Séries de tevê

Dexter – Sexta temporada

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 34 comentários

(Spoilers ahead. Depois não fiquem bravos e venham dar uma de serial killer pra cima de mim.)

Durante quatro temporadas, fui um fã incondicional da série Dexter, que mesmo tropeçando em seu regular segundo ano, mais do que compensou nos excepcionais terceiro e – especialmente – quarto. Assim, depois de uma temporada absolutamente espetacular envolvendo o Trinity Killer vivido por John Lithgow e que contou com um desfecho impactante e irretocável, foi uma verdadeira decepção perceber como a entrada dos responsáveis pela fraquíssima 24 Horas conseguiram levar sua falta de talento para Dexter, praticamente destruindo-a na quinta temporada, que, de tão horrorosa, quase conseguiu me levar a desistir de acompanhá-la.

O que nos traz a esta sexta temporada.

Claro que seria impossível que se revelasse pior do que a quinta, mas a pergunta é: ao menos melhorou? A resposta, agora que vi metade do arco criado para o sexto ano, é: sim, definitivamente.

Ainda que a dupla de criminosos encarnada por Edward James Olmos e Colin Hanks nem se compare a criações como aquelas de John Lithgow ou Jimmy Smits, é suficientemente interessante para justificar a inclusão de aspectos religiosos na jornada de Dexter – e mesmo que várias das passagens envolvendo Fé e Razão tenham sido excessivamente simplistas, funcionam como mais uma faceta na eterna busca do personagem-título por algum tipo de redenção. Além disso, os crimes cometidos pela dupla estão entre os mais imaginativos da série – e a cena envolvendo a garota com asas de anjo talvez represente a morte mais marcante que Dexter já produziu. 

E mais: embora a promoção de Debra tenha soado absurda no início, acabou servindo de bom ponto de partida para um eficiente arco envolvendo a ótima personagem em sua adaptação à função e à ideia de ver-se isolada dos amigos, finalmente deslocando LaGuerta de forma definitiva ao papel que sempre exerceu: o de antagonista.

Mas o melhor da sexta temporada é perceber que Dexter retornou à sua essência, que foi terrivelmente deturpada no ano passado em sua historinha patética com Lumen – algo que pudemos constatar no sexto episódio, que o vê tentado a perdoar um criminoso apenas para perder o controle e matá-lo num impulso. 

Assim, mesmo longe do brilhantismo da quarta temporada, esta sexta vem representando uma volta aos bons tempos de uma série excepcional.

3%

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê, Vídeos | 11 comentários

Seguindo recomendação do leitor (e colaborador da Carta Capital) Antônio Luiz M.C. Costa, assisti ao episódio piloto da série 3% disponibilizado no YouTube pelos realizadores e que gira em torno de uma sociedade futurista dividida em dois lados: o “De Cá” e o “De Lá”. Enquanto o primeiro é miserável e atrasado, o segundo supostamente é avançado e luxuoso – e, assim, é com antecipação que os jovens “De Cá” entram num processo anual de seleção que permite a migração de alguns poucos sortudos (os 3% do título).  A idéia de colocar este primeiro episódio na Internet é a de que um eventual interesse despertado por ele junto ao público atraia a atenção de alguma emissora, viabilizando de vez o projeto

Eu ficaria feliz caso isto acontecesse, já que este primeiro esforço me pareceu bastante promissor.

Sugerindo com eficiência  a ampla escala do universo distópico e futurista previsto pelo roteiro, estes primeiros 25 minutos convencem a partir de um design de produção econômico e inteligente que, com suas cores impessoais e paleta opressiva, sugere um mundo hostil e impiedoso. Além disso, a montagem tensa e a boa direção, que nos mantém próximos dos personagens, levam o espectador a temer pelo destino daquelas pessoas e a experimentar a angústia que sentem diante do processo. Ainda assim, seria importante que víssemos um pouco do universo ao qual pertencem para que entendêssemos melhor por que se submetem aos abusos dos “entrevistadores” – e, da mesma maneira, é triste constatar um tropeço tão básico quanto no instante em que o resultado de uma prova (a dos cubos) é antecipado por uma personagem quando seria muito mais eficaz mantê-lo em suspenso por mais alguns segundos, revelando-o apenas com a imagem da estrutura montada por um dos competidores. Para finalizar, o conceito por trás da narradora é interessante, mas funcionaria melhor caso ela… permanecesse mais tempo em tela.

