Novos filmes

Festival do Rio – Dia 12

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos | 11 comentários

O abraço de hoje vai para o ex-aluno Vitor, que encontrei na sessão de Adrienn Pál.

E embora eu continue atrasado na cobertura (faltam as críticas de Turnê, Adrienn Pál, Sonhos no Lixo e My Lai – O Massacre), creio que conseguirei me colocar em dia já no próximo post. Dito isso…

47) Somewhere  (Idem, EUA, 2010). Dirigido por Sofia Coppola. Com: Stephen Dorff, Elle Fanning, Michelle Monaghan, Chris Pontius, Ellie Kemper.

Sofia Coppola é um filhote de Hollywood. Nascida e criada entre atores, diretores e técnicos de cinema, é perfeitamente natural que se sinta mais à vontade ao abordar histórias e personagens que girem em torno daquele universo que lhe é tão familiar – e não é à toa, portanto, que seu melhor filme até hoje, Encontros e Desencontros, gire em torno do isolamento emocional de um astro em visita ao Japão. Aliás, este seu novo longa, Somewhere, é essencialmente um irmão de alma daquele trabalho e, mesmo que não chegue a alcançar a complexidade do parente mais velho, é uma produção delicada e sensível que traz Coppola mais uma vez em um bom momento depois do pavoroso Maria Antonieta.

Resgatando Stephen Dorff do limbo no qual se encontra há alguns anos ao trazê-lo novamente como protagonista em um projeto de peso, Somewhere acompanha o cotidiano de Johnny Marco (Dorff), um astro do gênero ação que leva uma existência absurda (supostamente como todos os companheiros de profissão, sugere o filme): guiado constantemente por assistentes, ele vai de um lugar a outro de acordo com o que lhe ordenam, viajando para a Itália para promover um novo projeto ou se submetendo a uma pesada sessão de maquiagem sem questionar a agenda que lhe é imposta – numa postura infantilizada que reflete sua personalidade imatura. Fumando, bebendo, dormindo mal e se alimentando de forma descuidada, Marco parece de fato um adolescente sem supervisão, parecendo incapaz de cuidar de si mesmo – e é natural, portanto, que ao perceber que o pneu de seu carro furou, ele simplesmente ligue para o reboque e aguarde, submisso e incapaz, até que alguém venha ajudá-lo.

Por um lado, não é fácil ter pena ou simpatia pelo sujeito: encarnando o estereótipo do “pobre menino rico”, Johnny Marco leva uma vida privilegiada. E daí que, ao chegar em casa, ele descobre que seu apartamento encontra-se repleto de convidados que ali acamparam para uma festa não em função de sua presença, mas apesar desta? E daí que é tratado como uma criança por todos, sendo recompensado com afagos e elogios apenas por posar para fotos ou comparecer a um compromisso profissional? E daí que ele não precisa se esforçar nem mesmo para encontrar parceiras sexuais, já que as mulheres se oferecem a ele sem qualquer relutância? Sim, é uma vida inquestionavelmente vazia e sem propósito (o que fica especialmente claro quando ele assiste a um programa de tevê sobre Gandhi), mas não deixa de ser fruto de suas próprias escolhas e, assim, não é como se estivéssemos acompanhando as atribulações de um mendigo ou de um paciente terminal.

E justamente por isso é tão notável que Coppola consiga levar o espectador a se identificar com o sujeito. Sempre sozinho – mesmo quando cercado por uma multidão – e monossilábico, Marco pode ter a admiração daqueles que o observam de longe, como as fãs que elogiam sua aparência, mas, com uma ou outra exceção, é visto com desprezo e raiva por aqueles que realmente o conhecem (como atestam as mensagens agressivas que ele recebe pelo celular ou a recusa de sua ex-esposa de visitá-lo num momento de particular vulnerabilidade). Ainda assim – ou justamente por isso -, o ator parece sempre disposto a estabelecer novas relações de natureza superficial, como no instante em que recebe o sorriso de uma garota no trânsito e sai de seu caminho para segui-la até em casa – um desvio absurdo que a cineasta ilustra com competência em uma longa seqüência.

Coppola, aliás, demonstra uma sensibilidade admirável na condução da narrativa ao usar longos planos (uma tendência cada vez mais óbvia no cinema fora de Hollywood, diga-se de passagem) para estabelecer o cotidiano vazio de seu protagonista. Além disso, ela é hábil ao estabelecer paralelos relevantes, por exemplo, ao trazer Marco admirando duas strippers em seu quarto e, pouco depois, observando a filha (Fanning) patinar no gelo: concebidas de maneira similar em sua lógica, as duas cenas servem para contrastar a postura do sujeito diante de relacionamentos radicalmente diferentes, mas que, de uma maneira ou de outra, são constantes em sua vida. Para completar, Coppola cria um quadro belíssimo que, de certa forma, sintetiza o filme ao retratar o astro flutuando sem controle ou propósito na bela piscina de seu hotel, num instante poético e dramaticamente relevante.

