Premiações e eventos

Videocast Oscar 2014

postado em by Pablo Villaça em Premiações e eventos, Videocast | 7 comentários

Perdeu o videocast ao vivo durante o Oscar? Então veja agora:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

Críticas dos Indicados ao Oscar 2014

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos | 5 comentários

Para facilitar, seguem abaixo os links para as 17 críticas que escrevi dos indicados ao Oscar 2014 (não, não escrevi sobre todos):

Ela
12 Anos de Escravidão
O Lobo de Wall Street
Trapaça
Clube de Compra Dallas
Gravidade
Nebraska
Blue Jasmine
Frozen
Os Suspeitos
O Grande Gatsby
Alabama Monroe
A Grande Beleza
A Imagem que Falta
O Hobbit 2
Homem de Ferro 3
Antes da Meia-Noite

Por que o Oscar parece amar filmes medianos?

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Premiações e eventos | 90 comentários

Todos os anos, ao escrever sobre o Oscar e sobre as disputas envolvidas, busco lembrar os leitores de que se trata de uma eleição – e que, como tal, é influenciada pelo orçamento disponível para as campanhas feitas pelos estúdios, que investem pesado em seus candidatos promovendo festas especiais com exibição dos longas e presença do diretor e do elenco. Quando Tom Hooper venceu por seu trabalho pavoroso em O Discurso do Rei, apontei que ele, um britânico, havia se mudado para Los Angeles por três meses para fazer campanha.

Além disso, os estúdios cada vez mais se dedicam a fazer campanha negativa contra seus principais concorrentes – e este ano o principal alvo tem sido O Lobo de Wall Street.

No entanto, há uma outra questão importante que devemos considerar ao avaliar os vencedores na categoria de Melhor Filme: o fato de que raramente um filme que desafia o público costuma vencer. Não é à toa que produções que fogem do lugar-comum em termos de linguagem ou que abordam temas particularmente polêmicos jamais vencem. Quando apontei, por exemplo, que O Segredo de Brokeback Mountain, considerado favorito absoluto por muitos, tinha um caminho mais difícil do que se imaginava rumo à vitória, indiquei sua temática justamente como seu maior empecilho: era um filme importantíssimo, belíssimo, sensível, mas que abordava um tema que simplesmente incomodava muitos eleitores da Academia – que, demograficamente, vem envelhecendo rapidamente por ter membros vitalícios e só incorporar algumas dezenas de novos integrantes por ano.

Pois a questão principal que devemos levar em consideração na categoria Melhor Filme é a seguinte: filmes que dividem o público sempre perdem, mesmo tendo boa parcela de defensores radicais. Para vencer o Oscar, não adianta ter muitos defensores; é imperativo ter poucos detratores. Na realidade, a categoria principal da premiação tende a favorecer o lugar-comum, o café-com-leite. Filmes simpáticos, que não ameaçam, mesmo sendo medíocres ou irrelevantes como Arte.

Filmes como O Discurso do ReiGladiadorQuem Quer Ser um Milionário?Shakespeare ApaixonadoO Paciente InglêsConduzindo Miss Daisy e tantos, tantos outros.

A razão para isso reside no sistema usado pela Academia para definir o vencedor. É um sistema que favorece não exatamente aquele filme amado por certos grupos, mas aquele que inspira um sentimento de “É bonitinho” por parte da Academia como um todo. Para ilustrá-lo, recomendo o vídeo abaixo (em inglês, mas é fácil entender) e sugiro que jamais tentem usar o Oscar como sinônimo de qualidade. É um prêmio divertido e relevante do ponto de vista comercial e, sim, histórico (especialmente por ser tão antigo e por ser definido por membros da própria indústria).

Mas não se trata de uma Palma de Ouro, de um Urso de Ouro nem nada do gênero no que diz respeito ao seu valor artístico. Ao menos, não necessariamente, embora aqui e ali as duas coisas coincidam e provoquem um prazer inesperado nos cinéfilos dedicados.

Festival do Rio #12

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos | 6 comentários

Foram 57 filmes vistos e comentados neste espaço ao longo de 14 dias, resultando em 29.031 palavras escritas e um cansaço descomunal. Mas espero que tenham apreciado, pois em uma semana tudo recomeçará na Mostra de São Paulo, embora eu não possa prometer que irei conseguir escrever sobre todos os longas aos quais assistir durante o evento. Tentarei, porém.

Vamos aos três últimos títulos:

55) The Green Inferno (Idem, EUA, 2013). Dirigido por Eli Roth. Com: Lorenza Izzo, Ariel Levy, Aaron Burns, Daryl Sabara, Sky Ferreira, Nicolás Martínez, Kirby Bliss Blanton, Magda Apanowicz, Matías Lopez.

O ciclo do canibalismo italiano, que conquistou fãs do horror e do gore nas décadas de 70 e 80 e atingiu seu auge com Cannibal Holocaust, de Ruggero Deodato (que vi – e curti – aos 15 anos de idade, mas jamais senti vontade de revisitar), não só é a inspiração óbvia de Eli Roth neste seu The Green Inferno como, se pensarmos um segundo sobre o assunto, é também uma influência inevitável na obra de um diretor cuja carreira se baseia quase toda em xenofobia e misoginia. Não é segredo, para quem acompanha meu trabalho há algum tempo, que nutro profundo desprezo por Roth, que sente um prazer inequívoco em submeter suas personagens femininas a todo tipo de humilhação imaginável e que enxerga o mundo fora dos Estados Unidos como uma selva repleta de criaturas monstruosas, mas, como crítico de Cinema, não posso negar que (predileções temáticas à parte) este é seu trabalho mais eficaz como realizador.

Roteirizado pelo diretor ao lado de Guillermo Amoedo, o filme gira em torno de um grupo de universitários norte-americanos que decide viajar para a Amazônia peruana com o objetivo de realizar um protesto contra uma construtora que está derrubando a floresta e destruindo uma tribo local. Ao retornarem da ação, porém, os jovens sofrem um acidente de avião e descobrem que a tal tribo não é particularmente boa em demonstrar gratidão, já que os nativos decidem… vocês já sabem.

Surpreendendo ao retratar a ação do grupo diante dos seguranças da construtora de forma tensa e ágil, Eli Roth também consegue conferir urgência e pavor à sequência que traz a queda do avião – e, mesmo não sendo tão fabulosos assim, estes dois momentos se encontram entre os melhores da carreira do medíocre diretor (e é sempre prazeroso ver um artista melhorando com o tempo, mesmo que este seja Eli Roth). Demonstrando um senso de humor negro eficiente que, de certa maneira, consegue aliviar o impacto gráfico da primeira execução por parte dos selvagens (quando a vítima é vista até mesmo com um legume na boca), Roth faz jus à natureza gore de suas principais influências ao incluir efeitos de maquiagem e próteses que transformam o desmembramento e o estripamento em um espetáculo à parte – e nem vou discutir a composição dos índios (que chamei de “selvagens” por serem assim retratados pelo longa), já que isto seria inevitável neste subgênero.

Por outro lado, se Roth descartou o principal elemento estrutural de Cannibal Holocaust (a narrativa construída a partir de imagens encontradas e que inspirou filmes como A Bruxa de Blair), poderia também ter ignorado seus elementos misóginos – mas, se o fizesse, não seria Eli Roth, não é mesmo? Assim, o diretor logo expõe seu machismo ao retratar duas garotas que se antipatizam por terem interesse pelo mesmo homem e em seguida acrescenta doses cavalares de misoginia ao criar, do nada, sequências que trazem três garotas sendo violadas pela líder da tribo, que, no clímax, volta a protagonizar uma sugestão gratuita de estupro.

Patético também nas tentativas do diretor de tentar fazer comentários políticos (a gag que encerra a projeção é ridícula e reacionária), The Green Inferno tropeça na obviedade do roteiro (a apresentação do colar da avó da protagonista é uma daquelas pistas que praticamente gritam por atenção) e pelo humor adolescente, já que, aos 41 anos, Roth já é bem velhinho para achar graça em uma garota sofrendo crise de diarreia explosiva no meio da selva. Por outro lado, a vilania de determinado personagem é tão absurda que acaba sendo empregada como piada recorrente, revelando novas dimensões a cada cena.

Povoado por atores pavorosos – o que talvez seja proposital, fazendo referência aos filmes originais, The Green Inferno é um longa de extremo mau gosto, é verdade, mas também divertido por se reconhecer como tal. E caso Eli Roth faça terapia e aprenda a respeitar o sexo feminino, talvez até possa vir a realizar algo relativamente memorável algum dia.

Eu sei, sou um eterno otimista.

Observação: os créditos finais trazem as contas no Twitter de vários integrantes do elenco e da equipe técnica. Não sei se isto é algo inédito, mas é algo que me chamou a atenção e que tem potencial para se transformar em tendência. (3 estrelas em 5)

56) Blue Jasmine (Idem, EUA, 2013). Dirigido por Woody Allen. Com: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Andrew Dice Clark, Louis C.K., Alec Baldwin, Bobby Cannavale, Max Casella, Michael Stuhlbarg, Peter Sarsgaard.

Depois de visitar Londres, Paris e Roma em seus três últimos filmes, Woody Allen retorna a Nova York (e a San Francisco depois de 40 anos – desde Sonhos de um Sedutor) em um drama eficaz que, assumindo a forma de estudo de personagem, inspira-se claramente em Uma Rua Chamada Pecado para criar aquela que provavelmente é a protagonista mais antipática da carreira do diretor. O que, acreditem, é uma das principais virtudes do projeto.

Iniciando com um plano pavoroso que traz um avião claramente digital cruzando a tela, Blue Jasmine nos apresenta à personagem-título (Blanchett), que, voando na primeira classe, insiste em contar sua história para a passageira do lado, uma velhinha que provavelmente iria preferir estar próxima ao Ted Striker de Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu!. Acostumada à vida de luxo oferecida por seu marido Hal (Baldwin), Jasmine agora encontra-se na miséria desde que o sujeito foi preso por fraude, o que a obriga a se mudar para a Califórnia a fim de morar com a irmã, Ginger (Hawkins). Ambas adotadas, as mulheres não poderiam ser mais diferentes física e emocionalmente: enquanto Jasmine tenta superar um colapso nervoso, está acostumada a ser servida por todos e mal pode aceitar sua nova realidade, Ginger é uma criatura alegre, simples e com um leve complexo de inferioridade. Alternando a narrativa entre o presente, que traz a protagonista buscando se adaptar ao cotidiano de trabalhadora, e o passado, que revela as circunstâncias que a levaram até ali, Blue Jasmine é um filme capaz de provocar risadas pontuais, mas que jamais poderia ser confundido com uma comédia, apresentando-se verdadeiramente sufocante em vários momentos.

Insistindo nos flashbacks mesmo quando já somos capazes de compreender tudo o que ocorreu (ou quase; a estrutura tenta se justificar através de uma revelação de última hora), Woody Allen e o diretor de fotografia Javier Aguirresarobe (que colaborou com o cineasta em Vicky Christina Barcelona) buscam contrastar os dois momentos através das cores quentes que envolvem o universo de Jasmine em Nova York e a paleta fria e levemente dessaturada que a acompanha em San Francisco, expondo, assim, o fato de estarmos vendo o mundo através dos olhos daquela mulher – que, longe de aceitar a responsabilidade pelos atos do marido (para os quais se fez de cega), prefere enxergar-se como sua grande vítima.

