Séries de tevê

Projeto Breaking Bad – Trechos dos Capítulos 2 e 3

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, cinemaemcena, Séries de tevê | 1 comente

Abaixo, você confere breves trechos dos capítulos 2 e 3 do projeto Breaking Bad (para ter acesso aos textos completos, é só se tornar colaborador(a) do Cinema em Cena. Como? Clicando aqui!):

Capítulo 2:

(…)Num episódio marcado pelo humor – uma abordagem inteligente, já que suaviza a natureza sombria dos acontecimentos retratados -, a dinâmica entre Walt e Jesse começa se tornar cada vez mais clara, envolvendo as tentativas do primeiro de controlar a situação e a impaciência crescente do segundo ao ser tratado como subalterno (e é divertido notar a expressão de orgulho de Pinkman ao encontrar uma forma de prender Krazy-8 no porão). Da mesma maneira, o próprio vocabulário dos personagens ressalta as diferenças entre eles, sendo particularmente curioso como Walter procura diminuir a gravidade do que propõe ao sugerir “desincorporação química” para lidar com o corpo de Emilio, enquanto Jesse, numa postura quase infantil, tenta se livrar da tarefa ao dizer um comovente (mesmo que engraçado) “Sr. White, eu não sou bom com gente morta”. (E em uma discreta piada envolvendo odesign de produção e a cenografia, no início do episódio é possível perceber um cartaz na parede lateral da sala de aula que basicamente adianta o destino do ex-parceiro de Jesse ao trazer um esqueleto em um fundo roxo que exibe a palavra “decompose”.)

s01e02-08

 Não é coincidência, aliás, que Jesse apareça assistindo a um episódio de Os Três Patetas em certo momento, já que o roteiro de Gilligan inclui, nesteCat’s in the Bag…, piadas envolvendo humor físico (Jesse carregando o corpo de Emilio), humor de situação (o mal entendido inicial na conversa entre Skyler e Pinkman) e, claro, humor negro (o resultado da teimosia de Jesse ao lidar com o ácido). E mais: os realizadores também extraem graça do amadorismo de sua dupla central (como o pânico de Walt ao ver Krazy-8 na rua e o de Pinkman ao dizer “Por que diabos não o amarramos?”) e até mesmo da escolha das canções incidentais: quando Krazy-8 (Arciniega) vê seu captor e corre, sendo nocauteado ao trombar em uma árvore, ouvimos os seguintes versos de “You’re Movin’ Me”, de Clyde McPhatter, enquanto o rapaz é colocado, inconsciente, no carro do protagonista:

Baby, you knock me out

You know you’re movin me” 

Para completar, Gilligan claramente se diverte ao estabelecer como Walter não compreende o universo no qual está se metendo, já que acredita ser possível argumentar com um narcotraficante e assassino – um padrão de comportamento que se tornará recorrente, já que, ao longo das cinco temporadas, ele (sempre se julgando intelectualmente superior a todos) frequentemente agirá como se os que o cercam fossem estúpidos e susceptíveis aos seus poderes de persuasão (e muitas vezes estará certo).

s01e02-06

s01e02-07

 

-=================================================================================

Capítulo 3:

Ainda assim, questões morais à parte, Walter já demonstra o pragmatismo marcante de sua personalidade ao finalmente concluir não ter mais opções – e, portanto, quando surge na porta que leva ao porão, já é retratado por Villalobos como um vilão mergulhado em sombras (e é interessante notar como, ao chegar no andar de baixo, ele se afasta da escada ainda oculto pela escuridão, como um monstro, embora mais cedo no episódio ali houvesse luz suficiente para iluminá-lo, como é possível perceber nas imagens abaixo).

E se o episódio não facilita o julgamento do espectador ao humanizar Krazy-8, a situação se torna ainda mais difícil graças à forma chocante com que sua morte é encenada: mesmo com cortes rápidos enquanto o rapaz e Walt giram em torno da coluna que mantinha o sujeito preso, a direção de Bernstein nos mantém próximos ao rosto do jovem enquanto a vida desaparece de seus olhos, tornando seu assassinato pessoal, quase intimista – e, com isso, a natureza cruel do ato do protagonista se torna inegável mesmo que este chore diante do que fez.

s01e03-26

s01e03-27

s01e03-28

s01e03-29

s01e03-30

O que nos traz ao desfecho do episódio e que poderia – para a sorte da família White (mas não para a nossa) – ter servido como encerramento da própria série ao mostrar Jesse chegando em casa e descobrindo que Walter havia limpado todos os vestígios de sua experiência com o mundo do crime. Assim, quando vemos o professor parado sobre uma ponte (representando, claro, a ligação entre seus dois mundos), percebemos que está refletindo justamente sobre que caminho seguir – uma ideia reforçada pelo belo plano que o traz contemplando duas pistas nas quais carros viajam em direções opostas.

True Detective – Segunda Temporada

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 19 comentários

A máxima felicidade que um personagem que habite um universo noir pode esperar são alguns minutos segurando a mão de uma quase estranha que divide seus dilemas enquanto ambos se encontram em um quartinho escuro, claustrofóbico e triste. Um sorriso no noir antece a tragédia; um suspiro de esperança prenuncia o pior destino possível.

Neste sentido, a segunda temporada de True Detective faz infinitamente mais jus ao gênero no qual se insere do que a primeira.

Não que seja melhor: a anterior, protagonizada por Matthew McConaughey e Woody Harrelson, era mais coesa e permitia um envolvimento maior por parte do público por se concentrar em um número menor de personagens, por ter uma trama (bem) mais simples e por sugerir elementos sobrenaturais que, em certos momentos, pareciam aproximá-la mais de Coração Satânico do que de Pacto de Sangue.

Em contrapartida, a história contada pelo criador Nic Pizzolatto em sua nova temporada parecia determinada a levar o próprio Raymond Chandler a balançar a cabeça e perguntar o que diabos estava acontecendo – Chandler que, vale lembrar, não soube responder quem havia matado determinado personagem em seu livro que inspirou À Beira do Abismo quando os roteiristas que o adaptaram (e um deles era William Faulkner!) ligaram para esclarecer a questão que também os confundia. Tramas complexas, portanto, fazem parte da alma do noir – e, mais do que isso, tramas que começam a partir de um incidente simples, mas que levam a repercussões cada vez maiores até que atingem um ponto no qual nem mesmo os personagens sabem dizer de que lado estão.