Curioso por revelar a visão crítica que a diretora tem da imprensa (e não injustamente, já que a entrevista coletiva envolvendo o ator, infelizmente, reflete com precisão a dinâmica real destes eventos), Somewhere freqüentemente desenvolve suas idéias de maneira silenciosa, confiando na sensibilidade do espectador para perceber as intenções temáticas da narrativa. Reparem, por exemplo, o belíssimo plano que traz Marco e a filha deitados sob o sol, felizes e tranqüilos, e percebam como, ao abrir o quadro revelando que se encontram na piscina do hotel, Coppola comenta a superficialidade daquela comunhão, já que, embora felizes, pai e filha continuam a experimentar uma intimidade compartilhada com estranhos. Da mesma forma, é interessante perceber como a cineasta usa as brincadeiras da dupla sob a água para criar uma das únicas seqüências realmente leves e alegres da projeção, num simbolismo de purificação claro e apropriado.

Usando a profissão de Johnny Marco como uma metáfora de seu vazio interior (afinal, ele salta de um personagem a outro exatamente como, em seu dia a dia, salta entre relacionamentos igualmente descartáveis), o filme de Sofia Coppola é melancólico como Encontros e Desencontros, mas peca – ao contrário daquele – em seu desfecho bobo e infantil que pode até funcionar do ponto de vista simbólico, mas, na prática, soa tão tolo quanto a decisão de um adolescente de queimar dinheiro para provar seu desapego material.

Mas este é um tropeço menor se comparado à eficácia do restante da bela narrativa criada por uma diretora que, por sua própria experiência pessoal, certamente sabe bem do que está falando. (4 estrelas em 5).

 

48) Abutres (Carancho, Argentina, 2010). Dirigido por Pablo Trapero. Com: Ricardo Darín, Martina Gusman, Carlos Weber, José Luis Arias, Loren Acuña, Gabriel Almirón.

Dono de uma filmografia curta, mas admirável, o cineasta argentino Pablo Trapero vem se especializando, em seus últimos projetos, em narrativas centradas em personagens moralmente ambíguos que praticamente desafiam o espectador a apreciá-los apesar de suas falhas óbvias de caráter. Além disso, através de seus fascinantes planos-seqüência (vide a introdução de Nascido e Criado ou o passeio pela penitenciária de Leonera), Trapero exibe um virtuosismo técnico que já leva o público a antecipar momentos de tirar o fôlego através da movimentação de sua câmera.

E em Abutres, o diretor não desaponta em nenhum destes aspectos: centrado no advogado Sosa (Darín, um dos melhores atores contemporâneos), o roteiro acompanha o cotidiano de um sujeito que vive da miséria alheia. Funcionário de um escritório especializado em indenizações por acidentes, ele é uma destas criaturas que correm atrás de ambulâncias para tentar transformar indivíduos que acabaram de se acidentar em clientes, possuindo até mesmo um rádio-comunicador em seu carro para que possa ouvir os chamados de emergência da cidade. Certa noite, em uma destas saídas, ele conhece a paramédica Luján (Gusman, esposa de Trapero e figura recorrente em sua filmografia), que tenta encontrar algum alívio diante de sua estressante profissão ao se dopar com anestésicos. Encantado pela moça, Sosa resolve mudar sua vida, mas passa a ser pressionado pelo chefe, já que, na realidade, o tal escritório é um centro de fraudes e de extorsão.

Com um olhar notável para os detalhes do universo de seus personagens, Trapero concebe várias seqüências que ilustram o cotidiano de Sosa e Luján com economia e verossimilhança, desde as conversas do primeiro com vários clientes em potencial até as dificuldades da segunda em convencer que um pronto-socorro aceite o paciente acidentado que ela acabou de socorrer. Da mesma maneira, o design de produção é impecável ao conceber o escritório triste, decadente e amontoado ocupado por Sosa e também ao ilustrar os espaços frios, opressivos e deixados sem cor pelas onipresentes lâmpadas fosforescentes do hospital no qual Luján atua.

E mais: ao optar por ilustrar de forma gráfica não só a violência, mas também a ação dos médicos em seu dia-a-dia, o cineasta expõe de maneira visceral a dor e o sofrimento daquelas pessoas, além de evocar com clareza o caos e a pressão que cercam a dupla central. Esta abordagem, porém, acaba sendo gradualmente substituída por um olhar mais doce e contemplativo a partir do instante em que Sosa e Luján encontram, um no outro, uma válvula de escape para todo aquele sofrimento, quando, então, Trapero passa a adotar planos mais fechados que refletem a proximidade física e emocional dos dois personagens.

Incluindo também os memoráveis planos-seqüência (ou mesmo planos simplesmente longos) que já se tornaram sua marca registrada, o diretor demonstra sua inteligência ao não empregá-los de forma gratuita, mas sim de maneira orgânica para criar tensão ou para surpreender – e merecem destaque aqueles que retratam uma colisão entre uma caminhonete e um carro e, claro, aquele que encerra a narrativa e que praticamente leva o espectador a um ataque cardíaco.

