no fogo. (1 estrela em 5)

 

54) Quando Partimos (Die Fremde, Alemanha, 2010). Dirigido por Feo Aladag. Com: Sibel Kekilli, Nizam Schiller, Derya Alabora, Settar Tanriogen, Tamer Yigit, Serhad Can, Almila Bagriacik, Florian Lukas, Ufuk Bayraktar.

Candidato da Alemanha a uma vaga no Oscar 2011, Quando Partimos é um filme forte e impactante que, protagonizado por uma figura complexa que se mostra incrivelmente frustrante em vários momentos, manda o público para fora da sala com uma sensação de profunda desesperança com relação à natureza humana. No entanto, à medida que as horas passam após a projeção, este trabalho comandado pela atriz austríaca Feo Aladag ganha raízes na mente do espectador, despertando diversas reflexões – e esta é, sem dúvida, a marca de um bom longa.

Escrito pela própria Aladag a partir de uma história real ocorrida em Berlim em 2005, Quando Partimos acompanha a jovem Umay (Kekilli), que morando na Turquia com a família do marido, é constantemente espancada por este, sendo ainda obrigada a testemunhar os maus-tratos sofridos por seu filho pequeno nas mãos do sujeito. Farta da situação, ela foge para a Alemanha a fim de se reunir à família, mas acaba sendo surpreendida pela reação dos pais e dos irmãos, que enxergam seu ato como algo desonroso que traz vergonha a todos.

Com uma economia admirável, o longa já tem início estabelecendo, a partir de apenas duas ou três cenas, o cotidiano miserável de Umay ao lado do marido abusivo – e, assim, compreendemos facilmente por que ela optaria por um aborto em vez de oferecer ao sujeito mais uma vítima em potencial. Não demonstrando qualquer esperança mesmo nos raros momentos em que o pai de seu filho brinca com o garoto (indicando que ela sabe claramente que aquela postura não irá durar por muito tempo), a jovem de apenas 25 anos exibe a amargura de uma mulher idosa diante da vida, o que torna seu retorno a Berlim algo perfeitamente compreensível.

Mas não, claro, para sua família: transformada em saco de pancadas (em um ou outro momento, Umay é esbofeteada por praticamente todos os parentes), a garota descobre que o código de honra distorcido seguido pelos pais e irmãos religiosos considera sua tentativa de auto-preservação uma ofensa maior do que a agressividade do marido (“Um ou dois tapas não são motivo para fugir”, diz seu pai) – e, com isso, a rotina de abusos experimentada por Umay na Turquia simplesmente parece se repetir em escala ainda mais angustiante na Alemanha, resultando em confrontos que praticamente garantem inúmeros traumas psicológicos em seu adorável filho Cem (Schiller), que testemunha o sofrimento da mãe sem nem conseguir compreender direito o que está acontecendo.

Por que, no entanto, a mulher simplesmente não dá as costas à família e reconstrói sua vida apenas ao lado do filho? Esta é a questão mais intrigante apresentada por Quando Partimos e que acaba promovendo no espectador a sensação de frustração mencionada no início deste texto. No entanto, a resposta encontra-se clara no próprio filme: Umay é, infelizmente, refém do amor que sente pela família. Incapaz de esquecer a relação feliz que manteve com os pais e os irmãos na infância, ela insiste na esperança de que esta ligação de sangue e história eventualmente derrote os preconceitos despertados pela religião, sem perceber que a necessidade de aceitação pela comunidade é mais importante para os parentes do que o amor que, sim, sentem por ela e por seu filho.

É claro que, ainda assim, torna-se difícil, para o público, aceitar atitudes da protagonista que beiram a insanidade: por que, por exemplo, ela decide ir ao casamento da irmã? O que, afinal, ela esperava que fosse acontecer ali? Há uma diferença imensa entre perseverança e estupidez – e Umay cruza este limite ao insistir numa cruzada que, além de tudo, provoca um profundo sofrimento em Cem. Como se não bastasse, o discurso feito pela garota neste momento limita-se a um mea culpa assombroso, já que sua família deveria estar ajoelhada diante dela implorando por perdão, não o contrário.

