Série Jornalistas

A Importância e a Perversão do Jornalismo

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Série Jornalistas | 1 comente

Quem me acompanha há algum tempo, sabe que uma de minhas grandes preocupações (ok, quase uma obsessão) é a forma como o jornalismo brasileiro se mostra corrompido em sua essência. Sempre discuto como boa parte das pessoas parece não se lembrar de que os veículos de mídia pertencem a corporações e que, portanto, respondem aos interesses destas – o que explica por que qualquer político ligado aos interesses do mercado conseguirá passe livre para dizer e fazer o que quiser, ao passo que aqueles que representem algum tipo de ameaça ao grande capital serão invariavelmente massacrados. Isto não é exclusivo do Brasil, contudo – e o próprio Cinema já retratou esse tipo de lógica perversa em filmes que vão de Cidadão Kane a A Grande Ilusão, passando por O Monstro na Primeira Página. Aliás, o documentário Manufacturing Consent, que acompanha o fantástico Noam Chomsky, aborda estas questões de maneira abrangente – e por isto o incluirei ao fim deste post.

No entanto, há algum tempo li um artigo no “Los Angeles Review of Books” que, girando em torno dos trabalhos de Renata Adler, traz alguns pontos bastante objetivos e que, creio, podem servir como ilustração para algumas de minhas principais preocupações – mesmo que, no processo, Adler critique pesadamente os estágios finais da carreira de Pauline Kael, por quem tenho imensa admiração, mas que, de fato, exibiu um claro declínio em seus anos finais. (Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.) Para facilitar, traduzo, abaixo, algumas das passagens que julgo mais importantes e que abordam não só a má prática jornalística, mas algumas de suas causas:

“O jornalismo cumpre dois papéis importantes: nos mantém informados sobre política, economia e mudanças culturais que podem ressoar através da sociedade e também oferece um ponto de partida para discussões sobre estes temas. É por isso que o bom jornalismo é tão essencial. Mas o jornalismo existe apenas como o esforço acumulado de cada jornalista. Isto significa que a prática cotidiana do jornalismo – a forma com que cada um desenvolve seu trabalho e as circunstâncias sob as quais isto é feito – importa muito por si só.

(…)

Embora eu não esteja certo de que concordo muito que a imprensa esteja em “declínio”, embora esteja sempre sendo prejudicada por forças que podem estimular más práticas, eu certamente acredito que o mau jornalismo acaba servindo aos poderosos; se os jornalistas não contestam apropriadamente as elites econômicas, políticas e culturais, os interesses destas definirão completamente os debates e as conversas de nossa sociedade. (…) “As mesmas forças que são boas para o jornalismo e para os donos das empresas de comunicação são as forças maléficas para o jornalismo em si”; as chances de um jornalista conseguir levar uma boa vida de classe média provavelmente nunca foram tão pequenas. (…) E a pressão para desenvolver uma carreira é uma ameaça concreta que dificulta que o jornalista cumpra bem seu papel na sociedade.

(…) Pecados jornalísticos surgem em várias formas. Os mais óbvios são os fabulistas, que inventam histórias, fontes e eventos. Há os preguiçosos e ingênuos, que são facilmente manipulados por suas fontes. Há os cínicos que deixam propositalmente que suas fontes poderosas os manipulem em troca do tipo de acesso que pode levar a “grandes” carreiras. Adler é particularmente dura ao falar de repórteres que dependem de fontes oficiais “anônimas”, que deixam figuras poderosas do governo e do mercado ditarem pautas das redações apenas porque controlam os caminhos oficiais da informação.

(..) A história oficial é a mais fácil e rápida de se escrever, pois já foi mastigada (pela fonte). Esta é uma maneira através da qual fontes poderosas influenciam a cobertura jornalística: oferecendo uma história fácil para repórteres ambiciosos que querem publicam algo rapidamente.

(…) Atualmente, quase todo o jornalismo é digital; mesmo artigos publicados na mídia impressa existem online. Como os jornais tradicionalmente ofereciam um número maior de posições estáveis para jornalistas e também apoio institucional, isto deixou a indústria mais frágil de modo geral. A pressão sob a qual jornalistas sempre trabalharam – a necessidade de publicar muitos artigos e avançar na carreira – só se tornou pior. (…) Muitos jornalistas ainda recebem ofertas para trabalharem de graça, em troca de “exposição”, um conceito amorfo que apenas reforça a noção de que eles precisam produzir muitos textos rapidamente a fim de construir uma reputação que levará a algum trabalho remunerado. Isto leva a hábitos profissionais que levam os jornalistas a práticas preguiçosas: ênfase na velocidade, falta de compromisso com um artigo em particular (amanhã outro será publicado ou mesmo dali a uma hora) e a uma postura geral de que o jornalismo serve pra produzir conteúdo, não para envolver os leitores.”

Para concluir, o artigo (escrito por Guy Patrick Cunningham) discute uma tendência particular do jornalismo digital contemporâneo: artigos que se limitam a reagir a outros artigos que geraram alguma polêmica:

“Há algumas razões para que este tipo de artigo analítico “agregado” seja problemático. Em primeiro lugar, é simplesmente irresponsável apresentar alguma conclusão ou construir um argumento sem ter feito a pesquisa apropriada: um jornalista precisa reestabelecer sua autoridade em cada artigo que escreve, pois cada um deles pede que o leitor lhe empreste seu tempo e sua atenção. Mais importante, porém, é que isto limita a habilidade do jornalista de realmente explicar um problema. Um jornalista que não conhece o assunto que discute acaba escrevendo um monólogo: eles só têm informação suficiente para apresentar seu próprio juízo sobre a questão, mas não consegue construir o tipo de argumento que poderia convencer o leitor de que sua opinião é a correta.