Beneficiado por duas atuações sensíveis e viscerais de Darín e Gusman, Abutres confirma a força do cinema de Pablo Trapero e sua posição inquestionável entre os melhores diretores da atualidade. (5 estrelas em 5)

 

49) La Nostra Vita (Idem, Itália, 2010). Dirigido por Daniele Luchetti. Com: Elio Germano, Raoul Bova, Isabella Ragonese, Luca Zingaretti, Stefania Montorsi, Alina Berzunteanu, Marius Ignat.

Claudio (Germano) leva uma vida abençoada: mesmo que tenha alguma dificuldade financeira (e quem não tem?), ele tem dois filhos adoráveis e uma esposa que, bela e alegre, não apenas é uma companheira magnífica como ainda se encontra grávida do terceiro bebê do casal. Assim, quando ela morre durante o parto, o sujeito entra em crise e decide compensar as três crianças pela falta da mãe através da segurança econômica – e, para isso, convence seu chefe a colocá-lo à frente da construção de um edifício, o que implica num pesado investimento que, infelizmente, logo se revela precário.

Levando o espectador a sentir a perda de Claudio de maneira intensa ao investir todo o primeiro ato na tarefa de estabelecer a dinâmica alegre da família do protagonista, o diretor Daniele Luchetti se sai particularmente bem ao retratar o companheirismo entre aquelas pessoas, criando um núcleo de personagens que inspiram o público a desejar que aqueles indivíduos alcancem o que procuram. Justamente por isso, aliás, a performance do elenco se revela fundamental para que a abordagem do cineasta seja bem-sucedida – e, neste sentido, Elio Germano, como Claudio, merece destaque por construir um indivíduo que, alegre e brincalhão, finalmente se descobre incapaz de lidar com o próprio luto, buscando maneiras superficiais de anestesiar os filhos e a si mesmo (como, por exemplo, ao comprar tudo que as crianças desejam para alegrá-las, tratando os sintomas, mas não a causa do problema).

Merecendo elogios também por retratar a xenofobia e o racismo velados (ou escancarados) que imperam na sociedade italiana, La Nostra Vita acaba, no entanto, soando formulaico e clichê em vários momentos, sendo prejudicado ainda por uma trilha sonora cafona e novelesca que ressalta a artificialidade de várias passagens.

Nada que o carisma do protagonista e daqueles que o cercam não consiga minimizar, porém. (3 estrelas em 5)

 

50) Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. the World, EUA, 2010). Dirigido por Edgar Wright. Com: Michael Cera, Mary Elizabeth Winstead, Alison Pill, Mark Webber, Johnny Simmons, Ellen Wong, Kieran Culkin, Anna Kendrick, Satya Bhabha, Chris Evans, Don McKellar, Brie Larson, Brandon Routh, Jason Schwartzman, Thomas Jane, Clifton Collins Jr.

Scott Pilgrim Contra o Mundo é um filme que exibe uma energia contagiante desde o primeiro segundo de projeção. Inspirado em uma graphic novel (que não li) de Bryan Lee O’Malley, o longa adota uma dinâmica visual que freqüentemente remete ao vanguardismo não reconhecido do Speed Racer dos irmãos Wachowski ao mesmo tempo em que se estabelece como uma obra com atmosfera original e estimulante. Mas, mais do que isso, Scott Pilgrim talvez faça jus ao título de melhor “filme de videogame” já produzido por Hollywood, mesmo que, a rigor, sua origem esteja nos quadrinhos e não nos consoles.

Dirigido pelo britânico Edgar Wright a partir do roteiro que escreveu ao lado de Michael Bacall, o projeto traz Michael Cera vivendo seu habitual tipo nerd fracote/inseguro, mas com uma diferença importante: aparentemente, apesar da voz trêmula e do jeito frágil, Scott Pilgrim (Cera) é um conquistador nato, mesmo que recentemente encontre-se abalado pelo término de uma relação. Baixista de uma banda de garagem, ele acaba se interessando por uma garota nova na cidade, Ramona Flowers (Winstead), convencendo-a a aceitar um encontro. O que Pilgrim não sabe, no entanto, é que a moça tem sete “ex-namorados do mal” e que, para continuar o namoro, ele terá que derrotar todos eles.

Adotando uma abordagem narrativa complexa e curiosa, Wright (responsável pelos excelentes Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso) faz uma opção brilhante ao retratar a ambientação daquele universo (leia-se: Toronto, no Canadá) de forma realista e relativamente deprimente apenas para, em seguida, povoá-lo com personagens de natureza fantástica e muitas vezes caricatural. Se por um lado as ruas da cidade surgem tristes e cobertas pela neve, por outro o cineasta introduz grafismos como cartões que resumem as características dos personagens ou letreiros que salientam certos sons através de onomatopéias que tomam conta da tela, criando, assim, uma lógica inesperada e repleta de contrastes. Da mesma maneira, as telas divididas e as legendas que indicam passagem do tempo ou a mudança do cenário remetem diretamente aos quadrinhos, estabelecendo um conflito ainda maior – e mais eficaz – com os demais elementos narrativos.

