Novos filmes

Mostra de São Paulo 2010 – Dia 09

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Sou apaixonado pela Mostra de São Paulo, que cubro há anos, mas devo dizer que nunca vi tantos problemas durante as exibições e tantas cópias digitais porcas na programação. Chega a desanimar.

Enfim.

38) Luz nas Trevas (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Helena Ignez, Ícaro Martins. Com: Ney Matogrosso, André Guerreiro Lopes, Djin Sganzerla, Sandra Corveloni, Bruna Lombardi, Maria Luisa Mendonça, Simone Spoladore, Arrigo Barnabé, Sérgio Mamberti, Mário Bortolloto, José Mojica Marins, Paulo Goulart.

Dirigido pela viúva de Rogério Sganzerla, estrelado pela filha e pelo genro do cineasta e partindo do roteiro que este escreveu, Luz nas Trevas é uma continuação do clássico do cinema marginal O Bandido da Luz Vermelha, que Sganzerla realizou em 1968 e que trazia Helena Ignez, co-diretora deste projeto, no importante papel da prostituta Janete Jane. Assumindo-se como filme e homenageando a obra do diretor, o longa mostra-se corajoso ao adotar uma linguagem com tendência ao experimental em um contexto dominado por narrativas lineares e historinhas com princípio-meio-e-fim – uma coragem admirável, mas que não elimina seus equívocos.

Trazendo o Bandido da Luz Vermelha (no original, Paulo Villaça; aqui, Ney Matogrosso) vivendo numa cela individual e contando com vários privilégios por ter assumido a autoria de dezenas de crimes que não cometeu (e, portanto, ignorando o final do filme de 68), o roteiro nos apresenta a Tudo-ou-Nada (Lopes), que descobre ser filho do Luz e passa a imitar o pai, usando um lanterna e lenço vermelhos em assaltos por toda a cidade.

Buscando claramente adotar o estilo visual de Sganzerla (e com sucesso), os diretores transformam este projeto em algo como um neo-cinema marginal, empregando travellings circulares, zooms abruptos, a câmera sempre na mão e uma textura na fotografia que remete diretamente à obra do cineasta – e as citações continuam no letreiro luminoso que traz os créditos que exibem, inclusive, a característica expressão “um roteiro de cinema de Rogério Sganzerla”. Reconhecendo a existência do filme original em seu próprio universo diegético, Luz nas Trevas ainda mergulha na metalinguagem ao incluir cenas de várias obras do cineasta (e um cartaz de O Signo do Caos) e ao contar com um protagonista que não apenas rompe a quarta parede, se dirigindo ao público, como ainda manda o narrador se calar.

Sem abrir mão das paródias que fizeram de O Bandido da Luz Vermelha uma obra auto-referencial e crítica, esta continuação traz atores secundários que reconhecem seus personagens como estereótipos e, assim, investem em performances absurdas e caricatas – e não é à toa que, em certo instante, o delegado que persegue Tudo-ou-Nada recita um longo monólogo composto exclusivamente por clichês e lugares-comuns.

Buscando se estabelecer como um retorno ao período do primeiro longa, mas também como uma produção contemporânea, Luz nas Trevas ainda surpreende o espectador com um design de produção e com figurinos que, mesmo remetendo diretamente aos anos 70 (além das roupas de época, o protagonista filma com uma Super 8 e dirige um Galaxie), exibe em seu background carros modernos e menciona aparelhos de DVD e outros itens modernos, criando um universo curiosamente atemporal.

Já as tentativas feitas pelo roteiro no sentido de estabelecer uma crítica social e política, infelizmente, soam infantis e repetitivas (em vários instantes, alguém cita a corrupção e “os políticos” como males piores do que o protagonista) – e, da mesma maneira, planos rápidos jogados ao longo da projeção, como aquele em que Luz surge segurando uma navalha, não conseguem construir um simbolismo relevante, parecendo viagens temáticas incompletas e mal-sucedidas feitas pelos cineastas.

Seja como for, Luz nas Trevas é um intrigante experimento-homenagem que, mesmo pecando pela falta de coesão, merece créditos pela ousadia e por seus vários acertos. (3 estrelas em 5)

 

39) Camponeses do Araguaia – A Guerrilha Vista por Dentro (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Vandré Fernandes.

Burocrático em sua estrutura ao se limitar a trazer várias “cabeças falantes” narrando passagens de suas vidas, Camponeses do Araguaia ainda assim se revela um documentário poderoso em função da importante e chocante história que ajuda a resgatar: a tentativa de preparar guerrilheiros no Araguaia feita pelos revolucionários durante a ditadura militar e o massacre desproporcional orquestrado pela repressão.

Protagonizado pelos moradores da região que conviveram com os jovens enviados pelo PCdoB, o filme envolve já em função dos rostos marcados, envelhecidos e expressivos de seus personagens, que, com a cadência típica do interior, relembram aquele período como se estivessem contando “causos” na varanda de casa – o que apenas ressalta a humildade daquelas pessoas e, principalmente, a marca profunda deixada em suas memórias por aquela época tenebrosa.

Chamados de “paulistas” pelos habitantes locais, os guerrilheiros da esquerda brasileira logo se estabeleceram como presença bem-vinda na região, interagindo com a população, comprando e vendendo itens, distribuindo (sim, gratuitamente) medicamentos e até mesmo ajudando a construir uma pequena escola – que, então, passou a contar com uma das revolucionárias como professora. Recebendo o apoio e o carinho do povo do Araguaia, os militantes-guerrilheiros não escondiam as armas ou seus propósitos de enfrentar a ditadura – mas mesmo que esta fosse uma luta relativamente distante da realidade dos camponeses, eram abraçados e recebidos como vizinhos por estes.

Isto, é claro, até que o exército passou a enviar à região contingentes maiores do que aqueles despachados para a Segunda Guerra Mundial – e com o único propósito não de prender, mas de exterminar os jovens revolucionários. Mas não só isso: convencidos de que os camponeses estavam prestando ajuda aos inimigos, os militares iniciaram uma campanha implacável contra os humildes habitantes da região, prendendo e torturando barbaramente indivíduos que não faziam a menor idéia do que estava acontecendo e que tinham passado a vida inteira olhando apenas para o chão do qual extraíam a sobrevivência – e os relatos destes pobres homens das torturas indizíveis sofridas ao longo de dias são profundamente chocantes. “Terror quem fazia era o exército!”, um deles chega a afirmar, em certo momento da projeção.

Trazendo como pontos de partida e chegada da narrativa o processo de anistia encabeçado pela gestão do presidente Lula, que finalmente passou a indenizar os camponeses que foram torturados e tiveram suas terras tomadas pelos ditadores, Camponeses do Araguaia é um filme fundamental para qualquer um que queira compreender um pouco melhor este período tão trágico de nossa História recente. (4 estrelas em 5)


40) Sinais Vitais (Les signes vitaux, Canadá, 2009). Dirigido por Sophie Deraspe. Com: Marie-Hélène Bellavance, Francis Ducharme, Suzanne St-Michel, Marie Brassard, Danielle Ouimet, Paul De Strooper.

Mais ou menos após 15 minutos de projeção, Sinais Vitais surpreende o espectador com uma imagem inesperada: depois de termos acompanhado a protagonista por um bom tempo, de a termos visto tanto nos momentos em que transava com o namorado quanto naqueles em que simplesmente caminhava pelas ruas da cidade tranquilamente, chegamos a um instante no qual ela se senta na cama e calmamente retira as próteses que ocupavam o lugar de suas pernas – ambas amputadas na altura dos joelhos. A surpresa vem não exatamente do fato de descobrimos que a atriz (e, conseqüentemente, a personagem) não tem as pernas, mas da naturalidade com que o belo filme de Sophie Deraspe trata a questão: Simone (vivida pela dançarina Marie-Hélène Bellavance, que teve as pernas amputadas aos 11 anos de idade) não é definida por sua deficiência e esta nem mesmo exerce papel importante na narrativa – algo que diferencia este projeto de qualquer outra produção protagonizada por alguém com problema similar, que imediatamente tomaria conta da história.

Depois de perder a avó sem ter tido chance de se despedir da mulher que, afinal, a criou, Simone, uma canadense que fazia faculdade nos Estados Unidos, retorna à sua cidade natal e decide trabalhar como voluntária no mesmo hospital no qual a avó encontrava-se internada, dedicando-se exclusivamente a auxiliar pacientes terminais. Isolando-se emocionalmente e passando a evitar até mesmo o namorado, a moça acaba se envolvendo intensamente com aquelas pessoas, despertando a preocupação de todos que a cercam.

Embora se apresente como um estudo de personagens que estimula o espectador a tentar decifrar as motivações por trás das ações de Simone (culpa por não ter estado presente quando a avó morreu? Reação atrasada pela perda dos pais?), Sinais Vitais acaba mesmo se estabelecendo como uma mensagem profundamente tocante sobre a vulnerabilidade e a morte. Por mais fortes e independentes que sejamos (ou que queiramos acreditar que somos), o fato é que na doença somos todos iguais: debilitados, temos que abrir mão de nossa “dignidade” – na verdade, apenas outra palavra para “orgulho” – e aceitar a fragilidade de nossos corpos. E como alguém que já passou por uma situação de incerteza e hospitalização relativamente prolongada, posso dizer que, nestes momentos, é preciso dar graças por existirem profissionais que dedicam suas vidas às dos outros.

Tropeçando (feio) ao empregar uma trilha instrumental monótona e repetitiva que parece ter sido gravada ao som de vuvuzelas, o filme ainda traz uma pequena surpresa em sua última cena que, amarrando de forma curiosa o tema da narrativa, funciona muito bem como um lembrete importante de que, frágeis por natureza, nossas vidas são um dom precioso e, como tal, devem ser experimentadas e valorizadas ao máximo enquanto podemos fazê-lo. Uma mensagem que pode parecer óbvia, mas que – como toda obviedade – é facilmente esquecida. (3 estrelas em 5)

 

41) Jardim Sonoro (Niel Giardino Dei Suoni, Suíça, 2009). Dirigido por Nicola Bellucci.

Wolfgang Fasser é um herói. Cego desde os 22 anos de idade, este músico e fisioterapeuta suíço se estabeleceu ainda jovem como profissional bem-sucedido até que, em certo momento, decidiu retornar à sua pequena cidade natal e concentrar seus esforços no sentido de ajudar crianças com graves deficiências mentais através da musicoterapia.

Dirigido por Nicola Bellucci, este belíssimo documentário acompanha o cotidiano de Fasser durante um longo período enquanto este atende vários de seus pacientes regulares – e é profundamente comovente perceber, por exemplo, como os métodos e o carinho do sujeito se revelam eficazes ao levar uma garota com paralisia cerebral a articular com mais clareza as palavras e a se locomover sem a ajuda de outras pessoas. Trazendo também depoimentos dos pais das crianças, que se mostram incrivelmente gratas pelos resultados obtidos por Wolfgang – mas sem jamais transformar estas entrevistas em centro da narrativa -, Jardim Sonoro se estabelece como um retrato impressionante da determinação de um homem em vencer as próprias deficiências enquanto se dedica a auxiliar indivíduos que, ele próprio reconhece, enfrentam obstáculos ainda maiores do que os seus.

Alternando entre as sessões com as crianças e o cotidiano de Fasser, o longa ilustra a incrível independência do fisioterapeuta, que, morando sozinho, não só faz todas as tarefas domésticas com total desenvoltura como ainda percorre os acidentados terrenos ao redor de sua casa enquanto grava todo tipo de som que possa se tornar útil em seu trabalho (chegando, acreditem, a subir em árvores para instalar microfones e outros equipamentos). As pesquisas do profissional, aliás, se revelam intrigantes: ao reparar os padrões sonoros emitidos por um paciente particularmente agressivo e agitado, por exemplo, Wolfgang encontra um padrão similar na natureza e, depois de gravá-lo, cogita empregá-lo como som ambiente da sessão para estimular o garoto a extravasar seus impulsos de maneira mais construtiva – uma técnica que já se mostrara eficaz ao ser adotada com outros pacientes (e empregando outros tipos de sons, claro).

Praticamente dedicando sua vida à nobre tarefa de ajudar o próximo (até seu velho cão-guia, que já passa os dias dormindo, ganha massagens constantes), Wolfgang Fasser não se deixa abalar nem mesmo ao perceber estar perdendo a audição – algo que para um homem cego (e que vive da música e dos sons) é bem mais trágico do que para um indivíduo comum: em vez de se entregar à auto-comiseração e ao desespero (o que, convenhamos, seria perfeitamente natural e aceitável), o sujeito prefere interpretar como algo positivo o fato de seu aparelho de surdez permitir que capte novas freqüências sonoras e pondera, ainda, que seus jovens pacientes enfrentam problemas bem maiores do que os seus.

Desta forma, Wolfgang Fasser surge não apenas como um profissional inteligente e admirável, mas também como um ser humano absolutamente maravilhoso. (5 estrelas em 5)

Mostra de São Paulo 2010 – Dia 08

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33) Um Dia na Vida (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Eduardo Coutinho.

A sessão de Um Dia na Vida, um “material de pesquisa” coletado pelo mestre Eduardo Coutinho, estabeleceu-se como algo histórico na última Mostra de São Paulo por provavelmente ter sido a primeira e última vez que foi apresentada ao público: consistindo de 90 minutos extraídos de 19 horas de gravações ininterruptas de todos os canais da tevê aberta nacional, o documentário certamente enfrentaria problemas incontornáveis de direitos autorais caso o diretor tentasse lançá-lo comercialmente – e isto é uma pena, já que o trabalho escancara diversos elementos curiosos sobre a programação da televisão brasileira apenas ao criar uma justaposição de seus programas e projetá-los na tela grande.

A primeira constatação óbvia, aliás, diz respeito aos perfis perseguidos pelas emissoras ao longo do dia: logo pela manhã, por exemplo, o foco principal é o público feminino e, em menor escala, o infantil. Tratando as mulheres (especialmente as donas-de-casa) como verdadeiras débeis mentais, estas produções abordam assuntos fúteis por essência, descambando para propagandas e “matérias” sobre estética que comumente são baseadas na mais pura desinformação (eufemismo para “estupidez”). Em certo instante, por exemplo, vemos uma “especialista” afirmar que pessoas com tipos sangüíneos diferentes apresentam características comportamentais distintas que podem ser reguladas por alimentos específicos, enquanto em outro programa vemos um “médico” afirmar que os suplementos de cálcio que está anunciando são capazes de rejuvenescer as clientes em questão de poucos meses.

Se há alguns anos o horário diurno (especialmente o matutino) se preocupava em jamais trazer qualquer tipo de imagem que pudesse se revelar chocante para o público infantil, agora isto obviamente já não faz mais parte da lista de prioridades das emissoras. Assim, já ao meio-dia (Um Dia na Vida traz as imagens em ordem cronológica, iniciando às 6 da manhã) podemos acompanhar informações detalhadas sobre um tiroteio que resultou em um garoto sendo baleado na cabeça – e já no fim da tarde, o apresentador Datena narra a tentativa feita pelos paramédicos para ressuscitar outra vítima de arma de fogo (um procedimento capturado pela câmera em um helicóptero e exposto na tela sem qualquer pudor). E o que dizer do momento inacreditável em que Wagner Montes, comandando outra produção do estilo mundo-cão, praticamente incentiva a população a reagir a assaltos e explica, um pouco depois, que bater em mulher é “covardia”, já que basta “segurá-las pelo braço quando ficam nervosas”?

Volto a ressaltar que estes exemplos surgem na programação diurna, quando crianças de todas as idades se encontram diante da televisão – e não menos revoltante é perceber como um programa religioso, que traz a classificação indicativa “livre”, conta com um “pastor” que, em seu discurso odioso, estimula a intolerância religiosa sem o menor pudor, já contribuindo para criar futuros fundamentalistas. Aliás, a presença constante de projetos de caráter religioso na tevê brasileira em todos os horários é algo assustador – e que se prova ainda mais chocante quando notamos que todos eles exploram a fé popular com intuitos comerciais enquanto, em maior ou menor escala, incentivam o preconceito e o ódio. Em outras palavras: o sexo, ato mais belo entre dois seres humanos, leva a uma classificação indicativa pesada, mas discursos repugnantes com potencial para influenciar mentes ainda em formação são permitidos sem o menor problema em nossas tevês.

Porém, Um Dia na Vida leva a reflexões também sobre linguagem e estética do audiovisual ao expor os programas em uma telona diante de um público que não está dividindo sua atenção com qualquer outra tarefa – e, com isso, podemos perceber facilmente a fragilidade da tevê brasileira contemporânea como forma artística nestes dois quesitos (todas as novelas, brasileiras ou mexicanas, se parecem, por exemplo, além de contarem com diálogos e atuações igualmente risíveis). Não é à toa, diga-se de passagem, que o público que lotou a sessão riu praticamente durante toda a projeção – e, com a exceção de Tom & Jerry e Chaves, nenhuma das produções vista nestes 90 minutos tinha a intenção de provocar esta reação (meu momento favorito ocorreu quando um programa se referiu à Fernanda Young como “intelectual”, o que também provocou gargalhadas generalizadas na sala).

Explorando sem o menor pudor a miséria alheia e o sonho dos “15 minutos de fama” de boa parte da população, várias produções também se encarregam de levar para a frente das câmeras pessoas com sofrimentos reais que, lamentavelmente, se submetem de bom grado à própria humilhação pública (é curioso notar, por exemplo, como todas as mulheres que ganham cirurgias plásticas no programa Márcia acabam ficando idênticas à apresentadora) – e isto para não mencionar as garotas que exibem os corpos seminus ao longo de todo o dia.

O mais chocante é que, após a sessão, Eduardo Coutinho esclareceu que não fez questão alguma de pinçar o que havia de pior nas 19 horas que gravou e que, ao contrário, eliminou vários momentos que considerou pavorosos demais para incluir no material final. Com isso, o diretor, embora não tenha criado propriamente um filme (tanto que não darei cotação alguma ao “documentário” por ser impossível avaliá-lo como obra isolada), certamente concebeu algo que, por ser representativo do que recebemos diariamente em nossas tevês, não só comprova a péssima qualidade do que as emissoras vêm produzindo (e sua inadequação ao público infantil), como ainda nos leva a fazer uma importante pergunta: por que ainda hoje as pessoas perdem tempo assistindo à tevê aberta no Brasil?

Confesso ter medo de descobrir a resposta. (sem cotação)

 

34) VIPs (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Toniko Melo. Com: Wagner Moura, Gisele Fróes, Juliano Cazarré, Milhem Cortáz, Jorge D’Elía, Arieta Correia, Roger Gobeth, Norival Rizzo e Amaury Jr.

Inspirado no mesmo livro Histórias Reais de um Mentiroso que originou o documentário homônimo dirigido pela escritora Mariana Caltabiano (e que já comentei em minha cobertura da Mostra de São Paulo), VIPs é um filme divertido que acerta ao reconhecer o potencial cinematográfico da fantástica história do trambiqueiro Marcelo do Nascimento mesmo que também cometa falhas graves ao fazer compromissos morais e narrativos que comprometem o resultado final.

Escrito por Bráulio Mantovani e Thiago Dottori, o roteiro acompanha vários anos da vida de Marcelo (Moura), começando no ensino médio e abordando os eventos mais importantes de sua jornada, como sua passagem pelo Paraguai, o período em que trabalhou como piloto de avião para traficantes e, claro, sua participação no Recifolia, quando assumiu a identidade de um dos donos da Gol e acabou sendo entrevistado ao vivo pelo colunista social Amaury Jr. Mudando os nomes de vários personagens para evitar questões legais (Ricardo Macchi vira “Renato Jacques”; por exemplo), VIPs ainda assim se mantém relativamente fiel aos eventos narrados no documentário de Caltabiano (não li o livro), o que é admirável – embora faça uma mudança significativa e reprovável que discutirei mais adiante.   

Com uma introdução fragilíssima, mesmo constrangedora, que retrata Marcelo na adolescência (levando Wagner Moura a usar uma peruca pavorosa e a tentar fazer algo que nem mesmo todo seu talento poderia alcançar: retratar um jovem de 17 anos), o filme se torna sensivelmente melhor depois da primeira elipse, quando reencontramos o protagonista um pouco mais velho e já trabalhando em um aeroclube. A partir deste instante, o longa ganha consistência e ritmo, superando sua introdução medíocre e passando a envolver o espectador com segurança.

Investindo contínua e acertadamente na comédia, VIPs emprega tanto gags visuais inspiradas (como na cena em que o Patrão traficante afirma odiar armas, esquecendo-se do ambiente ao seu redor) quanto diálogos hilários (como o interrogatório de Marcelo feito pela Polícia Federal). Além disso, a montagem de Gustavo Giani mostra-se bem-sucedida ao conferir dinamismo à narrativa, algo que fica claro, por exemplo, na seqüência que traz o personagem imitando Renato Russo enquanto acompanhamos sua evolução dentro da quadrilha e sua iniciativa de enviar dinheiro para a mãe – e elogios também devem ser feitos à elegância de várias de suas transições (como no instante em que as águas de um lago no Paraguai dão lugar ao asfalto coberto de chuva no Brasil). Para finalizar, é admirável que esta obra de “ficção” se mostre mais criteriosa ao questionar os relatos de Marcelo do que o documentário sobre sua vida: enquanto Caltabiano não parece duvidar, por exemplo, da história envolvendo um avião pintado de preto para simular um caça, aqui Toniko Melo traz a passagem sendo relatada pelo protagonista em um interrogatório no qual mente do início ao fim, colocando em dúvida também aquele incidente.