Mas estes são problemas menores. De modo geral, 3% é intrigante e bem realizado. Se funcionaria como uma série com mais de seis ou sete episódios, não sei dizer. Novos personagens certamente teriam que ser introduzidos e o universo teria que ser expandido para que a premissa funcionasse melhor.

Mas fiquei curioso. E, assim, ajudo aqui em sua divulgação. (Para assistir ao restante do episódio clique no “Leia mais” localizado abaixo do vídeo.)

[more]

Dexter – Quinta Temporada – Final

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 56 comentários

(Spoiler alert! Spoiler alert! Spoiler alert!)

A pior temporada de Dexter chegou ao fim. E terminou medíocre como o prometido. Na realidade, ainda pior: se comparado ao brutal episódio final da temporada passada, o desfecho desta quinta se revela ainda mais covarde e artificial, resumindo tudo o que há de errado com a abordagem dos novos responsáveis pela série, que, vindos da extremamente irregular 24 Horas, imediatamente destroçaram tudo o que Dexter havia construído anteriormente.

Dominada por um vilão ridículo, por subtramas patéticas e por tentativas infantis e atrapalhadas de fazer humor, os últimos 12 episódios foram, em sua maioria, pavorosos: Lumen jamais conseguiu se estabelecer como uma figura realmente interessante ou intrigante; os esforços de Dexter em manter a família unida (e de ser um bom pai) foram deixados de lado; e a babá que assume os cuidados de Harrison acabou, em retrospecto, ocupando um lugar muito mais importante do que deveria (por que, por exemplo, os roteiristas perderam tanto tempo em apresentá-la, chegando até mesmo a fazê-la se demitir e obrigando o personagem-título a convencê-la a permanecer?). Além disso, o que dizer de toda a subtrama envolvendo o personagem de Peter Weller, o policial Liddy, que ocupou um espaço imenso da temporada apenas para se encerrar de maneira ofensiva e implausível?

E já que estamos discutindo isso, o que dizer da babaquice envolvendo as suspeitas sobre Quinn – um elemento introduzido de última hora e de forma artificial apenas para permitir que Dexter, ao inocentá-lo, pudesse se livrar do incômodo representado pelo sujeito? Ora, quer dizer, então, que o departamento imediatamente passou a ignorar Quinn como suspeito apenas porque o sangue em seu sapato “não era” (piscadinhas) de Liddy? E os telefonemas feitos pelo outro? E a recusa de Quinn em dizer qualquer coisa, manifestando interesse até mesmo em consultar um advogado? Eles realmente tiraram o parceiro de Deb da lista de suspeitos apenas porque o sangue não batia? Ora, como o culpado obviamente não foi encontrado, seria natural que, no mínimo, Quinn permanecesse como um grande suspeito – algo que o tratamento dispensado a ele na festinha de Harrison, com sorrisos e abraços, claramente não indica ter ocorrido. E mais: Quinn obviamente sabe que seu amigo foi morto por Dexter, o que apenas reforça sua antiga idéia de que este matou Rita – e, assim, é ridículo que surja agindo com simpatia e afabilidade diante de um homem que matou ao menos duas pessoas.

Além disso, a resolução do envolvimento entre Dexter e Lumen soou tão inverossímil quanto o restante do relacionamento, empalidecendo, quanto à sua cretinice, apenas diante da inacreditável cena em que Deb conversa com os dois através de uma cortina, deixando-os escapar da cena do crime sem ao menos ver seus rostos e permitindo até mesmo que levassem o corpo de Jordan Chase – uma estratégia narrativa que, tenho certeza, os antigos responsáveis pela série certamente jogariam no lixo assim que fosse sugerida por algum roteirista.

(Para que não digam que não gostei de nada desta temporada, digo que há um momento, neste episódio final, que se encontra entre os melhores da série: aquele em que Dexter olha para seu reflexo distorcido em um prato e atira o objeto longe, enojado.)

O melhor, em resumo, é ignorar que esta quinta temporada tenha existido. E torcer desesperadamente para que a sexta faça jus às anteriores (com exceção, claro, da quinta e da terceira segunda).

Mas considerando que os imbecis por trás de 24 Horas continuarão no comando, não me atrevo a ficar otimista.

Aliás, pelo crime que cometeram contra Dexter, eles mereciam despertar na mesa do personagem.