Contudo, este é o segundo elemento que torna Umay uma figura enlouquecedora, mas intrigante: apesar de vitimada pela ortodoxia religiosa, ela não consegue ignorar a doutrinação pela qual passou durante toda sua vida, parecendo incapaz de reconhecer, nos dogmas de sua fé, as causas de seu sofrimento. Com isso, a protagonista se revela presa não somente pelo amor à família, mas também por acreditar que, de alguma forma, realmente merece todas aquelas punições, o que torna Quando Partimos uma experiência particularmente incômoda para o espectador.

Ainda assim, isso não desculpa a decisão ofensiva do filme de levar Umay a buscar amparo masculino em um momento particularmente difícil, já que esta opção inacreditavelmente reforça o machismo que o longa quer denunciar (por que ir atrás de um homem que ela mal conhece em vez de se apoiar na amiga de infância?).

Com um desfecho que pode ser visto como apelativo e maniqueísta num primeiro momento, mas que certamente pode também ser interpretado como uma metáfora da destruição das novas gerações pela intolerância religiosa, Quando Partimos infelizmente retrata uma tragédia mais comum do que poderíamos imaginar e merece créditos por não transformar a família de Umay em uma coleção de estereótipos (isto é, com exceção de seu irmão Mehmet, que é, sim, uma figura unidimensional). Na realidade, a sensível atuação de Settar Tanriogen como o pai da protagonista, por exemplo, é responsável por estabelecer o sujeito como alguém que certamente seria um pai e um avô magnífico caso não houvesse sido cegado pelo dogma.

Afinal, como disse o físico Steven Weinberg: “Com ou sem religião, sempre haverá pessoas boas fazendo coisas boas e pessoas más fazendo coisas más. No entanto, para que uma pessoa boa faça uma coisa má, é preciso religião”. E a História prova isso. (4 estrelas em 5)

Mostra de São Paulo 2010 – Dia 10

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos | Comente  

Abraços aos ex-alunos Dênis, Michelle e Jéssica, que encontrei nos intervalos entre as sessões, e também ao leitor Marcelo, que gentilmente veio me cumprimentar no Frei Caneca.

E vamos aos filmes:

42) O Ultraje (Autoreiji, Japão, 2010). Dirigido por Takeshi Kitano. Com: Takeshi Kitano, Hideo Nakano, Jun Kunimura, Kippei Shiina, Ryo Kase.

Voltando a lidar com o submundo da yakuza, tema que o consagrou, depois de alguns anos investindo em outros universos, o cineasta japonês Takeshi Kitano aborda, em O Ultraje, a lógica da hierarquia dentro da mais temida organização criminosa de seu país, observando os códigos de obediência e lealdade que levam seus violentos integrantes a crimes hediondos mesmo que estes venham como conseqüência de ordens cujas motivações nem sempre são claras para aqueles que irão cumpri-las. Mais uma vez empregando a violência como motor da narrativa (outra marca registrada do diretor), o filme é divertido como exercício de estilo, mas não muito mais do que isso.

Com um roteiro que se mostra confuso em função do grande número de personagens e das relações freqüentemente complicadas entre estes, O Ultraje parte de uma extorsão mal-sucedida feita por uma família mafiosa que, sem perceber que a vítima pertencia a uma outra família-irmã, cria uma situação embaraçosa que imediatamente é utilizada pelo chefão da yakuza para disseminar a discórdia entre seus lidere. Parecendo divertir-se imensamente com seus joguinhos particulares que acabam provocando um banho de sangue, o tal chefão se beneficia justamente da lealdade incondicional de seus subordinados, que cumprem suas missões com tamanha eficiência que logo seus capangas começam a passar por um verdadeiro processo de extinção.

Extraindo humor a partir das atuações exageradas, muitas vezes caricaturais, de boa parte de seu elenco (algo relativamente comum na comédia japonesa), o longa também se diverte criando vários tipos de mortes diferentes para seus personagens, permitindo que Kitano solte a imaginação naquele que é um de seus pontos fortes como cineasta: a violência (não é à toa que é adorado por Tarantino) – e neste sentido, O Ultraje realmente não decepciona os fãs do realizador.