Mais uma vez firmando-se em sua posição entre os melhores atores do Cinema brasileiro contemporâneo, Wagner Moura finca os dentes com vontade num papel cujo potencial certamente reconheceu de imediato: surgindo com vários visuais diferentes e retratando com brilhantismo o arco dramático percorrido por Marcelo, desde a alegria juvenil e incontida do primeiro vôo solo à amargura dos momentos finais, o ator jamais deixa de soar convincente (isto é, passados os minutos iniciais) – e isto mesmo quando se entrega ao piscar acelerado de olhos que obviamente se tornou uma muleta de interpretação e que aqui parece sair de controle. Beneficiado por um roteiro que reconhece que o sucesso de Marcelo residia em sua cara-de-pau e no cuidado com os detalhes, Moura se destaca especialmente ao surgir enganando suas vítimas, como, por exemplo, ao simular uma conversa ao telefone durante a qual reclama de uma árvore que obstrui a placa de “sua” empresa ou ao se adiantar à dúvida de um personagem com relação à sua identidade, invertendo os papéis e perguntando a este se já não se conheciam. Aliás, o ator se mostra tão à vontade em VIPs que consegue nos fazer esquecer de seu icônico Coronel Nascimento de Tropa de Elite 2, transformando 2010 em um de seus melhores anos no Cinema. (E embora Moura realmente domine o longa de ponta a ponta, não posso deixar de elogiar também o desempenho tocante e sensível de Gisele Fróes como Silvia, mãe de seu personagem.)

Infelizmente, porém, VIPs comete um erro grave ao adaptar a história de Marcelo e que compromete a força da história: se em Histórias Reais de um Mentiroso a diretora Mariana Caltabiano pecava por jamais questionar as escolhas morais do protagonista – que, afinal, atuou como traficante e contrabandista, trazendo armas e drogas para o Brasil -, aqui os realizadores adotam uma abordagem diferente: criam uma enfermidade psíquica (óbvia desde o princípio da projeção, diga-se de passagem, embora eles pareçam acreditar que se converterá em surpresa) que basicamente exime Marcelo de toda e qualquer responsabilidade diante de sua vida de crimes.

E esta opção narrativa não apenas se revela rasa do ponto de vista psicológico como também desnecessária e, em última análise, profundamente covarde ao evitar o lado sombrio de um personagem que não deixaria de ser fascinante apenas por exibir uma inegável ambigüidade moral. (3 estrelas em 5)

 

35) O Homem que Amava Yngve (Mannen som elsket Yngve, Noruega, 2008). Dirigido por Stian Kristiansen. Com: Rolf Kristian Larsen, Arthur Berning, Ida Elise Broch, Ole Christoffer Ertvåg, Trine Wiggen, Knut Sverdrup Kleppestø.

O Homem que Amava Yngve é uma comédia romântica adolescente norueguesa que, apesar de poder ser assim rotulada com facilidade, consegue driblar muitas convenções do gênero e estabelecer-se como uma obra sensível e divertida. Há, claros, os problemas habituais de longas que buscam se encaixar em gêneros comerciais específicos, mas o roteiro de Tore Renberg (baseado em seu próprio livro) consegue compensá-los ao demonstrar carinho e compreensão pelos personagens e seus dilemas.

Ambientado sabe-se lá por que em 1989, na Noruega do período que viu a queda do muro de Berlim, o filme acompanha o estudante Jarle Klepp (Larsen), vocalista de uma banda e namorado de uma garota bonita que o apóia incondicionalmente. É quando Yngve (Ertvåg), um novo aluno, entra em sala de aula e algo imediatamente muda em Jarle, que se descobre apaixonado pelo rapaz. Enquanto tenta conciliar os ensaios para um show, o namoro com Cathrine (Broch) e os pais divorciados, Jarle procura compreender os próprios sentimentos e decidir o que fazer a respeito destes.

Bem-sucedido na tarefa de criar personagens multidimensionais e carismáticos, o longa é também hábil ao desenvolver a dinâmica entre estes, criando momentos genuinamente divertidos e reveladores. Além disso, é interessante observar que Jarle é retratado como um adolescente que provavelmente pela primeira vez na vida constata a possibilidade de se apaixonar e de se envolver com alguém do mesmo sexo, descobrindo-se naturalmente atordoado, inseguro e confuso diante desta percepção – uma situação que se torna ainda mais complexa em função da afeição verdadeira que sente pela namorada. Neste aspecto, aliás, o jovem Rolf Kristian Larsen merece elogios por conseguir retratar sentimentos tão contraditórios sem jamais apelar para o exagero, surgindo como um indivíduo sempre autêntico. De maneira similar, Ole Christoffer Ertvåg, como Yngve, cria um rapaz com a clara tendência de reagir com excessiva sensibilidade a tudo à sua volta, mas conseguindo, ao mesmo tempo, manter o público na dúvida quanto à sua orientação sexual. Fechando o elenco, Arthur Berning se estabelece como o grande achado cômico da produção ao transformar seu Helge Ombo no mais divertido integrante da Mathias Rust Band.

Mas O Homem que Amava Yngve também é prejudicado por sua parcela de equívocos, a começar pela quebra da quarta parede no início da projeção, quando Jarle se apresenta como protagonista da história e explica que esta será ambientada no final da década de 80 – um recurso narrativo descartável que, inclusive, nem volta a ser utilizado pelo filme. Aliás, a própria decisão de ancorar a história naquele período histórico revela-se gratuita, já que, além de símbolo óbvio representado pelas imensas mudanças provocadas pela queda do muro, esta é uma opção que, mesmo atraindo muita atenção para si mesma, pouco contribui tematicamente para a produção. Igualmente dispensável, diga-se de passagem, é o tempo dedicado aos pais do protagonista, que não servem nem mesmo no desenvolvimento do personagem principal.

Contando com uma bela trilha incidental, o longa eventualmente dá uma guinada em direção ao drama quando uma canção composta por Jarle é tocada numa festa da escola – e a partir daí o filme flerta com o melodrama e se enfraquece visivelmente, culminando num desfecho tolo e decepcionante. Mas ao menos a jornada até este anticlímax é bastante agradável. (3 estrelas em 5)

 

36) A Rosa de Kawasaki (Kawasakiho ruze, República Tcheca, 2009). Dirigido por Jan Hrebejk. Com: Martin Huba, Milan Mikulcík, Lenka Vlasáková, Daniela Kolárová, Anna Simonová, Antonin Kratochvil, Petra Hrebícková, Ladislav Chudík.

Candidato da República Tcheca a uma vaga no Oscar 2011, A Rosa de Kawasaki é um filme sobre culpa e o retorno de fantasmas do passado para atormentar a vida de pessoas que passaram décadas tentando se livrar destes. Escrito por Petr Jarchovský, o roteiro gira em torno de um famoso psiquiatra que, tendo resistido à repressão comunista no país em sua juventude, agora se encontra prestes a ser homenageado com um prêmio por sua luta. É então que uma equipe de documentaristas encontra documentos que revelam que o sujeito pode ter sido informante da ditadura, mergulhando sua família em uma profunda crise ética e emocional.

Com uma estrutura eficaz que freqüentemente intercala depoimentos do filme-dentro-do-filme com passagens cronologicamente posteriores a fim de conferir maior dinamismo à história, o longa também conta com uma fotografia plasticamente impecável que contribui organicamente com a narrativa ao oscilar entre o calor do ateliê do artista exilado Borek e a frieza da casa do psiquiatra Pavel, refletindo justamente a atmosfera psicológica destes ambientes.

Contraponto a racionalidade e o auto-controle de Pavel à impulsividade e à emotividade do genro, A Rosa de Kawasaki estabelece um conflito curioso entre o primeiro, extremamente inteligente, e o segundo, que ao seu favor tem ao menos a espontaneidade de suas ações – e é curioso perceber como o psiquiatra, ao conversar com a neta sobre o efeito nocivo dos segredos, obviamente sente a angústia oriunda da constatação de que, afinal, está falando por experiência própria.

Com um título evocativo que remete às várias camadas de um origami – e que, portanto, reflete com propriedade a tentativa de Pavel de manter seu passado enterrado, o longa de Jan Hrebejk é correto, mas frio demais para envolver o espectador nos dilemas que se propõe a discutir, não resistindo por muito tempo na memória depois que a sessão chega ao fim. (3 estrelas em 5)

 

37) Exit Through the Gift Shop (Idem, Reino Unido, 2010). Dirigido por Banksy. Com: Thierry Guetta, Shepard Fairey, Banksy, Space Invader e a voz de Rhys Ifans.

O imigrante francês Thierry Guetta, radicado há anos em Los Angeles, só pode ser descrito através de uma palavra: figuraça. Baixinho, gordinho, falando com um forte sotaque e exibindo imensas costeletas e um bigode de ator de filme pornô, Guetta passou a vida obcecado por câmeras, filmando praticamente todos os segundos de sua vida, desde instantes realmente importantes até besteiras como suas idas ao banheiro. Mas foi ao descobrir o movimento de arte de rua encabeçado por grafiteiros que o sujeito encontrou sua verdadeira vocação, passando a registrar a ação destes indivíduos enquanto deixavam suas marcas nas paredes da cidade e decidindo que transformaria tudo aquilo em um documentário.

Tornando-se próximo de figuras como seu primo Space Invader e o designer Shepard Fairey (que se tornaria conhecido por criar a icônica imagem que trazia Barack Obama sobre a palavra “Hope”), Guetta finalmente realizou seu maior sonho ao conhecer o misterioso artista britânico Banksy, que, mesmo reticente, acolheu o francês esquisitão, levando-o para suas ações artísticas de caráter clandestino. Eventualmente, porém, o inglês constatou o óbvio: o sujeito não tinha qualquer condição de transformar aquelas milhares de horas filmadas em algo coerente e, assim, decidiu assumir o controle da empreitada, transformando o bizarro Thierry Guetta em seu protagonista.

E que protagonista: dono de uma loja de roupas em Los Angeles, o francês se tornou bem-sucedido ao comprar peças defeituosas por um preço mínimo e revendê-las por uma fortuna ao apresentá-las como roupas costuradas por designers. Revelando a origem de sua obsessão por filmagem ao explicar que perdeu a mãe muito jovem e decidiu, a partir daí, registrar todos os momentos para a posteridade, Guetta é abraçado pela comunidade dos artistas de rua justamente por oferecer a estes a chance de eternizar as peças que criavam e que normalmente eram removidas com rapidez pela administração pública.

Enfocando as curiosas obras destes diferentes grafiteiros, Exit Through the Gift Shop se torna ainda mais interessante quando o próprio Banksy entra em cena, já que suas instalações se revelam fascinantes tanto conceitualmente quanto em sua execução – e, da mesma forma, seus depoimentos (sempre oferecidos com o rosto encoberto e a voz distorcida) estão entre os mais divertidos e inteligentes do filme: ao descrever, por exemplo, sua reação ao assistir à versão criada por Guetta a partir das imagens originais, Banksy diz sem qualquer traço de ironia: “No fim das contas, ele não era um cineasta, mas uma pessoa com problemas mentais que por acaso tinha uma câmera”. Ainda assim, o grafiteiro-cineasta se mostra generoso o bastante para sugerir que o francês abrace de vez o movimento e se converta num artista de rua – uma sugestão que Guetta leva bem mais a sério do que qualquer um poderia imaginar.

Aliás, os esforços do sujeito para se estabelecer como um nome reconhecido no meio acabam dominando a segunda metade da projeção e remetendo a documentários como Nossa Vida Exposta e Pintora aos Quatro Anos ao despertar questionamentos sobre a natureza da Arte e a falta de lógica em seu dimensionamento financeiro: como, por exemplo, determinar o que é Arte Contemporânea e o que é simplesmente lixo? E, sendo Arte, como estabelecer seu preço? Quem tem autoridade suficiente para julgar estas questões? Qual o papel do hype no processo? E o da especulação feita por marchands?

Com isso, Exit Through the Gift Shop acaba funcionando em vários níveis: não só documenta de fato o surgimento, o auge e o declínio (em função da comercialização) do movimento de arte de rua como ainda se estabelece como um estudo de personagem divertido e revelador sobre o estranho Thierry Guetta – conseguindo, além disso, discutir de forma pertinente as questões abordadas no parágrafo anterior.

E mesmo que, aqui e ali, o filme desperte dúvidas quanto à autenticidade de Guetta, que poderia acabar se revelando apenas mais um projeto de Banksy, devo dizer que particularmente duvido que este seja o caso.  O francês é estranho demais para ser uma fraude. (5 estrelas em 5)

Mostra de São Paulo 2010 – Dias 06 e 07

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Abraço grande ao ex-aluno Leonardo (que fez a edição de maio de 2009) e ao meu querido amigo João Papa, com o qual estou desenvolvendo um projeto que, espero, vocês irão apreciar. Aproveito também para mandar um beijo para a ex-aluna Samantha, que veio de Natal para a Mostra.

Esclareço, ainda, que fui obrigado a desabilitar temporariamente os comentários do blog depois que mais de 3 mil comentários de spam foram publicados por um robô em menos de 24 horas. Espero encontrar uma solução em breve para o problema, mas, até lá, nem mesmo comentários moderados estão sendo permitidos, já que o spam lotaria o sistema do blog do mesmo jeito.

E vamos aos filmes:

25) Hermano (Idem, Venezuela, 2010). Dirigido por Marcel Rasquin. Com: Eliú Armas, Fernando Moreno, Marcela Girón, Beto Benites, Gonzalo Cubero, Alí Rondon.

Em certo momento de Hermano, pré-candidato da Venezuela ao Oscar 2011, os irmãos vividos por Eliú Armas e Fernando Moreno surgem sentados num terraço enquanto a câmera revela, abaixo deles e estendendo-se em todas as direções, a gigantesca favela na qual vivem – um plano de tirar o fôlego não só pela escala da miséria que revela, mas por apresentar de forma literal o universo de tristeza que ambos querem deixar para trás usando o talento que possuem no futebol como rota de fuga.

Amigos e companheiros de time, Júlio (Armas) e Gato (Moreno) dividem um pequeno barracão com a mãe, por quem têm admiração irrestrita e que apóia os garotos de forma entusiasmada em todas as partidas disputadas pelo campeonato inter-bairros da cidade. Quando um olheiro do Caracas convida os rapazes para um teste, tudo parece se encaminhar na direção desejada pela família – até que uma tragédia envia os irmãos em direções opostas e Gato passa a se esforçar para que Júlio não se perca de vez no universo da violência.

Extraindo sua força da dinâmica entre os dois ótimos atores principais, Hermano retrata com habilidade a relação entre os irmãos, que, sempre competindo entre si de maneira amigável (mas nem por isso menos intensa), surgem como jovens multidimensionais que, mesmo se amando, não deixam de discutir ou trocar uns sopapos de vez em quando – o que não diminui o carinho que sentem um pelo outro. Preocupado ao observar que Júlio está se deixando seduzir pelos bandidos locais, Gato chega a mentir e a esconder informações cruciais do outro, torturando-se por ser o único a conhecer a identidade do indivíduo que destruiu suas vidas por temer que, ao compartilhá-la com o irmão, este mergulharia de vez no crime – um segredo que destrói o garoto internamente.

Escrito pelo diretor Marcel Rasquin ao lado de Rohan Jones, o roteiro ainda se preocupa em estabelecer a importância da comunidade no cotidiano não só daquela família, mas de todos os jovens que tentam viver honestamente apesar das tentações constantes que os cercam, sendo tocante (e contagiante) observar, por exemplo, como os treinos do time local são acompanhados com atenção pelos torcedores que, convidados pelo técnico, chegam a correr ao lado dos jogadores num misto de brincadeira e apoio moral. E se as partidas são retratadas de maneira pouco eficaz pelo diretor e pelos montadores Juan Carlos Melian e Carolina Aular, que tornam as jogadas incompreensíveis em função dos cortes rápidos e da própria movimentação excessiva da câmera (e dos planos fechados), ao menos o filme se sai bem melhor em seu design de produção, que sugere as condições de vida dos garotos através da cozinha e dos quartos extremamente apertados, mas sem deixar de criar um clima familiar agradável através dos enfeites, retratos e da própria cor das paredes do barraco (da mesma forma, detalhes como a falta de um espelho retrovisor no carro do técnico ilustram de maneira econômica o universo dos personagens).

Evitando os estereótipos até mesmo ao compor o chefe do tráfico local e também o sujeito cuja ação dispara o conflito entre os irmãos, Hermano ainda conta com um clímax angustiante e intenso que usa a partida final (normalmente um clichê dos filmes de esporte) como palco da resolução dos embates internos dos personagens, resultando num desfecho catártico, surpreendente ao seu próprio modo e que enriquece ainda mais este belíssimo longa venezuelano. (4 estrelas em 5)


26) O Atleta (Atletu, Etiópia, 2009). Dirigido por Davey Frankel, Rasselas Lakew. Com: Rasselas Lakew, Dag Malmberg, Ruta Gedmintas, Abba Waka Dessalegn.

A primeira coisa que chama a atenção em O Atleta, forte pré-candidato da Etiópia ao Oscar 2011, é sua estrutura narrativa, que flui com uma naturalidade admirável entre passado e presente e entre imagens de arquivo e encenações com atores. Dirigido por Davey Frankel e Rasselas Lakew (que também encarna o personagem-título em várias seqüências), o filme celebra a vida do maratonista etíope Abebe Bikila, que em 1960 se tornou o primeiro africano a ganhar a medalha de ouro na desgastante prova que serve como clímax das Olimpíadas ao enviar corredores de todo o mundo em uma corrida de 42 quilômetros. Correndo descalço em Roma e se tornando bicampeão em Tóquio, em 64, Bikila se converteu num ídolo em seu continente – e, assim, quando abandonou a corrida no México, em 68, certamente sentiu o peso da responsabilidade por supostamente desapontar seus admiradores.

Ao contrário da maior parte das cinebiografias, porém, O Atleta não se interessa em acompanhar a trajetória do corredor desde a juventude até sua coroação em um grande evento; em vez disso, o filme tem início depois que Bikila já venceu suas duas maiores disputas e sofreu sua maior frustração esportiva, passando a acompanhar o personagem enquanto este se prepara para uma tentativa de retorno nas olimpíadas de Munique, em 72 – um objetivo que acaba sendo destruído quando, ao retornar à sua cidade depois de mais uma sessão de treinamentos, o atleta sofre um acidente de carro e se torna paraplégico.

Empregando as interações de Bikila com as pessoas que cruzam seu caminho durante sua viagem e, posteriormente, no hospital, O Atleta oscila entre passado e presente de forma elegante e orgânica, muitas vezes criando interseções inesperadas entre épocas diferentes – como na seqüência em que o jovem corredor deixa a casa de um parente e desce um morro, revelando um pequeno carro que cruza a estrada à distância e que transporta justamente sua versão já adulta. Da mesma maneira, os cineastas criam transições belíssimas entre suas reencenações e as imagens de arquivo, destacando-se o momento em que Bikila, em 69 e vivido pelo ator-diretor Lakew, ultrapassa um ônibus que magicamente remete ao veículo similar visto na cena documental que traz o verdadeiro corredor em uma maratona anos antes.

Com uma fotografia soberba capturada por quatro profissionais e que explora ao máximo as imponentes paisagens da Etiópia, O Atleta é um filme que constantemente leva o espectador a prender a respiração em função das maravilhosas imagens que exibe, desde planos-detalhe que enfocam garrafas de mel ou mesmo os tênis de Bikila até quadros amplos que descortinam vales que se estendem por quilômetros sem fim. Enquanto isso, os dois montadores empregam uma lógica fascinante ao freqüentemente saltarem no tempo enquanto os diálogos da cena anterior continuam a ser ouvidos por vários segundos, convertendo-se, assim, numa narração em off orgânica que oferece explicações importantes para o espectador sem que isto soe expositivo ou artificial, numa estratégia econômica e elegante – e que, tematicamente, ainda remete ao fato do protagonista corredor estar sempre à frente de todos, já que as imagens não esperam nem mesmo o som que deveria acompanhá-las.

Homem de incrível determinação e com um espírito competitivo que o leva a se dedicar, por exemplo, ao arco-e-flecha mesmo sem ter força nos braços e nas mãos para segurar o equipamento (o que o obriga a improvisar luvas que o ajudem na tarefa), Abebe Bikila surge, em O Atleta, como um indivíduo cuja expressão sempre séria e concentrada talvez não faça jus à alma gentil que representa – e que se revela uma inspiração não só para o povo africano, mas para a raça humana de modo geral. (5 estrelas em 5)

 

27) Oceano Negro (Noir océan, Bélgica, 2010). Dirigido por Marion Hänsel. Com: Romain David, Nicolas Gob, Adrien Jolivet, Nicolas Robin.

Embora eventualmente revele sua intenção de se estabelecer como um estudo sobre a culpa que atormenta (ou deveria atormentar) aqueles que se envolveram em atos de profunda crueldade – mesmo que, como peças sem poder naquele jogo, não tivessem muitas alternativas -, Oceano Negro é um filme que, até mesmo por sua estrutura, se condena à irrelevância. Preso a um roteiro raso e sem foco escrito pela diretora Marion Hänsel, o longa acaba se apresentando como uma experiência desinteressante e que, no fim das contas, não parece ter propósito algum a não ser o de soar como algo mais importante do que é na verdade.

Com uma meia hora inicial que ao menos se apresenta intrigante por retratar com eficiência o isolamento e o cotidiano dos marinheiros a bordo de um navio cuja missão desconhecem, o projeto aposta na interação dos personagens para prender a atenção do espectador – e, ao menos em seu terço inicial, é bem-sucedido na tarefa. Focando particularmente em três jovens que se diferenciam dos demais por conseguirem, com maior ou menor sucesso, manter alguma sensibilidade diante do mundo, o filme conta até mesmo com sua própria versão do soldado Pyle vivido por Vincent D’Onofrio em Nascido para Matar e que aqui ganha o nome de DaMaggio, sendo igualmente importunado por seu peso e por sua falta de firmeza no cotidiano militar.

Buscando demonstrar como a crueldade e o descaso para com o próximo podem contagiar até mesmo indivíduos mais gentis, Oceano Negro busca ilustrar esta natureza sádica através de atos cometidos contra animais, desde o adorável cachorro que serve como mascote do barco até um polvo que tem os tentáculos trançados em um nó e caranguejos que são atirados ainda vivos em uma fogueira – mas esta estratégia, embora chocante, serve apenas parcialmente para representar o tema principal da narrativa, que diz respeito à reação dos marinheiros diante da constatação de que estão participando de testes nucleares.