A questão não é se o leitor deveria ou não discordar da conclusão; a questão é que o leitor não pode. As únicas opções são aceitar a conclusão do artigo ou descartá-la. (…) Esta é a sombra do jornalismo digital comercial: uma controvérsia surge nas redes sociais e as prioridades econômicas dos editores digitais leva-os a pautar trabalhos que capitalizem a onda – textos rápidos que são praticamente criados para fracassar de um ponto de vista do jornalismo tradicional. (…) Os veículos digitais frequentemente promovem um tipo de análise que beneficia as plataformas em vez dos leitores. O problema é uma conversa democrática, o tipo que o jornalismo precisa estimular, acontece entre pessoas, enquanto os veículos digitais querem principalmente apresentar uma conversa para as pessoas – um simulacro que pode ser usado como veículo para anúncios e como meio para coletar dados sobre os interesses dos leitores (para garantir que os anúncios estão bem direcionados).

(…) Isto abre espaço para um texto “analítico” que promete um argumento, mas que não precisa entregá-lo necessariamente. Isto reforça a noção perniciosa de que não há distinção entre jornalismo e mero conteúdo, o que leva a aumentar a aceitação por outro tipo de trabalho “preguiçoso” – incluindo o tipo que se limita a repetir histórias oficiais de fontes oficiais. Quando os jornalistas falham em estimular o pensamento crítico dos leitores com relação ao que leem, diminuem a habilidade dos leitores de se envolver em conversas democráticas de modo geral.

(…) Os jornalistas precisam pensar como escritores – no sentido de que devem ter ambição com relação à qualidade de seu trabalho: se pode ser melhor, tem que ser melhor. Todas as vezes. Isto não é mera questão de boa prática profissional; numa sociedade democrática, jornalistas carregam grande responsabilidade. (…) O bom jornalismo faz com que a sociedade seja mais democrática ao manter as pessoas informadas o bastante para que possam participar do espectro completo da atividade democrática. Mas isto só acontece quando os próprios jornalistas fazem questão de não se acomodar – quando combatem as pressões da carreira, a miopia de editores e as necessidades comerciais do próprio jornalismo. Conteúdo não é conversa. E, no fim das contas, é de que conversa que uma sociedade democrática precisa. É importante não se contentar com nada menos do que isso.”

Amém.

Pay the Writer

postado em by Pablo Villaça em Série Jornalistas, Variados | 34 comentários

Recebi, de um(a) editor(a) do UOL (cujo nome não revelarei para evitar exposições desnecessárias), o seguinte email:

“Boa tarde,

meu nome é XXX e sou jornalista da editoria de Opinião do UOL.

Gostaria de convidar o Pablo Villaça para escrever um artigo opinativo para a gente sobre o cinema no Brasil neste ano. A ideia é fazer um balanço para publicarmos no nosso especial de fim de ano. Ele pode ficar à vontade para escrever sobre o que o julgar relevante dentro desse tema. O endereço da nossa página é http://noticias.uol.com.br/opiniao/

É um espaço qualificado, voltado para o debate de alto nível sobre assuntos importantes.

Na URL acima indicada, há uma seção chamada “Recomendados” (está na coluna da direita), com uma pequena amostra de nomes que já escreveram para o UOL.

Recomendamos um tamanho de 3500 a 4000 toques para os artigos. Não há limite de espaço, mas textos muito longos desestimulam a leitura.

Quanto ao prazo, preciso do artigo, por favor, até 14/12.

Seguem abaixo meus dados para contato, estou à disposição para eventuais dúvidas e espero que ele se anime com o convite.

Atenciosamente,
XXX”

Minha resposta (preferi ignorar o “textos muito longos desestimulam a leitura”, que revela bastante sobre como o UOL enxerga seu público):

“XXX,

você se esqueceu de informar o valor que o UOL paga pelo artigo. Poderia informar, por gentileza? :)”

Eu já sabia, claro, o que viria a seguir. E não estava errado.

“Olá Pablo,

Infelizmente, não pagamos pelos artigos.

Mas, seria apenas um texto de mais ou menos uma página do word. Fica inviável para você??

Abraços!”

(Suspiros.)

Finalizei a correspondência da seguinte forma:

“XXX,

 vou ser o mais polido possível, pois sei que a escrotice é do veículo, não sua.

É um imenso insulto pedir que alguém que vive da escrita envie um texto gratuitamente. Tenho 21 anos de profissão e dependo do meu trabalho para sustentar meus filhos. Você não trabalha de graça pro UOL, trabalha? Seu chefe trabalha? Os chefes deste? Por que eu deveria trabalhar de graça para o UOL?

O Cinema em Cena, meu site, não é uma corporação de mídia como o UOL. Na realidade, enfrentamos dificuldades constantes para continuar em operação. Mas olha só: pagamos TODOS os nossos colunistas. Todos. Mesmo aqueles que estão escrevendo suas primeiras colunas profissionais e têm apenas meses de carreira. Ora, se consideramos o que fazem bom o suficiente para publicar, sinto que devemos PAGAR pelo trabalho.

No seu email, você me mandou pauta, tamanho do texto e PRAZO. Já na primeira comunicação, sem sequer sondar se eu aceitaria escrever gratuitamente. Sinceramente… não acha isso um insulto?

É este tipo de atitude que está resultando em demissões em massa de veículos de comunicação como jornais, revistas e sites. Se os donos destas empresas podem arranjar quem escreva de graça, em troca de “visibilidade”, por que deveriam pagar profissionais e diminuir sua (imensa) margem de lucro? Talvez você não perceba ainda, mas está preparando o caminho para sua própria demissão futura.

