Séries de tevê

Breaking Bad S05E16

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 40 comentários

(My Baby Spoiler.)

Se alguma evidência ainda era necessária para demonstrar a precisão narrativa de Breaking Bad, esta surgiu com veemência no título do episódio final da série de Vince Gilligan. Batizado como FeLiNa, esta derradeira hora da saga de Walter Whiter não só trazia um anagrama de “Finale” em seu nome como ainda poderia, com certa liberdade de interpretação, simbolizar os três princípio da história: Sangue (Ferro), Metafentamina (Lítio) e Lágrimas (Sódio) – ao menos, de acordo com os próprios realizadores, que, ao contrário do que normalmente fazem, não hesitaram em expor o significado dos três elementos químicos que ajudam a compor o título. No entanto, mais do que um anagrama e um conjunto de compostos químicos, “Felina” é também a amada do narrador da canção “El Paso”, que, cantada por Marty Robbins, é escutada por Walter logo na abertura do episódio e traz versos que contam a história de um homem que, encantado pela garota, comete um “mal terrível”, é obrigado a fugir de sua cidade, mas finalmente retorna por perceber que “não lhe resta nada”.

Sim, é fácil considerar que a “Felina” de Robbins é o cristal azul de Walter – seu amor maior e final que acaba levando-o ao crime e condenando-o à solidão e à morte -, mas ainda assim é fascinante observar como a canção acaba se revelando uma espécie de mapa do que ocorrerá no episódio final:

“Maybe tomorrow
A bullet may find me.
Tonight nothing’s worse than this
Pain in my heart.”

(…)

Off to my right I see five mounted cowboys;
Off to my left ride a dozen or more.
Shouting and shooting I can’t let them catch me.
I have to make it to Rosa’s back door.
Something is dreadfully wrong for I feel
A deep burning pain in my side.”

Estão na canção do início do episódio os vilões comandados por Jack, a dor de Walt que o obriga a retornar mesmo sob o risco de morte e, claro, a bala que finalmente o atingirá e o matará.

E eu aqui me preocupando com spoilers.

Ressaltando a situação desesperadora de Walter desde o início ao retratá-lo em um plano claustrofóbico e sufocante que o situa no interior de um carro coberto por neve, “FeLiNa” não se furta em apelar para um sutil deus ex machina ao trazer o protagonista praticamente orando por uma saída daquela situação (“Just get me home and I’ll do the rest”) apenas para ser atendido com a descoberta da chave do carro – e aqui Vince Gilligan, que também dirigiu o episódio, é inteligente ao inverter completamente a lógica usada ao longo de cinco anos, quando nos habituáramos a ver os personagens em contra-plongé, e inclui um plano em plongé no qual a chave parece ser enviada diretamente dos céus para o colo de Walt, numa contra-rima elegante e belíssima que me emocionou profundamente pela inteligência e por soar como recompensa depois de quase seis anos de pistas contínuas.

 A partir daí, “FeLiNa” se entrega a uma narrativa de despedidas e de medidas finais. Revelando uma saída engenhosa para o beco sem saída representado pela incapacidade de Walt de deixar seu dinheiro para a família (“Eles não querem meu dinheiro; mesmo que quisessem, o governo não permitiria que ficassem com ele.”), Gilligan e seus co-escritores conseguem não apenas fazer com que o anti-herói consiga passar sua fortuna adiante como ainda permitem, no processo, que ele obtenha algum tipo de vingança diante das injustiças que – ao menos em sua mente, já que a série nunca esclarece exatamente o que aconteceu – Gretchen e Elliott cometeram no passado (“Esta é a sua chance de endireitarem as coisas”). Ainda exibindo o velho orgulho ao insistir que não gastem um centavo do próprio dinheiro, Walter tampouco hesita em usar a mitologia criada em torno de Heisenberg para amedrontar ainda mais os antigos sócios e garantir que cumpram a promessa feita.

Da mesma maneira, já nesta cena Gilligan introduz o vermelho que, simbolizando o perigo representado por Walter (além, claro, do sangue que derramará), percorrerá o episódio até o final – e, assim, o quadro ao fundo do plano que traz o amedrontado casal Schwartz, bem como os lasers que os marcam, não surge em cena à toa.

Não que seja surpreendente a beleza da construção narrativa de Breaking Bad, uma série que, ao longo de suas cinco (seis?) temporadas, demonstrou uma atenção cinematográfica para com os detalhes de sua mise-en-scène, recompensando a atenção de seus espectadores com pistas e símbolos espalhados pelos cenários, figurinos e luzes. Assim, ao trazer Skyler sufocada em planos claustrofóbicos que a expõem como a prisioneira que se tornou graças às ações do marido, “FeLiNa” descarta a necessidade de diálogos expositivos, optando por retratar na composição dos quadros o estado no qual a mulher se encontra, transformando as persianas em grades, obscurecendo parte dos planos para mantê-la acuada e incluindo uma coluna que, em certo instante, surge como materialização perfeita da barreira construída entre o casal em função do surgimento de Heisenberg.

E se menciono a cena que traz o encontro final entre Skyler e Walt, não é só por admirar sua construção estética, mas por reconhecer, ali, a iniciativa de Gilligan em abordar diretamente a relação equivocada que certos espectadores passaram a manter com a série e com seu protagonista (e que discuti neste post). Se alguns episódios antes Breaking Bad já dera um tapa no rosto daqueles que odiavam Skyler ao trazer Walter repetindo todos os clichês vomitados por aqueles que a encaravam como um obstáculo no caminho do “herói” (reparem: “herói”, não “anti-herói”), desta vez Walt se encarrega de desfazer as ilusões que tais fãs mantinham ao insistir que ele fizera “tudo pela família”. Finalmente reconhecendo suas motivações egocêntricas, Walter admite ter se transformado em Heisenberg por vaidade e para se sentir no controle – e a maneira com que Bryan Cranston cerra os olhos ao reviver o prazer do poder em sua mente, seguindo o momento com um quase inaudível “tsc” de lamento por seu erro ao entregar-se ao alterego, é a prova máxima do brilhantismo de um ator que, mesmo confinado à diminuta tela da televisão, não precisa de gestos grandiosos para construir seu personagem.

Ainda assim, Vince Gilligan e o diretor de fotografia Michael Slovis reforçam a ideia da persona sombria e destrutiva de Walter ao trazê-lo, na cena seguinte, como o único que mergulha na sombra ao visitar o quarto da filha – e, logo em seguida, “FeLiNa” traz aquele que é possivelmente seu plano mais devastador ao retratar o protagonista observando Flynn à distância enquanto as molduras da janela expõem a situação de um homem que se prendeu fora da vida da própria família, obrigando-se a ver, como fugitivo, o filho que passou a odiá-lo. Até que, por fim, se afasta daqueles que ama e é transformado quase num fantasma pela fotografia superexposta.

É importante que não nos iludamos quanto à natureza de Walter White, porém: sempre vaidoso, o homem que matou Mike Ehrmantraut por puro despeito é ainda um sujeito vingativo e rancoroso – algo que Gilligan faz questão de evidenciar ao trazê-lo descartando o relógio que Jesse lhe deu de presente de aniversário. Sentindo-se insultado ao descobrir que o antigo sócio ainda vive e permanece produzindo o cristal azul que se tornou a obra-prima de sua vida, Walt mal consegue ocultar o ódio ao constatar que Jack não matou o rapaz – e é impossível ver sua expressão de raiva e despeito ao concluir que Jesse vive e insistir na fantasia de que ele tem a menor intenção de salvar sua vida. Sim, eventualmente é isso que faz, mas apenas ao constatar que Jesse vivera os últimos meses como escravo – e é fundamental notar a expressão de choque no rosto de Walt ao ver o estado no qual o garoto se encontra antes de finalmente decidir poupá-lo das balas que reservou a Jack e companhia.

Neste sentido, aliás, “FeLiNa” é hábil ao levar o espectador a perceber como a presença de Walt destruiu a vida de Jesse ao trazer um (raro) flashback no qual, em tons quentes e agradáveis, vemos o personagem de Aaron Paul construindo a caixa de madeira que viria a enchê-lo de orgulho ainda no colégio – uma imagem que Michael Slovis usa para criar um contraponto chocante à sua situação atual através não só do contraste entre os tons quente e frio da fotografia, mas através da decupagem que, num raccord de movimento lindíssimo, usa o movimento do corpo de Jesse como transição entre passado e presente.

Este não é o único momento no qual “FeLiNa” emprega rimas visuais como observação da trajetória de Walt, diga-se de passagem: em certo ponto, ao revisitar a sala de sua casa agora dilapidada, Walter retorna ao instante no qual tudo começou ao lembrar-se do convite de Hank para acompanhá-lo em uma de suas incursões com a Narcóticos – algo que Gilligan, praticamente me levando a convulsões de desejo para vê-lo dirigindo um longa, justapõe ao Walter White coberto pelas sombras que projetou sobre si mesmo em outro fabuloso motif.

Sombras que, diga-se de passagem, se tornam companheiras de jornada do personagem, não sendo um acidente o fato de que, ao sair do restaurante no qual confrontou Lydia e Todd, ele seja o único a ser visto na escuridão em meio a vários clientes do estabelecimento.

