Política

O deputado e o ursinho

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 75 comentários

Tornou-se clichê usar o belo poema de Eduardo Alves da Costa, escrito como desabafo libertário diante da ditadura militar, mas é inevitável pensar neste trecho de “No Caminho com Maiakóvski” diante de certas manifestações de autoritarismo cultural que vêm acontecendo no Brasil com frequência cada vez mais alarmante:

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

Este é o problema em ser seletivo ao decidir quais batalhas se quer lutar em uma guerra – se você abandona umas e abraça outras, não está realmente defendendo seu lado; está comodamente lutando apenas em causa própria.

Pois minha causa é a de liberdade absoluta para a Arte, aprovando ou não seu conteúdo. Desprezei profundamente Um Filme Sérvio; isto não me impediu de defendê-lo a ponto de escrever sobre sua proibição, ajudar a organizar e participar de uma exibição pública e de um debate ao seu respeito. Considero Rafinha Bastos uma das piores coisas que o humor nacional já produziu, mas protestei quando seu DVD foi proibido pela justiça de São Paulo. O que me motivou a fazer tudo isso foi a certeza de que eram os primeiros passos para que a ideia de censura voltasse a circular aos poucos entre os brasileiros – e era apenas uma questão de tempo até que representantes eleitos democraticamente começassem a vomitar o desejo de proibir outras obras baseados puramente em seu gosto pessoal.

Entra Protógenes Queiroz, delegado da PF, deputado federal e um sujeito que, até então, vinha colhendo elogios por sua postura inabalável de combate à corrupção. Provando que o ser humano é a mais complexa das criaturas e que o mesmo homem que representa uma bandeira fundamental pode meter o pé em outra igualmente imprescindível, o deputado decidiu que era o momento de usar sua posição para defender a censura.

O caso, porém, começa de forma patética, digna de umas das notícias falsas publicadas pelo Piauí Herald: depois de levar o filho de 11 anos de idade para assistir ao longa Ted, de Seth MacFarlane, Protógenes, chocado com o que viu, decidiu agir como um fã de Restart e xingar muito no Twitter:

Foi o primeiro passo de uma cruzada pessoal cuja etapa seguinte foi uma matéria no Estadão que, esta sim, parece ter saído do The Onion brasileiro: com o título “Deputado quer proibir filme de ursinho viciado” (ok, podem rir), o texto traz as seguintes pérolas:

“O deputado, também delegado da Polícia Federal, criticou os Ministérios da Justiça e da Cultura por terem liberado o filme para maiores de 16 anos. “Não poderia ser liberado nem para 16 nem para 18 anos. Esse filme não pode ser liberado para idade nenhuma. Não deve ser veiculado em cinemas”, afirmou. Protógenes disse que, como deputado, pedirá explicações dos dois ministérios sobre a liberação do filme.”

Em primeiro lugar, o óbvio: depois de se ver numa situação constrangedora ao levar o filho de 11 anos para assistir a uma obra cuja classificação indicativa era “16 anos”, Protógenes resolveu descontar o embaraço que sentiu na própria democracia. Assumindo o papel de um juiz Dredd da moral e dos bons costumes, ele assistiu ao filme, avaliou o material e decidiu que ninguém mais deveria ter o direito de vê-lo. “Esse filme não pode ser liberado para idade nenhuma”, sentenciou do alto de sua visão megalomaníaca de mundo. E, dentro desta lógica, não hesitou em “pedir explicações” sobre a “liberação do filme”.

A explicação é simples, deputado: o Brasil voltou a ser uma democracia. Não temos mais, felizmente, um comitê central que decide arbitrariamente, a partir de critérios morais, religiosos e/ou ideológicos, o que o resto do país pode ou não ver. Para o bem ou para o mal, somos tratados como adultos pelo governo (ao menos neste aspecto), não como crianças que devem ser orientadas com relação ao que devem consumir culturalmente.

Mas Protógenes prossegue em seu show de embaraço ao alegar que o filme “instrui o espectador a não estudar e a não trabalhar”. Ora, mesmo que isto fosse verdade (e não é; o modo de vida de Ted e seu dono é claramente retratado como empecilho para o crescimento da dupla, demonstrando que o deputado não sabe sequer interpretar uma obra), que ideia absurda é esta de que um longa consegue “instruir” alguém a fazer algo? Se uma pessoa decide se tornar consumidora de drogas porque viu isto num filme, seu problema já antecedia a ida ao cinema; era uma questão de caráter, imaturidade ou insanidade, não de um longa-metragem perverso agindo sobre sua mente.

Porém, a experiência do parlamentar se torna realmente hilária quando ele relata:

“Protógenes disse que o filho perguntou se ele queria ir embora. “Respondi que não. Queria ver até onde ia aquele desrespeito.””

Recapitulemos: o filho de 11 anos de idade perguntou se ele queria ir embora. E ele disse “não”.

Mas a culpa é do filme, não de sua falha como pai.

A sessão de embaraço termina com este pequeno momento de surrealismo:

“Protógenes disse ainda que ficou indignado ao ver um herói de sua juventude – Flash Gordon – usando cocaína.”

E aí começo a entender a lógica (ou falta) de Protógenes: para alguém que aparentemente acredita que Flash Gordon é real e cocainômano, é realmente difícil estabelecer o limite entre ficção e realidade.