Encerro linkando um vídeo do excepcional Harlan Ellison, cuja mensagem é simples, direta e resume o que estou dizendo aqui: PAY THE WRITER.

Cordialmente,
Pablo”

Jon Stewart fala sobre a mídia e a oposição brasileir… norte-americanas

postado em by Pablo Villaça em Política, Série Jornalistas | 3 comentários

Comentando a reação dos comentaristas da direita (Rush Limbaugh, equipe da Fox News, etc) sobre sua decisão de sair do The Daily Show, o comediante Jon Stewart exibiu uma série de clipes nas quais estes o acusavam de sistematicamente “mentir” sobre a direita, tirando o que diziam de contexto. Depois de mostrar um clipe no qual 50 mentiras ditas pela Fox News eram expostas, Stewart deu início a um monólogo que poderia perfeitamente ter sido dirigido à mídia reacionária brasileira e ao tipo de oposição que temos por aqui:

“Uma espécie de consenso sobre este programa tomou conta da direita: um pensamento com o qual se mostram tão confortáveis que nem se sentem na obrigação de oferecer evidências para comprová-lo: o de que distorcemos e mentimos o tempo todo para que fiquem parecendo ruins. Algo que pode ser resumido por esse cara aqui:

[CLIPE DE RUSH LIMBAUGH:] Jon Stewart ajudou a polarizar o país ao envenenar a marca Republicana.

“Envenenar a marca republicana?” Você está falando desta marca aqui?

[CLIPES DE VÁRIOS SEGMENTOS DO PROGRAMA DE LIMBAUGH NO QUAL ATACA FEMINISTAS, MINORIAS ÉTNICAS E ATÉ MESMO MICHAEL J. FOX POR EXIBIR SINTOMAS DE PARKINSON. ENTRE AS FALAS, A INACREDITÁVEL “SE HÁ UMA RAÇA QUE NÃO DEVERIA SENTIR QUALQUER CULPA PELA ESCRAVIDÃO, É A DE CAUCASIANOS”.]

Nós envenenamos… esta marca? Como se envenena uma fábrica de cianureto?

Mas o joguinho que eles praticam aqui é “a única razão pela qual a Direita tem má fama é porque esses caras são injustos conosco”. Nós não mentimos; não distorcemos. A questão é que a Direita gosta de fingir que nossa honestidade é o que mais importa para eles – o que, ironicamente, não é verdade. O que importa para a Direita é desacreditar qualquer coisa que eles acreditem prejudicar o seu lado. (…) Esta missão dirige seus ataques contra todas as instituições que formam a base do país que eles alegam amar tanto.

[CLIPES DA FOX NEWS ATACANDO TUDO QUE DIZ RESPEITO AO GOVERNO OBAMA E PINTANDO UM RETRATO DE QUE TUDO ESTÁ ERRADO, DE QUE O PAÍS ESTÁ VIVENDO UM CAOS COMPLETO E DE QUE O DESASTRE SE APROXIMA A QUALQUER MOMENTO GRAÇAS À GESTÃO DOS DEMOCRATAS, QUE SÃO CHAMADOS DE “LIBERAIS”, “ESQUERDISTAS” E MESMO “COMUNISTAS”.]

Todas as instituições sofrendo do “mal do liberalismo” e o que pode ser feito? Esta é a genialidade deles. Eles alegam querer “consertar” as coisas, mas os conservadores não querem fazer a Educação se tornar mais rigorosa e informativa ou a Ciência se tornar mais empírica e confiável ou os votos se tornarem mais representativos ou o governo se tornar mais eficiente… eles querem apenas que todas essas coisas reforcem seu ponto de vista partidário, ideológico e conservador.

Porque na mente deles, o oposto de “ruim” não é “bom”; o oposto de “ruim” é “conservador”. O oposto de “errada” não é “direita”, é… bom… vocês entenderam o que eu quero dizer. Eles julgam apenas pelo nível de conteúdo conservador. Em tudo. É seu único teste determinante. Mesmo coisas estúpidas.

[CLIPE DE APRESENTADORA DA FOX NEWS CONDENANDO O LIBERALISMO DE HOLLYWOOD POR NÃO DAR O OSCAR DE MELHOR FILME A “SNIPER AMERICANO” POR ESTE TER SIDO DIRIGIDO PELO REPUBLICANO CLINT EASTWOOD.]

Clint Eastwood é um ícone conservador há anos. Ele já venceu o Oscar de Melhor Diretor e de Melhor Filme neste meio tempo. Os “lunáticos esquerdistas” de Hollywood fizeram o filme, pra começo de conversa, e o indicaram a Melhor Filme!

E sabem qual é a parte mais triste disso tudo? Os republicanos e conservadores são tão incansáveis em seu impulso por pureza ideológica que as instituições sobre a qual eles reclamam continuam a ceder a eles. Pela mesma razão, acho, que você sempre vai ao restaurante escolhido por sua filha de quatro anos de idade: “Tá bom, nós vamos lá de novo! Só pare de chorar!”.

Quinze estados aprovaram leis novas sobre identidade de eleitores sem que houvesse qualquer evidência de fraude eleitoral; um comitê estadual em Oklahoma votou pra banir uma disciplina de História por não suavizar a escravidão o suficiente; “abstinência” foi aprovada como parte de “educação sexual”; e fatos científicos não são mais informados, mas debatidos.

Então vamos parar de fingir que essas concessões à Direita irão, em algum momento, saciar a fome da Besta.

[CLIPE DE SARAH PALIN CRITICANDO O PAPA POR SUAS DECLARAÇÕES LIBERAIS.]