Este, obviamente, não é o único momento no qual as escolhas do gênio Michael Slovis se sobressaem: ao usar uma grande angular para mostrar o pequeno apartamento no qual Skyler passou a morar com os filhos, o diretor de fotografia não só expõe as dimensões diminutas do imóvel como ainda cria um plano no qual a bem situada coluna acaba servindo como elemento fundamental ao ocultar a presença de Walt, que, revelada num movimento fluido de câmera, surge como impactante surpresa. Sim, Slovis peca pelo óbvio aqui e ali (os planos que mostram Lydia derramando adoçante no chá são óbvios o bastante para estragar a surpresa do plano do protagonista), mas, de modo geral, merecem créditos pela engenhosidade técnica/plástica (como a composição que usa a janela de uma construção semidemolida como moldura-dentro-da-moldura ao trazer Walt construindo a engenhoca que usará para destruir seus inimigos).

O que nos traz de volta à cor-chave do episódio, que, como não poderia deixar de ser, é o vermelho. Qualquer um que tenha assistido a Breaking Bad com atenção nos últimos anos seria capaz de perceber que a trajetória do ex-professor de Química do ensino médio não terminaria em abraços, desabafos ou confissões de amor – e, assim, é mais que apropriado que Vince Gilligan e Michael Slovis tenham determinado que a cor que simboliza violência seria aquela que se tornaria recorrente no último episódio da série. Presente na xícara usada para envenenar Lydia e no chaveiro que Walt usa para destruir seus inimigos, ela surge contínua (mesmo que em planos quase subliminares) na magistral sequência que coroa os planos do agora ex-Heisenberg, estabelecendo-se como recortes luminosos de destruição e morte na casa de Jack e seus neo-nazistas (um vermelho também presente no travesseiro que Lydia abraça ao descobrir que irá morrer).

Aliás, como fã de O Poderoso Chefão, devo reconhecer a engenhosidade de Gilligan ao prestar homenagem a Coppola, que sempre incluía um elemento atípico em suas sequências de violência e que aqui ganha um representante na cadeira vibratória que mantém um dos principais capangas de Jack “respirando” mesmo depois de morto, criando um vai-e-vem sonoro que cria um incômodo fabuloso no espectador mesmo depois que todos os inimigos de Walt se encontram mortos.

Sim, mesmo como fã sou obrigado a admitir que o fato de Todd e Jack serem os únicos sobreviventes do tiroteio é conveniente demais do ponto de vista narrativo, já que permite vinganças pessoais que satisfazem o espectador de um ponto de vista catártico, mas ainda assim me atrevo a defender esta decisão dos realizadores como algo que, mesmo maniqueísta, é mais do que apropriado como exercício narrativo. Afinal, o que é a Arte senão a concretização de fantasias, desejos e impulsos dos espectadores? Assim, ainda que reconheça a conveniência de Jack sobreviver tempo suficiente para permitir um disparo final de Walt, sou obrigado a admitir que, do ponto de vista narrativo, é perfeito que o anti-herói da série devolva o favor ao não permitir que Jack conclua a última frase que diria – exatamente como este fez com Hank.

Maniqueísta? Sim. Artificial? Claro. Perfeito como narrativa? Não tenha dúvida (e o mesmo vale para a conversa final entre Walt e Lydia).

“Maniqueísta”, claro, é um adjetivo que se aplica perfeitamente a Walt. Depois de passar cinco temporadas manipulando Jesse (a grande vítima da série, como não me canso de apontar), ele tenta levar o garoto a realizar suas vontades uma última vez ao buscar levá-lo a matá-lo – e se compararmos o Jesse que diz “Então faça isso você mesmo” ao garoto que se mostrava tão certo de si (e, claro, tão imaturo) no início da série, podemos perceber de maneira inequívoca o amadurecimento (não: o ressecamento) do jovem que conhecemos há cinco anos. Desta maneira, é recompensador constatar o leve aceno de reconhecimento final que os personagens trocam entre si antes de vermos Jesse gritando, num berro interrompido pela montagem, ao ver-se finalmente livre da influência do Sr. White.

E é assim que chegamos à sequência final de uma série que, por cinco anos, nos apresentou a personagens complexos, tocantes e envolventes. E que revelou a motivação inequívoca de seu protagonista: o poder de se ver como autor de uma obra-prima, de uma droga que, de tão perfeita, trazia o orgulho de autor, realizador, criador e mestre mesmo sendo responsável por destruir vidas.

O cristal azul era a Mona Lisa de Walter White. Sua Criação de Adão. Seu legado.

Mortalmente ferido, Walt finalmente se vê consolado pelo laboratório que o tornou inesquecível como julgava digno de ser. Com a expressão satisfeita, orgulhosa e feliz, Walter White caminhou, prestes a deixar de ser, entre os equipamentos que demonstraram sua genialidade – e, assim, é revelador o carinho com que toca o aço frio dos aparelhos, seus verdadeiros amores.

E é perfeito que, ao vermos seu reflexo no metal, seus óculos pretos surjam magicamente substituídos pelos aros brilhantes de Heisenberg, como se ele visse, ali, a criação que permitiu sua imortalidade, que gerou seu legado.

Walter White, depois de uma vida de submissão e frustrações, morreu como dono de seu destino, partiu em seus próprios termos (algo prenunciado pelo bordão do estado de New Hampshire – “Viva Livre ou Morra” – exibido no início do episódio).

Algo que sua expressão satisfeita – mesmo que trágica – revela de maneira inequívoca enquanto a câmera flutuante de Gilligan deposita um “X'” fatal sobre seu corpo.

Walter White era um homem falho, egocêntrico e vaidoso. Mas era também uma figura fascinante e digna de admiração. Não pelo que destruiu, mas pelo que julgou construir ao ver-se à beira da morte.

Afinal, não sonhamos todos com o legado que deixaremos?

“Guess I got what I deserve

(…)

The special love I have for you
My baby blue”

Ah, Walt.

Ah.

Breaking Bad – Final

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 33 comentários

Estou no meio do festival do Rio e não quero escrever sobre o final de Breaking Bad de qualquer maneira. Farei isso quando o evento chegar ao fim. Mas quis deixar aqui quatro imagens entre as muitas que me chamaram especial atenção no episódio (e que trazem spoilers):  Leia mais

Breaking Bad S05E15

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 38 comentários

(Cof-cof! SpoileCOF-COF! Spoile…COF-COF!)

Walter White é um canalha. Um sociopata. Um homem que deixou seu orgulho destruir todos que o cercavam.

E que está pagando um preço alto por isso.

Escrito e dirigido por Peter Gould, este penúltimo episódio da série teve, como principal função, preencher a lacuna entre a fuga de Walt e o momento no qual o reencontramos como Sr. Lambert enquanto compra armamento pesado, visita sua velha e dilapidada casa e recupera a ricina há muito ali deixada. De certa maneira, é um papel ingrato depois de um episódio como “Ozymandias”, mas que trouxe momentos fortes e apresentou uma atmosfera extremamente coesa ao nos apresentar a um homem que se tornou uma casca adoentada e amargurada do poderoso e implacável Heisenberg.

Revelando que a tentativa de proteger Skyler através de um telefonema não surtiu os efeitos desejados – e nem poderia -, “Granite State” já teve início demonstrando a queda do protagonista de sua posição de força anterior, quando surge dividindo um alojamento temporário com Saul (mais um destruído por seu envolvimento com Walt, embora Goodman esteja longe de ser um inocente), que também se encontra prestes a desaparecer graças aos serviços do profissional vivido com distanciamento por Robert Forster. Dominado pela ideia de vingança, Walter busca intimidar o facilmente intimidável Saul – último de seus aliados – quando, no instante em que está prestes a soltar mais uma de suas icônicas falas como Heisenberg, é tomado por uma crise de tosse que o deixa imobilizado sobre uma cama enquanto o advogado, demonstrando até mesmo uma curiosa pena de seu antigo cliente, diz apenas que tudo “está acabado” – e até mesmo o fato de ambos estarem usando camisas brancas serve para colocá-los não só em pé de igualdade como para remeter a um simbolismo sutil acerca do ponto no qual se encontram: à espera de novas identidades.

A partir daí, a jornada de Walter White parece destinada a ter fim de maneira solitária e dolorosa em uma cabana isolada pela neve, que, contrapondo-se ao calor do Novo México que abrigou o sujeito por toda sua vida, surge como sua Sibéria particular. Walt não está mais fugindo; está pagando por seus crimes em uma prisão superfaturada. Não que isto possa redimir seus crimes, já que o velho orgulho se mantém: quando Saul, num de seus últimos conselhos, sugere que o sujeito se entregue – o que não só facilitaria a vida de sua família, permitindo até mesmo que mantivessem a casa, mas evitaria que Skyler fosse pressionada pela polícia, Walter responde apenas que não poderia fazer isso, já que pretende recuperar o dinheiro que tio Jack roubou e, no processo, vingar a morte de Hank.