Insanidades à parte, porém, a postura do deputado é perigosíssima: muitos de vocês talvez não se lembrem, mas eu ainda me recordo de uma época em que obras de arte eram impedidas de chegar aos brasileiros por quaisquer motivos arbitrários alegados pela Censura – e não foi um período bonito, acreditem. A arrogância de Protógenes, aliás, é tamanha que ele não hesita em escrever como se estivesse de fato falando em nome de todos os brasileiros:

 A melhor parte para mim, claro, é o fato de ele protestar contra os “enlatados culturais americanos”… via twitter for iPad. 

Dito isso, o tempo verbal “Não aceitamos” é de uma arrogância assustadora – e preocupante. Assim como é alarmante perceber como Protógenes se encontra tão convencido de seu papel como juiz do que o povo brasileiro merece ou não ver que não se dá conta de contradições patentes em sua postura como “defensor da democracia”. Ora, no dia 23 de setembro, o deputado publicou o seguinte tweet:

“Não concordo com a restrição a (sic) liberdade de expressão”. Perfeito, Protógenes. Sua postura é admirável. Aliás, sabe para quem você deveria ensiná-la? Para o Protógenes 24 horas mais velho:

Espero que vocês se entendam, pois certamente parecem ter visões bastante conflitantes de mundo. A propósito: aproveite que irá conversar com ele e envie um recado por mim, por gentileza: diga a ele que a imagem que exibe no cabeçalho de seu blog pessoal é uma das mais honestas que já vi no espaço oficial de um parlamentar. Deprimente, claro, mas ainda assim honesta.

A Foxlha quer Lacerda em BH

postado em by Pablo Villaça em Política | 31 comentários

Eu nem vou acrescentar nada à discussão. Normalmente, não posto links no blog sem comentá-los de alguma maneira, mas… desta vez, não julgo ser necessário: a imagem já grita por si mesma.

Para resumir: no dia 31 de agosto, Lula voltou aos palanques ao apoiar publicamente a eleição de Patrus em Belo Horizonte (uma mudança que considero fundamental, já que o higienista Márcio Lacerda é um dos piores prefeitos que esta cidade já enfrentou). No dia seguinte, sábado, a Foxlha publicou em sua capa uma foto de Lula e Patrus durante o comício. Porém, se você mora em Minas Gerais, viu, em vez disso, uma foto de Clint Eastwood e Obama (de costas!) – algo, convenhamos, absolutamente irrelevante para nossa realidade. O motivo? Como sempre buscando beneficiar os tucanos e ciente de que a eleição em BH é absurdamente importante para o PSDB, que está prestes a enfrentar uma derrota imensa em seu reduto tradicional, São Paulo, o jornal enviou uma versão alternativa para o estado de Aécio Neves, substituindo a emblemática imagem de Lula e Patrus pelas tolas fotos de Eastwood e Obama.

Teoria conspiratória? Ora, respondam: se havia um lugar no qual a notícia sobre Lula e Patrus seria incrivelmente relevante e até capaz de alavancar vendas do jornal, qual local seria este? E por que a Foxlha, ainda assim, optou por escolher Minas Gerais para lançar uma versão alternativa sem a imagem do ex-presidente com nosso ex (e, espero, futuro) prefeito?

(via Maria Fro)

18 de março de 2012…

postado em by Pablo Villaça em Política | 20 comentários

… PT fecha com reeleição de Márcio Lacerda e, como partido, morre para mim.

Desabafo de um secularista preocupado

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 82 comentários

Marcelo Crivella é o novo ministro de Dilma – e, com isso, a bancada evangélica ganha oficialmente um cargo importante no governo (ênfase no “oficialmente”). Não sei nem como expressar meu profundo desapontamento com a presidenta – e vocês sabem que poucos fizeram tanta campanha por ela como eu. Assim, me espanta que dilmistas fundamentalistas tentem justificar a nomeação de Crivella dizendo que “o Ministério da Pesca é irrelevante” ou que “Crivella não é Malafaia”. Ora, como bem apontou um leitor no Twitter, Crivella pode não ser espalhafatoso como seu colega “pastor”, mas foi igualmente instrumental na derrota da PLC 122, que buscava barrar a homofobia.

O fato é que a presença de Crivella fortalece os teocratas – e esta é uma ameaça real e crescente. A bancada evangélica vem comendo o poder pelas beiradas e muitos parecem não perceber a estratégia. Há dez anos, se alguém tentasse apresentar uma lei que tornasse a oração compulsória em escolas públicas, seria rechaçado ou encarado como louco. Hoje, em Ilhéus, isto já é realidade. Logo a obrigação se espalhará para outras cidades e, antes que percebamos, será federalizada. É assim que eles agem; apresentam hoje uma lei que é encarada como absurda (permitir que crianças sejam educadas em casa – o que impedirá que aprendam sobre Evolução e outros conceitos rechaçados pelos evangélicos -; legalizar a “cura” da homossexualidade) sabendo que enfrentarão protestos – mas cientes de que, ao voltarem a apresentá-las com pequenas modificações em algum tempo, serão recebidos com menores objeções. Com isso, aos poucos vão transformando seus dogmas e preconceitos em legislação. 

