Política

A compaixão como tática

postado em by Pablo Villaça em Política | 2 comentários

“Vocês agem como se a esquerda tivesse o monopólio da virtude!”, costumam protestar alguns direitistas quando aponto que a inclusão social e pautas humanitárias que reforçam os direitos de minorias devem ser prioridade em qualquer governo que queira se dizer de esquerda.

Ok, é um protesto válido. Será que a direita também não poderia defender estas bandeiras?

Aparentemente, não a neodireita brasileira. Afinal, quando o ENEM incluiu uma questão sobre a violência contra a mulher, representantes desta neodireita imediatamente protestaram contra o que chamaram de “pregação ideológica esquerdista”, basicamente afirmando, eles mesmos, que a defesa dos direitos da mulher é (repito: de acordo com eles mesmos!) uma pauta de esquerda.

E o que esta mesma neodireita teve a dizer depois dos ataques em Paris?

Bom… basta apontar que “xenofobia” é uma palavra fraca para descrever as manifestações de boa parte destes perfis. Houve um “escritor” que chegou a defender AS CRUZADAS, enquanto outros diziam que o que ocorreu na França era mais uma razão “para derrubar a vaca da Dilma”. O consenso aparente entre estes indivíduos é o de que abrigar refugiados é beneficiar terroristas e que – como alguns até disseram nos comentários de meu post anterior aqui no FB (https://www.facebook.com/pablovillaca01/posts/739301856175043) – “praticamente todos os muçulmanos são terroristas ou apoiam o terrorismo”.

Ai, ai.

É esta a “virtude” que insistem possuir?

Na realidade, não sei o que me choca mais: a ignorância política e histórica ou a pura falta de empatia e compaixão.

Há 1,6 BILHÃO de muçulmanos no planeta. Eles respondem por quase UM QUARTO da população mundial. Se a “maioria” fosse terrorista ou apoiasse o terrorismo, poderíamos dar adeus à Humanidade. (Aliás, quando um sujeito afirmou, nos comentários, que nenhum muçulmano condenava os ataques, publiquei vários links que provavam o contrário, incluido este: http://qz.com/550104/muslims-around-the-world-condemn-terrorism-after-the-paris-attacks/). Já outros neodireitistas encaminharam links “comprovando” que o mundo islâmico era dominado por criminosos – e bastou uma rápida olhada em uma destas páginas para constatar que também atacava cotas raciais, tratava o aquecimento global como “fraude” e afirmava que o feminismo e o “gayzismo” querem “destruir a família”.

De novo: é esta a “virtude” que dizem possuir?

Não à toa, figuras como Malafaias não demoraram a postar ódio nas redes, basicamente afirmando que os cristãos representavam o “bem” e os muçulmanos, o “mal”.

Bom, como já escrevi há algum tempo, o simples conceito de religião me incomoda profundamente – especialmente quando esta tenta interferir no Estado. (“Ateu, não anti-Deus”: http://diariodebordo.cinemaemcena.com.br//?p=2663) Porém, posicionamentos como estes, recheados de estupidez histórica, me obrigam quase a uma defesa do Islã, o que considero irônico de um ponto de vista pessoal. Em primeiro lugar, porque estas pessoas parecem ignorar as muitas contribuições de islâmicos ao desenvolvimento da ciência, por exemplo (e para o próprio MÉTODO científico de pesquisa, observação e experimentação) – e pergunte a qualquer astrônomo ou matemático sobre o papel de cientistas muçulmanos em suas áreas para ter uma ideia de sua importância.

Mas, mais do que isso, vem o absurdo do argumento de que apenas o islamismo deu origem a atos abomináveis. É preciso lembrar de grupos cristãos como a Ku Klux Klan? O IRA? É preciso lembrar do extermínio de povos indígenas? Da Inquisição? Cruzadas? É preciso lembrar como, no Brasil, líderes evangélicos pregam a intolerância? Reforçam o machismo e a homofobia?

Ou, saltando para outras religiões, é preciso lembrar como Israel está praticando sua própria versão do Holocausto na Palestina? (E os neodireitistas ficaram particularmente possessos com esta pergunta, sendo que até mesmo SOBREVIVENTES DO HOLOCAUSTO já fizeram a comparação: http://www.haaretz.com/israel-news/1.612072).

Aliás, nem os budistas escapam. Pesquisem o que monges budistas têm feito no Sri Lanka e em Myanmar e a ideia de que o budismo é apenas um poço de placidez irá se desfazer.

Em outras palavras: atos de crueldade indizível já foram perpetrados em nome de praticamente TODAS as denominações religiosas. Não é à toa que, como explico no texto que linkei mais acima, tenho tanta aversão ao conceito de religião organizada.

Para completar, há, como mencionei, a ignorância política: em fevereiro, o próprio ISIS, responsável pelos ataques em Paris, publicou um documento no qual afirmava que precisava acabar com a “zona cinzenta” composta por muçulmanos praticantes que condenavam o terrorismo. Para isso, a estratégia publicamente anunciada pelo próprio grupo era a de promover atos de terrorismo em países com refugiados islâmicos a fim de aumentar justamente o preconceito contra estes – que, atacados pelos ocidentais, finalmente teriam que se decidir entre abandonar a fé ou se unir aos fundamentalistas. (http://www.memrijttm.org/dabiq-vii-feature-article-there-is-no-longer-any-gray-zone-the-world-includes-only-two-camps-that-of-isis-and-that-of-its-enemies.html)

Em outras palavras: foi justamente para fugir destes malucos que os refugiados deixaram seus lares. Atacá-los, discriminá-los, odiá-los é fazer o jogo dos fundamentalistas.

Como bem lembrou meu amigo Matt Zoller Seitz, basta assistir a A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, para constatar como a opressão de fiéis pacíficos é uma maneira infalível de levá-los rumo ao extremismo.

Neste aspecto, demonstrar compaixão pelos refugiados não é só uma atitude humana, mas também a melhor estratégia a longo prazo.

E eu ficaria muito feliz se a esquerda não detivesse o “monopólio” sobre isso.
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Brasil Bizarro

postado em by Pablo Villaça em Política | 2 comentários

Que Brasil bizarro, este atual: políticos acusados de todo tipo de crime desejam reduzir a maioridade penal para “coibir a criminalidade” enquanto posam de bastiões da ética para acusar os oponentes. Jovens vão às ruas pedindo a volta dos militares. Torturadores são abordados em busca de selfies. A nata paulistana bate panela “contra a corrupção”, mas mantém os utensílios nos armários da cozinha sempre que os acusados são do partido que governa seu estado. Um sujeito com histórico de envolvimento em escândalos preside o mesmo Congresso que tenta levar adiante o impeachment de uma governante cuja honestidade é reconhecida até mesmo por seus oponentes mais ferrenhos.

Mas, para mim, o mais inacreditável é perceber que, hoje, a direita tenta derrubar um governo cujo modelo econômico segue a mais pura cartilha conservadora enquanto a esquerda tenta proteger a mesma gestão que se afasta a passos largos de qualquer identificação ideológica com seus valores.

A política não é mesmo para amadores (ou para pessoas que valorizam a ideologia mais do que o pragmatismo). Ao escrever sobre o segundo turno das eleições, lembro-me de comentar que a polarização que estava ocorrendo poderia ter duas consequências: ou Aécio venceria e o projeto tucano que vendeu o país para interesses estrangeiros retornaria com força total ou Dilma seria obrigada a dar uma guinada à esquerda para preservar o apoio dos movimentos sociais e, consequentemente, sua governabilidade.

Tolinho.

O que eu não esperava é que Dilma vencesse e imediatamente passasse a adotar uma postura que os eleitores de Aécio certamente aplaudiriam caso não estivessem cegos de ódio. Já de cara trouxe figuras como Kátia Abreu para o governo, entregou a condução econômica do país ao diretor de um banco e passou a ignorar os mesmos movimentos de esquerda que foram decisivos em sua eleição.

A postura conciliatória de fazer acenos à direita (na realidade, uma flexão quase completa do ponto de vista econômico) não trouxe qualquer efeito para sua aceitação pelas elites e pelo tal rei Mercado. Ao contrário: a polarização se acentuou, manifestações de ódio se proliferaram e a irracionalidade se tornou parte recorrente do debate político.