Aliás, uma das principais tragédias de Jasmine é sua incapacidade de enxergar o óbvio: quando casada, negava-se a ver as traições do marido e seus crimes; agora pobre, insiste em ver apenas miséria no cotidiano humilde, mas alegre, da irmã. Vivendo uma variação de sua personagem em Simplesmente Feliz, Sally Hawkins é hábil, diga-se de passagem, ao ilustrar o otimismo de uma mulher que tem razões de sobra para ser amarga, incluindo a perda da pequena fortuna que ganhou na loteria depois de acreditar no fraudulento cunhado. Parecendo não se ofender com as agressões da irmã, Ginger procura apoiá-la e tenta até mesmo fazer jus à imagem que, supõe, a deixaria orgulhosa – um erro que acaba demonstrando que a infelicidade de Jasmine (representada no título original) pode ser contagiosa. Enquanto isso, Louis C.K. e Andrew Dice Clark, dois comediantes de estilos completamente diferentes um do outro, oferecem performances pequenas, mas significativas, ao passo que o talentoso Bobby Cannavale flerta descaradamente com o Stanley Kowalski de Marlon Brando em vários momentos da projeção – especialmente em um confronto no qual atira um telefone na parede e que remete à explosão de Brando durante um jantar em Uma Rua Chamada Pecado. Fechando o elenco secundário, Alec Baldwin interpreta o tipo sedutor e frio que se encaixa tão bem à figura de um estelionatário da alta sociedade.

Porém, por mais sólidas que sejam as performances dos colegas de Cate Blanchett, é mesmo a protagonista quem merece os maiores elogios em Blue Jasmine: encarnando a personagem como uma figura egoísta e fútil, Blanchett abraça os defeitos daquela mulher com entrega total, jamais temendo o julgamento do espectador e criando um retrato fascinante em sua humana repugnância. E se adiciono um “humana” antes de uma palavra tão pesada quanto “repugnância”, é porque a atriz é hábil justamente ao despertar nossa pena mesmo ao tomar algumas das atitudes mais reprováveis da narrativa, já que, por baixo daquela fachada de esnobismo e arrogância há uma mulher claramente danificada que precisa desesperadamente de socorro – e quando ela chora, aliviada, ao receber a ligação de um pretendente, percebemos o quão vulnerável e carente de aprovação ela realmente é.

Desesperançado e triste até seu sufocante plano final, Blue Jasmine é um filme sem muitas nuances, mas eficaz ao não fazer concessões no retrato de uma criatura cuja beleza e elegância externas ocultam uma mulher irremediavelmente estragada por dentro. (4 estrelas em 5)

57) O Ato de Matar (The Act of Killing, Inglaterra/Noruega/Dinamarca, 2013). Dirigido por Joshua Oppenheimer.

A julgar pelo que vemos em O Ato de Matar, um documentário angustiante que traz ninguém menos que Werner Herzog e Errol Morris como produtores executivos, a Indonésia é uma distopia pior do que aquelas vistas em ficções como Elysium ou Uma Noite de Crime – para citar apenas dois exemplos recentes. Ali, em pleno 2013, genocidas são entrevistados em talk shows e seus métodos “humanos” de extermínio são celebrados em rede nacional sob aplausos da apresentadora e da plateia do estúdio enquanto a possibilidade de vingança por parte dos filhos dos mortos é descartada com um simples “Nós os mataríamos se tentassem”. Que, acreditem ou não, inspira risadas nos presentes.

Retrato chocante da dimensão que a maldade humana pode atingir ainda nos dias de hoje, O Ato de Matar parte de uma ideia que, no papel, poderia soar absurda: apontar a câmera para os responsáveis pela execução de cerca de dois milhões de pessoas na Indonésia e perguntar como realizaram a matança, oferecendo a eles a oportunidade não só de narrar o que fizeram, mas de reencenar seus crimes.

Sem jamais tentar pressionar os entrevistados ou acusá-los diretamente, o cineasta Joshua Oppenheimer apenas coloca aqueles indivíduos sob os holofotes, o que se revela mais do que o suficiente para que eles mesmos se apresentem inteiramente ao espectador. Focando especialmente em Anwar Congo, um simpático velhinho que lembra Nelson Mandela (fisicamente!), e seu amigo Herman Koto, o filme expõe o poder que estes homens ainda exercem ao trazê-los recrutando “atrizes” na rua para que estas interpretem suas vítimas durante o massacre ocorrido em 1965 – e o temor nos olhos das pobres mulheres, acreditem, não é resultado de técnicas de atuação. Da mesma maneira, Koto não hesita em aparecer diante da câmera extorquindo comerciantes locais e anunciando que decidiu se candidatar a um cargo eletivo por saber que, caso vença, poderá arrancar muito mais dinheiro dos executivos do país.

Estes momentos, contudo, empalidecem diante daqueles nos quais Congo reencena seus crimes, escalando-se como gângster (palavra que todos insistem em dizer que vem da expressão inglesa “homens livres”) por ser fascinado por este tipo de personagem, não demorando a revelar também que parte dos seus métodos de execução foi inspirada pelos filmes que via na juventude. Influente a ponto de visitar casualmente o governador do estado e o escritório de um dono de jornal (“Meu papel era fazer o público odiar os comunistas”, conta o sujeito, orgulho e demonstrando seu parentesco com certos grupos de mídia brasileiros), Anwar Congo é também um indivíduo cuja vaidade o leva a tingir os cabelos e a encomendar uma prótese dentária que ele coloca no lugar sempre que um momento importante se apresenta.

Ainda assim, talvez o mais chocante em O Ato de Matar seja constatar que, ao reverem as cenas que filmaram, aqueles homens não apenas não sentem remorso algum como ainda experimentam um claro orgulho diante de suas performances – e chega a ser enlouquecedor pensar que os instantes nos quais interpretam suas próprias vítimas serão o mais próximo que chegarão de ser punidos pelo que fizeram.

Culminando numa sequência musical mais do que apropriada por representar a fantasia saída da mente de um genocida, o documentário aponta que talvez aqueles canalhas tenham uma leve consciência da gravidade de seus crimes apenas nos instantes finais da projeção, quando, ao revisitar o local no qual matou tantas pessoas, Anwar Congo experimenta uma crise de vômito inesperada, como se seu corpo, revoltado com seu dono, tentasse expulsar fisicamente aquelas lembranças.

Logo, porém, o sujeito se recuperará e estará pronto para desfrutar o prestígio que ganhou através de sua sociopatia. (4 estrelas em 5)

Para finalizar, um breve videocast com um balanço dos melhores longas vistos durante o Festival:

Festival do Rio #11

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos | 2 comentários

Abraços para o sr. Urina por não ter comparecido a nenhuma das sessões nas quais eu me encontrava hoje – embora eu tenha sido informado de que ele aprontou um pequeno escândalo em função do cancelamento de uma sessão e, claro, emporcalhou o chão do Vivo Gávea.

Mas vamos aos filmes:

51) Mapa (Idem, Espanha, 2012). Dirigido por León Siminiani.

Mapa é um documentário fascinante: iniciado pelo espanhol León Siminiani como uma busca terapêutica para superar o fim de um namoro, o filme eventualmente se torna um diário de viagem, uma reflexão sobre a cultura da Índia, um breve libelo político e, acima de tudo, um estudo sobre a própria linguagem cinematográfica e a análise metalinguística de sua própria criação.

Até completar o círculo e se tornar uma busca terapêutica para superar o fim de um novo namoro.

Divertido graças ao senso de humor sutil e à tendência de Siminiani em analisar seu próprio processo mental e artístico durante toda a duração do projeto, Mapa tem o título perfeito não só em sua conotação geográfica (por acompanhar a jornada do diretor pela Índia e, mais tarde, pela Espanha), mas também em seus diversos simbolismos, já que acompanha a trajetória emocional e criativa do cineasta.

Demonstrando possuir uma das maiores virtudes de um artista – a abertura constante a descobrir novos caminhos de expressão -, Siminiani vai descobrindo a estrutura de seu filme à medida que o constrói, nem sempre acertando, o que o obriga a retornar a caminhos antes abandonados, a repensar decisões e, principalmente, a se questionar o tempo inteiro. Assim, se em certo momento ele passa a observar a arquitetura neocolonialista de Calcutá, sua voz autocrítica (que ele batiza de “O Outro”) não demora a condená-lo por imprimir uma visão de burguês do Primeiro Mundo ao país que visita – e, no entanto, ao apontar sua câmera para a miséria que encontra, a mesma voz o acusa de tentar explorar a pobreza para conferir um caráter social ao filme.

A pressão autoimposta é tamanha que, em certos instantes, Mapa se resume a uma tela preta enquanto Siminiani se sente travado para filmar qualquer coisa, optando apenas por registrar suas ideias em breves letreiros. Já em outros pontos da projeção, o diretor deixa clara sua lógica estrutural ao anunciar que, farto de discutir morte, irá fazer um fade breve que leve a uma transição e permita a mudança do tema.

Assim, aos poucos o realizador vai conquistando o espectador não só através do humor e de suas neuroses, mas também por se mostrar tão franco quanto às suas inseguranças artísticas e pessoais. Abertamente carente, ele retrata o instante em que conhece uma mochileira da Dinamarca e se torna seu companheiro de viagem por alguns dias – revelando que, embora conversasse sobre a viagem em si, sua mente mantinha-se obcecada pela possibilidade de tê-la como namorada. Já em outro ponto da narrativa, Siminiani busca registrar as ações de uma vaca presa em um canal, sendo obrigado a lutar pelo controle do quadro com um garotinho que insiste em permanecer à sua frente, resultando em uma interação divertida e lúdica.

Sem tentar forçar um desfecho satisfatório em uma obra que, por sua própria natureza, jamais poderia ser concluída (posto que gira em torno da calmaria amorosa que humano algum alcança de fato), Mapa é um documentário que conquista por sua encantadora honestidade. (5 estrelas em 5)

52) Matéria Obscura (Materia Oscura, Itália, 2013). Dirigido por Massimo D’Anolfi, Martina Parenti.

Matéria Obscura é um documentário entediante sobre um assunto importante, o que é uma combinação lamentável. Buscando expor os efeitos danosos no ecossistema de uma região da Sardenha usada para testes de mísseis desde a década de 50, o filme de Massimo D’Anolfi e Martina Parenti tenta criar uma narrativa que não dependa de narrações ou depoimentos, permitindo que as imagens capturadas falem por si mesmas. Neste sentido, a dupla merece aplausos, já que o número de longas construídos preguiçosamente e que resolvem todos os problemas através do batido recurso do voice over é cada vez maior – e, portanto, é uma pena que o esforço seja tão malsucedido.

Sim, há passagens relativamente eficazes ao longo dos intermináveis 80 minutos de duração do filme, que comove, por exemplo, ao trazer um velho fazendeiro insistindo em cuidar carinhosamente de um bezerro que, nascido com deformações supostamente provocadas pela contaminação da região pelo tório presente nos experimentos militares, não consegue se alimentar sozinho – mas estes instantes estão espalhados em meio a extensas sequências que se resumem a mostrar vacas e ovelhas pastando ao som soporífero de seus sininhos e a imagens recorrentes de mísseis sendo disparados.

Com isso, ao final da projeção, em vez de sairmos da sala com a revolta que deveríamos sentir, ficamos apenas aliviados por termos sido libertados daquela experiência excruciante. (2 estrelas em 5)

53) Duo (Dvojina, Eslovênia, 2013). Dirigido por Nejc Gazvoda. Com: Nina Rakovec, Mia Jexen, Jure Heigman, Natasa Barbara Gracner, Matjaz Tribuson.