O papa não é conservador o bastante pra essas pessoas. Então vamos parar de ceder a eles. Sua guerra cronicamente raivosa por pureza ideológica, em que todos os aspectos da vida se tornam uma batalha bidimensional pela alma do país, nos envelhece.

Só de assistir a ela, estou morrendo.”

O estado assustador do Jornalismo

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Série Jornalistas | 23 comentários

A experiência é simples: entre no UOL, um dos principais portais de notícia do país, e clique nas matérias em destaque neste momento. Provavelmente, encontrará vários erros gramaticais, estruturais, estilísticos, informações desencontradas e perceberá, também, que boa parte dos textos foi construída sem que o jornalista deixasse a redação para apurar o que estava relatando, limitando-se a repetir informações de outras agências (incluindo erros grosseiros de tradução) ou – pior – reproduzindo “colaborações dos internautas”. Isto para não citar a utilização crescente de termos como “galera” e “cornetou” em textos supostamente profissionais – e a VEJA chegou a usar esta semana a incrivelmente grosseira “bichinhas” para descrever dois personagens homossexuais de um programa de tevê.

Percebam que não estou sequer discutindo a cooptação ideológica dos jornalistas, que constantemente são levados a defender os interesses de seus patrões, mas simplesmente a qualidade dos textos que produzem, “vendidos” ou não. E, neste aspecto, a situação da profissão vem se tornando cada vez mais assustadora.

Recentemente, várias editoras e redações demitiram dezenas de profissionais alegando a necessidade de “reestruturação” e “cortes de gastos”. Editorias foram fundidas, veículos foram extintos, cargos foram acumulados. Os salários dos sobreviventes, por outro lado, se mantiveram inalterados mesmo com o aumento de funções e responsabilidades. Basta ler esta apavorante matéria da Agência Pública para constatar a tendência – e se uso a palavra “apavorante” é porque não há outra mais apropriada.

Ora, a função do jornalista, quando bem executada, é uma das mais nobres de qualquer sociedade: manter o cidadão informado sobre o que ocorre no mundo ao mesmo tempo em que busca apurar o que muitos insistem em manter oculto. Investigar, denunciar, pressionar – sempre, espera-se, com a imparcialidade de um observador justo – são atribuições de uma profissão que envia seus praticantes aos pontos mais hostis do planeta à procura de informações. No jornalismo cultural, são eles quem analisam, dissecam, destacam, promovem a vanguarda e trazem a obra para o conhecimento do público.

Utopias à parte, mesmo em condições distantes do ideal, o jornalismo é um imprescindível serviço de caráter social. Não é à toa que, nas décadas de 30 e 40, tantas produções hollywoodianas traziam repórteres como heróis de suas narrativas. (Ok, é preciso considerar também que, com a chegada do som, os estúdios foram buscar jornalistas para a elaboração dos roteiros, o que ajuda a explicar a elevação da profissão na ficção.) Ora, até mesmo em períodos mais recentes, filmes inteiros foram devotados à busca incansável pela verdade protagonizada por homens e mulheres que encaravam as redações como um segundo lar (O InformanteZodíaco, As Aventuras de TinTim, Os Homens que Não Amavam as Mulheres e as séries The NewsroomHouse of Cards, entre vários outros).

No entanto, o que se vê hoje é uma inversão de valores: o que importa não é a competência do profissional e sua dedicação ao que faz, mas apenas seu custo aparente. Ao ler a matéria linkada acima, fica claro que os principais alvos dos cortes tendem a ser justamente aqueles que deveriam ser os mais valorizados pelos patrões: os empregados experientes e premiados que assinaram matérias importantes que alteraram, em maior ou menor grau, o curso da História. Em vez disso, tornar-se valorizado em função da experiência é agora temeroso, colocando um alvo nas costas do jornalista, que logo se verá substituído por um jovem inexperiente e, consequentemente, mais barato. Que cometerá erros básicos, desperdiçará histórias importantes, falhará em apurar corretamente suas pautas e – pior – será mais facilmente manipulado pelos interesses dos patrões.

Não é à toa que, há algumas semanas, a Abril protagonizou um momento de embaraço coletivo ao levar seus funcionários a um abraço em torno do prédio da editora em função da morte de Roberto Civita – o que, claro, não salvou dezenas deles da demissão pouco depois.

Agora imaginem se os hospitais passassem a demitir seus médicos mais experientes com o objetivo de contratar apenas rapazes e moças recém-saídos da faculdade. E quem gostaria de ser representado por um escritório de advocacia cujo integrante mais velho tivesse 22 anos de idade? Vale apontar, aliás, que a ideia de descartar os veteranos é prejudicial até mesmo para os profissionais mais jovens, que, com isso, perdem a importantíssima oportunidade de interagir e aprender com os vividos colegas.

Isto para não mencionar, claro, que já iniciarão sua jornada profissional cientes de que serão descartados assim que se tornarem melhores e mais valiosos, numa lógica paradoxal e incompreensível.

Não sou jornalista. Não vivo em redações. Mas temo muito por um mundo no qual o Jornalismo se transforme numa área dominada por profissionais imaturos e despreparados – e os sinais de que isto já está ocorrendo podem ser facilmente observados através dos cliques diários em um portal como o UOL.

Preservar a qualidade do Jornalismo é cuidar do nosso futuro. Simples assim.

Walter Navarro tenta parar o Tempo

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Série Jornalistas, Variados | 57 comentários

Tenho amigos queridos que trabalham no jornal O Tempo. Mais do que queridos: jornalistas talentosos que fazem o melhor trabalho possível em suas respectivas áreas. Não irei citá-los por não achar justo relacioná-los, mesmo que perifericamente, ao que discutirei abaixo, mas saliento que o caderno Magazine, em especial, é fruto de um trabalho de incrível competência e amor por parte de seus responsáveis.