E é assim que nasce uma teocracia.

Mas a estratégia da bancada evangélica é ainda mais covarde: quando diante de protestos mais contundentes, imediatamente invoca a “liberdade religiosa” para defender suas posturas de intolerância e rematada ignorância, buscando atirar sobre seus oponentes um rótulo que descreve perfeitamente aquilo que eles mesmos fazem o tempo inteiro: o de preconceituosos e intolerantes. 

O perigo é crescente: os evangélicos são organizados politica e financeiramente (com direito a isenção de impostos), sendo beneficiados também por poderem contar com um pensamento de manada que move suas bases: os fiéis/eleitores. Acostumados a aceitar a palavra dos “pastores” (sempre entre aspas, por favor) como verdade absoluta e a Bíblia como manual de instruções da vida, estes seguidores representam um contingente eleitoral quase imbatível – e enquanto os secularistas (ou simplesmente aqueles que, mesmo religiosos, acreditam na separação entre Igreja e Estado) não se organizarem e perceberem que estamos travando uma batalha por nossa liberdade, estes religiosos continuarão a ganhar mais e mais poder político.

Se nao fizermos nada, em 10 anos viveremos num país em que a oração é obrigatória em todas as escolas, gays são internados pra tratamento “corretivo”, o criacionismo é ensinado nas escolas, filmes e séries com “mensagens satânicas” são banidos, as pesquisas cientificas são limitadas por dogmas religiosos e assim por diante. Acham exagero? Leiam os jornais e acompanhem a atuação da bancada evangélica e dos “pastores”. Tudo que descrevi é defendido por eles.

Quanto à tal “liberdade religiosa”, não se iludam: assim que os parlamentares evangélicos se fortalecerem o suficiente, descobriremos que “liberdade religiosa” significa abaixar a cabeça pra eles – e isto incluirá membros de inúmeras outras denominações religiosas, de católicos a espíritas. A imagem do “pastor” chutando a estátua de uma santa não deve ser esquecida; os “pastores” evangélicos tratam os demais credos como aberrações. E sei que logo surgirão fiéis dizendo que não são assim, que estou me referindo a exceções em sua religião, mas o fato é que estas “exceções” são justamente os líderes de suas organizações – e não é possível dizer que um grupo é inocente quando praticamente todos os seus cabeças têm sangue nas mãos.

Acreditem: lamento muito não conseguir ficar calado diante desta ameaça real. Profissionalmente, seria muito mais inteligente me abster. Perco leitores ao me manifestar – não só evangelicos não fanáticos, mas outros que queriam apenas ler sobre cinema. Sei disso. E repito: sinto por isso. Mas antes de tudo, sou cidadão. E antes de ser cidadão, sou pai. E não quero ver meus filhos crescendo numa teocracia.

Caminhamos pra isso.

A situação na Bahia

postado em by Pablo Villaça em Política | 89 comentários

A greve faz parte das ferramentas democráticas de pressão trabalhista. É um recurso extremo, claro, mas legítimo. E também é fato que os policiais brasileiros historicamente recebem mal em uma profissão que exige muito – e mesmo que estejamos falando de uma categoria imprescindível para o bom funcionamento da sociedade, negar a eles o direito de greve é absurdo. O ideal, obviamente, é que um acordo seja alcançado através de negociações, mas impedi-los de usar um recurso tradicional do sindicalismo mundial seria inaceitável.

Dito isso, não se faz greve com armas na mão. Da mesma maneira que os PMs têm o direito de greve, têm também que seguir as regras que valem para todos – e qualquer grevista que disparasse tiros para o alto seria imediatamente preso.

Não é possível exigir que o governador da Bahia, petista ou não, negocie com manifestantes armados. E é preciso, também, avaliar o histórico do movimento dos PMs para entender o que está acontecendo agora no estado governado por Jacques Wagner: há um movimento nacional dos PMs para equiparar os salários em todo o país àqueles praticados em Brasília (a PEC 300). A Bahia não foi o primeiro palco de manifestações neste sentido – e todos os envolvidos nos procedimentos sabem que o Rio de Janeiro provavelmente será o alvo seguinte dos manifestantes. Mais do que isso: bombeiros e outros integrantes da PM de outros estados já foram identificados nas manifestações na Bahia, o que comprova a ideia de um movimento conjunto amplo e ambicioso. Isto não é problema – quanto mais organizada for uma classe, melhor.

O problema é a maneira como a greve foi iniciada e conduzida.

A associação comandada por Marco Prisco (ASPRA) não é a única representação dos militares – e possivelmente nem mesmo a mais significativa. Além disso, Prisco tem um histórico de confusões, não sendo acaso o fato de ter sido expulso da PM em 2001, entrando com processo para ser reincorporado (algo que, salvo engano, continua em andamento). Para piorar, há fortes indícios de que Prisco esteja usando a causa dos militares com propósitos partidários (ele é filiado, vejam bem, ao PSDB) – e estes indícios estão diretamente relacionados à maneira com que a greve foi iniciada: na última terça-feira, os representantes da ASPRA foram à governadoria e apresentaram oficialmente sua pauta de reinvidicações para a classe. Ótimo. A etapa seguinte seria a abertura de negociações sob a ameaça de uma greve caso as exigências não fossem atendidas.