A justificativa é sempre a mesma, “Faço isso por minha família!”, mas há muito isto deixou de ser verdade, passando a ser uma mera desculpa para que Walt faça o que Heisenberg exige. Assim, quando inicialmente decide ir à cidade mais próxima, ele desencava o velho e amassado chapéu e tenta remontar o próprio ícone, como se buscasse manter viva a lenda que construiu ao longo das cinco temporadas – mas falhando no último momento e desistindo do plano por não ter a menor intenção de ser preso, mesmo que isto pudesse ajudar Skyler e os filhos. Resta a ele, então, apenas “pendurar o chapéu” em mais um simbolismo sutil de Breaking Bad – e não é à toa que aquela peça de vestuário tão importante da persona por ele construída é vista finalmente sobre a cabeça empalhada de um animal.

Intercalando a decadência física e psicológica do protagonista com a nova vida de escravidão levada por Jesse, o episódio constrói tensão e dor ao retratar o esforço do rapaz para escapar, culminando numa longa sequência na qual Gould praticamente tortura o espectador com uma promessa de fuga apenas para trazer Pinkman não só recapturado como ainda testemunha sofrida da execução sumária de Andrea, num ato desnecessariamente extremo e cruel por parte do psicopata Todd.

Todd que, diga-se de passagem, conseguiu se transformar num personagem interessantíssimo graças à construção de Jesse Plemons, cujo rosto jovial e de bom moço é complementado pelos modos rígidos do ator e por pequenos detalhes como o leve sorriso orgulhoso que dá ao ouvir Jesse narrando a execução do garoto no deserto e ao absurdo de desculpar-se com Andrea antes de matá-la apenas para dar uma lição em Jesse. Além disso, sua paixonite por Lydia é manifestada de maneira incômoda, como se víssemos uma criança diante de seu primeiro amor e incapaz de compreender como deve agir. (Lydia que, claro, continua a se mostrar uma criatura patética em sua insistência para manter um disfarce ridículo em seus encontros públicos – algo que o saudoso Mike ridicularizou há tempos – e também cruel e covarde ao insistir que seus capangas eliminem qualquer ameaça à sua segurança.)

Mas  “Granite State” atinge seu impacto emocional máximo em seus momentos finais, quando Walt, fragilizado a ponto de não conseguir manter a aliança presa no dedo e tendo que pagar por companhia, praticamente se resigna de vez à ideia de morrer solitário em sua cabana e decide tentar enviar cem mil dólares para a família (imaginem a dor para seu orgulho que isto representa após acumular 80 milhões) – sendo, em troca, obrigado a ouvir a voz dura, magoada e implacável de Walt Jr. atirando todo um mundo de ressentimento em seu rosto e repetindo o mesmo desejo que, há tempos, Skyler manifestou para calar o marido: o de que o pai morra logo. É só então, ao perceber que já não tem mais a desculpa da família para mantê-lo, que o protagonista decide se entregar à polícia e encerrar sua jornada.

Até que, claro, o velho orgulha retorna a partir do instante em que ele vê seus velhos sócios da Gray Matter desmerecendo sua contribuição para a fundação da empresa e descobre, também, que seu outro legado – a metanfetamina azul – continua sendo produzida, chegando a atingir até mesmo o cobiçado mercado europeu que ele jamais alcançou.

Vendo tudo que poderia ter deixado para trás – Gray Matter e o cristal azul – renegando seu nome, Walter White se entrega de vez aos sentimentos que não só criaram como mantiveram Heisenberg vivo por tanto tempo: o orgulho, a vaidade e as mágoas. Agora sem a família para mantê-lo preso ao velho Walt, ele pode se entregar de vez à raiva e à destruição que se tornaram marcas registradas de seu alterego e encerrar sua vida punindo todos que se atreveram a atravessar seu caminho – uma mudança fundamental que o episódio aponta de maneira brilhante ao trazer os acordes que durante anos marcaram a abertura da série, quando o título Breaking Bad (numa tradução livre, “tornar-se mal”) surgia na tela, e que agora indicam o passo final da transformação de Mr. Holland em Scarface.

É possível, claro, que ele ainda venha a morrer como Walter White – e não vejo como poderia (ou mesmo desejaria) sair vivo de sua missão de vingança -, mas, para que isto ocorra, deverá abraçar o Heisenberg que não só o ressuscitou, mas também o consumiu por tanto tempo.

Não será um espetáculo agradável de testemunhar, acreditem.

A atração dos vilões

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Séries de tevê | 68 comentários

Em meu mais recente post sobre Breaking Bad, comentei o caráter destrutivo do protagonista da série, sua crueldade inigualável (o que ele diz para Jesse no deserto ultrapassa o limite do doentio) e o fato de que seu único legado será a dor que provocou em todos que o cercavam. Por outro lado, é claro que o considero um personagem fascinante – caso contrário, não teria assistido às cinco temporadas do projeto de Vince Gilligan e não me dedicaria a comentar e analisar cada episódio aqui no blog. A pergunta mais intrigante, no entanto, seria: eu gosto de Walt?

É aí que a confusão tem início: sem dúvida alguma, eu gosto de acompanhar sua história, admiro sua inteligência e o considero uma criatura multifacetada. Se ele fosse um indivíduo real, porém, eu jamais apertaria sua mão e certamente o consideraria uma figura abominável.

Pois Walt é abominável e suas ações são típicas de um sociopata. Como se trata de um personagem fictício, contudo, o peso de suas atitudes se torna relativo: sim, ele provocou, direta e indiretamente, as mortes de mais de uma dúzia de pessoas (isto sem nem mesmo considerarmos todos que morreram graças à droga que ele fabrica com tanto orgulho), mas como suas vítimas nunca existiram de fato, torna-se fácil relativizar seu comportamento e mesmo perdoá-lo por tudo.

E esta seria uma lógica até aceitável – mesmo simplista – caso não houvesse um fator complicador: para absolver Walt, os fãs de Breaking Bad que se veem compelidos a defendê-lo frequentemente atiram a culpa sobre outros personagens: ele foi “traído” por aqueles que amava; sempre pensou em sua família, que não parece entender isto; agia apenas em autodefesa e por aí afora. Nos comentários do post anterior, um leitor chegou a dizer que foi Skyler quem “correu para lavar o dinheiro sujo dele”. Em outras palavras: o tal leitor – homem, claro – ignorou a parte do “sujo” que ele mesmo apontou e preferiu depositar a culpa na esposa do criminoso, optando convenientemente por esquecer como Walt pressionou, ameaçou e aterrorizou Skyler (e me debrucei sobre isso ao falar do episódio S05E04). Assim, a partir do momento em que Heisenberg é elevado ao posto de “herói” enquanto seus opositores se tornam seres repreensíveis, algo muito errado está ocorrendo na análise e na percepção de certos fãs.

A culpa, claro, não é da série em si – que, como obra de Arte complexa e inteligente, faz seu trabalho ao criar um universo e personagens multidimensionais. Aliás, a percepção que a própria série e seu criador têm sobre Walter é clara: ele é um vilão, um psicopata. Não é à toa que Gilligan várias vezes descreveu a narrativa como a história da transformação de um pacato professor em Scarface – e, a menos que ele tenha assistido a uma versão diferente da que vi, esta não é uma comparação lisonjeira no que diz respeito ao caráter de seu protagonista.

No entanto, não são apenas alguns poucos fãs que enxergam Walt/Heisenberg como um verdadeiro herói incompreendido que merece nada além de admiração e pena; leia os comentários em meus posts sobre a série ou em qualquer texto sobre Breaking Bad e perceberá que esta é uma posição mais comum do que poderíamos imaginar a princípio.

O que estes fãs parecem não perceber é que estão confundindo sentimentos, identificando como admiração algo que, de fato, tem mais a ver com a atração que Walt exerce sobre o espectador.

Isto não é incomum: o próprio Scarface de Al Pacino provoca este sentimento. Ao longo do filme de Brian De Palma, vemos o sujeito matar aliados friamente, tornar-se traficante de drogas, cobiçar a irmã sexualmente e matar o melhor amigo justamente por ter ciúmes da garota – e, no entanto, quando ele grita “Say hello to my little friend!” ao final da projeção, torcemos para que derrote seus inimigos quando, talvez, deveríamos estar celebrando seu fim. Da mesma maneira, somos fascinados pelo Coringa, por Darth Vader, Freddy Krueger, Jason Voorhees, Hannibal Lecter ou mesmo pelo Diabo. Ora, coloque Adolf Hitler num bunker ao fim da Segunda Guerra, acompanhe seus últimos dias e não demorará até que uma das cenas do filme se torne um meme aparentemente imortal na Internet.

Por que isto ocorre?

Em primeiro lugar, como já mencionei, há a liberdade de acompanharmos as atitudes desprezíveis de alguém sabendo que as consequências não são reais. Se um bandido detona uma bomba em uma casa de repouso, queremos vê-lo punido; se o faz no contexto de uma obra ficcional, que pode, inclusive, garantir que inocentes não serão mortos e que apenas outros vilões serão destruídos, nos permitimos vibrar com o plano e celebramos a engenhosidade do terrorista. E mesmo que inocentes morram (ou que sejamos contra a pena de morte mesmo certos da culpa do bandido atingido pela bomba), não nos sentimos culpados por nossa reação, já que, na realidade, foi apenas um ator quem deixou de participar da série. Como Chandler Bing disse em um episódio de “Friends” ao explicar por que não chorara com a morte da mãe de Bambi: “É, eu fiquei arrasado quando pararam de desenhar a corça”.