Com uma montagem ágil que emprega os raccords não só para manter o dinamismo da história, mas também para criar gags constantes (os montadores Paul Machliss e Jonathan Amos só não serão indicados ao Oscar caso a Academia enlouqueça), Scott Pilgrim freqüentemente surpreende o público através de cortes inesperados – como, por exemplo, ao enfocar uma troca de olhares entre vários personagens que acaba culminando no personagem de Kieran Culkin (excelente) encarando o namorado de uma amiga ou ao trazer o personagem-título se vestindo para uma batalha, numa série de planos rápidos, apenas para interromper tudo quando ele se detém em amarrar os sapatos. (E o que dizer da piada recorrente que envolve a menção ao corte de cabelo de Pilgrim?)

Fotografado com competência pelo veterano Bill Pope, que oscila brilhantemente entre as externas sem vida (como o plano belíssimo de um balanço na neve que remete ao preto-e-branco) e as internas coloridíssimas concebidas pela direção de arte, o filme estabelece um universo fantástico habitado por pessoas que, aparentemente, não têm consciência de que são personagens de um videogame que flerta com linguagens tão díspares quanto um musical de Bollywood ou uma sitcom clássica (a referência a Seinfeld é fabulosa). Calcado também na metalinguagem, Scott Pilgrim constantemente surpreende quando percebemos que seus personagens reconhecem as mesmas intervenções narrativas que percebemos, como, por exemplo, no momento em que a tarja preta que cobre os lábios de uma personagem que insiste em dizer palavrões é vista por Pilgrim, que não manifesta qualquer espanto diante daquilo.

Oferecendo uma visão interessante sobre a obsessão que muitos manifestam com relação ao passado romântico de seus parceiros, o filme é basicamente uma fantasia adolescente de um indivíduo que quer se estabelecer como macho-alfa diante de uma garota que já teve vários parceiros – uma temática que, apesar de já abordada à exaustão pelo cinema (especialmente através de comédias românticas), aqui ganha uma interpretação moderna e fascinante.

Além disso, como não admirar um filme que traz, em seu clímax, um conflito entre o Bem e o Mal representados por figuras que surgem longe da virilidade impossível de Stallone ou Statham, ganhando, em vez disso, os rostos – e os corpos pálido e frágeis – de Michael Cera e Jason Schwartzman?

Scott Pilgrim Contra o Mundo é, em suma, uma surpreendente, divertida e adorável fantasia nerd. (5 estrelas em 5)

Festival do Rio – Dia 11 – Exaustão

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos | 9 comentários

Pela primeira vez desde o início do festival não conseguirei publicar textos sobre todos os filmes vistos. Levarei o notebook comigo durante o dia para tentar escrever as críticas restantes entre as sessões, mas agora preciso dormir. Acho que cheguei ao meu limite depois de passar 11 dias dormindo apenas 4 ou 5 horas por noite. Até agora, foram 50 filmes – e escrevi sobre 46.

Quero deixar um abraço grande ao cineasta Paulo Henrique Fontenelle, que muito gentilmente me abordou antes da última sessão do dia para dizer que ele e a esposa acompanhavam e apreciavam meus textos há anos. O elogio se tornou ainda mais especial considerando que ele dirigiu um longa que considerei um de meus favoritos na Mostra de São Paulo de 2008, Loki – Arnaldo Baptista.

Bom… hoje publico texto sobre apenas um filme:

46) Andrés Não Quer Dormir a Sesta (Andrés no quiere dormir la siesta, Argentina, 2009). Dirigido por Daniel Bustamante. Com: Norma Aleandro, Conrado Valenzuela, Fabio Aste, Juan Manuel Tenuta, Marcelo Melingo, Celina Font, Ezequiel Diaz.

O que dizer de um filme que começa como O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias e termina como A Profecia? Se o diretor Daniel Bustamante tinha a intenção, com este projeto, de criar uma obra esquizofrênica e moralmente ambígua (para usar um eufemismo), conseguiu; mas se pretendia criar um conto de moralidade que usa a ditadura argentina como pano de fundo para ilustrar a perda da inocência de uma criança (e, não sei, isso me parece mais plausível), fracassou gloriosamente.

Se sugere um tom lúdico já em seus créditos iniciais por apresentá-los com pequenas bolhas de sabão, o cineasta, trabalhando a partir de seu próprio roteiro, dá prosseguimento à abordagem ao enfocar o universo do protagonista, o pequeno Andrés (Valenzuela), que passa os dias brincando com os amigos sem aparentemente sequer se dar conta de que o país vive sob uma ditadura e que sua mãe (Font), recém-separada de seu pai, parece estar se envolvendo com a revolução através de seu namorado Alfredo (Diaz). Quando ela morre num acidente, porém, Andrés e seu irmão adolescente vão viver com o pai (Aste) e a avó (Aleandro), tendo que se adaptar ao jeito mais bruto do sujeito.