No entanto, assim que saíram da governadoria, os representantes foram para a Assembleia Legislativa e a ocuparam.

Opa, há algo errado aí, não? Como é possível que a associação apresente suas reinvidicações num instante para, no minuto seguinte, iniciar uma greve com direito à ocupação de um prédio público? Onde está o tempo para que o governo avalie o que foi exigido e negocie com a classe? E como um movimento pode iniciar suas ações já ocupando um prédio público, sem qualquer tipo de ação prévia?

Para piorar, os ocupantes encontravam-se armados, o que é impensável e inaceitável. 

E foi aí que começaram ações aparentemente aleatórias de terror público: homens encapuzados invadindo e tomando ônibus para atravessá-los em via pública e disparando tiros contra vidraças de bancos e lojas.

Que assaltante ou bandido faz isso? Como pode ser que mercadinhos no subúrbio sejam incendiados (sempre por homens encapuzados) e nada seja roubado? Sim, há muitos indícios de que elementos ligados à manifestação sejam os responsáveis por estas ações – evidências tão fortes, aliás, que o governo decretou a prisão de 12 destes indíviduos. 

E agora Prisco e seus seguidores exigem a anistia destes homens (e não à toa, já que o próprio Prisco é um dos que tiveram sua prisão preventiva declarada). Mas como um governador poderia: 1) negociar com grevistas armados e 2) anistiar homens que atiraram em vidraça de banco? Só o precedente que seria aberto já comprometeria qualquer negociação durante os próximos cem anos.

Não é à toa, aliás, que a maioria dos policiais militares baianos não aderiu ao movimento. E tampouco é acaso que o governo federal tenha se envolvido imediatamente a pedido de Wagner – se as estratégias criminosas de Prisco funcionarem na Bahia serão exportadas para todo o país (e não se iludam quanto a isso), a começar pelo Rio de Janeiro. 

Não há como justificar um movimento que usa crianças como escudo humano, dispara tiros para o alto durante ato de greve e que tem como cabeça um indivíduo politicamente motivado e que não hesita em ameaçar o terror em interesse próprio.

Vale lembrar, ainda, que as PMs de Jequié e Ilhéus fizeram manifestações recentemente, mas com respeito ao patrimônio público, à ordem e à Lei. O que está acontecendo na Bahia, então, não é indicativo de um comportamento generalizado da corporação, mas de algumas centenas de policiais que parecem seguir cegamente o líder errado. 

Um líder que, com seus 800 companheiros armados, tornou-se o general de um pequeno exército. E não é assim que uma manifestação trabalhista deve funcionar numa democracia moderna como a nossa.

Democracia é mais do que uma simples questão de gosto

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 28 comentários

Não gosto de Rafinha Bastos. Não como pessoa, pois não o conheço (embora, pelo estilo de suas piadas, tampouco queira conhecer), mas como humorista. Considero-o dono de um humor óbvio, juvenil (no pior sentido) e que aposta no simples choque para provocar o riso – e escrevi sobre isso há algum tempo neste post. Assim, vê-lo sem espaço na televisão, confesso, me agradou. Não por um sentimento cínico de “revanche”, mas porque é sempre bom ver alguém medíocre perdendo espaço na mídia (e agora resta apenas torcer pelo fim do Zorra Total, do BBB, do… desisto.)

Hoje, porém, li a notícia de que o novo DVD do comediante havia sido “proibido pela Justiça de São Paulo”. O motivo: piadas (ou, conhecendo Bastos, “piadas”) feitas sobre deficientes físicos e mentais.

Em primeiro lugar, não é surpresa que estes sejam os alvos do “humorista”: Rafinha Bastos notoriamente prefere ridicularizar alvos fáceis. Como se não bastasse, suas tiradas frequentemente confundem ofensa e humor, já que ele parece acreditar que ser “politicamente incorreto” é o bastante para ser relevante e inteligente. Não é; o que importa é como você expressa esta natureza “politicamente incorreta”. 

Mas o objetivo aqui não é analisar as razões por trás da mediocridade de Bastos, mas a proibição da venda de seus DVDs. Pois, gostando ou não do comediante (não), simplesmente não posso aprovar uma medida dessas. Ninguém deveria.

Iniciada pelo secretário municipal Marco Belizário, responsável por uma pasta que pretende defender os interesses dos deficientes, a ação confunde responsabilidade legal e censura. Na primeira, qualquer um deve ser responsabilizado pelas besteiras que diz ou faz, sendo passível de consequências legais; na segunda, um grupo reduzido de pessoas define o que é aceitável ou não para toda a sociedade e interfere com a postura arrogante de impedir que julguemos por nós mesmos.

De acordo com Belizário, “humor tem que ter limite; não pode ser uma coisa nojenta”.

Ok, duas considerações, cara-pálida:

1) Quem define estes limites? Quais são os critérios objetivos para traçá-los? Porque o humor frequentemente tende a ser julgado segundo o gosto pessoal – e o que é inaceitável ou “sem graça” para um, não é para outro. Sim, há declarações (ou piadas) que se encaixam na definição de difamação e/ou injúria, mas a lei já cobre estes casos, prevendo punições. Como, então, defender que alguém avalie previamente algum material, julgando se ele deve ou não ser exposto para o público em geral? Aliás, sabe a frase anterior, sr. Belizário? Pois é, ela poderia ser a definição de “censura”.