“Treze anos de PT arruinaram o Brasil!”, dizem eles, ignorando que este período marcou a maior diminuição da desigualdade na História do país, a retirada do Brasil do mapa da fome, um crescimento econômico que trouxe investimentos de todo o mundo, que elevou o país à posição de 7ª maior economia do mundo (éramos a 13ª quando FHC deixou o governo) e que sobreviveu até mesmo à crise mundial de 2008, uma das piores de todos os tempos. (E isto é só o começo:http://diariodebordo.cinemaemcena.com.br//?p=4418)

“O PT quer implementar uma ditadura comunista!”, dizem eles, ignorando que a tal “ditadura” aparentemente nunca chega – mesmo depois de 13 anos e sucessivas vitórias nas urnas – e que chamar de “comunista” um governo cuja política econômica é conduzida por um banqueiro é um sinal de profunda ignorância ou de puro mau caratismo.

“Esse é o governo mais corrupto de todos os tempos”, dizem eles, ignorando que os maiores escândalos de corrupção (em termos de escala, de efeitos e de dinheiro envolvido) ocorreram nos anos FHC e que, ao contrário do que ocorre agora, nada foi apurado, ninguém foi julgado e muito menos punido. Aliás, este é o mesmo padrão ainda hoje: as mesmas empreiteiras que doaram dinheiro para a campanha de Dilma, levando sua campanha a ser investigada, doaram ainda MAIS à campanha de Aécio – mas aí, tudo bem, nada de errado. (Recentemente, ao ter mais uma irregularidade de suas contas de campanhas apontada, o PSDB alegou ter se “esquecido” de incluir um dado – e, de novo, tudo bem, nada de errado.)

Mas estas são as mesmas pessoas que insistem em falar da “fortuna” de Lulinha, que repetem o que sai na VEJA (a do boimate, do “racismo acabou” e da conta de Romário na Suíça) como verdade absoluta. São as mesmas que condenam Paulo Freire, reconhecido por todo o mundo, mas amam Mises, que escreveu que o luxo dos ricos e a desigualdade econômica são necessários para a evolução da sociedade.

São as mesmas pessoas que acusam o governo de ter impulsos ditatoriais, mas agem de forma fascista ao agredirem quem veste a cor vermelha, se diz de esquerda ou defende a manutenção da ordem democrática – e quando chamadas de “fascistas”, contrapõem dizendo que isto é ridículo, já que “fascismo só pode ser de esquerda”, numa demonstração tão profunda de ignorância histórica que a discussão se torna impossível.

No entanto, querem saber a pior parte? É constatar que boa parte do que eles gostariam de ver acontecendo num governo tucano já está acontecendo no governo Dilma. Claro que eles não enxergam isso, já que por trás do discurso “anti-corrupção” esconde-se a verdadeira razão para que gritem tanto ódio: a repulsa pelo PT (não por ser um partido de “corruptos”, mas por ser um partido nascido da esquerda) e por quaisquer ideais que preguem inclusão social.

Mas nós, da esquerda, enxergamos a diferença. (Ao menos aqueles que não estão igualmente cegos pela própria retórica.) E o que vemos é o abandono de um projeto que trouxe resultados tão importantes nos últimos doze anos. Quando um governo de esquerda começa a pregar “austeridade”, arrocho, cortes em programas sociais e de educação e nem sequer discute a taxação de grandes fortunas… bom, é porque não é mais de esquerda.

Há algum tempo, escrevi que, embora a economia apresentasse problemas, estávamos longe da crise que a mídia anunciava em suas manchetes. E apontava, também, que esta crise poderia se tornar uma profecia auto realizada caso levasse o país a absorver uma narrativa de recessão, passando a agir de acordo com esta crença. Soma-se a isto uma política econômica que – seguindo os padrões históricos – decide punir da classe média para baixo em vez de exigir que os donos das grandes fortunas façam sua parte para combater o problema.

Repatriar bilhões sonegados? Não. Implementar a CPMF, que realmente impactaria apenas os que realizam transações de vulto? Não. (Aqui o governo até começou a tentar, mas desistiu em função de sua inépcia ao lidar com figuras como Cunha.) Aumentar impostos a partir de um certo patamar de patrimônio? Não. Taxar as igrejas? Claro que não. (Ao contrário: o Congresso de Cunha aumenta as isenções destas mesmas igrejas, que – vejam só – constantemente usam esta falta de taxação para sonegar impostos ao oferecer “bônus” para pastores ou atuar na lavagem de dinheiro. Um estratagema do qual o próprio Cunha é acusado de se beneficiar.)

A cada novo corte que o governo Dilma faz no social, me afasto mais. E realmente não consigo compreender como a presidenta pode caminhar na contramão do bom-senso, afastando os que a defendem e entregando seu governo nas mãos dos que a desprezam.

Quero um governo de esquerda – e, infelizmente, este não é o governo Dilma.

Porém – e aí reside o verdadeiro conceito de democracia – eu defenderei intensamente seu direito de chegar até o fim de seu mandato. Discordar de um governo (ou mesmo sentir-se traído ideologicamente por este) não é base para impeachment. Aliás, nem mesmo a mais pura incompetência serviria como justificativa para retirá-la do poder (não, não chego ser tão severo quanto sua competência).

Independentemente do que dizem os fascistas de plantão, que chamam o golpe de 64 de “Revolução” e apelidam Bolsonaro de “Bolsomito”, gente demais sacrificou a própria vida para trazer a democracia de volta. Respeitá-la é o mínimo que podemos fazer em troca.

O Mercado Não Vale Mais que Nossas Vidas

postado em by Pablo Villaça em Política | 13 comentários

Em vários estados dos Estados Unidos, os fabricantes de móveis são obrigados a aplicar anti-inflamáveis em tudo que produzem. No entanto, a maioria dos estudos indica que estes produtos não possuem resultado prático algum e que – o pior – provocam diversas doenças graves que vão desde infecções respiratórias até diversos tipos de câncer, tornando crianças particularmente vulneráveis aos seus efeitos.

E por que o uso destes produtos se tornou obrigatório? Simples: nas décadas anteriores à proibição de se fumar em lugares fechados, vários incêndios eram provocados por guimbas deixadas acesas enquanto os fumantes dormiam. Pressionadas a modificar os cigarros para que estes se apagassem rapidamente quando não estivessem sendo fumados, as corporações que os fabricavam contrataram empresas de publicidade e lobistas para que vendessem ao público que a responsabilidade era dos móveis que pegavam fogo, não do produto que INICIAVA os incêndios. A estratégia funcionou e virou lei.

Corta para a década passada. Com os estudos que comprovavam que os anti-inflamáveis provocavam doenças graves e não evitavam incêndios, advogados representando a sociedade civil entraram com processos para que as leis obrigando sua utilização fossem revogadas. Na audiência final, depois do depoimento de vários cientistas, um cirurgião plástico foi chamado para depor e relatou como havia atendido um bebê que, vitimado pelo fogo que tomou conta de seu berço quando sua mãe deixou uma vela acesa ao seu lado, morreu depois de agonizar por semanas.

O depoimento tocante e chocante foi o bastante para que a lei fosse mantida.

Em primeiro lugar, o tal depoimento não tinha qualquer valor científico, apenas apelo emocional. Mas este nem era o problema mais grave: dois jornalistas do Chicago Tribune descobriram que o tal médico havia repetido o mesmo depoimento, com mudanças significativas, em várias audiências similares. Questionado sobre isso, ele revelou que não acontecera de fato, tratando-se apenas de uma “anedota”. Como se não bastasse, ele havia sido pago para depor por um certo “Citizens for Fire Safety”  que vivia combatendo a iniciativa de se retirar anti-inflamáveis dos móveis.

Mais alguma investigação revelou que o tal instituto era financiado pelos três maiores fabricantes de anti-inflamáveis dos Estados Unidos.

Este caso, narrado no excelente documentário “Merchants of Doubt”, é um exemplo ilustrativo da principal estratégia das grandes corporações: com o objetivo de conseguirem o que desejam, elas aprenderam a usar a propaganda para trazer a opinião pública para o seu lado. No entanto, como não podem ganhar as pessoas com base em seus argumentos, já que estes são frágeis e incorretos, plantam dúvida, medo e conceitos genéricos como “liberdade” ou outros absurdos como “ambientalistas são comunistas disfarçados” na mente da opinião pública.