Em certo momento de Duo, longa esloveno escrito pelo diretor Nejc Gazvoda ao lado de Janez Lapajne, as duas personagens vividas pelas ótimas atrizes Nina Rakovec e Mia Jexen decidem trocar confidências, mas com um detalhe importante: cada uma fará a revelação em sua própria língua, que a outra não compreende. Abrindo-se por se sentirem seguras de que suas palavras trarão certo alívio ao serem ditas, mas sem que, no processo, exponham suas fragilidades, as moças se aproximam não por se conhecerem mais do que antes, mas por terem servido como catalisadoras de discretas catarses.

Delicado no desenvolvimento da relação entre as garotas, Duo é um filme capaz de alternar momentos de leveza com outros que surgem sufocantes, discutindo, no processo, a busca pela própria identidade e a difícil trajetória rumo à independência que a idade adulta deve trazer.

Tropeçando em alguns clichês que tentam conferir um drama maior do que o necessário à história e em planos óbvios que se esforçam para alcançar simbolismos tolos (como o instante no qual as asas de uma escultura de dragão surgem posicionadas atrás de Iben), o longa representa uma experiência simpática, mas esquecível. (3 estrelas em 5)

 

54) Guerras Sujas (Dirty Wars, EUA, 2012). Dirigido por Richard Rowley. Com: Jeremy Scahill.

Em fevereiro de 2010, uma festa familiar na pequena vila de Gardez, no Afeganistão, resultou em tragédia quando soldados norte-americanos chegaram ao local e dispararam suas metralhadoras contra os ocupantes da casa, matando dois homens (um deles, um policial treinado pelos próprios Estados Unidos) e duas mulheres grávidas. Pouco depois, o jornalista Jeremy Scahill, farto de cobrir apenas as notícias divulgadas oficialmente pela OTAN, ouviu falar sobre o incidente e partiu para Gardez, onde descobriu algo ainda mais assustador e revoltante: um vídeo que mostrava os soldados discutindo a versão que iriam apresentar para o massacre cometido, o que, somado ao fato de terem retirado as balas dos cadáveres usando facas, evitaria que fossem incriminados pelo que fizeram.

A investigação de Scahill culminaria na descoberta do sinistro Joint Special Operations Command (JSOC), um grupo militar secreto que se reportava diretamente à Casa Branca e tinha, como tarefa, executar alvos em países como Afeganistão, Iraque, Iêmen e até mesmo na América Latina, culminando no assassinato do primeiro cidadão norte-americano a mando do presidente sem que o sujeito houvesse sido indiciado ou julgado.

Construído na forma de um thriller político com toques conspiratórios e que poderia ter saído da imaginação de um roteirista na década de 70, Guerras Sujas é um documentário apavorante que comprova, através de fartas evidências, as ações criminosas do governo Obama, que, ao contrário de suas promessas de campanha, acabou intensificando a “guerra ao terror” ao conferir poder irrestrito ao temido JSOC – que, nas palavras de um de seus integrantes (que depõe se mantendo no anonimato), se “tornou um martelo gigante sempre à procura de um prego”.

Famoso por ter executado bin Laden, o JSOC surge aqui não como o comando heroico celebrado nas ruas por uma população em êxtase catártico com a morte do arquiteto do 11 de Setembro, mas como uma organização terrorista (“talibã norte-americano”, como diz alguém) que conta com o poderio e as fartas verbas ianques para caçar e matar cidadãos em todo o planeta sem prestar contas a quem quer que seja, resultando em massacres como o que ocorreu no Iêmen, quando 56 civis (incluindo 21 crianças) foram destruídos por um míssil.

Anunciando aos quatro ventos que seus enviados militares têm o dever de “conquistar os corações” dos cidadãos que vivem nos países invadidos, o governo dos Estados Unidos parece, através deste tipo de ação, estar apenas fomentando o ódio internacional – e não é à toa que a lista de 55 alvos da CIA logo é ampliada para outra contendo alguns milhares de nomes. Da mesma maneira, é sintomático perceber que a primeira vítima nascida nos Estados Unidos, o imame Anwar al-Awlaki, era um líder islâmico moderado que logo condenou os ataques de 11 de Setembro até que, ao fazer críticas às ações de seu país no Iraque e contra muçulmanos ao redor do mundo, tornou-se perseguido politicamente e acabou preso, passando 17 meses numa solitária e eventualmente sofrendo um atentado por parte do JSOC. Resultado: al-Awlaki tornou-se um radical, passou a incentivar jovens a declararem uma jihad contra os norte-americanos e acabou morto num ataque por drones. De novo: sem julgamento algum. Para piorar, seu filho de 16 anos acabou pulverizado em outro bombardeio pouco depois apesar de jamais ter tido envolvimento algum com as ações do pai.

Revoltado com todos estes fatos, o jornalista Jeremy Scahill tentou denunciar as ações do JSOC, mas sua visita a um comitê do congresso dos Estados Unidos foi ignorada por todos e suas participações em talk shows resultaram apenas em discussões típicas do infotainment contemporâneo, no qual o propósito é ganhar audiência através de berros e piadas.

O que nos traz a este documentário, que, ao lado do livro lançado pelo repórter, busca expor a verdade por trás dos “heróis” do JSOC. Trata-se de um filme impecável no que diz respeito à apresentação dos fatos e do processo investigativo de Scahill, mas que peca por tentar transformar o jornalista no centro da história, trazendo vários planos nos quais o vemos com olhar pensativo, comprando café ou fazendo anotações – elementos totalmente descartáveis que servem apenas para desviar pontualmente o foco da importante história que o sujeito quer contar. E que precisamos desesperadamente ouvir. (4 estrelas em 5)

Festival do Rio #10

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos | 4 comentários

Abraço carinhoso aos leitores Fernanda e Fábio, que foram tão gentis comigo num dos intervalos do dia.

Aproveito para explicar que os textos hoje estão mais curtos por motivos de exaustão absoluta. Mal aê.

46) Yema (Idem, Argélia, 2012). Dirigido por Djamila Sahraoui. Com: Djamila Sahraoui, Samir Yahia, Ali Zarif.

Escrito, dirigido e protagonizado por Djamila Sahraoui, Yema (“Mãe”) tem início de maneira simples e impactante ao trazer a personagem-título percorrendo um longo caminho em silêncio enquanto puxa uma esteira. Já em casa, a frágil mulher expõe o que carregava – o cadáver do filho – e passa a lavá-lo e a prepará-lo para um enterro solitário nos fundos de sua isolada casa. A partir daí, acompanhamos o cotidiano desta mulher que, constantemente vigiada por um jovem soldado do grupo fundamentalista comandando por seu outro filho, nutre verdadeira raiva pelo caçula, que considera responsável pela morte do irmão.

Dona de um rosto que traz uma profunda dignidade sob as bochechas encovadas e as rugas, Sahraoui constrói uma narrativa calcada nas ações mudas dos personagens, que, quando abrem a boca, normalmente dizem palavras raivosas e amarguradas. Adotando uma abordagem quase documental ao acompanhar a dinâmica entre a Mãe e o jovem soldado, Yema é um filme delicado e doloroso que se sustenta graças à forte presença da dupla principal e a uma montagem que conduz com segurança a passagem do tempo.

Longa repleto de símbolos – como a própria horta que acompanha o (res)surgimento de vida naquele local tão seco e poeirento, Yema é um trabalho politicamente consciente e dramaticamente eficaz. (4 estrelas em 5)

 

47) A Filha de Ninguém (Nugu-ui Ttal-do Anin Haewon, Coréia do Sul, 2013). Dirigido por Hong Sang-soo. Com: Jeong Eun-Chae, Lee Seon-gyun, Yoo Joon-sang, Ye Ji-won, Kim Ja-ok e Jane Birkin.

Novamente se entregando ao seu Cinema-alcoolismo, que traz personagens enchendo a cara enquanto discutem o amor, o futuro e trivialidades, o cineasta sul-coreano Hong Sang-soo realiza, em A Filha de Ninguém, um estudo de personagem vazio sobre uma protagonista idem. Aliás, seria até arriscado afirmar que o longa realmente se propõe a ser um estudo de personagem, considerando que, ao final da projeção, nem sabemos ao certo o que era sonho ou realidade e quem, de fato, era aquela moça.

Para piorar, o estilo já normalmente contemplativo (aqui, um eufemismo para “aborrecido”) de Sang-soo, com seus planos longos que incluem zooms pontuais para ressaltar alguns detalhes, acaba se tornando um poderoso sonífero. (2 estrelas em 5)

48) Sacro GRA (Idem, Itália, 2013). Dirigido por Gianfranco Rosi.

Primeiro documentário a vencer o Leão de Ouro em Veneza, Sacro GRA enfoca recortes do cotidianos de vários personagens que, em comum, têm apenas o fato de viverem nas proximidades do anel rodoviário que dá título ao filme e que, com cerca de 70 quilômetros de extensão, circunda Roma. Ao longo dos 90 minutos de projeção, o cineasta Gianfranco Rosi apresenta ao espectador figuras tão diversas quanto um botânico obcecado por palmeiras, um casal de aristocratas decadentes que vive numa mansão cafona, um pescador, um paramédico, duas strippers e a uma pequena família formada por pai e filha. Enquanto testemunhamos conversas destes indivíduos e vemos algumas reencenações claras de passagens de seus cotidianos, Rosi pinta um retrato abrangente da sociedade italiana e de suas aspirações, frustrações e dificuldades.

É, sem dúvida, um filme que traz momentos divertidos (para mim, o mais engraçado foi perceber que os aristocratas batizaram a pequena filha de Anastácia, numa aspiração de realeza tão óbvia quanto patética) e outros profundamente comoventes – como a conversa do paramédico com a mãe velhinha, que, com sinais de demência, insiste em tratá-lo como criança. Podendo apenas espiar através das janelas de um prédio (onde conhecemos simpáticos e divertidos pai e filha) ou ir ao camarim improvisado no qual strippers humildes fazem intervalos em seus tristes shows a fim de comer um rápido salgado com refrigerante, Sacro GRA é um longa humanista que ama seus personagens e trata-os com carinho. No entanto, o anel rodoviário usado como ponte da narrativa é tão grande que, como conexão temática, acaba sendo tênue demais.

Além disso, por mais que se esforce, o documentário jamais consegue se aproximar de fato daquelas pessoas, que se mantêm como tipos, não indivíduos – e é neste aspecto que um cineasta como Eduardo Coutinho costuma fazer a diferença. E, a julgar pelo prêmio concedido ao projeto, ou o Festival de Veneza estava particularmente fraco este ano ou os juízes jamais viram um filme do mestre Coutinho. (3 estrelas em 5)

 

49) Abuso de Vulnerável (Abus de Falblesse, França, 2013). Dirigido por Catherine Breillat. Com: Isabelle Huppert, Kool Sheen, Laurence Ursino.

Filme com fortes influências autobiográficas que inspirado no AVC sofrido pela diretora Catherine Breillat em 2004 e seu consequentemente envolvimento com um golpista que lhe roubou centenas de milhões de dólares, Abuso de Vulnerável é um trabalho frágil e autoindulgente que pode até ter servido como exercício terapêutico para sua realizadora, mas que, como narrativa, traz graves problemas do início ao fim.

Um deles – e isto me surpreendeu particularmente – é a terrível performance de Isabelle Huppert, que falha tanto na composição física das sequelas sofridas pela cineasta que interpreta aqui quanto em seus maneirismos e tiques vocais, incluindo a ridícula risadinha que costuma soltar por qualquer motivo. Como se não bastasse, o longa parece querer inaugurar a “pornografia do derrame”, concentrando a maior parte da projeção em cenas que se resumem a mostrar a protagonista perdendo o equilíbrio, mancando, inclinando-se para pegar algo e voltando a cair, levantando-se, experimentando dificuldades para entrar em um carro e por aí afora, como se Breillat quisesse salientar todos os problemas físicos – e ênfase no “todos” – que enfrentou após o AVC.