2) É claro que o humor pode ser “uma coisa nojenta”. Não vou nem entrar na discussão sobre o que é “nojento” ou não, já que (novamente) isto seria algo absolutamente subjetivo, mas mesmo algo reconhecidamente nojento pode, claro, representar um válido esforço humorístico. Há quem consideraria o nascimento de Macunaíma uma cena “nojenta”, mas poucos negariam se tratar de algo genial – e se definirmos que o humor “nojento” merece ser proibido, não demorará muito até que Quem Vai Ficar com Mary? seja retirado das lojas em todo o Brasil, já que ver Cameron Diaz usando um gel de esperma não é visão das mais agradáveis (embora, novamente, seja algo hilário).

A decisão da justiça de São Paulo (“justiça” com minúsculas) casa-se com aquela do Rio sobre Um Filme Sérvio: juntas, formam não só precedentes perigosíssimos, mas – o pior – começam a estabelecer um padrão. E isto, sinceramente, me apavora: estamos em 2012 e dois produtos culturais (ambos de qualidade no mínimo questionável, mas isto não importa) foram proibidos por uns poucos de chegarem ao alcance de muitos a partir da alegação de que são “ofensivos”. 

Mas a Justiça (agora, sim, com maiúsculas) não serve para isso? Para punir excessos? Rafinha Bastos não foi processado por Wanessa Camargo por ofendê-la em rede nacional e perdeu? Maravilha: justiça feita. Falou uma imbecilidade e foi punido por isto. Ninguém o censurou; ninguém exigiu que a piada fosse retirada de onde quer que seja – e se Bastos foi demitido da Band, isto é simplesmente a atitude de uma empresa procurando defender os próprios interesses. 

O que ocorreu agora, porém, é completamente diferente: se você quiser ouvir as piadas de Bastos, não conseguirá (ao menos, não legalmente). Vivemos numa sociedade democrática que, depois do período sombrio da Ditadura, aprendeu a defender a liberdade de expressão – e não há “limites” para a “liberdade de expressão”, sr. Belizário, pois isto seria um paradoxo legal. O que há, repito, é a possibilidade de punir excessos, o que é completamente diferente de impedir a expressão.

Não, Rafinha Bastos não torna fácil a tarefa de defendê-lo. É arrogante, tolo e reage como um adolescente ao comentar o caso – e tampouco foi fácil defender o péssimo Um Filme Sérvio, mas não acredito que meu dever, como cidadão, seja defender apenas aquilo que aprovo e condenar o que desprezo. Ser cidadão é abraçar uma sociedade livre na qual meus fihos possam crescer certos de que têm responsabilidade sobre o que dizem, mas também liberdade para se manifestar. E me choca terrivelmente ver colunistas e blogueiros liberais, sempre dispostos a defender boas causas, celebrando a censura a Rafinha Bastos apenas porque o sujeito é um babaca. 

Não se iludam: o que aconteceu hoje, meus amigos, não é motivo de riso para absolutamente ninguém.

As coxinhas de Léo Burguês

postado em by Pablo Villaça em Política | 7 comentários

Não tem jeito: o PSDB, seja de qual estado for, gosta mesmo de resolver seus problemas na base do cala-a-boca, da censura e da paulada. Como bem alertado por meu querido amigo (e produtor fodaço) Guilherme Fiúza Zenha, o vereador Léo Burguês, que recentemente defendeu aumento absurdo do próprio salário, gastou 62 mil reais de sua verba indenizatória (dinheiro público) comprando lanches na empresa da própria madrastra, como comprova matéria de Aline Labbate.

Este, porém, é só o começo da história: depois de ler a reportagem, o compositor belo-horizontino Flávio Henrique resolveu comentar os fatos relatados pela jornalista em uma bem-humorada marchinha de carnaval, que pode ser ouvida aqui.

E aí é que a coisa fica ainda mais patética: se você pode de fato “ouvir aqui” a marchinha, isto certamente não se deve a Léo Burguês, que num espírito imensamente anti-democrático mandou seu advogado entrar em contato com o compositor para afirmar que o vereador “não estava nada satisfeito com a sátira” e que esta causava “dano moral” ao político – uma alusão nada sutil a um possível processo judicial.

Os políticos brasileiros parecem acreditar que estão acima do direito de expressão, de críticas e da manifestação política individual (e digo isso por experiência própria, já que estou sendo processado pelo ex-governador e deputado federal Newton Cardoso): Léo Burguês de fato usou 62 mil reais de verba indenizatória (dinheiro dos cofres públicos destinados a gastos do gabinete) para comprar lanches na empresa da madrasta. Isto é fato. Questionar a ética desta escolha (que não envolveu licitação ou qualquer coisa do gênero) é um direito democrático que todos temos, bem como a opção de fazê-lo através de uma sátira, do humor. Tentar reprimir este tipo de manifestação popular é um indício claro desta mentalidade anti-democrática que marca tantas ações políticas no país.

Absurdo. E parabéns à revista Encontro, publicada em BH, que elegeu Burguês como um dos “mineiros de 2011”. Que escolha feliz.