Outro exemplo presente no filme envolve a questão do aquecimento global: embora 99,9% dos cientistas que estudam o clima apontem que o aquecimento é provocado pelo homem e que deve ser combatido de forma urgente, as grandes empresas que trabalham com exploração de petróleo e carvão conseguiram levar parte da população a negar esta conclusão através de – mais uma vez – confusão, conceitos genéricos e preconceito. Criaram um documento assinado por 31.400 cientistas que “discordavam” do diagnóstico – e muitos jornalistas reproduziram esta discordância sem investigar os nomes dos tais cientistas, que incluíam “Charles Darwin”, personagens da ficção e “experts” que NUNCA haviam praticado ciência. A lista era tão fajuta que foi publicamente rechaçada pela mais importante instituição científica dos Estados Unidos.

Mas o estrago já estava feito: para estes vermes, vencer a batalha é algo impossível – e eles sabem disso -, então buscam apenas adiar qualquer tipo de lei que limite a poluição que criam. Enquanto isso, a Terra caminha para um ponto sem volta.

Como disse Noam Chomsky em seu artigo “Democracia de Mercado em uma Ordem Neoliberal”, para as corporações, “o lucro deve ser privatizado, mas o custo e os riscos devem ser socializados”.

Esta é a lógica da direita, que prega um mercado sem regulamentação (ou cuja parca regulamentação possa ser manipulada por lobistas) ) e privatização sem limites – e alguns podem até dizer que isto é mera questão de ideologia, mas prefiro acreditar se tratar de uma questão de simples falta de humanidade.

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UPDATE: De maneira previsível, alguns “libertários” (mais sobre este termo daqui a pouco) vieram defender a necessidade de se deixar o mercado livre, sem regulamentação, usando o caso dos antiinflamáveis como exemplo. O que convenientemente ignoram é que esta legislação foi colocada em prática JUSTAMENTE em função do esforço da indústria de tabaco para NÃO ser regulamentada.

Se fossem deixadas sem regulamentação, as corporações agiriam apenas com o instinto sociopata que as domina e que determina o lucro acima de tudo.

Quanto ao “libertário”, é interessante notar como defendem liberdade para o mercado às custas dos indivíduos – e não é à toa que um dos discursos genéricos que fazem para mover a população é precisamente o de que o Estado quer tirar a “liberdade” da sociedade ao tentar regular as empresas. Exatamente como é ilustrado por “Merchants of Doubt”.

Ao menos esses caras se mostram coerentes em sua falta de humanidade.

Jon Stewart fala sobre a mídia e a oposição brasileir… norte-americanas

postado em by Pablo Villaça em Política, Série Jornalistas | 3 comentários

Comentando a reação dos comentaristas da direita (Rush Limbaugh, equipe da Fox News, etc) sobre sua decisão de sair do The Daily Show, o comediante Jon Stewart exibiu uma série de clipes nas quais estes o acusavam de sistematicamente “mentir” sobre a direita, tirando o que diziam de contexto. Depois de mostrar um clipe no qual 50 mentiras ditas pela Fox News eram expostas, Stewart deu início a um monólogo que poderia perfeitamente ter sido dirigido à mídia reacionária brasileira e ao tipo de oposição que temos por aqui:

“Uma espécie de consenso sobre este programa tomou conta da direita: um pensamento com o qual se mostram tão confortáveis que nem se sentem na obrigação de oferecer evidências para comprová-lo: o de que distorcemos e mentimos o tempo todo para que fiquem parecendo ruins. Algo que pode ser resumido por esse cara aqui:

[CLIPE DE RUSH LIMBAUGH:] Jon Stewart ajudou a polarizar o país ao envenenar a marca Republicana.

“Envenenar a marca republicana?” Você está falando desta marca aqui?

[CLIPES DE VÁRIOS SEGMENTOS DO PROGRAMA DE LIMBAUGH NO QUAL ATACA FEMINISTAS, MINORIAS ÉTNICAS E ATÉ MESMO MICHAEL J. FOX POR EXIBIR SINTOMAS DE PARKINSON. ENTRE AS FALAS, A INACREDITÁVEL “SE HÁ UMA RAÇA QUE NÃO DEVERIA SENTIR QUALQUER CULPA PELA ESCRAVIDÃO, É A DE CAUCASIANOS”.]

Nós envenenamos… esta marca? Como se envenena uma fábrica de cianureto?

Mas o joguinho que eles praticam aqui é “a única razão pela qual a Direita tem má fama é porque esses caras são injustos conosco”. Nós não mentimos; não distorcemos. A questão é que a Direita gosta de fingir que nossa honestidade é o que mais importa para eles – o que, ironicamente, não é verdade. O que importa para a Direita é desacreditar qualquer coisa que eles acreditem prejudicar o seu lado. (…) Esta missão dirige seus ataques contra todas as instituições que formam a base do país que eles alegam amar tanto.

[CLIPES DA FOX NEWS ATACANDO TUDO QUE DIZ RESPEITO AO GOVERNO OBAMA E PINTANDO UM RETRATO DE QUE TUDO ESTÁ ERRADO, DE QUE O PAÍS ESTÁ VIVENDO UM CAOS COMPLETO E DE QUE O DESASTRE SE APROXIMA A QUALQUER MOMENTO GRAÇAS À GESTÃO DOS DEMOCRATAS, QUE SÃO CHAMADOS DE “LIBERAIS”, “ESQUERDISTAS” E MESMO “COMUNISTAS”.]

Todas as instituições sofrendo do “mal do liberalismo” e o que pode ser feito? Esta é a genialidade deles. Eles alegam querer “consertar” as coisas, mas os conservadores não querem fazer a Educação se tornar mais rigorosa e informativa ou a Ciência se tornar mais empírica e confiável ou os votos se tornarem mais representativos ou o governo se tornar mais eficiente… eles querem apenas que todas essas coisas reforcem seu ponto de vista partidário, ideológico e conservador.

Porque na mente deles, o oposto de “ruim” não é “bom”; o oposto de “ruim” é “conservador”. O oposto de “errada” não é “direita”, é… bom… vocês entenderam o que eu quero dizer. Eles julgam apenas pelo nível de conteúdo conservador. Em tudo. É seu único teste determinante. Mesmo coisas estúpidas.

[CLIPE DE APRESENTADORA DA FOX NEWS CONDENANDO O LIBERALISMO DE HOLLYWOOD POR NÃO DAR O OSCAR DE MELHOR FILME A “SNIPER AMERICANO” POR ESTE TER SIDO DIRIGIDO PELO REPUBLICANO CLINT EASTWOOD.]

Clint Eastwood é um ícone conservador há anos. Ele já venceu o Oscar de Melhor Diretor e de Melhor Filme neste meio tempo. Os “lunáticos esquerdistas” de Hollywood fizeram o filme, pra começo de conversa, e o indicaram a Melhor Filme!

E sabem qual é a parte mais triste disso tudo? Os republicanos e conservadores são tão incansáveis em seu impulso por pureza ideológica que as instituições sobre a qual eles reclamam continuam a ceder a eles. Pela mesma razão, acho, que você sempre vai ao restaurante escolhido por sua filha de quatro anos de idade: “Tá bom, nós vamos lá de novo! Só pare de chorar!”.

Quinze estados aprovaram leis novas sobre identidade de eleitores sem que houvesse qualquer evidência de fraude eleitoral; um comitê estadual em Oklahoma votou pra banir uma disciplina de História por não suavizar a escravidão o suficiente; “abstinência” foi aprovada como parte de “educação sexual”; e fatos científicos não são mais informados, mas debatidos.

Então vamos parar de fingir que essas concessões à Direita irão, em algum momento, saciar a fome da Besta.

[CLIPE DE SARAH PALIN CRITICANDO O PAPA POR SUAS DECLARAÇÕES LIBERAIS.]

O papa não é conservador o bastante pra essas pessoas. Então vamos parar de ceder a eles. Sua guerra cronicamente raivosa por pureza ideológica, em que todos os aspectos da vida se tornam uma batalha bidimensional pela alma do país, nos envelhece.

Só de assistir a ela, estou morrendo.”

A Arte Em Luta

postado em by Pablo Villaça em Política, religião, Variados | 6 comentários

Quando Diderot e d’Alembert editaram a Encyclopédie, na segunda metade do século 18, incluíram em seus mais de 30 volumes o que consideravam todo o conhecimento acumulado da Humanidade, transformando a obra na culminância do movimento iluminista que, um século antes, começara a defender a razão e o conhecimento como elementos motores da espécie, enfrentando a dominância opressiva e obscurante da religião. A França confirmava, assim, o posto de centro do Iluminismo, plantando, em seu território, um farol cujos fachos lançavam curiosidade, iniciativa intelectual e o interesse pelo debate como formas de melhorar o planeta.