Dexter – Quinta Temporada

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 19 comentários

Em primeiro lugar, dois avisos: não pretendo comentar os episódios de Dexter individualmente. Talvez o faça em blocos ou só retorne a escrever sobre a série quando a temporada chegar ao fim. Além disso, assim como fazia com Lost, os posts terão spoilers – portanto, não leia caso ainda não tenha visto os quatro primeiros episódios desta temporada ou terminado de conferir a anterior.

Um elemento que acho fascinante no arco geral de Dexter reside na maneira com que cada temporada busca desenvolver o personagem em determinados sentidos a partir de histórias muito bem arquitetadas: a primeira temporada, além de servir para apresentar o personagem, lidou com sua aceitação da própria natureza e com a constatação de que nem mesmo a ligação genética garantiria sua comunhão com outro ser humano, já que foi obrigado a matar o irmão com quem talvez pudesse se identificar mais a fim de salvar a irmã adotiva que, mesmo não sendo biologicamente sua semelhante, havia se tornado importante para o protagonista. Já a segunda temporada viu Dexter solidificar sua relação com Rita e as crianças enquanto lidava com algo próximo da terapia ao freqüentar os Narcóticos Anônimos – naquele que, embora bom e eficiente, talvez seja o ano mais fraco da série. A temporada seguinte trouxe a intrigante relação do protagonista com o promotor Miguel Prado, que ofereceu a Dexter a chance de dividir sua sanha assassina com outro ser humano, enquanto o quarto ano envolveu a paternidade e o peso da realidade trazida por esta e, claro, a esperança do sujeito em aprender com Trinity como conciliar sua psicose e a família, o que trouxe resultados trágicos.

O que todas estas temporadas têm em comum? A procura constante de Dexter por algum tipo de relação que o permita se expor integralmente a outra pessoa e ser aceito por esta não apenas como a fachada Dexter-pai-irmão-marido-padrasto-profissional, mas como o Dexter-serial killer.

Este, acredito, é o grande tema de toda a série: a necessidade que todos temos, mesmo um psicopata, de estabelecer algum tipo de ligação com a humanidade.

Pois se Dexter já tentou disfarçar sua psicose como vício diante de Lila, procurou dividir seus crimes com Miguel Prado e posou de bom moço para Trinity a fim de “pesquisá-lo”, desta vez ele encontrou uma garota que, mesmo sabendo quem ele é (já que testemunhou um de seus crimes), talvez enxergue em suas ações algo de nobre. Enquanto isso, ele tenta lidar com a perda de Rita (o que vem rendendo a Michael C. Hall grandes momentos como ator) e a distância de Astor e Cody ao mesmo tempo em que se descobre preso ao papel de pai solteiro. As possibilidades de desenvolver o personagem em novas direções são imensas e espero sinceramente que os realizadores as explorem.

Infelizmente, porém, mais uma vez a necessidade de criar subtramas paralelas para os demais personagens acaba rendendo momentos não tão brilhantes: a ameaça representada pela corregedoria depois que Batista espanca um colega é algo que mais uma vez desperdiça um bom personagem (e um ótimo ator) em uma história aborrecida; o relacionamento entre Debra e Quinn soa forçado e as suspeitas deste último com relação ao personagem-título remetem a uma espécie de Doakes 2.0. Por outro lado, tenho a impressão de que a babá de Harrison irá desempenhar algum papel relevante e inesperado nesta temporada, o que, confesso, me deixa bastante curioso.

Com um quarto episódio que deu a impressão de ser apenas um “filler” (algo raríssimo em Dexter, já que cada episódio normalmente soa orgânico e fundamental), Dexter também pecou nesta última hora ao dar tropeços inéditos em momentos dramáticos terrivelmente inverossímeis: é difícil, por exemplo, aceitar que Dexter arrombe a porta do cativeiro de Lumen com tanta facilidade, já que a moça, presa ali por um bom tempo, certamente deve ter tentado fazer a mesma coisa sem sucesso. Além disso, a fuga do assassino perseguido por Deb foi ofensivamente implausível, assim como a facilidade com que Quinn localizou e abordou o filho de Trinity. A série não costumava errar assim.

Dito isso, mantenho grandes esperanças para esta quinta temporada e estou ansioso para acompanhar o desenvolvimento da relação entre Dexter e Lumen, que, espero, não se limitará a reproduzir a dinâmica que o protagonista estabeleceu com Lila, Miguel Prado e Trinity. A série merece manter o alto nível com o qual nos acostumou.