E é por esta razão que Walter Navarro merece ir para a rua. Não apenas por vomitar preconceitos e, no processo, se apresentar ao mundo como um ser humano absolutamente repugnante, mas por sujar, praticamente sozinho, as páginas do caderno que seus colegas tão brilhantemente criam. E é por esta razão, também, que não escrevi uma linha sequer sobre o texto incrivelmente estúpido de José Robert Guzzo publicado na Veja sobre o movimento LGBT: está na Veja, que, historicamente, encontra-se sempre do lado errado de qualquer questão sobre a qual se manifeste – e é impossível poluir algo que já atingiu níveis tóxicos. (Além disso, Jean Wyllys já publicou a resposta definitiva a Guzzo.)

Neste sentido, Navarro é o cadáver em putrefação que flutua num lago límpido (eu iria compará-lo a outra coisa flutuante, mas isto apenas descreveria o que ele carrega na mente) e que precisa ser removido antes de contaminar a água de forma irremediável.

Em primeiro lugar, o contexto: em sua coluna semanal no jornal O Tempo – e cuja existência já me impressiona há tempos, já que o sujeito obviamente não sabe escrever, sendo péssimo não apenas em estilo, mas em gramática, ortografia e retórica -, Walter Navarro decidiu falar sobre um tema espinhoso que normalmente deveria ser deixado a cargo de pessoas que possuem algum conhecimento mínimo sobre História, Sociologia ou Caráter: a tragédia envolvendo os Guarani-Kaiowá, que, expulsos das próprias terras e mantidos distantes de suas raízes culturais em um pedaço minúsculo de chão que mal lhes permite a sobrevivência, publicaram uma carta chocante e comovente sobre a situação na qual se encontram.

Entra Walter Navarro, com a sensibilidade típica de um homem incapaz de compreender qualquer coisa que se mostre distante de sua realidade imediata.

Tem coisa mais chata, hipócrita, brega e programa de índio que este pessoal do Facebook adotando o nome Guarani Kaiowá?“, começa o colunista em seu espaço em O Tempo – e até aqui posso compreender suas motivações. De fato, o cyberativismo rende patetices risíveis e perigosas – e não são poucos aqueles que alteram seus sobrenomes por alguns dias no Facebook para manifestar uma “causa” que descobriram na web enquanto acreditam que isto os tornará admiráveis e engajados, quando, na verdade, apenas torna-os ainda mais passivos. Não digo, com isso, que todos que o fazem são “tolos” ou “ingênuos” (como alguns inicialmente interpretaram), mas apenas que este tipo de manifestação não deve substituir um envolvimento mais ativo nas causas defendidas.

Infelizmente, esta primeira frase é a única no texto de Navarro que faz algum sentido – o restante é uma enxurrada de imbecilidades, preconceitos e da mais profunda ignorância. Com um tom que ele acredita ser irreverente, mas que soa apenas como a mais profunda intolerância, o sujeito inclui afirmações como “Como diriam o Marechal Rondon e os irmãos Villas Boas, “Índio bom é índio morto”! “Matar, se preciso for, morrer, nunca!”“; grafa “Barack (Obama)” como “Barak” (isto num jornal!); chama Rita Lee de “maconheira” para tentar desqualificar uma de suas letras pró-Índios; e arremata um longo e tolo parágrafo com a inacreditável sentença de que “Os guaranis kaiowá não passam de recolhedores de mel no meio do mato. É o povo mais primitivo do mundo, nem chegou à Idade da Pedra”.

De acordo com Walter Navarro, este grande antropólogo, historiador e filósofo, “(…)o Brasil é assim, uma mistura de índios flatulentos com criminosos portugueses“. E encerra, orgulhoso de seu “humor” que levaria até mesmo Rafinha Bastos a considerá-lo ofensivo: “A vadiagem dos guaranis kaiowá pelo menos é lucrativa. Ontem, troquei um canivete suíço (falso) por várias toras de mogno de sua reserva

Se J.R. Guzzo não fosse apaixonado por cabras, eu sugeriria que procurasse Walter Navarro, o asno. O filhotinho resultante desta união despertaria interesse de cientistas em todo o planeta e daria início a uma nova espécie: Intolerantis imbecilicus.

– X –

A repercussão do texto de Navarro, claro, assustou os donos de O Tempo, levando a um editorial claramente apavorado visando controlar os danos. Infelizmente, as palavras do editor Vittorio Medioli são atrasadas, poucas e leves demais. Embora diga que O Tempo errou ao permitir a publicação do texto, que traz “linguagem chula” (aparentemente, o grande problema da coluna, em sua visão), ele afirma que defenderá a permanência de Navarro como colaborador. Ora, considerando que Medioli é também fundador de O Tempo, isto não é defesa, é decisão.

O curioso é que, no mesmo editorial, ele escreve que insistiu “para “mais uma oportunidade” em outras ocasiões”, apontando o que todos já sabem: Navarro faz há muito tempo este tipo de discurso odioso. Quem acompanha o jornal já leu suas colunas misóginas, homofóbicas e racistas.

Para justificar a manutenção do sujeito, Medioli diz que o jornal defende “a liberdade de expressão”. Ora, ninguém está sugerindo que Navarro seja amordaçado ou impedido de se manifestar. Por outro lado, oferecer a ele uma plataforma para que divulgue suas ideias é algo reprovável e perigoso. Abomino Bolsonaro, por exemplo, mas não pretendo impedi-lo de jorrar seu ódio – mas tampouco ofereceria a ele uma coluna no Cinema em Cena.