Sem trazer jamais um pingo de sutileza à narrativa, o cineasta carrega no melodrama quase desde o princípio da projeção, abusando da trilha sonora chorosa e de caracterizações exageradas (ao limpar o armário da cunhada, que acabara de morrer, uma personagem diz: “Já peguei o que me interessava!”, sugerindo que todo o resto poderia ser queimado sem problema). Para piorar, em vários instantes, Bustamante parece não saber exatamente o que pretende dizer – ou, se sabe, demonstra incapacidade de fazê-lo: observem, por exemplo, a cena em que Andrés manifesta insatisfação com o café-da-manhã enquanto recebe olhares impacientes do pai e os mimos da avó, e notarão que o diretor e seu montador Rafael Menéndez trazem planos recorrentes que enfocam a reação do irmão do protagonista – mas se esta reação é de enfado, frustração, ciúmes ou preocupação é algo que jamais conseguimos decifrar.

Mas talvez o maior problema do filme diga respeito aos personagens que o povam – e não há uma única figura neste longa (com exceção da mãe dos garotos, que logo morre) que desperte nosso interesse e simpatia. De uma forma ou de outra, todos os integrantes da família aqui retratada são dissimulados, agressivos ou cruéis – e se uma bomba explodisse naquela casa, os espectadores provavelmente comemorariam. Sim, as intenções de Bustamante são claras: a trajetória de Andrés representa a perda da inocência (algo simbolizado também pela imagem recorrente de bolhas estourando), mas assim que o menino passa a se identificar com os militares, usando até mesmo o isqueiro (leia-se: a arma) que recebeu de presente de um torturador, o filme perde de vez o único elemento que nos prendia – ainda que fragilmente – à narrativa, afundando irremediavelmente em sua abordagem imbecil. (1 estrela em 5)

Festival do Rio – Dia 10

postado em by Pablo Villaça em Novos filmes, Premiações e eventos | 9 comentários

Forte abraço ao ex-aluno Marcelo Manoel, que estava trabalhando na seção eleitoral que visitei no Rio.

Mas vamos ao trabalho:

42) Ride Rise Roar – David Byrne em concerto (Ride, Rise, Roar, EUA, 2010). Dirigido por Hillman Curtis. Com: David Byrne.

Uma espécie de This is It com cem milhões de dólares a menos e um músico competente, mas que empalidece diante do gênio performático de Michael Jackson, Ride Rise Roar é um documentário que acompanha a concepção e os preparativos do show protagonizado por David Byrne a partir de sua parceria com Brian Eno. Burocrático e parecendo mais um making of concebido para o DVD do espetáculo do que um documentário independente, o filme se mostra convencional já em sua abordagem básica ao trazer entrevistas e ensaios em preto-e-branco e reservar as cores para trechos da apresentação de Byrne durante a turnê.

Mantendo a platéia invisível durante a maior parte do tempo, o longa parece fascinado com o conceito do show de combinar dança moderna com as canções, como se isto fosse um grande achado de Byrne – que, de fato, merece créditos pelo desapego ao dividir igualmente o palco com os dançarinos e os músicos, já que jamais busca se destacar do restante do grupo, usando figurinos idênticos aos dos demais e executando os mesmos passos (mesmo que desajeitadamente, já que em certo ponto parece estar imitando o número dos “pés felizes” que Steve Martin fazia na década de 70).

Carregando na atmosfera new age, o show, porém, acaba soando frio e apagado no filme, o que acaba transformando a empreitada, claramente concebida como uma celebração do espetáculo, em um óbvio fracasso. (2 estrelas em 5)

 

43) Ano Bissexto (Año Bisiesto, México, 2010). Dirigido por Michael Rowe. Com: Mónica del Carmen, Gustavo Sánchez Parra, Marco Zapata.

Algo muito curioso ocorreu durante a sessão de Ano Bissexto no Festival do Rio: depois de prender a atenção do público que se encontrava na sala por quase toda a projeção, já que ninguém abandonou o local mesmo com várias seqüências de sexo quase explícito ocorrendo na tela, subitamente o longa, a apenas dez minutos do final, provocou uma clara debandada da platéia, levando várias pessoas a deixarem o cinema às pressas, como se estivessem fugindo dali. Talvez isto possa soar como um atestado de que o longa que rendeu a Câmera de Ouro ao diretor Michael Rowe falhou, mas o fato é que, ao contrário, a fuga daqueles espectadores serviu apenas para comprovar a força da narrativa, já que ocorreu como fruto de um óbvio receio que eles sentiram de testemunhar algo desagradável vitimando a protagonista – e bastou o filme acabar para que uma garota que havia saído da sala se aproximasse de mim a fim de perguntar o que havia acontecido.