Sim, sua determinação ao se recuperar e voltar ao trabalho é admirável e poderia render um bom filme, mas o que vemos aqui soa quase como autopiedade somada à tentativa de entender como pode ter sido enganada por um golpista de métodos tão óbvios – e o pior: que ela sabia se tratar de um golpista. E que não conseguiu nem mesmo fazer o favor de inspirar um bom filme. (2 estrelas em 5)

50) Gravidade (Gravity, EUA, 2013). Dirigido por Alfonso Cuarón. Com: George Clooney, Sandra Bullock e a voz de Ed Harris.

Leia a crítica no site.

Festival do Rio #09

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Hoje não fui cumprimentado por ninguém entre as sessões. Estou perdendo o carisma, pelo visto.

Já os filmes foram excelentes:

42) Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo (Când se lasa seara peste Bucuresti sau metabolismo, Romênia, 2013). Dirigido por Corneliu Porumboiu. Com: Bogdan Dumitrache, Diana Avramut, Mihaela Sirbu, Alexandru Papadopol.

Meu saudoso mestre, ídolo e amigo Roger Ebert costumava dizer que o que importa não é “sobre o que é um filme, mas sim como o filme é sobre o que é” – uma afirmação que é colocada à prova (e comprovada) no romeno Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo, que traz uma história tola (diretor se envolve sexualmente com atriz secundária de seu filme) originando um longa ambicioso e fascinante que discute a estética e a linguagem do Cinema.

Dirigido por Corneliu Porumboiu (do ótimo À Leste de Bucareste e do fraco Polícia, Adjetivo), o filme já estabelece a lógica narrativa que irá adotar logo em seu plano inicial, que traz o diretor Paul (Dumitrache) explicando para a amante Alina (Avramut) como o Cinema estará irreconhecível daqui a 50 anos por permitir, através do digital, que tomadas imensas sejam rodadas sem corte algum, contrastando com os 11 minutos máximos permitidos pelo rolo de 35mm – um cena que, não por acaso,  dura cerca de 10 minutos ininterruptos. A partir daí, como é característico no Novo Cinema romeno, cada cena de Metabolismo é apresentada em planos únicos e longos nos quais a câmera mal se move.

Refletindo desta maneira sobre sua própria maneira de fazer Cinema, o cineasta evidencia, com o filme, o fato óbvio (mas por muitos ignorado) de que a tecnologia afeta diretamente a linguagem da Arte: quando muda um, o outro acompanha inevitavelmente. Assim, é natural que Porumboiu logo passe a discutir também a importância da mise-en-scène na construção da narrativa, fazendo-o brilhantemente através de um uso bastante sutil da metalinguagem. Em certo instante, por exemplo, Paul ensaia uma cena na qual Alina deve sair do banho, escutar uma conversa no corredor e, abalada, retornar para o quarto, o que inspira uma discussão entre os dois sobre o que seria mais natural naquelas circunstâncias – e, claro, já na cena seguinte Paul sai do banho e, entreouvindo uma conversa da companheira no telefone, senta-se na cama, reproduzindo sem perceber a marcação de cena previamente discutida.

Da mesma maneira, o protagonista parece determinado a incluir uma cena em seu filme que traga a namorada nua, o que o obriga a tentar justificar aquela nudez – e, de novo refletindo os dilemas da história, o próprio Metabolismo logo traz uma cena de sexo sugerida apenas através dos gemidos do casal enquanto permanecemos diante de uma porta fechada (o que não o impede de, momentos depois, trazer a atriz nua, obrigando o espectador a refletir sobre a necessidade de ver o corpo de Diana Avramut).

É aí que reside o fascínio do longa, diga-se de passagem: no fato de comentar suas próprias opções narrativas. Obcecado pelo realismo, por exemplo, Paul insiste em obrigar Alina a secar o cabelo por dez minutos no filme-dentro-do-filme, mas o ensaio em si traz a garota fazendo os sons do secador com a boca e simulando sua ação através de mímica, o que, na prática, traz uma ação falsa sendo usada para reproduzir o simulacro de uma ação verdadeira. Com isso, Porumboiu não apenas escancara a importância do artifício no fazer cinematográfico como, paradoxalmente, usa o excesso de realismo como artifício de seu próprio filme.

Refletindo a importância dos meios de criação da Arte, Metabolismo ainda insiste com inteligência no tema ao trazer uma breve discussão sobre como a utilização do hashi (os “pauzinhos” usados como talheres na China) moldou a culinária chinesa, já que o foco dos alimentos passa a ser o conteúdo (sabor, cheiro, estética) em vez de os instrumentos para consumi-los, resultando em pratos sofisticados e complexos.

E, neste sentido, Metabolismo é um filme para ser apreciado com hashi, não com os brutos garfo-e-faca. (5 estrelas em 5)

43) O Imigrante (The Immigrant, EUA, 2013). Dirigido por James Gray. Com: Marion Cotillard, Joaquin Phoenix, Jeremy Renner, Dagmara Dominczyk, Angela Sarafyan.

O Imigrante* é uma obra com valores de produção fabulosos que, fortalecido pelo ótimo elenco, tem uma tendência alarmante de se entregar ao melodrama, como se parecesse desesperado para provocar as lágrimas do espectador. Sim, a trajetória da protagonista é dura e triste e os demais personagens são criaturas melancólicas em um mundo hostil, mas, justamente por isso, teria sido melhor se o diretor e roteirista James Gray houvesse permitido que o espectador apreendesse aquele sofrimento em vez de ser por ele martelado.

Ambientado em 1921, quando a imigrante polonesa Ewa Cybulski (Cotillard) chega a Nova York ao lado da irmã Magda (Sarafyan), o filme acompanha a moça quando esta é ameaçada de deportação e resgatada pelo judeu Bruno Weiss (Phoenix), que suborna um guarda a fim de retirá-la da ilha Ellis. Weiss, porém, não tem intenções nobres, já que imediatamente escala Ewa em seu espetáculo burlesco em uma pequena bodega que vende bebidas ilegais. Determinada a juntar dinheiro para resgatar a irmã, que encontra-se detida na ilha por apresentar sintomas de tuberculose, a protagonista logo se entrega à prostituição enquanto Bruno, que se descobre apaixonado pela moça, se debate entre o pragmatismo e o amor. E é então que, para complicar ainda mais o quadro, entra em cena o mágico Orlando (Renner), que compete com o outro pelo afeto da bela polonesa.

Trazendo uma fotografia belíssima de Darius Khondji, que, filmando a Nova York da década de 20 em tons de sépia e pontualmente mergulhada nas sombras, parece emular o trabalho de Gordon Willis em O Poderoso Chefão Parte 2, este O Imigrante faz um trabalho de recriação de época soberbo, desde os figurinos sujos e amarrotados até os prédios certamente construídos através da computação. Porém, mais importante que isso é a habilidade de Gray de conferir calor humano àqueles personagens tão miseráveis, que jamais surgem como simples mocinhos e vilões, mas como como indivíduos multifacetados que, mesmo odiando as próprias ações, são obrigados a executá-las a fim de se manterem vivos.

Neste aspecto, a performance de Joaquin Phoenix é particularmente bem-sucedida: seu Bruno é um homem que, inicialmente apresentando-se como um amigo gentil e interessado no bem-estar de Ewa, logo revela uma faceta explosiva e raivosa. Ainda assim, em nenhum momento questionamos o amor que ele genuinamente sente pela moça, mesmo que – como aponta Orlando – ele pareça mandar mensagens opostas ao seu sentimento, já que agencia o aluguel de seu corpo a estranhos. Desta maneira, um dos aspectos mais interessantes do filme reside em nossas expectativas constantes quanto às ações e reações de Bruno, sendo uma pena que, no terceiro ato, ele acabe se entregando a um monólogo que expõe de forma verbalizada o que era muito mais instigante quando apenas sugerido através de suas atitudes. Enquanto isso, Marion Cotillard encarna Ewa como uma mulher estoica que, inicialmente ingênua e frágil, logo se torna uma criatura cínica e amarga, ao passo que Jeremy Renner, como Orlando, pouco pode fazer com o personagem a não ser vivê-lo como um homem apaixonado e, por isso mesmo, propenso a fazer tolices.

Cruzando eventualmente a fronteira rumo ao melodrama, O Imigrante logo parece criar situações trágicas apenas com o intuito de trazer sua protagonista em desespero, o que, claro, apenas deixa o espectador mais consciente da manipulação da narrativa. Por outro lado, é impossível não se encantar com a beleza das imagens criadas por Khondji, destacando-se, claro, o plano que traz um personagem sendo surrado em um túnel e aquele, absolutamente magnífico e repleto de simbolismos, que encerra a projeção.

Marcando a quarta colaboração entre Gray e Phoenix (depois de Caminho Sem Volta, Os Donos da Noite e Os Amantes), O Imigrante é, também, a mais fraca delas – o que não quer dizer que o filme seja ruim. Apenas decepcionante.

* O título que o filme ganhou no Festival do Rio é obviamente incorreto, já que o artigo deveria estar no feminino. (3 estrelas em 5)

 

44) De Terça a Terça (De Martes a Martes, Argentina, 2012). Dirigido por Gustavo Triviño. Com: Alejandro Awada, Pablo Pinto, Malena Sánchez, Daniel Valenzuela.

Benítez (Awada) é um sujeito grande demais para ser tão tímido. Dedicando-se exaustivamente ao próprio corpo, o rapaz é tão forte que, ao ser contratado como segurança, o propósito de seus empregadores é justamente que ele não tenha que brigar, intimidando potenciais baderneiros apenas através de seu físico imponente. Assim, é curioso que ele seja tão inseguro, mal abrindo a boca na fábrica de roupas na qual trabalha e sendo constantemente provocado pelo chefe e por colegas da empresa. Por outro lado, pai e marido atencioso, ele sonha em abrir uma academia de ginástica, o que, no entanto, requer um investimento acima de suas condições financeiras.

E é aí que o filme escrito e dirigido por Gustavo Triviño começa a se complicar: se na primeira metade da projeção, De Terça a Terça havia se concentrado em nos apresentar ao cotidiano do personagem, a partir de então ele decide ser momento para desenvolver a trama, levando o protagonista a testemunhar um estupro e à decisão de chantagear o obviamente rico estuprador. A partir deste momento, o longa começa a perder o espectador, já que, de imediato, é impossível não nos afastarmos de Benítez ao vê-lo acompanhando o crime sem fazer nada mesmo tendo total capacidade de impedi-lo. Pior: o filme nem mesmo considera a possibilidade de que o sujeito tenha sido co-responsável por omissão, parecendo acreditar que o fato de buscar fazer justiça, no final das contas, é o bastante para provar seu caráter.

De todo modo, De Terça a Terça conta sua historinha simples de maneira eficiente, levando-nos a torcer para que o plano de Benítez dê certo (mesmo que condenemos sua atitude, ele é menos pior que o estuprador, claro). Claro que, no processo, não há muita tensão ou mesmo drama, mas ao menos o roteiro conduz a trama do ponto “A” ao inevitável e previsível ponto “B” sem se perder.

Seja como for, ver as estatísticas dos crimes de estupro na Argentina surgindo na tela, ao final da projeção, soa mais como um cinismo descarado da produção, que parece tentar ganhar uma conotação social séria que não fez por merecer, do que como algo apropriado naquele espaço. Àquela altura, porém, o público já está deixando a sala com um sorriso moderadamente satisfeito graças ao que viu. (3 estrelas em 5)

 

45) O Lobo Atrás da Porta (Idem, Brasil, 2013). Dirigido por Fernando Coimbra. Com: Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabiula Nascimento, Juliano Cazarré, Emiliano Queiroz, Tamara Taxman, Thalita Carauta, Isabelle Ribas.