Em 2015, a mesma França viu doze de seus habitantes – incluindo cinco cartunistas – abatidos pelo fogo da mesma ignorância religiosa que começou a enfrentar há mais de 350 anos.

Não sou um grande fã de religiões de modo geral. Como disse o físico Steve Weinberg, “com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém, para que uma pessoa boa faça uma coisa má, é preciso religião”. Ainda assim, usar o que ocorreu hoje em Paris como desculpa para atacar o islamismo é injusto e tolo. Seria o mesmo que julgar toda a Comédia por Danilo Gentili ou todos os roqueiros por Lobão e Roger. Não: a atrocidade cometida hoje tem a religião como desculpa, mas a sociopatia como razão. A mesma sociopatia que, por exemplo, levou o norueguês Anders Breivik a tirar a vida de 77 pessoas em nome de uma ideologia islamofóbica, pró-sionista e antifeminista.

Não é coincidência, portanto, que grupos fundamentalistas costumem atrair tipos mentalmente desequilibrados; o trágico é que há milhares destes à disposição ao redor do mundo esperando apenas uma ideologia, um credo ou um bordão qualquer que justifique sua propensão à violência.

Já do outro lado das metralhadoras encontravam-se artistas. Indivíduos que ganhavam a vida apontando o ridículo do radicalismo, da cegueira religiosa, da estupidez que leva irmãos de espécie à mútua e desnecessária destruição. Indivíduos que rebatiam às ameaças com piadas, com o humor, com o intelecto.

Com desenhos.

Viam as barbaridades cometidas ao redor do planeta em nome desta ou daquela religião e as criticavam com traços que cortavam na carne da hipocrisia e iam direto ao coração apodrecido dos interesses vis, particulares, egomaníacos e sociopatas de seus líderes. Golpes certeiros, claro, mas simbólicos, racionais e que permitiam que seus alvos permanecessem íntegros e pudessem responder.

Este é um dos papeis fundamentais da Arte, que pode funcionar como uma arma poderosa, mas essencialmente pacífica – e rebatê-la com violência é tática de covardes que reconhecem a fragilidade dos próprios argumentos. Por isto me desagrada tanto a máxima de que “a pena é mais forte do que a espada”: a comparação é tola e desigual. A primeira busca desafiar, argumentar, debater; a segunda quer apenas calar.

Mas calar uma ideia é impossível – e, não por acaso, a morte dos cartunistas do “Charlie Hebdo” imediatamente deu origem a dezenas de cartuns enlutados, além de comprovar a acurácia dos trabalhos dos artistas mortos, que obviamente atingiram os pontos fracos dos terroristas que, em retorno, decidiram simplesmente abater aqueles que os haviam desmascarado.

E assim, no berço do Iluminismo mais uma sombra se abateu sobre a Humanidade em um ano que, brincamos todos na virada, simbolizava o futuro colorido da trilogia estrelada por Michael J. Fox. Mas que, na prática, se aproxima bem mais da distopia pessimista e totalitária de O Planeta dos Macacos.

Analisando imagens e a diferença entre números e pessoas

postado em by Pablo Villaça em Política | 5 comentários

Como alguém que vive de analisar imagens, devo dizer que fiquei profundamente encantado com duas delas que vi nos últimos dias. A primeira aconteceu durante uma entrevista que Lula deu a Mino Carta: enquanto falava sobre como aqueles que antes só podiam viajar de ônibus agora conseguem pagar passagem de avião, Lula leva as mãos à cabeça numa empolgação tão grande, quase infantil, que expõe uma felicidade incontida diante da constatação. Isto me encantou especialmente porque sei como é raro (muito raro) ver alguém com a trajetória e a experiência dele ainda se mostrando capaz de se empolgar tanto com a alegria do homem do povo. (O momento está aos 8:35: https://www.facebook.com/video.php?v=709568759129502)

Já a imagem de Dilma foi uma foto na qual, durante um ato público, ela surge abraçada por uma senhora no meio da multidão. Aliás, “abraçada” não é o termo exato: a senhora em questão praticamente dá uma chave de braço em Dilma enquanto, com a mão livre, segura um celular para tirar uma “rousselfie”. (Quando vi a foto no Twitter, a legenda brincalhona dizia: “EU PAGO MEUS IMPOSTOS E A SENHORITA VAI TIRAR FOTO COMIGO SIM!!!”)

O que me cantou nesta foto (http://i.imgur.com/D4KERhj.jpg), aliás, nem foi a proximidade da presidenta com o povo – uma proximidade que vocês não vêm na outra candidatura -, mas um fato muito revelador: enquanto toma a chave de braço, Dilma… sorri. Não há medo ou desconforto em seu rosto, mas um sorriso por estar recebendo aquele gesto tão… firme… de carinho.

E são esses detalhes, que surgem na espontaneidade e no calor do momento, que revelam muito sobre Lula e Dilma e o tipo de líderes que são.

O que me traz a um segundo ponto.

Como alguns de vocês talvez saibam, sou filho e sobrinho de pessoas que lutaram contra a Ditadura. Cresci ouvindo as histórias das barbaridades cometidas naquele período contra jovens que lutaram para que hoje outros jovens tivessem a liberdade, inclusive, de ofender a presidenta usando termos incrivelmente baixos. Cresci vendo pessoas que eu amava carregando sequelas físicas, psicológicas e emocionais das torturas. E cresci também num país de desigualdades que trazia capas de jornais falando da fome, que era considerado um problema insolúvel, e exibindo fotos de crianças subnutridas e à beira da morte.

E lembro de minha mãe discutindo aquelas questões comigo e me ensinando algo que nunca esqueci: que, ao ler notícias falando de “milhares ou milhões de miseráveis e famintos”, nunca me esquecesse de que aquelas estatísticas representavam pessoas. Ela me ensinou que muitas vezes, quando a imprensa traz estes números, tendemos a nos esquecer de não são só números,

E é por isso que quando li a notícia de que o Brasil havia saído do Mapa da Fome da ONU pela primeira vez, chorei.

Chorei de alegria por saber que aquela não era mais a realidade de milhões e milhões de pessoas.

Chorei por saber que meus filhos vão crescer num país melhor do que aquele no qual cresci.

E chorei porque lembrei do que minha mãe me ensinou e percebi que se o Brasil mudou é porque finalmente tivemos, em Lula e Dilma, presidentes que sabem que por trás de cada estatística e de cada número há uma vida, uma pessoa, um brasileiro.

Carta Aberta a Quem Tem Menos de 25 Anos

postado em by Pablo Villaça em Política | 27 comentários

Uma Carta Aberta a Quem Tem Menos de 25 Anos Escrita por um Tio Preocupado (Não o “Tio” do Jornal Nacional, que é Daqueles Que te Constrangem nas Festas com um Papinho Preconceituoso, mas o Tio que Usa Tênis, Calça Jeans Puída e que te Constrange nas Festas Porque Insiste em Conversar com Seus Amigos Como se Fosse da Turma.)

Li esta semana que Aécio tem tido uma boa votação entre os jovens de 18 a 25 anos de idade e fiquei espantado. A juventude é a época do pensamento no coletivo, do idealismo, da generosidade. É a época em que tendemos a pensar mais no mundo do que no umbigo. É a época em que o sofrimento daquele mendigo pelo qual passamos na rua dói e sentimos o impulso de erguê-lo, de alimentá-lo, de agasalhá-lo. É só com o passar dos anos que começamos a tender a um foco mais individualista: pensamos nas nossas contas bancárias antes de fazermos uma doação. Nem todos passam por esta transformação (felizmente), mas a tendência geral é esta.

Assim, como é possível que tantos de nossos jovens já estejam iniciando a idade adulta com um pensamento tão conservador? O pensamento de que o “mercado” importa mais do que as pessoas? O pensamento de que o conteúdo do iPod é mais importante do que o conteúdo da alma (e uso alma como metáfora)? O pensamento de que poder escolher o tipo de iogurte é… nem sei como completar esta frase. Que tal… “minimamente relevante”?

E aí fiquei pensando. O que pode ter acontecido pra que esse conservadorismo aparente tivesse tomado conta da juventude? Seriam os novos jovens mais egoístas do que os da minha época?