Desta maneira, o filme falha tanto como estudo de personagens quanto como obra-mensagem, flutuando perdidamente com a mesma falta de propósito com a qual o trio principal percorre a praia na longa e vazia seqüência final da projeção. E se o propósito da obra era ser aborrecida como os homens que a protagonizam, conseguiu. (2 estrelas em 5)

 

28) Em um Mundo Melhor (Hævnen, Dinamarca, 2010). Dirigido por Susanne Bier. Com: Mikael Persbrandt, William Jøhnk Nielsen, Markus Rygaard, Trine Dyrholm, Ulrich Thomsen.

É sempre um prazer assistir a um filme com personagens adultos que, diante de problemas similares aos que todos nós enfrentamos em nossas próprias existências, comportam-se de maneira madura e sensata em vez de se entregarem a absurdos que só soariam possíveis no cinema. Assim, ao longo de Em um Mundo Melhor, encantei-me não apenas com a delicada construção de personagens do roteiro escrito pela diretora Susanne Bier ao lado de seu velho parceiro Anders Thomas Jensen como ainda aplaudi mentalmente a maneira com que estes se portavam diante de obstáculos difíceis e angustiantes.

Centrado justamente na relação entre aquelas pessoas e os dilemas nascidos ou do desgaste de relações ou da mais absoluta tragédia, o longa basicamente divide sua narrativa em duas vertentes: por um lado, acompanhamos as atribulações do médico Anton (Persbrandt), que, atuando em um país dominado pela miséria e por uma milícia violenta, ainda é obrigado a lidar com a dificuldade do divórcio nas raras ocasiões em que pode retornar para casa a fim de passar algum tempo com os dois filhos; por outro, somos apresentados ao garoto Christian (Nielsen), que acaba de perder a mãe e passa a viver com o pai (Thomsen), olhando-o com uma recriminação inicialmente incompreensível. Fazendo amizade com o doce filho de Anton, Elias (Rygaard), que vendo sendo vítima de bullying na escola, Christian acaba agindo de maneira excessivamente violenta, o que representa apenas o primeiro passo de uma série de ações intempestivas que protagoniza ao lado do novo amigo.

Mantendo a uma expressão sempre séria no rosto, Christian surge, a princípio, como uma espécie de primo do psicopata mirim vivido por Macaulay Culkin em O Anjo Malvado (com Elias sendo seu Elijah Wood), mas um dos grandes méritos do filme é conseguir retratar as atitudes do garoto de maneira realista, plausível, desenvolvendo também sua motivação e estabelecendo que, longe de ser meramente um menino mau, Christian é um pré-adolescente perdido que não consegue lidar com o luto – e o pai freqüentemente ausente se mostra incapaz de ajudá-lo no processo.

Não que Anton também não seja um pai ausente, já que também permanece longas temporadas em outro país; no entanto, ao contrário do personagem de Ulrich Thomsen, o médico vivido de forma maravilhosa por Mikael Persbrandt se revela um homem bem mais maduro e que encara a paternidade como algo prazeroso e de imensa responsabilidade – e é justamente esta responsabilidade que leva à melhor cena do filme, quando, agredido por um mecânico ignorante, dá uma arrebatadora lição de força e humildade a fim de ilustrar para o filho a estupidez de atitudes violentas (“Ele é um idiota. Se eu bater nele, também serei um”, explica.). Ainda assim, Anton não é retratado como anjo pelo roteiro, já que assume claramente a culpa por um ato que destruiu seu casamento – possivelmente uma aventura extraconjugal.

Usando o impulso destrutivo de Christian e a determinação pacifista de Anton como contrapontos para desenvolver tematicamente a história, Em um Mundo Melhor acaba se revelando um filme bem mais otimista do que acredita ser, o que talvez o enfraqueça um pouco. Ainda assim, este candidato dinamarquês a uma vaga no Oscar 2011 certamente conquista por defender com inteligência e maturidade a força existente num gesto de carinho ou na recusa em agredir o próximo. (4 estrelas em 5)

 

29) Se Eu Quiser Assobiar, Assobio (Eu cand vreau sa fluier, fluier, Romênia, 2010). Dirigido por Florin Serban. Com: George Pistireanu, Ada Condeescu, Mihai Constantin, Clara Voda.

Escolhido pela Romênia para representá-la no Oscar 2011, Se Eu Quiser Assobiar, Assobio, dirigido pelo estreante Florin Serban, ganha uma grande aura de autenticidade por trazer, em seu elenco, presidiários reais que, tendo participado de uma oficina de atuação comandada pelo cineasta, aqui encarnam versões de si mesmos – e é uma pena, portanto, que não tenham sido escalados em uma produção que os explorasse melhor.

Preso há quatro anos, Silviu (Pistireanu) se mostrou um detento exemplar durante sua passagem pela instituição, encontrando-se a apenas 15 dias de sua libertação. É então que, visitado pelo irmão caçula que ajudou a criar depois que a mãe os abandonou, descobre que esta retornou ao país e agora pretende levar o garoto para a Itália – e a perspectiva de sair da cadeia para encontrar o lar vazio, aliada à certeza de que a mãe fará seu irmão sofrer, leva o rapaz a um ato impulsivo que rapidamente atinge uma escala muito mais grave.

Adotando a mesma lógica de produções romenas como 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, A Morte do Senhor Lazarescu e Polícia, Adjetivo, este longa desenvolve sua narrativa a partir da observação cuidadosa das ações dos personagens através de cenas longas compostas por planos igualmente extensos. Extraindo tensão do silêncio (mas, aqui, muitas vezes sem sucesso), o filme escrito a seis mãos só ganha força realmente a partir do momento em que Silviu toma determinada atitude, já que, até então, Serban parecia se preocupar apenas em ilustrar o cotidiano da prisão sem se importar com o contexto geral da história.

Fotografado com a câmera na mão a fim de conferir um ar mais realista, tenso e quase documental ao projeto, Se Eu Quiser Assobiar, Assobio também abole, como tantas produções similares, o uso da trilha sonora não-diegética, mas ainda assim acaba recaindo em conflitos pouco verossímeis ao retratar a relação entre Silviu e sua mãe e também com a estagiária Ana.

E se o ator estreante George Pistireanu surpreende pela força de sua atuação, que retrata bem o caráter violento que o aparentemente pacato Silviu escondia sob uma fachada de indiferença, o filme em si jamais sai do lugar-comum, mesmo quando tenta criar um desfecho irônico. Se este foi o melhor longa que a Romênia produziu em 2010, o país, que vinha se estabelecendo como uma das grandes surpresas do cinema contemporâneo, certamente teve um péssimo ano. (3 estrelas em 5)

 

30) Comercial (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Alex Miranda.

Todos sabem que publicitários são criaturas egocêntricas – e eu, como egocêntrico assumido, sei melhor do que qualquer um (olha aí!) identificar meus pares. Assim, quando um diretor de criação entrevistado para este documentário sobre o universo da publicidade diz sem qualquer traço de ironia que “A tartaruga (da cerveja Skol) ficou marcada na vida do brasileiro”, imediatamente compreendemos um pouco mais acerca da mentalidade destes profissionais, que – sim, mesmo se preocupando com os resultados para os clientes – parecem extrair um prazer indizível da percepção (mesmo que falsa) de que alteraram ou influenciaram de alguma maneira a cultura popular do país.

Dividido em alguns grandes temas que são apresentados por um Paulo Miklos que surge como uma espécie de amálgama dos entrevistados, Comercial tem, ao seu favor, uma coleção de depoimentos dados pelos nomes mais importantes do setor – desde presidentes de agências e produtoras até chegar a diretores de cena e clientes. Com isso, o filme de Alex Miranda tem a oportunidade de discutir assuntos tão díspares quanto a relevância do Festival de Cannes para o meio publicitário brasileiro, as vantagens e desvantagens do digital (a câmera Red parece uniformemente odiada pelos diretores) e os possíveis caminhos futuros da profissão.

Com um longo segmento que se concentra em rememorar algumas das campanhas mais bem-sucedidas de nossa história, o longa acaba atuando também como um passeio nostálgico ao recuperar filmes como o da passeata do jeans Staroup, os do baixinho da Kaiser e do magrelo da Bombril, o do primeiro sutiã da Valisère, o dos mamíferos da Parmalat, entre vários outros – chegando, inclusive, a revelar uma ou outra piada interna contida nestes comerciais. Em contrapartida, o diretor erra ao incluir também alguns depoimentos excessivamente longos e confusos que pouco acrescentam ao documentários e que provavelmente teriam sido excluídos caso tivessem partido de figuras menos relevantes do meio (ao qual o próprio cineasta pertence, diga-se de passagem).

Burocrático em sua estrutura ao praticamente se concentrar nas entrevistas (as famosas “cabeças flutuantes”), Comercial é quadrado demais para um filme que se propõe justamente a abordar um mercado que sobrevive da criatividade. Por outro lado, alguns dos debates propostos por Miranda e que acabam gerando opiniões radicalmente divergentes dos entrevistados se revelam intrigantes – como, por exemplo, a discussão sobre a falta de “brasilidade” de muitas das peças criadas no país (algo que, inacreditavelmente, um diretor de criação justifica dizendo que “às vezes, é preciso uma maior sofisticação” – como se o Brasil fosse incompatível com este atributo). Da mesma maneira, é curioso perceber como a publicidade argentina vem despertando a admiração dos nossos profissionais e constatar, também, como há uma espécie de tensão natural nas relações entre indivíduos responsáveis pela criação das campanhas e os diretores contratados para executá-las. Para finalizar, é claro que, contando com tantos nomes brilhantes em seu elenco, acabamos escutando, ao longo da projeção, algumas tiradas espetaculares – e minha favorita é a definição dada por Washington Olivetto para a palavra “tendência”: um termo criado para conferir dignidade à imitação.

Infelizmente, o filme também comete erros primários: em vários momentos, por exemplo, os entrevistados se referem uns aos outros rapidamente e pelos primeiros nomes enquanto narram passagens importantes e o espectador fica perdido sem saber quem eles estão mencionando, já que Miranda não busca esclarecer de alguma forma suas identidades, parecendo supor que todos já conhecem aquelas pessoas (algo que se agrava em função do grande número de participantes). Além disso, é difícil ignorar o instante em que o diretor traz alguém descrevendo em detalhes uma propaganda para, em seguida, exibi-la na íntegra, tornando aquela longa fala imediatamente desnecessária. Como se não bastasse, Comercial pouco se detém no processo criativo daquelas pessoas, falhando também em esclarecer vários conceitos que são de conhecimento comum apenas no meio publicitário (só compreendi o que era “publicidade-fantasma”, por exemplo, depois que duas ou três pessoas já haviam discorrido sobre o tema).

Com isso, o documentário soa como algo produzido para consumo interno, como algo que interessa apenas aos profissionais do meio, ignorando o público em geral – o que representa, no mínimo, o desperdício de uma boa idéia e, no outro extremo, um desrespeito para com o espectador leigo no assunto. (3 estrelas em 5)

 

31) Almas Silenciosas (Ovsyanki, Rússia, 2010). Dirigido por Aleksei Fedorchenko. Com: Igor Sergeyev, Yuriy Tsurilo, Yuliya Aug.

Os mérias foram um povo fino-úgrico que, vivendo na região centro-oeste da Rússia, eventualmente foram absorvidos pela cultura soviética, deixando apenas alguns núcleos isolados que ainda hoje se orgulham em bradar sua antiga herança étnica. E se você ficou impressionado com meus conhecimentos sobre o tema, não se iluda: tudo o que acabei de informar saiu diretamente da Wikipedia, onde fui buscar informações após ficar intrigado pelo longa Almas Silenciosas.

Narrado por um escritor que se identifica como sendo pertencente ao povo méria, o roteiro de Denis Osokin aborda vários rituais daquela cultura que, sou capaz de apostar um dedo da mão direita, foram completamente inventados pelo sujeito: costumes como amarrar pequenas fitas nos pêlos pubianos de noivas antes do casamento; atirar na água os cadáveres dos entes queridos e, claro, o ato de “esfumaçar” (leia-se: contar detalhes embaraçosos da intimidade de alguém que acabou de morrer). Neste aspecto, aliás, Almas Silenciosas é imaginativo e intrigante, representando a jornada interna de um sujeito que valoriza sua herança cultural acima de tudo – um elemento narrativo que é reforçado pela narração em off que domina a projeção.

Assim, considerando que estamos tratando de um filme que assume um ponto de vista subjetivo, é tolice tentar questionar absurdos como a decisão de um viúvo de convidar um funcionário para ajudá-lo a preparar o corpo da esposa em vez de chamar uma funerária ou mesmo a falta de explicação sobre a causa da morte da mulher. E se a polícia nada faz ao parar o carro da dupla e descobrir um cadáver no banco de trás, a razão é a mesma: na mente do protagonista, simplesmente não há espaço para questionar a validade dos rituais mérias – e, portanto, o policial apenas respeita este princípio.

Isto não quer dizer, porém, que o diretor Aleksei Fedorchenko seja bem-sucedido na empreitada: optando por narrar sua história a partir de longos planos que parecem não ter propósito algum (vide as inúmeras cenas que se limitam a mostrar a estrada além do pára-brisas do carro e o instante em que acompanhamos o viúvo em um supermercado), o cineasta cria um filme que sacrifica a fluidez em prol de um tom contemplativo que, aqui, soa apenas como auto-indulgência.

Beneficiado ao menos por uma fotografia belíssima que revela um cuidado extremo na composição dos planos – que são impecáveis individualmente, embora falhem em conjunto -, Almas Silenciosas provavelmente renderia um curta-metragem memorável, mas com 75 minutos de duração torna-se apenas um esforço pretensioso e ocasionalmente entediante. (2 estrelas em 5)

 

32) Além da Estrada (Por el Camino, Brasil/Uruguai, 2010). Dirigido por Charly Braun. Com: Esteban Feune de Colombi, Jill Mulleady, Hugo Arias, Guilhermina Guinle.

Há algo de Antes do Amanhecer neste belo Além da Estrada. Contando a história de um casal de jovens que se conhece durante uma viagem e que, vindos de países e culturas diferentes, acabam passando um bom tempo juntos enquanto aprendem mais um sobre o outro, o romântico filme do brasileiro Charly Braun substitui a Viena do longa de Richard Linklater por uma longa jornada no Uruguai, conquistando o espectador não só pela escala da viagem, mas também graças ao carisma do protagonista (o ótimo argentino Esteban Feune de Colombi).

Estruturado essencialmente como um road movie, o roteiro do próprio Braun se revela menos importante do que a beleza dos lugares nos quais a história se passa – e, neste aspecto, Além da Estrada é memorável e deveria render um prêmio ao seu location scout (indivíduo responsável por pesquisar locações para um projeto). Trazendo ambientes magníficos como o pequeno castelo no meio do nada e a propriedade idílica do tio do personagem principal, o filme deveria vir acompanhado de um guia que informasse ao público exatamente onde aqueles lugares podem ser visitados, o que comprova, no mínimo, que a história é bem-sucedida ao capturar a imaginação do espectador.

Porém, o longa não se interessa apenas pela geografia uruguaia, mas também por seus habitantes, assumindo um caráter documental em várias passagens que trazem conversas de Santiago (Colombi) com figuras como um trovador centenário (cuja memória encontra-se “conectada aos sentimentos”) e um fazendeiro que parece incapaz de controlar o volume de sua voz – personagens obviamente reais que são integrados de forma orgânica à ficção do filme. Nestes momentos, aliás, o protagonista assume a postura de entrevistador, manifestando curiosidade sobre a vida daquelas pessoas e extraindo informações curiosas que enriquecem a obra – e até mesmo a modelo Naomi Campbell surge interpretando a si mesma em duas ou três cenas divertidinhas, mas dispensáveis.

Usando o interesse romântico crescente que Santiago e Juliette (Mulleady) demonstram um pelo como fio condutor da narrativa, Além da Estrada ainda conta com uma trilha incidental memorável e uma estratégia visual inteligente que, ao transformar as lembranças do protagonista em passagens rodadas em 16mm, funciona ao ilustrar a força e o romantismo que aqueles momentos adquirem para o rapaz, justificando suas ações no terceiro ato da projeção.

Com um plano final extremamente evocativo e poético, Além da Estrada já estabelece seu jovem diretor como uma figura de imenso potencial que merece ser acompanha de perto pelos cinéfilos brasileiros. Ou, considerando o aspecto internacional desta produção, latinos de modo geral. (4 estrelas em 5)

Mostra de São Paulo 2010 – Dia 05

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos | 3 comentários

O abraço de hoje vai para meu velho amigo Hélio Flores, que provavelmente foi a primeira amizade que fiz no mundo virtual e que também se tornou um dos primeiros visitantes do Cinema em Cena – e que todos os anos sai de sua Vitória da Conquista para mergulhar na Mostra, num esforço admirável que resulta de seu amor pelo Cinema.

Dito isso…

18) O Senhor do Labirinto (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Geraldo Motta. Com: Flávio Bauraqui, Irandhir Santos, Maria Flor.

Mesmo que O Senhor do Labirinto fosse um fracasso quase completo – e não é -, apenas um único fator já representaria motivo suficiente para que este filme fosse conferido pelos fãs do bom Cinema: a atuação absolutamente magnética de Flávio Bauraqui como o artista plástico Arthur Bispo do Rosário.

Diagnosticado como esquizofrênico e acreditando ser a nova representação de Jesus na Terra, Bispo passou mais de cinco décadas internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, onde criou uma obra grandiosa que refletia suas obsessões religiosas e também seu passado como marinheiro (os navios são figuras recorrentes entre suas criações). Ex-boxeador, ele inicialmente é utilizado pelos enfermeiros-carcereiros para controlar os demais detentos, passando a assumir o papel de hóspede especial ao transformar toda uma galeria da instituição em seu museu particular.

Dirigido por Geraldo Motta a partir do roteiro que escreveu ao lado de Luciana Hidalgo, O Senhor do Labirinto já demonstra a segurança do diretor na seqüência que retrata a queda do protagonista na insanidade, quando uma série de cortes secos é empregada de forma econômica para evocar a fragmentação psíquica do sujeito. Motta, aliás, demonstra inteligência e bom senso até mesmo ao perceber os pontos fracos da produção, tentando disfarçá-las – e um bom exemplo reside nos terríveis efeitos de maquiagem de envelhecimento, que o cineasta busca contornar ao mergulhar os personagens em sombras e ao evitar primeiros planos que exponham ainda mais a artificialidade das próteses (ainda assim, é impossível não constatar a baixa qualidade das mesmas).

Com um design de produção impecável que conta até mesmo com reproduções perfeitas das peças criadas pelo Bispo (porque é difícil imaginar que os originais tenham sido emprestados ao projeto), o filme também acerta na autenticidade dos figurinos e nas recriações de época. Por outro lado, o elenco secundário se mostra bastante irregular, o que denota a falta de um cuidado maior na escalação destes papéis menores ou, no mínimo, uma melhor preparação destes intérpretes.

O que, claro, não se aplica à dupla vivida por Irandhir Santos (que este ano já provou sua força em Tropa de Elite 2) e Flávio Bauraqui. Encarnando o funcionário da Colônia que se torna mais próximo do Bispo, Santos concebe um personagem gentil e bondoso que, tratando o sujeito sempre com carinho, desenvolve um respeito genuíno para com o paciente – e a tocante amizade entre Wanderley e o Bispo se transforma num dos centros da narrativa. Mas é mesmo Bauraqui que se converte no grande chamariz da produção, carregando o filme com uma força incrível: exibindo uma cadência fabulosa em sua fala, o ator encarna a insanidade genial do personagem com uma autenticidade impressionante – e sua caracterização do envelhecimento do protagonista é tão perfeita que chega a levar o espectador a quase ignorar a pavorosa maquiagem. O trabalho de Bauraqui é tão bom que, em certo momento, o diretor Geraldo Motta se arrisca até mesmo a exibir imagens do curta O Prisioneiro da Passagem, de Hugo Denizart, que traz o verdadeiro Bispo no hospício.

Com um clímax comovente que certamente mandará vários espectadores para fora da sala de exibição com lágrimas nos olhos, O Senhor do Labirinto é um filme que honra o personagem magnífico que retrata – e isto é o que basta.  (4 estrelas em 5)


19) Do Amor e Outros Demônios (Del amor y otros demonios, Costa Rica, 2009). Dirigido por Hilda Hidalgo. Com: Pablo Derqui, Eliza Triana, Jordi Dauder, Joaquín Climent, Margarita Rosa de Francisco, Damián Alcázar.

Adaptação do admirado livro homônimo de Gabriel García Márquez e selecionado por seu país de produção, a Costa Rica, para buscar uma vaga no Oscar 2011, Do Amor e Outros Demônios é uma produção cujo maior equívoco reside em tratar seu material de origem com excessiva solenidade. Tornando-se enfadonho e fragilizado justamente por reconhecer a importância de converter um texto do Prêmio Nobel de Literatura para as telonas, o filme busca criar imagens que façam jus às palavras de Márquez – e mesmo se tornando esteticamente admirável, falha ao não equilibrar esta beleza com uma narrativa mais fluida e envolvente.

Escrito e dirigido pela estreante Hilda Hidalgo, o longa gira em torno de Sierva Maria (Triana), uma jovem de longuíssimos cabelos ruivos que, em certo dia do século 18, é mordida por um cão raivoso no mercado de sua cidade. Mergulhando num estado febril e desenganada pelos médicos, ela finalmente é entregue por seu pai, o rico Marquês de Casalduero, a um convento depois que o bispo local determina que a doença nada mais é do que uma “artimanha do demônio”, delegando o exorcismo ao jovem padre Cayetano Delaura (Derqui), que acaba se encantando pela garota. A partir daí, no entanto, a abordagem de Hidalgo passa a remeter mais a Abelardo & Heloísa do que ao Márquez (com a diferença de que a castração aqui é religiosa, não literal).

Outro detalhe problemático reside na caracterização de Servia Maria, que, embora constantemente tratada por todos como sendo uma criança, aqui surge como uma adolescente já bastante desenvolvida, quase adulta, e cujos desejos e fantasias sexuais se tornam perfeitamente naturais e esperados. Representando fisicamente a tentação do sexo com sua vasta cabeleira ruiva, a moça é encarnada com inexpressividade pela estreante Eliza Triana, que aposta apenas em seu físico para compor a personagem. Por outro lado, se Pablo Derqui se sai melhor ao retratar a tortura emocional e psicológica experimentada pelo padre Cayetano, ainda assim acaba falhando ao não conseguir justificar como um homem tão inteligente como aquele pode se tornar tão frágil diante de todas as opiniões do bispo – um homem cuja especialidade parece ser recriminar e condenar todos ao seu redor.

