Política

Por que o MinC está certo em autorizar Maria Bethânia a captar 1,3 milhão para seu blog

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política, Variados | 204 comentários

Se eu fosse um troll querendo irritar propositalmente meio mundo, este seria o título de um post dedicado a defender o deferimento do projeto de Maria Bethânia.

Mas não sou e este post não fará isso.

Porque não há como defender um absurdo como este. Sim, a Lei Rouanet é, hoje, um dos principais mecanismos fomentadores da cultura brasileira. É um sistema imperfeito, repleto de falhas, mas é o que temos – e, bem ou mal, tem conseguido viabilizar uma infinidade de projetos importantíssimos que, de outra maneira, jamais sairiam do papel e que, ao saírem, se revelaram contribuições importantíssimas para a história cultural de nosso país. No entanto, é preciso que haja bom senso na avaliação das rubricas aprovadas – e esta foi claramente a falha grosseira aqui cometida.

Em primeiro lugar, há que se observar uma perversão do sistema representada pelo modo de captação em si: dos 1,3 milhão de reais aprovados, nada menos do que 130 mil reais (ou 10%) ficarão com a empresa responsável pela captação. É um valor ofensivo quando consideramos que é um dinheiro saído do bolso do contribuinte para, a rigor, apoiar um projeto de cunho cultural – não para enriquecer uma empresa (ou, em muitos casos, laranjas) que fez a intermediação do negócio. A porcentagem da comissão deveria ser bem menor – e deveria, também, ter um limite quanto aos números absolutos relativos a cada projeto. 130 mil reais é um valor indecente. (Update: há um teto – ainda absurdo – de 100 mil reais por projeto.)

Dito isso, é importante avaliar o projeto de Bethânia. Esqueçamos, de cara, a interpretação ridícula da Foxlha, sempre disposta a criar factóides, de que o dinheiro tem como objetivo a criação de “um blog”. Colocado nestes termos, é claro que a revolta se torna maior, já que todos aqui sabem que o custo de criação de um blog – mesmo com software e layout proprietários – não chegaria a 5% do valor aprovado. Não, o projeto prevê a produção de 365 vídeos, o que é bastante diferente.

Ignoremos, por um momento, o valor de produção e manutenção do blog em si e consideremos que todo o dinheiro seria investido na produção das peças. R$ 1,17 milhão (já descontados os 10% dos captadores) dividido por 365 resultaria em um valor bruto de R$ 3.205 reais por vídeo – algo muito mais razoável de se aceitar, mesmo que o interesse despertado por um projeto como este junto à população seja mínimo (algo que não devemos jamais levar em consideração, posto que a lei não pode e nem deve tentar avaliar subjetivamente o alcance popular de uma iniciativa cultural, o que prejudicaria artistas dispostos ao choque e ao novo).

A pergunta, então, deveria ser: três mil reais por vídeo é um valor tão absurdo assim? Impulso inicial de quem sabe como é caro produzir audiovisual: não, não é. (Especialmente porque não estamos falando de um vlog produzido por um Felipe Neto da vida em seu quarto na casa da avó enquanto vomita obviedades, mas de algo protagonizado por uma das maiores representantes de nossa música e dirigido por um de nossos cineastas mais bem-sucedidos, Andrucha Waddington.)

Mas basta analisar a lógica por trás da produção para ver que, sim, o valor é absurdo. Porque, a rigor, não estamos tratando de 365 produções individuais que envolverão pré, filmagem e pós isoladas, mas de um grande projeto que envolverá estas três etapas em um momento único (e se não for assim, então os produtores são picaretas e desorganizados). Dita o bom senso que todos os vídeos provavelmente serão produzidos no espaço de um ou dois meses e que não terão, individualmente, mais do que 3-5 minutos cada – e a não ser que cada peça seja ambientada em um cenário absurdo como um dos braços do Cristo Redentor, uma base submarina e a Lua, é lógico supor que o grosso do trabalho será feito em estúdio.

Igualmente razoável é imaginar que a montagem dos vídeos não será uma destas loucuras experimentais que envolverão centenas de horas de pesquisas de imagens de arquivos, já que o projeto é centrado em Maria Bethânia e mantê-la fora de campo seria uma ofensa ao contribuinte.