Como, por exemplo, o assassinato de um sujeito que, ligado ao prefeito de uma cidade corrompida, a especuladores imobiliários e a um ex-mafioso local, vira um cadáver com os olhos derretidos por ácido, o pênis estraçalhado por um tiro e sentado num banco no meio do nada. Para investigar o crime, um policial da cidade, uma de Los Angeles e um patrulheiro rodoviário são escalados em uma força-tarefa que aos poucos descobre ramificações que envolvem festas luxuosas frequentadas por milionários e prostitutas, a poluição proposital de terras antes produtivas para fins de especulação (uma subtrama com ecos de Chinatown), 5 milhões de dólares roubados de um bandido, um antigo roubo de diamantes que resultou na execução de um casal, o desaparecimento de uma bela imigrante, um antigo estupro e disputas entre mafiosos armênios, russos e mexicanos.

Complexo? Sim. Confuso? Por vezes. Mas nada que não tenha se tornado perfeitamente claro nos dois episódios finais.

A trama, no entanto, é o menos importante aqui; o essencial no noir é e sempre foi a atmosfera de desesperança, corrupção moral e tensão – e, também neste aspecto, True Detective volta a se destacar: frequentemente, os rostos dos personagens vividos por Colin Farrell, Vince Vaughn, Rachel McAdams e Taylor Kitsch pareciam sair do meio da escuridão que insistia em ocultar o resto de seus corpos. Suas vozes, saídas em sussurros que evocavam precaução e tristeza, recitavam diálogos que sugeriam a mesma construção clássica adotada no passado por personagens de Humphrey Bogart, James Cagney, Barbara Stanwyck, Fred MacMurray, William Holden, Lauren Bacall ou Robert Mitchum, que abandonavam qualquer pretensão de naturalismo em prol de figuras de linguagem sugestivas, elegantes e sempre impactantes.

Aliás, o quarteto principal desta temporada trazia o peso do mundo sobre os ombros: Colin Farrell, um ator cada vez mais fascinante, transformou seu Ray Velcoro em um homem incapaz de conviver com a constatação da própria podridão moral, conversando numa voz rouca que constantemente soava a cigarro, bebida e desilusão, ao passo que Vince Vaughn, presenteado com as melhores falas da temporada, superou um início problemático para se estabelecer como um dos pontos altos do projeto, criando um indivíduo que despertava nossa simpatia mesmo sendo (ou talvez por isso) o único a se assumir como criminoso desde o princípio. Enquanto isso, Rachel McAdams concebeu a policial Ani Bezzerides (uma referência clara a A.I. Bezzerides, roteirista de A Morte num Beijo) como uma mulher introspectiva, sempre reticente diante de qualquer homem e perfeitamente capaz de se defender em qualquer situação – o que conferiu aos seus momentos de fragilidade emocional um peso ainda maior. Para finalizar, Taylor Kitsch, preso à única subtrama que realmente parecia deslocada, se viu prejudicado por um personagem que, mesmo trágico do início ao fim, custou a se encaixar no restante da narrativa, o que prejudicou até mesmo sua saída da temporada, que deveria ter sido mais impactante do que foi.

Eficaz até mesmo ao trazer figuras aparentemente insignificantes que posteriormente se revelaram centrais à trama principal (outra tática recorrente dos bons policiais – não apenas do noir), esta nova temporada se diferenciou da anterior ao empregar o talento de vários diretores que, ainda assim, conseguiram manter a coesão do universo criado por Pizzolatto, resultando em cenas e sequências absolutamente memoráveis como a conversa entre Ray e Frank na cozinha, o fantástico tiroteio na rua, os encontros no restaurante embalados pela música da cantora solitária e, claro, aqueles que faziam referências orgânicas a clássicos do gênero como no plano abaixo, homenagem explícita a Crepúsculo dos Deuses:

000002
td2

Com um desfecho infinitamente mais pessimista do que o da primeira temporada (que, temperamento de Rust Cohle à parte, foi até bastante positivo), a segunda temporada de True Detective enviou o espectador para fora daquele universo com a sensação de que o crime compensa, esperança é desperdício de energia e o amor só provoca dores e nada salva.

Com a sensação, portanto, de ter assistido a um noir impecável.

td22

Sense8 – Primeira Temporada (SEM spoilers)

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 20 comentários

Uma das características mais importantes que temos, como humanos, é a capacidade de empatia. Sem esta, somos indivíduos isolados dentro de nossas próprias mentes e experiências – e até mesmo o amor será um sentimento de puro egoísmo, que importará apenas em função de como nos faz sentir, não de como estabelece uma ligação significativa com outra pessoa. Sem empatia, encaramos o diferente com medo e, consequentemente, hostilidade, já que tememos o que desconhecemos e odiamos experimentar temor. Sem empatia, o outro é apenas… “algo”. Um algo cujos sentimentos, cujas dores, amores, vivências, sonhos, medos e esperanças não importam, pois soam como conceitos apenas abstratos, distantes e irrelevantes. A falta de empatia está na raiz da homofobia, da misoginia, do racismo e do irmão destes, a sociopatia.

Um indivíduo sem empatia é um indivíduo que enxerga o restante do mundo como algo que só interessa como forma de viabilizar seus próprios interesses ou como obstáculos a estes (e que, portanto, devem ser destruídos).

O fato de ser homem cis hetero branco não deveria me impedir, contudo, de entender que uma mulher trans homo negra é minha semelhante. Somos irmãos de espécie. Quando choro por amor, sinto a dor que ela um dia já sentiu, sente ou sentirá. Quando temo a morte, divido isto com a humanidade.

Sense8 é uma série construída por, com e sobre empatia. Usa o verniz da ficção científica, o entretenimento da ação, o gancho do suspense e mesmo a leveza da comédia, mas por baixo de todas estas roupagens há a alma de artistas que querem levar o público a compreender que não apenas dividimos este planeta, mas que somos os outros. O assassinato de um homossexual por amar alguém que enxerga como pertencente ao mesmo gênero não é uma tragédia individual, mas de toda a humanidade. Uma mulher torturada por um parceiro abusivo é uma falha da espécie. Uma criança negra que cresce ciente de que tem muito mais chance de ser morta pela polícia do que uma caucasiana é uma ferida profunda e infeccionada em nossa evolução.