Demitir um colunista como Walter Navarro não é cercear a liberdade de expressão; é apenas exibir discernimento suficiente para reconhecer que, em 2012, discursos como os dele são anacrônicos e inaceitáveis, denunciando uma natureza que merece o ostracismo, não divulgação. Homens como Walter Navarro devem ser encontrados berrando insanamente seu ódio e preconceito sobre um caixote no centro da cidade, não escrevendo (mal e porcamente) nas páginas de um jornal como O Tempo.

Update importante: um leitor aponta nos comentários abaixo que o editorial de Medioli é de 2010, o que comprova o que escrevi acima: Navarro já há muito espalha ódio nas páginas de O Tempo. Resta saber se o jornal continuará a ser leniente com o sujeito. Considerando que já assumiram publicamente os problemas provocados pelo colunista, a partir de agora só posso considerar os editores de O Tempo cúmplices do odioso “articulista” que sustentam.

Update 2: Em sua página no Facebook, o jornal O Tempo publicou o seguinte post por volta da meia-noite de hoje: “Informamos que o jornal O TEMPO decidiu afastar o colunista Walter Navarro do seu quadro de colunistas e que a Sempre Editora não compactua com nenhum tipo de preconceito e/ou manifestação preconceituosa. Reforçamos, assim, o nosso compromisso com o bom jornalismo.”

Ok, parece uma boa notícia. No entanto, o que exatamente é “afastar”? Demissão? Suspensão temporária? Com pagamento ou sem? Ou é apenas colocá-lo na geladeira até que todos se esqueçam de mais esta abominação que publicou nas páginas do jornal? Até que isto fique claro, hesitarei em celebrar.

Jornalismo brasileiro: vergonhoso, corrompido e revoltante

postado em by Pablo Villaça em Série Jornalistas | 33 comentários

Só pra deixar claro: o livro “A Privataria Tucana”, que traz 200 páginas de denúncias e outras 120 páginas de documentos comprovando-as, é lançado na sexta-feira, dia 9. José Serra, que usa o twitter compulsivamente e é um dos personagens principais do livro, desaparece do microblog nos dois dias seguintes; não posta absolutamente nada. Ao mesmo tempo, as denúncias passam a repercutir na blogosfera de maneira avassaladora.

E praticamente nenhuma linha sobre o assunto é publicada no Globo, na Foxlha e demais veículos que vivem bradando a própria imparcialidade, mas que não hesitam em transformar em manchete por dias contínuos até mesmo denúncias contra o governo Dilma feitas por criminosos condenados e sem qualquer linha de evidência a não ser “minha palavra contra a sua”. Reparem: nem estou dizendo que as denúncias contra o PT são inválidas; aponto apenas que são tratadas com estardalhaço mesmo quando não trazem um centésimo das evidências apresentadas pelo livro recém-lançado.

Como alguém pode observar isso e afirmar que temos uma imprensa limpa no Brasil? 

Neste momento, o UOL encontra espaço em sua capa para todas as chamadas seguintes: “Minotauro opera fratura de braço; Stallone manda mensagem de apoio”; “Falcão e humoristas sabatinam INRI Cristo”; “Carolina Dieckman responde cutucada de Luana Piovani”; “Portugueses querem recordes de fantasiados de Papai Noel”; “Cão que foi enterrado precisa ser acordado para se alimentar”; “Polícia do Rio recupera carro do jogador Marquinhos”; “Estudo mostra que sono no metrô de NY quase nunca é produtivo” (WTF); “Ivete Sangalo fala sobre meningite no Faustão”; “Bodas de Prata de Zeca Pagodinho e Mônica reúne famosos”; “Silvio Santos se esconde dentro do armário”; “Britney Spears leva filhos Sean e Jayden para o palco”; “Ana Carolina lança clipe oficial em preto e branco”; “Após UFC 140, veja beldades das plaquinhas”; “Especialistas ensinam o que fazer para chegar linda ao destino”; “Concurso que descobriu Gisele Büchen tem final na China”; “Ronaldinho vai à balada, na BA, acompanhado”; “Justin Bieber é flagrado em carinho ousado com namorada”; “Ser solteira no Rio é uma grande vantagem, diz Suzana Pires”; “Doeu! Rapaz resolve pular (sobre) na piscina e se dá mal”; “Marca de sutiã patrocina salto de bungee jump em sutiã de modelo”; “Homem é rejeitado por mulher e envia email gigante dando segunda chance”; “Pizza retangular é atração em bar industrial chique de Madri”; entre várias outras chamadas igualmente tolas.

E, no entanto, o maior portal jornalístico do Brasil não encontra um único espaço, por menor que seja, para abordar o assunto que dominou a internet durante todo o fim de semana.

Não ficarei espantado caso a primeira manchete real dedicada ao tema seja algo como “Serra classifica insinuações de livro como ‘levianas'” ou algo do gênero.

Depois reclamam do fim do diploma. Deveriam protestar contra o fim da vergonha na cara.

Jornalistas. Melhor: “Jornalistas”

postado em by Pablo Villaça em Série Jornalistas | 27 comentários

Se eu tivesse que ganhar a vida escrevendo fofocas sobre celebridades, daria um tiro na cabeça. Isso não é jornalismo; é boataria em forma impressa. Em termos de valores para a sociedade, está apenas meio degrau acima da classe dos paparazzi – que, por sua vez, encontram-se no fundo do poço.