Estrelado pela desconhecida atriz mexicana Monica del Carmen (que teve um pequeno papel em Babel), Ano Bissexto acompanha um mês na vida da jornalista Laura, que, morando sozinha na cidade grande, passa os dias fazendo entrevistas pelo telefone e as noites buscando algum parceiro sexual. Sem ser particularmente bonita, ela leva uma existência solitária que só tem sua rotina alterada durante as transas de uma noite só ou as visitas do irmão mais novo – e a moça marca de maneira entediada a passagem do tempo em seu calendário, que traz o dia 29 de fevereiro grifado. É então que Laura conhece Arturo (Parra), com quem estabelece uma dinâmica sado-masoquista que se torna cada vez mais intensa, aproximando-se perigosamente de um extremo que pode se revelar fatal.

Praticamente todo ambientado no apartamento da protagonista, o filme é construído a partir de longos e ininterruptos planos que salientam o cotidiano silencioso e solitário da moça, dependendo, justamente em função desta abordagem, da performance de del Carmen para funcionar – e a atriz não decepciona. Entregando-se corajosamente a um papel que não só exige que ela se exponha fisicamente, mas que também abra mão de qualquer traço de vaidade, a moça compõe sua atuação a partir de detalhes que se revelam preciosos, como ao puxar para si o rosto de um parceiro após o sexo, buscando uma intimidade que não vem, ou ao adotar uma expressão incrivelmente tocante diante de outro amante, como se dissesse com os olhos um inequívoco “me queira!”. Da mesma maneira, é significativo que Laura se masturbe ao bisbilhotar um casal vizinho não transando, mas apenas se divertindo, já que isto expõe suas fantasias comunais de aceitação. Enquanto isso, Gustavo Sánchez Parra, preso a um papel infinitamente menor, exibe uma ótima presença ao evocar os impulsos de agressividade de Arturo ao mesmo tempo em que deixa claro o medo que o sujeito sente diante das próprias ações.

Fascinante ao ilustrar como Laura finalmente encontra o carinho e a atenção que tanto desejava através da agressão e da tortura física (e após o sexo Arturo se mostra sempre gentil e doce), Ano Bissexto sugere um instinto de auto-punição experimentado pela protagonista talvez em função do trauma experimentado na pré-adolescência – algo que o filme sugere com sutileza e que não pretendo escancarar aqui.

Com um desfecho que respeita a lógica interna da protagonista até o segundo final, o longa acaba se estabelecendo como um intrigante estudo de personagem corajoso e sempre interessante. (4 estrelas em 5)

 

44) Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger, EUA, 2010). Dirigido por Woody Allen. Com: Josh Brolin, Naomi Watts, Anthony Hopkins, Gemma Jones, Freida Pinto, Antonio Banderas, Anna Friel, Lucy Punch e a voz de Zak Orth.

A última grande fase de Woody Allen teve fim em 1997 com seu excepcional (e subestimado) Desconstruindo Harry. Desde então – e lá se vão 13 longos anos -, o cineasta manteve a impressionante média de um novo filme por ano e a não tão impressionante marca de apenas dois títulos realmente bons (Poucas e Boas e Vicky Cristina Barcelona) e um excepcional (Match Point); o resto ficou entre o dispensável (O Sonho de Cassandra) e o insuportável (Scoop – O Grande Furo). Agora, com este Você Vai Encontrar o Homem de seus Sonhos, Allen começar a dar a clara impressão de ter desistido completamente de fazer algum trabalho original ou minimamente relevante, como se continuasse a trabalhar apenas para se manter ativo, escrevendo qualquer coisa que lhe venha à mente, buscando financiamento em qualquer país e usando seu velho prestígio para escalar atores de renome – mas sem se preocupar com o resultado final.

O que, afinal, motivou o diretor a realizar este projeto? Alguma preocupação existencial, moral ou psicológica? Basta assistir a vinte minutos do filme para perceber que, se foi este o caso, a questão foi resolvida internamente por Allen antes de escrever um só diálogo, já que o roteiro não traz absolutamente nenhum insight digno de nota sobre o que quer que seja. Acompanhando as interações e os flertes entre vários personagens que talvez até merecessem uma história melhor, a narrativa segue Roy (Brolin), um escritor decadente que, sem trabalho, provoca o afastamento gradual de sua esposa Sally (Watts), que, por sua vez, se apaixona pelo chefe, Greg (Banderas). Enquanto isso, o pai da moça, Alfie (Hopkins), abandona a esposa de décadas, Helena (Jones), para ficar com uma ex-prostituta, Charmaine (Punch). É então que Roy se interessa por uma vizinha, Dia (Pinto), e…

… mas você certamente já compreendeu o tema principal do longa apenas a partir da descrição logo acima: o ser humano – especialmente os homens – tende a se tornar insatisfeito com o que tem e a desejar algo diferente, idealizado, como uma forma de provar sempre o próprio valor e também de sonhar com uma felicidade que, na prática, é impossível de ser alcançada. Assim, se Roy inicialmente cobiça a vizinha ao vê-la pela janela, a primeira coisa que nota, ao pular para o apartamento da moça, é seu antigo apartamento e o corpo da ex-esposa. Infelizmente, esta não é uma observação particularmente original de Allen (nem mesmo em sua filmografia) e sua apresentação se mostra igualmente óbvia.