Esta é, porém, uma explicação incompleta: há mecanismos psicológicos por trás de nossa atração por vilões – e há décadas estes encontram-se presentes em abundantes textos teóricos sobre a narrativa cinematográfica e são empregados por realizadores experientes, mesmo que de forma instintiva. Conhecê-los é entender um pouco mais sobre nós mesmos e sobre a complexidade de se contar histórias.

O mais óbvio reside na ausência de superego no aparelho psíquico dos vilões. Responsável por nossa autocensura e construído durante nossas vidas a cada “não” aprendido e convenção moral/legal/social absorvida, o superego limita nossos impulsos e desejos – e, assim, testemunhar alguém que simplesmente não parece dar a mínima para o próprio superego (caso tenha um) é algo que nos oferece a satisfação da fantasia. Afinal, certamente há algo de profundamente libertador em não se render à autocensura – mas também algo de muito egoísta e narcisista. Desta maneira, admirar (ou “admirar”) um vilão é, à sua própria maneira, como admirar a habilidade de um atleta muito talentoso ou o talento de um artista muito habilidoso.

Quando não podemos ter algo, queremos ser este algo – e vice-versa.

Esta ambiguidade entre o ser e o ter é outro mecanismo psicológico que, independentemente do nosso fascínio pela ausência do superego nos vilões, é capaz de explicar por que os admiramos. Ao longo de nossas vidas, estabelecemos identificações secundárias com pessoas que admiramos (a primária precede a formação do conceito do “Eu” e se dá na fase oral do desenvolvimento) e absorvemos características destas, já que não podemos “tê-las” na maioria das vezes (e, assumindo seus traços, suprimimos esta carência ao nos tornarmos estas pessoas). No entanto, nas narrativas ficcionais há uma diferença importante: esta identificação secundária (a primeira é com a câmera) se dá não com o personagem, mas com a situação que vive. E mais: basta que o realizador coloque um personagem em situação de fragilidade para que nos identifiquemos com sua situação e, de forma indireta, com aquele que a enfrenta.

Pensem nisso: a primeira cena de Scarface traz o (futuro) vilão completamente vulnerável. Em A Queda, Hitler não poderia estar mais fragilizado. O Coringa enfrenta o grande herói do filme, tem o rosto coberto por cicatrizes e é perseguido por bandidos e pela polícia.

Walter White tinha câncer terminal, queria deixar dinheiro para a família, enfrentou a ameaça de Krazy-8, Tuco, Gus Fringe e o perigo de ser preso.

Se Scarface gastou seus cinco minutos iniciais para levar o espectador a formar um laço de identificação secundária cinematográfica (um conceito de Metz), Breaking Bad investiu três anos. Assim, mesmo quando percebemos que Walt já não tem redenção possível e se tornou um canalha, os laços estabelecidos inicialmente nos mantêm presos ao personagem e torcendo por ele. Além disso, é fundamental que, para que isto aconteça, de tempos em tempos a série nos ofereça motivos para continuarmos acreditando em seu caráter. Lembrem-se, por exemplo, como no segundo ato de Scarface, quando estamos prestes a desistir do bandido, este se recusa a matar crianças (embora não veja problema em matar outras pessoas) e comparem isto à insistência de Walt em preservar membros de sua família. Ele pode ter envenenado uma criança, permitido que uma jovem morresse na sua frente sem tentar salvá-la e mantido Jesse preso a ele mesmo quando o rapaz tentou reconstruir sua vida, mas, poxa, ele se recusa a matar Hank e… e… e… parece amar a família.

Assim, não é absurdo que alguém goste de Walter White. Como já apontei, eu mesmo gosto do personagem – como personagem. Ainda assim, jamais me ocorreria tentar justificar suas ações e muito menos culpar suas vítimas pelo que sofreram. Somos seres pensantes e uma obra como Breaking Bad é bela justamente por permitir que analisemos nossas contradições internas e percebamos que, sim, podemos sentir fascínio por um canalha mesmo que moralmente permaneçamos íntegros e condenemos o que faz.

O problema começa quando surge a insistência de enxergá-lo como herói e de ver todas as suas ações como uma resposta razoável naquelas circunstâncias específicas – algo que muitos manifestam com a expressão “eu, no lugar dele, talvez tivesse feito a mesma coisa”.

Se este é seu caso, sugiro terapia.

Breaking Bad S05E14

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 91 comentários

(Não há piadinhas no início deste post, pois… seria desrespeitoso. Curioso e absurdo, eu sei, mas realmente sinto isso. Bom… spoilers.)

E no pedestal estão estas palavras:
“Meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis;
Vejam minhas obras, poderosos, e desesperem!”
 Nada mais resta. Em volta, só a decadência
Dessa colossal destruição, crua e sem limites
Apenas solitária areia por toda parte.
– P.B. Shelley

Nada resta a Walter White a não ser o ódio, o desejo de vingança e a solidão. Como no soneto de Shelley que dá título a este episódio, Ozymandias, o impulso de entrar para o “ramo do Império” experimentado por Heisenberg resultou na perda absoluta de tudo que seu pacato alter-ego mais amava – e, ao final deste mais recente e incrivelmente doloroso episódio de Breaking Bad, as vidas de todos que cercavam Walt estão irremediavelmente destruídas: Hank e Gomez estão apodrecendo em uma cova rasa no meio do deserto, Jesse é um amontoado de pele e órgãos massacrados, Marie tornou-se viúva, Skyler se resume a um punhado de dores e arrependimentos, Walt Jr. viu todo o seu mundo desmoronar e até mesmo a pequena Holly soluça pela mãe enquanto encontra-se nos braços do pai sociopata.

Depois de 5 anos, Vince Gilligan deixou claro que criou uma série que contava a história do colapso de uma família graças ao orgulho, ao ego descontrolado e aos ressentimentos de um homem intelectualmente brilhante, mas moralmente quebrado.

Dirigido por Rian Johnson (A Ponta de um CrimeLooper e os episódios “Fly” e “Fifty-One”) e escrito por Moira Walley-Beckett, “Ozymandias” já tem início subvertendo todas as expectativas de um público ansioso para conhecer o desfecho do tiroteio iniciado no episódio passado – e, seguindo a lógica fantástica da série, abre a narrativa com um plano-detalhe de uma jarra com água começando a ferver, num simbolismo óbvio (mas ainda assim divertido) do ponto dramático no qual o projeto se encontra. A partir daí, somos surpreendidos por algo relativamente raro em Breaking Bad: um extenso flashback que nos leva para o início da série, quando um Walt ainda inseguro liga para a esposa a fim de desculpar-se pelo atraso para chegar em casa – e é realmente tocante, considerando tudo o que sabemos ter ocorrido posteriormente, ver Jesse brincando despreocupadamente ao fundo enquanto um Walt ainda capaz de sorrir discute o nome da filha com Skyler, que encontra-se numa casa ainda intocada pelas sombras que a dominariam eventualmente.

E é então que Walt conta sua primeira mentira – a primeira de inúmeras -, dando início à cadeia de acontecimentos que resultaria na tragédia concretizada neste episódio. Assim, quando Johnson traz Walt, Jesse e o trailer desaparecendo como fantasmas, percebemos a beleza daquele plano, que traz a representação literal da destruição de tudo aquilo pela mentira que acabara de ser contada.

Da mesma maneira, a bela construção do roteiro de Walley-Beckett pode ser observada através de duas pistas importantes plantadas nesta sequência inicial: a presença das facas na cozinha dos White e a discussão sobre Holly – dois elementos essenciais no desfecho do episódio.

A partir daí, porém, “Ozymandias” se entrega à escuridão criada por Heisenberg – e a intensidade dos acontecimentos é tamanha que os créditos só são vistos na tela após 20 minutos de exibição, já que em nenhum momento antes disso o surgimento dos nomes poderia ocorrer sem atrapalhar a atmosfera da narrativa. Deixando clara a impotência de Hank diante dos adversários e colocando o espectador em sua situação através de uma câmera inteligentemente situada no mesmo nível do personagem (o que torna seus algozes ainda maiores e mais ameaçadores), a despedida do personagem de Dean Norris da série foi dramática como merecia ser: depois de ver seu parceiro Gomez morto, Hank tenta inutilmente alcançar sua arma e, a partir daí, vira uma vítima à espera da execução enquanto Walt tenta desesperadamente salvar sua vida. Sempre acreditando ser capaz de resolver qualquer problema através de seu intelecto, Walt implora, oferece suborno (outro erro grave que lhe custa caro) e finalmente, entre lágrimas, pede que Hank o ajude a salvá-lo – o que resulta numa fala comovente e repleta de dignidade que, além disso, denota a bravura de seu concunhado (e que Norris recita de maneira fantástica, incluindo uma pausa dramática que a torna ainda mais impactante):

Você é o cara mais inteligente que já conheci… e estúpido demais para entender… (pausa)… que ele já decidiu (me matar) dez minutos atrás.