Porém, além de investir numa história desnecessariamente complexa, o diretor ainda parece estar no piloto automático sempre que o filme deixa as cenas violentas de lado – e nem mesmo o personagem vivido pelo próprio Kitano (sempre sob o nome de Beat Takeshi diante das câmeras) consegue se mostrar particularmente interessante, confirmando esta produção como uma obra menor na carreira de seu idealizador. (3 estrelas em 5)

 

43) Vc Tá Aí? (R U There, Holanda/Taiwan, 2010). Dirigido por David Verbeek. Com: Stijn Koomen, Ke Huan-Ru, Tom De Hoog, Phi Nguyen.

Jitze (Koomen) é um jogador profissional de videogame que se encontra em Taiwan para mais um campeonato. Mantendo-se sempre distante de seus companheiros de equipe e não demonstrando prazer nem mesmo com suas vitórias ou com o fato de sair na capa de uma revista especializada, o rapaz acorda certa manhã com fortes dores no ombro e, ao impulsivamente pedir uma massagem para uma prostituta local, acaba se interessando pela moça e redescobrindo algum tipo de alegria em seu cotidiano.

Eficiente ao retratar o alheamento de Jitze em relação ao mundo, o diretor holandês David Verbeek, trabalhando a partir do roteiro de Rogier de Blok, acerta, por exemplo, ao constantemente usar uma pequena profundidade de campo ao enfocar o protagonista, mantendo-o separado, desta forma, do ambiente que o cerca. Além disso, como o sujeito surge sempre com fones de ouvido – mesmo quando ao lado dos parceiros de equipe -, seu afastamento voluntário dos colegas se torna mais óbvio. E não há como não reparar, também, em sua insistência em fechar as cortinas de seu amplo quarto de hotel, que poderia lhe oferecer uma bela vista da cidade, mas que ele prefere ignorar.

Surgindo quase como um autista ao testemunhar um acidente fatal no trânsito que não lhe desperta qualquer reação aparente e que nem mesmo o leva a comentar o que viu com os amigos (talvez por já não enxergar a morte como algo real diante de tantos milhares de horas passados em combates virtuais), o jogador finalmente parece estabelecer um contato significativo com outro ser humano ao ser tocado pela prostituta/massagista Min Min (Huan-ru) – mas é somente ao ser convidado por esta para entrar no universo virtual Second Life que Jitze realmente consegue se aproximar da garota.

Aliás, há algo de profundamente poético nas várias seqüências que se concentram em retratar os avatares do casal naquele “simulador de vida”, sendo também bastante significativo que a “fada” concebida por Min Min para representá-la exiba uma perna mecânica, representando, assim, a própria falta de completude emocional da garota. Da mesma maneira, não há como não reparar que a paisagem virtual favorita da moça remete diretamente à vila na qual cresceu e que trocou pela vida na cidade grande – o que significa, portanto, que a “segunda vida” de Min Min é um retorno idealizado à sua primeira. Finalmente, o fato de Jitze ter escolhido um soldado como seu avatar acaba se revelando uma introdução inteligente à mudança posteriormente vivida pelo personagem – tanto na “vida real” quanto no Second Life – e que acaba construindo, assim, um eficiente arco dramático.

Apesar de tudo isso, no entanto, Vc Tá Aí? mostra-se inchado no desenvolvimento de sua narrativa, sendo prejudicado também por final tolo que, buscando funcionar como símbolo, acaba simplesmente deixando um gosto amargo na boca do espectador. (3 estrelas em 5)

 

44) Tudo Vai Dar Certo (Alting Bliver Godt Igen, Dinamarca, 2010). Dirigido por Christoffer Boe. Com: Jens Albinus, Igor Radosavljevic, Marijana Jankovic, Thomas Høite Meersohn, Özlem Saglanmak, Nicolas Bro, Paprika Steen.

Sem dirigir um longa desde o excepcional Offscreen, de 2006 (que considerei o melhor da Mostra de São Paulo naquele ano), o dinamarquês Christoffer Boe volta à função com este Tudo Vai Dar Certo, que, se impressiona por sua excelente estrutura narrativa, decepciona por empregá-la para contar uma história boba e previsível.