Claro que não. A juventude respira generosidade se tiver permissão e contexto.

É isso. Faltam permissão e contexto.

Um tiquinho de paciência e já explico.

A falta de “permissão” vem da mídia e da despolitização. Os jovens abaixo de 25 anos cresceram com uma mídia cujo conservadorismo já resultou em críticas até do Reporters Without Borders (1) e que insiste em transformar qualquer denúncia, por menor que seja e por menos provas que tenha, em um escândalo inquestionável. Às vésperas da eleição de 1989, por exemplo, os jornais relacionaram o PT ao sequestro de Abílio Diniz, comprometendo a vitória da esquerda, mas mais recentemente, na última eleição presidencial, podemos encontrar um exemplo claro no caso Erenice Guerra, próxima de Dilma, que foi massacrada pela Globo e pelos jornais durante semanas, acusada de todo tipo de ato de corrupção imaginável. Erenice que depois foi, vejam só, inocentada. O mesmo ocorreu com o ex-ministro Orlando Silva. E com Luis Gushiken. E, ESTA SEMANA, com José Luis Dutra, que a Folha acusou numa matéria de ter sido “denunciado” por Paulo Costa apenas para, no dia seguinte, publicar uma pequena errata dizendo que haviam errado e que Dutra nada tinha a ver com o caso.

Com isso, a mídia criou uma impressão de corrupção generalizada – mas só do lado que a interessa, já que sempre ignora qualquer denúncia contra a direita (cartel do metrô em SP, falta de planejamento da SABESP, mensalão tucano, compra de votos da reeleição de FHC, máfia dos sanguessugas, etc.). Aliás, quando noticia algo, é pra aliviar a barra: esta semana, o Jornal Nacional anunciou que a Procuradoria Geral da República arquivou denúncias contra Aécio no caso do aeroporto em Cláudio – mas deixou convenientemente de informar que a PGR disse apenas que não havia indícios de ilícito em esfera FEDERAL e que, por isso, encaminhou a denúncia pra Procuradoria Geral do Estado por ver indícios de IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA por parte do governo de Aécio.(2)

Assim, como a juventude pode se sentir livre para defender o projeto do governo se este é constantemente rotulado pela mídia brasileira como “o mais corrupto da história”? Um governo que, vejam só, criou diversos mecanismos justamente para investigar, coibir e punir a corrupção? (3) Com isso, só resta a opção de defender a oposição, cujos desmandos são varridos para debaixo do tapete, embora sejam inúmeros, de vulto infinitamente maior e, ao contrário do que ocorre com o governo Dilma, JAMAIS investigados apropriadamente.(4)

Isto tem um nome: despolitização. A mídia atira termos como “bolivarianismo” e “Foro de São Paulo” na cabeça do público e passa a vê-lo reproduzi-los sem terem ideia do absurdo que dizem. Como aqueles que afirmam, sem hesitar, que o filho de Lula se tornou multimilionário e é dono da Friboi, duas mentiras que, de tanto serem repetidas, se tornaram mantra de vários eleitores da oposição.

Já o segundo elemento que torna nossa juventude conservadora é o contexto. Ou melhor: a falta de. Quem tem menos de 25 anos cresceu num país pós-Lula. E, assim, se acostumaram a um país com problemas infinitamente menores do que aqueles que eu vi ao crescer. É uma juventude que compreensivelmente quer melhorias constantes, mas à qual falta a compreensão de que 500 anos de injustiças não são corrigidos em apenas 12 anos. É uma juventude que nunca leu nas capas de jornal que a fome estava matando um número trágico de crianças, que não viu milhares de indivíduos com curso superior fazendo fila pra um concurso de gari numa época em que o Brasil era o 2o pais do mundo em DESEMPREGO, que não viu os juros dos bancos atingirem 79% ao ano, etc, etc, etc. (5)

Infelizmente, estes jovens não se lembram de como o Brasil era antes da era Lula-Dilma. Mas eu lembro. Lembro do Plano Cruzado com suas donas-de-casa fiscais de preço; do confisco da bolsa; dos apagões de FHC e sua dependência do FMI (6). Lembro de quando FHC obrigou o país a racionar luz (7). Lembro da falta de oportunidades na educação pública (8). Da falta de universidades (9) (que poderia ser pior; já que ele cogitou acabar com as públicas) (10). Lembro da inflação (que tantos dizem que FHC controlou, mas que na realidade subiu descontroladamente no seu mandato).(11) Lembro da compra de votos pra reeleição (200 mil/deputado). (12) Lembro dos grampos telefônicos na era FHC.(13) Lembro do Engavetador-Geral da União, que, ao contrário do que ocorre hoje, não permitia que as denúncias fossem investigadas.(14) Lembro do vexame da “festa” dos 500 anos.(15) Lembro do 1,6 BILHÃO que FHC deu ao Marka/FonteCindam (e lembro do Cacciola).(16) Lembro do filho de FHC e seu envolvimento com a EXPO 2000.(17) Lembro do massacre no Eldorado dos Carajás.(18) Lembro da dengue descontrolada.(19) Lembro dos reajustes de 580% na telefonia.(20) Lembro do PIB ridículo.(21) Lembro dos mais de 2 BILHÕES de fraude na SUDAM de FHC.(22) Lembro de FHC chamando aposentados de “vagabundos”.(23) E o povo brasileiro de “caipira“.(24). Lembro de como Aécio, ao contrário do que afirmou recentemente, votou contra o aumento real do salário mínimo.(25) Lembro de como Aécio sabotou CPI sobre a má gestão tucana da Petrobrás em 2001, que resultou no afundamento de uma plataforma.(26) Lembro de Armínio Fraga, que Aécio anunciou como seu ministro da Fazenda, dizendo que o salário mínimo está alto demais.(27) Lembro de quando Armínio era presidente do Banco Central e elevou os juros básicos de 37% para 45%.(28)

Lembro, enfim, muito bem de como era este país até 12 anos atrás. Esta é a questão: não falo tanto de política porque gosto. Ao contrário: me dá dor de cabeça, me faz perder leitores e me prejudica profissionalmente.

Eu falo tanto de política porque preciso. Tenho dois filhos. Não quero pra eles o Brasil no qual cresci. Não quero retrocesso. E é por esta razão, por saber que tenho tantos leitores jovens, que me sinto na obrigação de passar a eles um pouco do que vivi e testemunhei. Porque acredito na generosidade da juventude e acredito que, quando forem lembrados de como este país era e do que se tornou, votarão com a consciência de que, depois de 500 anos de miséria e fome, os últimos 12 anos viram uma redução de 75% na pobreza extrema (imaginem isso!)(29), viram o Brasil sair PELA PRIMEIRA VEZ do mapa da fome da Onu (30) e também viram nosso país ser premiado por três iniciativas públicas pela mesma ONU (31).

E trazer estas informações para nossos jovens, em vez de apenas bombardeá-los com factóides e denúncias que sempre parecem surgir magicamente nas vésperas da eleição, não é ativismo político; é apenas ser responsável como cidadão.