Em 2015, porém, temos deputados que constroem a carreira a partir do ódio que alimentam e estimulam contra minorias. Temos líderes religiosos que, em vez de pregarem o “amai ao próximo como ama a si mesmo”, preocupam-se apenas em acumular dízimos enquanto vomitam intolerância e espalham a ignorância como um vírus. Temos um congresso que não hesita em exigir investigação sobre o “sarcasmo contra a Igreja” ao mesmo tempo em que realiza sessões de reza numa casa legistlativa que constitucionalmente deveria preservar a laicidade.

Mas ainda mais trágico: num mundo que estabeleceu conexões imediatas entre indivíduos espalhados por todo o planeta, vemos a mesma tecnologia que deveria nos aproximar sendo empregada para promover o dissenso e discursos de ódio que transformaram qualquer espaço de comentário na Internet em um esgoto no qual o veneno flutua livremente.

Aliás, não é difícil perceber como os irmãos Wachowski conceberam a ligação telepática entre seus oitos personagens principais como um eco da Internet e a perseguição que estes passam a sofrer como uma metáfora da intolerância, do preconceito e da ignorância destinados aos que julgamos diferentes. Não é à toa que Sense8 é uma das produções mais preocupadas com a diversidade que atingiram o grande público em um longo tempo: a galeria de indivíduos criada por seus realizadores não traz apenas caucasianos, negros, asiáticos; traz também personagens com diferentes identidades sexuais, étnicas e religiosas.

E que doem ou sorriem pelos mesmos motivos.

Adotando uma estrutura narrativa incrivelmente ambiciosa que se materializa especialmente na montagem brilhante que certamente exigiu uma preparação dificílima (mal consigo imaginar a complexidade do cronograma de filmagens), Sense8 traz conversas ambientadas simultaneamente em países diferentes e nas quais um plano pode ocorrer à noite em Seul e seu contraplano, durante o dia em Chicago – uma dinâmica que jamais soa confusa graças à clareza com que o conceito é desenvolvido. Além disso, os vários interlúdios musicais (e não só a trilha do projeto é belíssima, mas também as canções incidentais selecionadas para sequências-chave) são instrumentais ao ilustrarem a proximidade psicológica e emocional entre indivíduos com vivências tão diversas – e, claro, é emocionante perceber como todos atravessamos os mesmos dilemas por mais diferentes que nos julguemos. Aqui, um queniano sofre pela doença da mãe; ali, uma sul-coreana ressente o descaso do pai; acolá, uma indiana debate-se com relação à generosidade de um homem que merecia seu amor, mas que, por essas coisas da vida, não consegue despertá-lo. Em um instante, uma islandesa se droga para anestesiar perdas insuportáveis; em outro, uma norte-americana transforma a rejeição sofrida pela família, que não aceita sua identidade feminina, em combustível para seu ativismo a fim de audar a comunidade LGBT que a acolheu.

Enquanto desenvolve sua trama, expande seu conceito básico e investe no desenvolvimento de seus personagens de forma excepcional, Sense8 também se mostra uma série com um otimismo do qual eu gostaria de compartilhar, já que, entre outras coisas, parece acreditar que a dor experimentada por um homem ao se ver sem seu parceiro é algo que encontrará a simpatia do público em vez de despertar protestos de quem só aceita a validade do amor heteronormativo – um otimismo que as mensagens de ódio recebidas pelo Netflix já se encarregaram de provar incorreto. Aliás, se vivêssemos numa sociedade minimamente igualitária, uma atriz com a beleza, o talento e o carisma de Jamie Clayton chegaria ao fim de 2015 como a megaestrela que merece ser em vez de ser obrigada a dar repetidas entrevistas sobre por que seria capaz de interpretar qualquer tipo de personagem feminino se tivesse a oportunidade de fazê-lo.

Sense8 é, ao mesmo tempo, uma produção memorável e um atestado de como ainda somos atrasados. Mas é, também, um pequeno milagre apenas por existir e trazer personagens tão complexos, tão únicos, tão belos, tão… humanos.

E a falha de muitos em reconhecer a humanidade destes indivíduos é a maior justificativa para que uma travesti se represente crucificada – pois, como o personagem bíblico que interpreta, ela e todos que representa são vítimas constantes da ignorância, da crueldade e do desprezo daqueles que não hesitariam em eliminá-los se assim pudessem.

Mas não podem. E Sense8 é uma das provas de que, por mais destrutivos que sejam para evitar seu destino, os intolerantes estão fadados apenas ao desprezo da História.

Projeto Breaking Bad – S01E01 – Piloto

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Críticas, Séries de tevê | 25 comentários

(Fuck you, Bogdan! Fuck you and your spoilers!)

Piloto

Dirigido e roteirizado por Vince Gilligan. Fotografia: John Toll. Montagem: Lynne Willingham. Música: Dave Porter. Design de produção: Robb Wilson King. Direção de arte: James Oberlander. Figurinos: Kathleen Detoro.

Com: Bryan Cranston, Anna Gunn, Aaron Paul, Dean Norris, Betsy Brandt, R.J. Mitte, Steven Michael Quezada, Max Arciniega, John Koyama, Marius Stan.

“A Química é o estudo da mudança”, diz Walter White no episódio piloto de Breaking Bad, completando pouco depois: “É como a vida. (…) Crescimento, decomposição, transformação”.