Arrotando em Velhinhos (ou Humor para Imbecis)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Séries de tevê | 87 comentários

Não assisto a Pânico na TV. Quando tentei ver alguns trechos do programa, há anos, percebi que não fazia meu estilo de humor, embora conseguisse entender por que tantas pessoas próximas a mim insistiam em elogiar o programa, já que, aqui e ali, consegui enxergar algo de novo ou mesmo de anárquico no projeto. Com o passar do tempo, porém, até estes meus amigos, observando a decadência do humorístico, foram abandonando o Vesgo e sua turma (sempre vi o Emilio Surita como um personagem secundário da empreitada, um apresentador de circo que, com sua cartola e falta de graça, é esquecido assim que sai do picadeiro). E, assim, tive o privilégio de, por um bom tempo, não ser obrigado nem mesmo a pensar no Pânico na TV ou a reconhecer sua existência.
 
Até ler esta notícia.
 
Em poucas palavras: uma integrante do programa compareceu a uma festa em homenagem à atriz Glória Pires e, percebendo que a veterana intérprete Laura Cardoso concedia graciosamente entrevista a todos que se aproximavam, tentou abordá-la com o único objetivo de… arrotar em seu rosto.
 
Há mais na história, mas aqui tenho que fazer uma pausa: então arrotar no rosto de uma senhora de 82 anos agora é humor? Mesmo?
 
Sempre fui a favor de uma boa peça (ou "prank", como chamam os norte-americanos) – desde que, claro, esta não invadisse o espaço pessoal da vítima. Quando o CQC começou, por exemplo, fiquei fascinado com a figura do "Repórter Inexperiente" de Danilo Gentilli, que, afinal, apenas criava uma situação de constrangimento a partir de sua aparente falta de traquejo profissional – e a reação dos entrevistados, por mais divertida ou embaraçada (e embaraçosa) que fosse, era fruto do contexto da entrevista, não de uma agressão por parte de Gentilli. (Com o tempo, Danilo também se rendeu às agressões, infelizmente, seguindo a decadência de todo o CQC.)
 
Mas o Pânico, por outro lado, sempre se notabilizou por não respeitar a privacidade alheia, desde o assédio à atriz Carolina Dieckman, quando foram diante de seu prédio chamá-la por megafone, até as perseguições a carros de "celebridades" (como detesto este termo!). No entanto, eu não sabia que a nova tentativa de "humor" do programa envolvia simplesmente a expulsão de gases pela boca (humor de banheiro mesmo) – e, pior, direcionando-os ao rosto de outra pessoa.
 
Isto não é humor, é pura grosseria. E ainda que o humor possa ser grosseiro, resumir a "piada" a isso é simplesmente estupidez.
 
A coisa fica pior, no entanto: se arrotar no rosto de qualquer pessoa já seria algo imperdoável, tentar fazê-lo diante de uma senhora de 82 anos que está buscando apenas ser gentil já ultrapassa a fronteira do abominável. Posso soar conservador, mas "respeitar os mais velhos" foi algo que aprendi ainda na infância – e jamais me ocorreria ser possível que alguém pudesse imaginar uma situação na qual arrotar propositalmente no rosto de um idoso diante das câmeras (nem acredito que acabei de escrever esta frase) fosse algo aceitável.
 
Mas tem mais: percebendo o que a "humorista" Vanessa Barzan (apropriadamente conhecida como Mulher Arroto, o que a torna a figura mais unsexy da TV mundial) iria basicamente agredir Laura Cardoso, os jornalistas presentes no evento alertaram a atriz, impedindo a aproximação da outra.
 
Que ameaçou chamar a polícia.
 
Deixem-me repetir isso: Vanessa Barzan ameaçou chamar a polícia por ter sido impedida de arrotar no rosto de uma senhora de 82 anos de idade.
 
Aparentemente, chegamos ao ponto em que uma criatura, apenas por aparecer em rede nacional, julga-se no direito de fazer o que bem entender, mesmo que isto implique em invadir o espaço alheio ou agredir (física, moral ou psicologicamente) um idoso. E esta postura se tornou tão aceita que, de acordo com a matéria acima linkada, "os jornalistas argumentaram que até entendiam o lado humorístico da atração, mas que
arrotar no rosto de uma senhora como Laura Cardoso nada mais é do que
uma falta de respeito".
 
Não, meus amigos: arrotar no rosto de qualquer pessoa é uma falta de respeito. Que Cardoso tenha 82 anos apenas transformou este fato em algo muito além do repugnante.
 