O Lobo Atrás da Porta, longa de estreia de Fernando Coimbra, é um animal estranho: em um momento, provoca o riso aberto em função do desespero de um personagem apenas, para no instante seguinte, despertar o horror no espectador quando aquele mesmo indivíduo age para resolver a questão que o perturba. Equilibrando-se com uma segurança invejável entre o drama, a comédia, o estudo de personagem e, nos dez minutos finais, pelo suspense, o filme envia o público para fora da sala com uma sensação de vergonha por ter rido quando a narrativa assim o quis.

Roteirizada pelo próprio diretor, a história tem início quando Sylvia (Nascimento) vai até a creche da filha pequena (Ribas) para buscá-la e descobre que a menina já havia sido apanhada por uma “vizinha”. Sem poder imaginar por que alguém sequestraria a garota, já que seus pais estão longe da riqueza, a desesperada mulher sugere que o marido pode ter uma amante – e logo o sujeito, Bernardo (Cortaz), confirma que manteve um caso com a jovem Rosa (Leal). A partir daí, o detetive responsável (Cazarré) interroga os três adultos, descobrindo, aos poucos, o que realmente ocorreu naquele dia.

Surpreendente por extrair humor de uma situação tão séria, o filme é beneficiado especialmente pelas atuações impecáveis de Leal, Cortaz e Nascimento: enquanto esta última denota não só a preocupação com a filha, mas também a impaciência com o marido durante os flashbacks nos quais começa a desconfiar do caso que este mantém, Milhem Cortaz consegue se desprender do tipo brutamontes/malandro que normalmente encarna ao transformar Bernardo num sujeito patético, fraco e desesperado, conseguindo simultaneamente fazer com o que o espectador ria de sua situação e compreenda a seriedade do que está ocorrendo.

Ainda assim, O Lobo Atrás da Porta pertence mesmo a Leandra Leal, que cria uma personagem cuja transformação ao longo da projeção impressiona, partindo do flerte descompromissado à obsessão absoluta, passando pela paixão contida, a frustração crescente e a raiva. Jamais perdendo de vista a trajetória emocional e psicológica de Rosa, a bela atriz impressiona particularmente numa cena em que, agredida pelo amado, se entrega às lágrimas e a um tremor nervoso que revela seu medo e sua dor diante do ocorrido. Leal sempre foi uma atriz admirável, mas aqui comprova merecer estar no topo da lista das grandes intérpretes do Cinema nacional (e percebam que nem cheguei a mencionar sua performance no terço final, que transforma a Glenn Close de Atração Fatal em Amélie Poulain sem jamais soar caricata ou artificial).

Fotografado pelo sempre competente Lula Carvalho de maneira claustrofóbica, com quadros quase sempre fechados que nos colocam colados aos rostos dos atores, o filme ainda traz uma paleta triste e sombria que se torna gradualmente mais sufocante. Além disso, a narrativa é beneficiada por planos que comunicam a atmosfera da história sem a necessidade de diálogos – e quando Bernardo surge no extremo esquerdo do quadro, olhando para fora de campo e parecendo encurralado enquanto Rosa o observa do fundo e à direita, percebemos a dinâmica entre aqueles dois indivíduos de forma inequívoca. Enquanto isso, Fernando Coimbra é hábil ao criar pequenos movimentos que, mesmo nas versões “alternativas” (melhor: incompletas) das histórias, demonstram os pequenos momentos de verdade sob a mentira – como, por exemplo, no hábito da hilária Betty de ajustar o top o tempo todo.

Da mesma maneira, é admirável como o filme sugere toda um subtexto familiar envolvendo Rosa ao trazê-la buscando uma garrafa de bebida oculta numa vasilha que guardava arroz – o que, associado ao personagem quase catatônico de Emiliano Queiroz (sempre um ator evocativo, mesmo mudo), aponta para uma família vitimada pelo alcoolismo do sujeito, o que poderia explicar, em parte, o desequilíbrio emocional da garota. Além disso, embora Rosa se revele obsessiva e perigosa, O Lobo Atrás da Porta não absolve Bernardo, que se mostra um homem egoísta ao mentir para a jovem sobre seu estado civil e envolvê-la num relacionamento sem futuro – um ato babaca que, no entanto, nem chega aos pés da atitude vil que ele toma tempos depois.

Sem fazer concessões em seu ato final, mantendo-se íntegro ao desenvolvimento inevitável de seus personagens, este é um filme marcante que apresenta Fernando Coimbra como um cineasta a ser acompanhado de perto. (5 estrelas em 5)

Festival do Rio #08

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Abraços aos alunos Gabriel, Tiago e Fárlei, que gentilmente me cumprimentaram nos intervalos da programação.

E ‘bora trabalhar:

38) O Conhecido Desconhecido: A Era Donald Rumsfeld (The Unknown Known, EUA, 2013). Dirigido por Errol Morris.

Ao escrever sobre Procedimento Operacional Padrão, há cinco anos, elogiei a abordagem do cineasta Errol Morris ao avaliar o papel das câmeras e da possibilidade de registro fotográfico no escândalo das torturas em Abu Ghraib, mas lamentei o fato de que, no processo, o documentarista deixava de voltar sua lente para os verdadeiros culpados por tudo aquilo: os engenheiros da “guerra contra o terror”. Pois é justamente isso que o diretor faz agora ao realizar seu segundo filme-entrevista protagonizado por um secretário de Defesa norte-americano: se em Sob a Névoa da Guerra ele interrogava Robert McNamara, desta vez Morris se concentra em Donald Rumsfeld, que ocupou o cargo no governo de Gerald Ford e – mais relevante aqui – durante seis anos do governo de George W. Bush.

Empregando seu já tradicional recurso de colocar um prisma diante da câmera para que o entrevistado, ao olhar para Morris, encare diretamente o espectador, O Conhecido Desconhecido nos oferece um olhar direto e próximo de Rumsfeld, que surge em primeiros planos que escancaram seus frequentes (e normalmente inapropriados) sorrisos enquanto discute algumas das principais passagens de sua vida. Sujeito inteligente e articulado, ele claramente se orgulha de sua infinita capacidade de oferecer não-respostas aos questionamentos do diretor, como ao dizer que as informações que recebeu da CIA sobre as armas de destruição em massa no Iraque “não eram exatamente precisas” (um eufemismo ofensivo para “eram completamente erradas”) e ao ser indagado sobre como a Al-Qaeda conseguiu atacar os Estados Unidos num golpe “incrível em retrospecto”, quando, em vez de reconhecer suas falhas, já que relatos da Inteligência apontavam para esta possibilidade há meses, diz apenas que “em retrospecto, tudo é incrível. Foi falha de imaginação”.

Famoso por seus inúmeros memorandos (o próprio Rumsfeld estima ter escrito milhões deles), o entrevistado é levado por Morris a ler várias passagens destes textos ao longo da projeção, transformando-os no esqueleto que dá forma à narrativa. Assim, enquanto reexamina a trajetória do ex-secretário de Defesa, o filme evidencia que, embora inteligente, o sujeito frequentemente cometia erros graves de interpretação e análise dos dados – muitos deles claramente intencionais, já que serviam aos interesses imediatos do governo Bush/Cheney. Além disso, Rumsfeld não hesita em defender a integridade dos administradores da prisão em Guantánamo Bay, negando de forma inacreditável todos os abusos fartamente documentados que ocorriam ali.

Neste aspecto, vale dizer, um dos elementos mais interessantes de O Conhecido Desconhecido é a maneira implacável com que Morris confronta Rumsfeld. Em certo instante, por exemplo, o protagonista afirma que em nenhum momento o governo tentou levar o público a acreditar que Saddam Hussein estivera envolvido nos ataques de 11 de Setembro – algo que o filme imediatamente desmente ao trazer imagens de arquivo nas quais o próprio Rumsfeld surge numa entrevista coletiva fazendo exatamente isto. Não que isto pareça constranger um homem que, ao ser flagrado mentido, imediatamente incorpora a informação à sua fala sem qualquer hesitação – como no momento em que diz que “não assassinamos líderes de outros países” apenas para, no segundo seguinte, descrever como bombardearam uma fazenda na qual Hussein supostamente se encontrava antes mesmo do início da guerra no Iraque.

Trazendo grafismos que exibem definições de dicionário na tela quando Rumsfeld cita determinados vocábulos, O Conhecido Desconhecido busca salientar, assim, a importância que o político atribui às palavras – cujo poder colossal é exposto através da trágica imagem de dezenas de lápides que ilustram a quantidade de vítimas das políticas de Bush/Cheney/Rumsfeld. Por outro lado, por mais que este último defenda de forma patética suas decisões, é impossível negar sua afirmação de que mesmo suas piores políticas acabaram sendo mantidas pelo Obama que tanto as criticava antes de assumir a presidência.

Expondo por 96 minutos o rosto gigante de Donald Rumsfeld na tela, o filme comprova que, visto de perto, todo mundo é humano – mas vai além e ilustra, também, que se formos ainda mais perto, acabaremos vendo o monstro por baixo da máscara do homem. (4 estrelas em 5)

39) Alabama Monroe (The Broken Circle Breakdown, Bélgica/Holanda, 2012). Dirigido por Felix van Groeningen. Com: Johan Heldenbergh, Veerle Baetens, Nell Cattrysse.

Com apenas dois minutos de projeção, ao ver a pequena filha do casal principal de Alabama Monroe recebendo uma injeção como parte de seu tratamento contra a leucemia, eu já sabia que o filme iria doer. E doeu. Aliás, este trabalho do diretor belga Felix van Groeningen é uma daquelas obras que, por mais que eu tenha apreciado, sei que jamais voltarei a assistir (uma categoria na qual se encaixam também O Quarto do Filho e Amor) – e isto é, acreditem, um elogio.

Baseado na peça co-escrita pelo protagonista Johan Heldenbergh, o roteiro de Carl Joos e do próprio van Groeningen acompanha a trajetória do casal Didier (Heldenbergh) e Elise (Baetens). Fazendeiro, músico e apaixonado pelo bluegrass e pela cultura norte-americana, ele rapidamente se apaixona pela tatuadora Elise, que, por sua vez, não demora a se encantar pelo sujeito, tornando-se até mesmo vocalista de sua banda. Anos mais tarde, já morando juntos e pais de uma adorável garotinha de seis anos de idade, Maybelle (Cattrysse, encantadora), os dois enfrentam a doença da filha, que desestabiliza uma união até então harmoniosa.

Com uma estrutura que salta de forma fluida entre passado, presente e futuro ao longo da narrativa, demonstrando a eficiência do montador Nico Leunen, o filme emprega a falta de linearidade cronológica de maneira inteligente para aliviar pontualmente a pesada carga dramática da história ao mesmo tempo em que nos torna mais familiarizados com os personagens. Assim, logo depois de uma cena particularmente trágica, Alabama Monroe retorna ao instante no qual o casal se conheceu, oferecendo espaço para o espectador voltar a respirar e permitindo que nos aproximemos ainda mais daquelas pessoas. Além disso, as composições sensíveis de Heldenbergh e Baetens são fundamentais para a eficiência do projeto: enquanto ela compõe uma mulher que vai da alegria e da leveza à depressão profunda e ao desespero, ele transforma Didier em um gigante de coração gentil que, mesmo devastado, busca oferecer apoio à mulher que ama – até que o esforço acaba permitindo que a amargura extravase de maneira terrivelmente pública.