Um Filme Sérvio e os ditadores do bom gosto

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões, Política | 62 comentários

(Update: Hoje, a partir de 20h30, estarei no Galpão Cine Horto, em BH, para exibição e debate de Um Filme Sérvio ao lado de vários colegas da crítica mineira como Marcelo Miranda, Marcelo Castilho Avellar, Renato Silveira, Rafael Ciccarini, Ursula Roesele, entre outros. Recomendo que os interessados cheguem cedo para pegar senha, já que a sessão é gratuita.)

Eu não gosto de Um Filme Sérvio

Não, permitam que eu reescreva esta frase: eu detesto Um Filme Sérvio. Trata-se de uma abominação cinematográfica. Seu roteiro é patético como suas “ideias”; sua direção é de uma incompetência que rivaliza apenas com a estupidez de sua trilha sonora; sua montagem é tão pedestre quanto sua fotografia. Como longa-metragem, esta imbecilidade escrita e dirigida por Srdjan Spasojevic mereceria ir parar no lixo da História do Cinema, sendo esquecido e ignorado por todos que amam esta Arte.

Assim, é com imensa frustração (e até mesmo um pouco de raiva) que me vejo na obrigação de defendê-lo. Gastar tempo, palavras e espaço com uma porcaria como Um Filme Sérvio é algo que me irrita profundamente – principalmente quando há tantas obras merecedoras destes mesmos tempo, palavras e espaço sendo ignoradas pelo público. Infelizmente, porém, o longa de Spasojevic tornou-se símbolo de uma discussão fundamental graças à estupidez de alguns legisladores e políticos, que, na tentativa de ditar o gosto alheio, acabaram oferecendo uma maravilhosa campanha publicitária – e gratuita – para a produção.

A esta altura, todos já conhecem a polêmica: prestes a ser exibido no RioFan, Um Filme Sérvio foi barrado pela Caixa Econômica, patrocinadora do evento e do espaço de exibição, que justificou sua atitude através de um release que concluía: “… a arte deve ter o limite da imaginação do artista, porém nem todo produto criativo cabe de forma irrestrita em qualquer suporte ou lugar”.

Foi uma atitude tola? Desnecessária? Impensada? Sem dúvida alguma – e manifestei esta posição no twitter assim que recebi o email enviado pela assessoria da Caixa. Dito isso, a instituição estava apenas exercendo seu direito ao cancelar a exibição. Como patrocinadora do evento, é natural que se preocupe com o tipo de conteúdo que irá apoiar direta ou indiretamente – e, no seu lugar, eu também teria receios de associar a marca a uma obra tão estúpida. Ainda assim, a análise do conteúdo do RioFan e a discussão com os organizadores/curadores deveria ter ocorrido antes do agendamento da sessão, não depois que todo o programa já havia sido divulgado, indicando uma tremenda falta de organização por parte do departamento de marketing cultural da Caixa.

No entanto, a coisa ganhou outra proporção quando uma liminar impetrada pelo DEM (este bastião da honra na política brasileira que chegou a mudar de nome para se distanciar da história que construiu como PFL e, antes disso, como Arena e UDN) barrou a exibição de Um Filme Sérvio no Odeon e em circuito nacional, associando-se à ação do procurador mineiro Fernando Martins que, ao impedir que o longa fosse submetido à classificação indicativa, conseguiu garantir na prática que a produção não chegasse aos cinemas.

E é aí que a discussão fica realmente interessante.

As justificativas do DEM e do procurador? De modo geral, a “imoralidade” e a “falta de gosto” de Um Filme Sérvio, bem como o excesso de violência presente na narrativa e os atos sexuais “degradantes” envolvendo necrofilia, incesto e até mesmo o estupro de um recém-nascido.

Eles estão certos quanto a isso. Um Filme Sérvio realmente é – ao meu ver (e ressalto isto para voltar à questão mais adiante) – uma produção de mau gosto. E, sim, a violência do longa soa gratuita, tendo claramente o propósito único de chocar em vez de construir uma narrativa que use estes abusos físicos/sexuais como forma de dizer algo (aqui e ali o diretor tenta estabelecer um paralelo entre os acontecimentos na tela e a história política e de guerras da Sérvia, mas estas tentativas são claramente cínicas, buscando fingir uma preocupação temática-social que simplesmente inexiste no roteiro). Assim, não posso discordar daqueles que encaram Um Filme Sérvio como um esforço baixo, repugnante e desnecessário.

O que eu não posso fazer, contudo, é usar estas minhas impressões para impedir que você assista ao filme e tire suas próprias conclusões. Pois, vejam só, quando eu digo que o longa é de extremo “mau gosto” ao meu ver, estou deixando subentendido que outras pessoas poderão enxergar nele uma relevância que para mim inexiste. Além disso, meu gosto não é universal (longe disso) – e certamente haverá alguém que se encantará com a abordagem de Spasojevic. 

E esta seria uma discussão puramente subjetiva, não legal. A Constituição e o Código Civil não estabelecem critérios para o que seria “bom gosto” – e nem poderiam. Assim, é extremamente preocupante quando a desembargadora Gilda Maria Dias Carrapatoso mantém a proibição do filme ao alegar que “não se pode admitir que, em nome da liberdade de expressão, cenas de extrema violência física e moral, inclusive utilizando recém-natos, sejam levadas ao grande público, vez que podem provocar reações adversas, às vezes, em cadeia, em pessoas sem equilíbrio emocional e psíquico adequado para suportar tais evidências de desumanidade”. (Aliás, desembargadora, “espectadores” é com “s”, não “x”.)