Temos, então, uma ou duas semanas de diárias de estúdio, produção de figurinos, cenários (estou pensando grande), equipe de filmagem (reduzida,  já que não posso acreditar que Waddington vá investir em uma decupagem muito complexa para 365 vídeos de Internet) e as dezenas de horas de ilha de edição (e repito: estamos falando de vídeos de 3-5 minutos envolvendo Bethânia recitando poesias).

Um milhão, cento e setenta mil reais por isso?

Aí, sim, a palavra “absurdo” pode ser dita com propriedade. (E não como a Foxlha e tantos outros blogueiros apressados fizeram ao repetir uma acusação sem qualquer embasamento ou estudo mais detido da natureza da projeto.)

Claro que, para ser completamente justo, eu (na verdade, qualquer um) só poderia bater o martelo nesta acusação depois de estudar a planilha de custos apresentada pelos proponentes ao Ministério da Cultura. Mas ainda assim, considerando a logística da produção e uma experiência básica em audiovisual, a conta ainda soa exageradamente salgada e fora de propósito.

Especialmente quando consideramos que Bethânia já foi beneficiada pelo MinC há pouco tempo depois que uma comissão do ministério deu parecer negativo ao seu pedido de captação apenas para que Juca Ferreira ignorasse a opinião de seus próprios técnicos e concedesse à cantora a autorização para captar outra fortuna.

Bethânia é – e me perdoem o clichê faustosilvano – um monstro sagrado de nossa cultura. Mas isto não quer dizer que ela tenha o direito de enfiar as mãos em nossos bolsos desta maneira – especialmente por um projeto que qualquer produtor competente faria (e muito bem feito) por um terço do valor aprovado.

E a vocalista do Doces Bárbaros certamente concordaria comigo quanto a isso.

Update: Para ler o projeto aprovado, clique aqui (154,53 kb). (Obrigado ao Otávio Ugá por enviá-lo.)

Observação: 600 mil reais para a “diretora artística” (leia-se: Maria Bethânia). Inaceitável. (E observem que, sem este valor, o custo aproximado fica em torno do 1/3 que calculei em meu post.)

Update 2: O valor inicial do projeto era 1,8 milhão. O MinC aprovou “só” 1,3 milhão. Deveria ter cortado mais fundo; o projeto é bom, mas não a este preço.

Update 3: O leitor Narcélio Filho, nos comentários abaixo, aponta que o texto enviado pelos proponentes ao MinC inclui trechos retirados da Wikipédia sem citação da fonte. Esta história fica mais patética a cada minuto que passa.

Update 4: A cópia da Wikipedia é mais patética do que imaginei. Sabe aquele aluno que cola na hora da prova e, sem notar, escreve coisas como “Assim como vimos no capítulo 27” ou “Vide apêndice 3”? Pois é, os proponentes do projeto fizeram coisa parecida no seguinte trecho:

“Entre os filmes estão o longa-metragem 2 filhos de Francisco, de Breno Silveira, que teve uma bilheteria de mais de 5,3 milhões de espectadores aos cinemas em 2005, maior público do cinema brasileiro nos últimos 25 anos.[carece de fontes?]”

“Carece de fontes”?

Update 5: Recebi de uma fonte que prefiro manter anônima, a fim de evitar problemas para a mesma, a planilha de custos readequada do projeto. Há várias modificações feitas em função do valor menor aprovado (cerca de 500 mil reais), mas o que mais me chamou a atenção é que o valor destinado à própria Maria Bethânia, inacreditáveis 600 mil reais, permaneceu inalterado. A justificativa apresentada no projeto que recebi:

“Segundo resposta à diligência: De forma a readequar o orçamento, propomos novos valores para a remuneração da artista Maria Bethânia (antes designadas somente como direção artística total R$ 600.000,00), da seguinte forma:
Direção artística: R$ 100.000,00
Seleção de textos e pesquisa: R$ 135.000,00
Atuação em vídeos (365 videos): R$ 365.000,00
(Total: R$ 600.000,00)”

Update 6: O cineasta Jorge Furtado, um de nossos melhores e mais subestimados, escreveu um post em seu blog defendendo o projeto. Acompanho o blog de Furtado desde o início e é a primeira vez que discordo dele – e é uma discordância das mais significativas e por vários motivos:

1) Furtado, como homem inteligente, comete uma falsidade que não faz jus ao seu próprio histórico político ao argumentar que o projeto não envolve dinheiro público, mas apenas o direito dos realizadores “se humilharem” diante dos empresários (pobrezinhos). Ora, ele sabe muito bem que a renúncia fiscal é, por definição, dinheiro público: em vez de ir para os cofres do Estado, parte do imposto vai para o projeto, permitindo que as empresas transformem tributos em verba publicitária, já que sua marca será associada a um projeto cultural.