Construído a partir de cenas longas cujos diálogos são ditos pelos atores sempre em tom baixo e com pausas extensas, Do Amor e Outros Demônios se converte num verdadeiro teste de paciência, tornando-se ainda mais frustrante em função da omissão da cineasta diante de questões relevantes da narrativa, como, por exemplo, a natureza exata da doença que aflige a mãe da garota ou os motivos que levaram seu pai a afastar-se durante a maior parte de sua vida.

Apesar destes graves problemas, o filme ao menos é beneficiado por uma fotografia belíssima de Marcelo Camorino, que concebe cada plano como uma pequena pintura que explora com brilhantismo as sombras duras da cela de Maria e o contraste da escuridão com cores mais fortes. Em contrapartida, a trilha sonora apela para o melodrama com freqüência, tornando-se irritante com o tempo.

Talvez Hidalgo devesse ter escolhido um projeto menos ambicioso para sua estréia como cineasta. (2 estrelas em 5)

 

20) Porta a Porta – A Política em Dois Tempos (Idem, Brasil, 2009). Dirigido por Marcelo Brennand.

Com uma população de 50 mil eleitores, a cidade de Gravatá, em Pernambuco, se transforma no palco de uma acirrada disputa política sempre que as urnas se preparam para receber os votos que definirão os representantes locais – uma briga que se torna ainda mais intensa durante as eleições para prefeito e vereador, já que esta envolve dois grupos rivais, os “azuis” e os “vermelhos”, que disputam ferrenhamente cada eleitor do município. Acompanhando a campanha ocorrida em 2008, quando 117 candidatos disputaram as dez vagas para a Câmara de Vereadores da cidade, o cineasta Marcelo Brennand ilustra, neste seu interessante Porta a Porta, um microcosmos dos grandes enfrentamentos políticos nacionais dos últimos anos.

Exibindo figuras locais pitorescas que não se acanham em fazer promessas como “uma festa por mês” e “levar o time da cidade para a segunda divisão do campeonato brasileiro”, o documentário logo de cara expõe o modo corrompido como todo o processo se desenvolve, já que, mesmo diante das câmeras, vários candidatos e eleitores surgem discutindo acertos que nada mais são do que uma descarada compra e venda de votos – desde a promessa de emprego na futura administração municipal até ajudas financeiras para a aquisição de materiais de construção. Aliás, a própria lógica da eleição já leva a uma distorção profunda de toda a campanha, que se converte em uma verdadeira indústria: basta considerar que, gerando nada menos do que 5.000 empregos diretos e indiretos na cidade, o processo eleitoral em Gravatá acaba se tornando fonte de renda de incríveis 10% do número total de votantes.

Beneficiado pelo acesso obtido junto a um dos principais concorrentes a uma vaga de vereador, o cineasta consegue observar com detalhes as negociações e estratégias da equipe que compõe as campanhas, desde os principais coordenadores até a militância que, supervisionada pelos cabos eleitorais, bate de porta em porta solicitando votos para seus candidatos/chefes – e quando alguém discursa dizendo que toda a multidão presente em um comício está ali por “vontade própria”, sem ter sido paga para isto, é difícil não constatar a contradição óbvia representada pelos “uniformes” usados pela maior parte dos participantes.

Aliás, outro ponto forte de Porta em Porta diz respeito ao esforço do diretor de ouvir um grande número de candidatos, sendo triste perceber a retórica vazia empregada pela maioria destes em suas apresentações (e igualmente deprimente é perceber como os humildes eleitores são facilmente manipulados por esta mesma retórica). Para completar, Brennand ainda ilustra a insatisfação da população local com o prefeito que se encontra há oito anos no poder e que deixou de realizar obras básicas de saneamento – mas que, ainda assim, aposta em eleger seu sucessor, chegando ao absurdo de inaugurar a viga de uma ponte a duas semanas do pleito (e é patético ver o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves, participando de um comício e elogiando os “feitos” de um prefeito claramente tão incompetente).  

Infelizmente, porém, Brennand também tropeça bastante como diretor – e seu erro mais grave talvez resida na estrutura do documentário, que subitamente salta para um ano depois das eleições a fim de ilustrar o destino de alguns personagens, revelando, no processo, o resultado do pleito de maneira anti-climática. Assim, quando a narrativa retorna para antes do dia da votação, o espectador já conhece os dois desfechos principais, sabendo quem será o novo prefeito e também se o candidato acompanhado pelo filme conseguiu a vaga de vereador ou não – algo que diminui nosso interesse pela “historinha” que move o longa. Para piorar, o cineasta ainda introduz um personagem que considera importante, um certo Carlinhos, já quase no fim da projeção, quando já é tarde demais para que o público invista emocionalmente em novas figuras (e, com isso, Porta em Porta perde o ritmo justamente quando deveria estar em seu clímax).

Falhando também na questão mais óbvia do documentário, o diretor acaba se esquecendo de revelar, em seu desfecho, quem afinal, foram os dez vereadores eleitos na cidade – e teria sido irônico, por exemplo, constatar que o tal “Vagalume”, que surge contando vantagem em vários momentos ao considerar sua eleição como algo certo, ficou de fora da lista de vencedores.

Uma informação que só descobri posteriormente ao me deixar levar pela curiosidade e entrar no site oficial da Câmera de Vereadores de Gravatá. Um impulso que, apesar de seus problemas, foi inspirado por este bom documentário. (3 estrelas em 5)

 

21) Luvas Vermelhas (Manusi Rosii, Romênia, 2010). Dirigido por Radu Gabrea. Com: Alexandru Mihaescu, Ioana Iacob, Marcel Iures, Mircea Rusu, Udo Schenk.

Escritor promissor e idealista, Felix Goldschmidt (Mihaescu) é preso, certo dia, pelos militares que comandam a Romênia com violência na década de 70. Enviado a uma prisão e interrogado e torturado ao longo dos dois anos seguintes, ele inicialmente não consegue compreender nem mesmo os motivos por trás de seu encarceramento, resistindo de todas as formas a oferecer qualquer tipo de informação para seus interrogadores. Com o tempo, porém, suas forças vão sendo minadas pelos abusos físicos e psicológicos e o rapaz começa a enxergar o mundo de uma maneira mais cínica e pragmática.

Adaptado a partir de um livro de Eginald Schlattner e produzido por uma emissora de televisão romena, Luvas Vermelhas basicamente emprega a maior parte de suas mais de duas horas de duração em longas cenas de interrogatório que, regadas a debates políticos e filosóficos, se beneficiam da estética claustrofóbica imposta pela razão de aspecto de 1.33:1 empregada pelo diretor Radu Gabrea. Por outro lado, o roteiro escrito a oito mãos erra logo de início ao investir numa estrutura fragmentada que, além de quebrar o ritmo da narrativa, ainda confere um tom episódio à história.

Fotografado de maneira convencional e adotando cores quentes para os flashbacks que se contrastam com a frieza da paleta usada nas cenas na prisão, o longa ainda traz uma trilha sonora pedestre que apenas ressalta o caráter melodramático da abordagem do cineasta.

Em função destes problemas, Luvas Vermelhas, mesmo sendo uma obra relevante em seus aspectos políticos e históricos, acaba se convertendo em um filme menor e esquecível. E isto é uma pena. (3 estrelas em 5)


22) Mães (Majki, Macedônia, 2010). Dirigido por Milcho Manchevski. Com: Ana Stojanovska, Ratka Radmanovic, Salaetin Bilal, Vladimir Jacev, Dimitar Gjorgjievski, Irina Apelgren, Milijana Bogdanoska, Emilija Stojkovska.

Candidato da Macedônia ao Oscar 2011, Mães traz uma narrativa que se divide em três histórias: a primeira – e mais curta – gira em torno de duas garotinhas adoráveis que, depois de ouvirem o relato de algumas colegas que alegam ter visto “um tarado” nas proximidades, decidem ir a uma delegacia denunciar o pervertido. Já a segunda acompanha três documentaristas enquanto estes visitam um vilarejo que, há muito abandonado, agora tem apenas dois habitantes: um casal de velhinhos que, irmãos, brigaram há anos e se evitam a todo custo. Finalmente, a hora final do longa (e que, diga-se de passagem, se entende mais do que o ideal) abandona a ficção e surge como um documentário que expõe a tenebrosa trajetória de um serial killer que estuprou e matou três senhoras de uma cidade no oeste do país.

Como é possível observar apenas pela descrição dos três segmentos que compõem a obra, o roteiro do também diretor Milcho Manchevski falha em estabelecer qualquer ligação temática entre as histórias: enquanto a primeira aborda questões éticas como a fronteira entre a verdade e a mentira, a segunda se dedica a um estudo sobre a solidão e o peso do passado nas relações familiares, ao passo que a terceira, além de obviamente retratar o lado sombrio da natureza humana, ainda discute a dor representada pela perda da figura materna em um núcleo familiar (até mesmo o assassino é movido pela relação que manteve com a própria mãe).

Aliás, até mesmo em função do título o espectador se vê levado a buscar implicações temáticas que girem em torno da maternidade nos três segmentos, mas, se estas existem nas duas primeiras histórias, são absolutamente tangenciais – e, assim, Mães se revela um pacote mal amarrado que, mesmo contando com bons momentos, falha em criar uma narrativa minimamente coerente. (2 estrelas em 5)

 

23) Histórias Reais de um Mentiroso (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Mariana Caltabiano. Com: Marcelo Nascimento da Rocha, Amaury Jr, Ricardo Macchi, Ed Sá.

Durante a Mostra de São Paulo de 2009, escrevi sobre um documentário que, girando em torno dos Mamonas Assassinas, se revelava interessante apesar de todos os esforços aparentes feitos pelo diretor para sabotar o próprio filme. Pois foi impossível não ter a mesma impressão ao assistir a este Histórias Reais de um Mentiroso, que, acompanhando a trajetória de um personagem fascinante, quase desperdiça uma excelente oportunidade graças à abordagem tola de sua diretora.

Inspirado no livro da própria cineasta, o filme retrata os golpes dados pelo estelionatário Marcelo Nascimento, que, assim como o protagonista de Prenda-me se For Capaz, especializou-se em arrancar vantagens de suas vítimas ao se passar por todo tipo de profissional, de policial a astro de rock. Ganhando fama nacional ao assumir a identidade do dono da Gol e dar uma entrevista para um programa de colunismo social, o sujeito acabou sendo preso – o que, em vez de por fim em sua carreira, apenas alterou o palco de seus golpes, já que, pouco depois, ele encarnaria um líder do PCC durante uma rebelião na penitenciária na qual se encontrava.

É claro que, à primeira vista, há um elemento de simples molecagem nas ações de Marcelo – e, neste sentido, é fácil compreender por que um policial que atuou em sua prisão não consegue conter o riso ao se lembrar de um dos golpes do rapaz. Ator talentoso e cara-de-pau irrecuperável, Marcelo usava, mesmo que inconscientemente, estratégias psicológicas básicas para iludir suas vítimas, explorando a fragilidade de seus egos e a reserva que todos têm em questionar alguém que se articula com firmeza e segurança. Mostrando-se capaz de enganar até mesmo a documentarista – que, àquela altura, já deveria ter aprendido a não confiar em nada que lhe fosse dito por Marcelo, o criminoso só não consegue iludir a própria mãe, que, exausta depois de uma vida de mentiras, finalmente aprendeu a duvidar de tudo que saía da boca de seu filho (“De cada dez coisas que Marcelo diz, onze são mentiras”, ela afirma, em certo momento.).

O problema é que o caráter de “molecagem” logo cede lugar a algo mais grave – e não é à toa que empreguei a palavra “criminoso” no parágrafo acima, já que o protagonista eventualmente mergulha de vez no crime e passa até mesmo a pilotar aviões que transportam armas e drogas através da fronteira brasileira. Infelizmente, a diretora Mariana Caltabiano, talvez seduzida pelo carisma do documentado, parece não perceber as conseqüências graves daqueles atos, continuando a tratar Marcelo mais como um divertido trapaceiro do que como o traficante que obviamente se tornou.

Empregando animaçõezinhas rasteiras dubladas com vozes engraçadinhas, a diretora ainda recheia a projeção com cartuns que ilustram passagens da vida de Marcelo, fragilizando o próprio filme em função do humor juvenil (e nem me perguntem por que uma das vinhetas animadas traz o golpista convertido numa espécie de Homer Simpson). Decidindo apresentar as entrevistas feitas com o protagonista em um preto-e-branco sem a menor justificativa (e que empobrece esteticamente um longa já não muito ambicioso em seus aspectos visuais), Caltabiano ainda demonstra falta de cuidado na edição do áudio, que revela claros cortes durante vários depoimentos. E o que dizer do efeito de “agulha arranhando o disco”, anacrônico, clichê e bobo, que a cineasta utiliza para tentar fazer humor, em certo momento?

Mas talvez o erro mais grave de Histórias de um Mentiroso diga respeito à decisão da cineasta de se inserir à força na história – e já no início da narrativa ela chega a colocar a própria foto na tela ao insistir em explicar, desnecessariamente, como sua trajetória cruzou com a de Marcelo. Como se não bastasse, no terceiro ato Caltabiano resolve fazer um longo desvio na narrativa ao abordar a tragédia ocorrida com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas – e mesmo tentando justificar a inclusão desta passagem ao descrever as opiniões de Marcelo (que é piloto) sobre o acidente, o fato é que a diretora emprega muito mais tempo do que o necessário neste incidente apenas para poder fazer uma espécie de terapia pública, já que, lamentavelmente, perdeu dois irmãos no desastre (e embora me compadeça diante de sua perda – e realmente me compadeço – não há como justificar narrativamente a descrição do sofrimento de seu pai e sua morte tempos depois, já que nada disso interessa à história do protagonista).

Soando ainda mais boba ao tentar fazer uma “pegadinha” com Marcelo, a diretora chega ao ponto de enfiar no filme a participação que fez no Programa do Jô (que, como em Lixo Extraordinário, apenas enfraquece o projeto) – e parecendo uma adolescente deslumbrada, inacreditavelmente não hesita em soltar um íntimo “O Jô Soares comentou comigo” em sua frágil narração em off.  

Em vez disso, Mariana Caltabiano deveria ter permanecido mais tempo com o mentiroso que, afinal, dá título ao seu filme – e que, de tão carismático, chega a levar o ator Ricardo Macchi, uma de suas vítimas, a perguntar para a cineasta se Marcelo citou seu nome durante os depoimentos, sorrindo satisfeito ao ouvir a resposta afirmativa (um momento revelador que, justiça seja feita, a diretora ressalta com inteligência ao reduzir a velocidade da imagem).

É uma pena, portanto, que esta maturidade só seja exibida pontualmente, já que, na maior parte do tempo, a abordagem da realizadora soa apenas egocêntrica e infantil – duas características, convenhamos, mais apropriadas ao protagonista do que à documentarista encarregada de entrevistá-lo. (3 estrelas em 5)

 

24) Boca do Lixo (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Flávio Frederico. Com: Daniel de Oliveira, Milhem Cortáz, Hermila Guedes, Jeferson Brasil, Paulo César Pereio, Leandra Leal, Maxwell Nascimento, Camila Leccioli, Juliana Galdino, Claudio Jaborandi.

Ao escrever sobre o documentário Histórias de um Mentiroso, comentei que o filme, frágil, resistia apenas em função de seu fascinante protagonista. Assim, não deixa de ser curioso que o filme ao qual assisti logo em seguida, Boca do Lixo, enfrente o problema oposto: comandado com segurança e talento pelo diretor Flávio Frederico, o longa sobrevive não em função de seu anti-herói, mas apesar deste, que, retratado pelo roteiro e pelo ator Daniel de Oliveira como uma figura absolutamente unidimensional, se revela um centro frágil para um projeto que, afinal, dele depende para tudo.

Inspirado na autobiografia de Hiroito de Moraes, que durante os anos 50 e 60 criou um pequeno império criminoso na região da Boca do Lixo, em São Paulo, o filme acompanha o personagem enquanto este se torna uma figura temida e também seus constantes conflitos com o rival Nelsinho, que disputava com ele o título de “Rei da Boca”.

Escrito por Frederico ao lado de Mariana Pamplona, o roteiro parece presumir uma familiaridade absurda do espectador com a trajetória do Hiroito ao deixar de abordar várias questões importantes que, assim, se convertem em incógnitas ao longo da narrativa: por que, por exemplo, Hiroito se tornou criminoso? Aliás, de onde vem este nome, que, inclusive, lhe rende o apelido de “japonês” em certo ponto da narrativa? E como ele sai da cadeia depois de ter sido aprisionado pela primeira vez, já que já era um bandido bastante procurado à época?  

Vivido por Daniel de Oliveira com um prognatismo (a mandíbula projetada para a frente) que varia de extensão em vários momentos da projeção, Hiroito marca mais uma performance irregular deste bom ator em 2010, seguindo o desastroso 400 Contra 1 – desde já, um dos piores filmes do ano. Pouco lembrando seus memoráveis desempenhos em Cazuza e A Festa da Menina Morta, Oliveira compõe o protagonista como um sujeito que oscila apenas entre dois modos, antipático e violento, limitando-se a fazer cara de mau para todos os demais personagens na maior parte do tempo (além disso, as escolhas do intérprete nas leituras dos diálogos se revelam geralmente artificiais). Como é também prejudicado por um roteiro que parece não saber como explorar psicologicamente o personagem, o ator acaba preso a uma figura sem qualquer nuance ou dimensão – algo grave se considerarmos que se trata do protagonista do projeto.

Aliás, o elenco de Boca do Lixo se mostra tremendamente irregular: enquanto Milhem Cortáz faz milagre com um não-personagem e Jeferson Brasil se mostra mais convincente como bandido perigoso do que o próprio Daniel de Oliveira, os demais personagens secundários pecam ou pela falta de naturalidade dos atores ou pela falta de cuidado do roteiro (neste último caso encontra-se a personagem vivida pela boa Hermila Guedes). E se o veterano Paulo César Pereio, sempre talentoso mas com um jeitão que se tornou um personagem em si mesmo, acaba arrancando risos involuntários do espectador com suas leituras típicas, o ator mirim que interpreta o garotinho Vicente se revela um achado – e é uma pena que saia do filme de maneira tão abrupta em mais uma falha dos roteiristas.

Fotografado de maneira evocativa por Adrian Teijido numa lógica que remete ao noir e contando com figurinos e direção de arte extremamente eficientes na recriação de época, Boca do Lixo também é beneficiado pela montagem precisa de Vania Debs, que não só lida com talento com a narrativa que abrange vários anos, sem jamais deixá-la soar episódica, como ainda mantém um ritmo constante que deixa o espectador preso à narrativa. Além disso, é preciso aplaudir a segurança do cineasta Flávio Frederico, que não se rende ao sensacionalismo ou à tentação de incluir seqüências de ação dispensáveis, cortando várias cenas antes que cheguem a um clímax descartável (como ao não mostrar a polícia invadindo a casa em Curitiba na qual Hiroito se encontra com a esposa e nem a ação dos tiros disparados pelo protagonista contra um homem que agredia uma prostituta).

Nada disso, porém, altera o fato de que Boca do Lixo jamais apresenta uma justificativa para que acompanhemos a história daquele homem: o que, afinal, torna a trajetória de Hiroito tão “especial”? Apenas o fato de o sujeito ter vindo de uma família abastada? Aliás, até mesmo os momentos que poderiam ter sido explorados para expandir o personagem psicologicamente são desperdiçados pelo roteiro: em certo instante, por exemplo, o bandido “adota” uma criança de rua e logo em seguida pede uma prostituta em casamento – e é impossível não pensar que este impulso de estabelecer uma família tenha raízes psicológicas relevantes que, no entanto, a narrativa jamais investiga. (E, afinal, o que há por trás dos constantes flashes que Hiroito tem de sua versão infantil?)

Encerrando a história com um desfecho terrivelmente frágil, Boca do Lixo ainda traz uma narração em off inexplicável do protagonista: por que, por exemplo, ele diz que nunca conseguiu se decidir entre ser “temido ou amado” se, no filme, não consegue nenhum dos dois (é traído e questionado por várias pessoas e abandonado por diversas outras)? E de onde vem sua forma intelectualizada de se expressar, já que, embora surja lendo em diversos instantes, não parece particularmente erudito ao abrir a boca? Sim, o Hiroito que escreveu um livro sobra a própria vida pode até ser um indivíduo articulado e relativamente culto, mas a versão cinematográfica vista aqui não passa de um brutamontes desinteressante e instável.

Mas que, para sua sorte, tem um filme sólido ao seu redor. (3 estrelas em 5)

Mostra de São Paulo 2010 – Dias 03 e 04

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos | 2 comentários

Abraço imenso ao mestre Sérgio Penna, um dos melhores preparadores de elenco do país, e ao sempre competente Fernando Meirelles, que encontrei hoje entre as sessões.

E vamos aos filmes vistos:

11) Beyond (Svinalängorna, Suécia, 2010). Dirigido por Pernilla August. Com: Noomi Rapace, Ola Rapace, Tehilla Blad, Outi Mäenpää, Ville Virtanen, Alpha Blad, Selma Cuba, Junior Blad.

Depois de um longo período de dor e sofrimento familiar, a jovem Leena (Tehilla Blad), obrigada a amadurecer rapidamente a fim de tomar conta do irmão menor em um ambiente instável e deprimente, finalmente começa a se permitir uma vaga esperança de que sua vida esteja caminhando rumo a algum tipo de felicidade apenas imaginada quando, certa noite, testemunha um único e breve gesto de seu pai que, como num passe de mágica, põe fim a todos os seus sonhos de harmonia: um gole em uma garrafa de bebida alcoólica.

Filha de pais alcoólatras, Leena, agora adulta (e vivida por Noomi Rapace, de Os Homens que Não Amavam as Mulheres), leva uma existência feliz ao lado do marido e das duas filhas quando, certa manhã, recebe um telefonema de um hospital localizado em sua cidade natal e é informada de que sua mãe, à beira da morte, deseja vê-la uma última vez. Relutante em atender ao pedido, a moça é convencida pelo companheiro (interpretado pelo marido da atriz na vida real) a fazer a viagem e, acompanhada pela família, inicia a jornada que a leva também a revisitar os momentos mais traumáticos de sua infância.