Esta foi a última frase que Hank Schrader completou em sua vida. A seguinte foi interrompida por um tiro na cabeça.

Ah, Hank.

Apropriadamente enterrado na vala que Walt cavara para esconder seu dinheiro (mais um simbolismo inevitável), Hank finalmente leva o concunhado a entender, através de sua morte, a dimensão de seus atos – e Rian Johnson faz duas belas referências cinematográficas nos momentos seguintes: primeiro, ao usar o contrazoom de Hitchcock para salientar o impacto daquela morte sobre o protagonista e, em seguida, ao manter o choro deste num silêncio sufocante por alguns segundos (ecos de Michael Corleone ao final de O Poderoso Chefão 3, quando também perdeu alguém da família em função de sua vida de crimes). O descontrole emocional de Walter, diga-se de passagem, é perfeito ao despertar no espectador um profundo incômodo, já que, até então, estávamos habituados a vê-lo sempre no comando da situação ou racionalizando possíveis saídas.

A genialidade de Breaking Bad, contudo, reside na confiança dos roteiristas na trajetória psicológica do protagonista. Assim, se momentaneamente sentimos a dor de Walt, logo somos lembrados de estar diante de um sociopata, de um homem cujos parâmetros morais já se perderam há muito – e o que Walter faz a seguir é, provavelmente, o ato mais cruel de toda a série: e não me refiro ao fato de entregar Jesse aos matadores e exigir sua execução, mas sim à sua frieza abominável ao revelar para o jovem que testemunhou e permitiu a morte de Jane por overdose. Sim, ele é o protagonista, nosso anti-herói e é natural que, de certa maneira, “torçamos” por ele – mas se sua responsabilidade pela morte de Hank já não fosse o bastante para constatarmos a dimensão de sua canalhice, esta sua derradeira atitude diante do rapaz que manipulou ao longo de cinco temporadas é algo impossível de ignorar. Heisenberg não é “cool” ou uma figura digna de admiração, mas um sujeito moralmente pervertido, um psicopata egoísta e implacável. Um vilão tridimensional e capaz de sentimentos nobres pontuais, mas ainda assim um vilão – e se no episódio passado já o víramos firmar um pacto com o Diabo, desta vez a representação simbólica de sua maldade surge através de um plano divertido que o coloca sob os chifres de um animal morto.

Esta sequência, aliás, é um exemplo interessante do senso de humor atípico da série: depois de retratar a morte de um de seus personagens mais importantes e queridos, “Ozymandias” traz Walt rolando seu último barril de dinheiro solitariamente no deserto (quase invisível no plano abaixo, tamanha sua pequenez) enquanto ouvimos os versos de “Times are Getting Hard, Boys” – e, no caminho, ele passa por algo que parece ser os restos da calça que ele perdeu no episódio piloto:

Times are getting hard, boys
Money’s getting scarce
If things don’t get no better, boys
Gonna leave this place
Take my true love by the hand
Lead her thru the town
Saying good-bye to everyone
Good-bye to everyone

E ainda nem chegamos à metade do episódio.

Já discuti inúmeras vezes, ao analisar a estética de Breaking Bad, a beleza de suas composições e a atenção que os diretores da série dedicam ao uso preciso das cores. Em “Ozymandias”, isto pode ser observado, por exemplo, na conversa entre Marie e Skyler, quando uma flor roxa (morte) se coloca entre as duas enquanto a primeira, ainda sem saber que se tornou viúva há algumas horas, busca se impor sobre a irmã, orgulhando-se de sua “superioridade” moral e exigindo que Skyler complete o trabalho de Walt ao destruir o último inocente que resta naquele universo: Walt Jr. É comovente, aliás, ver o garoto tentando aplicar sua lógica simples aos fatos, buscando negá-los – e exatamente por sabermos a admiração que o garoto sente pelo pai é que os minutos seguintes se tornam tão dolorosos ao trazê-lo testemunhando um confronto físico pesadíssimo entre Walt e Skyler que finalmente o obriga a tomar uma decisão, protegendo a mãe contra aquele com o qual se preocupava há poucos dias. Aqui mais uma vez somos presenteados com um plano memorável no qual as mãos entrelaçadas do casal White disputam o controle sobre uma faca ensanguentada que, colocando-se diante de Walt Jr., representa a violência que o cercava há tanto tempo sem que ele sequer desconfiasse.

Em pouco menos de dois anos, Walter White foi de pai e marido amoroso ao papel de terror de sua própria família (algo que Johnson ressalta através do posicionamento da câmera, que transforma o protagonista em um gigante ameaçador e seus familiares em criaturas vulneráveis e pequenas). Aliás, seu choque ao perceber que agora perdeu irremediavelmente aquilo que foi a causa inicial de seu mergulho no crime (causa que foi gradualmente substituída por seu orgulho e ego) é um momento particularmente doloroso da série: se no episódio passado víramos Walt ser algemado por Hank, desta vez os resultados de suas ações são ainda piores, levando-o a um ato desesperado e irracional (algo raro no personagem) de tentar agarrar-se a um último resquício de sua unidade familiar – a pequena Holly. A partir daí, o que temos é o retrato de uma família despedaçada e do mais puro abuso doméstico, quando uma Skyler desesperada vê o marido sequestrar a filha e, com a roupa ainda exibindo manchas de sangue, ajoelha impotente no meio da rua, expondo para o mundo de uma vez por todas a realidade brutal de violência, dor e crueldade que antes mantinha oculta atrás das portas de seu lar aparentemente feliz.

E, do ponto de vista dramático, é fabuloso constatar como Breaking Bad ainda alcança peso ao levar o espectador a sentir um drama tão comum em tantos lares, levando-nos a perceber como os atos de abuso podem começar de forma quase imperceptível até culminarem numa explosão de violência capaz de surpreender até mesmo os próprios envolvidos. A incapacidade de Skyler de responder por que deixou que as coisas chegassem àquele ponto, aliás, reflete algo tristemente comum em inúmeros lares – e o simples fato de a série nos conduzir a esta reflexão é sinal de sua força narrativa.

 Ao final de “Ozymandias”, tudo que resta a  Walter White são algumas bolsas com roupas e um barril de dinheiro. Sim, ele faz algo relativamente nobre (se é que podemos usar esta palavra ao falarmos de Walt) ao ligar para casa e assumir a culpa por tudo que fez, inocentando Skyler mesmo que isso lhe custe dizer que matou Hank (é claro que ele sabia que a polícia estava ouvindo), mas é um ato pequeno demais e que vem tarde demais.

Dois anos antes, seus familiares sentiram dor ao descobrir que Walter tinha câncer possivelmente terminal. Graças às suas atitudes desde então, hoje aquelas mesmas pessoas certamente desejam que ele houvesse morrido logo, devorado pela doença. O legado de Walt é apenas dor.

Breaking Bad S05E13

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 41 comentários

(Better Call Spoilers.)

Espero que Michelle MacLaren, uma das melhores diretoras de Breaking Bad (se não a melhor), estreie logo no Cinema. A construção da tensão nos minutos finais deste episódio comprova não só a precisão da linguagem audiovisual da realizadora, mas também a principal virtude da série como um todo, que demonstra compreender algo que boa parte dos filmes hoje ignora: o fato de que só nos importaremos realmente com uma sequência de ação e seus resultados se nos importarmos com os personagens envolvidos. Quando todos aqueles homens sacam suas armas e as apontam na direção uns dos outros, o temor que sentimos é fruto de sabermos que os resultados serão desastrosos de uma maneira ou de outra: ou figuras que amamos serão feridas/mortas ou nosso protagonista irá preso.

Por um lado, queremos aquele confronto. Queremos experimentar a tensão, a catarse de um tiroteio intenso. Por outro, queremos que tudo… dê “certo” – seja lá o que isso signifique nestas circunstâncias.

Mas me adianto como de hábito – e só posso culpar Breaking Bad por me inspirar um entusiasmo tamanho a ponto de me fazer ignorar regras básicas de estrutura em um texto.

Reiterando a natureza bruta e perigosa de Jack e seu comparsa neonazista em um prólogo no qual dispensam máscaras ao avaliar o cristal fabricado por Todd, este “To’hajiilee” investiu alguns interessantes minutos na interação curiosa entre o rapaz e Lydia, a sucessora de Walter White e Gustavo Fring na produção da droga. Iluminando o rosto do rapaz de maneira a ressaltar sua aparência de garoto, o que contrasta com sua natureza assassina de forma a torná-lo ainda mais assustador, esta cena inicial, como de hábito, demonstrou o cuidado da série na escolha de suas cores: Jack de vermelho (perigo), contrastando com o azul impessoal de Lydia, e Todd substituindo o amarelo de sua roupa de proteção por uma camisa com os nada benevolentes preto e vermelho (e é curioso como estes tons remetem diretamente às de Jesse ao longo da série). Não à toa, a cena inclui uma referência quase metalinguística ao trazer Lydia segurando uma xícara que traz os dizeres “Estas cores” – enquanto claramente usa o interesse de Todd como arma para estimulá-lo a melhorar a qualidade do cristal.