Numa visão superficial, o personagem interpretado por Bryan Cranston poderia estar simplesmente cumprindo seu papel como professor da disciplina diante de um bando de alunos desinteressados; um olhar mais atento, porém, imediatamente perceberia que naquela fala estava contida a temática da própria obra criada por Vince Gilligan e que fascinaria espectadores durante os cinco anos seguintes ao enfocar a transição de Walter de um pacato e fracassado educador colegial até se tornar o cabeça cruel e implacável de um império das drogas.

s01e01-01

Leia mais

House of Cards – Terceira Temporada

postado em by Pablo Villaça em Séries, Séries de tevê | 6 comentários

Quando escrevi sobre a primeira temporada de House of Cards, explicitei meu entusiasmo não só pela complexidade de seu protagonista, mas pela própria maneira como a narrativa se desenvolvia. Aliás, de certa forma, a série demonstrou algo que costumo discutir em meus cursos: o fato de que o meio de exibição (e sua evolução) invariavelmente provoca alterações e estimula novas estruturas narrativas e recursos de linguagem. Ao ser desenvolvida como uma temporada lançada de uma só vez, House of Cards livrou-se da necessidade de prestar atenção às respostas e reações do público ou mesmo do imperativo de ter que pensar em cliffhangers que levariam o espectador a retornar na semana seguinte. Além disso, ao ver-se liberta do formato obrigatório de 42 minutos por episódio, ela pôde investir, em cada capítulo, o tempo estritamente necessário para avançar a trama e desenvolver seus personagens, sem ter que depender de encheções de linguiça, de barrigas ou de condensações de tempo. Há episódios de 42, 52 ou 57 minutos, dependendo das necessidades de cada um.

E mais: por saber que seu espectador já é assinante do Netflix, a série não precisa se preocupar com audiência, podendo devotar arcos inteiros a personagens que não são necessariamente aqueles que atrairiam mais a atenção do público – e, assim, perceber como o episódio de estreia da terceira temporada devota a maior parte de seu tempo a Doug Stamper (Michael Kelly) em vez de Francis Underwood (Kevin Spacey) é constatar a liberdade de roteiristas que optam pelo que é mais eficiente a longo prazo, não necessariamente ao que atrairá audiência imediata. E esta, diga-se de passagem, é uma opção que pode parecer frustrante a princípio (afinal, o personagem de Spacey é o atrativo principal), mas que acaba se justificando quando constatamos, ao final da 13a. hora, como o belíssimo arco dramático de Doug precisava daquela introdução.

Esta terceira temporada, aliás, é digna da primeira e um avanço considerável em relação à segunda, cuja irregularidade me desanimou a ponto de não me ver compelido a comentá-la neste espaço. Desta vez, os realizadores conseguiram um equilíbrio memorável, desenvolvendo os vários personagens sem jamais perder o foco da trama principal – e se Francis continua a se apresentar como um anti-herói vilanesco e instigante, é notável perceber como a série consegue despertar o interesse do espectador não só pelos secundários óbvios (como a Claire de Robin Wright), mas por figuras como Heather Dunbar (Elizabeth Marvel), cuja transformação ao longo dos 13 episódios é efetuada com calma, sutileza e verossimilhança: de uma uma mulher idealista que decide concorrer à presidência por motivos nobres e puros, ela gradualmente é corrompida pela natureza da política nos altos escalões, mostrando-se capaz de atos baixos que meses antes a enojariam.

Contudo, o mais curioso é perceber como House of Cards é hábil ao permitir que o público constate como Dunbar seria uma presidente potencialmente excepcional (ao menos nos dois primeiros terços da temporada), mas ainda assim mantenha-se fiel a Francis, que jamais deixa de ser um sujeito moralmente corrompido – algo que se deve também, claro, à performance magnética de Spacey, que também se beneficia de pequenos atos de humanidade de seu personagem que, mesmo raros, plantam aquela pequena dúvida essencial sobre a redenção de seu caráter. Empregando a quebra da quarta parede de maneira bem mais escassa do que nas temporadas anteriores, estes novos episódios ainda assim utilizam o recurso de forma orgânica e eficiente – e é particularmente interessante notar como, em ao menos dois momentos, Francis parece nos encarar não com o orgulho habitual, mas com uma raiva reveladora, como se ressentisse o fato de o flagrarmos em instantes de fragilidade (algo condizente com sua natureza).

Igualmente importante, também, é reconhecer como a temporada vai aumentando a pressão sobre o protagonista de forma inequívoca, despertando uma curiosidade surpreendente sobre como Francis será capaz (e se será capaz) de superar o número cada vez maior de obstáculos em seu caminho – e se há um ponto fraco é a maneira como ele parece criar novos obstáculos desnecessariamente, afastando, com sua arrogância, aliados importantes (um erro de cálculo grosseiro e pouco condizente com sua natureza calculista).

Encerrando com um episódio que, como no primeiro da temporada, investe um tempo surpreendente (e que se revela fundamental) em uma personagem que não víamos há muito tempo, House of Cards ainda consegue comover com o encerramento de um arco que tinha tudo para ser chato ou frustrante (afinal, não envolve diretamente o protagonista) e, em vez disso, toca não só pelo destino de uma jovem, mas também (e isso é – narrativamente – digno de aplausos) pelos sentimentos do homem que a destrói.

E mesmo que, ao contrário das temporadas anteriores, esta não traga um desfecho que poderia até funcionar como conclusão da série, o resultado é bom o bastante para que ignoremos o anticlímax da conclusão e apenas torçamos para que os próximos treze episódios cheguem logo.

Better Call Saul S01E01

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 10 comentários

(Better Call Spoilers.)

Vince Gilligan e Peter Gould, co-criadores deste spin-off da inigualável Breaking Bad, tinham um gigantesco desafio duplo ao conceber uma série protagonizada pelo divertido Saul Goodman, responsável por alguns dos momentos mais divertidos da saga de Walter White: em primeiro lugar, definir o tom da narrativa; em segundo, contornar o fato de que o espectador já saberia, desde o princípio, como a história terminaria. Pois se formos julgar a partir do episódio piloto, Uno, eles encontraram boas soluções para ambos, já que, mesmo mantendo o bom humor que poderíamos esperar de uma trama que gira em torno de Saul, salpicaram o episódio com toques dramáticos suficientes para que o projeto realmente parecesse pertencer ao mesmo universo que já conhecíamos. Além disso, ao conceberem um prólogo que se passa após o término de Breaking Bad, sugerem que talvez ainda não tenhamos testemunhado de fato o desfecho da trajetória do advogado.