Amarrado por sequências musicais que trazem as apresentações da banda de Didier, Alabama Monroe usa a seleção das canções incidentais de forma sábia, oscilando entre melodias alegres e melancólicas como um reflexo não só da atmosfera da narrativa em cada ponto, mas do próprio estado de espírito dos personagens. Neste sentido, a ótima fotografia de Ruben Impens completa a experiência ao saltar de cores quentes e agradáveis a paletas frias e dessaturadas.

Representando o pior pesadelo de qualquer pai, Alabama Monroe (e talvez seja melhor só ler o restante deste texto caso já tenha visto o filme) é um retrato aterrorizante da perda e do luto. Se montar o quarto dos filhos representa um momento de esperança, alegria e expectativa, ser obrigado a desfazê-lo, empacotando os brinquedos antes amados pela criança e suas pequenas e coloridas roupas é uma tarefa cruel e inclemente – e que só é rivalizada pela dor de ver, ainda pregados na geladeira, os desenhos infantis de um pequeno artista agora morto.

Não é à toa que tão poucos casamentos sobrevivem à perda de um filho – o que confere um novo significado ao “até que a morte os separe” -, já que, de certa forma, é como se o parceiro se tornasse uma lembrança viva e constante daquela dor: ali estão os olhos da criança ou o formato do rosto ou a cor dos cabelos ou um tique facial ou…

… não. Mais fácil, de certa forma, é se obrigar a mais uma perda do que se manter torturado pela original.

E uma das grandes virtudes de Alabama Monroe é justamente sua capacidade de retratar esta dor compartilhada de forma tão intensa e real. Além disso, ao contrastar a crença de Elise ao ateísmo de Didier, o filme consegue abordar duas maneiras diversas de enxergar a morte, demonstrando que nenhuma delas oferece conforto ou alívio de fato. Sim, aqui e ali o roteiro parece se entregar à pregação sobre a crença ou à falta de, mas ao menos é honesto ao – na maior parte do tempo – tratar as duas vertentes de forma equilibrada, tropeçando apenas ao optar por um recurso cinematográfico desonesto para, de certa maneira, evidenciar que a visão religiosa/metafísica era a “correta”.

O propósito, claro, é enviar o público para fora da sala de projeção com algum grau mínimo de consolo, mas isto ocorre às custas da integridade temática do longa, o que é lamentável.

Ainda assim, Alabama Monroe, candidato da Bélgica ao Oscar 2014, é denso e impactante o bastante para superar este equívoco e deixar uma impressão indelével na mente e na (falo simbolicamente) alma do espectador. (4 estrelas em 5)

40) Our Sunhi (U ri Sunhi, Coréia do Sul, 2013). Dirigido por Hong Sang-soo. Com: Yumi Jung, Lee Sunk-yun, Kim Sang-joong, Jung Jae-young.

Depois da pancada representada por Alabama Monroe, o sul-coreano Our Sunhi foi um antídoto eficiente. Iniciando já com uma cartela amarela de créditos acompanhada por uma música alegre, o filme de Hong Sang-soo é uma comédia curiosa que parece enxergar o lado divertido de seus personagens mesmo que estes se encarem com seriedade absoluta.

Seguindo o peculiar estilo do diretor, que, em vez de uma montagem tradicional usando planos/contraplanos e planos-detalhe, prefere empregar tomadas longas que usam deselegantes zooms para salientar determinados aspectos do quadro, o longa consiste em uma série de conversas entre a personagem-título e três homens que, em maior ou menor grau, se encontram encantados por sua beleza e acabam sendo por ela manipulados.

Com uma estrutura construída a partir dos paralelos entre as conversas, que trazem os personagens em longos planos que os posicionam de perfil para a câmera enquanto bebem e discutem as virtudes e defeitos de Sunhi, o projeto se mostra irregular justamente por, na maior parte do tempo, se resumir a conversas repetitivas entre bêbados pouco articulados e entediantes. Ainda assim, à medida que vamos nos familiarizando com a estratégia narrativa do diretor e percebendo o jogo de Sunhi (que parece determinada a provar não ser a “inocente” descrita no início da projeção), o filme se torna mais divertido e interessante.

Ao final, a impressão é a de que Our Sunhi se resume a um exercício de estilo atípico que vale mais pelo experimento do que pelo resultado alcançado. (3 estrelas em 5)

41) Por que Você Não Vai Brincar no Inferno? (Jigoku de Naze Warui, Japão, 2013). Dirigido por Shion Sono. Com: Jun Kunimura, Shinichi Tsutsumi, Hiroki Hasegawa, Gen Hoshino, Fumi Nikaido.

Concebido como uma declaração (não: um grito) de amor pelo Cinema, Por que Você Não Vai Brincar no Inferno? é um filme que traz personagens que se descrevem como “o rei do travelling” e “a rainha da câmera de mão”, o que já é um indício não só de sua abordagem, mas de seu senso de humor juvenil, empolgado e entregue a hipérboles.

Escrito e dirigido por Shion Sono, o roteiro se divide em narrativas paralelas que se concentram num grupo de cineastas amadores, em uma guerra entre duas facções rivais da Yakuza e no romance entre um jovem tímido e a antiga estrela de um comercial de creme dental. À medida que estas histórias começam a se cruzar, Sono passa a fazer uma série de referências/homenagens a gêneros clássicos do Cinema oriental, como os filmes de artes marciais e aqueles que abordam os confrontos da Yakuza, adotando também um estilo de violência estilizada que ultrapassa a fronteira entre o grosseiro e o cômico, divertindo pelo absurdo (algo característico, claro, dos filmes de Tarantino, que não só tem muitas das mesmas influências aqui vistas como certamente adoraria este longa).

Cobrindo a tela com litros de sangue e fotografado com um grão grosso que, aliado à cores saturadas e aos zooms e freeze frames, transformam o projeto em algo que poderia ter saído diretamente dos anos 70, o cineasta às vezes parece confundir “histeria” com “energia”, pecando especialmente no segundo ato, que acaba investindo numa gritaria interminável que mais incomoda que empolga. Aos poucos, porém, a narrativa recupera o foco, resultando em pequenas metáforas óbvias, mas ainda assim válidas (como a morte do projecionista), e, principalmente, num terceiro ato que, resumindo-se a uma longa sequência de ação complexa e inacreditavelmente sangrenta, surge como algo maior que um simples clímax, alcançando a sensação de catarse absoluta.

E a partir do momento em que vemos uma jovem retalhando inimigos em um campo florido, resultando em jorros de cores do arco-íris de seus peitos destroçados, Por que Você Não Vai Brincar no Inferno? comprova o poder do Cinema de transformar até mesmo a violência em algo… sublime. (4 estrelas em 5)

Festival do Rio #07

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Abraço ao aluno Luca, que me cumprimentou na saída de uma das sessões do dia, e um beijo especial à jovem leitora Ully, que me deixou comovido com seu carinho antes da sessão de Only Lovers Left Alive.

Mas vamos aos filmes:

33) Joe (Idem, EUA, 2013). Dirigido por David Gordon Green. Com: Nicolas Cage, Tye Sheridan, Gary Poulter, Erin Elizabeth Reed.

Filme profundamente triste e povoado por personagens sem qualquer esperança no futuro, Joe é ancorado não só por uma direção sólida de David Gordon Green, que vem tentando se distanciar de seus tropeços cômicos em Sua Alteza? e O Babá(ca), mas também pela melhor atuação de Nicolas Cage desde Vício Frenético.

Escrito por Gary Hawkins a partir de um livro de Larry Brown, o longa se passa em uma pequena comunidade do Texas na qual vive Joe Ransom (Cage), que emprega trabalhadores locais na tarefa de envenenar árvores para que, já mortas, possam ser cortadas por fazendeiros da região sem que isto seja considerado crime. Certo dia, o sujeito conhece o jovem Gary (Sheridan), que se mudou para a cidade com a família depois que o pai alcoólatra, Wade (Poulter), foi mais uma vez escorraçado de onde moravam em função de suas ações. Aos poucos, Joe e Gary vão se tornando próximos, mas a amizade é complicada pelo temperamento explosivo do primeiro e pelos problemas do segundo com o pai.

Mostrando-se surpreendentemente contido pela primeira vez em muitos anos (mesmo exibindo um ou outro “cageísmo” pontual), Nicolas Cage oferece aqui uma das melhores performances de sua carreira: seu Joe é um homem simpático com os conterrâneos e adorado por quase todos, mas que obviamente enfrenta sérios problemas de personalidade. Estourado, alcoólatra e claramente depressivo e autodestrutivo, o sujeito já bebe uma dose de uísque ao acordar e parece estar lutando o tempo inteiro para controlar seus impulsos de agressividade. Ainda assim, ele demonstra uma preocupação genuína para com a garota que lhe pede abrigo e, especialmente, para com o adolescente que claramente tem sido uma vítima desde o nascimento. Trata-se de uma composição delicada, complexa e repleta de carisma que Cage acerta do início ao fim – e se o ator não for indicado a prêmios importantes, isto se deverá, infelizmente, à má fama adquirida nos últimos anos.

Enquanto isso, o jovem Tye Sheridan continua a construir a carreira mais meteórica dos últimos anos: depois de atuar nos excelentes A Árvore da Vida e Amor Bandido, o garoto volta a demonstrar imenso talento como Gary, que se mostra simultaneamente vulnerável e determinado. Em um instante, o menino se mostra revoltado com as atitudes do pai para, no momento seguinte, surgir brincando com o velho bêbado, evidenciando sentimentos conturbados que contrapõem sua lealdade familiar às dores trazidas pelo outro ao longo dos anos. Ainda assim, a grande revelação de Joe é mesmo o estreante Gary Poulter, que transforma Wade em um sujeito horripilante. Sempre bêbado, o velho é um homem de caráter violento e impulsivo, degradando a si mesmo e à família sem hesitar desde que isto possa lhe render uma dose a mais de álcool – e é realmente trágico que Poulter, um morador de rua, tenha morrido de forma trágica apenas meses depois desta sua estreia (e se considerarmos o desgaste de seu rosto, que parece muito mais velho que o de um homem de 53 anos, podemos constatar que há muito de sua vida na composição do personagem).

Hábil ao retratar o cotidiano daquela comunidade e empregando, como é seu hábito, rostos comuns em quase pontas, David Gordon Green adota uma abordagem simples e direta na maior parte da narrativa, evitando movimentos de câmera ou composições que chamem a atenção para si mesmos – o que não o impede, em certos momentos, de fazer opções corajosas como ao trazer um rápido plano no qual Gary empurra a câmera para longe de si, evidenciando sua raiva contida e o desejo compreensível de evitar o escrutínio por parte do espectador. Além disso, a rima visual criada entre o primeiro e o último plano do longa, que adotam quadros similares e, com isso, expõem claramente a evolução do personagem que aparece em ambos os momentos, demonstra inteligência e sensibilidade por parte do cineasta.

Sem medo de enviar o público para fora da sala de exibição tomado pela mesma angústia que corrói seus personagens, Green cria, em Joe, seu melhor trabalho. Que ele continue neste caminho. (4 estrelas em 5)

34) Clear History (Idem, EUA, 2013). Dirigido por Greg Mottola. Com: Larry David, Jon Hamm, Kate Hudson, Danny McBride, Amy Ryan, J.B. Smoove, Michael Keaton, Philip Baker Hall, Bill Hader, Liev Schreiber, Eva Mendes.

Quem assistiu a Curb Your Enthusiasm ou a qualquer episódio de Seinfeld, os dois projetos mais famosos de Larry David, saberá o que esperar de Clear History, que o comediante co-escreveu ao lado de Alec Berg, David Mandel e Jeff Schaffer, todos antigos companheiros daquelas empreitadas: um humor autodepreciativo e repleto de neuroses que, na maior parte do tempo, parece surgir se concentrar nas reclamações do protagonista acerca de todas as pequenas e grandes imperfeições do mundo e das pessoas que tornam sua existência tão difícil.