A partir daí, este décimo-terceiro episódio volta a mergulhar seus personagens novamente nas sombras – uma estratégia visual que, mesmo recorrente ao longo da série, se tornou ainda mais marcante nesta etapa final ao refletir o estado de espírito daquelas pessoas. Assim, mesmo que constantemente enquadre Hank em ângulos baixos que o transformam em um gigante determinado a destruir o concunhado, MacLaren e o diretor de fotografia Michael Slovis (que finalmente retorna à função depois de dois ou três episódios afastado) não deixam de ressaltar a ambiguidade de suas ações ao mantê-lo semi-envolvido por sombras, já que, além de demonstrar descaso para com o futuro de Jesse, o policial não hesita em recorrer a mentiras e intimidações para conseguir provar a culpa de Walt.

Comparem, porém, as sombras sobre Hank com aquelas que envolvem Jack e percebam como Slovis cria gradações de escuridão – algo que, por si só, é fascinante o bastante para render-lhe todos os prêmios do ano por seu trabalho em Breaking Bad. Comparado a Hank, Jack é uma figura ainda mais abominável e, assim, surge como um ser ameaçador, quase demoníaco, com sua camisa vermelha e o rosto quase todo mergulhado no negro absoluto que o abraça – um símbolo de maldade reforçado pela presença de Todd ao fundo, nos quadros que trazem Walt, quando o rapaz surge apropriadamente banhado em vermelho. E é aí que Walt fará aquilo que discuti ao escrever sobre o episódio 11 e que marca a perda de seu último traço de humanidade: aperta a mão do Diabo e encomenda a morte de Jesse Pinkman.

 Não é de se espantar, portanto, que a cena a seguir o traga parado do lado de fora da casa de Andrea, mãe de Brock, enquanto um crucifixo se coloca ao lado da entrada, como barrando-o momentaneamente – um plano carregado de simbolismo e cuja sutileza apenas comprova a confiança de Breaking Bad em sua própria lógica visual. (E reparem também como um foco de luz estrategicamente apontado para o sofá ressalta as cores-chave de Jesse, amarelo e vermelho, indicando sua influência sobre a ex-namorada, mas também o roxo – morte – representado pela presença de Heinsenberg em sua vida.)

No entanto, um dos elementos mais interessantes do episódio é perceber justamente como, após ultrapassar o limite final da vilania (pedir a morte de Jesse), “Heisenberg” retorna ao modo Walter White de forma absoluta: sua tentativa de atrair Pinkman é frustrada pela interceptação de Hank, que, a partir daí, desenvolve uma estratégia que lança Walt em modo de pânico absoluto – e até seu modo de correr, trôpego e desajeitado, remete ao personagem enfraquecido que conhecemos no início da série. Pressionado por todos os lados, Walt nunca esteve tão encurralado ao longo de Breaking Bad – uma situação que MacLaren retrata repetidamente ao trazê-lo observando o mundo pelas janelas do lava-jato com persianas que formam grades, ao mostrá-lo encolhido atrás de uma rocha e ao enfocá-lo num quadro aberto que o deixa pequeno e perdido ao perceber que foi enganado por Hank. Com isso, ao fechar a sequência com um lento travelling que se aproxima do rosto cansado, tenso e (surpresa) com lágrimas do protagonista, somos capazes de ler em sua expressão, estupefatos, algo que nunca víramos em Walter White: resignação. Ele perdeu a batalha e sabe disso.

A partir daí, o episódio, que já vinha repleto de planos fortes, presenteia o espectador com uma imagem icônica atrás da outra: da submissão de Walter diante de Hank, Gomez e Jesse até a expressão incrédula de alívio de Pinkman, passando, é claro, por aquele que representa o momento-chave de toda a série: as algemas se fechando nos pulsos de Walt enquanto Hank recita seus direitos.

Se o episódio houvesse terminado aí, já teria conseguido espaço entre os melhores da série (ao lado do décimo-primeiro e de outros como aquele com o trem, com a morte de Mike e, claro, “Half-Measures” – ainda meu favorito). No entanto, o roteirista George Mastras (justamente o autor de “Dead Freight”) vai um passo adiante e constrói um confronto que, valorizado pela direção certeira de MacLaren, cria uma atmosfera de tensão insuportável – e quando vi Hank conversar com Marie pelo telefone, confesso que esperei vê-lo ser subitamente atingido por uma bala. No entanto, se isto representaria uma surpresa, Michelle MacLaren prova ter ouvido os conselhos de Hitchcock e, em vez disso, opta pelo suspense, criando um confronto que parece durar horas até que o primeiro tiro seja disparado, empregando trocas de olhares e cortes que poderiam ter saído de um western de Sergio Leone.

O que me traz de volta ao desejo de ver logo um filme dirigido por esta cineasta de talento inegável.

Breaking Bad S05E11

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 43 comentários

(Se reclamar de spoilers, te mandarei para Belize.)

O décimo-primeiro episódio desta quinta temporada de Breaking Bad foi um dos melhores de toda a série. Simples assim.

Em retrospecto, é impressionante perceber como Michael Slovis (diretor de fotografia habitual da obra e que aqui assinou a direção completa) e a roteirista Gennifer Hutchison conseguiram criar uma narrativa coesa mesmo saltando de um extremo a outro do espectro em termos de atmosfera e sentimento: em um instante, tínhamos Walt maniqueísta e frio; em outro, soando amedrontado; aqui, choramos com Jesse; ali, nos surpreendemos com sua fúria. Em comum, apenas o fato de todos agora estarem semi-mergulhados em sombras – enquanto Walter, claro, se entrega a elas completamente (e não é coincidência o fato de descrever seu câncer com a frase “Os médicos acharam uma sombra em meu pulmão”. Sim, apenas no pulmão – ao menos enquanto não inventarem um aparelho de tomografia capaz de enxergar o caráter e a alma de alguém.).

Investindo num prólogo que, trazendo Todd narrando o assalto ao trem, se encarrega de ilustrar como as ações de Heisenberg já se tornaram lendárias (ao mesmo tempo em que, num estilo próprio de Breaking Bad, comenta a maneira banal com que estes personagens enxergam a violência ao trazer um matador limpando casualmente o sangue do sapato e atirando-o na privada), este Confessions transporta o espectador diretamente ao episódio piloto ao retratar Walt novamente em frente a uma câmera enquanto confessa seus pecados. Porém, se suas confissões originais indicavam seus remorsos verdadeiros diante de suas ações criminosas, a trajetória assustadora do protagonista fica evidente aqui quando percebemos que, desta vez, ele mente com convicção não para se redimir, mas para ameaçar o concunhado.

Aliás, comprovando a inteligência da fotografia e da montagem da série, a cena em que Hank e Marie assistem ao vídeo gravado por Walter mostrou-se extremamente hábil ao alcançar um resultado quase impossível: ao mesmo tempo em que víamos o sujeito se confessando quase entre lágrimas no monitor, o que poderia fazê-lo soar vulnerável e frágil, a escolha perfeita de enquadramentos, mostrando Hank e Marie parados em pé diante da tevê, numa pose desprotegida e assustada, ajudou a estabelecer que o controle estava mesmo nas mãos do pequeno homem que víamos na tevê da sala do casal – e, da mesma maneira, a decisão de Slovis de incluir planos-detalhe da boca e dos olhos de Walt salientou a ameaça representada pelo sujeito, tornando-o perigoso mesmo ao chorar (e os olhos incrédulos de Hank, contrapostos ao do concunhado, completaram o efeito).

E se menciono a trajetória de Walter White, a maior prova de que agora estamos lidando mais com Heisenberg do que com o pacato professor de química do início da série pode ser encontrada no fato de que, neste episódio, tememos realmente pela vida de Jesse – e durante toda a cena no meio do deserto, é palpável a possibilidade de que o rapaz não saia dali vivo. Ora, se já somos capazes de acreditar que “Mr. White” mataria seu discípulo/filho sentimental, é porque não há mais redenção possível para o anti-herói. (Aliás, um comentário à parte: Saul Goodman é divertido e soa como um advogado picareta, mas se avaliarmos apenas suas ações ao longo da série, não restarão dúvidas de que é um profissional extremamente competente em seu… nicho.)

A passagem no deserto, vale dizer, acabou representando um dos pontos emocionais mais intensos e dramáticos de toda a história de Breaking Bad: depois de encarar o ex-professor como uma espécie de pai ao longo do tempo, Jesse aqui olha para Walter com expressão de estudo, desconfiada, quase incrédula. Já não acredita mais nas mentiras do velho parceiro, claro, mas há um lado de sua personalidade ainda tão jovem e imaturo que gostaria de acreditar e que grita por algum tipo de gesto de amor, amizade e/ou respeito. Assim, quando finalmente desaba, Jesse atira no rosto de Walter não recriminações pelos crimes e traições cometidos, mas seu ressentimento por ser tratado como uma criança manipulável, como uma mera ferramenta – e o abraço que o protagonista lhe dá – e que é devolvido com entrega absoluta do amigo/pupilo que deseja aquele carinho – representa o clímax emocional de cinco temporadas, resultado em lágrimas não só por parte de Jesse, mas também do espectador (ao menos, deste aqui).