Este prólogo, aliás, já estabelece a atmosfera da série de forma magnífica: rodada num belo preto-e-branco que mergulha o Saul pós-Walter White em um mundo melancólico e depressivo, a sequência deixa claro o estrago feito na vida do protagonista, que agora leva uma existência de rotina desinteressante que – o mais curioso – ele já previra no penúltimo episódio de Breaking Bad ao dizer que, “com sorte, daqui a um mês serei gerente de uma loja de Cinnabon em Omaha”. Não poderia ter sido mais preciso em seu palpite. No entanto, além de criar esta continuidade divertida, a introdução remete diretamente aos procedimentos de preparo da metanfetamina que dominavam o original, substituindo a droga pela massa que serve de matéria-prima para a loja gerenciada por Saul em sua nova identidade.

E é aqui que a direção de Vince Gilligan já começa a exibir o mesmo apuro visual com o qual já nos acostumáramos em Breaking Bad, já que constantemente traz nosso anti-herói sufocado, claustrofóbico, esmagado entre elementos cenográficos que ressaltam seu estado psicológico e emocional – e, em certo instante, chegamos mesmo a ter a impressão (graças às persianas da janela) de que ele se encontra em uma espécie de prisão domiciliar. 

better01 better02 better03                                                  better04

Envelhecido e com uma calvície evidente, Saul é agora um homem triste e decadente – e, portanto, não é surpresa (mas é, sim, tocante) constatar como, para se manter minimamente interessado em viver, ele recorre ao seu passado, assistindo aos seus antigos comerciais que, não por acaso, projetam um pouco de cor sobre os grandes e feios óculos que ressaltam seu envelhecimento.


better05
                                          better06

A partir daí, Gilligan nos leva ao período pré-Breaking Bad, quando encontramos Saul nos passos iniciais de sua jornada – e é notável perceber a calma com que o realizador conduz a narrativa: sem jamais ceder ao impulso de atender os desejos do espectador de reencontrar o personagem, o diretor investe numa cena com ritmo calculado que usa os sons diegéticos (o ranger das cadeiras, o ar condicionado, a tosse dos figurantes) para despertar a curiosidade do público com relação ao que estamos vendo (um recurso que ele voltará a utilizar em uma das cenas finais, quando aposta no silêncio, no som do lampião e no tiquetaque de um relógio para salientar a solidão de Saul ao tentar dialogar com aquele que, presumo, é seu irmão). Porém, mais do que isso: frequentemente, Gilligan e o diretor de fotografia Arthur Albert usam lentes grandes angulares que, associadas aos planos abertos, trazem Goodman pequeno, diminuído, em ambientes que parecem engoli-lo e ressaltar sua insignificância, mais uma vez levando o espectador a perceber, apenas visualmente, o estado psicológico do personagem.

better07 better08 better09 better10 better11 better12 better13

Mas esta calma não encontra-se presente apenas na abordagem da direção; está também no roteiro (de Gould e Gilligan), que não se apressa em explicar qual a relação entre Saul e Chuck (vivido por Michael McKean, que, como Bob Odenkirk, tem uma carreira toda construída na comédia, embora seja também eficiente no drama), qual a situação que levou este último a se afastar da empresa de advocacia ou mesmo em esclarecer quem é a mulher com quem Saul divide um cigarro e parece habituada a vê-lo descontar sua frustração na lata de lixo do estacionamento (num eco claro das explosões que levavam Walter White a socar o secador do banheiro).

Aliás, é nesta sequência que enfoca a visita de Saul ao sócio do irmão (de novo: presumo que seja irmão) que o piloto de Better Call Saul traz aquele plano que me fez inclinar para a frente na cadeira e prender a respiração ao perceber que estava mesmo assistindo a uma nova criação dos responsáveis por Breaking Bad:

better14

Em primeiro lugar, a metáfora visual pode ser óbvia, mas não deixa de se tornar memorável especialmente graças à maneira com que é apresentada: naquele ponto do episódio, já percebemos que Saul não apenas se encontra no fundo do poço, mas se sente no fundo do poço. Sente-se – claro – um refugo humano, um lixo. Assim, não só a disposição em cena da lata e de Bob Odenkirk, mas especialmente as cores similares refletidas no metal e do terno do sujeito, complementadas pelo amarrotado da calça e da lata, apresentam a comparação de forma esteticamente irrepreensível, mesmo arrebatadora.

E se Breaking Bad transformou os planos em contra-plongé em marca visual registrada, aqui Gilligan parece estar introduzindo o contrário, frequentemente pontuando a narrativa com planos plongé que – vamos observar nos futuros episódios – podem se tornar uma assinatura da série nova (não que fossem raros na anterior, que inclusive se encerra com um plongé inesquecível).

better15 better16 better17

Contando ainda com as pontas de dois personagens marcantes de Breaking Bad (um não é surpresa, já que Jonathan Banks é o segundo nome listado nos créditos; o segundo, porém, representou um presente divertido), Better Call Saul é um início promissor que sugere a capacidade de Gilligan, Gould e Odenkirk de levar o espectador a enxergar Saul Goodman a partir de novos ângulos – o que, se concretizado, não apenas renderá uma ótima diversão como também, em retrospecto, enriquecerá ainda mais as cenas envolvendo o personagem em suas interações futuras com o homem que eventualmente destruirá sua vida: Walter “Heisenberg” White.

Hackers da década de 80 e a série 24 Horas na década de 90

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê, Vídeos | 3 comentários

Como o Cinema retratava os hackers em atividade na década de 80? (Supercut)

Aliás, este vídeo me fez lembrar de outro, criado pelo College Humor, que mostra como seria o piloto da série 24 Horas caso tivesse sido produzido na década de 90:

Arte e Humanidade

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê, Variados | 13 comentários

A Arte pode ter natureza estética, pode ser pessoal ou ambas. A primeira tem, como foco, a experimentação com a linguagem e/ou com a plástica. A segunda se concentra na humanidade do artista e daquele que contemplará a obra criada. Criar é compartilhar. Sentimentos, ideias, ideologias, amores ou memórias, mas compartilhar. A mais pessoal das experiências pode ser surpreendentemente universal quando dividida com desconhecidos. Sofri por amor. Temi a morte. Estranhei o indivíduo no espelho. Odiei a mim mesmo.

Você também.