Quando o longa tem início, David surge como o executivo de marketing Nathan, que, investidor de uma empresa que se encontra prestes a lançar um novo carro elétrico, não consegue aceitar a ideia de que o veículo seja batizado de “Howard” e acaba perdendo suas ações – que, pouco depois, valeriam um bilhão de dólares. Transformando em sinônimo de fracasso, ele se muda para uma ilha e assume uma nova identidade até que, dez anos mais tarde, seu antigo sócio (Hamm) compra uma casa no local. Desejando se vingar, Nathan se une ao enlouquecido Joe Stumpo (Michael Keaton, irreconhecível) com o objetivo de explodir a construção.

Esta trama, porém, é só uma desculpa que serve como base para cenas e mais cenas nas quais David se dedica a falar sobre anões, sobre sua resistência a dividir a cama com uma mulher (não para sexo, mas apenas para dormir) e, claro, sobre a falta de higiene de um restaurante que deposita os talheres diretamente sobre a mesa. Soando improvisados na maior parte do tempo, estes diálogos são moderadamente divertidos, mesmo que muitas vezes se arrastem mais do que deveriam e fujam completamente do propósito principal da trama – embora, sejamos honestos, seja exatamente isso que qualquer um esperaria de um veículo de Larry David.

Isto, porém, gera algumas incongruências na narrativa: em certo momento, Nathan é apresentado como um dos cidadãos mais queridos daquela pequena comunidade, mas, ao longo da projeção, tudo o que ele faz é irritar os conterrâneos e reclamar de tudo e de todos – o que, claro, torna implausível que, depois de dez anos, ele seja visto com tanto carinho. Além disso, a insistência da trilha óbvia de Ludovic Bource para salientar as passagens engraçadinhas do filme acaba se tornando irritante (além de ser completamente desnecessária).

Beneficiado por um elenco composto por nomes de peso (o que demonstra o poder de Larry David), Clear History é uma comédia irregular que, dirigida de forma burocrática por Greg Mottola (do excepcional Superbad), parece funcionar mais quando opta por uma abordagem mais sutil – como, por exemplo, nos dois momentos em que gags visuais ocorrem ao fundo enquanto outros personagens surgem em primeiro plano sem perceber o que ocorreu.

Mas como um veículo para explorar a persona de seu protagonista, o filme exerce bem sua função. (3 estrelas em 5)

35) Real (Riaru: Kanzen naru kubinagaryû no hi, Japão, 2013). Dirigido por Kiyoshi Kurosawa. Com: Takeru Satô, Haruka Ayase.

Koichi e Atsumi (Satô e Ayase) são um jovem casal que, demonstrando felicidade pela vida que levam, logo são destruídos por uma tragédia: em coma há um bom tempo depois de tentar suicídio, a moça não demonstra sinais de recuperação, o que leva os médicos a uma medida desesperada, estabelecendo uma ligação com seu inconsciente através de uma tecnologia inovadora que permite que seu marido entre em sua mente e tente incentivá-la a despertar.

Dirigido e co-escrito por Kiyoshi Kurosawa, do belo Sonata de Tóquio, este Real parte de uma premissa interessante que, infelizmente, logo é demolida por um roteiro estúpido, efeitos visuais medíocres e uma direção entediante e pouco imaginativa. Sem demonstrar embaraço por tentar introduzir conceitos como “zumbis filosóficos” e preso a dois atores que se mostram constrangedoramente ruins, o longa surge como uma mistura de Linha Mortal, A Origem, Jurassic Park (pois é) e um roteiro de M. Night Shyamalan, embora suas reviravoltas, além de estúpidas como aquelas de A Vila, Sinais e companhia, sejam tão absolutamente previsíveis.

Até agora, este é o pior filme que vi no Festival do Rio – e espero muito que esta posição seja mantida. Caso contrário, temo por minha sanidade. (1 estrela em 5)

 

36) Os Belos Dias (Les beaux jours, França, 2013). Dirigido por Marion Vernoux. Com: Fanny Ardant, Patrick Chesnais, Laurent Lafitte.

Aos 64 anos de idade, a musa francesa Fanny Ardant permanece belíssima e jovial – e, assim, não deixa de soar estranho vê-la, em Os Belos Dias, interpretar uma dentista aposentada que ganha como presente das filhas um vale para frequentar um clube que oferece cursos e atividades para indivíduos da terceira idade. Infelizmente, se este estranhamento poderia resultar em um filme curioso ao explorar os limites e ansiedades que todos atravessaremos (mesmo aqueles que se parecem com Ardant), esta possibilidade logo é abandonada em prol de uma história tola que parece não compreender sequer a verdadeira natureza das ações de sua protagonista.

Baseado em um livro de Fanny Chesnel e adaptado pela autora ao lado da diretora Marion Vernoux, Os Belos Dias faz parte da recente onda de longas estrelados por personagens idosos que tentam reencontrar, no ato final da vida, algumas das mesmas paixões que os incendiaram na juventude – e é lamentável que, na maior parte, estas produções tenham se mostrado tão decepcionantes (vide O Exótico Hotel Marigold e E Se Vivêssemos Todos Juntos?). No caso desta produção francesa, o problema gira em torno de sua hesitação em abraçar a idade da personagem de Ardant: se por um lado ela tem 60 anos, por outro é uma mulher ativa e saudável que só se aposenta por ter se envolvido em um incidente no trabalho disparado pelo luto que experimentava em função da morte da melhor amiga. Assim, o filme quer se beneficiar da sensualidade de sua estrela enquanto tenta fingir que esta é uma “senhora”, resultando numa imagem conflitante que enfraquece a narrativa.

Mas não é só: desenvolvendo a história a partir do envolvimento entre Caroline (Ardant) e o professor de informática do clube (Lafitte), bem mais jovem que ela, Os Belos Dias inicialmente acerta ao mostrar a mulher insegura quanto aos próprios atrativos físicos, insistindo sempre em manter a luz apagada durante o sexo (por mais que seja difícil acreditar que uma mulher como aquela se envergonharia de sua forma física), mas eventualmente os papéis se invertem e é Julien quem parece temer o julgamento da outra. Para piorar, o roteiro jamais se decide quanto à maneira com que pretende tratar aquele romance, ora enxergando-o como algo belo, ora como um mero problema.

No entanto, o maior equívoco do projeto é sua cegueira diante do egoísmo de Caroline, cujas ações claramente machucam o marido, vivido com simpatia e energia por Patrick Chesnais – o que não a impede de, mesmo ciente disto, tomar atitudes que aos poucos levam o espectador a abandonar a celebração por sua ressuscitada paixão pela vida e a condenar o sofrimento que impõe ao companheiro de tantas décadas.

Não que Fanny Ardant pudesse fazer qualquer coisa a respeito, já que o problema se encontra no roteiro (e, na medida do possível, ela se mostra contagiante em sua alegria), mas é uma pena que um filme com potencial para se transformar num bom estudo de personagem tropece justamente por não conhecê-lo.

Divertido e envolvente especialmente em sua primeira metade, Os Bons Dias não é um fracasso, mas é certamente o desperdício de uma boa oportunidade. (3 estrelas em 5)

 

37) Only Lovers Left Alive (Idem, EUA/Inglaterra, 2013). Dirigido por Jim Jarmusch. Com: Tom Hiddleston, Tilda Swinton, Mia Wasikowska, John Hurt, Anton Yelchin, Jeffrey Wright, Slimane Dazi.

Os vampiros criados por Jim Jarmusch neste seu novo Only Lovers Left Alive são clássicos: só saem à noite, esperam um convite antes de entrarem na casa de alguém e podem ser mortos caso tenham o coração atravessado por madeira. Porém, ao contrário de boa parte de seus colegas vistos em outras obras de ficção, as criaturas aqui nada têm de animalescas ou violentas, se apresentando, em vez disso, como seres gentis e civilizados que, com uma postura secular, apreciam a Arte e a Ciência. Este, aliás, é o ponto-chave do longa de Jarmusch: o que esperar de seres que viveram por séculos e séculos a não ser algum grau de evolução?

Apaixonados ainda que vivendo em pontos distantes do planeta, Adam (Hiddleston) e Eve (Swinton) levam existências cercadas por música, livros e toda manifestação de expressão cultural. Amiga de Christopher Marlowe (Hurt), o poeta elisabetano que alguns insistem em apontar como o autor verdadeiro das obras de Shakespeare (tese que o filme advoga), Eve se preocupa com o amado, que, solitário, introspectivo e depressivo, compõe músicas apenas para consumo próprio, permitindo apenas vez por outra que algum mortal assuma os créditos por suas composições (Schubert entre eles). Viajando para Detroit a fim de ajudá-lo a superar sua mais recente crise existencial, ela teme que sua problemática irmã Ava (Wasikowska) se junte a eles – o que logo acontece, resultando em contratempos graves para o casal.

Interpretado por Tom Hiddleston como um sujeito farto de se decepcionar com o mundo ao seu redor, Adam demonstra seu amor pelo passado através de suas posses – e o ótimo design de produção imagina seu lar como um amontoado de vinis, móveis, telefones e televisões antigos. Admirador dos grandes cientistas de nossa História, Adam se mostra irritado com os destinos frustrantes de Aristóteles, Copérnico, Galileu e Tesla, demonstrando pouquíssima esperança em nossa capacidade de abraçar e explorar os avanços oferecidos pelo Conhecimento: “Eles ainda reclamam de Darwin. Ainda!”, protesta o sujeito, em determinado instante. Não é à toa que em sua casa há o que parece um pequeno altar dedicado a nomes que vão de Buster Keaton a Einstein, passando por Mark Twain e Edgar Allan Poe, como se ele tentasse se lembrar sempre de que, ao longo dos milênios, nomes inspiradores cruzaram o planeta.

Este esforço, porém, é dificultado pela presença de Ava, que a cada vez mais competente Mia Wasikowska encarna com impulsividade e arrogância. Tratada por Jim Jarmusch como um símbolo claro da decadência cultural das últimas décadas (aquela dedicada à dublagem, aos textos curtíssimos da Internet, à cultura da celebridade e ao eu-eu-eu das redes sociais), Ava é uma jovem que demonstra desprezo pelo conhecimento e pela sofisticação intelectual de seus parentes, não demorando a acusa-los de “esnobismo” – e eu não ficaria espantado caso ela também houvesse empregado a ofensa favorita dos medíocres: “pseudo-intelectuais”.

Batizando os mortais de “zumbis” e exibindo um claro desapontamento com os rumos que estes tomam, Adam e Eve se apresentam como dois lados da mesma moeda, o que se reflete em seus visuais: enquanto ele se veste sempre de preto (combinando com seus cabelos), ela adota roupas claras (de novo: seguindo os cabelos) – e o fato de cada um carregar um pingente que remete ao amado (ele traz um branco; ela, um preto), associado ao momento em que os vemos dobrados um sobre o outro, sugere uma imagem próxima do Taijitu, símbolo que representa o conceito taoísta do yin-yang.

Interessante também ao trazer os personagens usando nomes de personagens célebres da ficção sempre que são obrigados a assumir uma identidade falsa (Stephen Dedalus, Daisy Buchanan, Dr. Fausto), Only Lovers Left Alive ressalta sua visão secular ao empregar Adão e Eva justamente como os nomes que, oficialmente adotados pelo casal principal, são obviamente identidades que assumiram com o tempo.