Com um roteiro do próprio cineasta, o filme gira em torno do também roteirista Jacob Falk (Albinus), que, pressionado pelo produtor de seu mais recente projeto a entregar a versão final do script para que o projeto possa começar a ser rodado, acaba descobrindo por acidente algumas fotos que revelam abusos cometidos pelos militares do país no Iraque.  Dividido entre os esforços para divulgá-las para a imprensa, a certeza de estar sendo perseguido pelo governo e a pressão feita pela esposa para completar os papéis de adoção que permitirão que assumam a guarda de uma criança, Jacob se mostra cada vez mais ansioso diante de todos que o cercam por não saber em quem poderá confiar.

Dividindo a trajetória de Jacob com a do ex-soldado que contrabandeou as fotos para fora do Iraque, Vai Dar Tudo Certo cria uma estrutura focada em narrativas paralelas que, apesar de interessante, praticamente escancara algo que Boe certamente esperava manter como uma “reviravolta” – e que fui capaz de identificar já nos primeiros vinte minutos de projeção. Por outro lado, apesar da obviedade, a construção da história se mostra curiosa da mesma maneira, ganhando peso dramático quando descobrimos (aí, sim, uma pequena surpresa) o incidente que a disparou.

Envolto por uma atmosfera sufocante que evoca bem a natureza paranóica do protagonista, o longa se torna admirável realmente graças à sua fantástica fotografia – e com destaque merecido aos establishing shots que, empregando a técnica do tilt-shift, confere aparência de miniatura a vários planos gerais, o que remete diretamente aos créditos iniciais e à própria lógica de universo-dentro-do-universo estabelecida pelo roteiro de Boe.

É uma pena, portanto, que tamanho brilhantismo na abordagem visual e na estrutura seja desperdiçado com uma trama tão batida e previsível – algo que, desta forma, acaba transformando este retorno de Boe à cadeira de diretor em uma relativa decepção. (3 estrelas em 5)

 

45) Tudo que Amo (Wszystko, co kocham, Polônia, 2009). Dirigido por Jacek Borcuch. Com: Mateusz Kosciukiewicz, Olga Frycz, Jakub Gierszal, Andrzej Chyra, Anna Radwan.

Candidato da Polônia a uma vaga na categoria Filme Estrangeiro no Oscar 2011, Tudo que Amo é uma comédia adolescente com toques dramáticos que conta a história de um jovem filho de militar que, sonhando com o sucesso de sua banda de punk rock, é obrigado a lidar com a tomada do poder pelos militares do país e pelo conflito que isto gera com sua namorada (cujo pai é preso pelo exército) e com a própria censura instaurada pelo novo governo.

Lidando essencialmente com os conflitos entre pais e filhos (do protagonista Janek com seu pai militar; entre este último e a avó doente do garoto; entre Kazik, guitarrista da banda, e o pai que insiste em espancá-lo; e assim por diante), o longa polonês também aborda de maneira enfática a lógica opressora da ditadura, que se contrapõe diretamente ao espírito libertário do rock – e, em certo momento, o diretor Jacek Borcuch faz questão de criar um plano que traz soldados e músicos cruzando a tela em direções opostas, num simbolismo óbvio (mas apropriado) que se torna mais forte em função da marcha rígida dos primeiros e dos modos descontraídos dos últimos.

Ganhando pontos também por retratar o pai de Janek como um personagem tridimensional, que se mostra rígido com os filhos, mas também doce e carinhoso, e que cumpre com diligência as ordens de seus superiores embora não exiba entusiasmo pela idéia de uma ditadura, Tudo que Amo falha pontualmente ao investir numa trilha sonora cafona, acabando por se revelar um filme inofensivo. Simpático, é verdade, mas jamais algo que poderíamos considerar como sendo um concorrente de peso ao Oscar. Pelo visto, não somos os únicos que não sabem selecionar seus candidatos oficiais ao prêmio. (3 estrelas em 5)

 

46) Inimigos Íntimos (Feindberührung, Alemanha, 2010). Dirigido por Heike Bachelier.