E é outra comprovação das mudanças de Walt o fato de não termos certeza da legitimidade sentimental de seu abraço. Ele compadeceu-se diante da fragilidade infantil de Jesse ou percebeu que aquele abraço era o que precisava para convencê-lo a sumir? Afinal, considerando que mais cedo atirara uma notícia chocante sobre Walter Jr. apenas para manipulá-lo a permanecer ao seu lado, não seria difícil imaginar que abraçasse esta estratégia novamente.

(Como se não bastasse, ao trazer uma tarântula caminhando pela areia no início da cena, o episódio fez referência direta àquele outro que culminou na morte do garoto depois do assalto ao trem e que tanto marcou Jesse.)

Jesse, diga-se de passagem, é o centro dramático inquestionável de Confessions, a começar por seu confronto com Hank já no início do episódio, quando o agente do DEA surge com os olhos na sombra (o retrato da ameaça) diante de um Pinkman abatido, mas resoluto. A partir daí, vemos o rapaz oscilar entre a decepção, o apelo pelo respeito de Walt, a postura infantilizada e frágil no escritório de Saul e, finalmente, a surpresa, o choque e o ódio ao perceber a extensão das ações de Heisenberg, quando, então, entra em algo que poderíamos descrever facilmente como “modo rage” – e não ficaria espantado caso a performance de Aaron Paul aqui resultasse em mais prêmios no próximo ano.

Infelizmente, contudo, não creio que a raiva de Jesse possa alcançar muito diante da monstruosidade, da vaidade e do instinto de autopreservação de Walter White/Heisenberg. E como indica o impulso de Walt ao imediatamente resgatar a arma que guardara (o que comprova seu hábito de preparar-se para imprevistos futuros), a vida de Jesse não será exatamente sua prioridade caso se sinta realmente ameaçado pelo jovem e atormentado rapaz.

Em abril de 2012, ao assistir às primeiras temporadas, tuitei: “Um final eficiente para Breaking Bad seria se Walt matasse Jesse. Seria a perda completa de sua humanidade depois de tanto salvar (o parceiro)”. Temo muito ter acertado.

(P.S.: Minha admiração por Breaking Bad aumentou ainda mais ao constatar que os realizadores não se renderam ao impulso óbvio que a maioria absoluta dos roteiristas/diretores abraçaria: o de incluir flashbacks que revelassem o raciocínio de Jesse enquanto juntava as peças. Esta confiança da série nos espectadores é algo raro na televisão, que sempre presume que seus espectadores estão distraídos e precisam de exposição constante.)

Breaking Bad S05E10

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 14 comentários

(If you don’t want spoilers, you better tread lightly.)

Era inevitável que, depois dos acontecimentos do episódio anterior, Breaking Bad gastasse algum tempo para reposicionar suas peças. Estabelecido o confronto que moverá o arco derradeiro da série, este décimo episódio investiu sua narrativa na importante função de estabelecer as estratégias que Walter White e Hank Schrader irão adotar de agora em diante – e não é à toa que a diretora Michelle MacLaren, uma das melhores (se não a melhor) cineastas de Breaking Bad (e não uso o termo “cineasta” à toa; adoraria vê-la investir em Cinema depois de concluir seu trabalho aqui), retorna aos momentos seguintes do confronto entre os dois homens adotando uma linguagem que, convenhamos, não poderia remeter mais diretamente a um duelo clássico de western.

No entanto, ainda que Walt e Hank tenham sido os primeiros a se reposicionar diante da nova situação, este Buried tornou-se, de certa maneira, um episódio centrado em Skyler: obviamente encarada por Hank como o elo fraco que poderia fornecer-lhe as evidências necessárias para provar a culpa do concunhado, a esposa do protagonista ocupou o núcleo dramático da narrativa em ao menos dois momentos espetacularmente fortes. Pressionada por Hank para depor sem o acompanhamento de um advogado, Skyler foi fria o bastante – ainda que mostrando-se claramente perturbada – para ler a ansiedade do cunhado como aquilo que realmente representava: sua busca por provas. Aliás, neste sentido ficaram claras as duas grandes fragilidades do agente do DEA: sua impossibilidade de usar os recursos do departamento para pedir ajuda em um primeiro momento, já que sabe que será recriminado por não ter reconhecido a culpa de alguém tão próximo, e seu carinho pela família, já que em circunstâncias normais certamente não hesitaria em ameaçar a esposa de um bandido como Heisenberg para convencê-la a testemunhar. Assim, percebendo justamente esta fraqueza, Skyler – numa performance impecável de Anna Gunn – exibiu simultaneamente desespero e inteligência ao repetir a frase “Are you arresting me?” para livrar-se da pressão de Hank e testar os limites do cunhado.

Da mesma forma, sua dura conversa com a irmã, na qual, sem admitir verbalmente sua cumplicidade com os crimes de Walter, deixou claro que sabia das atividades do marido, resultou em um raríssimo momento de força por parte de Marie – e a expressão desta última ao exigir que Hank capturasse Walt indicou, à sua própria maneira, um desejo de ver a irmã pagando não só pelas mentiras, mas pelo ar de superioridade que exibiu ao longo de toda a série.

Enquanto isso, se Hank encontra-se fragilizado por seus laços familiares, o mesmo pode ser dito acerca de Walt: se não hesitara em promover o massacre de uma dezena de testemunhas em potencial para se manter livre, o sujeito imediatamente rechaça, por fidelidade à família, a sugestão feita por Saul (apropriadamente vestido de roxo em seu papel de promotor temporário da morte) para que enviem Hank para o mesmo destino de Mike Ehrmantraut – numa construção verbal que já coloca o roteirista Thomas Schnauz na galeria de autores de frases célebres da série: “É uma opção que funcionou muito bem para você no passado recente”. Como se não bastasse, a situação de Walt, que o obriga a estratégias defensivas e o coloca acuado, é evocada com propriedade por um rápido momento no qual o vemos posicionado claustrofobicamente entre seus barris de dinheiro enquanto a luz do freio projeta um vermelho de alerta de perigo e destruição sobre seu corpo (ecos da cena inicial de Os Bons Companheiros, talvez?).

Refletindo a atmosfera que a série tomou e também o estado de espírito dos personagens, Buried – como é fácil notar pelos quadros reproduzidos neste post – optou, em seus aspectos fotográficos, por mergulhar todos em sombras: uma decisão não muito sutil, mas eficaz. Assim, a solidão de Hank em seu escritório (ressaltada também pela composição mais aberta do quadro), a perigosa depressão de Jesse e o lar dos White são retratados visualmente com competência – e gosto particularmente deste último instante, que não só exibe a realidade sombria do casal, mas também aponta a distância entre Walt e Skyler e até mesmo o receio que esta demonstra diante da possibilidade de que o marido suspeite de uma traição.

 Mas se este episódio foi, de certa forma, sobre Skyler, o desfecho aponta a possibilidade de que os próximos venham a se tornar sobre Jesse – possivelmente uma das maiores vítimas de Walter White ao longo de Breaking Bad. Se lá no início da série o rapaz acusara o “mentor” de tê-lo levado a situações de perigo que jamais enfrentara antes de conhecê-lo, isto representou apenas o início de uma parceria que o fez sofrer por um romance perdido de forma trágica, pelo envenenamento de Brock e, claro, pela morte daquele que havia se tornado uma espécie de figura paterna, Mike (Walt, claro, é outro que Jesse, tão carente e solitário, pareceu adotar como uma espécie de pai).

E se há um momento deste episódio que merece figurar entre os melhores da série é justamente aquele que, no início da narrativa, aponta Jesse Pinkman como a quase criança que realmente é, quando, num estado quase catatônico, surge deitado em um brinquedo em um playground, girando sem rumo.

Instantes como este, que simbolizam o mundo em segundos, é que transformam Breaking Bad em uma série de natureza incrivelmente cinematográfica.

Breaking Bad S05E09

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 18 comentários

(I AM NOT IN SPOILERS, SKYLER, I AM THE SPOILERS!)

Em primeiro lugar, vamos tirar o óbvio do meio do caminho: tudo o que detestei em relação ao final do último episódio era real, infelizmente. Eu havia comentado que as mudanças de Walter soavam drásticas e que não era plausível que ele, tão apegado ao poder e à satisfação de ser Heisenberg, fosse abrir mão de tudo de repente. Comentei, também, que mesmo que ele estivesse mentindo, o que era possível, menos aceitável era que a série também mentisse ao mudar seu esquema de cores e de fotografia na infame cena à beira da piscina. E, para piorar, havia o tropeço do livro deixado para que Hank convenientemente matasse a charada. Comentei, ainda, que achava lamentável que Vince Gilligan julgasse necessário fazer com que Walter retornasse ao modo Mr. Holland para que então lamentássemos o momento em que fosse desmascarado justo quando tentava se redimir.