Escrito pela diretora Pernilla August ao lado de Lolita Ray e inspirado em livro de Susanna Alakoski, Beyond é, desde sua concepção, um filme sobre mulheres e a força (e também a vulnerabilidade) destas diante dos obstáculos. Encarnada por Outi Mäenpää com admirável complexidade, a mãe Leena fica longe de representar o estereótipo da alcoólatra instável, sempre com um copo de bebida em mãos: sim, ela faz coisas terríveis quando embriagada, mas é igualmente capaz de tratar os filhos com imenso carinho e dedicação quando sóbria. Enquanto isso, o finlandês Ville Virtanen empresta um inegável calor humano a Kimmo, pai da protagonista – o que, por contraste, deixa o espectador ainda mais chocado quando se entrega ao álcool e se converte em um autêntico monstro (e não é de se admirar que sua esposa recorra à bebida para esquecer/fugir dos abusos que sofre nestes momentos). A grande tragédia apresentada no filme, aliás, é o fato de que Kimmo e Aili são pessoas essencialmente boas e perfeitamente capazes de criar os filhos com afeto, mas acabam jogando tudo no lixo em função do alcoolismo.

Com isso, mesmo nos momentos de paz e harmonia há uma tensão subjacente que surge como fruto do reconhecimento de que tudo aquilo pode ruir em um segundo, bastando que um dos dois faça o gesto descrito no início deste texto – e é por isso que a pequena Leena anota, em seu diário, verbetes sempre contraditórios: “alegre” vem seguido por “temor” e por aí afora. Interpretada com talento e precocidade pela adolescente Tehilla Blad (cujas irmãs, diga-se de passagem, vivem as filhas de sua personagem na fase adulta), Leena é uma garota forte que, aos poucos, aprende a reconhecer o caráter enfraquecido dos pais e se dedica a proteger o irmãozinho daquela realidade, mesmo que, às vezes, isto se torne impossível (como na dolorosa cena em que Kimmo e Aili se agridem diante dos filhos enquanto montam uma árvore de Natal).

Assim, é inevitável que, adulta, Leena acabe sendo composta por Rapace como uma mulher que, embora sorrindo diante da família, revela uma tristeza constante que se manifesta em sua introspecção, já que não há como simplesmente fugir ou ignorar os anos de abusos psicológicos sofridos nas mãos de seus pais. Neste sentido, aliás, a fotografia de Erik Mollberg Hansen é inteligente e sensível, enfocando o passado da personagem com cores um pouco mais intensas e com certa granulação, ao passo que os acontecimentos presentes são vistos numa paleta triste e dessaturada – e a implicação é lógica ao refletir o fato de que todos aqueles acontecimentos trágicos continuam a drenar a energia e a alegria da protagonista mesmo décadas mais tarde.

Marcando a estréia na direção da excelente atriz Pernilla August, Beyond é um filme sensível e sufocante que sabe reconhecer o momento apropriado para a catarse – e se Leena finalmente não consegue conter as lágrimas em certo momento da projeção, sabemos e sentimos que o choro não é provocado exatamente pela condição da mãe, mas sim pelo reconhecimento da vida miserável que ela mesma teve. (5 estrelas em 5)

 

12) A Primeira Coisa Linda (La prima cosa bella, Itália, 2010). Dirigido por Paolo Virzi. Com: Valerio Mastandrea, Micaela Ramazzotti, Stefania Sandrelli, Claudia Pandolfi, Fabrizia Sacchi, Giacomo Bibbiani, Aurora Frasca, Paolo Ruffini.

Bruno Michelucci sempre foi uma criança séria. Surgindo com o rosto fechado em todas as fotos de família e se mostrando incapaz de sorrir mesmo quando a mãe é eleita a mulher mais bela de um evento, não é de surpreender que ele eventualmente se torne um adulto igualmente deprimido e pessimista. Dependente químico e incapaz de assumir a seriedade do relacionamento que mantém com a namorada, com quem divide o apartamento, ele finalmente é obrigado a fazer uma viagem de volta ao passado quando é informado de que a mãe, da qual se afastou há anos, está prestes a morrer.

Como podem notar, A Primeira Coisa Linda, candidato oficial da Itália ao Oscar 2011, poderia, numa análise superficial, formar uma sessão dupla perfeita com o sueco Beyond, com o qual divide a premissa básica – porém, enquanto o filme de Pernilla August se revelava angustiante e pesado, esta obra de Paolo Virzi investe numa atmosfera bem mais leve que aposta no humor como centro da narrativa ainda que, aqui e ali, flerte com momentos dramáticos mais intensos.

Infelizmente, porém, o roteiro de Virzi (co-escrito por Francesco Bruni e Francesco Piccolo), mesmo acompanhando várias décadas da vida da família Michelucci, se mostra incapaz de criar personagens com características suficientemente interessantes para merecer nossa atenção. Vivaz, otimista e extremamente bela, Anna (interpretada pela lindíssima esposa do diretor, Micaela Ramazzotti) é uma personagem que talvez funcionasse no papel, mas na tela surge apenas como uma criatura ambiciosa e egoísta que, não muito brilhante, acaba recorrendo aos atributos físicos para conseguir o que deseja – e mesmo em sua fase já idosa, quando passa a ser vivida pela veterana Stefania Sandrelli, a mulher pouco mais é do que uma caricatura, divertindo pela expansividade, mas jamais se tornando uma figura tridimensional. Da mesma maneira, Bruno é construído por Valerio Mastandrea (um Jason Statham deprimido) como um sujeito que traz sempre uma expressão de tédio e sofrimento estampada no rosto – e quando percebemos que esta mesma postura se encontrava presente em sua versão infantil, a constatação óbvia é a de que, embora o filme tente empurrar a responsabilidade da apatia do personagem para sua mãe, ele sempre foi infeliz e nada poderia mudar isso.

Fotografado por Nicola Pecorini com um curioso excesso de grandes angulares que constantemente deformam os ambientes nos freqüentes planos conjuntos sem que a narrativa ofereça alguma razão orgânica para esta abordagem, A Primeira Coisa Linda é prejudicado também por uma trilha incidental completamente equivocada que abraça sua natureza cafona sem qualquer pudor.

Uma cafonice que, aliás, impera no desfecho do longa, que se mostraria mais adequado em uma novela mexicana do que em um pré-candidato ao Oscar de Filme Estrangeiro. (3 estrelas em 5)


13) A Mosquiteira (La mosquitera, Espanha, 2010). Dirigido por Agustí Vila. Com: Eduard Fernández, Emma Suárez, Marcos Franz, Fermí Reixach, Martina García, Geraldine Chaplin, Anna Ycobalzeta.

A Mosquiteira é um drama familiar que, sob a desculpa de enfocar um grupo disfuncional de pessoas, acaba mergulhando o espectador num universo povoado por figuras desagradáveis e antipáticas que parecem agir movidas apenas pela infelicidade constante e por uma auto-absorção repulsiva.

Escrito e dirigido por Agustí Vila, o filme acompanha Miguel (Fernández), um homem cujo casamento com a ilustradora Alícia (Suárez) encontra-se em crise e que, como resultado, vê o filho adolescente, Lluís (Franz), tornar-se cada vez mais introspectivo e obcecado em resgatar todos os animais que encontra na rua. Enquanto isso, a irmã de Alícia submete a filha pequena a todo tipo de tortura sob a desculpa de “educá-la”, ao passo que a mãe de Miguel, María (Chaplin, absurdamente desperdiçada), permanece emudecida pelo Alzheimer, passando a ser “dublada” pelo marido.

Sem contar com um único personagem minimamente feliz ou capaz de pensar em outra pessoa além de si mesmo, o longa não hesita em trazer a cunhada de Miguel insinuando, sem qualquer motivo, que este possa ter molestado o filho – uma atitude que acaba sendo tomada pela mãe do garoto, mesmo que por engano (na realidade, ela tentava molestar o amigo do rapaz sem saber que eles haviam trocado de quarto). Assim, não é difícil perceber que A Mosquiteira representa uma experiência desagradável do início ao fim – e se isto por si só não é necessariamente um problema (há vários exemplos de filmes “desagradáveis” e excepcionais justamente por isso), o mesmo não pode ser dito sobre a percepção que passamos a ter de que nenhuma daquelas criaturas repulsivas merece duas horas de nossas vidas.

E se ao final não conseguimos entender por que aquelas pessoas insistem em permanecer juntas apesar de tudo, ao menos chegamos a uma inevitável conclusão: a de que elas sem dúvida alguma se merecem. (1 estrela em 5)


14) A Mulher dos Cinco Elefantes (Die frau mit den 5 elefanten, Suíça, 2009). Dirigido por Vadim Jendreyko. Com: Svetlana Geier.

A primeira vez que vemos a octogenária Svetlana Geier, logo no início deste documentário, temos a impressão de que a pobre mulher está prestes a se partir no meio, tamanhos o encurvamento de sua coluna e sua fragilidade física. No entanto, basta que ela abra a boca para que imediatamente testemunhemos uma mente incrivelmente lúcida e articulada em atividade e percebamos que sob aquela fachada quebradiça encontra-se uma mulher de imensa energia e inteligência.

Nascida na Ucrânia e radicada na Alemanha desde 1943 (ou talvez “radicada” seja o termo errado, considerando que foi prisioneira em um campo de concentração), Geier se estabeleceu, com o passar das décadas, como uma das tradutoras mais respeitadas do russo para a língua alemã – e sua grande obra reside nas traduções das obras de Dostoievski (cujos Crime e Castigo, O Idiota, O Adolescente, Os Irmãos Karamazov e Os Demônios representam os cinco elefantes do título deste longa). Acompanhando o lento processo de trabalho da simpática senhora, o diretor Vadim Jendreyko transforma o terço inicial de seu filme em uma homenagem não só à protagonista, mas à linguagem em si – e é fascinante, por exemplo, ver Geier desfiando suas teorias acerca da comunicação verbal ao analisar, por exemplo, a raiz comum de palavras como “texto” e “tecido”.

Assim, é uma pena – para o documentário, para o público e, principalmente, para a personagem – que no meio do processo de filmagens o filho mais velho de Geier sofra um acidente grave, entrando em coma profundo. A partir deste instante, a protagonista abandona o trabalho e não só passa a se dedicar ao filho como ainda embarca numa viagem interna relativa ao seu passado, lembrando-se da prisão do pai sob o regime sangrento de Stálin e de sua própria jornada rumo à Alemanha nazista.

Não que a história de Svetlana Geier não seja impactante e digna de registro, pois é – o problema é que relatos como o dela existem aos montes no Cinema documental, ao passo que as dissertações instigantes de uma tradutora respeitada acerca de seu trabalho e da própria natureza da linguagem é algo bem mais raro. E, assim, é impossível deixar de pensar neste filme como uma oportunidade perdida.

Apesar, repito, de sua encantadora protagonista. (3 estrelas em 5)

 

15) Lixo Extraordinário (Waste Land, Brasil/Inglaterra, 2010). Dirigido por Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim. Com: Vik Muniz.

O artista plástico e fotógrafo brasileiro Vik Muniz, radicado em Nova York há algumas décadas, se notabilizou por criar imagens impressionantes a partir de materiais sólidos (e geralmente orgânicos) dispostos no chão e fotografados do alto – uma abordagem intrigante que o alçou ao patamar dos mais respeitados artistas da cena contemporânea. Ainda assim, quando Muniz surge no início deste documentário manifestando o interesse de criar uma nova exposição a partir do lixo e focando os catadores do maior aterro sanitário do mundo, afirmando ainda que irá “mudar a vida” daquelas pessoas, confesso que seu discurso me soou cínico, aproveitador e, em última instância, impossível.

Como eu estava errado.

Rodado no aterro situado no Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, Lixo Extraordinário mergulha o espectador no universo daquelas pessoas que, competindo com os urubus e enfrentando o mau cheiro e a sujeira, ganham a vida catando o material reciclável descartado pela sociedade, numa imagem já explorada por documentários como Ilha das Flores, Estamira e o egípcio Sonhos no Lixo. No entanto, a diferença é que, aqui, os cineastas acompanham também o processo criativo de um artista em seu auge enquanto este busca conhecer aquelas pessoas e conceber um novo tema a partir daquele material, o que inevitavelmente confere também um importantíssimo caráter de comentário social ao filme.

Logo de cara, aliás, o que mais surpreende em Lixo Extraordinário é constatar a natureza alegre daqueles indivíduos, que, mesmo levando uma existência que o resto da população provavelmente consideraria como o “fundo do poço”, abraçam com orgulho a profissão que, afinal de contas, é responsável por alimentar suas famílias. Sentindo-se obviamente à vontade diante da equipe comandada por Lucy Walker (o brasileiro João Jardim, responsável pelo lindo Janela da Alma, assina a co-direção), os personagens vistos neste documentário brincam, fazem piadas e confissões sem qualquer resquício de auto-censura – e é impossível não se deixar contagiar pela natureza brincalhona de pessoas que, mesmo em meio a um importante protesto, respondem ao chamado para uma greve de fome com um irreverente: “Sim, vamos fazer a greve de fome! Mas meio-dia vou ali almoçar!”. Da mesma maneira, é importante observar como os realizadores conseguem capturar momentos incrivelmente reveladores e dolorosos, como no instante em que a associação dos catadores é assaltada, levando seus dirigentes à desesperança absoluta, e também no momento em que, visitando o barraco de uma das personagens, captura a triste ironia de uma tevê que, no meio daquela miséria, exibe um episódio de Riquinho.

Enquanto isso, Vik Muniz cruza a tela em diversas ocasiões enquanto planeja suas obras, permitindo que o público acompanhe o desenvolvimento de suas idéias – e a cena em que finalmente testemunhamos sua primeira produção e percebemos o que ele vinha idealizando representa um instante mágico não só para o espectador, mas também para os próprios catadores do Jardim Gramacho. Além disso, como Muniz emprega vários daqueles personagens na montagem das imagens, eles se tornam apropriadamente co-autores das peças, sendo comovente observar o orgulho óbvio que manifestam diante da exposição já finalizada e que pode ser constatado também através da felicidade com que penduram cópias dos quadros nas paredes frágeis de seus barracos.

Contando com uma fotografia maravilhosa de Dudu Miranda, que se destaca especialmente nos planos noturnos, em contraluz e também na utilização pontual da câmera lenta (que, de forma até meio obscena, mas sempre linda, transforma em balé  a luta dos catadores com o lixo), o documentário ainda retrata a preocupação admirável dos realizadores com os efeitos que o projeto está provocando em seus personagens – uma preocupação que se prova relevante quando os indivíduos focados pelo filme começam a manifestar insatisfação com o retorno ao aterro, expondo até mesmo o caráter de negação que produzia parte da alegria antes observada pelo longa.

Falhando apenas em seus segundos iniciais e finais, que inexplicavelmente empregam imagens do Programa do Jô como uma forma absurda de atestar o valor daquelas pessoas (como se dissesse: “Vejam! Eles fizeram tanto sucesso que foram até no Jô!”), Lixo Extraordinário mais do que compensa este triste tropeço com seus 88 minutos restantes, que se revelam comoventes, doces, trágicos e inspiradores.

E o mais importante: ao trazer recursos financeiros para aquela comunidade e também ao inspirar aqueles indivíduos a reconhecerem o próprio valor, Vik Muniz realmente cumpre seu objetivo de “mudar a vida” de seus personagens. O que ele não podia prever – e que, por isso mesmo, é tão emocionante quando ocorre – é que eles também iriam mudá-lo de maneira profunda e definitiva. (5 estrelas em 5)

 

16) Domínio (Domaine, França, 2009). Dirigido por Patric Chiha. Com: Béatrice Dalle, Isaïe Sultan, Alain Libolt, Raphaël Bouvet, Sylvia Rohrer.

Neste seu longa de estréia, o cineasta Patric Chiha constrói uma narrativa que, basicamente centrada em diálogos, acompanha a relação pouco saudável de uma matemática alcoólatra (a veterana Dalle) e seu sobrinho Pierre (Sultan). Porém, revelando-se presunçoso e terrivelmente auto-indulgente, o filme comete seu maior pecado ao julgar erroneamente ter algo relevante a dizer, sem perceber que, acima de tudo, é apenas desinteressante.

Refletindo a obsessão de Nádia (Dalle) por ordem e ritmo, Domínio inicialmente estabelece uma rotina simétrica que envolve o trajeto dos passeios feitos por tia e sobrinho, investindo também numa teatralidade que, atravessando toda a projeção, encontra seu ponto máximo (ou mais baixo) na solitária lágrima que escorre pelo rosto de Pierre enquanto este ouve mais um dos patéticos monólogos de sua adorada parente. Por outro lado, é inegável que Chiha confere uma intrigante sensualidade à narrativa, acertando também ao ilustrar as várias elipses através das águas em movimento de um rio, que, parecendo sempre imutável, simboliza desta forma a vida daqueles personagens, que, embora em movimento constante, jamais saem do lugar.

Enriquecido por uma fotografia esteticamente impecável e por uma mise-en-scène elegante (e que atinge seu auge na magnífica cena que envolve uma dança coletiva numa boate em penumbras), Domínio não consegue superar, apesar disso, o simples fato de apostar todas as suas fichas numa bêbada aborrecida e egocêntrica que, apaixonada pela própria voz, parece embriagada também pelo fascínio que exerce em seu tolo e influenciável sobrinho adolescente. (2 estrelas em 5)


17) Animal Town (Idem, Coréia do Sul, 2009). Dirigido por Jeon Kyu-hwan. Com: Lee Joon Hyuk, Oh Seong-tae .

Ambientado numa Coréia do Sul que, seguindo a tendência que tomou conta do planeta em 2009, encontrava-se mergulhada numa profunda crise financeira, Animal Town acompanha dois personagens trágicos que, tristes e solitários, não conseguem lidar com as dificuldades econômicas externas e nem com a fragmentação interna que experimentam em função da depressão e do desespero

Com uma fotografia lavada e desinteressante que surge como fruto do suporte digital mal explorado, o filme passa boa parte da narrativa observando os dois silenciosos homens enquanto estes tentam encontrar algum sentido em suas existências através de experiências sexuais frustradas ou simplesmente da dor. No entanto, o roteiro de Jeon Kyu-hwan também investe um tempo precioso em uma terceira e dispensável subtrama envolvendo duas pequenas catadoras de lixo – uma história claramente inserida de forma atrapalhada na trama apenas para provocar uma tensão boba no terceiro ato.

Enfraquecido também por um clímax absurdo que depende de excessivas coincidências e de mudanças abruptas nas personalidades dos personagens, Animal Town ainda busca encaixar uma reviravolta final que, além de previsível, serve apenas para tentar chocar o espectador de maneira rasa e infantil. Lamentável. (2 estrelas em 5)

Mostra de São Paulo 2010 – Dia 02

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos | 10 comentários

Um abraço grande ao leitor Leonardo e ao futuro aluno Guilherme, que vieram me cumprimentar nos intervalos entre as sessões.

Quanto aos filmes:

6) Abel (Idem, México, 2010). Dirigido por Diego Luna. Com: Karina Gidi, Christopher Ruíz-Esparza, Gerardo Ruíz-Esparza, Geraldine Alejandra, José María Yazpik.

Depois de estrear na direção com o bom documentário sobre o boxeador Júlio César Chávez, em 2007, o ator mexicano Diego Luna agora comanda seu primeiro longa de ficção, Abel, a partir do roteiro que assinou ao lado de Augusto Mendoza – e o resultado estabelece o competente intérprete como uma sólida promessa também atrás das câmeras.

Internado há dois anos em um hospital psiquiátrico depois de sofrer um colapso mental, o pequeno Abel (Christopher Ruíz-Esparza) finalmente é levado para casa por sua mãe Cecília (Gidi), que, abandonada pelo marido Anselmo (Yazpik), se esforça para manter sozinha a família que conta também com a adolescente Selene (Alejandra) e o caçulinha Paúl (interpretado pelo irmão de Ruíz-Esparza na vida real). Depois de um início não muito promissor em seu lar, Abel finalmente parece demonstrar sinais de recuperação ao assumir o papel de seu pai na dinâmica familiar – uma fantasia que a mãe e os irmão se negam a destruir justamente com a esperança de que o garoto se recupere completamente.

Em mãos menos ambiciosas, esta premissa certamente resultaria numa comédia centrada em piada única – no caso, o comportamento atípico do personagem-título. Luna, no entanto, consegue explorar o humor da situação sem jamais ignorar suas implicações psicológicas. É óbvio, por exemplo, que ao agir como o pai, Abel busca preencher uma profunda carência usando a si mesmo como substituto, sendo igualmente interessante perceber como seu irmãozinho caçula logo abraça a farsa por se mostrar igualmente sedento de uma figura paterna. Da mesma maneira, é fascinante perceber como o menino interpreta não uma versão realista do pai (e como poderia?), mas um clichê deste – uma figura de autoridade e altamente machista que nada mais é do que representação infantil e unidimensional daquilo que ele enxerga como sendo o pai (um clichê que se manifesta até mesmo em sua elaboração do ato sexual e suas implicações).  

O grande mérito da direção de Luna, porém, reside mesmo no respeito que ele demonstra para com os personagens, já que reconhece que, embora o público possa rir daquela situação absurda, aquelas pessoas são profundamente afetadas pelos acontecimentos e sentem intensamente a dor provocada pela doença do garoto. Além disso, o design de produção merece aplausos por conceber a casa da família como uma espécie de sonho interrompido, já que exibe espaços ainda não finalizados provavelmente em função da partida de Anselmo.

Oscilando com segurança entre o drama e a comédia, Abel peca apenas por não saber como concluir sua narrativa, investindo num desfecho frágil que não honra o restante da projeção. (4 estrelas em 5)


7) Os Amores de um Zumbi (Les amours d’un zombi, Haiti, 2009). Dirigido por Arnold Antonin. Com: Ricardo Lefèvre, Réginald Lubine, Caroline Pierre.