Ora, de imediato levanto algumas questões:

1) “Não se pode admitir que, em nome da liberdade de expressão, cenas de extrema violência sejam levadas ao grande público”? Como assim? Como ela pode tentar conciliar ideias como “liberdade de expressão” e “não se pode admitir”? Ou temos liberdade de expressão ou não – e os limites desta devem ser ditados pela Lei, não por impressões pessoais e subjetivas sobre os efeitos da representação da violência na tela. E não se iludam: são impressões pessoais e subjetivas. Além disso, como isto não se aplicou a, digamos, O Albergue, Turistas, Encarnação do Demônio e tantos outros projetos similares? A Lei não pode ter pesos e medidas diferentes.

2) Se formos barrar tudo que pode provocar “reações adversas” em “pessoas sem equilíbrio emocional e psíquico adequado”, peço que incluam na fila obras como Impacto Profundo, Clube da Luta e Os Smurfs, porque sempre haverá pessoas que se deixarão afetar por algo que, para o resto da  humanidade, é absolutamente inócuo. Da mesma forma, dizer que Um Filme Sérvio “estimula a pedofilia” é um argumento de assombrosa estupidez – ou devemos acreditar que há quem assista ao filme e pense: “Taí, gostei! Vou estuprar um recém-nascido!”? Além disso, se as autoridades quiserem bancar as babás de toda a população, protegendo-as daquilo que julgam “perturbador”, já podemos prever que todo o poder judiciário entrará em colapso com a sobrecarga infinita de trabalho – e eu mesmo entrarei com  uma liminar que barre no Brasil  toda a filmografia de Rob Schneider.

Mas em toda esta briga há um único argumento levantado por defensores da censura prévia que merece alguma – mas não muita – discussão: trata-se do Estatuto da Criança e do Adolescente, que, em seu artigo 241, estabelece ser proibido:

Simular a participação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica por meio de adulteração, montagem ou modificação de fotografia, vídeo ou qualquer outra forma de representação visual.” Neste caso, quem comercializar este produto também estará sujeito às penas previstas.

Um Filme Sérvio, a rigor, faz isso? Sim, faz. Mas aí a questão é de interpretação da lei. Em primeiro lugar, ela foi concebida para proteger jovens da exploração sexual – e claramente tinha como intenção coibir a pedofilia e o mercado sexual envolvendo crianças. Ora, Um Filme Sérvio é claramente um filme de ficção (o bebê “estuprado” no longa é um boneco óbvio, sendo impossível confundi-lo com um recém-nascido de carne e osso): assim, quando assistimos à produção, não há dúvida alguma de que o que estamos vendo não é real – justamente o efeito oposto do que buscam os canalhas que produzem vídeos pornográficos de pedofilia para comercialização entre criminosos sexuais. Usar uma lei criada para proteger crianças de crimes reais com o objetivo de barrar uma obra de ficção é uma atitude não só desonesta e irresponsável, mas também imoral, já que leva ao risco de que a lei seja revisada e enfraquecida, tornando-a inócua para coibir perigos reais, não imaginários.

Além disso, novamente há a questão dos pesos e medidas diferentes: por que Baixio das Bestas não foi igualmente barrado? Ou Lolita? Beleza Americana? Festa de Família? Sobre Meninos e Lobos? Dúvida? A Promessa? South Park? A única diferença entre estes e Um Filme Sérvio é, mais uma vez, o “bom” e o “mau” gosto, não a interpretação da Lei em si, que poderia se aplicar a todos eles em maior ou menor grau. E repito o mais importante: em nenhum deles, incluindo o trabalho de Spasojevic, acreditamos por um segundo sequer que uma criança foi realmente submetida à exploração sexual – e impedir isto é a alma do artigo 241.

A conclusão é que, se alguns casos são ignorados pela justiça e outros combatidos, isto passa a não ter nada a ver com a Lei, mas sim com Política – e a Lei jamais pode ser seletiva, por qualquer motivo que seja. Ou alguém duvida (como bem apontou meu amigo Pedro Olivotto, responsável pelo Belas Artes de BH) que a história seria completamente diferente caso Um Filme Sérvio estivesse sendo distribuído pela Fox Films do Rio em vez da Petrini Filmes do Maranhão?

Toda esta polêmica, por fim, me lembra de alguns dos belos discursos feitos pelo personagem de Edward Norton em O Povo Contra Larry Flynt – vários dos quais são reproduções na íntegra das defesas apresentadas pelo advogado de Flynt, Alan L. Isaacman, em julgamentos ao longo dos anos:

“Estamos discutindo uma questão de gosto, não de Lei. E é inútil discutir gosto – muito menos nos tribunais. (…) Na verdade, tudo o que esta discussão faz é permitir a punição de discursos impopulares (…) – e estes são vitais para a saúde da nação. Não estou tentando convencê-los de que deveriam gostar do que Larry Flynt faz (ou, no caso, de Um Filme Sérvio). Eu não gosto do que ele faz. Mas o que eu gosto é de viver num país onde você e eu podemos tomar esta decisão por nós mesmos. Eu gosto de viver num  país no qual eu possa pegar a revista Hustler, lê-la se quiser ou atirá-la no lixo se acho que é ali é seu lugar. Ou não comprá-la. Gosto de ter esse direito, me importo com ele. 