Inimigos Íntimos é um documentário fascinante que adota, como estrutura, a acareação entre dois homens cujos passados se cruzaram de maneira dramática na Alemanha Oriental da década de 70: oferecendo-se como informante voluntário para a Stasi (a polícia secreta do regime comunista do país), Hartmut Rosinger se infiltrou em grupos de intelectuais que se reuniam para discutir política e acabou se tornando amigo próximo do aspirante a escritor Peter Wulkau, que, sem saber que o outro era um espião, expôs sem receios suas opiniões sobre o marxismo e até mesmo seu manuscrito questionando o governo – algo que, graças ao trabalho de Rosinger, acabou lhe custando alguns anos de prisão.

 Assim, é no mínimo intrigante que, mais de 30 anos depois, Hartmut e Peter se reúnam diante das câmeras da diretora Heike Bachelier de maneira tão amistosa, comportando-se como amigos que, depois de anos separados, parecem trocar lembranças descontraídas do passado. Folheando os arquivos da Stasi relacionados ao caso de Peter, os dois homens lêem em voz alta passagens no mínimo desconfortáveis anotadas pelo oficial que funcionava como contato do “espião”: trechos nos quais, aliás, Hartmut não hesita em fazer julgamentos morais acerca do companheiro. Enquanto isso, os relatos feitos por Peter na atualidade estabelecem o retrato de um jovem que, intelectualmente ambicioso, foi punido pelo governo da Alemanha Oriental justamente ao ser impossibilitado de desenvolver qualquer trabalho que exigisse sua mente, sendo relegado a funções manuais que rapidamente o entediavam e quebravam gradualmente seu espírito.

Admitindo que parte de sua motivação para atuar como espião veio da excitação provocada pelo sentimento de “aventura”, Hartmut se mostra profundamente arrependido do papel que desempenhou no passado – um arrependimento que já se mostra claro nos próprios documentos da época, quando, depois da prisão de Peter, se afastou da função ao perceber as graves conseqüências de seu trabalho. Ainda assim, o sujeito parece só se dar conta realmente do que fez ao ser levado pela cineasta e por Peter para visitar a prisão na qual este foi trancafiado – e o abalo emocional experimentado por um Hartmut visivelmente chocado pelo que fez o amigo passar resulta num dos momentos mais fortes da projeção.

Sem hesitar deter sua câmera por longos segundos nos rostos dos dois personagens enquanto estes se observam em vários instantes do filme, Bachelier cria um filme que incomoda justamente ao expor o desconforto dos dois homens diante do passado em comum, mas que também deixa clara uma espécie curiosa de afeto dividida por eles – um sentimento que, no entanto, não conseguirá jamais apagar o estrago provocado pela traição de Hartmut.

E são precisamente estes sentimentos tão contraditórios que tornam Inimigos Íntimos um documentário tão instigante. (5 estrelas em 5)

 

47) Eu Sou Jesus (I Am Jesus, Itália, 2010). Dirigido por Valerie Gudenus, Heloisa Sartorato.

Um ex-agente britânico do MI6, um brasileiro sexagenário e um ex-policial russo. Em comum, o fato de todos se declararem a nova encarnação de Jesus Cristo, o “filho de Deus”. Buscando observar estes personagens mais de perto – assim como seus respectivos seguidores -, o documentário Eu Sou Jesus, como não poderia deixar de ser, acaba se revelando um projeto divertido que, de forma indireta, acaba dizendo bastante sobre a religião como conceito, mesmo que esta não tenha sido aparentemente sua intenção original.

Revelando-se o mais absurdo dos três “candidatos”, o inglês David Shayler integra uma comunidade de neo-hippies que vivem a partir dos restos encontrados nas lixeiras de restaurantes – e não é coincidência que, de maneira absolutamente casual, o sujeito declara ter descoberto “ser Jesus ao tomar um chá de cogumelos”. Sem ser levado a sério nem mesmo por seus poucos companheiros (que, no entanto, encaram sua “identidade” sem preconceito algum), Shayler não hesita também em assumir a identidade do travesti Delores – e a cena em que, caracterizado como mulher, explica ser a nova encarnação de Cristo acaba se apresentando como um momento quase surreal. Ao mesmo tempo, não se torna difícil supor que a insistência do sujeito em assumir novas identidades seja um mecanismo para fugir de sua própria e triste realidade, que inclui relatos de abuso sexual na infância e uma passagem traumática pelo serviço de inteligência. Com isso, Shayler se revela simultaneamente o mais divertido e o mais trágico dos três personagens enfocados pelo documentário de Valerie Gudenus e Heloisa Sartorato.