E o pior: se você assiste ao Pânico na TV, dando audiência e respaldo ao programa, é desde já cúmplice deste tipo de atitude. Querendo ou não.

Arco narrativo por Os Sopranos

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Curso, Séries de tevê | 29 comentários

Diálogo extraído* do episódio "The Legend of Tennessee Moltisanti" (oitavo da primeira temporada), quando Chris (Michael Imperioli), frustrado com sua vida e tentando escrever um roteiro para cinema, discute o assunto com Paulie (Tony Sirico):

CHRIS
Você já teve a sensação de que nada de bom jamais
vai acontecer com você?

PAULIE
Sim. E nada aconteceu. E daí? Estou vivo. Sobrevivendo.

CHRIS
Exato. Eu não quero apenas sobreviver. Nos manuais de roteiro,
dizem que todo personagem tem um arco. Entendeu?

Paulie acena negativamente com a cabeça.

CHRIS (cont'd)
Tipo todo mundo começa em algum lugar e aí fazem alguma coisa
ou algo acontece com eles e muda suas vidas.
Isso é o arco deles. Cadê o meu arco?

Paulie continua a demonstrar não compreender o raciocínio de Chris.

CHRIS (cont'd)
Pegue Richard Kimble (de O Fugitivo), certo?
Não, não é um bom exemplo.  Seu arco é correr, correr,
pular na represa… correr.
Hum… (pausa)
Keanu Reeves, O Advogado do Diabo! Você viu esse filme?

PAULIE
Al.

CHRIS
Certo. Keanu é um advogado. Ele se deixa afetar pelo dinheiro,
pelo poder e pelo diabo. Então sua esposa diz pra ele:
"Você não é o homem com o qual me casei" e o abandona.
Viu o arco? Ele começa aqui e termina ali.
Cadê o meu arco, Paulie?

PAULIE
Garoto… Richard Kimble, o diabo-sei-lá-o-quê…
eles são faz-de-conta. Ei, eu também não tenho arco.
Eu nasci, cresci, passei alguns anos no exército, alguns mais na cadeia e aqui estou.
Um meio mafioso. E daí?

Diálogos como este merecem todos os aplausos do mundo: são inteligentes, elegantes e usam a metalinguagem como forma de expressar algo importante sobre os personagens sem que, com isso, o espectador perceba algum tipo de exposição – algo fundamental, como explico em meu curso. Coisa linda.

* Tradução minha.

Fringe – Segunda Temporada

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 23 comentários

(I love the smell of spoilers in the morning!)

Não, ainda não sou fã de Fringe, mas estou muito perto de chegar lá. A segunda temporada, embora mais regular do que a primeira (com exceção do pavoroso episódio musical), trouxe até mesmo a surpresa de um bom trabalho de direção de Akiva Goldsman, um sujeito para o qual eu não enxergava mais esperanças. Expandindo com competência a dinâmica entre os personagens, os mais de vinte episódios conseguiram construir também um arco narrativo bem definido no que diz respeito à questão central da série – a guerra entre mundos paralelos -, apresentando os principais elementos de forma orgânica e explicando sua importância no momento certo.

Aliás, ao contrário de Lost, que me mantinha sempre tentando adivinhar, Fringe permitiu que eu percebesse as respostas de seus mistérios bem antes do que eu imaginava: já na primeira temporada eu percebera que Peter viera do mundo paralelo e também não demorei muito a concluir que Walternativo seria apresentado como o grande "vilão" (Sr. Secretário) e líder da ZFT – e assim que a agente Olivia acordou William Bell dizendo que usara a granada, concluí que ela substituiria a agente Dunham "original". No entanto, em vez de me desapontar com uma possível "previsibilidade" da série, senti-me grato ao perceber que seu desenvolvimento era apenas lógico – e o fato de antecipar certas revelações funcionavam mais como uma confirmação desta coerência da trama do que em desapontamento. (Em contrapartida, talvez um lado de mim que quer experimentar o choque da surpresa tenha impedido que eu virasse um verdadeiro fã da série, em vez de apenas um admirador contido.)

Mas o que mais tem me agradado em Fringe é a capacidade da produção de fazer jus aos bons autores da ficção científica – e uma característica fundamental neste sentido é a habilidade de desenvolver um conceito até os extremos lógicos de sua premissa, algo que eles fizeram particularmente bem no excepcional episódio White Tulip, que, lidando com viagens no tempo, apresentou uma trama não só instigante, mas dramaticamente eficiente. Apenas por este episódio já teria valido a pena acompanhar as duas temporadas de Fringe.

Enquanto isso, os personagens vêm se tornando cada vez mais complexos e interessantes: Peter (Joshua Jackson), por exemplo, aprendeu a apreciar o convívio com o pai e, mesmo chocado e desapontado ao descobrir ter sido seqüestrado por este, não deixa de valorizar o fato de Walter tê-lo salvado já duas vezes. Olivia, por sua vez, vem se permitindo ser mais sensível e menos distante, numa evolução lógica por deixar a traição de John Scott no passado. No entanto, é mesmo Walter quem continua a ser o grande destaque da série, já que, interpretado por John Noble com primor, exibe uma inteligência aguçada que muitas vezes é prejudicada por uma natureza quase infantil originada de seus traumas passados (a passagem pelo hospício, a morte da esposa, a perda da memória, a morte de Peter, etc). Além disso, é fascinante perceber que mesmo o "herói" incontestável da série (algo que Walter sem dúvida é) acabou sendo responsabilizado pela grande tragédia que originou a guerra entre os mundos, já que foi sua irresponsável aventura no universo alternativo que provocou toda a destruição ali vista.

Espero, sinceramente, que os realizadores consigam manter a trajetória ascendente de Fringe, já que mais uma temporada como esta e terei inevitavelmente que me render à condição de fã.

Fringe – Primeira Temporada

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 38 comentários

A imagem final da primeira temporada de Fringe é de tirar o fôlego – não apenas por suas implicações para a narrativa, mas por utilizar algo que se tornou um símbolo da história recente da humanidade com o objetivo de chocar em prol de uma ficção, do entretenimento. Esta decisão por parte dos realizadores é não apenas acertada, mas tremendamente corajosa, já que a Arte tem a prerrogativa de usar mesmo incidentes "intocáveis" para construir suas experiências – especialmente quando, como no caso de Fringe, este incidente é empregado de maneira orgânica e não apenas pelo prazer do choque barato.
 
Criada por J.J. Abrams (Lost) ao lado da dupla Roberto Orci e Alex Kurtzman (Star Trek – o Filme, mas também Transformers), Fringe cresce de maneira significativa ao longo de seus vinte primeiros episódios: se os dez primeiros se revelam particularmente irregulares, concentrando-se mais na fórmula "monstro da semana" do que em estabelecer um arco narrativo reconhecível, aos poucos a série vai encontrando seu rumo e conseguindo estabelecer os principais elementos de sua "mitologia" ao mesmo tempo em que desenvolve com eficiência a dinâmica entre os personagens. Neste sentido, aliás, vale destacar a coragem de estabelecer uma personagem feminina como protagonista de uma série de ação, o que, embora longe de ser inédito, ainda é suficientemente raro para merecer menção (e a atriz Anna Torv confere energia e determinação à agente Olivia Dunham, tornando-a crível e carismática, atributos fundamentais a uma heroína). Enquanto isso, Joshua Jackson cumpre bem a função de recurso expositivo, sendo usado principalmente para traduzir elementos importantes da história para o espectador, embora, aqui e ali, o excesso de piadinhas criadas para seu personagem comprometa sua atuação. Finalmente, John Noble, como Walter Bishop, se mostra inteligente o bastante para reconhecer o presente que lhe caiu em mãos: uma figura excêntrica que, combinando genialidade e um olhar quase infantil sobre o mundo que o cerca, acaba se convertendo no principal chamariz do projeto.
 
Contrapondo-se a Lost por jamais deixar muitas perguntas sem respostas (algo que não me incomodava naquela fabulosa série, como sabem), Fringe mantém sua trama principal em constante evolução – especialmente após a segunda metade da temporada -, conduzindo o espectador com segurança admirável até o ótimo episódio final que, como todo bom desfecho, amarra bem as pontas da história ao mesmo tempo em que desperta nossa curiosidade acerca do que virá a seguir.
 
E ainda que por enquanto não possa me declarar um fã de Fringe, admito ter ficado suficientemente intrigado a ponto de desejar iniciar imediatamente a segunda temporada – um impulso que, confesso, poucas séries conseguem me provocar.
 
4/5

Depoimento sobre Lost

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê, Videocast | 30 comentários

Depoimento que gravei para o evento "O fim de Lost e o nascimento de um ícone pop", que aconteceu hoje no Rio de Janeiro:

Lost – O Último Post

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 210 comentários

(Live together or spoil alone.)

Acabou.

Depois de seis instigantes anos, Lost chegou ao fim com um plano que remeteu diretamente à primeira imagem que nos apresentou à série – e se há algo que quem faz meu curso de Teoria, Linguagem e Crítica sabe, é que tenho um fraco terrível por rimas deste tipo. Com isso, Carlton Cuse e Damon Lindelof não apenas encerraram a jornada de maneira emocionalmente satisfatória, mas também extremamente elegante. 

O episódio final, aliás, foi repleto de rimas visuais e temáticas do tipo: o movimento de câmera que traz Locke e Jack olhando para o fundo da caverna é uma clara referência ao plano final da primeira temporada, quando a escotilha foi finalmente aberta, e o nascimento de Aaron foi praticamente uma reencenação de sua "primeira" chegada ao mundo – e cada instante de reconhecimento proporcionado pelos criadores era fruto de um arrepio não só pela coesão da estrutura, mas também pelo reconhecimento de que estávamos mesmo nos aproximando do fim.

"Estrutura", vale dizer, é algo pelo qual Lost será lembrado eternamente pelos interessados em audiovisual. Como já escrevi no passado, é raríssimo ver uma série que tem coragem não apenas de investir em novos arcos dramáticos, mas que, acima de tudo, não hesita em alterar a própria estrutura de sua narrativa praticamente a cada nova temporada. Se House se mantém preso ao "doente da semana" e 24 Horas é limitado pela abordagem em tempo real, Lost jamais hesitou em investir em novas formas de contar suas histórias: embora os flashbacks funcionassem magnificamente bem, logo fomos introduzidos ao conceito do flashforward – e eventualmente fomos atirados em uma série de saltos temporais até chegarmos à inicialmente estranha idéia do flashsideways, que nos apresentava a um universo "alternativo/paralelo" cuja natureza não conseguíamos compreender completamente.

Mas que, para crédito de Cuse e Lindelof, se revelou um conceito que serviu perfeitamente para amarrar as trajetórias dos personagens de uma maneira satisfatória e profundamente comovente – afinal, o que poderia ser mais definitivo do que a morte de todos e um reencontro motivado pelo fato de terem dividido uma passagem fundamental em suas vidas? Mas, mais do que isso, o flash-limbo (fui o primeiro a cunhar o termo, hein?) acabou surgindo como um conceito que muito empresta do espiritismo, já que alguns daqueles personagens parecem usar esta nova existência (reencarnação?) como uma oportunidade de crescimento ou, no mínimo, de pagar pelos erros cometidos anteriormente, justificando por que Ana-Lucia ainda "não está pronta" para acompanhar os demais ou por que Benjamin Linus opta por permanecer ali por mais algum tempo para continuar seu aprendizado, já que, sem dúvida alguma, era um dos que mais tinham contas a prestar. (Da mesma forma, não deixa de ser curioso que Fionnula Flanagan encarne a Sra. Hawking/Widmore na série, já que sua personagem acaba dividindo curiosas características com a governanta que encarnou em Os Outros. Mas divago.)

Ainda assim, é preciso reconhecer que muitos não se interessarão pela descoberta do flash-limbo ou pelas rimas visuais, querendo saber simplesmente se "todas as perguntas foram respondidas". Aqui faço duas considerações: 

1) Como já disse antes, Lost me cativou não pelas respostas, mas pelas perguntas e pelos personagens (mais sobre estes em um segundo). Os mistérios instigantes apresentados pela série despertaram, ao longo dos seis últimos anos, uma fonte de prazer em si mesmos; saber a origem das tatuagens de Jack, por exemplo, não era tão fascinante quanto o simples conceito de um cirurgião aparentemente tão recalcado que, de forma curiosa, trazia tantas marcas na pele. Assim, sou grato à série por criar indagações tão envolventes quanto os propósitos da Dharma, a presença de um urso polar numa ilha tropical e os números de Hurley – e se nem tudo foi respondido (e como poderia?), considero-me inteligente o bastante para compreender que as lacunas podem ser preenchidas com minhas próprias teorias e "viagens". O mundo real não oferece respostas a tudo (algo que Michael Haneke adora esfregar na cara de seus fãs) e, assim, é interessante que às vezes nos divorciemos de nosso comodismo de espectadores e percebamos que, por mais que exijamos respostas para tudo, nem sempre seremos atendidos – e mesmo que fôssemos, qual a diferença? Seria uma resposta tão arbitrária e maniqueísta quanto qualquer outra que pudéssemos imaginar sozinhos. Lembrem-se do casal brincando na praia ao fim de Desejo & Reparação e percebam que uma série de respostas atiradas no final seria algo tão artificial, falso, como aquela cena – embora certamente fosse despertar uma sensação de "satisfação" em boa parte do público. Portanto, agradeço aos realizadores por me tratarem com um pouco mais de respeito do que a maioria dos produtores que trazem seus personagens apagando a luz do cenário ao fim da série por saberem que resoluções do tipo, por mais infantis que sejam, evitam dores de cabeça e cobranças por parte de "fãs".