Não, permitam-me refrasear: no fundo do poço, há um buraco; dentro deste, há uma fossa – e é no fundo desta fossa que encontram-se os paparazzi. Já os “jornalistas de celebridades” estão sobre os ombros destes últimos, mas ainda cobertos de dejetos.

Dito isso, se eu fosse obrigado a escrever para um site, blog ou revista de fofocas (e não tivesse um revólver), o mínimo que eu faria seria tentar fazer um bom trabalho. Estando na fossa, tentaria afastar a imundície flutuando ao meu lado e criar alguma aparência de estar fazendo algo válido. Qualquer coisa. 

Começaria apurando melhor as besteiras que transformaria em matérias.

Por que estou dizendo isso? Porque hoje recebi um link para esta matéria. Buscando dar ao mundo a importantíssima notícia de que Antônia Fontenelle (ou Irene?), esposa de Marcos Paulo, será madrinha de alguma coisa numa escola de samba, a “redação” de “Os Paparazzi” publicou o seguinte:

“Marcos Paulo e Antonia Fontenelle se envolveram em polêmica durante o lançamento do longa-metragem Assalto ao Banco Central. Tudo devido à manchete do crítico Pablo Villaça, que escreveu: quem é Antonia Fontenelle? A atriz ficou revoltada com o deboche e respondeu através de seu Twitter. Virou aquela polêmica. Se ele perguntou “quem é Antonia Fontenelle”, por desconhecer seus trabalhos como atriz em novelas e no cinema, a bela respondeu com um “quem é Pablo Villaça”. “Percebi que ele quer cinco minutos de fama”, detonou à época.”

Há tanta coisa errada neste curto parágrafo que nem sei por onde começar. É preciso um verdadeiro artista para escrever tanta imbecilidade em tão pouco espaço.

Em primeiro lugar, não escrevi “manchete” alguma sobre Fontenelle. Em uma crítica sobre o péssimo Assalto ao Banco Central, apontei que a argumentista do filme também fazia uma ponta dispensável e patética. Num texto que tinha 1.250 palavras, dediquei 28 palavras à Fontenelle ao escrever:

“(…)mergulha na mais cafona e clichê das trilhas de sedução quando a namorada de Telma (vivida pela argumentista Antônia Fontenelle) surge numa única cena como uma verdadeira caricatura.”

Em absolutamente nenhum momento escrevi “manchete” e muito menos perguntei “quem era Antonia Fontenelle”.

Mas o que mais irrita é perceber como o site, em sua tentativa de endeusar Fontenelle (quem é Irene?, me pergunto), inverte toda a situação ao transformá-la em vítima de uma provocação barata, pintando-me como alguém que queria chamar a atenção ao atacar de forma gratuita a pobre coitada, que teria apenas reagido em função da “revolta” que sentiu com o “deboche” – quando, na realidade, ela ficou bravinha em função do meu texto e decidiu me atacar.

Sei que não deveria ficar irritado com o que um bando de subjornalistas escrevem num site patético, mas não consigo. Não sou figura pública, não sou “famoso” e prezo muito por minha ética profissional – e vê-los me apresentando à sua meia dúzia de leitores como um picareta em busca de fama é algo que me tira do sério.

Incompetência aliada a um “jornalismo” absolutamente descartável. Que vidinha.

Jornalismo porco

postado em by Pablo Villaça em Série Jornalistas | 22 comentários

Eis que chego de viagem de Curitiba e recebo email do leitor (e aluno) Rodrigo Araújo contendo um pdf de uma matéria publicada neste domingo no Jornal do Commercio. O assunto: dublagem. 

Assinado por um tal Ernesto de Barros (que, em certo momento do texto, tasca um “expectador” na cara do leitor), o artigo inclui a seguinte passagem:

“Há menos de um mês, o editor do site Cinema em Cena (www.cinemaemcena.com.br), Pablo Villaça, publicou no seu blog pessoal um post em que apontava os “malefícios da dublagem” e chamava de “medíocres”, “preguiçosos” e “ignorantes” os espectadores que assistem aos filmes na versão adaptada para o português falado. No texto, o crítico se arvora em “verdadeiro amante da sétima arte” e alerta contra a atitude da 20th Century Fox, que então anunciava o lançamento de O Planeta dos Macacos com mais cópias dubladas do que legendadas”.

Em primeiro lugar, não sou “editor” do Cinema em Cena, mas seu diretor. Há meses. Em segundo, ele cita um texto publicado no meu blog, mas aponta como endereço o site, dificultando, na prática, que os leitores consultem o texto original. Em terceiro, faz uma citação reducionista e tendenciosa do meu post, dizendo que agredi quem prefere dublagem e ignorando até mesmo o update que fiz naquela postagem. Para completar, em seu longo artigo, aponta mil razões para abraçar a dublagem, mas não cita um único contraponto, embora aparentemente tenha lido meu texto, que trazia vários. (Ou talvez não tenha lido.) E mais: ainda que seu artigo traga entrevista com uma mãe que aponta os filmes dublados como forma de dividir a experiência cinematográfica com os filhos, Barros opta por convenientemente esquecer que digo no post que não vejo problemas graves no caso das animações.

Como se não bastasse, o “jornalista” não entrou em contato comigo uma vez sequer antes de me citar desfavoravelmente em sua matéria, desrespeitando a mais básica das regras jornalísticas. Só soube que meu nome havia sido publicado no Jornal do Commercio graças a um leitor atento, já que não tive oportunidade de defender meu ponto de vista ou esclarecer minhas colocações antes de surgir naquelas páginas como um vilão pedante.

Lamentável. Mas não surpreendente.