Um bom filme, um bom livro, uma boa música, um bom poema, uma boa peça, uma boa ópera, uma boa performance merecem este adjetivo por tocarem o outro. O que é estéril é esquecível; a boa Arte fecunda pensamentos, emoções e ideias. O sorriso da Gioconda é icônico não por ser antigo, mas por ser instigante. Ela sorri de mim, para mim ou comigo?

O artista se rasga por completo para a apreciação alheia. Expõe a mesma vulnerabilidade que todos tentamos esconder.

Mas há ramos na Arte e níveis de exposição. Um escritor, por exemplo, se expõe profundamente, mas à distância. Cada conto, crítica, livro ou roteiro que escrevo revela muito sobre mim, mas permaneço protegido pelo escudo desta tela ou do papel: fui ouvido sem ser visto. Tenho uma imensa cicatriz no abdômen e esta me constrange (embora represente a memória de minha quase morte), mas você não a enxerga. Acabei de expô-la, é fato, mas sem ter que erguer a camisa. Este é meu limite e, neste sentido, ter escolhido a escrita para me expressar é sintoma também de minha covardia.

Um ator não conta com esta proteção. Um ator expõe seu rosto e seu corpo ao lado de seus sentimentos. Vejo sua lágrima e entendo seu sofrimento. Enxergo suas rugas e reconheço sua mortalidade. O único filtro é o personagem, mas mesmo este habita um corpo real que está ali para nosso consumo. É preciso uma coragem infinita para se expor assim. E uma generosidade idem.

E há, claro, aqueles que se expõem na escrita e no corpo. Louis C.K. é um destes artistas.

Quando comecei a assistir a Louie, série escrita, montada, estrelada e dirigida por ele, esperei ver uma extensão de suas fabulosas performances como comediante stand-up. Esperava rir de experiências cotidianas que, trabalhadas no texto de um cômico talentoso, divertiriam com sua natureza prosaica e tola. Contudo, ao longo dos últimos quatro anos, Louie se tornou muito mais do que uma versão de sitcom; estabeleceu-se como um tratado filosófico sobre a condição humana. Sobre nossas fragilidades e nossas belezas. Sim, ri muito com Louie, mas também chorei. E, nesta quarta temporada, refleti muito sobre quem sou e como experimento certas ansiedades e sentimentos. Aliás, alguns episódios doeram tanto que, confesso, passei a temer pelo próprio Louis C.K.. “Não se mate, por favor”, me vi pensando ao final de certas cenas. E estava implorando isto ao artista, não ao personagem.

Não é à toa que, ao contrário de minhas explorações narrativas sobre Breaking Bad ou True Detective, me vejo com dificuldades de discutir Louie como experiência artística: ao falar sobre certo episódio desta temporada, por exemplo, me flagrei discutindo seus temas e as ideias inspiradas por estes, mal tocando em seus aspectos técnicos e narrativos – e agora, ao assistir aos dois episódios finais da quarta temporada, volto a me surpreender movido a escrever sobre… sentimentos.

Dividindo a cena com a excelente Pamela Adlon, C.K. converte esta hora final em um pequeno estudo sobre como nos entregamos ao outro quando nos apaixonamos e como expomos nossos medos justamente àqueles que detêm, naquele instante, o maior poder de nos ferir. Aliás, se há um tema que unifica este quarto ano de Louie é a busca pelo amor, pelo sentimento compartilhado, e os riscos que esta procura envolve – mas também suas recompensas. Há três ou quatro episódios, por exemplo, ao ter o coração partido pela namorada húngara que retornou ao seu país natal, Louie confidencia sua dor ao médico vivido de maneira estupenda por Charles Grodin e, em vez de ser consolado, ouve um discurso inesquecível sobre a beleza de um sentimento frustrado:

Dr. Bigelow (Grodin): Isto é que é amor. Sentir a falta dela e desejar morrer. Você tem tanta sorte; é um poema ambulante. Você preferiria ser algum tipo de… fantasia? É isso que você quer? Você não percebe que esta é a parte boa, que é isto que tem procurado esse tempo todo? Finalmente você conseguiu o que queria, este doce… pedacinho de amor. Doce, triste amor. E você quer jogá-lo fora. Você entendeu tudo errado.

Louie: Eu achei que esta fosse a parte ruim.

Grodin: Não! A parte ruim é quando você a esquece, quando você deixa de se importar com ela, quando deixa de se importar com tudo. A parte ruim ainda chegará, então aproveite seu coração partido enquando pode. Seu sortudo canalha, eu não tenho meu coração partido desde que Marilyn me abandonou, desde que eu tinha 35 anos de idade. O que eu não daria para ter meu coração partido de novo… Olha, eu não sei bem qual é seu nome, mas você deve ser a pessoa mais entediante que já conheci.”

Que passagem linda. E tão verdadeira. Sofrer por amor é viver. Há algo de terrivelmente comum na felicidade estável. Lembro de meus amores adolescentes e invejo meu eu de 15 anos de idade. Penso em nomes como Alessandra, Fernanda, Bruna, Laura, Luciana, Giovanna e Mariana e percebo que escrevia com mais vigor ao sofrer por elas. Todas marcaram de maneira diferente e permanecem comigo, mas aquela intensidade da dor por perdê-las dissipou-se. Percebo isto e me entristeço.

Assim, ver Louie se apaixonar por Pamela diante da câmera enquanto esta o desafia como homem, profissional e namorado é algo que me encanta. Vê-lo se abrir a ela com sua desajeitada declaração de amor me comove. Vê-la lutar contra os próprios bloqueios para explicar que não consegue verbalizar o que seu coração experimenta me toca.

Mas C.K. vai além. Há muitos episódios, ele explicou sua insistência em manter-se de camisa perto das namoradas, mesmo durante o sexo, por ter vergonha de seu corpo. Havia, ali, algo de claramente autêntico. C.K., o homem, é gordo e desajeitado. Sua sensibilidade e seu caráter não o tornam mais rijo ou musculoso. Doce ou não, sua barriga permanecerá flácida e caída. E ele seguirá embaraçado por isso.