—————————————-
FONTES:
1. http://articles.latimes.com/2013/mar/03/world/la-fg-brazil-hostile-media-20130304
2. http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/10/pgr-arquiva-representacao-contra-aecio-por-construcao-de-aeroporto.html
3. https://www.facebook.com/pablovillaca01/posts/576172119154685
4. http://top10mais.org/top-10-maiores-crimes-de-corrupcao-no-brasil/
5. http://fhcnao.blogspot.pt/2014/10/como-era-o-brasil-no-governo-do-psdb.html
6.http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u53074.shtml
7.http://www.ailtonmedeiros.com.br/o-racionamento-de-energia-na-epoca-de-fhc-segundo-a-veja/2013/01/14/
8.http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Educacao/Educacao-superior-em-Lula-x-FHC-a-prova-dos-numeros/13/16291
9.http://democraciapolitica.blogspot.com.br/2014/05/governos-pt-criaram-18-universidades.html
10.http://www.conversaafiada.com.br/politica/2014/05/15/fim-da-universidade-publica-fhc-obedeceu-ao-fmi/
11.http://diariodebordo.cinemaemcena.com.br//?p=3782
12.http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/palmeriodoria.html
13.http://pt.wikipedia.org/wiki/Esc%C3%A2ndalo_do_grampo_do_BNDES
14.http://socialistamorena.cartacapital.com.br/nos-tempos-do-engavetador-geral-refrescando-henrique-cardoso/
15.http://ocarlismo.blogspot.com.br/2012/10/acm-e-o-vexame-da-festa-dos-500-anos.html
16.http://www.midiaindependente.org/pt/red/2012/11/513752.shtml
17.http://www.dgabc.com.br/Noticia/160639/fhc-diz-que-gasto-de-rs-10-mi-em-hannover-e-modesto-?referencia=navegacao-lateral-detalhe-noticia
18.http://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_de_Eldorado_dos_Caraj%C3%A1s
19.http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff120101.htm
20.http://www.gazetadigital.com.br/conteudo/show/secao/60/materia/4561
21.http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/desconstruindo-fhc
22.https://www.dgabc.com.br/Noticia/182029/fhc-extingue-sudan-e-sudene-mas-investigacao-continua-?referencia=buscas-lista
23.http://www2.uol.com.br/JC/_1998/1205/br1205n.htm
24.http://www.quemdisse.com.br/frase.asp?frase=60989
25.http://www.viomundo.com.br/denuncias/maximiliano-garcez-aecio-votou-sim-contra-aumento-salario-minimo.html
26.http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2014/10/aecio-forca-campanha-com-petrobras-mas-abafou-cpi-do-naufragio-da-plataforma-p-36-5393.html
27.https://www.youtube.com/watch?v=kIiHuNM-jl0
28.http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi05039906.htm
29.http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2014/09/16/brasil-reduz-a-pobreza-extrema-em-75-diz-fao.htm
30.http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/sair-do-mapa-de-fome-da-onu-e-historico-diz-governo
31.http://www.onu.org.br/tres-iniciativas-brasileiras-vencem-premio-global-da-onu-de-servico-publico/

A Democracia Particular de Aécio Neves (ou “Os 66”)

postado em by Pablo Villaça em Política | 64 comentários

Eu escrevo.

É o que sei fazer. É minha profissão, minha terapia, minha principal forma de expressão e também a maneira com que defendo meus ideais.

Há quem discurse. Há quem se candidate a cargos públicos. Há quem troque socos. Eu escrevo.

Não que escrever sobre política seja minha principal ocupação – ou mesmo secundária. Em número absoluto de palavras, o Cinema certamente domina meus textos – tanto na forma de críticas e posts, como também nos roteiros que escrevi e dirigi e no livro que publiquei. Em segundo lugar, vêm os contos. Só então, os textos nos quais busco discutir minhas posições políticas.

Tenho algumas regras, porém: não me importo com a vida pessoal de quem quer que seja. Não aceito dinheiro para defender uma causa (não que jamais tenham oferecido). Não separo sujeito de verbo (esta regra deveria ser seguida por mais pessoas, mas divago).

Assim, foi com surpresa que, neste domingo, me descobri numa lista de 66 tuiteiros que o candidato à Presidência da República, sr. Aécio Neves, quer ver calados. De acordo com o processo no. 1081839-36.2014.8.26.0100, Neves exige que o Twitter entregue a ele os dados pessoais e sigilosos de 66 pessoas que mantêm contas naquela rede social – e duvido que o objetivo final seja encaminhar flores ou chocolates para cada um. Em outras palavras: um senador da República, ex-governador de Minas Gerais e um dos três principais presidenciáveis do país (ok, ele é o terceiro) está buscando intimidar cidadãos que se atreveram a criticá-lo.

Caro senador, como diriam os Corleone, “não é pessoal; são apenas negócios”.

Nunca escrevi, por exemplo, sobre os insistentes boatos envolvendo o político e o consumo de drogas – boatos tão comuns que já inspiraram gritos de torcida em estádio e levaram até mesmo um aspirante a comediante notoriamente reacionário e que certamente enxerga a candidatura de Aécio com bons olhos a fazer piadas em seu stand up sobre a fama do senador. E sabem por que nunca escrevi? Porque nunca vi Aécio Neves consumir drogas e jamais li uma notícia que trouxesse evidências inquestionáveis sobre isso. Sim, ele já foi filmado embriagado, já foi parado por blitz e se recusou a fazer teste do bafômetro, tendo sua carteira apreendida, e também deu uma entrevista recente à TV Estadão no qual cambaleava, trazia um olhar perdido e falava com dicção incerta, mas, embora eu possa questionar o bom senso de um candidato a presidente que se deixa flagrar embriagado em ao menos duas ocasiões (a entrevista ao Estadão poderia ser fruto de, sei lá, um efeito de medicamento para alergia), jamais me ocorreria questionar sua corrida presidencial a partir disso. Álcool não é ilegal e cada um faz o que quiser em seu tempo livre.

Não. O que realmente me preocupa com relação a Aécio Neves – e que já me inspirou, aí, sim, a escrever sobre sua candidatura – é sua gestão em Minas Gerais, estado no qual nasci, cresci e ainda resido. Eu me preocupo, por exemplo, com o fato de MG ser, entre os 26 estados e o Distrito Federal, apenas o 24o. em termos de gastos com Educação num balanço publicado em 2011 (Aécio deixou o governo ao fim de 2010). Eu me preocupo que sejamos também o 24o. estado nos gastos com Saúde. Eu me preocupo com o fato de a dívida pública de MG ser a 2a. maior e uma das mais caras do país. Eu me preocupo com os 4,3 bilhões de reais desviados da Saúde em MG, seja Aécio Neves réu na ação ou não (era o governador, afinal). Eu me preocupo com o aeroporto em Cláudio e outras questões relacionadas a ele (inclusive a possibilidade de ser rota para o tráfico). Eu me preocupo com o fato de haver um jornalista preso em MG há meses, sendo que seus advogados enfrentaram dificuldades para ter acesso ao processo e que a justificativa da juíza para mantê-lo na cadeia tenha sido (pasmem) a possibilidade de que ele viesse a publicar mentiras em seu jornal (uma justificativa ao melhor estilo Minority Report). E, não menos importante, me preocupa muito os relatos constantes de tentativas frequentes de censura ou retaliação a jornalistas que ousam criticar o ex-governador (e, ao final deste post, incluirei um doc produzido por um canal estrangeiro sobre o assunto e que, numa comprovação de que desconhece o conceito de “ironia”, Aécio tentou censurar).

Não creio que, como cidadão, eu esteja abusando de meus direitos ao abordar estes assuntos. Não enxergo, sinceramente, qualquer justificativa para que o senador, ex-governador e agora presidenciável recorra à justiça para tentar me intimidar.

No processo, Aécio alega que os tuiteiros (detesto essa palavra, mas vá lá) são provavelmente “robôs” ou perfis “remunerados para veicular conteúdo ilícito”.

Não sou advogado, mas isto me parece calúnia. Depois de 20 anos de carreira e de ser publicado em português e inglês em veículos que vão do Cinema em Cena ao site de Roger Ebert (desde quando era hospedado pelo jornal Chicago Sun-Times), ser chamado de “robô” é algo inédito para mim – bom, isto se não contar a minha namorada de adolescência que me acusou de dançar como um andróide e me traumatizou para o resto da vida, me impedindo de voltar às pistas de dança e frustrando meu sonho de me profissionalizar usando o pseudônimo de “Tony Mineiro”.

Além disso, venho de uma família para a qual a política é assunto muito, muito sério. Como já escrevi em outras ocasiões, minha mãe e meus tios lutaram contra a Ditadura e tenho parentes que carregam até hoje as sequelas das torturas sofridas nos porões malditos do DOI-Codi. Milito politicamente desde os 18 anos – nunca profissionalmente, mas, sim, de forma contínua. Se não ocorre a Aécio que alguém possa defender ideais apenas por amor, sinto por ele, mas é o que faço. Como já escrevi antes, eu me preocupo com o Brasil no qual meus filhos irão crescer. Esta motivação é suficiente para me manter ativo.

Mas, como dito no início deste post, minha ferramenta é a escrita. Não tenho uma fortuna para investir em marketing pessoal ou para propagar minhas ideias. Não tenho poder político para influenciar legisladores ou quem quer que seja. Escrevo porque preciso, porque amo escrever e porque é minha maneira de tentar ser escutado e de compartilhar minhas preocupações. Depois de duas décadas escrevendo, tenho um número considerável de leitores e me orgulho não só disso, mas do carinho com que estes leitores me presenteiam continuamente.

Já Aécio tem, à sua disposição, armas como dinheiro e poder político. E é preocupante que, apenas por ser criticado (e é, afinal, uma pessoa pública que quer gerir o futuro do país), ele tente usar suas ferramentas para me impedir de usar a minha.