E se o britânico não consegue convencer nem mesmo os seus dopados amigos de comunidade, o mesmo não pode ser dito sobre o russo Sergey Anatolyevitch Torop, que, assumindo nome de Vissarion, é reverenciado por cerca de quatro mil fiéis na Sibéria. Adorado por famílias inteiras que se agrupam em comunidades auto-suficientes no meio do intenso frio da região, o sujeito tem seu retrato exibido nas paredes de todos os lares e até mesmo das pequenas escolas localizadas nas várias vilas que o aceitam sem questionar como a Segunda Vinda de Cristo – e é assustador perceber como a seita inspirada no tal profeta (que fisicamente é o que mais se aproxima da representação clássica, loira e barbuda, de Jesus) se apresenta machista como… bom, como o cristianismo, o islamismo, o judaísmo e a maior parte das demais religiões de modo geral. Organizada a ponto de ter seus próprios cânticos, rituais e até mesmo um segundo Natal (que comemora, claro, o nascimento de Vissarion), a seita encabeçada pelo sujeito parece se beneficiar de sua ausência constante, já que ele mantém seus contatos com os fiéis a um mínimo, crescendo em função do mistério que surge como conseqüência.

O que se opõe diretamente ao nosso INRI Cristo, que não só vive em uma pequena comunidade ao lado de seus discípulos (na realidade, várias mulheres – na maioria, belas e jovens – e alguns poucos homens), como faz constantes aparições em programas populares das emissoras de tevê nacionais e locais. Parecendo não se importar em ser encarado como uma besteira divertida, INRI paradoxalmente demonstra levar sua condição de “filho de Deus” extremamente a sério, num comportamento que se reflete em suas discípulas: conhecidas pelos vários vídeos nos quais cantam paródias de músicas famosas homenageando seu mestre, duas delas reconhecem que são vítimas de deboche unânime, mas afirmam que até esta reação é bem-vinda, já que ao menos “levam o sorriso ao rosto das pessoas”. Mas talvez a revelação mais curiosa acerca do “messias” brasileiro diga respeito à sua natureza divertida: louco ou farsante, INRI Cristo é, acima de tudo, um sujeito que se mostra alegre e que obviamente inspira seus seguidores a viverem com alegria similar, já que as “inricristetes” surgem constantemente brincando e sorrindo diante das câmeras.

E é justamente esta observação que se torna a chave de Eu Sou Jesus: absurdos ou não, homens como Shayler e INRI não prejudicam ninguém – especialmente quando comparados a crenças infinitamente mais populares e antigas que custaram e custam as vidas de milhões de pessoas em todo o mundo e ao longo dos séculos. Claro que isto também se deve ao fato de que ambos contam com um número reduzido de seguidores, já que o mais popular Vissarion obviamente já se mostra responsável por prejudicar no mínimo as vidas de várias das famílias que o seguiram até o frio da Sibéria (algo que pode ser observado através do depoimento de um casal que parece à beira do divórcio graças à crença do marido no “messias”). Mas, mais do que isso, as afirmações destes três homens não são mais inacreditáveis do que as de pastores que prometem a salvação aos fiéis de bolsos largos, as do Papa que diz ter linha direta com Deus ao condenar o aborto, os anticoncepcionais e as pesquisas com células-tronco ou as de muçulmanos que se sacrificam acreditando que serão presenteados com 72 virgens no paraíso.

Perto destas figuras, INRI Cristo é o homem mais são que conheço. (3 estrelas em 5)

 

48) Caterpillar (Kyatapirâ, Japão, 2010). Dirigido por Kôji Wakamatsu. Com: Shinobu Terajima, Keigo Kasuya, Emi Masuda.