E mantenho todas estas observações. Acredito que Breaking Bad teria sido mais coesa como série se mantivesse o anti-herói em sua jornada estabelecida ao longo de cinco temporadas e que nos fizesse lamentar sua trajetória rumo à queda final, não o fato de cair ao finalmente tentar se erguer.

Mas, como crítico, aprendi que há um momento em que você não pode mais escrever sobre o que gostaria de ver e sim sobre o que viu.

Portanto, aceitando os problemas (que, sim, me doem) deste novo e absurdo rumo tomado por Gilligan, avaliemos como Breaking Bad lidou com eles.

A resposta é: de forma eficiente.

Embora tenha alterado a jornada de Walter White, a série respeitou o mais importante: a essência do personagem. Que há muito se revelou tóxica.

Mas me adianto.

Iniciando em mais um flashforward que já indica que o futuro de Walter é sombrio, este episódio escrito por Peter Gould e dirigido pelo próprio Bryan Cranston tranquiliza os fãs já em seus primeiros minutos ao demonstrar que as marcas estilísticas registradas da série se manterão intocáveis nesta etapa final, começando já pela câmera que assume o ponto de vista de algum objeto inesperado.

A partir daí, o que temos é a insinuação de um mundo quase pós-apocalíptico no qual o design de produção (e até o traço de fumaça no céu, reminiscente do desastre aéreo da segunda temporada) se encarrega de demonstrar para o espectador o grau da ruína que aguarda Walter White, quando vemos a casa que ocupou com sua família por tantos anos agora cercada por grades, cerrada por tábuas, pichada e com a piscina agora servindo de pista de treinamento para skatistas. (E é curioso perceber como a palavra “Heisenberg”, pintada na sala destruída, expõe de forma humilhante o segredo que Walter lutou tanto para preservar – e a cor amarela, remetendo aos trajes de Jesse no início da série e que o marcavam como perdedor drogado, é uma escolha simbólica perfeita para o nome, remetendo também aos trajes que a dupla usava ao fabricar cristal).

Estabelecido o futuro do protagonista, porém, o episódio retorna ao tempo presente, retomando os acontecimentos exatamente do ponto onde os deixáramos – e aqui as decisões de Cranston como diretor revelam seu potencial para a função, quando, ao lado do diretor de fotografia Michael Slovis, adota uma profundidade de campo reduzidíssima para isolar Hank de Marie, salientando sua confusão psicológica e emocional, e empregando lentes grandes angulares para distorcê-lo e ao seu mundo, levando o espectador a sentir a angústia do personagem de maneira expressiva e admirável.

E se uso a palavra “expressiva”, é com propriedade, já que, ao longo de suas cinco temporadas, Breaking Bad nunca demonstrou medo de adotar uma abordagem estética que, em momentos-chave, flertou descaradamente com influências expressionistas – e aqui, quando vemos Walter de volta ao seu quarto agora destruído por suas ações, não é surpresa que, ao ver-se no espelho, seu reflexo o confronte como aquilo que realmente é: um monstro (enquanto, em outro instante igualmente inspirado, vemos o sujeito semi-mergulhado em sombras que refletem sua natureza ambígua não só através de sua metade oculta pela escuridão, mas também – e de novo – através de seu reflexo).

E se lamentei a mudança brusca experimentada por Walter desde o final do último episódio, ao menos é preciso admirar a coerência dos figurinos, que, reconheçamos, sempre representaram outro ponto forte de Breaking Bad (e sugiro que leiam meus posts iniciais sobre a série caso não saibam do que estou falando). Assim, é notável que, ao tentar redimir-se e voltar a ser o marido que Skyler deseja que ele seja (embora seja claro um leve estremecimento no casal), Walter passe a usar roupas que não apenas reflitam as da esposa, mas que também surjam drenadas de qualquer tom mais forte, já que está justamente tentando deixar para trás a intensidade de Heisenberg. Da mesma maneira, é curioso perceber como ele tenta aplicar suas estratégias e sua natureza dominadora à lavadora de carros em uma conversa sobre posicionamento de produtos que, de tão prosaica, beira o patético diante do que o sujeito já viveu.

E é esta tentativa constrangedora de se manter no controle que já revela que, fachadas à parte, Walter White é um homem profundamente manipulador e dono de uma natureza implacável. É assustador, por exemplo, perceber como ele mente sem hesitação para Jesse, que, a maior vítima das ações de Heisenberg, encontra-se numa espiral auto-destrutiva em função da culpa de tudo que fez e testemunhou ao longo das cinco temporadas (e embora apareça relativamente pouco, Aaron Paul mostra-se tocante em seu sofrimento e em sua aparente incapacidade de resistir à influência do “Mr. White”, forçando-se a acreditar em suas mentiras mesmo quando estas são extremamente óbvias).

No entanto, é mesmo no confronto entre Walter e Hank que fecha o episódio (e fico feliz ao perceber que a série não cedeu à tentação de arrastar este embate) que o protagonista se expõe completamente: pressionado pelo concunhado, Walt imediatamente se entrega à manipulação, saltando de uma estratégia a outra à medida que as vê destruídas pela barreira representada pela raiva de Hank. Seu primeiro impulso, claro, é apelar para os laços familiares, usando Skyler e os filhos (e mesmo Marie) como chantagem, sugerindo que todos seriam destruídos pelas revelações (quando, de fato, Walter se importa com uma única pessoa: ele mesmo). Percebendo que aquela linha de argumentação não surtirá efeito, ele logo parte para o segundo apelo emocional, revelando o retorno de seu câncer e apontando que provavelmente não estará vivo para ir para a cadeia.

Ao longo desta cena, diga-se de passagem, é lindo reparar na oscilação da postura de Bryan Cranston entre cada estratégia e perceber a raiva e a mágoa presentes nos olhos de Hank (e sua barba por fazer ressalta seu desarranjo emocional, obviamente).

Porém, ao perceber que seus laços pessoais com Hank não representarão a saída fácil que buscou, Walt faz o esperado: aciona seu “modo Heisenberg” e, para espanto do parente, que jamais vira aquele seu lado, parte para a ameaça direta num daqueles momentos que, ao lado de “I am the one who knocks!” e “Say my name!”, o definem como um dos personagens mais fascinantes da atualidade: ao ouvir de Hank, num fantástico sussurro espantado de Dean Norris, a constatação de que este “não o conhece” e “não tem nem ideia de com quem está falando naquele momento”, Walter fecha a expressão, carregando-a de sombra e intimidação (mas ainda assim – e aí vem o gênio de Cranston – demonstrando que está hesitando ao dizer aquilo para alguém que ama), e dispara:

“Se você não sabe quem eu sou, então, talvez, o melhor caminho seja ter cautela”.

E, a partir daí, não resta ao episódio outra alternativa a não ser a de se posicionar à distância daquelas irredutíveis personalidades (ao contrário do que fizera até então, quando investira em primeiros planos), e, de um ângulo baixo, observar a postura trágica de confronto inevitável entre duas forças determinadas a manter suas posições.

Update: Graças à lembrança feita por meu amigo Hélio Flores (que, ao lado do Bruno Carvalho, foi quem me levou a ver Breaking Bad), aponto aqui outro elemento que, claro, me causou arrepios de fã neste episódio: logo no início (de tom angustiante, vale lembrar), Walt vê uma antiga vizinha que, assustada ao ver Heisenberg diante de si, derruba o saco de compras na calçada. As frutas que rolam pelo pavimento denunciam o que provavelmente aguarda o protagonista – como qualquer fã de O Poderoso Chefão é capaz de dizer.

Dexter S08E01

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 10 comentários

(Evitarei spoilers.)

Embora Dexter tenha apenas decepcionado desde a quinta temporada (justamente depois de atingir seu ápice na quarta), não resisti e acabei conferindo a estreia deste oitavo ano. E pude comprovar que não melhorou muito: diálogos excessivamente expositivos (a cena em que Angel, Quinn, Vince e Dexter falam sobre Debra chega a doer nos ouvidos), transformações implausíveis vividas pelos personagens (Debra) e, claro, a introdução do milésimo serial killer de Miami são apenas alguns dos problemas mais óbvios da série. Por outro lado, há uma certa justificativa para a presença da figura vivida por Charlotte Rampling e que, bem utilizada, pode servir como a ferramenta que os roteiristas precisavam para conduzir a história do protagonista a um fim aceitável – e é claro que eles provavelmente a jogarão fora.

Para piorar, a abordagem visual do episódio competiu com a obviedade do roteiro. A instabilidade emocional de Dexter, por exemplo, surgiu através de planos holandeses (inclinados) repetidos:

E do ponto de vista do design de produção, a recorrência do vermelho em associação a Dexter (ou em ambientes no qual ele se encontra) tampouco buscou a sutileza, começando já no primeiro plano do episódio, que traz pai e filho soltando uma pipa desta cor:

E não é necessário ser um gênio para entender o propósito dos realizadores – que no mínimo merecem créditos por demonstrarem ter pensado um pouco no que faziam, mesmo que tenham optado sempre pelo clichê.

Não tenho esperanças de que o desfecho de série seja digno das belas temporadas iniciais.