Trabalhando com um roteiro que certamente deveria ter passado por grandes alterações estruturais (ele salta de um flashback a outro como se tivesse se esquecido de ilustrar passagens importantes da história), o filme ainda apela para o uso excessivo da narração em off, que se encarrega de desenvolver a trama em vez de permitir que isto ocorra organicamente – e assim, quando Dia se apaixona por Roy, seu interesse aparentemente inexplicável (o sujeito é um derrotado que confessou espioná-la enquanto trocava de roupa) é estabelecido pelo narrador, que simplesmente nos informa do sentimento da moça e pronto.

Com a abordagem tradicional de Allen, que aposta em longos planos que se limitam a acompanhar as conversas dos personagens, Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos é tecnicamente competente como todos os trabalhos do cineasta, destacando-se, claro, a fotografia do fantástico Vilmos Zsigmond (que pinta Londres em tons que oscilam corretamente entre o caloroso e o frio) e os figurinos de Beatrix Aruna Pasztor, que acerta particularmente ao trazer Roy com roupas sempre sem vida e desinteressantes. Brolin, aliás, se destaca no elenco ao encarnar um tipo divertidamente rabugento, ao passo que Anthony Hopkins, que agora aparentemente vive no piloto automático, às vezes tenta adotar os maneirismos de Woody Allen, mas sem muito empenho. E se Watts e Banderas pouco podem fazer com tipos unidimensionais (a mulher frustrada e o rico sedutor), Lucy Punch desperdiça a maior oportunidade do projeto ao jamais conseguir definir a natureza de Charmaine, que surge ora como uma criatura estúpida, ora como uma loira superficial, eventualmente se estabelecendo apenas como um clichê.

Sem tentar se apresentar como comédia, drama ou romance, o filme parece satisfeito somente com a chance de afirmar que a ilusão é sempre melhor do que a realidade. Se for este o caso, seria melhor que Allen ouvisse a própria mensagem e se aposentasse, nos deixando com a ilusão de que algum dia será capaz de voltar a realizar um trabalho memorável. (2 estrelas em 5)

 

45) Bróder! (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Jeferson De. Com: Caio Blat, Jonathan Haagensen, Silvio Guindane, Cássia Kiss, Ailton Graça, Cintia Rosa, Lidi Lisboa, Du Bronks, Eduardo Acaiabe.

Bróder! é um filme construído com urgência e intensidade. Freqüentemente investindo em narrativas múltiplas que acompanham vários personagens durante cerca de 24 horas, o roteiro de Newton Cannito e do diretor Jeferson De se preocupa muito mais em desenvolver a dinâmica entre aquelas pessoas do que em construir uma trama propriamente dita, o que se revela uma decisão acertada, já que são justamente nos momentos que o longa parece se interessar mais pela história do que pelas pessoas que o projeto perde um pouco da força. O que, felizmente, ocorre apenas pontualmente.

Concentrando-se no jovem Marcu (Blat), o filme segue o rapaz enquanto este se prepara para auxiliar bandidos locais no seqüestro de uma criança. Escalado para arranjar alguns brinquedos que possam servir de distração à vítima, ele vai até a casa da mãe e lá é surpreendido ao descobrir que sua família está preparando um almoço para comemorar seu aniversário – e que seus dois velhos amigos Pibe (Guindane) e Jaiminho (Haagensen), que agora moram fora do Capão Redondo, onde se passa a história, voltarão especialmente para a festa. Casado com uma ex-namorada de Marcu, Pibe se mostra inseguro com sua nova condição de pai de família, ao passo que Jaiminho, famoso jogador de futebol, espera ansioso a convocação para a seleção enquanto procura lidar com a gravidez acidental da irmã do amigo.

Tendo o próprio Capão como um personagem importante da narrativa, já que o forte sentimento de comunidade é algo fundamental na existência daquelas pessoas, Bróder! já revela a importância do distrito em suas cenas iniciais, quando Marcu, ao abrir a porta de casa, revela a extensão do lugar à distância. Além disso, em vários momentos da projeção, o cineasta concebe planos que mostram os personagens percorrendo com absoluta familiaridade os becos estreitos e labirínticos da região, apresentando-nos também a figuras tangenciais que servem para tornar o ambiente mais real e diversificado, como a benzedeira que atende Jaiminho ou o bêbado que faz uma provocação casual ao se referir ao alcoolismo do padrasto do protagonista. Por outro lado, Jeferson De não ignora a realidade miserável e violenta que se faz inevitável, ilustrando-a ao enfocar um sujeito baleado que, com exceção da própria família, mal atrai a atenção dos habitantes locais.