Retórica vazia, egoísmo completo

postado em by Pablo Villaça em Política | 30 comentários

Hoje, um ex-aluno e leitor veio dizer, no Twitter, que “não consegue confiar no governo federal” e que este “não fez nada em quatro anos que inspirasse confiança”. Pedi que fosse mais específico em suas críticas, já que é impossível esclarecer o que quer que seja quando alguém se entrega a generalizações. A resposta dele? “As jornadas de junho comprovam” e pronto.

Suspiro.

Pra piorar, mesmo não apresentando um único argumento que sustentasse sua posição, ele imediatamente disse que eu defendia “cegamente” o governo. É o tipo de retórica mais canalha que existe: você ataca, ataca, ataca (mesmo sem argumentos); quando o outro defende, ELE é o “radical”, o “cego”.

Sabem qual é o problema desses coxinhas? Eles não podem dizer o que querem de verdade: “O governo pensa mais nos pobres do que em mim!”, então precisam ficar inventando desculpa. “Podia estar melhor”, “O ‘mercado’ não quer Dilma”, blablabla. Não sabem o que foi viver no Brasil na era FHC. Não sabem o que era o desemprego que levava gente com curso superior a fazer prova pra gari. Não sabem o que é ter que escolher entre almoço e jantar – com sorte. O que é um moleque de 9 anos ter que trabalhar pra ajudar em casa. Nao sabem o que era estudar numa universidade federal sucateada e sob ameaça constante de privatização. Não sabem o que era viver de um salário mínimo que não dava pra comprar UMA cesta básica (hoje compra mais de duas). Então ficam no “blablajornadasdejunhoblablamensalãofoiopiorcasodecorrupçãodahistóriablabla”.

Sejam honestos, porra! Digam: “PENSO SÓ EM MIM”.

Não falem de corrupção pra atacar um governo que fez o que FHC e o PSDB não fizeram e não fazem: permitiu investigação. É MUITO FÁCIL bancar o honesto quando se mantém a imprensa amordaçada. Foi só sair de MG que os podres de Aécio começaram a surgir. Aliás, surgir FORA de Minas, porque aqui os principais jornais continuam calados.

Estou cansado de ter que rebater retórica vazia. Como seria bom ter uma oposição que pensasse, que permitisse debate de igual pra igual. Em vez disso, tenho que passar raiva ouvindo gente falar de “mensalão” e perguntando “quando PT vai devolver dinheiro público”. QUE DINHEIRO PÚBLICO? MESMO aceitando que mensalão foi compra de votos (e não foi; foi caixa 2), não houve dinheiro público envolvido. Dinheiro público foram os 100 BILHÕES que a privataria custou ao nosso patrimônio. Mas isso esses idiotas preferem ignorar.

Chega uma hora em que isso começa a cansar.

Ok, eu oferecerei alguns argumentos, mesmo que ele não tenha conseguido:

PIB em bilhões de reais
2002 – 1.477
2013 -4.837
Fonte IPEA

Falências requeridas
2002 -19.891
2013 – 1.758
Fonte IPEA

Inflação
2002 – 12,53%
2013 – 5,91%
Fonte IPEA

Desemprego % mês dezembro
2002 – 10,5
2013 – 4,3
Fonte IPEA

Juros selic
2002-24,9%
2013-11%
Fonte IPEA

Divida pública % do PIB
2002-60,4%
2013-33,8%
Fonte ANDIFES

Salário mínimo em reais
2002- 364,84
2014-724,00
Fonte IPEA

Taxa de pobreza %
2002-34%
2012-15%
Fonte IPEA

IDH
2000-0,669
2005-0,699
2012-0,730
Fonte Estadao

Reservas cambiais em bilhões
2002-38
2013-375
Fonte IPEA Banco mundial

Gastos públicos saúde
2002-28bi
2013-106bi
Fonte orçamento federal

Gastos públicos educação
2002-17bi
2013-94bi
Fonte orçamento federal

Risco Brasil
2002-1.446
2013-224
Fonte IPEA

Economia mundial
2002-14a economia mundial
2013-6a economia mundial.

E mais: como lembrou um leitor, entre 1994 e 2002, houve apenas 48 operações da Polícia Federal; entre 2003 e 2012, houve 1.273 operações, com mais de 15 MIL presos. Em 2003, a Justiça Federal tinha 100 varas pelo país; em 2010, já tinha 513.

Às vezes, penso que Lula e Dilma não deveriam ter dado independência à PF e à Procuradoria-geral. Parece que o pessoal preferia antes, quando nada era investigado e ninguém era punido.

Mas nem seria necessário citar todos esses dados. Como lembrou outro leitor, só por ter reduzido a miséria no Brasil PELA METADE este governo já foi revolucionário e mereceria todos os aplausos do mundo.

Em vez disso, porém, sou obrigado a escutar retórica vazia, sem base e calcada no preconceito e no mais intenso elitismo.

E – VEJAM QUE BELEZA – AINDA ME PREJUDICO PROFISSIONALMENTE, perdendo leitores.

“Eu gostaria mais do Pablo se ele falasse só de Cinema”.

E eu seria mais feliz se pudesse fazê-lo. Mas sou cidadão em primeiro lugar. E me recuso a ficar calado e contribuir, por inação, para que o país retroceda nas mãos daqueles que por décadas só se preocuparam em encher os próprios bolsos e em ignorar as necessidades de uma população que merece muito mais do que só uma refeição miserável ao dia.

Autópsia de um Boato

postado em by Pablo Villaça em Política, Variados | 99 comentários

Durante os últimos meses, a CBF (Central de Boataria do Facebook) espalhou imagens e textos apócrifos afirmando que o Brasil comprara a Copa como maneira de manter o povo artificialmente feliz e, assim, beneficiar (claro) a presidente Dilma Rousseff. Eram boatos patéticos, obviamente fabricados por uma direita que vem se especializando cada vez mais em disseminar o ódio e a desinformação através de perfis como “TV Revolta” e de uma rede de comentaristas pagos (informação da Foxlha de São Paulo) para povoar qualquer espaço interativo com ataques ao governo federal.

Pois bem: o Brasil perdeu. E feio. E agora?

Simples: espalhem boatos de que o Brasil vendeu a Copa. 

Nas últimas 24 horas, recebi o texto abaixo através de whatsapp, facebook e email. O mais inacreditável é que, em alguns casos, leitores me enviaram o texto perguntando se a “informação” ali contida poderia ser verdadeira. Por um lado, confesso que me espantei que alguém pudesse sequer cogitar que o texto fosse verídico, tamanha sua estupidez; por outro, preciso admirar o cuidado com que as informações foram construídas justamente para tentar convencer os mais ingênuos ao criar uma plausibilidade superficial e, principalmente, ao compreender os aspectos emocionais dos leitores-alvos – algo que analisarei logo abaixo apenas como um exercício para que possamos compreender melhor a lógica por trás deste gerador de boatos.

Primeiro, o texto:

“Talvez, isso explique a razão do jogador Maxwell ter declarado a seguinte frase: ‘Se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo, ficariam enojadas’.

Todos os brasileiros ficaram chocados e tristes por terem sido eliminados a Copa do Mundo de futebol, no Brasil. Não deveriam. O que está exposto abaixo é a notícia em primeira mão que está sendo investigada por rádios e jornais de todo o Brasil e alguns estrangeiros, mais especificamente Wall Street Journal of Americas e o Gazzeta delo Sport e deve sair na mídia em breve, assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos.

Fato comprovado: O Brasil VENDEU a copa do mundo para a Fifa. Os jogadores titulares foram avisados, às 13:00 do dia 08 de Julho (dia do jogo contra o Alemanha), em uma reunião envolvendo o Sr. José Maria Marin (na única vez que o presidente da federação brasileira compareceu a uma preleção da seleção), o Técnico Scolari e o Presidente da FIFA, Joseph Blatter. Os jogadores reservas permaneceram em isolamento, em seus quartos ou no lobby do hotel. A princípio muito contrariados, os jogadores se recusaram a trocar o hexa-campeonato mundial por sediar a Copa do Mundo em 2022 novamente.