Depois de participar da Segunda Guerra Sino-Japonesa, o tenente Tadashi Kurokawa (Kasuya) é devolvido à sua família como um fragmento do homem que partiu: sem braços e pernas, surdo e mal conseguindo falar, ele passa a ser mantido pela esposa Shigeko (Terajima), que é constantemente alertada por sua comunidade de que a tarefa de cuidar do marido é um serviço honroso prestado diretamente ao Imperador.

Pesado e angustiante em função da situação desesperadora de Tadashi e Shigeko, Caterpillar constrói sua narrativa a partir do cotidiano do casal: inicialmente chocada pelo estado do marido, a mulher gradualmente se entrega diligentemente à tarefa interminável de mantê-lo vivo, limpo e alimentado – e se Tadashi praticamente se limita a comer e dormir, logo soma uma terceira atividade ao seu dia-a-dia, exigindo sexo da esposa constantemente.

Aos poucos, no entanto, o roteiro de Hisako Kurosawa e Masao Adachi revela um subtexto importante na relação dos Kurokawa: antes da guerra, Shigeko era freqüentemente agredida e humilhada pelo marido – e, assim, sua impaciência crescente diante das exigências e da ingratidão deste se torna ainda mais compreensível. Por outro lado, a mulher consegue extrair alguma satisfação da fama do militar, que, condecorado pelo Imperador e sendo chamado por todos de “Deus da Guerra”, acaba conferindo notoriedade também à esposa, que, assim, o leva a passeios compulsórios apenas com o objetivo de exibi-lo e, conseqüentemente, exibir-se.

Igualmente intrigante, aliás, é a constante necessidade demonstrada pelos dois de buscar algum tipo de incentivo psicológico no recorte de jornal emoldurado que traz uma extensa matéria sobre os feitos de Tadashi na guerra – algo que o sujeito parece ler e reler para tentar rememorar a própria humanidade e que a esposa encara como uma maneira de contornar a repulsa que sente pelo marido.

Porém, se Caterpillar é bem-sucedido como estudo destes dois trágicos personagens (e que são interpretados com brilhantismo por Terajima e Kasuya), o filme acaba tropeçando ao tentar se vender como panfleto anti-belicista, quando surge óbvio e desinteressante – especialmente ao enfocar as várias mensagens de propaganda divulgadas pelo rádio ou ao investir em letreiros finais que encaixam os ataques a Hiroshima e Nagasaki de forma pouco orgânica apenas para salientar o que todos sabem: que a guerra é uma estupidez. E neste processo, o longa de Kôji Wakamatsu caba se esquecendo daquilo que o diferencia de tantos outros projetos similares: seus personagens. (3 estrelas em 5)

 

49) Carta a Elia (A Letter to Elia, EUA, 2010). Dirigido por Martin Scorsese, Kent Jones. Com a voz de Elias Koteas.

Elia Kazan sempre foi um enigma para mim: capaz de realizar obras profundamente humanas e tocantes como Sindicato de Ladrões, Vidas Amargas, A Luz é Para Todos e Uma Rua Chamada Pecado, ele também se mostrou um crápula ao depor voluntariamente diante da repugnante comissão caça-comunistas patrocinada pelo desprezível senador McCarthy na década de 50, prejudicando de forma incontornável ao menos oito de seus colegas de profissão. Assim, quando foi homenageado pela Academia em 1999 com um Oscar honorário, Kazan despertou a fúria de muitos integrantes da indústria cinematográfica – e até hoje me lembro da expressão de fúria de figuras como Ed Harris e Nick Nolte enquanto o velho cineasta era homenageado no palco por Martin Scorsese e Robert De Niro.

O que, aliás, nos traz a este Carta para Elia, já que uma outra pergunta que sempre me incomodou foi “por que Scorsese, que até mesmo fez uma ponta em Culpado por Suspeita (estrelado por De Niro, aliás), que lidava justamente com as conseqüências do mccarthismo, aceitaria homenagear alguém que contribuiu com aquela comissão?”. A resposta veio neste documentário e se revela óbvia: porque Scorsese, como um profundo apaixonado pelo Cinema, enxergava Kazan como um artista, não como um homem falho – e neste sentido sua atitude trazia toda a lógica do mundo.