Lars von Trier NÃO é nazista

postado em by Pablo Villaça em Série Jornalistas | 116 comentários

Hoje você vai ler várias chamadas do tipo “Diretor Lars von Trier afirma ser nazista”; “Von Trier se identifica com Hitler”; “Von Trier arruína sua carreira”; e por aí afora. Estas manchetes irão até amanhã, quando os portais as substituirão por outras matérias igualmente sensacionalistas em busca de novos cliques e pageviews – e na próxima semana, ninguém mais falará sobre as declarações do cineasta, cuja carreira – adivinhem! – continuará a caminhar normalmente.

É isto que a imprensa faz: mastiga fatos e cospe polêmicas. Na era do ciclo de notícias 24 horas, que exige algo novo para atirar na cara do leitor/espectador a cada 60 minutos, qualquer fato que permita uma reinterpretação controversa assim será reescrito pelos jornalistas. É deprimente, repugnante, odioso, mas previsível.

Para início de conversa, qualquer um que compareça a uma coletiva de Lars von Trier já sabe que ouvirá afirmações potencialmente polêmicas. Isto já virou rotina para um diretor que, deprimido assumido, parece estar sempre na tênue fronteira entre a auto-destruição e a auto-promoção.

Dito isso, vejamos o que o cineasta realmente disse:

“A única coisa que posso dizer é que pensei ser judeu por um longo tempo e era muito feliz em ser judeu. Então conheci [a diretora judia] Susanne Bier e, de repente, não estava mais tão feliz em ser judeu. Isso foi uma piada. Desculpem. Mas acabou que eu não era judeu. Se eu fosse judeu, seria de segunda geração, mas, seja como for, eu realmente queria ser judeu – e então descobri que era nazista porque minha família era alemã. E isso também me trouxe certo prazer. Então, o que posso dizer? Eu entendo Hitler. Acho que ele fez coisas erradas, mas posso imaginá-lo sentado em seu bunker. Eu acho que entendo o cara. Ele não era o que poderíamos chamar de um bom sujeito, mas, sim, eu o entendo bastante e simpatizo com ele. Mas esperem aí! Eu não sou a favor da Segunda Guerra Mundial. E não sou contra judeus. Nem mesmo contra Susanne Bier. Sou a favor deles, mesmo que Israel seja um pé no saco. Como escapo desta última frase? Tá bom, eu sou nazista“.

Muito bem. Para qualquer pessoa com Q.I. de três dígitos, fica óbvio que von Trier estava sendo irônico ao se dizer nazista. E que sua “simpatia” por Hitler não dizia respeito ao anti-semitismo (e muito menos à Solução Final), mas sim com seus dias finais no bunker (um fenômeno comum que, por sinal, discuto em meu curso). Para completar, ser anti-sionista não é o mesmo que ser anti-semita, lembrem-se sempre.

A piada foi de mau gosto? Certamente. Desnecessária? Claro. Lars von Trier declarou-se nazista e “fã” de Hitler e do Holocausto? De forma alguma.

Mas é isso que vocês lerão nas próximas horas.

Até que, claro, alguma estrelinha seja fotografada sem calcinha por um paparazzi deitado na sarjeta e todos se voltem para o novo “escândalo” do momento.

Ah, jornalistas…

postado em by Pablo Villaça em Série Jornalistas | 30 comentários

Johnny Depp concedeu uma entrevista à roqueira Patti Smith para o último número da Vanity Fair (a propósito: há dois anos, escrevi sobre o documentário que aborda a vida de Smith). Até aí, tudo bem. Em certo momento da conversa, porém, ele faz o seguinte relato (tradução minha):

“Eles não o toleravam. Eles simplesmente não o toleravam.”, diz Depp a respeito da reação da Disney à sua controversa composição (do pirata Jack) Sparrow. “Eu acho que foi Michael Eisner, então presidente da Disney, quem disse: ‘Ele está arruinando o filme!’.” Depp revela a Smith, no entanto, que permaneceu indiferente à histeria do estúdio. “Executivos do primeiro escalão perguntavam ‘O que há de errado com ele? Ele é algum tipo de deficiente mental? Ele está bêbado? A propósito: ele é gay?’. E então eu cheguei a dizer para uma mulher da Disney: ‘Mas você não sabe que todos os meus personagens são gays?’ – o que realmente a deixou nervosa”.

Este não é um relato novo: há anos que Depp se diverte com casos sobre a reação dos executivos da Disney ao seu Jack Sparrow. Além disso, para qualquer pessoa com a mínima capacidade de interpretar textos, fica claro que sua afirmação sobre seus personagens serem sempre gays foi uma provocação feita à executiva do estúdio – e seria preciso um completo imbecil para interpretar o que ele disse literalmente.

Um imbecil ou um jornalista sem ética em busca de uma chamada sensacionalista que rendesse pageviews ao seu site.

Entra o site Vírgula, do UOL:

“Todos os meus personagens são gays”, diz Johnny Depp à revista” – mancheteou o site (na realidade, eles escreveram “Todos meus”, mas não resisti à tentação de corrigir a frase capenga). A “reinterpretação” do depoimento do ator, no entanto, não se restringiu à manchete:

“Em dado momento da conversa, ele comenta também sobre a estranheza de seus personagens – excelente para um ator em busca de desafios – e do diferencial de cada um deles. E conclui: “Todos os meus personagens são gays”.”

Com isso, o Vírgula (numa matéria assinada por um certo “Vítor Angelo”) não se contentou em tirar a frase de Depp do seu contexto original, aproveitando também para criar um novo contexto que transformasse a fala do sujeito em uma declaração completamente inverídica acerca de sua carreira e de seus personagens.

Uma atitude sem a mínima ética que, claro, foi imediatamente recompensada com uma chamada de capa do UOL: