Séries de tevê

Arrested Development e a Linguagem Audiovisual nos Tempos da Internet

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões, Séries de tevê | 2 comentários

(O texto abaixo não traz spoilers importantes da quarta temporada de Arrested Development.)

Em meu curso de Forma e Estilo Cinematográficos, discuto como a variação na mídia acaba levando a um ajuste da linguagem das obras. Durante a década de 70, por exemplo, a proliferação de multiplexes nos Estados Unidos levou a uma diminuição inevitável no tamanho das telas, o que, por sua vez, obrigou os cineastas a investirem menos em planos gerais, mais abertos, e a apostarem em quadros mais fechados – o que, consequentemente, levou a uma maior rapidez na montagem, posto que planos mais abertos exigem mais tempo de tela. Assim, quando avaliamos a duração média dos planos no Cinema, esta sofre uma queda brusca a partir da década de 70 (a linguagem televisiva também colaborou para isto).

Este é apenas um dos inúmeros exemplos que podem ser encontrados ao longo da História da 7a. Arte (a chegada do som e a mudança do frames de 1.33:1 para 1.17:1 seria outra, bem como a popularização do VHS a partir da década de 80 e a necessidade dos diretores de se protegerem contra o Pan&Scan, mas creio que já entenderam o que quero dizer) – e o fato de tantas pessoas passarem a consumir o audiovisual através da Internet certamente representa o mais recente.

Em primeiro lugar, há o fato de que muitos agora assistem a filmes e séries em tablets e celulares, o que, claro, eventualmente começará a obrigar os realizadores a repensarem mais uma vez a lógica visual de seus trabalhos, mas o mais importante a se considerar é que esta é uma forma de consumir Arte que inevitavelmente leva a uma fragmentação da experiência. Vendo um filme ou série no computador, por exemplo, o espectador constantemente se vê compelido a pausar a narrativa para conferir emails, verificar algum status no Facebook ou twittar uma impressão momentânea – e embora isto arruíne a imersão na experiência, é também algo que não podemos ignorar. Com isso, alguns roteiristas passaram a desenvolver experiências narrativas multiplataforma: você assiste a um episódio de sua série na TV enquanto, no iPad, um complemento da projeção pode ser exibido em sincronia, oferecendo informações de bastidores ou pontos de vista diferentes sobre a história.

Ou podemos ter algo como a quarta temporada de Arrested Development, que não apenas foi viabilizada pelo investimento do Netflix, mas que resolveu abraçar completamente esta forma de exibição, incluindo-a de maneira direta e indireta em sua própria narrativa.

Para começo de conversa, o criador da série, Mitchell Hurwitz, sempre investiu na metalinguagem como um componente fundamental de suas histórias: nas três temporadas originais, por exemplo, o narrador Ron Howard se irritava quando alguém usava o personagem Opie (que ele viveu em The Andy Griffith Show) como um insulto e tampouco continha o desprezo pelo narrador-concorrente utilizado em uma versão da história dos Bluth dirigida por (vejam só) Carl Weathers. Da mesma maneira, num episódio no qual Tobias (David Cross) comentava sobre os cuidadosos detalhes de uma produção para a tevê, um armário da cozinha era aberto para revelar apenas um pacote – e, em outro instante, a própria câmera se escondia quando um juiz ordenava que os repórteres deixassem seu tribunal. No entanto, nesta quarta temporada, Hurwitz abraçou de vez o próprio processo de contar a história daqueles personagens.

E é isto que nos traz ao início deste post: o que o criador de Arrested Development fez na quarta temporada só se revelou possível graças ao fato de tê-la produzido para consumo online.

Adotando uma estrutura de quebra-cabeças diferente daquela vista nas temporadas originais, Hurwitz desta vez compõe uma história que, ao longo de 15 episódios, é contada a partir do ponto de vista de cada integrante da família Bluth, levando até mesmo a apresentações personalizadas nos créditos iniciais. Sim, Michael (Jason Bateman) ainda é o protagonista, mas apenas em função de nosso costume com sua posição na hierarquia da série, já que há alguns episódios nos quais o sujeito pouco aparece. Assim, em vez de nos oferecer uma figura única com a qual pudéssemos nos identificar, a temporada salta de Bluth em Bluth, praticamente adotando as personalidades de cada uma daquelas pessoas ao trazê-las para o centro temporário da narrativa: e se o episódio de GOB é mergulhado em esquemas tolos de vingança, aquele estrelado por Buster se transforma quase numa versão cômica de Psicose, ao passo que o de Lindsay se apresenta como um mergulho quase surreal em um universo que serve de cruzamento entre o ativismo social equivocado e a visão alienada de uma mulher incapaz de enxergar o mundo além do próprio umbigo. Já George-Michael surge numa pequena paródia de A Rede Social, enquanto seu pai atravessa a temporada buscando transformar a história dos Bluth em um filme a ser dirigido por ninguém menos que Ron Howard, que então ganha a tarefa de narrar suas próprias ações como se estivesse falando de uma terceira pessoa.

“Não vejo isso como um filme”, chega a apontar Maeby (Alia Shawket), completando a seguir: “Talvez uma série de tevê”.

Uma série que se reconhece como uma produção audiovisual e que – mais importante – encontra-se ciente do fato de ser uma continuação tardia de um esforço previamente cancelado. Desta forma, quando cenas das temporadas originais são exibidas, Hurwitz cobre a tela com uma marca d’água que sugere que aqueles flashbacks foram capturados ilegalmente através de um software cuja licença sequer foi comprada pelos produtores, numa das piadas recorrentes mais divertidas da quarta temporada. Além disso, é interessante perceber como a própria interface do Netflix é absorvida pela narrativa, sendo mais aparente na linha do tempo que percorre a série sempre que voltamos na cronologia da história ou no momento em que uma sessão de sexo entre dois personagens é exibida em fast-forward. (Já em outro instante, o narrador esclarece uma dúvida através do voice over para evitar que o espectador “volte demais e acabe indo parar no episódio de Maeby”.)

Permitindo que descubramos aos poucos o que realmente aconteceu em cenas vistas vários episódios antes (a identidade da pessoa que se encontra com GOB no piloto só é revelada no décimo-primeiro capítulo, “A New Attitude” – cujo título, por sinal, acaba complementando uma observação feita de passagem por P-Hound no primeiro episódio ao ouvir Michael citar a revista Altitude), Arrested Devolopment constrói uma narrativa complexa que pode ser descoberta gradualmente pelo espectador ou mesmo numa sequência intensa de binge-watching (algo que o Netflix também ajudou a popularizar com a série “House of Cards”).

O mais curioso, porém, é constatar a liberdade que uma produção para a Internet oferece aos realizadores: se sitcoms normalmente ficam presas à duração de 22 minutos por episódio, aqui Mitchell Hurwitz teve a opção de montar cada episódio de acordo com aquilo que julgou necessário, variando de 28 a 38 minutos (e dez minutos são uma eternidade, acreditem). O resultado é que algumas piadas, por exemplo, podem ser desenvolvidas com a calma de um realizador que sabe que a repetição irá torná-las mais eficazes – e o momento em que Lucille (Jessica Walter) obriga Buster (Tony Hale) a inspirar a fumaça de seu cigarro é doloroso e hilário justamente por ocupar um longo tempo.

Ciente de que a facilidade de saltar de um episódio a outro na plataforma do Netflix permitirá ao espectador a avaliação instantânea da tapeçaria de sua narrativa, Arrested Development ainda encanta ao investir em detalhes que muitas vezes só chamarão a atenção quando vistos pela segunda vez – e é interessante, por exemplo, perceber como Michael, ao usar a esteira do aeroporto em Phoenix, passa por um mural que revela alguns dos principais momentos das três temporadas originais, encerrando num “Bem-vindo a Phoenix” que deveria servir como continuação lógica de sua jornada, já que o personagem vivia insistindo em seu sonho de se mudar para a cidade.

Talvez menos consistentemente divertida que as anteriores, esta quarta temporada ainda assim é suficientemente engraçada para justificar a própria existência – e, como experiência audiovisual, certamente representa mais um passo evolutivo importante na linguagem das produções em um universo que vem colocando o poder de montador cada vez mais nas mãos de sua plateia.

E, como apaixonado por esta Arte, não posso deixar de achar fascinante a oportunidade de observar este fenômeno em tempo real.

In the Flesh – Primeira Temporada

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 19 comentários

(Tentarei evitar spoilers gigantescos, mas não queiram comer meu cérebro caso algum importante acabe escapando.)

“Esta cidade nunca vai aceitar pessoas como nós. Nunca.”

“Sim, vai. Nós podemos fazê-los mudar.”

“Não, não faremos.”

Mantida por dois personagens em um dos episódios desta primeira e excelente temporada da série britânica In the Flesh, a conversa acima poderia perfeitamente ter sido protagonizada na vida real por alguma minoria costumeiramente vitimada pelo preconceito: homossexuais, negros ou ateus, entre outras. Que tenha sido mantida por dois zumbis (ou melhor, por dois pacientes da “Síndrome dos Parcialmente Falecidos”) é apenas uma evidência do que qualquer fã de obras protagonizadas por estas criaturas já sabe: desde A Noite dos Mortos-Vivos, de 67, os zumbis vêm funcionando como fortes metáforas de uma série de grupos sociais ou etnias. É o que os torna imortais e cheios de apelo como matéria-prima para a ficção.

Encontrando uma nova abordagem para um subgênero praticamente saturado, In the Flesh imagina um mundo no qual os humanos encontraram uma cura para o “zumbinismo”, o que cria um problema inédito: a necessidade de readaptar os ex-comedores de cérebro à sociedade. (E o que diferencia a série de obras como Fido Meu Namorado é um Zumbi é o fato de não usar a comédia como fio condutor, abordando a narrativa com seriedade absoluta.) Assim, passamos a acompanhar o jovem Kieran (Luke Newberry), que, depois de tratado, volta a morar com os pais em Roarton, um pequeno vilarejo que se tornou famoso por dar origem à primeira milícia dedicada a exterminar zumbis – e que ainda enxerga o retorno das criaturas ao lar como uma ameaça. Liderados pelo vigário Oddie (Kenneth Cranham) e pelo paramilitar Bill Macy (Steve Evets), os habitantes de Roarton representam um perigo constante às vítimas da Síndrome, o que se torna ainda mais complicado quando descobrimos que a irmã caçula de Kieran, Jem (Harriet Cains), se tornou uma das voluntárias mais eficazes da milícia.

O propósito de In the Flesh não é difícil de identificar: vistos como minoria agora oprimida e encarada como ameaça por uma maioria raivosa, os zumbis são avatares de qualquer grupo vitimado pelo preconceito – e para tornar as coisas ainda mais claras (e complicadas), não demora muito até percebermos que Kieran já era visto com intolerância antes mesmo de se tornar um morto-vivo. A razão? Seu interesse homossexual pelo melhor amigo Rick (David Walmsley).

Fotografado em tons constantes de cinza que conferem uma atmosfera nublada, triste e opressora ao universo da série, In the Flesh é habitada por personagens amargos e raivosos – e mesmo que aqui e ali os episódios apostem em rápidos momentos de alívio cômico (bastante eficazes, por sinal), o tom que permeia a série é de desesperança e dor. Sem receio de se entregar a cenas absolutamente agoniantes em sua crueldade (como aquela envolvendo um casal vizinho à família de Kieran), a produção parece piscar também de forma irreverente à sua “prima” norte-americana ao batizar o protagonista com o sobrenome Walker, numa referência à maneira com que os personagens de The Walking Dead tratam os zumbis, desumanizando-os completamente já que, lá, o foco reside nos conflitos entre os vivos.

Imaginando seu universo pós-apocalíptico com divertida atenção para os detalhes (como os panfletos protagonizados por zumbis sorridentes), a série é rica também em sua abordagem temática – e quando um paramilitar agarra uma “ex-zumbi” que se recusa a usar a maquiagem e as lentes que a tornam mais apresentável, sujando seu rosto com batom e agredindo-a, fica fácil perceber que o motivo de sua raiva não se encontra na natureza de morta-viva da garota, mas no fato de encará-la como uma ameaça por se comportar como uma mulher forte e independente. Neste sentido, o sujeito nada mais é do que um representante convincente de um tipo (infelizmente) comum de macho-alfa que sente a constante necessidade de diminuir as fêmeas ao seu redor a fim de certificar-se de sua masculinidade e dominância.

Mas é por jamais se esquecer de desenvolver com delicadeza seus arcos dramáticos que In the Flesh acaba realmente funcionando – e quando o gesto desesperado de um pai com as mãos estendidas subitamente se transforma em um abraço, percebemos como a relação entre aqueles personagens foi construída com eficiência ao longo de uma temporada que, mesmo resolvendo boa parte de suas tramas, certamente ainda deixa espaço aberto para que seus roteiristas desenvolvam novos temas e conflitos em novos episódios.

É surpreendente constatar como esta bela produção conseguiu encontrar calor humano em seus acinzentados zumbis.

Richard Dreyfuss em A Feiticeira

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê, Vídeos | 3 comentários

Aos 19 anos, em um de seus primeiros papéis:

 

House of Cards – Primeira Temporada

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 27 comentários

Há uma expressão em inglês cuja existência descobri há alguns dias e que descreve exatamente algo que ocorreu comigo nas últimas 24 horas: binge-watching. Trata-se, como é fácil deduzir pela tradução literal, de entregar-se a uma espécie de bebedeira ocular – no meu caso, da série House of Cards, cuja primeira temporada consumi praticamente sem interrupções. Treze episódios ou aproximadamente 11 horas de história.

Produzida pelo Netflix norte-americano (mas disponível no brasileiro), a série teve seus dois primeiros episódios dirigidos por ninguém menos do que David Fincher, que, fiel a colaboradores antigos, escalou atores como Robin Wright, Kate Mara e Mahershala Ali como coadjuvantes de seu também parceiro (em Se7en) Kevin Spacey. Adaptada de um livro que também originou uma produção britânica, House of Cards gira em torno do congressista Francis Underwood, que, depois de ajudar na eleição do presidente democrata Garrett Walker, está certo de que será nomeado para o posto de Secretário de Estado. Quando isto não acontece, ele dá início a um longo e elaborado plano que o levará a ocupar um cargo ainda mais ambicioso, mesmo que para isto precise destruir postos de trabalho e vidas no processo.

Vivido por Spacey com o cinismo e a frieza que se tornaram marcas registradas do ator ao longo dos anos (e também com uma notável segurança acerca da própria inteligência), Underwood é o tipo de personagem que o Cinema norte-americano adorava abraçar entre os finais das décadas de 60 e 70, mas que se tornaram cada vez mais raros a partir dos escapistas anos 80: um protagonista que ultrapassa a definição de anti-herói e flerta com a pura vilania.

E como é bom torcer para um vilão do calibre de Francis Underwood, que parece estar sempre dois ou três passos à frente de seus adversários – e nos raros momentos em que ele tropeça, é igualmente satisfatório vê-lo arquitetando saídas de urgência.

Ambientada nos bastidores do poder em Washington, House of Cards salta das salas imponentes do congresso e da Casa Branca para as noites escuras e becos da cidade com fluidez – e, ao longo dos 13 episódios, passamos quase a mesma quantidade de tempo nos dois ambientes. Além disso, as alianças sempre móveis formadas entre os personagens deixam o espectador sempre inseguro sobre o que acontecerá no episódio seguinte: aqui, o problemático congressista Peter Russo (Corey Stoll, que vive o arco dramático mais intenso da temporada) surge como um sujeito incapacitado pelas drogas e pelo álcool apenas para, dois ou três episódios depois, mostrar-se decidido a recolocar a vida nos eixos. O que, claro, pode desmoronar no minuto seguinte apesar ou por causa de sua aliança com Underwood.

Enquanto isso, Robin Wright, como a esposa do protagonista, compõe uma mulher multifacetada que traz características de uma autêntica Lady Macbeth associadas a outras infinitamente mais nobres que lhe conferem uma inesperada vulnerabilidade à medida que a trama se desenvolve. Da mesma maneira, Kate Mara percorre uma trajetória convincente de repórter inexperiente e faminta à posição de jornalista competente e cínica.

Há, claro, momentos pontuais nos quais a série parece apenas tentar preencher os 49 minutos habituais de cada episódio – e aquele que se passa num fim de semana no qual Francis será homenageado é particularmente frágil -, mas, de modo geral, House of Cards mantém a trama sempre em movimento e cada vez mais complexa. Além disso, a estrutura narrativa, que permite a quebra constante da quarta parede para que Underwood explique sua visão de mundo para o espectador, acaba funcionando melhor do que o esperado (especialmente quando, em certo instante, ele sugere estar conversando com “a plateia errada”).

Não sei se haverá ou não uma segunda temporada, já que a primeira consegue se resolver bem mesmo deixando caminhos óbvios para o prosseguimento da história, mas eu adoraria poder continuar a acompanhar as implacáveis estratégias de Frank Underwood, este canalha admirável.

Breaking Bad S05E08

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 57 comentários

(Spoilers. Bleh.)

Pela secura do aviso de spoilers acima, que nem se preocupa em brincar com as falas icônicas de Breaking Bad, talvez você já tenha percebido o óbvio: este final de meia temporada foi profundamente decepcionante. Esquemático, implausível e artificial, conseguiu a proeza de, em pouco mais de 40 minutos, desfazer o arco dramático que a série vinha construindo há nada menos do que cinco anos.

Isto não foi um episódio; foi uma tentativa de assassinar Breaking Bad. Uma tentativa, temo, que não será facilmente contornada.

Estou sendo excessivamente dramático? Não creio. Em primeiro lugar, vale observar que este foi provavelmente o episódio menos fluido de toda a série, empurrando avanços bruscos na cronologia da trama sem se preocupar com sua plausibilidade. Se já era raríssimo ver a série investindo em elipses (basta dizer que, em cinco anos de produção, a trama havia avançado apenas 12 meses até então), neste episódio tivemos não apenas uma, mas duas passagens de tempo: vimos os negócios de Walter saltarem de distribuição local para internacional em questão de três meses, numa sequência de dois minutos (e mesmo as transições e os raccords elegantes não a tornaram menos incômoda), e, mais tarde, vimos Walter subitamente voltar à sua persona de Mr. Holland, adorável professor.

E este, para mim, foi o equívoco absolutamente imperdoável de Vince Gilligan. Ao longo de cinco anos, vimos Walter White se transformar num monstro – e neste episódio, quando Hank faz um desabafo, a falta de empatia do concunhado torna-se patente; ele parece desprezar a fraqueza do parente policial. Da mesma maneira, sua insistência em encontrar-se com Lydia usando a versão completa de sua persona Heisenberg é significativa. Walter já não era mais um vilão por necessidade, mas por opção – e a excepcional sequência que ocorre no primeiro ato deste episódio e traz a eliminação de todas as testemunhas representou, ao seu próprio modo, um paralelo com a eliminação dos inimigos da família Corleone ao fim de O Poderoso Chefão. Naquele instante, Walter tornou-se definitivamente Heisenberg.

Só que não.

Não, não, não. Aparentemente, Vince Gilligan quer que lamentemos a tragédia que eventualmente destruirá Walter em vez de lamentarmos a trajetória que o levou até ali. Quer que sintamos seu fim e esqueçamos que, na realidade, Walter White deixou de existir no momento em que produziu o primeiro grama de cristal.

E ver o protagonista de Breaking Bad subitamente voltar a sorrir e a conviver com a família num ambiente repleto de luz e cores alegres (nem mesmo o roxo tradicional de Marie teve permissão de entrar na cena) foi algo… doloroso de se ver. Primeiro, porque traiu a construção do personagem ao longo, especialmente, das duas últimas temporadas; e segundo porque foi completamente inverossímil.

Mas não tão inverossímil, vale apontar, quanto os segundos finais – que não apenas representaram um dos incidentes mais tolos de toda a série, dependendo de uma coincidência absurda e até mesmo de um flashback (outro recurso raro na obra), como ainda sugeriram uma estupidez descomunal por parte de Walter ao não apenas manter consigo uma evidência de seu envolvimento com Gale, mas também por deixá-la em público. Walter White pode ter mil defeitos, mas a burrice não é um deles.

É triste constatar isso, mas Breaking Bad, que vinha se transformando num belíssimo e complexo edifício, hoje teve suas fundações implodidas por seus criadores. E temo ser difícil evitar que desmorone de vez em seus oito episódios finais.

Update: É possível que Walter tenha mentido para Skyler e que não tenha realmente deixado o mundo das drogas? Claro que sim. Não seria a primeira vez que ele faz isso; seria apenas a primeira vez em que fomos enganados ao lado da sra. White. Seria uma trapaça narrativa por alterar a maneira com que a série lidava com sua abordagem dos acontecimentos (sabemos o que Walter sabe), mas algo… perdoável. Menos  perdoável, no entanto, seria perceber que a mentira não teria sido apenas por parte de Walter, mas também dos realizadores, que empregam uma fotografia obviamente mais alegre, descartam cores tristes (Marie também está tentando nos enganar?) e tornam a abordagem mais leve como um todo na cena final na casa do protagonista. De um modo ou de outro, seria profundamente decepcionante.

Breaking Bad S05E07

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 28 comentários

(Spoilers, scumbag. It’s the universal symbol for spoilers.)

Foi bom conhecê-lo, Mike Ehrmantraut – e isto é uma surpresa quando constatamos que você era um assassino profissional, um homem capaz de eliminar um ser humano sem pensar duas vezes sobre o assunto, mesmo que se tratasse de uma mulher cuja filha encontrava-se no aposento ao lado (e se não a matou neste caso específico, foi por julgar que ela poderia ser uma vantagem estratégica e financeira). Sempre que você surgia em cena, podíamos esperar duas coisas: falas impactantes cujo humor ou dureza seriam aproveitados ao máximo graças ao timing de seu intérprete, Jonathan Banks, e um ar de perigo constante exalado sem qualquer tipo de exagero. Ao contrário, suas pálpebras caídas, a boca retorcida de desgosto ou cansaço constante e a voz grave poderiam pertencer a um velhinho inofensivo, mas de alguma maneira você transformava estes elementos em uma sentença de morte.

Ao longo de toda a sua brilhante participação em Breaking Bad, você enfrentou alguns obstáculos temerosos: participou de um tiroteio no deserto (encontrando tempo para salvar Jesse, que congelou em meio às balas), abriu caminho para seu chefe Fring e (novamente) para Jesse na mansão de um traficante poderoso, derrotou os agentes do DEA sem precisar erguer um braço, escapou de um assassino usando um brinquedo de criança para despistá-lo, conseguiu sustentar as famílias de seus antigos subalternos que se encontram na prisão e, de quebra, cuidou do futuro de sua neta. Quis o destino (e a mente cruel de Vince Gilligan), porém, que você fosse morto num ato covarde por um canalha orgulhoso que não aceita se ver diminuído por quem quer que seja.

E que esse canalha covarde seja o protagonista da série é apenas um detalhe.

Iniciando com uma sequência eficiente que já demonstra o controle que Walter exerce sobre seus sócios, quando surge praticamente usando-os como seu chofer particular e, segundos depois, como guarda-costas, o episódio ilustrou o orgulho crescente que o sujeito sente por seu alter-ego Heisenberg ao trazê-lo obrigando um perigoso bandido a reconhecer sua importância e dizer seu nome – e a maneira com que o roteirista/diretor Thomas Schnauz conduz a cena é impecável, fechando os quadros gradualmente em Walter até finalmente trazê-lo em primeiríssimo plano nos momentos finais, quando ele diz com arrogância ao ouvir seu “nome”: “You’re goddamn right!”.

A partir daí, o que temos é a insistência fracassada de Walter de manter Jesse sob seu domínio: atirando todo tipo de estratégia de manipulação em sua conversa com o rapaz, dos elogios falsos à agressividade gratuita, passando pela chantagem descarada, o químico denuncia sua dependência crescente do antigo parceiro, o que é curioso – afinal, Walter poderia treinar qualquer um para substituir Jesse (e, aliás, é o que acaba fazendo), e, portanto, sua necessidade de mantê-lo por perto não é profissional, mas puramente pessoal. Jesse é a única ligação que Walter ainda mantém com o passado e com sua quase extinta humanidade, representando também uma pequena plateia para seu poder crescente, já que não pode compartilhar a importância de “Heisenberg” com mais ninguém. Assim, ser abandonado pelo companheiro representa a solidão final que Walter vem tentando evitar desde o início da série e que agora surge inevitável.

No entanto, por mais que a trajetória do protagonista seja, claro, o centro de Breaking Bad, este penúltimo episódio antes do hiato de um ano que enfrentaremos a seguir serve principalmente como desfecho da participação marcante de Mike na série. Sentindo-se finalmente acuado depois de descobrir ter sido traído pelo advogado que usava para pagar as contas de seus ex-subalternos, o sujeito manifesta insegurança, confusão e desespero pela primeira vez desde que o conhecemos – e justamente por estarmos tão habituados a vê-lo sempre no controle da situação que sentimos o impacto de sua fragilidade subitamente revelada e percebemos a dor que o atravessa ao ter que abandonar a neta que tanto ama. Além disso, a decisão de enquadrá-lo encurralado por uma árvore é especialmente eficaz por ressaltar sua situação e como o mundo parece estar se fechando sobre ele (e se o quadro fechado em Walt, no início do episódio, expunha seu delírio de grandeza, aqui tem o efeito de aumentar a claustrofobia experimentada por Mike).

O que nos traz ao desfecho atordoante do episódio: depois de tentar forçar Mike a revelar os nomes daqueles que poderiam denunciá-lo, Walter novamente expõe seu orgulho ferido ao irritar-se por não receber um simples “obrigado” do outro – que, como se não bastasse, faz questão de apontá-lo como o responsável pelo situação na qual todos se encontram agora, já que não aceitou “permanecer em seu lugar” e deixar que Fring cuidasse de tudo (a sugestão é óbvia: Fring, sim, seria um líder nato; Walter é apenas uma marionete que insiste em tentar manipular desajeitadamente as próprias cordas). E é aqui que Thomas Schnauz toma sua melhor decisão como diretor ao enfocar os homens se afastando e o protagonista deixando o campo por alguns segundos, apenas para entregar-se ao próprio impulso destrutivo e à raiva a fim de eliminar o último homem que realmente temia, voltando a atravessar o quadro com decisão e ódio.

Pois esta é a triste verdade por trás da ação de Walter: depois de ter se encontrado várias vezes na mira da arma de Mike, que jamais demonstrou respeito ou receio diante dele, o antes acovardado professor parece agir mais com o impulso de provar-se do que por qualquer outra coisa. E não é à toa que, depois de disparar contra Mike, Walt exibe pela primeira vez em muito tempo a antiga expressão de medo que sempre mantinha no rosto: a partir dali se torna impossível, para ele, julgar-se um bom homem enfrentando circunstâncias extraordinárias; é, agora, um bandido tão impiedoso e cruel quanto Fring ou o Tuco cuja psicopatia o assustara tanto na primeira temporada.

Ao matar Mike a sangue frio, Walter White não pode justificar a ação alegando tratar-se de autodefesa – algo que, em maior ou menor grau, motivara todos os assassinatos que cometera até agora. Não, a morte de Mike foi fruto de seu orgulho, de sua maldade crescente e de sua necessidade de ser o macho alfa em seu próprio universo. Antes, ele fingia ser Heisenberg; agora, precisa sê-lo.

E se Walter caminhou da inocência à psicopatia absoluta, Mike de certa forma fez o percurso inverso: surgiu como um ser ameaçador que justificava o fato de ter que matar Jesse como questão de negócios, aprendendo a amar o rapaz e revelando, no processo, que só seria capaz de puxar o gatilho quando isto fosse absolutamente necessário. Mike Ehrmantraut não mataria um homem por impulso ou por orgulho – e é por isto que mereceu morrer em paz ao lado de um rio em um belo dia de sol ao passo que Walter White se aproxima cada vez mais de um fim deprimente, cinza e humilhante.

Breaking Bad S05E06

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 5 comentários

Infelizmente, esta semana não poderei me debruçar com o cuidado habitual sobre o episódio de Breaking Bad. Aponto apenas que foi um excelente momento da série, estabelecendo de forma crível os conflitos que levarão ao desfecho violento antecipado pelo flash-forward do início da temporada. Além disso, foi interessante ver Jesse interagindo com Skyler e perceber como Walter realmente não dá mais a mínima para as aparências ou para os sentimentos da esposa. É agora um homem mesquinho, cruel, vingativo, triste e… perigoso. Muito perigoso.

Ansioso pelo próximo domingo.

Breaking Bad S05E05

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 21 comentários

(Aqui tem spoilers, BI-ATCH!)

Walter White não pensa mais como um gênio da Química, como um homem da razão, mas como um traficante barato. Sim, se alguém apontar o caminho, ele retoma o pensamento lógico, mas seu impulso agora o leva constantemente à direção da violência. Neste quinto episódio da quinta temporada, ele inicialmente não só concorda em executar Lydia, mas eventualmente indica até mesmo estar disposto a matar dois homens inocentes a fim de concretizar o roubo do trem – e é preciso que Jesse, sempre compassivo, ofereça uma solução alternativa para que seu mentor aceite contornar o assassinato. Neste sentido, vale apontar que até mesmo o impiedoso Mike manifesta ressalvas com relação à morte dos maquinistas do trem, evidenciando não sua bondade, mas ao menos uma tendência a evitar a violência a menos que a julgue incontornável.

Não é à toa que Jesse, antigamente o drogado estúpido, imprevisível e imaturo, vem se tornando a bússola moral de Breaking Bad: defendendo Lydia e buscando alternativas que evitem um massacre, o rapaz tem sua posição como humano ainda decente (considerando, claro, o que isto significa no universo corrompido da série) ressaltada visualmente através da contraposição na posição das câmeras: se Walt e Mike são vistos a partir de ângulos inferiores, o que demonstra a ameaça que representam, Jesse surge na mesma altura da objetiva, estabelecendo-o como par do espectador.

Mas não é só: no momento em que Jesse tem a ideia do roubo, o diretor George Mastras (estreante na função) aposta numa mise-en-scène que cria uma rima visual elegante com o primeiro episódio desta temporada, quando o rapaz sugeriu, em outro arroubo criativo, que usassem um imã gigante para destruir as imagens no laptop de Gus Fring – e mesmo que Mastras exagere aqui e ali em sua decupagem, criando planos que parecem apenas querer demonstrar que o episódio tem um diretor (algo raro em Breaking Bad e que aqui acontece na sequência inicial, do garoto na moto, e também na câmera na mão que acompanha o trio medindo os trilhos), ele acerta brilhantemente ao trazer Jesse iluminado em meio aos perigosos Walter e Mike, que se encontram apropriadamente mergulhados em sombras.

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O roubo do trem, aliás, é conduzido com segurança pelo diretor em uma longa e tensa sequência que, claro, traz os obstáculos habituais de última hora, sendo uma referência bacana o fato de Hank convidar Jr. para assistir a Fogo Contra Fogo justamente no episódio que traz um “assalto” planejado com tamanha audácia.

E já que mencionei Hank, a temporada parece oferecer um leve indício de tragédias futuras ao trazê-lo manifestando um claro desejo de ficar definitivamente com a sobrinha – o que poderia se concretizar no caso de uma infelicidade que levasse os pais do bebê. Além disso, o detalhe de finalmente parecer notar os gastos excessivos do concunhado sugere um caminho provável rumo à descoberta da faceta criminosa de Walter – e o fato de ambos se encontrarem em lados opostos da Lei é ilustrado pela direção de arte, que traz os dois homens separados por uma mesa sobre a qual se encontra um monitor que exibe aquilo que os distancia: um distintivo representando a autoridade de Hank.

Esta cena, vale apontar, indica a sociopatia e o calculismo crescentes de Walter, que não apenas usa sua relação com Skyler e com Hank para manipular este último (sabendo que este se afastará momentaneamente ao ficar diante de uma situação embaraçosa) como ainda simula um sofrimento que pode até ter algum fundo de verdade, mas que é evocado com intenções puramente criminosas. Neste aspecto, é importante notar como as cenas que se passam na residência dos White agora parecem constantemente tomadas pela escuridão, não trazendo qualquer indício de felicidade num lar que antes surgia iluminado e alegre – e basta comparar o que vemos neste episódio com a fotografia do piloto para constatarmos a transformação daquele ambiente.


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É sintomático, também, que a pergunta de Skyler sobre Walter estar “enterrando corpos” acabe se revelando premonitória, indicando que a mulher está certa ao prever um fim desastroso e trágico para sua família – isto para não ignorarmos o fato de que mais uma vez White quase compromete sua própria segurança e a de seus comparsas em função da ganância,  levando de forma indireta à morte do garoto (houvesse ele atendido aos apelos de Mike e encerrado o roubo antes, teriam concluído tudo sem que o menino testemunhasse o desfecho da ação).

E é esta morte, afinal, que provavelmente conduzirá a um arco importante e determinante na série ao impactar Jesse o bastante a ponto de enfim levá-lo a perceber que o Mr. White que tanto respeita já não é mais o mesmo homem de antes (e não é à toa que o figurino do garoto morto, amarelo, remete às roupas usadas pelo próprio Jesse durante tanto tempo em Breaking Bad). Neste sentido, é bastante possível que o rapaz acabe refletindo a imagem final deste episódio ao perceber que suas tentativas de conter a natureza cruel do mentor (a tarântula no vidro) resultará apenas em sua própria destruição.

A menos que faça algo a respeito.

Breaking Bad S05E04

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 24 comentários

(DINGDINGDINGDINGSPOILERSPOILERSPOILERDINGDINGDING)

Walter White é um canalha. Um bandido. Em algum momento nos últimos doze meses, ele foi de herói a anti-herói a vilão. Antes pai amoroso e marido dedicado, sua cordialidade familiar agora vem acompanhada de uma atmosfera de falsidade inquestionável: quando ri e brinca com o filho, parece estar apenas se entregando a um simulacro do antigo Walt – e sua relação com Skyler já não é mais de companheiro, mas carcereiro. Assim, não é surpresa que desde o segundo episódio desta quinta temporada White seja frequentemente enfocado no mesmo quadro no qual a esposa se encontra, mas com o rosto fora de campo, ressaltando, assim, a ameaça que representa para esta (tememos mais o que não vemos).

Não há, aliás, mais qualquer sinal de carinho entre ambos – e mesmo as tentativas de Walter (e inclino-me a chamá-lo assim em vez de “Walt”, já que não o considero digno de um apelido carinhoso) de parecer gentil surgem como elementos estudados, como se ele se preocupasse mais com as aparências de um casamento amoroso do que com o sentimento real. Até o episódio deste domingo, vale apontar, ele jamais havia se permitido agir como Heisenberg ao lidar com a esposa. Sim, ele mostrara sua faceta perigosa, mas deixando claro que representava uma ameaça aos outros, não a ela – mas basta acompanhar a mise-en-scène criada para acompanhar a discussão do casal no quarto para perceber que ela agora é também vítima da persona maligna do marido: tentando  desesperadamente pensar em uma saída, Skyler caminha pelo quarto apenas para ser continuamente encurralada, física e intelectualmente, até cair na cama enquanto a figura imponente e cruel do antigo companheiro se projeta sobre ela, levando-a a uma expressão de absoluto terror. E se ao comentar o episódio s05e02 lembrei-me do instante em que Kay dissera a Michael Corleone que tinha “pavor” deste, a interação ocorrida neste quarto episódio me lembrou de um momento de O Poderoso Chefão Parte 2: aquele no qual a esposa de Michael diz que este se tornou “seu horror”, anunciando a seguir que iria tirar seus filhos de seu convívio (e a resposta do filho de Don Vito é basicamente a mesma que Walter oferece aqui: “Você acha que eu permitiria isso?”). Desta maneira, é fácil compreender seu mergulho na piscina, que não só é uma estratégia para obrigar Marie a levar os sobrinhos para casa, mas também um gesto simbólico que remete a uma patética e desesperada tentativa de purificação.

Não é à toa que, logo no início do episódio, Walter surge com Jr. buscando o antigo carro na oficina, já tão maltratado ao longo da série, e decide se livrar do veículo, sendo sintomático que o responsável pelo conserto aponte a dificuldade em repintá-lo com a cor original: o verde que marcava os figurinos do protagonista no início de Breaking Bad, antes que se entregasse de vez à profissão de fabricante de drogas. Ao livrar-se do carro, Walt está abandonando conscientemente qualquer traço de sua antiga personalidade – e do ponto de vista psicológico, é fascinante que antes de abrir mão do automóvel ele busque ali dentro (e de si) o que lhe interessa: o chapéu que o estabelece como Heisenberg, cujo caráter deformado é representado por seu reflexo distorcido no espelho retrovisor.