Há uma velha fábula chinesa que aborda uma conversa entre uma minhoca e o peixe capturado depois de tentar abocanhá-la no anzol. Enquanto são içados pelo pescador rumo à superfície, a minhoca pergunta: “Mas você não viu o brilho metálico do anzol? Não sabe o que acontece com todos os seus parentes que tentam tirar a minha família destas armadilhas? Por que tentou me comer?” – ao que o peixe responde: “Eu não tentei comê-la. Eu queria apenas libertá-la”.

Estou certo de que muitos leitores, diante da breve narrativa descrita acima, sentirão a tentação de tecer teorias acerca da fala do peixe e seus significados – especialmente depois de serem informados de que se trata de uma “velha fábula oriental”. O fato, porém, é que a tal fábula acabou de ser criada com o único intuito de abrir este texto e foi improvisada em 30 segundos – e seu “significado” é apenas um: o de que sempre haverá alguém disposto a enxergar profundidade onde existe apenas o vazio.

O que nos traz a este Os Amores de um Zumbi, uma das maiores porcarias que já poluíram uma tela de cinema – e se eu não esperava um clássico inesquecível ao ler o título do projeto, tampouco poderia supor que a Mostra de São Paulo selecionaria para o evento uma produção provavelmente realizada por menos de 10 reais e que parece ter sido escrita, protagonizada, montada e dirigida por pessoas que jamais assistiram a um filme na vida.

Trazendo uma história imbecil que se torna ainda mais ofensiva graças aos diálogos que parecem ter sido (mal) improvisados no momento das filmagens, o longa exibe o rigor técnico de um vídeo caseiro do YouTube, permitindo que a câmera e a equipe sejam refletidas em todas as superfícies brilhantes vistas ao longo da projeção, expondo a máquina de gelo seco usada para esfumaçar o “set” (entre aspas mesmo) e escancarando até mesmo o fato de ter sido rodada usando o foco automático do equipamento.

Aliás, se há algum sinal de vida inteligente nesta empreitada, este diz respeito à certeza do diretor Arnold Antonin de que a precariedade (eufemismo) técnica de seu “filme” acabaria sendo interpretada por alguns como sendo algo proposital, um esforço metalingüístico ou satírico – e, para isso, ele solta aqui e ali alguma obviedade sobre como o protagonista é apenas mais um em um “país de zumbis” e inclui uma epígrafe assinada por Buñuel. Infelizmente, ser propositalmente trash já é algo que deixou de ser novidade há décadas, o que elimina até mesmo a possibilidade de que este lixo possa ser elogiado pela “irreverência”.

Sim, rir durante os 10 ou 20 primeiros minutos de projeção é natural e surge do mesmo impulso que nos leva a gargalhar diante da queda de alguém em uma videocassetada, por exemplo, mas, no final das contas, Os Amores de um Zumbi é tão ruim que se torna bom e volta a fechar o círculo ao se tornar pavoroso novamente, já que a piada se torna insuportável depois da meia hora inicial. Mas o fato de ter sido selecionado para um evento respeitável como a Mostra indica, infelizmente, que há quem tenha enxergado, nesta estupidez, um peixe tentando libertar uma minhoca. (1 estrela em 5)

 

8) Cirkus Columbia (Idem, Bósnia e Herzegovina, 2009). Dirigido por Danis Tanovic. Com: Miki Manojlovic, Boris Ler, Mira Furlan, Jelena Stupljanin, Mario Knezovic.

“Nossas guerras nunca são curtas”.

Certamente não é fácil viver num país que inspire seus habitantes a fazerem afirmações como esta – e de todas as nações que fazem jus a este tipo de observação, obviamente o território hoje chamado de Bósnie e Herzegovina é um dos que mais fizeram por merecê-la (e não é à toa que o estopim da Primeira Guerra foi aceso em Sarajevo).

Ambientado nos dias que antecederam o brutal confronto que tomou conta do país a partir de 1992, quando este mergulhou numa guerra civil de dimensões assustadoras, Cirkus Columbia, escrito e dirigido por Danis Tanovic (Terra de Ninguém) a partir do livro de Ivica Djikic, aborda de maneira inteligente este importante período de históricas (e trágicas) mudanças em sua nação a partir da relação entre o jovem Martin (Ler), sua mãe Lucija (Furlan) e o pai Divko (Manojlovic), que retorna vinte anos depois de ter fugido para a Alemanha para evitar as retaliações do regime comunista ao qual se opunha. Orgulhoso de si mesmo por ter se tornado financeiramente bem-sucedido e trazendo uma jovem e bela esposa-troféu a tiracolo, Divko logo usa seu dinheiro para comprar prestígio e favores junto à corrompida administração de sua cidade, providenciando, já de imediato, o despejo da ex-esposa. Machista e acostumado a tratar as mulheres como servas, o sujeito é vivido por Miki Manojlovic com total ausência de humor, o que, paradoxalmente, torna suas explosões e sua mesquinhez divertidas em vários momentos (e a semelhança física do ator com Walter Matthau não atrapalha neste sentido). No entanto, à medida que conhecemos mais o personagem e compreendemos um pouco melhor suas motivações, sua postura diante do mundo acaba fazendo mais sentido – e se isto não justifica a crueldade e a frieza com que ele age em vários instantes, ao menos serve para torná-lo uma figura mais complexa e distanciá-lo de uma caracterização de antagonista unidimensional.

Enquanto isso, Mira Furlan (a Danielle Rousseau de Lost) compõe Lucija como uma mulher de personalidade forte que, mesmo diante de desesperadoras adversidades, não demora a se colocar de pé, enfrentando-as com uma dignidade comovente. E se seu filho Martin surge como um rapaz frágil e inseguro que responde às frustrações com uma imensa infantilidade, isto logo começa a mudar quando ele conhece a nova esposa do pai (a bela Jelena Stupljanin), uma mulher que parece aceitar se submeter ao marido graças a uma mistura de gratidão e falta de perspectivas melhores.

Retratando com habilidade a instabilidade política de um país à beira da guerra civil, Tanovic usa de maneira brilhante seus personagens para ilustrar, de forma indireta, a gênese do conflito – como no instante, por exemplo, em que Lucija é presa pelo prefeito da cidade, que, anti-comunista, é confrontado por um major do exército que traz em seu quepe a mesma estrela vermelha que o outro mandou tirar do uniforme dos policiais civis que o defendem.

Mas é mesmo em seus segundos finais que este candidato da Bósnia ao Oscar 2011 alcança seu momento máximo ao revelar a origem do seu título – um aparelho que, à sua própria maneira, acaba simbolizando de maneira tocante os últimos momentos de paz e doçura de uma nação que só conheceria a dor e a violência nos anos seguintes. (5 estrelas em 5)

 

9) Mente Elétrica (Electric Mind, Israel, 2010). Dirigido por Nadav Harel.

Sempre encarei o tratamento psiquiátrico à base de eletrochoque como sendo algo próximo da barbárie – mesmo sabendo que muitos profissionais respeitados insistem em defender sua utilidade em casos extremos e específicos. Ao assistir a este documentário produzido em Israel, porém, não só compreendi um pouco mais a racionalização por trás do meu próprio preconceito com relação ao procedimento, que se estabelece como um símbolo marcante da opressão do espírito de liberdade pelo establishment, como ainda percebi que, apesar de brutal, talvez haja mesmo lógica por trás de seu uso.

Acompanhando quatro pacientes de perfis completamente diferentes entre si, o filme nos apresenta a uma senhora que se tornou profundamente deprimida após a morte do marido, a um pai de família que passou a mancar em função de um distúrbio neurológico, a uma garotinha vítima de epilepsia e a um fotógrafo profissional que, aos 35 anos, descobriu ser maníaco-depressivo – e que, como mais articulado dos personagens, descreve sua condição de maneira certeira ao afirmar que “o mais doloroso na depressão é o próprio ato de pensar”.

Aliás, Mente Elétrica tem, como principal força, justamente a franqueza com que aquelas pessoas discutem problemas tão delicados e pessoais – e é fascinante, por exemplo, perceber os esforços feitos pela garotinha de cerca de 10 anos para descrever seu próprio processo mental durante um ataque epilético. Além disso, é necessário conhecer pacientes como o fotógrafo para realmente compreender como alguém pode se sentir tão desesperado e atormentado pela depressão a ponto de julgar melhor se submeter a vinte sessões de choques magnéticos do que permanecer sob o peso da doença.

Por outro lado, não deixa de ser assustador que, em sua essência, o eletrochoque seja um tratamento puramente empírico (em certo instante, um neurologista explica sua eficácia dizendo que “algo acontece”), ainda que, de acordo com os entrevistados no documentário, sua brutalidade seja mais uma questão de percepção do que de realidade (“Ele não é mais violento que uma endoscopia”, explica um médico).

Empregando alguns grafismos interessantes para ilustrar a ação dos aparelhos utilizados nos diversos tratamentos vistos ao longo da projeção (e que vão além do eletrochoque), Mente Elétrica pode até ser convencional em sua estrutura, mas é suficientemente interessante para, ao seu próprio modo, estimular o intelecto do espectador. (3 estrelas em 5)


10) Não Me Deixe Jamais (Never Let Me Go, Inglaterra, 2010). Dirigido por Mark Romanek. Com: Carey Mulligan, Keira Knightley, Andrew Garfield, Izzy Meikle-Small, Charlie Rowe, Ella Purnell, Charlotte Rampling, Sally Hawkins, .

Não fiquei surpreso ao descobrir que Não Me Deixe Jamais havia sido adaptado de um livro de Kazuo Ishiguro; afinal, é difícil ignorar a similaridade entre sua atmosfera melancólica, formal e marcada pela repressão emocional com aquela presente no belíssimo Vestígios do Dia, igualmente realizado a partir de uma obra do autor japonês. Aliás, este novo trabalho do cineasta Mark Romanek poderia ser perfeitamente descrito como uma combinação curiosa entre o filme de James Ivory e o clássico 1984.

Ambientado num passado ficcional que viu a ciência ampliar a expectativa de vida humana até os 100 anos de idade, o roteiro de Alex Garland acompanha a trajetória dos jovens Kathy (Mulligan), Tommy (Garfield) e Ruth (Knightley), que, depois de se tornarem próximos em um colégio interno britânico, passam a exercer imensa influência nas vidas uns dos outros durante as duas décadas seguintes à medida que compreendem a exata natureza e o propósito de suas existências.

Despidas de suas individualidades já em função de seus sobrenomes reduzidos a uma inicial (o que remete a O Processo, de Kafka), as crianças passam seus dias entre as salas de aula, que incluem lições sobre como pedir uma bebida em uma lanchonete e a melhor maneira de obter prazer no sexo, e a livre interação nos campos que cercam a instituição – mas cujos limites jamais devem ser ultrapassados. Portanto braceletes que monitoram suas entradas e saídas do colégio, elas parecem habitar num universo que combina elementos antiquados com outros saídos de uma ficção científica – e demora algum tempo até que finalmente percebamos a exata natureza daquela instituição e sejamos capazes de compreender, por exemplo, por que os alunos ficam tão eufóricos diante da possibilidade de comprarem entulhos entregues em caixas de papelão.

Com uma direção de fotografia que aposta numa paleta quase monocromática para ressaltar a melancolia daquele universo e que combina perfeitamente com os figurinos tristes e a trilha evocativa de uma Rachel Portman mais contida do que o habitual, Não Me Deixe Só encontra, em sua hora inicial, os momentos mais fortes da narrativa – e, portanto, é uma pena quando os personagens crescem e deixam o colégio, já que a partir daí o roteiro investe num triângulo amoroso clichê que, ainda que sirva para desenvolver o arco geral da trama, acaba soando previsível e melodramático.

Tornando-se uma figura cada vez mais segura em cena, Carey Mulligan não permite, no entanto, que a fragilidade de sua metade da narrativa (na primeira metade, sua personagem é vivida pela ótima garotinha Izzy Meikle-Small) comprometa sua performance, merecendo aplausos por encarnar Kathy como uma jovem cuja natureza introspectiva revela não exatamente uma tristeza subjacente, mas mais uma compreensão tácita acerca do próprio destino. Enquanto isso, Keira Knightley encarna Ruth como uma jovem que busca ocultar sua insegurança através de uma postura arrogante, expondo esta tentativa, por exemplo, ao imitar as atitudes de colegas mais velhos diante de um programa de humor. Fechando o trio principal, Andrew Garfield mais uma vez volta a se mostrar como um buraco negro de carisma, sugando toda a energia e o brilho de suas colegas de elenco sempre que surge em campo. Já o elenco secundário tem o privilégio de contar com Charlotte Rampling em mais uma de suas performances geladas e assustadoras, além de trazer também Sally Hawkins como a única “guardiã” do colégio interno que exibe algum traço de calor humano.

Sem se preocupar em detalhar a lógica que rege a existência daqueles indivíduos (o que é um acerto) ou em justificar a passividade que exibem diante de um destino que sabem ser cruel (o que é um equívoco), Não Me Deixe Jamais comprova o talento de Mark Romanek, que, sem dirigir um longa desde o seu ótimo Retratos de uma Obsessão, aqui constrói uma obra triste que não permite que a solenidade de sua narrativa a impeça de exercer impacto sobre o público. Ainda assim, o dilema ético proposto pela história, mesmo funcionando como um curioso exercício intelectual, não deixa de soar tolo justamente por não ter implicações práticas na vida real, o que representa um pequeno problema – especialmente a partir do instante em que uma dispensável narração em off se encarrega de resumir o tema do filme em seus segundos finais, numa ofensa clara à inteligência do espectador.

Uma ofensa que podemos optar por ignorar em respeito à qualidade inquestionável do restante da narrativa. (4 estrelas em 5)

Mostra de São Paulo 2010 – Dia 01

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos | 5 comentários

Abraços ao ex-aluno Roberto e à antiga leitora Sylvia Angélica, que encontrei na sessão do belo filme de estréia de sua irmã, Bloomington (que comento mais abaixo):

1) Dias Violentos (Quchis dgeebi, Geórgia, 2010). Dirigido por Levan Koguashvili. Com: Guga Kotetishvili, Irakli Ramishvili, Zaza Salia, Zura Sharia, Rusiko Kobiashvili.

Dias Violentos, candidato da Geórgia a uma vaga no Oscar 2011, é um filme sobre um país cujo futuro se encontra comprometido por sua insistência em ignorar o passado. Ressaltando o tema através da insistência dos alunos de uma escola decadente em ignorar os esforços de seus professores, o longa de Levan Koguashvili chega a trazer um momento significativo em que os rapazes, olhando por uma das janelas do prédio, observam um grupo de homens de meia-idade que, viciados em heroína, aguardam ao lado do colégio enquanto um colega vai buscar novas doses da droga – um possível retrato do que aguarda aqueles mesmos garotos dentro de alguns anos.

Retrato realista e angustiante da dependência química, o projeto remete ao igualmente devastador Os Viciados, de 1971, ao acompanhar a rotina de indivíduos que parecem empregar todas as horas do dia pensando em como conseguir drogas, em usá-las e, então, em como obter novas doses. É neste contexto que somos apresentados a Checki (o estreante Guga Kotetishvili, fantástico), que, divorciado e pai de um garoto pequeno, se destaca em seu pequeno grupo por ter acesso a um traficante local. Certo dia, surpreendido por policiais locais mal-intencionados, ele é abordado e recebe a tarefa de levar o filho de um importante político a se drogar, já que é amigo do pai do garoto e capaz de influenciá-lo – uma missão que leva Checkie a questionar os rumos de sua vida.

Adotando uma abordagem extremamente realista e privilegiando o uso das locações envelhecidas e miseráveis, Dias Violentos ainda emprega um recurso curioso para evocar o descaso dos personagens para com qualquer coisa que não esteja diretamente relacionada às drogas ao constantemente trazer personagens menores falando fora de campo sem jamais se preocupar em revelar seus rostos (ou fazendo-o brevemente). Além disso, a câmera sempre na mão colabora para um tom quase documental que também se beneficia da naturalidade do ótimo elenco.

Com um humor que muitas vezes surpreende o espectador, o filme choca e comove ao focar a desesperança daqueles indivíduos (como na tocante cena que traz a ex-esposa do protagonista oferecendo quase tudo que possui para dois banqueiros) e também ao investir num anti-herói que, exausto e sem qualquer chance de redenção, ainda tem caráter suficiente para reconhecer um fato inegável: o de que se perdeu completamente no meio do caminho. (4 estrelas em 5)

 

2) Fora da Lei (Hors-la-loi, Argélia, 2010). Dirigido por Rachid Bouchareb. Com: Jamel Debbouze, Roschdy Zem, Sami Bouajila, Chafia Boudraa, Bernard Blancan.

Nascido em Paris e descendente de argelinos, o cineasta Rachid Bouchareb parece ter encontrado, no passado traumático e doloroso da França e suas colônias, um tema que busca exorcizar através de narrativas políticas com tons épicos que investem em personagens multifacetados e profundamente comprometidos com suas causas e seus ideais. Repetindo a parceria feita no excepcional Dias de Glória com os atores Jamel Debbouze, Roschdy Zem e Sami Bouajila (que aqui vivem personagens que, mesmo diferentes, têm os mesmos nomes daqueles vistos no longa de 2006), o diretor também deixou sua marca política no triste London River, que abordava as conseqüências do terrorismo a partir do ponto de vista das famílias dos civis mortos no fogo cruzado – uma tragédia que neste Fora da Lei encontra eco na reencenação do massacre de Sétif, ocorrido em 1945.

Escrito pelo próprio Bouchareb, o roteiro deste pré-candidato da Argélia ao Oscar 2011 traz o trio principal como irmãos que, expulsos de suas terras na Argélia, se entregam a jornadas diversas: enquanto Messaoud (Zem), o mais velho, se alista para enfrentar os alemães na Segunda Guerra, o caçula Saïd (Debbouze) investe no treinamento de jovens boxeadores, ao passo que o intelectual Abdelkader (Bouajila) é aprisionado depois de participar de manifestações pela independência do país logo que a guerra chega ao fim (e que resultou no massacre citado anteriormente). Anos depois, eles voltam a se encontrar na França, onde Saïd se tornou um pequeno trapaceiro e Messaoud, ferido no confronto com o Eixo, se uniu a Abdelkader num partido que aposta na luta armada para convencer o governo francês a abrir mão da colônia argelina.

Contando uma história que atravessa quase 40 anos, Fora da Lei faz constantes saltos no tempo enquanto desenvolve sua trama essencialmente política através da dinâmica entre os três irmãos: dono de uma determinação assustadora que eventualmente o condena ao isolamento emocional absoluto, Abdelkader, inicialmente chocado pela violência que testemunha, acaba se entregando com cada vez mais intensidade aos atos extremos que julga necessários para defender sua causa – e é com certa crueldade que delega ao irmão mais velho, talvez por já enxergá-lo como um assassino em função de sua participação na guerra, a execução de suas ordens implacáveis, ignorando (ou fingindo ignorar) os efeitos devastadores que aquilo provoca em Messaoud. E se Saïd é curiosamente o único dos irmãos visto com desgosto pela matriarca da família (que prefere fechar os olhos para a violência dos mais velhos enquanto aponta o dedo, impiedosa, para os pequenos crimes do caçula), é também aquele que se entrega sem reservas à paixão pela vida e pela família, tentando manter a proximidade com os demais mesmo que estes (Abdelkader, em particular) insistam em enxergá-lo com desapontamento.

Com uma fotografia escura e sufocante que reflete a natureza dos personagens, Fora da Lei é incrivelmente ambicioso em sua escala, mas é justamente por se deter em vários detalhes desnecessários da trajetória daqueles homens (como, por exemplo, o primeiro encontro entre o coronel Faivre e Abdelkader, que é bem encenado, mas dispensável no arco geral da narrativa) que acaba sendo prejudicado ao exibir um ritmo irregular que muitas vezes o leva a perder o foco.

Ainda assim, como não admirar um filme que traz, de maneira orgânica, duas passagens claramente inspiradas na trilogia O Poderoso Chefão (as mortes de Don Ciccio e de Apolonia, primeira esposa de Michael)? Pode não ser o suficiente para ignorar os claros problemas estruturais do longa de Bouchareb, que também peca por soar episódico demais, mas já é um bom começo. (3 estrelas em 5)

 

3) Mamma Gógó (Idem, Islândia, 2010). Dirigido por Friðrik Þór Friðriksson. Com: Kristbjörg Kjeld, Hilmir Snær Guðnason, Gunnar Eyjólfsson, Margrét Vilhjálmsdóttir.

Afinal, o que exatamente o cineasta islandês Friðrik Þór Friðriksson queria expressar com este seu esquizofrênico Mamma Gógo? Inicialmente apresentado ao público como uma comédia sobre uma senhora determinada, mas aparentemente muito distraída, o filme logo se converte num drama familiar sobre senilidade, fugindo deste tema ocasionalmente para tentar satirizar a indústria cinematográfica da Islândia – numa miscelânea de gêneros e estratégias narrativas que acabam frustrando qualquer tentativa feita pelo espectador de mergulhar na história.

Trazendo a excelente Kristbjörg Kjeld como a personagem-título, Mamma Gógó abre com a estréia do novo filme do cineasta vivido por Guðnason, que, claramente concebido como um alterego do diretor-roteirista Friðriksson, apresenta seu trabalho como uma denúncia sobre o tratamento conferido aos idosos islandeses. A partir daí, acompanhamos sua mãe enquanto as distrações desta acabam se revelando como sintomas do Alzheimer, impossibilitando-a de continuar vivendo sozinha – algo que se soma aos já inúmeros problemas do filho, que se vê mergulhado em dívidas em função do fracasso de seu último filme.

Aliás, é justamente a obsessão do Diretor em ver seu longa indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro que acaba sendo utilizada como maneira de criticar a lógica impiedosa do mercado cinematográfico, que privilegia superproduções vazias e condena ao esquecimento obras maduras (mesmo que presunçosas) – e a ironia de Friðriksson é ressaltada não  só pela decisão de usar seu Filhos da Natureza, de 1991, como “obra-dentro-da-obra”, mas também pelo fato daquele projeto ter sido realmente indicado ao Oscar (e não é menos curioso que este Mamma Gógó seja o pré-candidato da Islândia ao prêmio em 2011).