Assim, ao vê-lo despir-se diante da câmera, testemunhei um artista que enfrentou sua maior insegurança para encontrar uma verdade universal. Um artista que se rasgou não só para me divertir, mas para me fazer refletir. E me vi comovido diante de sua coragem, de sua entrega, de sua sensibilidade e de sua honestidade.

Louie, nesta quarta temporada, deixou de ser apenas uma série; tornou-se uma terapia pública para seu criador e um espelho para seu público. Um espelho que refletiu um apelo por amor, compaixão e compreensão.

Refletiu, enfim, nossa humanidade.

Louie e a Garota Gorda

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê, Variados | 8 comentários

A Arte tem um potencial infinito. Pode divertir, emocionar, aterrorizar, levar à reflexão e à autocrítica. Tem a capacidade de, por um momento, levar um humano a se colocar na pele de outro. Permite que experimentemos o mundo a partir da visão de alguém que enxerga a realidade de forma completamente diversa à nossa. Pode provocar um sorriso doído através de uma piada que, mesmo divertida, traz em seu centro uma realidade que machuca.

O contrário é possível, claro: há quem faça arte (com minúscula mesmo) para humilhar, para reduzir, para trazer todos a um nível basal de humanidade. Há quem faça piada para tentar estabelecer a própria superioridade: você é nordestino, é preto, é mulher, é gay; eu vivo no rico Sudeste, sou branco, homem, heterossexual. HA! Você pode ser Danilo Gentili, por exemplo. É mais fácil por ser medíocre e destrutivo. E haverá quem ria de você. As pessoas, de modo geral, não são exigentes com seus artistas.

Mas, por outro lado, você pode ser Louis C.K. e criar algo sublime como o terceiro episódio da quarta temporada de “Louie”.

O que C.K. faz ali como diretor, roteirista, montador e protagonista é algo único: astro do próprio show, ele é humilde, humano e generoso o bastante ao se retratar como um homem que, diante de uma mulher fantástica, inteligente e vivaz, jamais passa de sua superfície e a julga por aquilo que ela tem de menos relevante: seu corpo. Colocando-se na posição ficcional que ele sabe ter tantas vezes ocupado na vida (e não só ele: me enxerguei na feiúra fútil do “Louie” do show e me reconheci, triste, na tolice de sua superficialidade), C.K. cria um episódio no qual é abordado repetidas vezes pela garçonete do bar de standup que frequenta, rejeitando-a sempre por considerá-la gorda (ela é). Finalmente, sentindo-se meio culpado e mesmo curioso acerca da garota, que se apresenta sempre divertida e articulada, ele aceita passar uma tarde com ela – e, numa sequência ágil que constrói as horas que passam juntos, percebemos claramente como ela é uma companhia adorável, vemos seu lindo sorriso ao compartilhar detalhes de sua vida com o companheiro de passeio e percebemos como Louie se encontra à vontade ao seu lado.

E é então, que, numa troca de reflexões sobre a natureza dos encontros românticos, Vanessa (vivida lindamente por Sarah Baker) comenta que tudo é mais difícil ainda para uma “mulher com cerca de 30 anos e gorda” – o que inspira Louie a, num impulso ao qual todos já cedemos, responder com uma mentira supostamente bem-intencionada, mas que machuca justamente por soar como um gesto condescendente e vazio: “Você não é gorda”.

O que vem a seguir representa um dos momentos mais belos que já testemunhei em uma produção para a tevê: um quase monólogo que, num longo plano de sete minutos, traz Vanessa rasgando a própria alma para Louie e para o espectador enquanto explica por que aquela é uma mentira tão dolorosa e expondo a crueldade de uma cultura que se detém na superfície de um indivíduo e ignora a riqueza que este traz em seu interior e que poderia facilmente encantar qualquer um se fôssemos simplesmente capazes de valorizar a essência no lugar da maquiagem. Sem jamais forçar um sentimentalismo tolo (Vanessa não chora, não grita, não interpreta), C.K. e sua fantástica atriz (que, espero, será devidamente premiada pela obra de Arte que constrói aqui) dissecam a cultura da aparência, apontam o absurdo das prioridades invertidas e criam um instante de imensa humanidade e dor em meio a uma série que tem o humor como mote principal – e é precisamente por surgir neste contexto que aquela conversa soa tão real, tão rica e tão demolidora.

Aliás, o mais tocante é notar como, ao iniciar sua fala ao ouvir a frase sabidamente falsa de Louie, Baker não sugere raiva ou mágoa por parte de sua personagem. Em vez disso, seu olhar trai apenas… desapontamento. Uma profunda decepção ao perceber que um comediante que expõe suas fragilidade todas as noites no palco, falando inclusive sobre as inseguranças trazidas pela obesidade, se mostra tão cego à ferida que acaba de provocar. Louis C.K. é um homem gordo, sabe disso e convida os outros a rirem de seu corpo (o que não deixa de ser uma autodefesa). O que ele não sabe é que ser uma mulher gorda é algo completamente diferente.

Ou melhor: não sabe, mas quer no mínimo compreender a dura e dolorida realidade que ele mesmo cria (não: que todos nós criamos) para qualquer mulher acima daquele peso que, aprendemos nas capas de revista, seria o “ideal”. Ao final daqueles sete magníficos minutos, podemos até não absorver completamente o que aprendemos, mas certamente pudemos enxergar nossa própria postura fútil através dos olhos daquelas que julgamos.

E é triste perceber que o que vemos não é bonito como gostaríamos de crer.

Ao menos, há obras como estas que, ao erguerem um espelho fundamental diante de nossos olhos, projetam um reflexo mais profundo e revelador do que aquele que nos acostumamos a ver no cotidiano. Que bom que há a Arte. Que bom que há artistas como Louis C.K. e Sarah Baker. Que bom.

True Detective

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Séries de tevê | 30 comentários

Em certo momento do último episódio desta primeira e fabulosa temporada de True Detective, o detetive Rust Cohle, vivido por Matthew McConaughey, comenta ter percebido que há apenas uma história a ser contada, “a mais antiga de todas: a Luz versus a Escuridão”. É então que seu parceiro Marty Hart (Woody Harrelson), até então um sujeito bem mais otimista que o outro, completa, olhando para o céu estrelado: “Parece que a Escuridão tem bem mais território”.