(Pra esclarecer: não tenho absolutamente nada contra isso. Como falei lá em cima, a Rouanet é imperfeita, mas viabilizou uma infinidade de projetos maravilhosos. E se permitir que as empresas divulguem suas marcas é um incentivador para que isto ocorra, ótimo. Mas não vamos fingir que não se trata de dinheiro público.)

2) Furtado parece acreditar que devemos dinheiro a Bethânia por seu histórico como artista. Sugere até que, em circunstâncias ideais, o governo deveria dar o 1,3 milhão de reais para a cantora com um “buquê de rosas e um cartão, pedindo desculpas pela confusão”. Desculpe, Furtado, mas o único dinheiro que, como fã de Bethânia, devo a ela é aquele que já entrego ao comprar seus CDs. Seguindo esta lógica absurda, deveríamos depositar fortunas nas contas não só de Bethânia, mas de Fernanda Montenegro, João Gilberto e – por que pararmos por aí? – dos herdeiros de Graciliano Ramos, Jorge Amado, Noel Rosa e companhia.

3) A atitude lamentável de Furtado em colocar no mesmo balaio todos aqueles que criticaram o projeto. Aparentemente, eu, com meu histórico de defesa esquerdista, agora sou irmão de alma de serristas, da Foxlha, Veja e etc. Em vez deste reducionismo ofensivo, Furtado talvez devesse analisar o projeto em si – como fiz neste post – em vez de usar generalizações que tentam despistar a essência do problema (como os absurdos 600 mil reais previstos apenas para Bethânia).

4) Prefiro nem comentar a argumentação de que os protestos revelam “preconceito contra a Internet” (minha carreira foi construída aqui) e “contra baianos” – apenas porque uma meia dúzia de imbecis resolveu fazer piadas a respeito da naturalidade de Bethânia.

Lamentável. Esta defesa cega só pode ser fruto de um corporativismo, de um coleguismo incapaz de críticas. Porque Furtado é um homem inteligente demais, íntegro demais, sensato demais para aprontar uma dessas. Continuo fã, mas a admiração incondicional se quebrou um pouco.

Update 7: Uma outra revelação grave relacionada ao projeto original: o texto apresentado ao MinC pelos proponentes traz a seguinte passagem ao descrever a equipe envolvida:

Agência de conteúdo para celular: Aorta Entretenimento
Empresa de Belo Horizonte especializada em aplicativos e produção de conteúdos para novas mídias. Em
seu portfolio de clientes, estão grande empresas como Claro, Oi, Globosat, Ig, Skol e Vivo.”

Pois o coordenador do núcleo de webradio da Aorta, meu amigo Rodrigo James, respondendo a uma indagação minha via twitter, fez o seguinte (e surpreendente) comentário:

“E se eu te falar que a gente nem sabia que tava lá? Foi surpresa pra todo mundo”.

A coisa só piora.

Update 8: Jorge Furtado deixou um comentário abaixo esclarecendo suas posições questionadas aqui. Peço que leiam, por gentileza.

Dilma Presidente

postado em by Pablo Villaça em Política, Videocast | Comente  

Vídeo que meu amigo João Papa gravou assim que soubemos do resultado das eleições (e não deixe de ler, no post anterior, críticas sobre os filmes vistos nos últimos dois dias na Mostra SP):

MUITO, MUITO, MUITO FELIZ

postado em by Pablo Villaça em Política | 37 comentários

Duas coisas que escrevi no twitter e repito aqui: eleitores do Serra, sem revanchismos ou babaquices do tipo “perderam! perderam!”. Como indubitavelmente verão, todos ganhamos.

Dito isso, não sejam maus perdedores que não seremos maus ganhadores.

(Obs: Tentei abrir os comentários; se os spams voltarem, fecharei novamente até encontrar outra solução. Se quiserem usar este post para comentar algo sobre a cobertura da Mostra SP, sintam-se à vontade. Update: Não teve jeito. Foi virar a meia-noite e os spam-bots começaram a inundar o blog com comentários. Que porre.)

Serra, a bolinha de papel, o telefonema e o teatro

postado em by Pablo Villaça em Política | 252 comentários

A atitude de Serra de fingir um ferimento é a prova de seu despreparo para governar o país: não só pela falsidade do gesto e da artimanha, mas por não medir as conseqüências de suas ações, que têm o potencial óbvio de inflamar a militância e vir a provocar uma tragédia – aí, sim – real.

Update (21/10): Flagrada na mentira pela reportagem do SBT, a campanha de Serra, através de seus porta-vozes Reinaldo Azevedo e William Bonner, já apresentou uma nova versão: a de que Serra teria sido atingido não por um, mas dois objetos – e que o segundo é que provocou o ferimento. Para comprovar isso, usam um vídeo gravado de celular no qual não podemos enxergar absolutamente nada. Enquanto isso, Índio da Costa declara que Serra foi atingido por um “pacote” que pesava “1kg ou 2kg”.

Ninguém explica, porém, por que o tal projétil, capaz de deixar Serra tonto e nauseado, não deixou absolutamente nenhuma marca visível em sua cabeça – nem mesmo um mínimo hematoma. E também não explica por que Serra, tendo supostamente recebido a instrução de permanecer 24 horas em repouso, hoje chegou atrasado a um evento e se desculpou dizendo que havia ficado “gravando” até tarde da noite na véspera.

Enquanto isso, os seguidores tucanos abandonam qualquer bom senso ou auto-crítica e abraçam as teorias estapafúrdias de um sujeito que inflamou tanto a militância com sua farsa rojaseana que, já no dia seguinte, tentaram atingir Dilma em Curitiba com um balão cheio de “líquido não identificado”. Enquanto ficarmos na bolinha de papel e no balão com água, vá lá – é desrespeitoso, mas mais irreverente do que agressivo. O problema é que a tendência é de escalar – e a mentira de Serra desempenha papel fundamental nisso.

Update 2 (23/10): Quer dizer que a Globo revelou um “segundo objeto” atingindo Serra, né? Hum:

Pra você que não vai votar em Dilma

postado em by Pablo Villaça em Política | 55 comentários

Sem mais, subscrevo-me.

Serra se revela

postado em by Pablo Villaça em Política | 106 comentários

Numa campanha eleitoral, os candidatos obviamente (e compreensivelmente) tomam um imenso cuidado para esconder algumas de suas idéias e visões de mundo, por julgarem que estas afastarão os leitores, enquanto conferem destaque a outras que acreditam ter maior apelo popular. É algo que faz parte do jogo e, por isso mesmo, é tão fascinante quando percebemos um ou outro ato falho revelando a verdade por trás das posições públicas (como, por exemplo, o vídeo recente no qual Serra diz: “Nunca disse ser contra o aborto porque sou a favor do aborto. Digo… nunca disse ser a favor do aborto porque sou contra o aborto”).

(Pausa para a seguinte observação: a regulamentação feita por Serra do aborto no SUS é uma das raras atitudes admiráveis de sua carreira pública. Ele deveria se orgulhar disso, não buscar esconder ou reinterpretar o que fez.)

Porém, ainda mais revelador do que um ato falho é quando um candidato expõe sua visão de mundo não por um tropeço verbal, mas por realmente não perceber como esta é absurda e ofensiva. Nestes raros casos, é possível perceber que determinada postura é tão entranhada na personalidade do indivíduo que ele se torna incapaz de notar o preconceito por ela revelada.

Caso em questão: o que vocês diriam, por exemplo, se um candidato, ao ouvir a afirmação de que é contra a distribuição de carne para a população pobre, se defendesse afirmando com orgulho que, no passado, foi responsável por um programa que ajudava os miseráveis a comer carne de gato uma vez por semana? Ou se, para se defender da acusação de querer interromper um programa de distribuição de sapatos para as crianças de rua, afirmasse que já as ajudou bastante ao distribuir papelões e barbantes para que improvisassem seus próprios calçados?

Seria o tipo de argumentação que exporia simplesmente a visão de um indivíduo que, tendo dinheiro e acesso a tudo, encara o problema dos miseráveis com um preconceito e com uma condescendência alarmantes: “pobre se contenta com qualquer coisa”.

Pois no último debate da BAND, foi exatamente esta triste visão com relação às necessidades dos mais carentes que Serra revelou quando Dilma apontou suas constantes críticas ao programa “Minha Casa, Minha Vida”:

Agora, mesmo que alguém não queira enxergar a triste natureza desta declaração feita por Serra (embora eu não veja como isso é possível), ainda assim ela representa uma confissão de incompetência, já que o máximo que o candidato conseguiu encontrar para se comparar ao sucesso do “Minha Casa, Minha Vida” foi a “carta de crédito de relativa… de significativa… importância” para viabilizar “puxadinhos”. Terrível.

Ameaçado como cidadão

postado em by Pablo Villaça em Política | 115 comentários

Recebi através de um leitor do blog uma notícia que não apenas me chateou bastante como ainda aumentou minha concepção negativa acerca de Newton Cardoso, ex-governador de Minas Gerais – e que atualmente concorre ao cargo de deputado federal. Sempre acreditei que uma das principais responsabilidades de alguém que detém um cargo de destaque na política (como governador ou deputado federal, por exemplo) é justamente a proteção dos interesses do povo.

E, sem dúvida alguma, o maior interesse do povo reside no fortalecimento da democracia.

No entanto, a notícia que recebi do leitor diz respeito a uma atitude do Sr. Newton Cardoso, que, acreditem ou não, ajuizou perante a 3ª. Vara Cível de Belo Horizonte uma ação “Cominatória de Obrigação de Fazer C/C Indenizatória por Danos Morais, com Pedido de Liminar” contra mim e contra o Cinema em Cena.

O motivo? Inacreditável: apenas porque em 2008 postei aqui neste blog a minha posição política e uma opinião negativa sobre seu perfil político. É tão surreal que, honestamente, acreditei a princípio tratar-se de uma brincadeira do leitor que me enviou o email – afinal, aquele era um período eleitoral (a eleição para prefeito de BH) e, como cidadão, procurei emitir minha opinião sobre o processo.

Portanto, apenas exerci o meu direito e o meu dever de participar ativamente daquele importante momento político.

Aliás, como sabem, este Diário de Bordo é minha página pessoal, não “institucional” (como seria, talvez, o Cinema em Cena): aqui articulo minhas posições acerca de diversos assuntos, desde futebol e religião até chegar a tópicos como casinhos envolvendo meus filhos.

E isto é democracia.

Entretanto, o Sr. Newton Cardoso, que se diz defensor desta mesma democracia na qual desenvolveu sua carreira e graças à qual concorre agora ao cargo importante de deputado federal, não aceitou ouvir a voz deste mesmo povo que deseja representar na Câmara dos Deputados – simplesmente porque esta voz em particular é desfavorável à sua figura política.

Assim, pergunto: como é possível defender os interesses de um povo e, ao mesmo tempo, emudecê-lo pela tirania? Sim, pois exigir “reparação por danos morais” em razão de uma opinião desfavorável emitida contra um político é, sem dúvida alguma, um gesto tirânico. Lamentável. Profundamente lamentável. Especialmente em 2010, mais de duas décadas depois de nossa abertura política e do fim da ditadura militar.

Ainda não tive acesso ao processo, mas, independentemente do que tiver sido dito pelo Sr. Newton Cardoso naquelas páginas, desde agora afirmo sem hesitação que confio plenamente na democracia, na morte da ditadura e na justiça brasileira. Aliás, nem me atrevo a não fazê-lo – caso contrário, abandonaria este blog por não ver mais sentido em ter que temer por mim e por minha família a cada frase escrita.

Seja como for, minha advogada já foi colocada a par da notícia e examinará o caso assim que tiver acesso aos autos, me colocando a par dos detalhes do processo. Manterei vocês, leitores do Cinema em Cena, visitantes do Diário de Bordo, meus amigos de Twitter, Facebook e Orkut – enfim, meus companheiros de Internet – informados sobre este assunto que, afinal, é tanto de interesse meu como de vocês – especialmente neste momento.

Particularmente, acredito que, ao final, não serei demitido de meu cargo de cidadão brasileiro – especialmente por confiar naquele que se mantém como um dos maiores guardiões de nossa Democracia: o judiciário.

Estou triste e desapontado. Mas jamais hesitante em minha condição eterna de defensor de qualquer um que veja seus direitos básicos ameaçados.