Narrado pelo próprio Scorsese (com exceção dos trechos da autobiografia de Kazan, que são lidos pelo ator Elias Koteas), Carta para Elia expõe a admiração que o cineasta passou a sentir pelo veterano diretor já na pré-adolescência, quando assistiu a obras como Sindicato de Ladrões e Vidas Amargas e que refletiam não só o mundo no qual o próprio Scorsese vivia, mas também vários de seus conflitos internos. Usando trechos da obra de Kazan em busca de respostas para as ações do sujeito (ou, no mínimo, para estabelecer paralelos com a trajetória deste), o documentário cobre de maneira apenas superficial o depoimento diante do senado – e se oferece pouca (ou nenhuma) explicação para esta atitude, o filme ao menos é veemente (e convincente) ao afirmar que foi a partir daquele momento que Elia Kazan se tornou realmente um cineasta com voz própria.

Detendo-se no apuro técnico dos longas do diretor, Carta para Elia acaba se estabelecendo mais como uma análise do efeito que aquela filmografia exerceu sobre Scorsese do que como um retrato minimamente abrangente do próprio Kazan – algo no mínimo coerente, já que, como o próprio título indica, este documentário nada mais é do que uma declaração de amor altamente pessoal e uma justa homenagem a um grande cineasta que, independentemente de suas ações como indivíduo, construiu uma obra admirável e, no processo, inspirou um outro mestre a dar seus primeiros passos para se tornar um ícone da Sétima Arte. (4 estrelas em 5)

 

50) Outubro (Octubre, Peru, 2010). Dirigido por Daniel Vega Vidal, Diego Vega Vidal. Com: Bruno Odar, Gabriela Velásquez, Carlos Gassols, María Carbajal, Víctor Prada.

Vencedor do prêmio do júri na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, o peruano Outubro, escrito e dirigido pelos irmãos Daniel e Diego Vega Vidal, acompanha três personagens em uma história que se concentra mais em suas personalidades do que em suas ações: pequeno agiota local, Clemente (Odar) é constante freqüentador do prostíbulo do bairro e, certo dia, encontra em sua casa o bebê que teve com uma das mulheres que o atendiam ali. Sem saber como cuidar da criança, ele contrata a carente Sofía (Velásquez) como babá, ao passo que esta insiste em disputar uma premiação local de palavras cruzadas, pedindo ao velho Don Fico (Gassols) que as resolva para que possa enviá-las para o jornal que promove a disputa. Don Fico, aliás, vem juntando dinheiro com o propósito de tirar a namorada do hospital no qual se encontra semi-comatosa – até que, eventualmente, todas estas subtramas acabam se cruzando.

Ou não. Porque, como já dito, a trama é o que menos importa em Outubro e, assim, a ligação entre os personagens só é relevante no que diz respeito à maneira como reagem uns aos outros (e, neste sentido, Don Fico infelizmente soa dispensável à narrativa, jamais influindo na trajetória dos demais). Por outro lado, Sofía é encarnada por Gabriela Velásquez como uma mulher tremendamente carente de afeto e contato físico que, justamente por isso, logo se entrega a fantasias e até mesmo a nojentas simpatias para atrair a atenção de Clemente – que, por sua vez, surge como um homem sempre sério e de poucas palavras que, fraco de caráter, ainda vive sob a sombra do pai, de quem herdou a profissão e, aparentemente, tudo o que possui. (E é revelador que ele insista em manter seus clientes em um banco bem mais baixo do que a cadeira na qual se senta a fim de que possa surgir bem mais alto e poderoso do que aqueles que recorrem ao seu auxílio.)

Com uma direção de arte eficiente em retratar a miséria daquele universo através dos ambientes com paredes sempre descascadas, das portas emperradas e dos espaços reduzidos, Outubro constrói sua história com calma e atenção para os detalhes, mas, no fim das contas, é impossível deixar de constatar que seus personagens não são dos mais interessantes – e nem mesmo o desfecho tolamente ambíguo consegue transformá-los em indivíduos mais intrigantes. (3 estrelas em 5)