2) Quais respostas adicionais poderiam ser fornecidas? Sabemos o que é a ilha; sabemos o que representa; conhecemos os dois lados em conflito que motivaram a ida dos personagens para o local; descobrimos o que os números representavam e o que era a "lista de Jacob"; fomos informados sobre a origem do urso polar e da escotilha; compreendemos o que é a fumaça negra; como o Black Rock foi parar ali; quem é Richard e por que não envelhece; de onde vinham as "vozes" e os "fantasmas"; e por aí afora. E daí que não sabemos exatamente o que é a "luz"? Sua função é o que basta, não? Sim, a apresentação da "mãe" de Jacob e do Homem de Preto (Jacobina?) me frustrou justamente por perceber que os criadores estavam tentando utilizá-la como uma explicação artificial (vide parágrafo anterior), mas eventualmente eles ganharam meu respeito por não insistirem em apresentá-la como a "solução dos mistérios da ilha" – algo que eu temia que eles fizessem nos últimos episódios.

"Ah, mas o que era a Dharma?", podem questionar alguns. A Dharma era como os tripulantes do Oceanic 815; um grupo de pessoas que passou pela história da ilha. O mesmo vale para Widmore, Eloise, Richard, Ben, Desmond, etc. É realmente preciso saber mais do que isso? Será que precisamos saber também quem passou pela ilha entre a "posse" de Jacob e chegada de Richard? Ou quem veio depois que Hurley se tornou o novo Jacob?

Não podemos apenas aceitar que a ilha, protagonista da série, serviu de palco para muitos dramas pessoais e que tivemos, ao longo dos últimos seis anos, a oportunidade maravilhosa de acompanhar alguns destes?

Sim, porque Lost se tornou esta série tão memorável em função de seus personagens. Jack e sua racionalidade de homem da Ciência sempre querendo ajudar a todos; Sayid e sua culpa pelo passado de torturador; Sawyer e sua canalhice motivada por um terrível trauma de infância e por uma vida voltada ao desejo de vingança; Kate e sua força destrutiva inspirada por uma mãe ausente e um pai abusivo; Locke e sua determinação regada por sua Fé inabalável em algo maior. Personagens tridimensionais que cresceram diante de nossos olhos ao longo dos anos: vimos Jack se tornar um homem capaz de acreditar no desconhecido; Sayid descobriu sua própria humanidade; Sawyer permitiu-se estabelecer laços significativos com outras pessoas; e assim por diante.

Como negar a força dos personagens de Lost se, ao ver Sayid reencontrando (e reconhecendo) Shannon após quatro anos, fui movido às lágrimas pela felicidade do casal? Se os olhares de reconhecimento entre Claire e Charlie, Jin e Sun e Saywer e Juliet me deixaram tão feliz quanto os próprios envolvidos na cena?

Se ver Jack se entregando à morte no mesmo local no qual abriu os olhos, confuso e ferido, há seis anos, me fez sentir não só uma profunda tristeza por vê-lo finalmente partindo ao sacrificar-se pela ilha, mas também grato por ter testemunhado suas ações, conflitos, dúvidas e dores ao longo deste tempo?

E por mais que seja um cético na "vida real", confesso sem embaraço algum que ver todos aqueles indivíduos – não, mais! Aqueles meus amigos – se reencontrando no pós-vida, felizes por voltarem aos braços uns dos outros foi algo que me fez despedir de Lost com lágrimas, mas também com um imenso sorriso de agradecimento. Eu estava feliz por eles, mas também por mim, que tive a honra de conhecê-los e acompanhá-los por seis inesquecíveis e fantásticos anos.

Como foi bom ter sido fã de Lost.