Porém, Friðriksson eventualmente abandona esta subtrama – embora gaste longos minutos para desenvolvê-la – a fim de se dedicar à doença de Gógó, que inicialmente é retratada com toques cômicos (seu protesto de fuga através da descarga do banheiro é brilhante), mas que logo passa a flertar com o melodrama, só não se tornando artificial graças ao desempenho sensível da veterana Kristbjörg Kjeld. Ao mesmo tempo, o cineasta busca explorar a crise no casamento de seu alterego, que, encarnado por Guðnason com o semblante sempre passivo, não consegue lidar com o fracasso profissional e com as cobranças constantes da esposa.

Abraçando a metalinguagem ao se tornar, ele próprio, uma espécie de comentário crítico sobre o tratamento conferido aos idosos, Mamma Gógó lamentavelmente desaba de vez em seu ato final, quando se entrega à fantasia e a delírios sobrenaturais, fugindo do tom com que vinha sendo desenvolvido até então e se revelando uma colcha de retalhos porcamente costurada por um diretor que obviamente não fazia a menor idéia sobre que filme pretendia realizar. (2 estrelas em 5)

 

4) Peepli ao Vivo (Peepli Live, Índia, 2010). Dirigido por Anusha Rizvi e Mahmood Farooqui. Com: Omkar Das Manikpuri, Raghuvir Yadav, Shalini Vatsa, Nowaz, Farrukh Jaffar, Sitaram Panchal.

Candidato da Índia a uma vaga no Oscar 2001, Peepli ao Vivo é um filme que afunda em função de suas muitas e grandes ambições. Levando-se mais a sério do que deixa transparecer (como indica seu letreiro final de “denúncia social”), o longa tenta, ao mesmo tempo, fazer uma crítica à lógica perversa e mesquinha das alianças políticas, denunciar a submissão da mídia aos interesses dos poderosos, condenar a manipulação da informação pelos jornalistas, apontar os descalabros econômicos do país e criar uma comédia com toques dramáticos moldada pela estrutura narrativa típica de Bollywood – transformando-se, como resultado, numa mistura pouco eficiente de A Montanha dos Sete Abutres, As Vinhas da Ira e, com seus interlúdios musicais com conotações políticas, Os Saltimbancos Trapalhões.

Iniciando sua narrativa a partir da miséria absoluta dos agricultores da Índia, o roteiro de Anusha Rizvi se concentra a princípio nos irmãos Budhia (Yadav) e Natha (Manikpuri), que estão prestes a perder a fazenda da família para um banco. Quando ouvem falar de uma lei que indeniza os parentes de agricultores que se mataram, logo decidem que um deles deverá cometer suicídio a fim de salvar a propriedade – algo que o mais velho, Budhia, não demora a convencer o influenciável caçula a fazer. Quando a mídia descobre a decisão do agricultor, porém, um verdadeiro circo midiático toma conta da pequena cidade de Peepli, que se converte no centro de uma disputa política que se torna ainda mais intensa por ocorrer às vésperas das eleições.

Ainda que reserve pesadas críticas à classe política ao retratar a fluidez das alianças e a natureza cínica e auto-centrada daqueles que deveriam governar pensando no povo, o longa investe sua munição pesada no jornalismo de entretenimento, sempre baseado em escândalos fugazes, que tomou conta da mídia mundial na última década – um tipo de jornalismo corrompido que não se envergonha por criar narrativas que sirvam às pautas pré-estabelecidas e que se submetem aos interesses de partidos por medo ou – como ocorre no Brasil – por ter interesses econômicos velados por trás de um projeto político determinado. Sem exibir qualquer traço de consciência social (algo, por exemplo, que norteava o Globo Repórter em sua origem, quando era comandado por Eduardo Coutinho e seus parceiros), este é um tipo de jornalismo que comumente se refere aos seus objetos como “personagens” e que não se deixa limitar pelos fatos ao contar suas histórias – e que, justamente por sua natureza frágil, salta de tópico em tópico sempre em busca de grandes audiências, abandonando qualquer assunto, por mais relevante que seja, a partir do instante em que este deixa de atrair o público.

Infelizmente, a relevância desta mensagem acaba se perdendo justamente em função da falta de foco do roteiro e da direção, que, ao atirarem em várias direções, acabam errando todos os alvos. Além disso, o filme é claramente prejudicado por não desenvolver com mais cuidado aquele que deveria ser a alma da narrativa, o pobre Natha, que, mal abrindo a boca durante a projeção, permanece uma verdadeira incógnita até o último plano – e, assim, não nos importamos realmente com seu destino, o que é um problema grave se considerarmos que este é o motor do projeto.

Entregando-se a interlúdios musicais nem sempre orgânicos – algo característico do cinema de Bollywood -, Peepli ao Vivo ocasionalmente interrompe sua narrativa para cantar as virtudes de um povo humilde, mas forte, num país miserável e desigual, expondo o caráter populista do projeto que, no fim das contas, se converte apenas numa obra esquecível que, como os jornalistas que tanto critica, parece apenas querer usar tópicos importantes como desculpa para divertir. (3 estrela em 5)

 

5) Bloomington (Idem, EUA, 2010). Dirigido por Fernanda Cardoso. Com: Sarah Stouffer, Allison McAtee, Katherine Ann McGregor, Erika Heidewald.

Produção norte-americana escrita e dirigida pela brasileira Fernanda Cardoso, Bloomington é uma obra que, mesmo leve em sua atmosfera, constrói uma narrativa que nos apresenta a duas personagens intrigantes e complexas que, a partir de um relacionamento surpreendentemente doce em sua origem, acaba levando a um processo intenso e doloroso de auto-descoberta e amadurecimento.

Ex-estrela mirim de uma série de ficção de sucesso na TV, a atriz Jackie (Stouffer), agora iniciando sua fase adulta, decide deixar Hollywood em busca da realização pessoal e se matricula numa faculdade localizada o mais distante possível da Califórnia. Enquanto tenta se adaptar à vida de estudante, a moça acaba se envolvendo com uma de suas professoras, a rígida Catherine (McAtee), conhecida por seduzir jovens alunas da instituição e que vive num casarão que recebeu de herança ao perder toda a família num acidente de avião.

Vivida com personalidade pela estreante Sarah Stouffer, Jackie é uma garota que fascina pelas contradições: ao mesmo tempo em que obviamente ressente ser tratada como estrelinha ou mesmo ser observada como uma aberração naquele ambiente estudantil, não hesita em aproveitar a fama para conquistar privilégios (ou, no mínimo, em não recusá-los) como o quarto exclusivo e com banheiro que desperta a inveja de seus colegas.  Distante da mãe, com quem mantém um relacionamento sempre tenso e repleto de ressentimentos, e atormentada pela morte daquele que encarava como um protetor (seu agente), Jackie se torna um alvo fácil para a sedução de Catherine, que a princípio surge quase como uma fantasia erótica: bela, inteligente, bem-sucedida e independente, ela não hesita em abordar a aluna em público – mas se isto pode soar implausível ou abrupto inicialmente, Cardoso logo reequilibra a narrativa ao encenar a primeira transa do casal com sensibilidade e incrível delicadeza (e é sintomática, a maneira com que Catherine insiste em perguntar se Jackie “está bem”).

Aliás, a cineasta revela sua inteligência já através da escalação da dupla principal: obviamente contrastantes em altura, McAtee e Stouffer soam menos como amantes do que como mãe e filha – algo ressaltado também pela dinâmica que logo estabelecem, já que Catherine não apenas assume o controle da relação como ainda surge dando banho na aluna e mesmo cortando a carne em seu prato. Educando a garota não só na cama, mas em seu posicionamento diante daqueles que a confrontam, a professora chega a buscar a amante-pupila em sua casa depois de uma briga familiar, sendo reveladora a maneira com que a convida a “voltar à escola”.

Mas não é apenas graças às boas atuações e à dinâmica psicologicamente intrigante estabelecida entre as personagens que Bloomington se destaca: dirigido com discrição por Cardoso, que toma imenso cuidado para encenar as orgânicas cenas de sexo com bom gosto, o filme ainda conta com uma montagem eficiente que, embora exagere nos fades aqui e ali, se destaca especialmente graças a momentos como aquele em que alterna entre as entrevistas de Jackie na Califórnia e a crise vivida por Catherine na universidade, que se intercalam através de elegantes raccords que conferem uma agradável fluidez à seqüência.

Sem jamais perder de vista o foco de sua narrativa, Bloomington é, no final das contas, um estudo de personagens inteligente e maduro que investiga duas mulheres que, mesmo amando-se e ferindo-se mutuamente, acabam crescendo justamente por se abrirem à influência uma da outra – e se Catherine finalmente se fragiliza ao permitir-se tocar por outra pessoa, tornando-se mais humana e sensível, Jackie descobre a própria força ao constatar que sempre esteve no lugar ao qual pertencia de fato. O grande mérito de Cardoso, porém, reside não necessariamente nesta conclusão, mas na sensível jornada que a precede. (4 estrelas em 5)

Críticas – 09/10/2010

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Tropa de Elite 2 e Dois Irmãos.

Festival do Rio – Dia 14

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Como hoje ninguém me cumprimentou entre as sessões (devo estar em decadência), aproveito para mandar um novo abraço a todos que me abordaram ao longo dos 14 dias de festival, de ex-alunos a leitores. Vocês me ajudaram, acreditem, a encarar estas duas semanas com mais alegria. Aproveito para agradecer mais uma vez ao amigo Lucas Salgado por todas as dicas oferecidas acerca da estrutura do evento e sobre as melhores estratégias para enfrentar a maratona. Acredito que no próximo ano já serei um autêntico veterano no festival graças, em boa parte, aos conselhos de Lucas.

Devo dizer, aliás, que estou satisfeito. Apesar da correria e do cansaço, consegui assistir a 60 produções e – ainda mais importante – escrever sobre todas elas. No final, criei um arquivo do Word (fonte Calibri, tamanho 11) com nada menos do que 62 páginas e 31.772 palavras exclusivamente sobre os filmes vistos.

E por falar nestes…

56) The Killer Inside Me (Idem, Inglaterra, 2010). Dirigido por Michael Winterbottom. Com: Casey Affleck, Jessica Alba, Kate Hudson, Ned Beatty, Elias Koteas, Tom Bower, Simon Baker, Bill Pullman, Brent Briscoe, Liam Aiken, Jay R. Ferguson.

Mesmo que nem sempre acerte em suas escolhas como diretor, uma coisa é inegável acerca de Michael Winterbottom: o cineasta britânico parece disposto a fazer experimentos narrativos em todos os gêneros que lhe caírem em mãos. Depois de comandar cinebiografias com atmosfera quase nonsense (A Festa Nunca Termina), ficções científicas erotizadas (Código 46) e de encenar documentários (Caminho para Guantánamo), o diretor agora volta seu olhar para o filme noir, criando um longa com atmosfera sufocante e um protagonista surpreendente.

Inspirado no livro pulp de Jim Thompson, o roteiro de John Curran se passa numa cidadezinha do Texas na qual o assistente de xerife Lou Ford (Affleck) é conhecido por todos como sendo um rapaz educado e gentil. Depois de receber do chefe a tarefa de abordar uma prostituta local (Alba) e solicitar que ela pare de atuar por ali, o sujeito acaba se envolvendo com a moça ao revelar uma personalidade sádica que encontra reflexo no masoquismo da garota. Eventualmente, porém, um milionário da cidade descobre que o próprio filho também está se encontrando com a prostituta e decide suborná-la para abandonar o lugar – o que dá início a uma série de incidentes trágicos planejados com crueldade pelo insuspeito Lou.

Com uma femme fatale que se revela doce e ingênua e um protagonista que, descobrimos, é um sociopata digno de Patrick Bateman (o personagem de Christian Bale em Psicopata Americano), The Killer Inside Me traz uma narrativa que surpreende à medida que somos apresentados à natureza cada vez mais sombria de Ford. Ocupando um casarão cuja biblioteca traz obras de Freud cercando uma solitária Bíblia, o rapaz não parece dividido ou atormentado com relação à própria psicopatia – e não é à toa que ele mal consegue conter um sorriso de prazer ao espancar uma vítima ou ao antecipar o sofrimento que causará em um jovem que mal desconfia do que está prestes a acontecer. Sempre frio e raramente exibindo algum remorso (na realidade, mais uma espécie de lamento por “ter” que matar alguém de quem sentirá falta), Lou se mostra inabalável mesmo quando percebe que suas ações estão atraindo a desconfiança de um promotor, demonstrando um cinismo assustador ao ser confrontado por este.

Contando com um belíssimo trabalho de recriação de época no que diz respeito às ruas, aos edifícios, aos veículos e aos figurinos vistos ao longo da projeção, The Killer Inside Me também investe em curiosos desvios narrativos nos momentos em que uma personagem fantasia com certos acontecimentos ou em que Lou lê uma carta – quando, então, os devaneios e suposições expressados são retratados na tela como se estivessem realmente acontecendo. Além disso, Winterbottom não hesita em ilustrar as ações do protagonista de maneira intensamente gráfica, demonstrando, por exemplo, a dificuldade de se matar uma pessoa usando apenas as próprias mãos (algo como Hitchcock fez em Cortina Rasgada e Ang Lee repetiu em Desejo e Perigo).

Pecando apenas por alguns diálogos excessivamente expositivos e por perder o ritmo em determinados momentos, o filme ainda traz uma trilha instrumental curiosa que, talvez buscando refletir a natureza psicótica de Ford, freqüentemente espanta ao adotar tons bem mais leves – mesmo alegres – do que poderíamos esperar em função da gravidade do que está ocorrendo em cena.

Estrelado por um Casey Affleck cujo rosto jovial e simpático e cuja voz frágil e gentil contrastam eficientemente com a personalidade doentia do personagem, The Killer Inside Me é um filme cruel que surpreende o espectador. Exatamente como seu protagonista. (4 estrelas em 5)

 

57) Poesia (Shi, Coréia do Sul, 2010). Dirigido por Lee Chang-dong. Com: Yoon Jeong-hee, Lee Da-wit, Ahn Nae-sang, Kim Hira, Kim Yong-taek.

Vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no último festival de Cannes, Poesia conta com uma protagonista que difere em tudo daquela vista em Mother (de Bong Joon-ho), filme com o qual divide algumas características: igualmente protagonizado por uma mulher simples que trabalha arduamente para sustentar um jovem parente (neste, seu neto; naquele, o filho), o longa também surpreende sua protagonista com a revelação de que o rapaz está sendo acusado de um crime hediondo. Porém, se em Mother a personagem de Kim Hye-ja se dedicava a provar a inocência do filho, aqui a avó interpretada por Yoon Jeong-hee em nenhum momento duvida da culpa do neto, preocupando-se, em vez disso, em arrumar o dinheiro que poderá afastar as acusações ao recompensar a mãe da vítima.

Mulher alegre e vivaz, Mija (Jeong-hee) também passa a ser atormentada pela notícia de estar exibindo os primeiros sintomas do mal de Alzheimer e, neste meio-tempo, decide fazer um curso de poesia. Se considerarmos que o roteiro escrito pelo também diretor Lee Chang-dong ainda encontra espaço para um senhor que, semi-paralisado por um derrame, é cuidado por Mija e decide assediá-la depois de tomar um comprimido de Viagra, não se torna difícil constatar que Poesia parece ter a intenção ambiciosa de desenvolver vários temas paralelamente.

Infelizmente, só consegue explorar eficientemente um deles: a influência que o curso de poesia exerce sobre a protagonista. Embora a angustiada mulher se torne cada vez mais deprimida à medida que a narrativa se desenvolve, a lição recebida de “enxergar o mundo” acaba se convertendo em uma quase obsessão, levando-a a se concentrar em detalhes que, se habitualmente teria ignorado entre sorrisos, agora observa entre lágrimas – o que, aliás, rende um momento belíssimo no qual gotas de chuva, caindo sobre o caderno de anotações em que a personagem anota idéias para versos, parecem escrever uma poesia de tristeza apenas ao ensoparem o papel.

É uma pena, portanto, que a maior parte dos 140 minutos de projeção de Poesia acabem sendo dedicados a diversos outros temas que, concebidos e desenvolvidos pela metade, ocupam um espaço que teria sido muito melhor aproveitado caso acompanhasse a protagonista em sua paixão pelas palavras – mesmo que esquecendo-as eventualmente. (2 estrelas em 5)

 

58) Ilegal (Illégal, Bélgica, 2010). Dirigido por Olivier Masset-Depasse. Com: Anne Coesens, Alexandre Golntcharov, Esse Lawson.

Tania (Coesens) é uma imigrante russa que vive na Bélgica com o filho pequeno. Certa noite, depois de receber a notícia de que seu pedido de residência permanente foi recusado, ela faz a criança dormir, bebe alguns copos de vodca e queima as pontas dos dedos em um ferro de passar roupa a fim de destruir as próprias digitais, abrindo mão de sua cidadania e de sua identidade. Oito anos depois, porém, ela acaba sendo presa e enviada para um centro de detenção dedicado a abrigar imigrantes ilegais – e como se recusa a revelar seu nome, é mantida ali enquanto as autoridades decidem como lidar como seu caso.

Escrito e dirigido por Olivier Masset-Depasse, Ilegal busca a máxima verossimilhança ao retratar o cotidiano dos homens, mulheres e crianças aprisionados em centros do tipo em seu país e, assim, não tenta pintar os funcionários deste sistema como criaturas frias ou maldosas, mas apenas como indivíduos que, mesmo não concordando com tudo que vêem, desempenham suas funções com seriedade e profissionalismo – e, assim, o cineasta evita cenas de brutalidade gratuita tão comuns em projetos do gênero. Ainda assim, mesmo que não sejam torturados fisicamente, o fato é que os imigrantes ali detidos passam por uma experiência angustiante de incerteza com relação ao próprio destino, especialmente por resistirem ao máximo à deportação (indagada por uma carcereira por que se sacrificam tanto para permanecerem ali, a protagonista responde de forma direta: “Por que acha? Acha que somos masoquistas?” – indicando que, seja lá qual for a realidade que espera aquelas pessoas em seus país natais, qualquer coisa seria melhor do que para lá retornar).

Eventualmente, contudo, Masset-Depasse revela, sim, um lado obscuro e brutal de todo aquele processo: se por um lado o governo belga se esforça para tratar com humanidade os detidos, oferecendo ajuda psicológica e evitando forçá-los a entrar no avião caso se neguem, a verdade é que, como prega a lógica, a melhor corrente acaba se rompendo em função do pior de seus elos – e, com isso, a frustração experimentada pelos oficiais que se julgam embaraçados pela recusa dos imigrantes em partir acaba se convertendo em demonstrações de violência indizível, o que Ilegal ilustra também com eficiência.

Assim, é uma pena que o roteiro, depois de tanto se esforçar para criar um retrato realista daquele universo, acabe tropeçando justamente em seu desfecho, que, implausível e absurdo, aposta num final feliz que, em vez de enviar o espectador satisfeito para fora da sala de projeção, acaba comprometendo o impacto que o projeto poderia ter sobre o público. Um equívoco primário que, justamente por assim ser, se revela tão decepcionante. (4 estrelas em 5)

 

59) A Culpa é Sua (Por tu Culpa, Argentina, 2010). Dirigido por Anahí Berneri. Com: Erica Rivas, Nicasio Galán, Zenón Galán, Rubén Viani, Marta Bianchi, Omar Núñez, Carlos Portaluppi.

Em seus primeiros 15 minutos de projeção, A Culpa é Sua, magnífico filme dirigido pela argentina Anahí Berneri, se concentra em acompanhar a jovem Julieta (Rivas) enquanto esta brinca com os dois filhos pequenos, Valentín e Teo (vividos pelos irmãos Zenón e Nicasio Galán). Recém-divorciada, ela recebe uma ligação do marido, informando-a de que perdeu um vôo e demorará um pouco mais a chegar, e tenta trabalhar um pouco enquanto as crianças brincam no quarto ao lado – até que, durante uma discussão entre os pequenos em função de um brinquedo, Teo cai da cama, batendo a cabeça e motivando sua mãe a levá-lo a um pronto-atendimento.

E é isso. A partir daí, Berneri simplesmente acompanha os três personagens enquanto se deslocam para o hospital, são atendidos e um diagnóstico é feito, construindo uma narrativa minimalista que fascina justamente por prestar uma atenção belíssima aos mínimos detalhes – especialmente quando percebemos que o pediatra responsável pelo atendimento repara em alguns hematomas nos dois irmãos e imediatamente passa a desconfiar de que estejam sendo vítimas de maus-tratos por parte de Julieta, convocando a presença de seu superior e envolvendo a polícia.

Ora, nós vimos o acidente acontecer e sabemos que a mãe não agrediu o filho. Ou não sabemos? O fato é que, no momento preciso da queda, a câmera da cineasta se movimenta de maneira um pouco mais brusca e, embora tenhamos realmente testemunhado o incidente, não podemos nos colocar como testemunhas das mais confiáveis – algo que, em retrospecto, Berneri já havia indicado que faria já nos primeiros segundos de projeção, quando acompanhamos Julieta e as crianças rolando na cama e, por alguns instantes, não sabemos dizer se estamos vendo uma briga ou uma brincadeira inocente. Assim, seria realmente possível que a moça tivesse puxado o filho caçula com um pouco mais de força do que o necessário, provocando a queda? E por que, afinal, ela não protesta diante das acusações e da desconfiança dos médicos? Qual é a causa de sua apatia repentina ao perceber o que está ocorrendo? E por que seu ex-marido, ao chegar ao hospital, imediatamente pergunta “O que você fez?”?

São todas perguntas válidas – e, além disso, Valentín e Teo realmente exibem hematomas em seus pequenos corpos. No entanto, como qualquer pai de crianças pequenas pode atestar (e Julieta chega a mencionar), elas se machucam constantemente, o que poderia explicar os ferimentos. Certo? Mas, então, por que o pai dos meninos ressente a ex-esposa, dizendo que ela sempre “devolve os filhos assim”? Será que poderíamos ter acompanhado toda a interação da mãe com as crianças por quase uma hora sem percebermos os sinais de uma mulher violenta? Sim, nós vimos Valentín ferir o rosto na briga com o irmão e também testemunhamos todo o carinho de sua mãe quando os três se encontravam sós – e mesmo quando ele a desafia ou mesmo a chama de “babaca”, a mulher se comporta com firmeza, mas um óbvio carinho. Seria possível que isto ocultasse uma personalidade abusiva?