É um instante tematicamente apropriado – especialmente considerando a última fala da série, dita por Cohle, que revela uma visão contrastante com o niilismo que dominara sua filosofia de vida durante todos os episódios: após anos e anos de convivência, Rust e Marty parecem ter atingido algum entendimento – e até mesmo uma sobreposição/quase inversão de suas respectivas posturas diante do mundo. Seria impossível, para este último, manter sua autoimposta cegueira depois de tantas experiências traumáticas, ao passo que o primeiro, que partira de um extremo e compreensível pessimismo, parece descobrir, ao quase morrer, algum sentido que lhe permita continuar vivo e (relativamente) são.

Estas jornadas psicológicas e emocionais são, em última análise, a principal virtude uma série que, sob a estrutura de um thriller policial, exibia preocupações mais filosóficas acerca de seus personagens – e a relação entre Marty e Rust sempre foi a alma da série e o motor de sua ação. Um dos maiores atrativos de True Detective residia não necessariamente na investigação do assassinato de Dora Lange (ainda que esta fosse suficientemente interessante para prender a atenção do espectador), mas nos embates entre os dois heróis: o pragmático e hedonista Marty e o introspectivo e solitário Rust.

O contraste, aliás, encontrava reflexo até mesmo em seus históricos familiares: se Rust exibia todas as cicatrizes da morte de sua filha pequena, Marty pouco valorizava a bela família que o cercava – e é irônico que justamente este insistisse em manifestar sua crença em valores religiosos e em um “sentido” para a vida, demonstrando impaciência crítica para com a descrença do parceiro diante de credos e outros conceitos metafísicos. Ao longo dos oito episódios, os dois homens frequentemente mantiveram conversas que acabavam resultando em um acordo tácito de silêncio provisório, já que nenhum consenso seria possível entre personalidades tão opostas – e a tensão e o humor dos roteiros de Nic Pizzolatto surgiam precisamente da constatação de que aqueles discussões se repetiriam enquanto os detetives mantivessem sua parceria.

Enquanto isso, o mistério que investigavam refletia, ao seu próprio modo, o centro filosófico daquelas mesmas questões: envolvendo crimes bárbaros contra mulheres e crianças (que, no mundo masculino habitado por Rust e Marty, eram não só a única salvação possível, mas também – e talvez por isso – suas vítimas constantes), a investigação inevitavelmente obrigava os detetives a confrontar a natureza do próprio Mal e, assim, o que chocava o personagem de Harrelson era visto pelo de McConaughey como uma extensão óbvia das perversidades do Homem. Suas respectivas reações, claro, correspondiam às suas posições habituais: Marty encarava os crimes como um trabalho a ser resolvido e então esquecido, enquanto Rust via ali uma batalha clássica contra a Escuridão.

Assim, é natural que a direção impecável de Cary Fukunaga tenha extraído tensão não das sequências de ação (ainda que tenha criado algumas memoráveis, como aquela que trazia os heróis se aproximando da casa de Reggie Ledoux e, claro, outra que envolveu um sensacional plano-sequência de seis minutos de duração), mas do clima subjacente de terror que permeava a trajetória dos detetives – e não é à toa que em vários momentos a série parecia flertar com o sobrenatural. Além disso, é preciso dar créditos ao roteiro pela forma elegante com que introduz e explora a referência aos contos de Robert Chambers na antologia “The King in Yellow”, costurando o principal elemento destes em sua própria narrativa: um texto teatral quase mítico que inspira horror e loucura em que o lê.

Claro que, acostumados como estamos com os clichês do gênero policial (e sua subcorrente sobre serial killers), muitos espectadores logo se tornaram obcecado com a identidade do “Yellow King” sugerido por True Detective – e quando tuitei, há alguns dias, que aqueles que se concentravam no elemento “quem é o culpado?” estavam assistindo à série de forma errada, minha intenção era justamente a de evitar um desapontamento com o que o final da temporada prometia trazer (o que não impediu alguns de me enviarem mensagens agressivas, mas isto faz parte da natureza da Internet).

Pois o “Yellow King” era mais que uma identidade, mas um conceito. Um conceito de horror e loucura – exatamente como apresentado por Chambers -, mas também um que gira em torno da capacidade humana de inflingir mal ao próximo. O “monstro no final do labirinto” mencionado por Rust num dos primeiros episódios é ao mesmo tempo literal (no caso deste final de temporada) e metafórico, podendo representar qualquer um dos seres sádicos sobre os quais lemos todos os dias nos jornais e que vão desde estupradores e assassinos até os “justiceiros” que se conferem os papéis de policiais, juízes e carrascos nas ruas brasileiras (e que incluem apresentadores(as) de tevê que sociopaticamente incentivam o linchamento). O mundo é repleto de Tuttles, de Errol Childress e afins – e é natural que, para escaparmos do sentimento de futilidade e de falta de propósito, tantos de nós busquem uma religião ou alguma outra forma de escapismo e/ou consolo. A simbologia religiosa presente em todos os episódios de True Detective é um reflexo disso – e inclui a própria religião concebida/seguida por seu vilão principal, que tem até mesmo seus símbolos sagrados e rituais particulares.

Um escapismo que, mesmo artificial, tem seu valor – desde que não utilizado para oprimir  outros. Assim, é interessante que o mais cético dos personagens da série pareça descobrir, ao fim, um significado metafísico, uma “continuação” pós-vida.

Porque, ao fim, True Detective não é sobre mistérios ou mesmo criminosos, mas sobre seus heróis. É por isso, aliás, que sua estrutura, dividida em três tempos, é tão eficaz: quando descobrimos, no presente, que os heróis que admiramos no passado deixaram de se falar, sentimos frustração diante do rompimento – e, consequentemente, uma alegria compreensível quando retomam a velha parceria. E esta temporada da série de Pizzolatto girava em torno disso, destes homens falhos, quebrados, mas que se penitenciavam por seus erros e sonhavam em melhorar – mesmo nem sempre agindo segundo este sonho.

Basicamente, True Detective foi tão eficaz como narrativa por preparar o espectador, durante quase oito horas, para o momento em que seus heróis durões se entregariam às lágrimas e enxergariam, no outro, um reflexo de sua própria fraqueza.

Mas também de sua força.