E vocês deveriam se importar com ele também, porque vivemos num país livre. Dizemos muito isso, mas às vezes nos esquecemos do que significa. Vivemos num país livre. Esta é uma ideia poderosa, é um jeito maravilhoso de se viver. Mas há um preço para esta liberdade, que é, às vezes, termos que tolerar coisas das quais não gostamos necessariamente. Então vocês devem pensar se querem tomar esta decisão por todos nós. Se começarmos a cercar com paredes aquilo que alguns de nós julgam como sendo obsceno, acordaremos um dia e perceberemos que surgiram paredes em lugares que jamais esperaríamos que surgissem. E aí não poderemos ver ou fazer nada. E isto não é liberdade”.

É exatamente assim que me sinto. Eu abomino Um Filme Sérvio. Mas defenderei até o fim o seu direito de vê-lo, de ignorá-lo, de atacá-lo ou de considerá-lo “imoral”.

Mas jamais de proibi-lo.

Ameaçado

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política, Twitter | 43 comentários

Ao longo dos últimos anos, recebi por email uma infinidade de mensagens de ameaças (todas relacionadas à religião e às causas gays), mas hoje, pela primeira vez (ao menos que me lembre), fui ameaçado publicamente:

O tal “homens honrados” (em aspas gigantescas, por favor) é um fórum no qual um grupo de indivíduos anônimos se reúne para ventilar seus preconceitos e fantasias de vingança machistas. São, como escrevi no twitter em resposta a esta mensagem, fósseis ambulantes, elementos vestigiais da evolução da humanidade, como os sisos – e, também como estes, fadados à extinção eventual. Aliás, logo um colega troglodita do sujeito se uniu às ameaças e ofensas:

O curioso é que para alguém que se coloca tão contra a homossexualidade, “Mister Blonde” não parece perceber o caráter sugestivo de seu próprio avatar, o que apenas me leva a concluir que, de fato, entre os homofóbicos há muitos que agem com ódio por temerem a própria natureza e os próprios impulsos gays. Direcionando o pânico em forma de ódio para o mundo exterior, tentam sufocar a própria orientação. Triste. E patético.

Seja como for, o fato é que estou sendo ameaçado por homofóbicos, processado por Newton Cardoso e insultado por crepusculetes e transformetes. 

Alguém aí pode fazer um vídeo “It Gets Better” para me animar? Wink

Update: Outra.

Os gays vencerão

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 77 comentários

Não vou escrever um longo post – já empreguei milhares de palavras na discussão da causa homossexual neste blog -, mas preciso dizer algo a respeito do discurso homofóbico da ex-atriz e agora deputada Myrian Rios: opor-se aos homossexuais apenas por princípio já é uma postura estúpida e irracional por natureza (é o mesmo que opor-se a negros ou anões), mas equiparar homossexualidade e pedofilia já ultrapassa a fronteira da imbecilidade e atinge o território do crime. Ter uma mulher dessas como deputada é uma afronta maior do que a de ter um Tiririca congressista. Voto no palhaço analfabeto, mas não nos dejetos humanos como Rios e Bolsonaro. A falta de cultura é contornável; a de caráter, não.

Dito isso, meu único consolo é saber que criaturas como estes dois projetos mal-acabados de seres humanos estão fadados à extinção – ou, ao menos, à posição de relíquias ou de anacronismos ambulantes. A causa gay está destinada ao sucesso – e aqueles que tentarem derrotá-la estarão apenas condenando-se ao papel de bárbaros desprezíveis.

Ao comentar sobre a tragédia recente numa escola do Rio, escrevi que somos uma espécie de natureza essencialmente bondosa – e acredito nisso. Mais: me parece óbvia nossa evolução ao longo dos séculos e das últimas décadas – e esta evolução, na melhor aplicação darwinista, implica no isolamento e eventual extinção daqueles que não se adaptarem à nova realidade. 

Ora, no mesmo dia em que Myrian Rios fez seu discurso pavoroso na assembléia do Rio, linkei esta matéria do The Independent sobre um casal de homossexuais que, juntos há 60 anos, finalmente irão se casar graças à aprovação do matrimônio gay em Nova York. Reparem: quando eles se conheceram, a homossexualidade era crime em todos os estados norte-americanos.

Hoje, a proporção da população que aprova o casamento gay é de 2 para 1 entre aqueles com menos de 35 anos de idade.

Somos cada vez mais tolerantes enquanto espécie – e a estatística acima comprova isso. E a tendência é a de que as novas gerações sejam ainda mais liberais que as anteriores. Não duvido que em mais alguns anos a intolerância sexual se tornará crime. Os jovens se encarregarão disso.

E quando isto acontecer, figuras como Myrian Rios, Bolsonaro e Silas Malafaia serão considerados espécimes tão absurdos quanto o motorista de ônibus que quis obrigar Rosa Parks a ceder seu lugar no ônibus a uma passageira branca.