É justamente por inspirar perguntas como estas que Por sua Culpa se revela tão fascinante: embora jamais esconda qualquer informação do espectador, o filme parece sempre encontrar uma maneira de nos manter em dúvida acerca do que está realmente ocorrendo, tornando-se ainda mais forte em função da forma extremamente verossímil com que desenvolve sua narrativa – em muitos momentos, a impressão que temos é a de estarmos assistindo a imagens captadas por uma câmera escondida em um apartamento qualquer, tamanha a naturalidade com que a atriz Erica Rivas contracena com as crianças. Neste sentido, aliás, a diretora e sua equipe merecem todos os aplausos do mundo por criarem condições para que os pequenos (especialmente Nicasio Galán, que deve ter cerca de dois anos) se mostrem completamente à vontade em cena – e é óbvio que, em determinados instantes, o menorzinho da dupla realmente acreditou estar em um hospital, já que, ao ver uma enfermeira, por exemplo, imediatamente começa a protestar com um “Não, não” antes mesmo que esta se aproxime.

Uma espécie de primo argentino da igualmente maravilhosa obra-prima romena A Morte do Senhor Lazarescu, este A Culpa é Sua propõe uma discussão importante acerca da violência contra crianças, desafiando nossa percepção e surgindo como um projeto fabuloso não só do ponto de vista artístico, mas também social. (5 estrelas em 5)

 

60) Arquitetos do Poder (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Vicente Ferraz e Alessandra Aldé.

Considerando a relevância cada vez maior de discussões acerca da ética na imprensa brasileira e a maneira obscura com que vem se envolvendo de forma pesada nas campanhas de candidatos de uma direita atrasada e reacionária, este Arquitetos do Poder é um documentário que se apresenta atualíssimo justamente ao abordar o círculo vicioso entre os componentes midiáticos e políticos do marketing político que dita as agendas das eleições no país.

Esforçando-se para entrevistar representantes de todas as principais vertentes ideológicas do cenário político atual e também os profissionais de todos os lados do processo, de jornalistas a marqueteiros, o filme traz depoimentos surpreendentemente francos de figuras como José Genoíno, César Maia, Ciro Gomes, Pedro Simon, Duda Mendonça, Cláudio Humberto Rosa e Silva (ex-porta-voz de Collor e que, pasmem, oferece alguns dos melhores insights do longa), Ronald de Carvalho (editor de política da Globo na época da primeira eleição direta), Carlos Henrique Schroder (atual diretor geral de jornalismo da emissora) e Paulo de Tarso (ex-marqueteiro de Lula e atual de Marina), entre outros – incluindo o atual responsável pela campanha de Serra.

Ambicioso ao decidir abordar a lógica das campanhas políticas desde a década de 60, quando Jânio Quadros popularizou o bordão da “vassourinha”, Arquitetos do Poder passa de maneira didática pelas décadas seguintes até se debruçar sobre as eleições de 1989, quando, então, expõe o interesse óbvio de grandes setores da mídia em derrubar Leonel Brizola, que encaravam (movidos pelos interesses das empresas-anunciantes) como a grande ameaça ao capitalismo brasileiro. Sem condições de elevar Mário Covas, o escolhido da elite de então (como expõe o próprio Carvalho, que estava no centro de tudo), a imprensa logo adotou Fernando Collor como o único com apoio popular suficiente para derrotar Brizola e, no segundo turno, Lula – e ninguém menos do que Cláudio Humberto revela as maquinações por trás das pautas do jornalismo global, do Globo Repórter ao Jornal Nacional, que logo passaram a empurrar a candidatura do ex-governador de Alagoas e a vender a idéia do “caçador de marajás” (um conceito inicialmente apresentado ao público pela revista Veja).

Detendo-se nas estratégias das campanhas de Lula e Collor, o filme ainda consegue a proeza de trazer o marqueteiro deste último revelando os bastidores da entrevista com a ex-namorada de Lula e o falso escândalo do aborto – um incêndio que nem mesmo a presença da filha do casal no programa do PT, no dia seguinte, conseguiu apagar. Além disso, os cineastas Vicente Ferraz e Alessandra Aldé ainda incluem o depoimento de um dos editores da Globo naquele período, além de jornalistas que trabalhavam na emissora, escancarando as conversas que moveram os caciques do jornalismo da empresa à manipulação assombrosa que fizeram ao editar o último debate entre os candidatos, levando uma edição mutilada ao ar na véspera da eleição.

O documentário, porém, não se detém aí e segue pelas campanhas de 94, 98, 2002 e 2006, divertindo, por exemplo, ao mostrar a clara mudança na imagem de Lula ao longo dos pleitos, à medida que o atual presidente (que, por questão ética, devo esclarecer contar com toda minha admiração e apoio) ia suavizando seu discurso e mesmo o tom de sua voz a fim de não afastar determinados setores da sociedade. Mais uma vez buscando o equilíbrio, os diretores ainda vão atrás dos marqueteiros do PSDB, que confessam sem reservas a pesada campanha negativa feita contra Ciro Gomes por Serra em 1994 – num tiro que quase saiu pela culatra ao elevar as intenções de voto de Anthony Garotinho, ilustrando de maneira perfeita a complexidade do marketing político.

Trazendo uma série de discussões fascinantes acerca de praticamente todos os pleitos da democracia pós-ditadura, Arquitetos do Poder não só expõe os esforços dos tucanos em tornar ilegal a utilização das imagens feitas durante as famosas “caravanas da cidadania” feitas por Lula antes das eleições de 94 como ainda discute o esforço concentrado de toda a imprensa para estabelecer FHC como o “pai do Real” meses antes das eleições (como alguém explica em certo momento, nenhum Ministro da Fazenda jamais teve seu nome associado a um plano econômico, já que os méritos sempre recaíam nos presidentes em exercício – uma lógica que encontrou sua exceção neste período graças à estratégia da mídia). E se a utilização do escândalo do mensalão durante a campanha de 2006 também ganha espaço no documentário, este também avalia a influência decrescente que grandes conglomerados parecem exercer sobre a população, já que nem mesmo os 18 dias de ataques incessantes feitos pela Globo conseguiram impedir Lula de ser reeleito.

Em certo instante da projeção, Ronald de Carvalho, ex-Globo, afirma com orgulho que a “imprensa é o nervo exposto do povo” – uma afirmação que o próprio filme desmente através de sua discussão básica ao escancarar o jogo de interesses por trás de cada notícia que ganha destaque no Jornal Nacional ou no Jornal da Globo, comprovando que o que a grande imprensa tradicional tenta fazer, na realidade, é expor os nervos que lhe interessam e anestesiar aqueles que vão de encontro aos seus objetivos. E se a campanha de Collor em 89 foi iniciada com a imagem do candidato ao lado de um imenso crucifixo enquanto ele afirmava que iria defender os princípios morais do país – outra idéia fartamente vendida pela imprensa da época -, o paralelo com os acontecimentos mais recentes do pleito 2010 se estabelece ainda mais assustador, já que estamos mais uma vez testemunhando, em pleno século 21, uma campanha reacionária que, novamente impulsionada por Globo, Veja, Folha e Estadão, busca desviar o foco das questões sociais, que prejudicariam o candidato da direita, e centrar o debate na religião, ignorando momentaneamente a importância do Estado laico por perceber que reside aí sua chance de poder voltar a manipular os interesses e o voto do eleitorado.

A sorte é que, como defende Arquitetos do Poder, o povo também aprendeu a ler nas entrelinhas da mídia com o passar do tempo, sendo cada vez mais resistente e impermeável ao jogo de interesses que serve de tema a este excelente e relevante documentário. (5 estrelas em 5)

Festival do Rio – Dia 13

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(Abraços aos ex-alunos Felipe e Pedro e ao leitor Álvaro!)

Rapidamente ao trabalho:

51) Turnê (Tournée, França, 2010). Dirigido por Mathieu Amalric. Com: Mathieu Amalric, Miranda Colclasure, Suzanne Ramsey, Dirty Martini, Julie Atlas Muz, Angela de Lorenzo, Alexander Craven, Ulysse Klotz, Simon Roth, Joseph Roth.

Ator talentosíssimo que ganhou justo destaque internacional nos últimos anos, o francês Mathieu Amalric (Reis e Rainha, O Escafandro e a Borboleta, Um Conto de Natal) volta para trás das câmeras depois de nove anos afastado da função de diretor e comprova que a experiência adquirida neste período ajudou a transformá-lo não só num cineasta com personalidade, mas também seguro tecnicamente – a ponto de levá-lo a vencer o prêmio de Melhor Direção no último festival de Cannes (o que pode ter sido um certo exagero, já que competia com figuras como Abbas Kiarostami, mas não algo essencialmente injusto).

Cercando-se de um elenco composto em sua maior parte por atores não profissionais que aqui estréiam no Cinema supostamente interpretando versões estilizadas de si mesmos, Amalric constrói, em Turnê, uma história envolvente sobre a importância da família – seja esta de que tipo for. Escrito a oito mãos, o roteiro acompanha o empresário Joachim Zand (Amalric), que, ex-produtor televisivo de sucesso, abandonou a França em função de brigas e processos judiciais. Depois de passar algum tempo nos Estados Unidos, ele retorna ao próprio país acompanhado por uma trupe de dançarinas burlescas e, ao descobrir que o teatro que conseguira em Paris cancelou o compromisso, é obrigado a tentar resgatar algumas relações antigas a fim de alugar um novo espaço.

Mas talvez o resumo apresentado no parágrafo anterior não faça jus a Turnê, já que o filme, em vez de se concentrar em uma trama específica, preocupa-se muito mais em ilustrar o dia-a-dia daquelas pessoas e, principalmente, a dinâmica de seus relacionamentos. Rindo, flertando ou brigando, elas rapidamente levam o espectador a ignorar suas aparências caricatas e a perceber a complexidade de suas personalidades – algo que se deve não só à direção, mas também às belas atuações: Amalric, por exemplo, cria um mundo de significados através da insistência de Joachim em pedir que o som ambiente dos lugares nos quais se encontra seja desligado e ao se ver sempre obrigado a remover os plásticos dos automóveis e teatros que aluga, salientando sua falta de raízes. Enquanto isso, a pin-up Miranda Colclasure (ou melhor: Mimi Le Meaux) revela uma força dramática surpreendente ao retratar a angústia constante de uma mulher cujo sorriso mais aberto surge apenas sobre os palcos. Sugerindo os passados problemáticos de seus personagens sem sentir a necessidade de exposições artificiais, o filme é hábil também ao levar o público a se importar com aqueles indivíduos mesmo que não saibamos exatamente do que estão fugindo ou o que buscam alcançar.

Para completar, o diretor exibe um cuidado importante ao retratar as performances das dançarinas, que se estabelecem sempre interessantes e surpreendentes, conferindo uma autenticidade importante à narrativa – que também encontra tempo, diga-se de passagem, para pequenas e magníficas cenas como aquela em que Joachim flerta com a caixa de um posto de um gasolina, num momento extremamente humano e tocante.

Tão talento por trás das câmeras quanto diante destas, Amalric se estabelece cada vez mais como um dos nomes mais importantes do cinema francês – e Turnê é apenas a coroação de uma trajetória merecedora de infinitos aplausos. (5 estrelas em 5)

 

52) My Lai – O Massacre (My Lai, EUA, 2010). Dirigido por Barak Goodman.

Durante os treinamentos de seu pelotão antes do embarque para o Vietnã, o capitão Ernest Medina decidiu que deveria batizar sua equipe com o nome de “Mercadores da Morte” – e, não satisfeito, insistiu para que todos carregassem sempre um baralho composto apenas pelo ás de espadas. O propósito era deixar a carta ao lado dos corpos dos vietcongues que matassem com o objetivo de assinar o feito. Em outras palavras, Medina estava criando, sob o patrocínio dos militares e do governo norte-americano, um exército de serial killers.

E foi extremamente bem-sucedido na tarefa. Lutando em uma guerra já absurda em sua concepção, o pelotão comandado pelo sujeito logo se notabilizou por atravessar vilas inteiras dizimando e carbonizando tudo o que encontravam à frente (infelizmente, esta era uma prática comum a boa parte dos pelotões norte-americanos) – mas foi somente ao ser destacada para atacar um vilarejo em My Lai que a equipe de Medina revelou seu verdadeiro talento. Em apenas poucas horas de atuação, os homens comandados pelo sujeito deixaram para trás um rastro de nada menos do que 507 corpos de civis.

Em sua maioria idosos, mulheres e crianças.

Dirigido por Barak Goodman, este documentário traz imagens de arquivos, fotos, cartas e entrevistas com alguns sobreviventes enquanto busca explicar o inexplicável: o que levaria um grupo de jovens norte-americanos a adotar uma postura genocida – e por que apenas alguns pouquíssimos indivíduos se colocaram diante daquela matança (entre eles, o heróico piloto de helicóptero Hugh Thompson, que pousou entre os militares assassinos e algumas vítimas em potencial, resgatando-as enquanto ameaçava atirar nos próprios companheiros).

Concentrando-se também no processo público que se seguiu à revelação do massacre depois que o fotógrafo Ronald Haeberle divulgou as imagens registradas na ocasião, My Lai choca ao revelar como o primeiro militar julgado pelos crimes, o tenente William Calley, foi condenado apenas para inspirar uma verdadeira revolta por parte da opinião pública norte-americana, que o enxergou apenas como um bode expiatório, passando a exigir sua libertação – algo que Nixon logo atendeu, praticamente garantindo que nenhum outro assassino fosse condenado pelo massacre. Com isso, o documentário consegue trazer entrevistas com vários dos envolvidos naquela barbárie – alguns dos quais manifestam um remorso colossal que, segundo eles, é um tormento constante.

E embora esta seja uma punição mínima, espero mesmo que se torturem intensamente até o fim de suas vidas. (4 estrelas em 5)

 

53) Adrienn Pál (Pál Adrienn, Hungria, 2010). Dirigido por Ágnes Kocsis. Com: Éva Gábor, István Znamenák, Ákos Horváth, Lia Pokorny, Izabella Hegyi.

Com intermináveis 136 minutos de duração, o húngaro Adrienn Pál parece acreditar que a melhor forma de ilustrar a rotina sem vida e entediante de sua protagonista é torturando o espectador com uma narrativa igualmente morta e aborrecida. Neste sentido, a cineasta Ágnes Kocsis  cumpre com eficiência seu objetivo. Infelizmente.

Protagonizado por uma Éva Gábor que praticamente passa toda a projeção se entupindo de comida, Adrienn Pál acompanha a personagem em sua busca pela moça do título, que foi sua melhor amiga na infância. Obviamente usando esta jornada como uma representação dos sonhos frustrados de Piroska (Gábor), o roteiro co-escrito por Kocsis e Andrea Roberti retrata o cotidiano da mulher como um pesadelo de rotina e inadequação. Pressionada pelo marido a perder peso, ela altera a quilometragem da bicicleta ergométrica diariamente antes de sair para o trabalho, que, como enfermeira da ala de terminais, consiste em trocar as fraldas e soros dos pacientes enquanto aguarda que estes morram – o que basicamente simboliza a maneira com que ela própria leva a vida.

Assim, é natural que a garota eventualmente se prenda ao passado para fugir de seu presente pavoroso – e quando uma ex-colega confessa casualmente ter sido a autora de uma carta anônima que a magoou quando criança, Piroska parece não compreender como a outra pode tratar do assunto de forma tão inconseqüente, já que, para ela, aquilo se mantém tão grave quanto na época em que ocorreu. Da mesma maneira, é curioso que a busca da protagonista constantemente inspire lembranças contraditórias nos demais personagens, comprovando que um dos motivos pelos quais ela valoriza tanto sua infância reside na oportunidade que tem de recriá-lo de acordo com suas próprias necessidades emocionais.

Investindo em quadros que apostam num equilíbrio constante e em longos e intermináveis planos (sempre, repito, com o objetivo de evocar o tédio daquela vida sem propósito), Kocsis claramente erra a mão, sabotando, com isso, o próprio projeto. É importante estabelecer uma atmosfera que faça jus à narrativa, claro, mas igualmente importante é evitar que o público entre em coma durante a projeção. (2 estrelas em 5)

 

54) Sonhos no Lixo (Garbage Dreams, Egito, 2009). Dirigido por Mai Iskander.

Uma das conseqüências mágicas do cinema documental é apresentar ao espectador culturas e realidades radicalmente diferentes daquela por ele ocupada em seu cotidiano. Além disso, usar a arte como protesto político ou para chamar a atenção do público para injustiças sociais é algo sempre digno de aplausos, já que o alcance do cinema é inquestionável. Pois Sonhos no Lixo, embora não seja um grande filme, merece créditos por cumprir todas as funções descritas anteriormente.

Comandado por Mai Iskander, o longa explica, já em sua introdução, algo inacreditável: até pouquíssimo tempo atrás, o Cairo, maior cidade da África, não contava com um sistema de coleta de lixo. Para cumprir esta função, surgiram os zamballeen (no árabe, “pessoas do lixo”), uma verdadeira comunidade dedicada a recolher e a reciclar o lixo produzido pela população da capital do Egito. Habitando um bairro cujas ruas e prédios são completamente tomados pelos restos do consumo da sociedade, aquelas pessoas fizeram do lixo um modo de vida ao longo das décadas – até que o governo resolveu contratar grandes empresas estrangeiras para assumir a tarefa, levando uma imensa parcela de sua população a uma crise colossal.

Ilustrando com eficiência o modo de vida dos zamballeen, que chegam a fundar uma Escola de Reciclagem a fim de formar as novas gerações de coletores e recicladores de lixo, o filme confere um rosto aos dramas daquele mundo ao acompanhar especificamente a trajetória de três personagens adolescentes: Adham, que sonha em se mudar para o exterior desde que fez uma breve viagem para estudar a reciclagem no País de Gales; Nabil, cuja maior preocupação é conseguir terminar seu apartamento para poder se casar; e Osama, visto por todos como um eterno perdedor que não consegue se manter em qualquer emprego. Rodado ao longo de quatro anos, Sonhos no Lixo é burocrático em sua execução e falha por não explorar com mais cuidado as repercussões provocadas naquele mundo pela entrada das empresas estrangeiras (muitos discutem o assunto, mas pouco é realmente mostrado pelo longa) – mas, ainda assim, é bem-sucedido em seu principal objetivo: apresentar os zamballeen para o mundo e expor o dilema – aparentemente sem solução – que ameaça seu modo de vida. (3 estrelas em 5)

 

55) Dois Irmãos (Dos hermanos, Argentina, 2010). Dirigido por Daniel Burman. Com: Antonio Gasalla, Graciela Borges, Elena Lucena, Rita Cortese, Omar Núñez.

O humor do cinema argentino, doce e construído a partir da interação e da própria humanidade de seus personagens, é algo que se faz presente e fundamental ao longo de Dois Irmãos, novo e eficiente trabalho do cineasta Daniel Burman, que, inspirado em livro de Diego Dubcovsky, cria um filme tão divertido e tocante quanto seus ótimos trabalhos anteriores, Ninho Vazio e As Leis de Família.

Estrelado por uma dupla de atores veteranos que exibem uma química admirável em cena, o longa acompanha Marcos (Gasalla) e Susana (Borges), dois irmãos de meia-idade com personalidades radicalmente diferentes. Depois de dedicar a vida a cuidar da mãe, Marcos se vê perdido e solitário depois que esta morre e, como se não bastasse, sua irmã o obriga a se mudar de Buenos Aires para uma pequena cidade no Uruguai a fim de poder vender o apartamento que ele ocupava e se livrar, assim, de uma dívida. Egocêntrica a ponto de tentar convencer os participantes de uma reunião de condomínio que o assunto “mais importante” da pauta era o barulho que a incomodava no apartamento vizinho, Susana é também uma picareta que vive de negociatas imobiliárias e que distribui cartões profissionais que a apresentam como especialista em funções que variam de empresária gastronômica a marchand.

Encarnada com vivacidade por Graciela Borges, Susana é o tipo de criatura que insiste em dizer nome e sobrenome sempre que se apresenta, como se acreditasse fazer parte de alguma linha nobre que merece reconhecimento imediato, e que, embora aja motivada apenas pelo egoísmo e por seus próprios interesses, busca sempre convencer seus interlocutores de que está tomando suas atitudes movida pelo altruísmo e pela imensa bondade em seu coração (algo no qual ela parece acreditar, o que é revelador). Enquanto isso, Marcos é um homem doce que, mesmo reconhecendo as falhas da irmã, insiste em defendê-la mais por hábito do que por acreditar que ela precise de ajuda – e é a partir dos conflitos constantes entre os dois que Burman constrói sua narrativa de forma sutil e sempre se concentrando não na trama, mas na simples interação de seus talentosos atores.

Com isso, passamos a conhecer os irmãos com mais profundidade e compreendemos, por exemplo, que a insistência de Susana em diminuir o irmão é conseqüência não de falta de amor ou de um impulso maldoso, mas sim de sua própria insegurança – e, assim, ao pintar o retrato de um Marcos fracassado e deprimido, ela, por contraste, acaba se sobressaindo diante da família e – mais importante – de si mesma. Exagerando nas roupas e nas perucas, Susana tampouco aceita o próprio envelhecimento e a solidão, algo que o rosto claramente plastificado de sua intérprete ajuda a ilustrar de maneira impecável. Por outro lado, Marcos mantém uma dignidade admirável mesmo diante das maiores ofensas proferidas por sua irmã – e a performance de Antonio Gasalla merece aplausos também em função da delicadeza com que o ator aborda a homossexualidade do personagem, que, ainda que jamais escancarada, torna-se óbvia a partir de seus olhares e de um ou outro maneirismo sutil.

Com uma narrativa dinâmica que nem por isso deixa de se deter em vários momentos em planos que se contentam em observar aqueles personagens enquanto apreciam uma paisagem ou a presença um do outro, Dois Irmãos é uma obra que extrai humor do prosaico e que, por isso mesmo, é profundamente tocante em sua inquestionável humanidade. (4 estrelas em 5)