Se hesitasse, não poderia me olhar no espelho.

Update: Agradeço os comentários, mas peço apenas que não usem ataques pessoais ao escrevê-los, pois eu teria que apagá-los seguindo recomendação de minha advogada.

Ironia

postado em by Pablo Villaça em Política | 74 comentários

Na Foxlha Online:

“O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, acusou nesta quinta-feira o governo federal de financiar “blogs sujos” que “dão norte do patrulhamento” a jornalistas.”

Em primeiro lugar, Serra é quem é conhecido por pedir a cabeça de jornalistas – como qualquer profissional conectado da área poderá informar (e como os acontecimentos recentes na TV Cultura de SP comprovam). Aliás, isso é prática não só de Serra, mas dos tucanos de modo geral, como podem atestar vários profissionais demitidos em Minas Gerais em função de pressões da irmã de Aécio. No entanto, esta não é a ironia que mencionei no título do post. Prossigamos:

“Em seu discurso, Serra fez críticas diretas à candidata do PT, Dilma Rousseff, e ao PT pode defenderem o “controle da mídia”, que segundo ele, nada mais é do que censura e restrição à liberdade de expressão.

O candidato assinou ao final do pronunciamento da “Declaração de Chapultepec”, documento em defesa da liberdade de expressão elaborado em reunião no México, no qual, por exemplo, está expresso que nenhum meio de comunicação ou jornalista deve ser sancionado por difundir a verdade, criticar ou fazer denúncias contra o poder público.”

Bacana, né? E aí…

“Após sua palestra, Serra se recusou a responder três perguntas de jornalistas sobre a suposta falta de oposição no Brasil e sobre quais são os blogs sujos a que se referia.

Ao ser questionado, respondia: “Alguma outra pergunta?” Só manifestou-se quando um repórter de TV o perguntou sobre seu empenho na defesa da liberdade de expressão.”

Ou seja: Serra está interessadíssimo na liberdade de expressão.

Na dele.

Dez razões falsas para não votar em Dilma

postado em by Pablo Villaça em Links, Política | 113 comentários

Excepcional post do igualmente brilhante cineasta Jorge Furtado.

Update: Acho muito curioso que aqueles que sempre me acusam de "cegueira" política, de defender Lula e Dilma não importa o quê, são os mesmos que sempre mantêm os ataques à candidata e defendem Serra, VEJA, Foxlha & Cia., não importa o quê. E eu é quem sou o "cego". Ok.

Índio Palin e os ateus

postado em by Pablo Villaça em Política | 74 comentários

Já comentei aqui sobre a ameaça que a indicação de Índio "Palin" da Costa representa – e também o processo absurdo que envolveu sua entrada na chapa de José Serra. A situação, porém, é pior do que eu imaginava: bastou uma olhada no twitter do sujeito para perceber que ele não é somente um Zé das Couves despreparado, ignorante e preconceituoso (vide sua lei contra as esmolas); é, também, tão baixo nível quanto seu chefe no que diz respeito a lidar com campanhas eleitorais.

Escreveu Índio Palin:

"Candidata do PT diz que eu caí do céu na chapa do @joseserra_ Para uma atéia, deve ser duro ter um
adversário que cai do céu.."

Copio abaixo minha resposta no twitter:

O twitter do tal Índio Palin da Costa é estúpido
em tantos níveis que fica difícil comentar. Mas tentemos:

1) Sim, ele FOI jogado na chapa de Serra quase que
por acaso. Imposição do PFL/Arena depois da derrubada do Dias. Comentei
o caso no blog.

2) O cara mal entrou na campanha e já chamou Dilma
de vários nomes ofensivos. E ainda tem a cara de pau de afirmar que tem
mais experiência q
ue ela, sendo que é o quarto deputado mais FALTOSO
do PAÍS ao passo que ela passou OITO anos gerindo complicadíssimos
ministérios.

3) Ele afirma que Dilma é "atéia" e a acusa de
mentir que não é. Como pode ter provas da religiosidade (ou falta de)
dela é um mistério.

4) MESMO que Dilma seja "atéia"… isso a diminui
em QUÊ? A eleição é para PRESIDENTE, não para Papa.

Achei que a possibilidade (ínfima) de Serra ser
presidente já era ruim o bastante. Mas ter Índio Palin a um infarto da
presidência…brrr!