Aliás, o talento de Breaking Bad para representar graficamente o estado de espírito de seus personagens, descartando diálogos expositivos, é algo encantador: além do reflexo de Heisenberg, o episódio evoca a confusão mental de Lydia apenas ao mostrar que calçou sapatos errados (algo que também servirá de pista a Hank) e também expõe o nervosismo crescente de Skyler através de um rápido plano-detalhe do fio dental que corta a circulação de seus dedos. Além disso, ao preparar o bacon no prato do marido, na manhã de seu aniversário (e confirmando, com isso, o tempo decorrido deste o início da série – algo que eu já havia apontado semana passada), a pobre mulher atira o “1” de qualquer forma, criando um desequilíbrio no algarismo que reflete a instabilidade da vida que agora levam.

Não que esta instabilidade possa deter o mergulho de Walter: cada vez mais cego pelo poder, ele agora se presenteia com carros caros (ignorando a discrição que tentava manter no passado), busca se convencer de que Skyler voltará a enxergá-lo com bons olhos e se entrega a uma arrogância que certamente lhe custará muito – e é curioso que em dois instantes deste episódio vejamos a figura de uma abelha (além do “B”, bee, no latão), já que, como estes insetos, que se condenam à morte ao ferroarem as vítimas, Walter aparentemente não percebe que sua agressividade provocará sua própria destruição.

Uma destruição – já antecipada pelo angustiante tique do relógio presenteado por Jesse – que será antecedida por um longo período de solidão cada vez maior.

Breaking Bad S05E03

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 12 comentários

(Spoilers will knock on your door.)

Até que demorou para que Breaking Bad incluísse uma cena de Scarface em um episódio, mas isso era inevitável – afinal, Walter White está muito próximo de se tornar o Tony Montana do Novo México. O bacana, no entanto, é que em vez de funcionar como um reflexo da transformação do protagonista, a cena em questão foi usada por Vince Gilligan como um choque de realidade para Skyler, que enxergou, ali, a destruição inevitável que o marido certamente trará para a família – e a belíssima transição entre esta sequência e a cena seguinte, feita através de um raccord sonoro que funde a metralhadora de Montana e a máquina de contar dinheiro, serviu não só como recurso de montagem, mas também como ligação temática entre o possível futuro trágico de Walt e sua causa (a ganância e o orgulho).

Os efeitos da ameaça representada por Walt, aliás, vêm se tornando o centro absoluto do arco dramático envolvendo sua esposa, que aqui finalmente tem a crise nervosa na qual já deveria ter mergulhado há meses. Ao contrário do homem devotado à esposa e sensível diante de suas necessidades que foi no passado, porém, Walt se mostra aqui cada vez mais entregue ao egoísmo de suas próprias ambições, escorregando numa sociopatia crescente e negando até mesmo assumir responsabilidades fictícias sobre o sofrimento de Skyler: ora, se teria sido muito fácil (e compreensível) explicar para Marie que havia voltado a “jogar” (uma desculpa que a cunhada praticamente já havia jogado em seu colo), Walt acaba optando por responsabilizar a esposa pela própria crise nervosa, expondo-a de forma imperdoável ao atribuir tudo ao caso que ela tivera com Ted. Como se não bastasse, ao ver-se sozinho em casa, o sujeito não apenas nem tenta consolar Skyler (e a imagem do ex-professor parado no início do corredor o torna mais ameaçador do que qualquer coisa), ele friamente opta por comer uma maçã descompromissadamente.

Cada vez mais convencido do próprio papel como novo chefão das drogas, Walter White vem se estabelecendo como vilão de sua própria história, já que, na maior parte das vezes, revela ser o maior inimigo de si mesmo graças ao orgulho que o cega para os efeitos destrutivos que provoca nos demais – e sua megalomania já vinha dando indícios desde o primeiro episódio desta quinta temporada, aqui ela se mostra com força total quando ele descarta a necessidade de um voto democrático para decidir os rumos da operação, quando afirma para Saul que “lidará” com Mike (subestimando o mais perigoso de seus “aliados”) ou simplesmente através da mise-en-scène da cena no escritório do advogado, quando é o único a surgir sentado, numa postura clara de liderança.

A frieza crescente de Walt, diga-se de passagem, é ilustrada também no breve e revelador encontro que tem com o garoto Brock, que envenenou na temporada passada a fim de manipular Jesse – e seu desconforto diante da criança, que poderia denotar até certo arrependimento (e é possível que haja um resquício disso em seu olhar), sugere mais uma avaliação culpada sobre o que a criança sabe, o que o levará, mais tarde, a novamente sondar Pinkman sobre o quão “honesto” este pretende ser com a nova namorada (uma preocupação que ele disfarça como interesse sobre a felicidade familiar do rapaz.

Movendo a trama da temporada final para a frente ao plantar as sementes de futuros conflitos entre Walt e Mike (“Só porque você matou Jesse James não quer dizer que se tornou Jesse James”, diz o segundo ao primeiro), este episódio ainda esclareceu a cronologia da temporada e da própria série, que começou com o aniversário de 50 anos de Walter e promete terminar quando este estiver completando 52 – o que coloca os acontecimentos derradeiros de Breaking Bad a um ano de distância, já que Marie insiste com a irmã para que celebrem o 51o. aniversário do cunhado.

E a julgar pela rapidez com que Walter vem caminhando para se transformar no sociopata de Scarface, este será um período de tempo mais do que suficiente para destruir tudo e todos ao seu redor.