A aceitação veio através do pagamento total dos prêmios, US$700.000,00 para cada jogador, mais um bônus de US$400.000,00 para todos os jogadores e integrantes da comissão, num total de US$ 23.000.000,00 vinte e três milhões de dólares) através da FIFA. Além disso, os jogadores que aceitarem o contrato com a empresa FPAR nos próximos 4 anos, terão as mesmas bases de prêmios que os jogadores de elite da empresa, como Cristiano Ronaldo e Messi.

Mesmo assim, William se recusou a jogar, o que obrigou o técnico ‘Felipão’ a escalar o jogador Bernard, dizendo que havia escalado o jogador do Chelsea no treino apenas para confundir os jornalistas alemães.

A sua situação só foi resolvida após o representante da FPAR ameaçar retirar seu patrocínio vitalício ao jogador, avaliado em mais de US$90.000.000,00 (noventa milhões de dólares) ao longo da sua carreira.

Assim, combinou-se que o Brasil seria derrotado durante o segundo tempo, porém a apatia que se abateu sobre os jogadores titulares fez com que a Alemanha, que absolutamente não participou desta negociação, marcasse, em sete falhas simples do time do país sede da copa.

O Sr. Joseph Blatter, presidente da Fifa, cidadão franco-suíço, aplaudiu a colaboração da equipe brasileira, uma vez que o campeonato mundial trouxe equilíbrio à copa do mundo e evitou que o Brasil se distanciasse das demais seleções.

Garantiu que a seleção canarinho teria seu caminho facilitado para o hexa-campeonato de 2018. Por gentileza passem esta mensagem para o maior número possível de pessoas, para que todos possam conhecer a sujeira que ronda o futebol! Desde, já agradeço, Um abraço.

FONTE: Gunther Schweitzer Central Globo de Jornalismo.”

Ai, ai.

Em primeiro lugar, a pergunta óbvia: quem é Gunther Schweitzer? Ele existe? Trabalha para a Globo?

Sim, existe. Não, não trabalha.

O nome de Schweitzer é conhecido dos fãs de futebol por ter sido associado à denúncia sobre a final de 1998 em um email espalhado durante a Copa de 2002. Ora, então Schweitzer certamente é alguém que conhece os bastidores do futebol e já vem tentando expor seus podres há anos, correto? Errado. O sujeito é um simples personal trainer que, em 2002, recebeu um email apócrifo com a denúncia e a passou pra frente, cometendo o equívoco de deixar sua assinatura automática ao fim do texto – o que bastou para que se tornasse um funcionário da “Central Globo de Jornalismo” e fonte extremamente confiável daqueles que acreditam em conspirações. Aliás, quem conta isso é o próprio Schweitzer nesta entrevistaque levei exatamente três segundos para encontrar através do Google.

Muito bem: desmascarada a “fonte”, vamos ao texto em si para que possamos perceber como a manipulação traz uma certa “ciência” em sua construção narrativa.

Apostando já na desconfiança natural que todos temos com relação à CBF e à FIFA, o texto tem início com uma citação – um recurso dissertativo clássico para estabelecer desde o início um tom de verossimilhança: se alguém disse algo publicamente, deve ser verdade. Em outra busca rápida no Google, é fácil perceber, contudo, que a tal fala é atribuída a jogadores como Maxwell, Leonardo, Thiago Silva, Cafu, Roberto Carlos ou qualquer outro que se encontre mais célebre no momento. Mas as aspas trazem ao texto um suposto peso de denúncia por parte de quem sabe o que fala – e este é o objetivo.

A seguir, o autor usa um recurso psicológico e emocional tão básico que, confesso, me espanta que a maior parte dos leitores não perceba sua artificialidade: ao dizer que “Todos os brasileiros ficaram chocados e tristes por serem eliminados da Copa”, o propósito óbvio é estabelecer uma conexão, um vínculo, uma cumplicidade com o leitor. “Veja, estou triste como você. Sou brasileiro como você. Nossas emoções foram manipuladas; sofremos sem precisar, meu amigo!”. Com isso, o autor traz o leitor para perto de si, como se dividisse não só sua dor, mas fosse também uma vítima inocente que, por acaso, descobriu o que realmente aconteceu – uma informação que ele agora compartilhará, de amigo para amigo, com você, permitindo que descubra também o que se passa por trás das cortinas.

“O que está exposto abaixo é a notícia em primeira mão que está sendo investigada por rádios e jornais de todo o Brasil e alguns estrangeiros, mais especificamente Wall Street Journal of Americas e o Gazzeta delo Sport e deve sair na mídia em breve, assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos.”

Aqui há um misto de esperteza e profunda tolice. A “esperteza” é citar órgãos de imprensa conhecidos e respeitados, conferindo credibilidade à confidência (tudo bem que “dello” é grafado incorretamente, mas ignoremos). A tolice é tentar convencer o leitor de que este lerá “em primeira mão” algo que está sendo “investigado”. Ora, o princípio mais básico de uma investigação jornalística é o sigilo: apure, comprove e depois publique. Acreditar que uma investigação tão grave quanto esta seria publicada em forma de denúncia “em primeira mão” exige não só ingenuidade, mas desconhecimento total de como o jornalismo opera.

Por outro lado, é preciso aplaudir a construção da frase “assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos”, já que esta planta, de maneira relativamente sutil, a ideia de que estamos lidando com fatos e de que é uma questão de tempo até que as “provas” os comprovem.

“Fato comprovado: O Brasil VENDEU a copa do mundo para a Fifa.”

Afirmação veemente. Não duvide. Está escrito, então é verdade. (Vocês se surpreenderiam com o número de pessoas que aceitam algo como verdade apenas porque leram.)

A partir daí, a “denúncia” traz detalhes da negociação – e ao envolver nomes como os de Marin e Blatter, que já despertam suspeitas em função das várias denúncias reais ligadas às suas ações, o texto pega emprestada a credibilidade das investigações verídicas feitas sobre ambos. E isto é de uma imensa canalhice, já que, por tabela, acaba fragilizando-as com a própria mentira.

Os elementos que se seguem beiram o ridículo: os reservas foram mantidos à distância, os titulares inicialmente se mostraram “muito contrariados” e… ah! Jogada ao acaso, quase que como um detalhe, a motivação para que vendêssemos a Copa: a possibilidade de sediarmos o evento novamente em 2022. Novamente o texto usa um escândalo real (a possível manipulação na eleição do Qatar como sede) para seus próprios objetivos, o que, de novo, é profundamente desonesto e ainda compromete a percepção pública acerca de denúncias reais que mereciam ser levadas a sério.

O texto, então, explica que cada jogador receberá 700 mil dólares para vender o jogo – e se considerarmos o salário médio da seleção, é divertido imaginar que os atletas aceitariam entregar a Copa por algo que, comparado aos seus ganhos normais, é quase uma esmola (daí a tentativa de tornar a coisa mais plausível através da oferta de um “contrato com a empresa FPAR”). O texto não se preocupa em explicar, porém, o que acontecerá com os jogadores que não “aceitarem o contrato”. Serão executados numa queima de arquivo?

Há, ainda, detalhes sobre uma possível recusa de William (jogando com a imagem de bom garoto que ele ganhou não só pela pouca idade, mas pelos comerciais de guaraná que narravam sua trajetória) e outras bobagens sobre como a “apatia” dos jogadores explicaria o placar final – o que, mais uma vez, é um recurso psicológico curioso ao trazer certo conforto aos torcedores inconformados com um resultado tão humilhante. “Claro que tinha que haver uma explicação para a goleada! O Brasil jamais perderia de sete a um!”.

A denúncia encerra com a “fonte” (cof-cof) e com um pedido para que as “informações” ali contidas sejam espalhadas. Não custa nada passar um email adiante, custa? Especialmente se este traz, no início, um “Será?” que indica que você não está comprando totalmente a ideia (claro que não! Você é um cético, é racional, questionador!), mas, como cidadão, acha importante repassar a denúncia.

O problema é que não é “importante”. Ao contrário: é extremamente prejudicial, tóxico, destrutivo. É contribuir para um clima de instabilidade que atrapalha o país como um todo, beneficiando apenas aqueles que têm a ganhar justamente com esta desestabilização. Ser cidadão não é “repassar denúncias”; é agir responsavelmente, como adulto, em vez de contribuir, através da própria apatia, para o projeto político de quem quer que seja.

E, na dúvida, vá ao Google. É fácil, te poupa do embaraço e te blinda contra a manipulação.

Passe esta mensagem para o maior número de pessoas. Desde já agradeço.

Fonte: Pablo Villaça, Cinema em Cena