Assim, Bróder! aposta num retrato abrangente daquele universo, capturando vários momentos isolados ao longo do dia que trazem recortes das relações entre os personagens: o pastor que mal cumprimenta o filho marginal de uma fiel (uma participação pequena de Zezé Motta); a jovem mãe que leva a criança para visitar o túmulo do pai assassinado; o desconforto entre Jaiminho e sua ex-grávida; a oração da devota dona Sônia (Kiss), mãe de Marcu, e seu esforço para evitar que o marido (Graça) volte a beber; e por aí afora. Com isso, o longa acaba perdendo parte de sua força sempre que desloca a narrativa para fora do Capão – especialmente ao fazê-lo, em certo momento, com o intuito de promover uma crítica social artificial e vazia ao trazer o trio principal sendo abordado em seu carro por policiais depois que uma motorista obviamente racista julga erroneamente que o branco Marcu estava sendo assaltado pelos amigos negros.

Instantes simplistas e frágeis como este desapontam, aliás, porque contrastam imensamente com a riqueza do retrato que De pinta no restante da projeção. Contando com um elenco afiadíssimo preparado pelo sempre competente Sérgio Penna, o filme revela muito através de detalhes de composição, como, por exemplo, ao trazer o irmão caçula de Marcu com um corte de cabelo claramente inspirado no de Jaiminho, denotando o orgulho que todos sentem do sucesso de um companheiro da comunidade. Enquanto isso, Cássia Kiss surge fundamental ao retratar dona Sônia como uma mulher de jeito simples, mas que exibe uma força admirável, esforçando-se sempre para manter a família unida e em harmonia – e a dinâmica que ela estabelece com Aílton Graça é maravilhosa, já que o casal surge absolutamente confortável na presença um do outro, tanto nos momentos em que brigam ou se desentendem quando nos instantes em que se abraçam ou dançam, cúmplices e apaixonados.

Mas o trio de amigos que move a narrativa não fica atrás: apresentado de forma emblemática ao surgir na varanda deprimente e claustrofóbica de um apartamento atormentado pelo trânsito de um viaduto à sua frente, Silvio Guindane compõe Pibe como um sujeito bem intencionado e responsável que, no entanto, se encontra sufocado pelas responsabilidades da vida adulta. Em contrapartida, Jonathan Haagensen, com o carisma habitual, foca na impulsividade de Jaiminho, que, apesar da figura clássica do jogador de futebol que ostenta pateticamente a riqueza recém-adquirida, parece tentar provar para si mesmo que, mesmo famoso e bem-sucedido, não perdeu as raízes humildes – um esforço constantemente sabotado por sua libido incontrolável. Fechando o elenco, Caio Blat oferece provavelmente uma das melhores performances de sua carreira como Marcu, num feito considerável se pensarmos na força de seu Frei Tito em Batismo de Sangue: surgindo com uma postura empinada e um caminhar cheio de gingado e arrogância, o protagonista exibe o rosto sempre cerrado e com expressão raivosa, como se visse o mundo como uma ameaça constante – e assim, quando abre um sorriso diante das pessoas que ama, o sujeito permite que enxerguemos sua natureza doce e sufocada pela vida opressiva que leva, numa demonstração de grande inteligência por parte deste ainda tão jovem ator.

E é por trazer criações tão complexas que Bróder! desaponta, por exemplo, ao pintar uma caricatura do empresário de Jaiminho, que surge jogando golfe e bebendo champanhe enquanto conversa com a esposa impossivelmente loira – num retrato tão unidimensional do “homem branco opressor” que, confesso, cheguei a cogitar se tratar de uma sátira, descartando a idéia por perceber que ela rivalizaria com o tom realista da narrativa. Da mesma maneira, a catarse entre os personagens de Blat e Aílton Graça, no terceiro ato, soa abrupta e pouco convincente, já que o filme não havia plantado o terreno para que ela ocorresse. Finalmente, o plano em que Haagensen parece flutuar morro abaixo por estar atormentado pela discussão que tivera com a ex representa uma escolha infeliz de Jeferson De, já que, embora suas intenções tenham ficado claras, a idéia é executada de maneira trôpega, chamando excessivamente a atenção sobre si mesma.

A boa notícia é que estes tropeços pontuais do cineasta se destacam não por serem comuns, mas por destoarem da eficácia do restante do longa, que realmente leva o espectador a conhecer e a se importar profundamente com aquelas pessoas, compreendendo o sentimento comunal que permeia suas relações e torcendo, assim, para que Marcu possa finalmente se desprender de sua amargura, desanuviar o rosto e sorrir enquanto aproveita a feijoada ao lado de sua adorável família. (4 estrelas em 5)

Observação: A recorrência do número 23 durante a projeção desperta a curiosidade. Como já vi 45 filmes durante o Festival, acabei ficando na dúvida sobre ter ouvido um dos personagens citando o versículo que diz “O Senhor é meu pastor e nada me faltará” – mas caso isto realmente ocorra em Bróder!, a charada começa a ser explicada, já que este é o Salmo 23 da Bíblia.

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