Romântico em seu conceito de que apenas o compartilhamento de Arte e conhecimento poderiam ajudar seus vampiros a sobreviver através dos séculos, Only Lovers Left Alive é, ao mesmo tempo, um belo “filme de vampiro” e uma declaração de amor profunda – e desesperançosa – à imaginação e ao espírito criativo humanos. (4 estrelas em 5)

Festival do Rio #06

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos | 2 comentários

Abraço ao aluno Thiago, que veio me cumprimentar durante um dos intervalos.

Quanto aos filmes vistos…

29) Layla Fourie (Idem, Alemanha/África do Sul, 2013). Dirigido por Pia Marais. Com: Rayna Campbell, August Diehl, Rapule Hendricks, Terry Norton.

Indecisa entre a vontade desenvolver um tema sócio-político e a necessidade auto-imposta de criar um thriller, a diretora Pia Marais realiza, em Layla Fourie, um filme que falha nos dois aspectos – e, considerando a forte metade inicial da projeção, isto é uma pena.

Co-escrito por Marais e Horst Markgraf, o longa nos apresenta à personagem-título (Campbell), que se encontra na fase final de contratação por uma empresa especializada em realizar testes com polígrafo. Entrevistada pelo futuro chefe e indagada sobre suas motivações para seguir aquela linha profissional, Layla expõe de maneira óbvia a linha principal da narrativa: “Porque mentiras levam a mentiras” – e o fato de o roteiro sentir a necessidade de telegrafar de forma tão expositiva a questão acaba sendo um indício precoce da mão pesada com que a história será conduzida.

De todo modo, em sua primeira hora, Layla Fourie é uma produção sólida: sugerindo com talento a longa viagem empreendida pela protagonista ao lado do filho em direção ao cassino no qual realizará uma série de testes, a cineasta cria uma atmosfera tensa que resulta no incidente motor da trama, quando a personagem de Campbell atropela um homem na estrada e, depois de tentar ajudá-lo, decide ocultar o cadáver por temer a prisão.

E é neste ponto que um dos temas principais da produção é escancarado: embora ambientado numa África do Sul pós-Apartheid, o filme reconhece que os traumas deixados no país são grandes demais para que uma mãe solteira negra se sinta confiante de que as autoridades acreditarão em sua versão sobre um acidente que resultou na morte de um homem branco. Da mesma maneira, é curioso perceber como as novas gerações dos setores caucasianos da sociedade ressentem serem julgadas pelos atos de seus pais – e, assim, quando o ambíguo Pienaar (Diehl) percebe que Layla desconfia de suas atitudes, acaba desabafando mal se lembrar do período do Apartheid. Mas é claro que, para as vítimas, as lembranças permanecem com mais força e, desta maneira, a protagonista acaba sendo vivida por Rayna Campbell como uma mulher sempre tensa e desconfiada.

É lamentável, portanto, quando o roteiro começa a se esforçar demais para desenvolver seus temas, dependendo de forma exagerada de coincidências e mal conseguindo se decidir com relação à dinâmica entre Layla e o filho pequeno, que ora parecem excelentes amigos, ora quase inimigos.

Desapontando também em seu desfecho desnecessariamente aberto, Layla Fourie é uma imensa oportunidade desperdiçada. (2 estrelas em 5)

30) Uma História de Crianças e Cinema (A Story of Children and Film, Inglaterra, 2013). Dirigido por Mark Cousins.

Responsável pela ambiciosa série A História do Cinema: Uma Odisseia, o pesquisador Mark Cousins faz, em Uma História de Crianças e Cinema, um vídeo-ensaio em forma de longa-metragem buscando analisar as diversas maneiras com que o universo infantil foi registrado pela Sétima Arte ao longo de seus cerca de 120 anos de existência. Trata-se de um propósito intrigante e que, ao longo da projeção, acaba rendendo alguns insights dignos de nota; na maior parte do tempo, porém, as associações feitas por Cousins soam terrivelmente forçadas, o que acaba diminuindo bastante a força de seu projeto.

Parente próximo do igualmente problemático O Guia Pervertido do Cinema, que trazia Slavoj Žižek oferecendo seu olhar particular sobre títulos específicos (incluindo uma visão fascinante sobre o significado dos três andares da casa de Norman Bates em Psicose), o trabalho de Cousins é válido por fazer uma colagem que inclui títulos de Spielberg, Tarkovski, Ozu, Buñuel, Panahi, Kaige, Kiarostami e outros, mas o ensaio já parte de uma premissa problemática ao tentar empregar um vídeo caseiro dos sobrinhos do autor como base para suas observações, que acabam parecendo extrapolações artificiais do que de fato vemos na tela.

Em certo momento, por exemplo, Cousins parte das ações do sobrinho, que quebra um brinquedo, para comentar o “impulsivo destrutivo infantil” – o que o leva a discutir Oliver Hardy e Stan Laurel, que, convenhamos, já haviam passado alguns anos da infância quando se tornaram famosos como O Gordo e o Magro. Já em outro instante, ao observar uma mulher que se posiciona de costas em um determinado título e que traz os cabelos presos em um coque, o diretor subitamente a compara a Kim Novak em Um Corpo que Cai, o que não faz sentido absolutamente algum dentro da lógica da cena analisada.

Extrapolações e interpretações são mecanismos analíticos sempre bem-vindos, claro – e um dos méritos deste trabalho é incentivar o espectador a adotar seu olhar inquisitivo sobre o Cinema -, mas se parecem surgir do mero desejo do crítico/acadêmico/cinéfilo em enxergar uma conexão que não está de fato lá, o exercício se torna fútil e tolo. E, infelizmente, é exatamente assim que várias conclusões de Cousins acabam soando.

Como se não bastasse, o realizador tem o terrível hábito de empregar hipérboles: “nenhum cineasta jamais entendeu solidão infantil como Bergman”, “jamais houve um diretor que desenhasse mais seus planos como Minnelli”, e por aí afora. Para piorar, Cousins frequentemente se entrega a construções verbais que, dissecadas, nada revelam: “Muitos bons filmes são sobre crianças”, diz ele em certo ponto, completando a seguir: “E muitos destes são dirigidos por mulheres”.

Ora, duh e duh. Eu poderia dizer que “muitos bons filmes são sobre sapos e que vários destes foram dirigidos por franceses”, mas isto não revelaria nada de particularmente relevante ou novo.

Mas algo eu posso afirmar com certeza: há muitos bons longas sobre Cinema, mas Uma História de Crianças e Cinema não é um deles. (2 estrelas em 5)

 

31) Antes Sexo do que Nunca (Concussion, EUA, 2013). Dirigido por Stacie Passon. Com: Robin Weigert, Maggie Siff, Julie Fain Lawrence, Laila Robins, Johnathan Tchaikovsky, Emily Kinney.

Há alguns anos, algumas pessoas se apaixonaram por uma produção independente chamada Minhas Mães e Meu Pai, acreditando que a abordagem que o longa dirigido por Lisa Cholodenko lançava um olhar natural e realista sobre famílias compostas por casais homossexuais. O que vi naquela bomba, porém, foi o oposto: uma produção cínica que tratava sua visão liberal como algo digno de congratulações, já que a cada cena parecia estar dando tapinhas nas próprias costas por trazer duas lésbicas como protagonistas (o que, claro, não o impedia de introduzir um homem pelo qual uma delas pudesse se interessar, já que, aparentemente, toda lésbica está a um pênis bem utilizado de se tornar heterossexual).

Pois este ano, há de fato um independente norte-americano digno de aplausos pela abordagem da sexualidade de sua protagonista: dirigido e escrito por Stacie Passon, este Antes Sexo do que Nunca (não me perguntem a razão pela tradução estúpida do título original) jamais trata a homossexualidade de Abby (Weigert) como algo a ser observado – e seu casamento com Kate (Lawrence) é visto como uma união comum, com seus problemas e momentos de alegria. Sim, elas são lésbicas (que, vale observar, jamais se interessam por um homem ao longo da narrativa), mas isto não as define e nem ao filme, o que é admirável.

Surgindo como uma mistura de Fading Gigolo e Jovem & Bela (ou, como a sinopse no guia do Festival do Rio prefere colocar, “um A Bela da Tarde lésbico”), o longa acompanha a bela Abby que, aos 42 anos de idade e depois de sofrer uma concussão, passa a sentir-se inquieta com seu cotidiano ao lado da esposa e dos dois filhos. Sexualmente frustrada em função do distanciamento de Kate, ela finalmente decide pagar uma garota de programa e, pouco depois, está atendendo suas próprias clientes em um loft que vem reformando no centro da cidade.

A transição da personagem de mãe suburbana e insegura a garota (não: mulher) de programa experiente é conduzida pelo filme e pela excelente atriz Robin Weigert com delicadeza e sem qualquer grau de sensacionalismo ou apelação, indicando, também, a posição do roteiro sobre os interesses sexuais de Abby: o fato de gostar disso ou daquilo na cama não muda quem ela é como indivíduo.

Contando com um humor sutil que torna seus personagens ainda mais interessantes, Antes Sexo do que Nunca (ai, ai) acaba funcionando como um bom estudo de personagem ao contemplar as mudanças experimentadas por Abby em função de seus experimentos, mas peca por jamais desafiar a protagonista de fato, já que tudo parece ocorrer de maneira simples demais: da decisão de se tornar prostituta ao desfecho bonitinho.

De todo modo, a maneira franca e direta com que a estreante Stacie Passion lida com o material e seu talento para conduzir o forte elenco indicam o surgimento de uma cineasta repleta de potencial. (3 estrelas em 5)

 

32) 7 Caixas Paraguaias (7 cajas, Paraguai, 2012). Dirigido por Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori. Com: Celso Franco, Lali Gonzalez, Victor Sosa, Nico García, Paletita, Manu Portillo, Mario Toñanez, Nelly Davalos, Roberto Cardozo, Jin Hyuk Johnny Kim.

Considerado o maior sucesso da história do cinema paraguaio, este 7 Caixas Paraguaias é um filme com ambições simples que acabam sendo atingidas com competência admirável. Dirigido por Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori a partir de um roteiro escrito pelo primeiro, o longa gira em torno do jovem Victor (Franco), que, carregador de caixas no maior mercado aberto de Assunção, sonha em aparecer na televisão. Deslumbrado com um celular capaz de registrar pequenos vídeos, ele aceita a tarefa de transportar sete caixas às pressas para fora de um açougue sem desconfiar que estas trazem um conteúdo macabro – e eventualmente passa a ter que fugir não só da polícia, mas de um carregador rival que acredita haver uma pequena fortuna na carga que o garoto transporta.

Dinâmico e sempre envolvente ao investir em várias histórias que vão se cruzando de maneira engenhosa, 7 Caixas Paraguaias é dono também de um senso de humor negro inesperadamente eficiente, oscilando bem entre o suspense, a ação e a comédia. Empregando bem o mercado que ambienta a trama – e cuja geografia os dois diretores são hábeis em deixar evidente para o espectador -, o filme também busca criar personagens multidimensionais ao oferecer, por exemplo, uma motivação pessoal mais do que compreensível para o vilão de Victor Sosa, que está desesperado para comprar remédios para o filho doente.

No entanto, a grande revelação do elenco é mesmo a expressiva Lali Gonzalez, que não só convence como uma garota de 15 anos de idade (embora tenha quase 30) como ainda a transforma numa moça forte, decidida, mas também capaz de momentos de inquestionável vulnerabilidade.

Pecando pontualmente em seus quesitos técnicos (como ao empregar uma câmera lenta adicionada na pós-produção que traz resultados esteticamente pavorosos), o filme é uma das boas surpresas desta edição do Festival do Rio. (4 estrelas em 5)

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